Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 8 de 12 · parte 1/4

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Catarina de Bragança

Hampton Court, 10 de Setembro de 1662

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

visita a Whitehall tinha sido rápida. Setembro estava

invulgarmente soalheiro, e Charles insistira em voltar para o seu palácio de campo. Com tempo, dizia a Catarina, podiam fazer as malas para um Inverno passado na capital. Mas agora que o deixassem aproveitar os últimos dias de caça...

O adiamento da apresentação da rainha ao povo de Londres não podia ser adiado de novo, insistia o chanceler Hyde, nervoso. Defendia a urgência de mover a corte para Whitehall ou St. James, trazer os reis para mais perto dos seus súbditos. Os espiões do chanceler do reino não lhe davam boas notícias. Depois da austeridade de Cromwell, os prazeres da corte de Charles tinham contagiado os londrinos, mas à medida que a fome se instalava e o desemprego crescia, indignavam-se com as descrições dos excessos, nomeadamente os cometidos pelo próprio rei, que obrigava a própria mulher, uma jovem apaixonada e inocente, a aceitar na sua Casa a Palmer, a mulher que, na boca das gentes, pouco mais era do que uma vulgar prostituta. Os informadores do chanceler não lhe escondiam que o povo descon iava de um rei que se esquecia das suas obrigações para com a sua rainha e o seu reino, deixando-se manipular por uma mulher deste calibre, de quem ia tendo alegremente descendentes que só podiam constituir um embaraço para Catarina.

Foi tudo isso que o chanceler Hyde disse a Charles, que ouviu o seu tom pomposo e autoritário com um misto de impaciência e ternura. Incomodava-o muito a ideia de desagradar a alguém, mesmo sabendo, como experimentara na pele, que num dia este povo gritava «vivas» ao rei e no outro pediam a sua morte, como acontecera com o seu pai.

- Querem festa, não é? Sabem que o rei e a sua corte se divertem, e querem divertir-se também? Não estiveram no casamento, não há coroação da rainha, porque a rainha não a deseja, por isso vamos fazer desta ida a Londres a cerimónia que desejam: pompa e circunstância, muito vinho a correr das pipas, bergantins engalanados, foguetes no escuro da noite. Dêmos ao povo o que o povo quer, desde que você, Hyde, consiga convencer o Parlamento a inanciar tudo isto, porque os meus bolsos estão vazios - acrescentou Charles, virando do avesso os bolsos da casaca.

Já dera o seu tempo de antena ao chanceler. Pegando na raquete de ténis, pediu desculpa:

- Tenho de ir, Buckingham espera por mim, para uma partida decisiva de ténis. Tem a minha palavra, organize tudo, que eu lá estarei, à hora indicada, com a minha mais luxuosa cabeleira e o melhor que conseguir desencantar no meu guarda-roupa.

Era tão típico do rei, pensou. Primeiro cedia, como um menino desejoso de agradar ao pai, mas nunca podia deixar que a cena ficasse por ali, tendo de a acabar com uma ferroada, como esta da sua amizade com Buckingham, o pior inimigo do chanceler. Mas Hyde encolhia os ombros, protestava, mas gostava da sensação de que a gestão do reino lhe caía nos ombros. O rei podia jogar ténis com os seus inimigos, mas era nele que confiava.

 

A presença diária de Barbara Palmer na sua sala fora a prova mais di ícil que tivera de ultrapassar. A amante de Charles surgia todas as manhãs nos seus aposentos, vestida como se fosse para um baile de gala, contando alto as gracinhas dos seus ilhos, sem sequer se dignar a pegar num pano e numa agulha, ou a simular sequer que estava ali para servir a rainha, como todas as outras. Catarina acabara por permitir a sua presença, enganando-se a si mesma com a ideia de que ajudava o rei a terminar uma relação que já o cansava. Acreditava, ou queria que acreditassem, que julgara as intenções do marido demasiado precipitadamente. Certamente Charles nunca lhe pediria este sacri ício supremo se não tivesse terminado tudo com esta mulher, dizia. Lady Suffolk acenava que sim com a cabeça e Nan e Meg faziam o mesmo. Odiavam com todas as forças aquela criatura insolente.

Como recompensa, Catarina voltou a ser visitada pelo rei, que sorrateiramente entrava na sua cama, a amava e a fazia rir... Mas quando as gargalhadas secavam, e a cama icava fria, a rainha chorava amargamente. Vendera-se, vendera as suas convicções por ter medo de perder este homem, dizia baixinho entre soluços. E, olhando a vela que ardia aos pés da Senhora das Candeias, perdia perdão por amar de mais...

 

Charles veio lanchar. Dizia que não havia lanche como o dos aposentos da rainha. Entrou com o seu mais fantástico sorriso, e para felicidade da rainha ignorou completamente a Palmer, enquanto anunciava à mulher que amanhã, sim, já amanhã, partiriam para Londres, onde o povo esperava há muito a visita da sua rainha. Catarina parecia uma criança em véspera da sua festa de anos, e a visível irritação da Palmer só tornava os preparativos mais aliciantes.

A cerimónia obrigaria Charles a permanecer sempre a seu lado. Não seria relegada logo após a primeira dança, como acontecia todas as noites em que se enchia de coragem e aparecia no grande salão. Este dia seria dela, de ambos, e quem sabe se o começo de uma nova etapa na sua relação.

O céu estava invulgarmente azul, e o calor lembrava-lhe o de Lisboa. Quando embarcou no bergantim engalanado, de mão dada com Charles, e com apenas as suas damas favoritas em redor, Catarina sentiu-se no paraíso. À medida que o barco deslizava pelo Tamisa abaixo, a rainha não resistiu a tirar a luva e a inclinar-se de forma a conseguir mergulhar a mão na água fresca, deixando um rasto atrás de si. Charles sorriu-lhe: gostava destes seus gestos espontâneos, que a distinguiam de todas as outras mulheres da corte e lhe lembravam os dias em que brincava com Minette. Catarina tinha outras recordações. Inclinando a cabeça para trás, encostando-a a uma das magní icas almofadas, recordou aquele dia de Natal, o primeiro em que entrara num barco, nos braços de Carminho, no barco em que o rei de Portugal viera buscá-los; lembrava-se do espanto por ver tanta água junta, ela e os irmãos nascidos e criados em «terra de sequeiro», como dizia a mãe, das gargalhadas quando Teodósio salpicava Joana, e D. Luísa lhes dizia que agora eram príncipes e não podiam brincar como os outros meninos. Nascera ilha de duques, fora feita infanta de Portugal, e agora, neste rio inglês, navegava como rainha de um dos reinos mais poderosos da Europa, conseguindo assim ajudar o seu país natal a libertar-se de Castela e a garantir a independência - sentiu-se feliz e orgulhosa, porque cumprira a promessa feita ao pai.

Charles «acordou-a», apontando-lhe os palácios por onde passavam, dizendo-lhe o nome das coisas, chamando-lhe a atenção para as gentes reunidas nas margens para os saudar. Gritavam o seu nome, e Catarina respondia com entusiasmo e acenos.

Chegados mais perto de Londres, Charles explicou-lhe que era preciso mudar de barco. Para um maior, mais luxuoso ainda, uma plataforma que permitia que todos os vissem. O bergantim real, com um toldo de brocado de ouro, quatro colunas abertas e enfeitadas com lores e folhagem verde, era de tirar o fôlego. Tal como era a cidade: alguns dos edi ícios pareciam autênticas cidades dentro da cidade, com os seus portões dourados a abrir directamente para o rio. As igrejas multiplicavam-se, as cúpulas viam-se dali a brilhar ao sol, enquanto os sinos da cidade inteira repicavam em simultâneo, e as pontes, as pontes sucediam-se a perder de vista, agora que as margens se aproximavam, duas margens cobertas de casas e casinhas.

Desembarcaram e atravessaram a cidade até ao Palácio de St. James, e as avenidas grandes, a sombra de enormes árvores, e os relvados sem im espantaram a rainha, habituada a uma Lisboa de ruelas e ruinhas. O povo saiu à rua, e Catarina inebriava-se com o seu nome.

- Já percebi que não posso entrar na minha própria capital acompanhado pela minha mulher, sob risco de que ninguém se lembre de mim - dizia Charles, sempre tão generoso na partilha da fama e da glória.

Catarina corava de felicidade e orgulho. Tinha de escrever à mãe a contar tudo. Até o chanceler Hyde lhe deu os parabéns. A inal parecia que os ingleses tinham decidido tomar como sua esta princesa católica, murmurava. O marquês de Sande, mais cauteloso, limitava-se a responder aos seus comentários com um ligeiro aceno da cabeça. Há muito que deixara de atribuir qualquer significado aos gritos do povo.

A meio da tarde, que a noite já começava a cair cedo, voltaram aos barcos para subirem agora o rio e regressarem a casa, como a rainha chamava já a Hampton Court. Catarina, exausta, atreveu-se a deixar a cabeça inclinar-se e cair sobre o ombro de Charles, que a envolveu no seu braço forte. Portara-se como uma rainha, a sua Catarina, todo o dia de sorriso nos lábios, uma tentativa constante de responder em inglês, uma palavra ou um gesto generoso para aqueles que lhe traziam os ilhos a beijar. Charles sentira-se reconciliado consigo mesmo, como um menino orgulhoso por ter praticado uma boa acção.

Enquanto a rainha adormecia no seu colo, e as damas se aconchegavam umas às outras para se aquecerem, que a noite caíra fresca, o rei observava o céu onde rebentava um magní ico fogo-de-arti ício. Ao longe ainda se ouvia a música, que a partida dos reis não impedira de continuar a tocar, enquanto as canecas se enchiam de cerveja, a carne assava nos espetos, e as gentes da sua capital se preparavam para dançar, que os raros dias de festa eram para aproveitar. Tinha pena de não ter icado com eles. Sozinho, o copo cheio, os corpos das mulheres bonitas bamboleando-se ao seu lado, o rei entre os seus. Suspirou. A mãe queixava-se, mas a verdade é que nele, ao gosto do luxo, somava-se o prazer da liberdade de ser apenas um entre os outros.

Whitehall Palace, 10 de Outubro de 1662

 

udavam de paço com a estação do ano, constatou Catarina. Não,

mentia, mudavam de palácios para castelos, de castelos para casas de Verão, das suas casas para as casas imensas de famílias nobres que gastavam o que tinham, e o que não tinham, para receber em pompa os seus soberanos. Teriam sangue cigano? perguntou um dia baixinho ao marquês de Sande, esperando ser repreendida, mas recebendo em troca um sorriso divertido. Toda a gente parecia achar absolutamente natural este fazer e desfazer de arcas, mas a verdade é que levavam consigo apenas os seus bens pessoais, porque tudo o resto, inclusive os criados, pertencia aos locais para onde se mudavam, tal como a mobília, as camas e os colchões.

Charles anunciara que com a chegada do Inverno, que tardara este ano a bem das suas incursões na caça, se mudariam para Whitehall, agora que a sua mãe tomara residência de initiva em Somerset House, numa outra ponta da cidade.

O rei parecia tão excitado como uma criança, e Catarina percebeu que as obras de remodelação de que lhe falara quando visitaram pela primeira vez o palácio deveriam estar prontas. Fingiu não perceber nada, tal o prazer que o marido parecia ter nestas surpresas, mas não resistiu a perguntar.

- Charles, tenho a certeza que vou gostar de viver em Whitehall, mas posso levar as minhas coisas, não posso? - e Catarina pensava no sentimento de segurança que lhe dava o oratório, as suas colchas, a sua cadeirinha alentejana. Sem esse bocadinho de Portugal seria impossível resistir ao primeiro longo e frio Inverno longe do seu país.

Charles olhou-a, curioso.

- Engraçado, não me passaria pela cabeça tal coisa, gosto de encontrar em cada casa para onde vou os objectos que fazem parte dela. Como se visitasse parentes - acrescentou a rir.

Catarina olhou-o, assustada, tinha tanto medo de parecer infantil, desajustada. Mas o marido fez-lhe um dos seus sorrisos mais meigos.

- Não me estou a rir de si, minha querida mulher. Gosto que seja diferente, e julgo mesmo que a percebo. Para mim todas estas coisas, sejam elas em Hampton ou em Whitehall, me são conhecidas, enquanto esses seus objectos são a parte de si que não quer esquecer - disse subitamente pensativo.

Catarina anuiu com a cabeça. Tinha sorte em ter casado com um homem tão capaz de entender os seus sentimentos. O que lhe aumentava a culpa quando a magoava, constatou de repente, para logo afastar de si aquela nuvem.

Quando julgava o pedido aceite, no entanto, Charles acrescentou:

- Mas, por favor, leve só o essencial. Vai ver que depressa se afeiçoa a Whitehall.

 

Os seus novos aposentos eram luxuosos. As salas sucediam-se, as janelas para o Tamisa, a luz a entrar pelas janelas, e lá fora uma cidade inteira dentro de muros, que era aquilo que Whitehall era de facto. Durante vários dias precisara da escolta da Guarda da Rainha para não se perder entre escadas e escadinhas, claustros e passagens, andares de cima e de baixo, jardins em labirinto e estufas onde apetecia passar as tardes daquele mês de Outubro, que todos diziam nunca ter visto outro tão suave e bonito.

Charles voltara a procurá-la, e de cada vez que escorregava entre os seus lençóis Catarina esforçava-se por afastar da cabeça a ideia de que poderia ter estado com a Palmer. Ou outra, porque sabia agora que havia outras. Mas o rei era capaz de, com as suas mãos mágicas, tornar o esquecimento mais fácil, e de cada vez Catarina acreditava com todas as forças que aqueles momentos tão fortes teriam obrigatoriamente de gerar um filho.

Lady Suffolk dizia-lhe que era cedo, que o corpo precisava de se habituar ao clima, aos hábitos, à alimentação, a toda a tensão que tanta novidade lhe causava. Não acrescentava, por caridade, que as visitas do rei não eram tão assíduas como o deveriam ser, se o objectivo era conceber.

De dia, passeavam juntos em St. James Park, ou saíam para montar pelos campos vizinhos, e Charles já assistira, por várias vezes, às suas lições de tiro ao arco. Quando o sol ainda aparecia faziam piqueniques, e Catarina adorava o campo inglês, colhia uma lor de cada tipo para fazer um ramo enorme, que insistia em colocar frente à Virgem das Candeias, onde uma vela ardia perpetuamente.

Nan, Meg e as outras damas adoraram a mudança - em Whitehall, se possível, a agitação e o frenesim eram ainda maiores, as pessoas que entravam e saíam eram as mais diversas, e todas as noites acontecia um entretenimento diferente. O rei levava as damas da rainha ao teatro, ou trazia o teatro aos salões, organizava torneios de cartas, e até arranjara um professor de dança, com quem a própria Catarina aprendia os primeiros passos.

Os seus quartos eram maiores e as irmãs Fanshawe tinham sido estrategicamente colocadas por Lady Suffolk bem longe do trio demoníaco liderado sempre por Helen, e mais próximas dos aposentos da rainha, mas o desgoverno nos aposentos das damas continuava a ser digno de nota, comentava, com um suspiro, D. Maria.

 

As lágrimas caíam-lhe pela cara. Não eram as dores que a incomodavam, mas aquilo que signi icavam: o sangue corria de novo, como correra no mês anterior, e no anterior a esse. As amantes do rei engravidavam, mas ela não. Escondendo a cara entre as mãos, chorou de desespero. E se a profecia de Ali não fosse uma patranha, e se tudo o que lera nos grandes livros do seu pai se aplicasse ao seu caso, e se por algum motivo estranho que parecia tantas vezes amaldiçoar rainhas, poupando as outras mulheres, não fosse capaz de conceber? Como guardaria Charles para si, como cumpriria a sua missão de dar um herdeiro ao trono? Como aguentaria o olhar de troça da Palmer, a censura que imaginava nos olhos da sogra, do chanceler, até nos do marquês de Sande, que aguardava certamente o nascimento de um ilho para dar por realmente cumprido o acordo que assinara entre os dois reis. E sabia que em Portugal, a mãe, os conselheiros e o povo português esperavam o momento, que marcava, afinal, a sua utilidade... Uma mulher infértil, disse a si mesma escondendo a cara na almo fada, era a vergonha da sua família e do seu país. O choro tomou-lhe o corpo, como se nunca o fosse abandonar.

Nan batera à porta e perguntara, na sua voz suave, se podia entrar. Catarina queria esconder da pequenina Fanshawe a sua amargura, mas precisava tanto de uma amiga, de uma confidente, de alguém que lhe desse esperança...

Nan percebeu imediatamente o que se passava, com aquela sua capacidade de ler o coração. Sentou-se no banquinho forrado com um magní ico pano oriental e olhou para a rainha, com os seus olhos verdes, que umas pestanas negras e compridas realçavam, cheios de compaixão. Não ia, certamente, discutir a fisiologia de D. Catarina, mas podia contar-lhe uma história, e contar histórias Nan sabia fazer, rodeada como sempre estivera por crianças.

- Sabe quantos filhos tem a minha mãe, não sabe, dona Catarina?

Catarina abanou que não com a cabeça, sabia que eram vários, mas quantos ao certo não tinha a certeza.

- Catorze, a minha mãe deu à luz catorze filhos...

Catarina sorriu-lhe, enxugando discretamente as lágrimas.

- Sabe quanto tempo depois de casar com o meu pai é que teve o primeiro? - perguntou de novo Nan, logo acrescentando:

- Nem tente adivinhar, que digo-lhe já: anos e anos sem ilhos, a que se seguiram dezenas de outros em que nenhuma Primavera passou sem que as ovelhas, as éguas e a minha mãe dessem de novo à luz.

Catarina sorriu, enquanto enxugava as lágrimas com a manga do seu roupão: só esta miúda é que compararia a pobre da lady Fanshawe aos animais da quinta.

Procurando entrar no jogo, a rainha perguntou:

- Sem ofensa para a sua mãe, a Nan é o poldrinho número quantos?

- Eu, Sua Majestade? Eu sou a segunda, e Meg, a quarta. Depois há cinco mais pequenos, que ainda estão em casa, agarrados às saias da minha mãe, e a minha irmã mais velha que icou para ajudar. Mas muitos morreram. Já depois de Sua Alteza ter saído de Lisboa, a minha mãe perdeu o bebé Richard, que está enterrado no Convento da Esperança...

Um pequenino Fanshawe enterrado no seu país? E ela nunca dera uma palavra de conforto à mãe de Nan. De facto, talvez pior do que não engravidar deveria ser ter um ilho, segurá-lo nos braços, e depois vê-lo partir, lembrava-se bem de como D. Luísa falava constantemente dos seus irmãos Ana e Manuel, que tinham morrido horas depois de nascer, e parecia nunca se ter recomposto verdadeiramente daquela perda. Nan veio de novo em seu socorro:

- Sua Majestade pensa que pior do que perder um recém-nascido é não ser capaz de conceber?

Catarina sentiu-se retrair, tinha medo de se expor, tinha medo destas mulheres todas, tão diferentes de Joana, de Maria do Rosário, de Maria do Carmo, a quem se podia fazer con idências, sem receio de que a nossa vida fosse depois motivo de conversa num próximo jogo de cartas.

Nan atreveu-se a estender-lhe a mão:

- Não tenha medo, rainha Catarina. Nunca a trairia... acha que os seus sentimentos são diferentes dos meus? Acha que não temo que o homem que amo nunca me venha a amar, ou sequer a dar pela minha existência, que por falta de casamento, ou mesmo casando, Deus não me abençoe com filhos? É o terror de todas as mulheres, Sua Alteza. Ter o ventre liso, deixar de interessar ao amor da nossa vida, ver o nosso lugar ocupado por outra...

Catarina olhava-a em silêncio, as lágrimas corriam de novo como uma fonte:

- Obrigada, Nan, queria tanto ouvir uma resposta àquilo que não me atrevia a perguntar. Tenho medo, sim, tanto medo. Em Portugal sentia-me tão segura, tão amada, tão protegida, mas aqui...

- Aqui todos os sonhos se podem tornar realidade, mas todos os seus pesadelos também, não é?

Catarina acenou que sim com a cabeça:

- Falo com os meus confessores, converso com os capelães e todos os monges que chegaram por estes dias. Devia estar contente, sentir-me rodeada de pessoas que me compreendem, era obrigatório que confiasse em Deus e nos seus desígnios com mais força, mais fé. Assim, sou ingrata com Charles, ingrata com a minha mãe que me mandou toda esta gente só para me fazer feliz.

- Não seja tão dura consigo própria, Sua Alteza. Nem traga sobre si todas as culpas. Permita-me que lhe diga que é uma mulher encantadora, boa, generosa, incapaz de fazer os outros sofrer. Talvez precise é de deixar de ser tão boazinha!

- Nan, deixar de ser virtuosa, como Deus e a Senhora das Candeias o desejam?

Pela porta entrara Meg, e depois de uma vénia, e de receber o consentimento da rainha, sentara-se numa outra cadeira baixa. Na mão trazia uma maçã, que trincava como se fosse uma rapariga do campo, acabada de chegar da apanha. A rainha sorriu-lhe, divertida:

- Que saudades, Meg, que saudades de correr o pomar do Paço da Ribeira e apanhar as maçãs das árvores. A minha ama dava-me sempre laranjas doces no meu dia de anos...

- Nham, laranjas doces, lembro-me bem delas quando estive em Portugal, as criadas cortavam-nas ao meio, e depois davam-me pequenos gominhos numa colher, não sujava as mãos e aquele sumo era delicioso -retorquiu Meg, enquanto dava outra trinca na maçã. - Mas maçãs, Sua Alteza, são, como lhe hei-de explicar, maçãs! Sabe o que é que se diz, aqui em Inglaterra?

Catarina quis saber.

- Que uma maçã por dia mantém o médico bem longe. Devia comer mais fruta, Sua Majestade. Sem querer ser indiscreta, posso contar-lhe que vi chegar às portas da cozinha um caixote enorme chegado agora de Portugal.

A rainha levantou-se, excitada:

- Meg, toque aí a campainha, por favor. A Ivete tem de nos dizer já o que vinha lá dentro, se ao menos eu pudesse descer às cozinhas...

- Mas pode fazer o cozinheiro subir aos seus aposentos - acrescentou Meg, muito prática.

- Agora que sei a história da sua família, já percebo tudo. Se perdesse tempo com muitos protocolos, nem uma maçã lhe chegaria às mãos - disse a rainha, divertida.

Ivete contou tudo. Contou que o caixote trazia mais açúcar, mais especiarias, marmelos, «que é a época deles, lá na nossa terra», suspirou a rapariguinha, laranjas doces e laranjas amargas.

- Sua Alteza devia ver a cara do Rudolf, o cozinheiro inglês que Sua Majestade ordenou que fosse aprender com Miguel a confeccionar os nossos pratos, quando deu uma dentada numa das laranjas amargas. Acho que ainda está com a boca azeda.

A rainha sentia o espírito mais leve. Nan dera o primeiro contributo, tirando-lhe um peso de cima - porque não haveria de ser como lady Fanshawe, e demorar tempo a engravidar, para depois dar a Charles uma mão-cheia de ilhos? Meg, com a sua insolência inocente, divertia-a sempre, e agora as histórias de Portugal, pela boca de Ivete, faziam com que a vida não parecesse afinal tão trágica.

- Diz ao Miguel que lhe ensine a fazer marmelada, que já lhe adoça a boca - disse, sorrindo. - Há cartas para mim?

Mas D. Maria, a bengala a tactear o caminho, porque a visão desaparecia de dia para dia, já as trazia na mão. Espantada com o grupo que se juntara, sorriu, no entanto, para as irmãs:

- Recebi notícias do vosso pai, ainda ontem, através de uma amiga minha que vive em Cádis.

- Cádis? - perguntaram as três em coro. O que levava sir Richard Fanshawe a Cádis, e alguém de Cádis a falar de sir Richard Fanshawe?

D. Maria, feliz por ter, por uma vez, os holofotes sobre si, sentou-se num cadeirão e contou:

- O vosso pai está em Espanha numa missão secreta, ao serviço do rei. E espero que a informação não passe daqui - acrescentou.

O coração da rainha palpitou. Charles era mesmo assim: sem dizer nada, continuava a envolver-se na questão portuguesa, a procurar a paz entre o seu país e Castela.

- Dona Catarina, a minha amiga diz-me que o senhor embaixador está a traduzir Os Lusíadas, veja lá, e que em breve irá a Lisboa...

- O meu pai a traduzir Os Lusíadas não me admira nada, passava a vida a ler-nos cantos inteiros - comentou Meg, que meditava onde fazer desaparecer o caroço da maçã, e acabou por o dar, discretamente, à raposinha da rainha, a Cenoura que Montagu lhe oferecera e nunca estava longe da dona.

Mas quando D. Maria inalmente lhe entregou a carta da mãe, e outra de António Vieira, todas perceberam que a festa tinha acabado. A rainha desejava ficar sozinha.

As notícias eram tristes. Preocupantes, mesmo. Luísa dava conta que Bombaim ainda não tinha sido entregue, porque o vice-rei e a comunidade portuguesa não cediam a sua posição; dizia-lhe que o marquês de Sande lhe comunicara que Charles ponderava abandonar Tânger, porque mantê-la contra a vontade dos mouros se tornava cada vez mais difícil, e, finalmente, pedia-lhe mil desculpas, mas não fora possível ainda completar o dote. Esperava que nos próximos meses viesse mais ajuda do Brasil, mas agora que Vieira estava desterrado em Coimbra, pobre homem, ninguém lhe podia valer, nem mesmo Afonso tinha poder para voltar atrás depois de o ter impunemente entregue nas mãos do Santo Ofício.

Mas o que a magoou mais estava para vir. Consciente de que a posição da ilha se tornava mais frágil com todos estes incumprimen tos do acordo, incitava-a a esquecer o caso Castlemaine, de que lhe tinham dado conta os portugueses regressados (Que gente, pensou Catarina, zangada, o lábio a tremer de fúria, e eu que tanto lhes pedi que se calassem, que nunca contassem este triste episódio à minha mãe, mas eu sabia, eu sabia, deve ter sido logo o primeiro, o mais suculento, com que a contemplaram!). A mãe, a mesma que lhe falara da dignidade de uma mulher, aquela que

izera o pai pagar até à hora da morte a única in idelidade que lhe era

conhecida, que nunca consentira que o nome da senhora fosse pronunciado à sua frente, a mãe, vendo a ilha traída, apelava agora a que engolisse o seu orgulho e ingisse não ver nada. Mais ainda, insistia que fosse até simpática com a criatura.

A carta chegava tarde. A Palmer já estava nos seus aposentos. Zangada, pôs-se de pé: talvez Nan tivesse toda a razão, talvez fosse boazinha de mais, talvez fosse preciso começar a usar as mesmas armas que estas mulheres...

Sentou-se na borda da cama e olhou a sua Senhora das Candeias: faria tudo isso se fosse capaz!!!

A Cenoura tossia, engasgada. Catarina pousou as cartas e correu para a sua raposa, o presente daquele que se revelava a cada dia o seu admirador mais dedicado.

- Cenourinha, o que é que tens?

A raposinha cuspiu qualquer coisa, e Catarina desatou a rir:

- O caroço da maçã de Meg! ! ! Aquela Fanshawe é que tem talento para fazer frente à Palmer. Um dia hei-de ter coragem para lhes pedir ajuda, a ela e à irmã.

Somerset House, 20 de Outubro de 1662

 

ançara quatro vezes com Charles. O marido dera-lhe os parabéns,

aprendia depressa, e o professor Jérome elogiara-a já por várias vezes. A rainha bebia os cumprimentos do rei, e Henriette Marie, sentada num pequeno estrado elevado na sala de baile, sorria encantada: talvez o filho tivesse ganho algum juízo.

A rainha-mãe dava a sua primeira grande festa na casa nova, onde já estava completamente instalada. Charles provocava-a sempre que podia.

- Sente-se melhor aqui onde não pode tropeçar na sua nora Anne, que nunca fez mal a ninguém, mas a quem a minha querida mãezinha não perdoa o facto de lhe ter roubado o seu James querido, que pretendia casar com uma mulher escolhida por si... como fez com o seu filho Charles.

Henriette fingia-se ofendida, mas ria às gargalhadas.

- A minha vida é uma vida de virtude e sacri ício, de oração, arrependendo-me dos meus pecados, coisa que tu, meu filho, não fazes...

Charles lançara para trás a cabeça, naquele gesto tão característico, e soltara uma enorme gargalhada:

- Sua Alteza, para ser um penitente era preciso que me arrependesse, e eu não me arrependo de nada.

A mãe passou-lhe a mão pelos caracóis negros.

- A tua mulher tem razão quando diz que mentes! Mentes para o bem e para o mal, porque neste caso até te arrependes, e tentas emendar a mão, mas infelizmente preferes os remorsos à renúncia. Acredita, Charles, que magoar alguém tão inocente como a tua Catarina é um pecado bem pior do que ofenderes até a tua mãe, ou os teus amigos e amigas que te esforças tanto por nunca descontentar, e que merecem bem menos esse cuidado do que ela.

O discurso da mãe ressoara nele de tal forma, que neste baile prometera não deixar Catarina abandonada numa cadeira, enquanto se divertia, à sua frente, com todas as mulheres mais bonitas da corte.

Talvez tudo tivesse continuado assim se Castlemaine não aparecesse naquele momento na soleira da porta, tão bonita que «nem um eunuco resistiria a comê-la com os olhos», comentara Charles a Buckingham, pendurada no braço de um jovem alto, cabelo escuro, dezoito anos cheios de segurança.

Catarina, que voltara para junto do círculo das suas damas, olhou com atenção para o par.

- Tenho a sensação de que conheço aquele rapaz... é possível?

Rosie, a dama que estava mais próxima da rainha, corou e ingiu engasgar-se. Helen, a Má, como lhe chamavam, que ouviu a pergunta, ficou feliz pela oportunidade de ser ela a responder à rainha - satisfeita porque teria mais uma história para contar no dormitório, ou, melhor ainda, nos aposentos de Barbara Palmer, nos encontros clandestinos em que troçavam de todas as pequenas coisas que a rainha dizia ou deixava de dizer.

- Sua Alteza pergunta quem é o rapaz?

Catarina olhou-a, descon iada, mas não tinha outra alternativa senão repetir a pergunta, embora alguma coisa lhe dissesse que não gostaria da resposta, tal a ânsia que aquela dama horrível tinha em lha dar:

- De facto, dona Catarina, é natural que tenha a impressão de que já o conhece, porque James Croft é muito, muito parecido com o rei.

- Seu pai - acrescentou Susan, que, tão mazinha como Helen, queria fazer parte desta cena que tanto daria que falar.

Catarina tentou não perder a compostura. O que deveria perguntar a seguir: Croft, ilho de qual, se com esse nome não conheço nenhuma? Por isso, com dignidade respondeu:

- Tem a quem sair bonito - como se tudo aquilo lhe fosse natural, como se achasse desculpável que constantemente a colocassem nestas situações embaraçosas, em casa da sogra, onde se julgava a salvo destas impertinências, sempre mais e mais um segredo doloroso que era desvendado, até quando? Até quando aguentaria este lado escuro do seu marido?

Rosie, percebendo que só a sua incapacidade de ter respondido prontamente à rainha a colocara nesta posição, fez das tripas coração para vencer o embaraço e entrar de novo na conversa:

- Sua Alteza, não preste atenção à forma maldosa como estas duas pretensas damas de honor, que de honrável não têm nada, lhe dão informações sobre aquele senhor.

Catarina segurou-lhe a mão, com ternura. Esta aia insegura lembrava-lhe ela própria, se fosse dama numa corte e não a rainha, suspirou:

- Tenha calma. Já percebi que se trata de um ilho do meu marido, um que ainda não conhecia.

A miúda, apesar de consciente das represálias que teria de sofrer quando chegassem a Whitehall e estivessem sozinhas no dormitório, continuou:

- Mas não é nenhum de que Sua Alteza não tivesse conhecimento: Jemmy Croft é filho de Lucy Walters, uma relação antiga do rei.

Catarina respirou com mais facilidade:

- O primeiro de todos os ilhos do rei já é deste tamanho? Mas porquê Croft, porque não Walter ou, como outros ilhos do rei, Fitzroy ou Fitzcharles...

- Porque o rei estava no exílio, era novo, a mãe de Jemmy morreu, e Sua Alteza entregou-o ao seu grande amigo Croft, pedindo-lhe que o criasse como se fosse dele. Jemmy acabou por icar depois sob a alçada da rainha-mãe, e veio agora de França ter com ela...

Porque é que ninguém lhe contava estas coisas? Porque é que o seu embaixador, os homens da sua Casa, Clarendon, Fanshawe, Russel, todos eles, não a sentavam a uma mesa e lhe davam uma lição sobre o passado do rei? Em detalhe, nenhum pormenor omitido - será que não entendiam a humilhação de ter de «aprender» a vida do marido através de uma jovem de 15 anos que, na sua opinião, nem sequer devia estar a par de todas estas aventuras imorais?

Os olhos voltaram-se de novo para o centro da sala, onde Charles falava com o ilho, perdido de amores por ele, embevecido como só se ica pelo sangue do nosso sangue, pensou entristecida. Aquele afecto, aquele orgulho, era do seu ilho, do ilho que nem conseguia gerar, quanto mais ter, pensou com amargura.

Levantando-se num impulso, atravessou a sala para espanto de todos, o som das vozes aos poucos sossegando até desaparecer, e, aproximando-se do rei, deu-lhe um braço e perguntou:

- Posso ser oficialmente apresentada ao seu filho?

Charles espantou-se. Todos os dias Catarina o surpreendia: mas não, não havia ali nem o cinismo da Palmer, nem a arte de uma mulher decidida a embaraçar o marido em público. Catarina, pura e simplesmente, não queria ser excluída de nada do que ele amava, e isso comovia-o. Pondo o braço em redor dos seus ombros, aceitou o desafio:

- Sua Alteza, apresento-lhe James Croft; James Croft, por favor, cumprimente a rainha.

Mas Jemmy não precisava de lições, pelos vistos crescera a observar o pai e todos os nobres da corte, e dominava a arte da sedução na perfeição. Percebendo que todos os observavam, e apesar de ter consciência do que teria de ouvir da Palmer, dobrou-se numa exagerada vénia e beijou ambas as mãos da rainha.

- A honra é toda minha, rainha Catarina - disse alto. O pai, como os pais babados fazem, riu-se com ele, e a sala toda aderiu, por delicadeza, ao riso real. Estranhamente, o ilho parecia ter sobre ela o mesmo efeito do que o pai: apesar de lhe desagradar a postura pedante de Jemmy, Catarina perdoou-lhe o ar de pavão e esforçou-se por atrair a sua atenção, querendo saber se ele a podia levar à varanda, porque queria muito ver nevar...

Jemmy olhou-a como que hipnotizado e, dando-lhe o braço, conduziu-a até às janelas abertas, conversando animadamente, sem nunca abandonar uma postura sedutora, como se não tivesse outro intuito senão conquistar a rainha. «Tiques iguais aos do pai, que certamente observa e copia com zelo», suspirou Catarina. Nessa noite, regressaram todos juntos a Whitehall. E todos juntos incluía até Barbara Palmer, amuada a um canto da carruagem, mas presente e vigilante.

Enquanto Nan e Meg a ajudavam a despir, Catarina comentou:

- Acharam James Croft bonito?

Nan e Meg sorriram-lhe:

- Sua Alteza esteve fantástica, parabéns, desarmou lady Palmer, desarmou o próprio rapaz, que, se bem conhecemos o género, amanhã de manhã estará aqui a visitá-la com um ramo de camélias brancas...

Catarina piscou-lhes o olho. Que vontade tinha de lhes pedir que se deitassem no fundo da sua cama e icassem a conversar pela noite fora, como izera com Joana e as amigas, naqueles dias no Paço de Sintra. Sabia que era impossível, mas não resistiu:

- Temo que o rapaz esteja demasiado confiante nos seus dotes. Nenhuma de vocês o acha um bom partido?

As irmãs abanaram que não com a cabeça. Quem ficasse com o filho mais velho do rei, sobretudo não havendo nenhum legítimo, justi icava a sua passagem pela corte, mas decididamente Jemmy era demasiado parecido com Charles para as atrair seriamente. Não o podiam dizer, mas Catarina entendeu.

Margaret Fanshawe desceu as escadas de pedra em caracol que conduziam a um dos claustros de Whitehall. A capa preta de feltro grosso, forrada a pêlo de carneiro, impedia-a de gelar, e o capucho, bem puxado sobre o seu cabelo loiro, escondia a sua identidade. As mulheres não andavam sozinhas pelos corredores do palácio à noite e se algum guarda a interceptasse, era certo e sabido que acabaria de castigo, imposto por lady Suffolk, que procurava, a todo o custo, impor alguma moral entre as suas damas.

Passara a noite toda a olhar para ele, mas não se atrevera a aproximar-se. Tinha feito vários amigos na corte, e os admiradores eram mais do que os seus dedos da mão, mas só este lhe interessava. Desde o dia, no casamento da rainha Catarina, em que o vira ao lado do seu irmão mais velho lord Buckingham, e Nan a tinha proibido, sequer, de lhe dirigir a palavra, que não pensava noutra coisa. O pai e a mãe dir-lhe-iam o mesmo que a irmã, assim como todos os partidários da rainha. O pai falar-lhe-ia da «lealdade e outras qualidades que não admito que não cultives», se soubesse desta sua inclinação por um membro da família Villiers - primo, afinal, de Barbara Villiers Palmer, a amante do rei.

Meg não queria pensar nisso agora. Francis Buckingham também a olhara intensamente, e percebera que icara também na sua memória. Não se atrevera a aproximar-se do círculo das damas da Casa da Rainha, com medo de desagradar ao seu irmão George, e contrariar o duque dava muito trabalho e era perigoso. Mas queria vê-la, tinha de a ver. Meg, com a cara emoldurada por um cabelo loiro, forte e ondulado, a pele branca, os olhos verdes, o nariz ligeiramente arrebitado, a boca sensual mas que também sabia ser cínica, o corpo que tomava formas cada vez mais perfeitas, e que o vestido verde justo e decotado deixava adivinhar, era irresistível. Verde, sabia ela, porque o escolhera para fazer sobressair a cor dos seus olhos, mas Francis, durante o jantar e no meio da confusão, murmurara-lhe: «Gosto desse verde, porque é sinal de esperança.»

Quando vestira o casaco para sair, na comitiva de Catarina, sentira um papel no bolso - mas só agora, depois de terem deitado a rai nha, pudera ler o recado. Era de Francis, não queria acreditar. Desa iava-a a encontrar-se com ele no jardim das estátuas às dez e meia da noite, quando todas as damas já estivessem a dormir. Enganara a própria irmã - amanhã contar-lhe-ia tudo - e dissera-lhe que a rainha lhe pedira para levar Cenoura a Montagu, porque a raposa há dois dias que lhe parecia adoentada. Nan não acreditara, mas ingira, o que para o caso era igual, e Meg estava agora aqui, o coração a bater com força, à espera dele.

E se não viesse? Se fazia troça dela, se procurava aproveitar-se do facto de ela ser uma dama da rainha para a transformar em espia para a causa do execrável irmão? De repente, pensou que fora estúpida e ingénua ao acreditar por momentos que era a ela, e só a ela, que Francis desejava, e teria fugido dali, se uns braços fortes não a segurassem pelos ombros. Ia reagir, gritar, mas conteve-se quando ouviu:

- Sou eu, Margaret Fanshawe...

Chamou-lhe parvo, pelo susto que lhe pregara, e Francis pediu-lhe desculpa, genuinamente contristado:

- Desculpe, sou um idiota, a pedir-lhe que venha aqui à noite, correndo todos os riscos, e depois caindo assim em cima de si, como se fosse um miúdo a brincar à apanhada...

Fora só o princípio. Falaram longamente, as horas do relógio da Torre a baterem uma e outra vez. Meg esqueceu-se de que ele era o seu pior inimigo. Francis era diferente, diria no dia seguinte a uma Nan angustiada. Francis não tinha nada do irmão, jurara. Mas a irmã abanara a cabeça, preocupada.

Whitehall Palace, Dezembro de 1662

 

oi a Palmer que lhe disse com todo o descaramento. Não

directamente, não se atreveria a tanto, mas nos seus aposentos, sentada entre as suas damas. Estava grávida. De novo, imagine-se, como se os dois filhos que tinha não fossem o suficiente. Catarina empalidecera ao ouvi-la, mas procurara manter a concentração no missal que lia. Mas Barbara Palmer não se calava, procurando uma reacção, um sinal de fraqueza. A rainha mordeu o lábio, apelou à ajuda de todos os santos, e manteve os olhos presos nas letras, como que procurando uma palavra, uma frase que a impedisse de se atirar aos cabelos da rival, como numa cena de peixeiras nas ruelas de Lisboa. Palmer comentava as consequências da insaciabilidade do desejo do rei, de como nada podia fazer para impedir a sua fertilidade de levar a melhor, e, acreditem, dizia, que sendo dama da Casa da Rainha a situação de dar a Charles mais um filho varão, porque tinha a certeza de que era rapaz, a deixava embaraçada, pobre infanta de Portugal, que fizera uma viagem tão longa em vão.

Até a Palmer sentiu que se tinha excedido quando percebeu que mesmo as damas que habitualmente acompanhavam as suas graças com risinhos se tinham calado, envergonhadas. Por iniciativa própria, fez uma vénia discreta a Catarina e saiu do quarto.

Fingindo não ter sequer dado pela sua retirada, a rainha manteve-se de olhos no livro sagrado, e só uma pinga de sangue no seu lábio inferior, que mordera com força, revelava que entendera o que se passara. As damas tentaram aliviar o ambiente retomando as conversas que tinham icado congeladas, e foi apenas quando sentiu mais segura de que as pernas lhe obedeceriam que a rainha chamou duas delas, para que a acompanhassem à capela. Nan e Meg olhavam, estarrecidas, mas não se aproximaram. Admiravam a força de Catarina, mas sabiam que a rainha se poderia desfazer facilmente em lágrimas se sentisse sobre o braço o toque de alguém mais próximo.

Nessa tarde a rainha alegou uma enxaqueca e fechou-se no quarto. Durante dias seguidos, saiu apenas para as missas, com um véu escuro sobre a cabeça. Rezava e, envergonhada pela baixeza dos seus pensamentos, não resistia a pedir ao Altíssimo que fulminasse aquela mulher que todos a obrigavam a aceitar e que com os seus poderes diabólicos mantinha o marido na sua cama. Queria amaldiçoar Charles mas não conseguia. Agarrava-se ao que sempre ouvira as criadas, que há criaturas que usam poções e magias negras para manter preso um homem mesmo contra a sua vontade. Pedira apenas a Deus que o libertasse do feitiço.

Passara noites sem dormir, virando-se e revirando-se na cama. A quem estava a tentar enganar? Se o seu ventre estivesse proeminente como o da Palmer, as in idelidades do marido não lhe deixariam esta dor tão profunda, tão real.

A alma dói? perguntara uma manhã ao confessor. A alma dói, respondera-lhe ele, sem qualquer hesitação.

Mas a vida agitada da corte não lhe permitia reclusões. Lady Suffolk insistia que se levantasse. Nan e Meg espicaçavam-na, ansiosas por a libertar do seu desespero. Sem a sua presença ao lado do seu marido vai deixar todo o espaço do mundo à Palmer, diziam-lhe.

Finalmente, a frase capaz de a fazer reagir. Uma ilha de Luísa de Medina-Sidónia não entregava os pontos de mão beijada. Lembrou-se de frei Pedro, de Teodósio, da força da mãe que contra todas as adversidades estava sempre na primeira ila do campo de batalha, e voltou a sair do seu casulo.

O rei, com os seus habituais remorsos fora de tempo, procurou de novo compensá-la da crueldade que lhe izera, transformando-se no príncipe encantado das histórias que ouvira em pequenina.

Há semanas, dias e horas que Catarina mantinha a ilusão de que a sua vida poderia voltar a ser completamente feliz. Charles passava algumas noites com ela, e se não deixava de organizar bailes e festas, em que Catarina não se sentia desejada, compensava-a de outras formas, levando-a a passear, dando-lhe a mão em público ou, como naquele dia que guardava na memória, levando-a a patinar no canal de St. James, os seus braços fortes a suportarem o seu corpo frágil, tão cuidadoso e paciente que até acreditara que ele a amava de verdade. A Palmer amuava, e o seu amuo deixava a rainha e as damas que lhe eram leais, loucas de felicidade. Meg e Nan riam menos, incapazes de esquecer este comportamento cíclico do rei, em que a cada asneira se seguia um período, curto, de tentativa de redenção.

- A verdade é que temos, todos os dias, que suportar a presença daquela mulher, e a rainha até lhe responde, quando ela se faz de simpática -murmurou Meg, tão segura nos seus ódios como nos seus amores.

Catarina decidira, de facto, por momentos deixar de lutar contra a maré.

- Pobre dona Catarina - murmurara Nan, que, como todas as outras damas, sabia que os votos de fidelidade do rei, nomeadamente no que dizia respeito à sua amante aparentemente à prova da passagem do tempo, eram tudo menos idedignos. Tantas e tantas noites o tinham visto chegar com ela, oriundos dos apartamentos luxuosos que a Palmer habitava, num dos torreões do palácio, e tantas outras os viam para lá regressar. Felizmente, Catarina estava imersa em missas e orações, entusiasmada a bordar panos para o altar da capela da rainha. Escrevera até ao papa, protestando a sua dedicação enquanto rainha de Inglaterra, e pedindo inclusivamente a Sua Santidade que atendesse à situação dos católicos naquele país, nomeando mais bispos para poderem dirigir as ovelhas que praticavam a verdadeira fé. Charles icara furioso quando soubera das cartas enviadas, mas Catarina conseguira apaziguar a sua ira, explicando-lhe que, em nome de Portugal, que esperava há 20 anos que Roma reconhecesse o reino como um Estado independente, precisava de fazer valer a sua força como rainha de um reino que Roma ambicionava dominar.

Continuar: parte 2 de 4