Catarina de Bragança
Somerset House, 13 de Novembro de 1679
uando James e Charles apareceram de surpresa em Somerset
House, Catarina pressentiu que estavam perante uma nova crise. Acertara em cheio, pensou, quando o rei sugeriu que se chamasse o conde de Castelo Melhor ao pequeno escritório. Escusava de repetir duas vezes a mesma história, que já tinham por si um ar de déjà vu, justificou.
Vendo Nan com o seu filho a aproximar-se, Charles chamou-a:
- Lady Ann Montagu, venha aqui ouvir mais uma história de terror, mas tape-me os ouvidos a esse bebé, coitadinho.
Sentando-se no banco de madeira forrado com uma peça de petit-point bordada pela própria Catarina, começou:
- Como saberão, Oates pediu ao Parlamento para ser ouvido. Depois de quase um ano de acalmia, percebeu que cairia no esquecimento, com o consequente corte de prestígio e mordomias, se não produzisse mais um acto para a peça que escrevera e de que não abdica ser o actor principal.
- Mas o que disse desta vez essa víbora, e porque é que lhe dão o privilégio de o ouvir? - protestou Nan, esquecida de que estava perante o rei e o duque de York.
Charles riu, e James abriu um sorriso para aquela que seria sempre «a mais velha das Fanshawe» :
- Minha querida lady Ann, falta-lhes sempre em imaginação o que não lhes sobra em maldade! O que Oates tinha a dizer desta vez era muito semelhante à descrição do criminoso do ano passado...
- Outra vez um crime em Somerset House? - perguntou Catarina, incrédula.
O rei olhou-a de soslaio, cheio de pena: que mais teria de sofrer esta pobre mulher, que todos tinham tratado tão mal desde que há 17 anos desembarcara em Portsmouth?
Catarina devolveu-lhe o olhar, e os olhos faiscavam em desa io, como quem diz «tu não te atrevas a ter pena de mim». Charles tossiu, pediu ao criado que lhe trouxesse uma caneca de sidra quente e continuou:
- Sim, outro crime. Desta vez a rainha é acusada de ter estado aqui, neste mesmo escritório, em conversa com padres jesuítas, a tratar do meu envenenamento.
Catarina e Nan não contiveram uma gargalhada, mas os três homens mantiveram o sobrolho franzido. Catarina tomou nota, e em voz baixa perguntou:
- Pelas vossas caras percebo que houve quem acreditasse. Que eu conspirava para matar o meu marido, assim, directamente, como quem escolhe a ementa para o jantar?
- Exactamente. Segundo Oates, que alega ter estado cá em casa quando tudo aconteceu, ouviu uma voz de mulher que assegura ser a da rainha, a dizer: «Fico muito feliz por contribuir para a sua morte e para a propagação da fé católica romana.»
O silêncio instalara-se no escritório.
Foi a vez de James falar:
- Querida cunhada, não ique assim, são tudo disparates. O meu irmão Charles protestou imediatamente, o que fazia Oates em Somerset, de onde conhecia a voz da rainha, todas as perguntas que se impunham, e percebeu que, apesar da atrapalhação do bandalho, havia quem quisesse desesperadamente acreditar nele. Aí mudou de estratégia e pediu-lhe que indicasse a data em que tudo isso se teria passado, e aí soltou um grito garantindo que era impossível porque nesse dia estava com Sua Majestade nesta casa. Mas o raio do homem, uma cobra que escorrega entre os dedos, dizia que então era no dia seguinte e quanto mais a lito icava, mais insistia na outra data. O rei disse-lhe então, que tal como já izera com o seu «amigo criminoso», e teve muito impacto esta associação!, teria todo o gosto em acompanhá-lo a Somerset para que lhe dissesse como fora capaz de ouvir a tal conversa.
Catarina lançou um olhar de gratidão ao marido, e Castelo Melhor, no seu tom mais protocolar, questionou:
- Devemos então preparar-nos para nova visita?
O rei assentiu.
Nessa noite Catarina não dormiu. A imagem de Teodósio não lhe saía da cabeça. Como a ensinara a montar, a segurar uma espada, como estava sempre por perto, com um ar tão seguro que herdara da mãe. Como partira para a frente de batalha sem ordem dos pais, e lhe escrevera de lá a contar, excitado, como era acampar entre os militares. Se acreditasse na criada indiana que D. Pedro lhe enviara recentemente para a servir, acreditaria que Teodósio tinha agora reencarnado em Castelo Melhor, na ânsia de a defender. Já recebera várias cartas de Pedro, com quem se correspondia agora com alguma normalidade, decidida a pôr de lado os diferendos, mas o irmão mais novo nunca lhe daria a mesma sensação de segurança. Nunca, sabia-o, voltaria a con iar nele com a con iança cega e infantil que depositara no seu irmão mais velho.
Acreditava sinceramente que o casamento era um sacramento e que o Homem não pode separar o que Deus uniu, mas às vezes, na solidão da sua cama, pensava se não estaria a ser egoísta. Se não serviria Deus melhor, aceitando voltar para Portugal, e deixando que Charles voltasse a casar, tivesse um ilho, e a questão da sucessão se resolvesse sem estas guerrilhas. Mas não, não podia desejar tal coisa, Deus não poderia querer que deixasse o marido, que desse razão a todos estes velhacos que usavam o nome do Senhor em vão, para atrás dele esconder a sua sede de poder. Mas mesmo que o Altíssimo o desejasse, pensou, desta vez teria de lhe desobedecer: nunca deixaria o homem que amava profundamente e que se comprometera a servir e proteger. Não lhe dera um herdeiro, é certo, mas dava-lhe um amor incondicional, que não recebia de mais ninguém.
O rei acompanhou a «visita», como já o izera na vez anterior. Mas nesta incursão obrigara a que Titus Oates fosse acompanhado pelos nobres que sabia serem os apoiantes dos desaforos deste homem. Fechava aos olhos à morte de muitos inocentes, mas não podia permitir que se atrevessem a chegar tão perto de casa, que tivessem o desplante de suspeitar da rainha. Os dois parlamentares foram convidados a sentar-se no escritório da rainha, e Oates colocado onde dissera ter ouvido a conversa. Os deputados falaram e Oates não conseguiu sequer escutar o som das suas vozes.
- Meus senhores, não sei que mais provas precisam de que este homem é um mentiroso. Mente nas vossas barbas há mais de um ano e julgo que seria bom que se perguntassem porque teimam em acreditar nele -vociferou, de regresso ao Parlamento, o rei de Inglaterra.
Um murmúrio correu as bancadas e quando Titus Oates procurou falar para se justificar, pela primeira vez foi mandado calar.
À saída Charles deu as suas ordens: queria o homem em prisão domiciliária. Sendo que o domicílio, gracejou, «por fraqueza minha, continua a ser o meu próprio palácio!».
Castelo Melhor tinha estado presente na sessão parlamentar. Sentado na salinha da rainha, com uma chávena de chá na mão, contou-lhe tudo, porque com Catarina era assim, não valia a pena esconder-lhe nada. Nem poupá-la a coisa nenhuma. Aparentemente calma, pedia um relatório, e ia fazendo perguntas.
D. Luís contou-lhe. Contou-lhe que, encurralado, Oates começara a perder a cabeça. Recusava-se a que lhe retirassem o poder e a riqueza conquistados, e toda a estrutura que se criara à sua volta sabia que se ele caísse, também cairiam, e portanto ofereciam-lhe o seu apoio.
Apesar de todos os avisos do rei, a Câmara dos Comuns aceitara, de novo, o seu pedido para ser ouvido.
Vestido a rigor, as costas direitas e o queixo levantado, Oates entrara no Parlamento, encostara-se à barra e, num tom teatral, gritara histericamente:
«Eu, Titus Oates, acuso Catarina, rainha de Inglaterra, do crime de alta traição!»
Naquele momento o conde calara-se, olhando apreensivo para a rainha, que aprendera a colocar sobre o rosto uma verdadeira máscara de serenidade.
- Ao que é possível chegar-se - disse Catarina, e logo acrescentou:
- Suponho que o senhor conde não sente estas declarações como muito diferentes daquelas que ouviu ao meu irmão dom Pedro quando expulsou Afonso do trono e o escorraçou a si de Lisboa? - acrescentou como quem constata um facto.
O conde de Castelo Melhor corou. A verdade é que sentia que os povos não diferiam tanto como se queria fazer crer, embora, felizmente, os portugueses não recorressem à forca com a facilidade com que estes o pareciam fazer.
A rainha interrompeu-lhe os pensamentos:
- Dom Luís, não pode deixar a história icar por aí. Como reagiram àquele que se atreveu a acusar a rainha de Inglaterra de traição máxima? Propuseram o seu julgamento, não? - acrescentou, tentando ser irónica, mas com o medo a espreitar-lhe das palavras. O Corredor da Desesperada, a morte de Anne Boleyn, a morte do próprio sogro, que Charles relatava com os pormenores mais sórdidos, não podiam deixar de lhe lembrar que por aqui também as rainhas ficavam frequentemente sem cabeça.
Castelo Melhor encolheu os ombros, embaraçado:
- Os Comuns queriam que Sua Majestade fosse de facto levada a tribunal, mas os Lordes opuseram-se por maioria. Haja ainda uma réstia de bom senso - murmurou.
- E o rei?
- O rei já deve ter sido informado. Estava em Windsor, como sabe. Em breve nos entrará aí pela porta.
Houses of Parliament, 24 de janeiro de 1680
harles surgiu no Parlamento vestido como habitualmente, mas meia
hora depois, quando os deputados voltaram a olhar para o trono, viram Sua Majestade em traje de gala, a coroa imponente sobre os seus caracóis negros.
Muitos começaram a tremer. Tudo isto tinha ido longe de mais, diziam uns aos outros. E tinha. Charles anunciou a intenção de dissolver o Parlamento. Nesse mesmo dia.
Inglaterra passaria a ser governada exclusivamente pelo rei, declarou.
Apesar do seu gesto de força, a instabilidade continuava e Buckingham não desistia. Lord Monmouth, como bom protestante e ilho de rei, tinha de ser legitimado, dizia, e o povo nas ruas aclamava o rapaz, reforçando a tese do conselheiro do rei.
Quando entrou no escritório do rei em Whitehall, foi recebido por um protesto de Charles:
- Outra vez, George? Vens falar do mesmo? Mas desta vez tenho uma resposta definitiva para ti. Como te sabia teimoso como uma mula, preparei uma declaração que te incumbo de tornares pública.
Buckingham entusiasmou-se. Seria agora, inalmente, que Charles cedia? Talvez também ele estivesse descon iado de James, de que no meio de tanta acusação infundada houvesse alguma que não o fosse - a inal, tinha de recear o poder de Roma, manifestado em França, Espanha, Portugal, de onde recebia mensageiros todos os dias.
Aproximou-se do rei, e recebeu das suas mãos um papel escrito pelo próprio punho de Charles. Leu-o avidamente. Depois, deixou-o cair em cima da mesa, com os olhos vermelhos de fúria.
- Sua Alteza vai queimar esta declaração, não é verdade?
- Não, George, não vou. Quanto mais velho ico mais me convenço de que não vale a pena o esforço de procurar correr entre os pingos da chuva, porque ela acaba por nos molhar à mesma. Tens aí uma declaração minha, ordeno que a divulgues.
Buckingham suspirou. Como ia dizer aos seus aliados, que con iavam na sua estratégia, na sua proximidade com o rei, que Charles declarara, por escrito, e por sua honra, que nunca izera qualquer «contacto de casamento, nem fora casado com outra diferente da sua mulher, a rainha Catarina ainda viva»?
- «Catarina ainda viva», suspirou o duque.
O rei levantou-se e, aproximando-se dele, gritou furioso:
- Catarina viva, e por muitos anos!
Charles surgiu em Somerset House pouco depois do pequeno-almoço. A rainha assustou-se quando o viu:
- Aconteceu alguma coisa?
Charles beijou-a e sorriu-lhe, um sorriso triste e derrotado.
- Tive saudades - disse, usando a palavra em português, como a mulher lhe ensinara.
- Saudades? - disse a rainha, sorrindo. - De quem?
- De si, Sua Majestade. Concluí, depois de um passeio com os meus cães pelo jardim, que é a única pessoa que gosta de mim pelo que sou. Gosta de mim, Charles Stuart. Como Minette gostava.
Catarina passou por trás da cadeira onde o rei se tinha sentado e afagou-lhe os caracóis que já estavam brancos:
- O que deu ao meu rei para um acesso tão grande de introspecção? Não que não seja tudo verdade - acrescentou a rir.
Charles contou-lhe como chamara Jemmy. Contou-lhe, quase como se falasse sozinho, que o rapaz era bonito, sem dúvida nenhuma, mas o problema é que herdara a beleza do pai e a inteligência da mãe, inteligência que deixava muito a desejar. Catarina sorria.
Chamou Jemmy e depois? - perguntou, curiosa.
- Tentei explicar-lhe que não podia deixar que tudo o que lhe tinha dado, dinheiro, títulos, prestígio, lhe subisse à cabeça. Disse-lhe que tinha a responsabilidade de arrefecer ódios e não de os acicatar, e que achava insensato que se passeasse por Londres a cavalo como se fosse um rei ou um príncipe herdeiro. Lembrei-lhe o traço da bastardia no seu brasão e comuniquei-lhe o teor da minha declaração.
- Disse-lhe, portanto, que ele nunca iria ser rei?
Charles acenou que sim com a cabeça, e baixou os olhos para os padrões do tapete oriental que cobria o chão.
- Presumo que Jemmy não aceitou bem essa decisão?
- Gritou, insultou-me, acusou-me de o ter iludido, de estar a trair Inglaterra entregando-a a James, esquecido de que é seu tio e meu irmão. Tive de o mandar embora, Catarina - e dizendo estas últimas palavras escondeu a cara nas mãos e chorou.
- Mandá-lo embora, Charles? Para onde?
- Disse-lhe que não podia voltar a Whitehall e retirei-lhe todos os seus cargos.
- Fez o quê? - disse Catarina, dividida entre a admiração e o medo. A aliança entre Jemmy e Buckingham seria ainda maior.
- Sei o que está a pensar, mas era preciso cortar o mal pela raiz, sejam quais forem as consequências.
Catarina tinha de concordar.
- Talvez caia nele. Deve perceber que foi um privilegiado, que o pai o tratou como nenhum outro pai trata um ilho bastardo - disse, para o consolar.
Mas Charles estava plenamente consciente de que fora ele próprio que ajudara Jemmy a esquecer o pormenor da sua ilegitimidade.
Somerset House, 20 de Fevereiro de 1681
an entrou no quarto com pachos de água fria na mão. Não permitia
que mais ninguém tratasse da rainha, que sucumbira a febres e tosses. Já há muito que não se sentia bem, mas tudo se agravara agora com o frio do Inverno.
Havia dias em que parecia perder a consciência, e falava em português, chamava pela mãe, por Joana, e sempre, sempre, por Teodósio e frei Pedro.
Quando melhorava, insistia em que Nan saísse do quarto, zangada:
- Tanta inconsciência, Nan. Dois ilhos pequeninos para criar, não pode ficar doente.
Lady Suffolk, que mantinha o vigor apesar da idade, dava-lhe razão:
- Ann Montagu, a rainha tem toda a razão! Desapareça daqui, que há quem vele pela rainha.
Castelo Melhor fazia visitas frequentes. Agora que Nan era mãe, o motivo de conversa era mais seguro, falavam de crianças. Ao ver os ilhos da Fanshawe a brincar nos jardins que desaguavam no rio, D. Luís recordara mais vividamente os seus três pequeninos, Afonso («Em homenagem ao rei?», perguntou Nan, e o conde abanou que sim com a cabeça), Bernardo e Mariana, a mais pequenina que nascera poucos meses antes de deixar Portugal, e de que ia tendo notícias pelas cartas constantes e cheias de pormenores que Guiomar, a sua mulher, lhe enviava. Nan, enquanto contava os últimos disparates de Charles e Rupert, pensava como naqueles primeiros anos, em que tinham sido os melhores amigos, nunca soubera o nome da condessa de Castelo Melhor, da mesma forma que ela pouco ou nada se referira a D. Francisco. Sorriu. Teriam sempre alguma coisa de especial entre eles, nem que fosse a dedicação ilimitada a D. Catarina, mas estava feliz com o seu casamento com Francis e a maternidade preenchera-a totalmente. Acreditava que, entre ilhos e sobrinhos, ela e Meg tinham enchido os aposentos da rainha do riso de crianças, e que a rainha os aceitara como seus netos, como se tivesse saltado uma geração. E os miúdos adoravam a rainha, que lhes ensinava a atirar ao arco e lhes contava a história de Portugal. «Se tens um nome português, deves saber mais sobre o país de onde o teu nome vem», dissera a Catarina, que, além de ser a única rapariga do bando, se orgulhava de ter o nome da rainha de Inglaterra.
Mas hoje D. Luís e Nan encontraram-se na antecâmara preocupados:
- Talvez fosse melhor pedir ao rei que viesse ver dona Catarina. Passou a noite a delirar, e os médicos confessam que a situação é grave - disse Nan.
- Mando-lhe uma mensagem, esteja sossegada. Sei que está em Whitehall- e ambos franziram o sobrolho com a referência ao palácio onde Louise de Kérroualle e o seu ilho continuavam a reinar. Apesar de nos últimos anos ter revelado um imenso cuidado em proteger a rainha com a sua presença, Charles não perdera os seus hábitos e, para lá das paixões ocasionais, continuava iel à francesa, que se escapara para o país natal nos momentos mais críticos, e a Nell Gwyn, que vivia agora numa casa inanciada pela coroa, com os seus dois filhos.
Castelo Melhor acrescentou:
- Vou escrever igualmente para Portugal. O embaixador já deve ter feito chegar a notícia da doença da rainha, mas acho que o devo fazer também. Julgo que, apesar dos meus diferendos com dom Pedro, e do desgosto que me causa saber do rei preso no Paço de Sintra, sei que tem uma adoração por esta santa senhora. E não é para menos. Quando a conheci, eu era porteiro-mor, nomeado pela sua mãe, e confesso que além de todo o respeito que me merecia, não tinha por ela a admiração desmedida que tenho hoje...
Nan concordara:
- Poucas mulheres passariam pelo que ela passou mantendo a cabeça erguida, e, mais do que isso, sem deixarem que o coração amargurasse. Já viu como, além da sua paixão pelo rei, é sempre tão carinhosa connosco, nos trata como os ilhos que nunca teve? Teria sido uma mãe maravilhosa, mas Deus saberá o que faz...
Já há quinze dias que estava bem melhor, mas mantinha-se no calor do quarto, ou nos dias melhores passava para a sala, desde que previamente aquecida.
Ainda não tinha forças para pegar na caneta e escrever para Lisboa, mas agora que o médico garantia que aquilo de que sofria não era contagioso, pedira às suas queridas Fanshawe que lhe começassem a trazer os ilhos, um por cada dia, de forma que «as lições de História de Portugal não se interrompam». Francis, o mais velho de Meg, perguntara-lhe porque não podia sair para lhe ensinar antes o tiro ao arco, que preferia mil vezes a saber «coisas de antigamente», e Catarina rira às gargalhadas:
- Esta casa é tão grande que, se não melhorar, prometo-te que peço ao teu pai para instalar o alvo num dos salões que ninguém usa!
Para Nan, comentara:
- Se o abominável Oates não tivesse caído sozinho em descrédito, acho que o convocávamos para alvo.
E as duas tinham rido, divertidas: pelo menos, as ameaças constantes à rainha pareciam terminadas, embora o reino estivesse longe de estar calmo, como relatava Meg numa das suas frequentes visitas.
Nesse dia foi Ralph que lhe trouxe pessoalmente a carta. O seu trabalho de estribeiro-mor estava reduzido, agora que a rainha adoecera e praticamente não saía de casa desde o Natal, por isso vinha todos os dias até aos seus aposentos e fazia-lhe companhia.
Mas ao ver o selo da Casa Real portuguesa, deixou-a sozinha com a sua correspondência.
Pedro escrevia-lhe uma carta comovente em que lhe pedia que deixasse de lado a descon iança daquilo que ele «trazia nos olhos e na alma». Dizia-lhe que precisava de sentir que estava tudo bem entre eles, e prometia que o tempo havia de mostrar que sempre fora, e seria, o seu irmão dedicado. Bastava, escrevia, que visse a a lição que sentia ao sabê-la longe, ameaçada e doente. Como prova da sua lealdade, dava-lhe a notícia. Sabendo da devoção de Catarina à Virgem de Mourão, dera ordens de que no local da antiga ermida se construísse uma igreja com a dignidade de que a Santa da devoção da rainha sua irmã exigia. Os pedreiros já tinham começado as obras e esperava mandar pintar a igreja com frescos devotados ao tema da Virgem, para que, se um dia Deus lhe concedesse a felicidade de a ter de volta a Portugal, pudessem lá ir os dois em peregrinação.
Catarina sentiu que o dique se rompia - soluçou como uma criança, por todas as penas que não tinha chorado, por todas as desilusões que vivera, por tudo o que a mãe sonhara para ela e não se tinha concretizado, pelas saudades da sua terra, dos abraços de Carminho, do cheiro a laranja das ruas alentejanas. Fechando os olhos, cansada, mas como se a alma estivesse mais leve, deixou-se levar para aquele dia em que, tão pequenina, fora com a mãe à pequena ermida. Lembrava-se do chão frio nos seus pés descalços, de como apontara para o Menino, e a mãe a erguera para que O beijasse. Lembrava-se de Joana, que, sentindo-se posta de parte, entrara na capelinha a chorar, e de como Luísa lhes dissera que o seu coração chegava para as duas. Recordava-se do silêncio discreto, mas tão reconfortante, de frei Pedro, que protegia a duquesa e as meninas sem se fazer notar.
Com os olhos ainda encarnados, aproximou-se da sua secretária e pegou na pena. A primeira pessoa a que tinha de escrever era a frei Pedro, frei Pedro que fora capaz de retirar da ermida a Santa e enviá-la para Inglaterra, e que a voltara a colocar no lugar um ano depois, quando o marquês de Sande lhe izera o grato favor de discretamente encontrar maneira de devolver a imagem às mãos do frade.
Depois escreveria a Pedro. Fora inteligente e generoso o seu irmão, revelando que não se esquecera do passado de Catarina, consciente de como a poderia reconquistar com este gesto.
Tudo seria mais fácil se Afonso não apodrecesse numa cela, pensou, procurando convencer-se de que talvez Pedro o estivesse a proteger, porque até Castelo Melhor lhe dizia que o desequilíbrio do rei se acentuara para lá do ponto de não retorno. Talvez, mas quem o teria empurrado para a loucura? Não, ainda não conseguira lavar o coração e a memória.