Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 3 de 12

Páginas do PDF

Catarina de Bragança

Paço da Ribeira, 2 de Abril de 1654

 

á um ano que a corte vivia sob um pesado silêncio. As mortes,

uma após a outra, dos dois príncipes mais velhos da Casa Real tinham acordado a consciência da fragilidade da vida e de como o futuro pode mudar de um momento para o outro.

Quem percorresse o corredor próximo da Sala de Música do rei e escutasse os acordes do seu cravo icaria com a certeza de que D. João sentia uma imensa di iculdade de encontrar dentro de si o alento necessário para continuar a governar o país, a manter as suas rotinas, a dar a importância necessária aos assuntos a que lhe pediam que prestasse atenção. Teodósio e Joana mortos e a vida continuava. Sabia bem que era a vontade de Deus que assim fosse, mas só quando se perdia numa sonata sentia a dor mais suportável.

Era tão fácil «abdicar» quando se tinha Luísa de Gusmão no quarto ao lado, na outra ponta da mesa, na cabeceira das reuniões, na gestão da Casa da Rainha, e na do rei...

Luísa desesperava, por vezes, com a passividade do marido, mas, embora não o pudesse confessar a ninguém, era no trabalho, na solução dos problemas e na sensação de que era necessária, ou mesmo imprescindível, que encontrava a força para continuar.

Aprendera a lição: se não podemos con iar na ordem natural das coisas, se ao pai não sucede o primogénito, se uma mãe tem de suportar a dor suprema de ver os ilhos morrer antes de si, se tantos e tantos detalhes surpreendem e destroem os planos e as estratégias, então é preciso ser mais activo na construção do que aí vem.

Tentara explicar a João que era preciso dotar Pedro de mais força, porque Afonso, vítima da doença, talvez não fosse capaz de vir a ser rei. João tapara a cara com as mãos mas ainda encontrara ânimo para protestar:

- Não fales assim, Luísa. Deus sabe o que faz, Deus sabe porque nos tirou de Vila Viçosa e nos colocou aqui...

- É claro que Deus sabe, mas temos de saber ouvi-lo, não é isso que diz o pregador régio? Temos de ajudar a que a sua vontade se concretize, não podemos esperar que faça tudo - respondera com convicção a rainha.

João sabia bem que podia contra-argumentar, dizer-lhe que lhe parecia que era ela que estava a impor a sua vontade ao Altíssimo e não o contrário, mas para quê discutir se, no fundo, sabia que a mulher tinha razão: Afonso estava a cada dia mais gordo, mais disforme, e percebia-se que o seu raciocínio era lento, que as suas fúrias repentinas, que tanto assustavam os criados, denunciavam uma vontade tirânica que sem o contrapeso do bom senso e da inteligência poderiam ser perigosos num lugar de poder. Como Pilatos, no entanto, preferia lavar as mãos do assunto:

- Falas nisso porquê, o que pensas fazer? - perguntou, derrotado.

- O que penso fazer? Mas o problema é nosso, João, não meu; o problema é de Portugal, não de Medina-Sidónia. Nós é que temos de encontrar uma solução, juntos... - protestou Luísa, que detestava a forma como o marido lhe passava todas as responsabilidades. Subitamente amargurada, pensou: Excepto quando foi preciso escolher uma concubina!

João recuou. Depois de tantos anos de casamento sabia ler os pensamentos da mulher e tinha consciência que lhe dera uma arma contra a qual não tinha defesa.

- Desculpa, é claro que o problema é nosso. Mas eles são ainda tão pequenos. O Pedro vai fazer seis anos, o Afonso tem dez anos, quase onze, é certo, mas como é que pretendes saber já como cada um deles vai ser, em quem é que se vai tornar? O Afonso tem imensas qualidades, se for educado, guiado, pode desenvolvê-las e deixar de lado as birras de criança- protestou.

Mas Luísa pensava à distância e acreditava na sua intuição. O investimento deveria ser feito, discretamente, em Pedro. Sem que ninguém desse por isso, sem que pudessem dizer que favorecia um dos seus filhos em desprimor do outro, mas era urgente separá-los, até porque o mais novo já começava a seguir os passos do irmão, e já corriam histórias de terem sido vistos juntos em arruaças. As consequências do mal que afectara Afonso eram bem visíveis, e os conselheiros entenderiam esta medida de precaução. E que melhor dia para anunciar a sua decisão do que nos seis anos de Pedro, que se celebravam dali a semanas? Os novos projectos provocavam-lhe sempre um surto de vitalidade. Começaria já a tratar deste assunto.

João olhou-a uma vez nos olhos e percebeu que a «decisão conjunta» estava tomada. Sorrindo para dentro, com ironia amarga pensou que a sua parte neste «projecto» seria a mais simples. Bastava-lhe uma pena com tinta fresca e que a sua mão direita cedesse a apor ao documento final uma assinatura: João IV, Rei de Portugal.

Quinta Real de Alcântara, 26 de Abril de 1654

 

aquele dia Catarina acordou Pedro com um «ataque de

cócegas». - Pára, Catarina, pára - dizia Pedro, sem conseguir conter as gargalhadas histéricas.

- Só paro se me disseres o que é que de importante acontece hoje - dizia a irmã, divertida, enquanto o tirava da cama e o aconchegava ao colo.

- Faço anos, faço anos, é o dia mais importante do ano inteiro - dizia ele, as lágrimas de tanto rir a correrem-lhe pela cara abaixo.

- Isso mesmo, D. Pedro, e seis anos é uma idade muito importante, porque...

- Porque é quando se aprende a ler e a escrever, mas eu já sei as duas coisas - protestou o irmão mais novo.

- Pois sabes, mas tens de saber muito mais. Mas o meu presente não é uma caneta, está descansado...

- Mostra, mostra, mostra o meu presente - protestou Pedro, as mãos a correrem os bolsos do vestido da irmã, os olhos a procurarem à sua volta.

- Não está aqui. Tens de tomar banho e vestir-te porque guardei--o no jardim.

Voltando-se para a aia do irmão, pediu-lhe:

- Teresa, por favor, vista o meu irmão, mas não lhe ponha já a roupa de festa, que daqui até ao lanche ele fá-la em farrapos - disse a rir.

Meia hora depois Pedro estava pronto, o cabelo encaracolado fu- gira a ser domado pela água que a criada lhe tinha aplicado, os olhos, enormes e escuros como os das irmãs, estavam abertos de excitação.

- Agora, Catarina, agora já posso ver o meu presente?

Catarina pegou-lhe na mão e levou-o pela escada de serviço da Quinta Real de Alcântara - que alívio sentia por os pais terem decidido que era tempo de quebrar o luto e mudar de ares, que já não conseguia atravessar os corredores da Ribeira sem ouvir a voz de Joana ou o riso de Teodósio. Tinham chegado àquela quinta que ela e o pai adoravam, uma quinta informal, um conjunto de casas mais pequeninas, num jardim imenso, com fontes e laguinhos e hortas cheias de alfaces tenras, todo ele murado, mas com um murinho baixo que deixava ver bem o rio ali tão perto, onde desaguava a ribeira de Alcântara, quase uma praia entre eles e a água. Já lá pernoitavam há uma semana e aquele dia estava particularmente bonito, quente, o céu absolutamente azul. As mesas já estavam a ser postas no jardim para a festa de anos de Pedro e os criados iam e vinham agitados. Mas o irmão não a deixava perder-se muito tempo em pensamentos:

- O meu presente, mana Catarina? - perguntou na sua voz mais meiga, com aquela arte fantástica que possuía de manipular as pessoas à sua volta.

Catarina levou-o à cavalariça, e num cestinho, a um canto, estava um cachorro de meses, a coleira de cabedal presa por um cordel para que não fugisse:

- É para mim, é para mim? - exclamou, absolutamente feliz, Pedro, abraçando o cachorrinho. - Como é que se chama?

- Não faço a mínima ideia, tu é que tens de lhe dar um nome...

- Teodósio - disse o irmão pequenino, numa voz que revelava todo o seu entusiasmo.

Catarina sentiu o coração parar de bater. Teodósio, o nome do príncipe herdeiro, do seu irmão querido, dado a um cão. Respirou fundo. Sabia que ao escolher aquele nome, Pedro manifestava, à sua maneira de criança, exactamente a mesma adoração pelo irmão mais velho que tinha partido, num desejo infantil de que o primeiro ser vivo a que podia chamar seu preenchesse o imenso vazio deixado pela falta do herói. Mas estava fora de questão, a mãe e o pai sentiriam uma dor imensa, e aquelas más-línguas da corte nunca entenderiam nada do que se passava no coração de um menino de seis anos.

- Não pode ser, Pedro, esse nome já tem dono, é do nosso Teodósio. A mãe e o pai icavam tristes sempre que ouvissem chamar por ele - disse Catarina, jogando a sua melhor carta. Pedro não faria nada que desagradasse à mãe, por quem tinha uma veneração absoluta.

- Teo, então. Só Teo, e assim só eu e tu é que sabíamos que o cão mais esperto do Mundo tinha o nome do mano?

Catarina riu. O disfarce era facilmente ultrapassável, mas talvez ninguém se desse ao trabalho de pensar no assunto duas vezes.

- Fica Teo - disse ela, passando-lhe as mãos pelo cabelo -, e não te esqueças que, tal como o nosso irmão, este rafeiro alentejano também nasceu em Vila Viçosa. Foi o Manel, o marido da nossa ama Carminho, que mo trouxe.

O presente passou a ser ainda mais precioso e Catarina deixou o irmão, sob a supervisão da criada, a tentar ensinar ao pobre cachorrinho como fazer autênticos números de circo.

Sentada no jardim com o bordado na mão, Catarina olhava, naquele im de manhã quente, os campos verdes que desciam até ao rio. Luísa abriu a porta e, ao vê-la ali sozinha, saiu para o sol. Sorrindo--lhe os bons-dias, sentou-se ao seu lado no banco de madeira, forrado de almofadas.

- Está-se bem no campo - disse-lhe a mãe, respirando fundo.

- A mãe devia parar de trabalhar mais vezes. Cansa-se tanto - protestou a filha.

- Sei isso, luz dos meus olhos, mas tem de ser, é preciso cuidar deste reino, e não é nada fácil - contestou Luísa.

Catarina comoveu-se. Comovia-se sempre que a mãe lhe chamava, com aquele sotaque castelhano, «luz dos meus olhos», que sorte tinha em ser das únicas escolhidas, daquelas raras pessoas com direito ao lado mais terno e dedicado da mãe, que se tornara ainda mais doce com ela ao longo dos últimos meses. Catarina estava grata por isso. Quando Joana morrera tivera tanto medo de que a mãe a condenasse por ser ela, a segunda ilha, a sobreviver. Percebera, então, que a mãe era acima de tudo uma mulher justa, exigente com os outros, mas muito menos exigente do que era consigo mesma.

O silêncio quebrou-se:

- Sempre tão pensativa, ilha. Hoje é um dia feliz, o Pedro faz seis anos, e tenho boas notícias para ti e para ele.

A infanta virou-se para as ouvir.

- O pai vai hoje dar a Pedro uma Casa, a Casa do Infantado, com terras, rendas e tenças, queremos que seja a Casa atribuída daqui em diante aos segundos ilhos do rei. Também vais receber terras e um património próprio, ilha, porque és hoje a princesa do reino, e é justo que ao título correspondam bens. Além do mais, é uma forma de trazer à coroa as terras dos nobres que nos abandonaram a favor de Espanha. É preciso consolidar a riqueza dos Bragança, que está já de si tão delapidada, com os investimentos feitos nesta guerra sem im... Se um dia casares, terás de doar ou vender essas terras ao teu irmão Pedro.

Catarina estava com di iculdade em digerir toda esta informação, comunicada assim de chofre, numa manhã de sol, num terraço de uma quinta. Sabia bem que parte da nobreza se aliara a Castela, percebia o conceito de reconverter esses bens em bens da coroa, mas uma Casa do Infantado para Pedro, uma Casa aos seis anos, porquê? Pedro, tal como Afonso e ela própria, pertencia à Casa da Rainha, com uma estrutura rígida, que incluía desde cozinheiros a confessores passando pelos moços da estrebaria, e que respondia às necessidades de todos. Ter Casa era um acontecimento imenso, que acontecia quando os príncipes atingiam a maioridade, aos 14 anos, lembrava-se bem da excitação de Teodósio quando chegara a sua vez. Subitamente, como num pesadelo, o pensamento assaltou-a e, sem se conter, gritou numa voz com um toque de histerismo:

- E o Afonso, mãe? O Afonso é mais velho do que o Pedro, é o herdeiro da coroa, o futuro rei, também vai ter Casa, claro...

Luísa desviou o olhar para o horizonte.

- Tu e Afonso continuarão na Casa da Rainha, é o mais indicado para uma rapariga e para uma criança doente, que não pode sozinha gerir a responsabilidade de uma Casa sua.

Catarina estava agora de pé, os olhos brilhavam com uma das suas raras, mas sempre memoráveis, fúrias:

- Não posso acreditar que o rei e a rainha façam uma coisa destas ao herdeiro do trono... e não me diga que o seu primogénito é para sempre o Teodósio, porque o Teodósio morreu, mãe, e o sucessor legítimo, legítimo, está a ouvir, mãe, é o Afonso. Esteve doente, pois esteve, mas se a mãe e o pai o põem de lado agora, a corte, os conselheiros, toda a gente vai saber o que vos vai na cabeça. Pior do que tudo, o Afonso vai perceber imediatamente o vosso plano...

- Infanta Catarina de Bragança, já chega! Plano? Mas o que é isto de se virar para a mãe com acusações? O que se decidiu está decidido e ai de ti se voltares a insinuar seja o que for. Uma ilha a descon iar do rei e da rainha? Na tua querida Inglaterra, cabeças rolaram por muito menos.

A última frase doeu-lhe, doeu-lhe muito. Era a mãe que a incitava a pensar constantemente naquela ilha distante, porque é que vinha agora atirar-lha à cara?, como se fosse um sonho egoísta, só seu, quando era ela, Catarina, que se dispunha a deixar o país e a família a bem de Portugal. Escondeu a cara no bordado e manteve-se em silêncio. Como se pode odiar tanto alguém que se ama tão profundamente, pensou, enquanto as lágrimas caíam numa cascata. Falaria com o pai, o pai entendê-la-ia, o pai corrigiria este erro tremendo, que ofenderia tanto Afonso. Como lhe podiam pedir, depois, que não se revoltasse, que não continuasse por um caminho de colisão com os interesses da rainha? Contra os interesses da rainha, não, coitadinho, contra o facto de atentarem contra os seus próprios e mais do que legítimos direitos, suspirou a princesa.

Nessa tarde, a notícia foi dada durante o lanche. João deu ao ilho um documento com as armas da recém-criada Casa do Infantado, a planta do Palácio Corte Real onde icaria sedeada e, simbolicamente, uma espada. Pedro esgrimiu-a no terreiro, entre o riso dos convidados.

Frei Pedro e Catarina tinham-se retirado para um banco de pedra escondido entre o arvoredo, e nem um nem outro disseram palavra, mas também não precisavam. Como que por instinto ambos olharam, em simultâneo, para a janela que dava para o jardim e escrutinaram o vulto volumoso e atarracado de uma criança que se escondia atrás dos grossos reposteiros, os olhos presos na cena que acontecia cá em baixo.

- É o Afonso - disse, com um soluço, Catarina.

Frei Pedro limitou-se a abanar que sim com a cabeça.

Paço da Ribeira, 16 de Maio de 1655

 

atarina não se lembrava de se ter sentido tão sozinha na vida. O ano

corria lento e, se não fosse a compensação de a mãe a chamar cada vez mais para junto de si, achava que teria morrido de tristeza. No último Natal, só ela, Afonso e Pedro se tinham juntado ao pai, na Sala da Música, para entoar baixinho o seu Adeste Fidelis, e o Presépio fora erguido sem a alegria do costume, como se naquele ano ninguém naquela casa quisesse ouvir falar de vida.

Mas Luísa não era mulher de deixar que ninguém icasse preso à sua dor, e a agitação internacional, os embaixadores que chegavam e partiam, o Tejo cheio de barcos carregados de especiarias, os pregões dos vendedores e os negócios dos comerciantes mesmo à porta do palácio não permitiam que fosse quem fosse se pudesse dar ao luxo de fazer parar o tempo.

Afonso reagia um pouco à semelhança da mãe, enfrentando o desgosto e a confusão interior com agitação, a dor com uma actividade desabrida, que punha os cabelos em pé à família inteira. Catarina cruzava-se com o seu mestre, o prior da Cedofeita, e baixava os olhos na esperança de que ele não decidisse reiniciar os seus queixumes contra o irmão e o seu desapego à educação que tão esforçadamente lhe procurava dar.

As guerras entre Luísa e Afonso eram cada vez piores, e Catarina escutava-as aterrorizada, gelada por dentro, olhando para o pai, suplicante: se ao menos João tomasse as rédeas da situação. Mais do que tudo, Afonso queria a atenção do pai, faria o que fosse preciso para a obter, mas por muito que esticasse a corda não parecia conseguir levá-lo a tomá-lo em mãos, a espancá-lo que fosse, mas pelo menos a mostrar-lhe que se interessava. Mas João reagia como um derrotado, levantava-se da mesa, passava a mão pelo cabelo da única ilha que lhe restava e saía, arrastando o pé inchado pela gota. Minutos depois, de longe, as notas do cravo enchiam o palácio, obrigando-o a mergulhar de novo numa profunda nostalgia.

Só os planos e as estratégias para a casar pareciam dar alguma alegria a uma Luísa atolada de assuntos de Estado mas consciente de que agora lhe restava apenas Catarina como trunfo para jogar, pelo menos a curto prazo, na aliança dos outros países contra Castela. Mas se Castela não terminasse a guerra que fazia a Portugal nas fronteiras, nas cortes estrangeiras e em Roma, não podia negociar a ilha com o valor absoluto de princesa, já que os seus interlocutores continuariam a considerá-la ilha de duques! Era preciso pensar numa solução...

Luísa poupava a filha aos pormenores, o que irritava Catarina:

- Porque é que a minha mãe não me acha apta a perceber os assuntos do reino, como ela própria? - perguntava zangada a D. Leonor.

D. Leonor não fazia a menor ideia, mas supunha que Luísa, no fundo, e pelas circunstâncias do casamento que tinha e da subida ao poder que acontecera também através dela, considerava que a ilha adorada não possuía a força anímica para se transformar em soldado, como acontecera à mãe.

Repreendendo Catarina pelo tom com que falava da rainha, lá deixou cair:

- Porque a sua mãe espera viver as suas dores e deixar-lhe só as alegrias.

Catarina sentia que em parte era assim, mas a verdade é que acabava por ter de se educar pelos cantos do paço, em conversas ouvidas aqui e ali, em lugar de ser posta ao corrente de toda a verdade, que a inal a deixaria mais preparada para as tais cortes bárbaras de que toda a gente falava. D. Leonor pensava o mesmo, mas a sua condição de protectora e empregada leal impediam-na de tecer a mais pequena crítica à forma como a sua rainha decidia criar a filha, a sua princesinha.

Luísa fechava-se horas em conselho com o embaixador de Portugal em França e Catarina sabia que, embora o coração de ambas estivesse mais inclinado para a opção inglesa, o tempo passava e Charles não parecia mais perto do trono do que há uns anos. Por outro lado, era preciso aproveitar a boa vontade que França nos demonstrava, desejosa de conseguir aliar-se a nós contra Espanha. Mas os franceses, nitidamente, empatavam, protestava Luísa, furiosa. Ainda acabariam por casar o pequenino Luís com uma princesa de Espanha e juntar as suas forças à de Castela contra Portugal. Nunca fiando.

Fosse como fosse, era preciso mandar pintar Catarina, fazer pequenos retratos que seriam depois entregues aos embaixadores para que negociassem o seu futuro casamento. Os candidatos queriam ver o que lhes era oferecido, mas desejavam, ainda mais do que aferir a beleza da possível mulher, saber o valor do seu dote.

Não era a primeira vez que Catarina pousava para um pintor - e lembrou com ternura aqueles dois quadros, dela e de Joana, quase gémeas, de vestidos de seda preta, as golas de renda imensas, os punhos bordados também, e o toucado na cabeça ricamente tracejado a io vermelho, e com pompons vivos, da cor das maçãs do seu rosto, em contraste com o seu cabelo de um preto de azeviche, a franja colada à testa. Mas quem o olhava comentava apenas os seus olhos, imensos, espantados e curiosos, que transmitiam a sua personalidade tímida e, no entanto, determinada e segura quando as suas convicções estavam em causa.

Mas agora o desafio era diferente, a parada mais alta, como lhe explicava D. Leonor, enquanto as cabeleireiras e as costureiras a rodeavam para lhe preparar o cabelo, o vestido, os adereços com que deveria igurar no quadro que um famoso pintor francês, Nocret, vindo de propósito a Lisboa, iria pintar.

- Os reis franceses devem estar realmente interessados em si, D. Catarina - dizia-lhe Maria do Rosário, que mantinha a sua incondicional lealdade à infanta.

Maria do Carmo acrescentou:

- Ou o cardeal - e torceu o nariz.

- O cardeal Mazarino? - perguntou Catarina a medo. A personagem assustava-a, os relatos eram sempre sinistros, de um homem da Igreja que servia a tudo e a todos, menos a Deus.

- Esse mesmo - respondeu com ar sério Maria do Rosário.

- É verdade, voltaste este ano a ir passar a Páscoa a casa... foi o teu tio... -comentou, irónica, Maria do Carmo.

- Pois foi mesmo o meu tio, e tu gostavas era de ter um tio igual -ripostou Rosário, zangada, porque sabia bem que a amiga de umas horas, e inimiga de outras, queria chamar-lhe provinciana.

- Parem com isso. O que disse o teu tio? - interveio Catarina.

- Que Mazarino está a fazer força para o casamento de D. Catarina com Luís XIV, mas que quer muito dinheiro...

Os olhos de Catarina abriram-se, preocupados. Não porque a chocasse ouvir que a negociavam a troco de dinheiro, mas porque sabia que era exactamente o facto de os cofres portugueses estarem vazios que a podia impedir de casar, de contribuir para constituir alianças que permitissem aliviar a mãe e o pai dos encargos de defender Portugal. Sabia que as pessoas estavam cansadas de tantos anos de miséria e não olhariam com bons olhos que os pais se endividassem para casar a filha - haveria sempre quem dissesse que procuravam bene ícios pessoais, usando para tal os bens da nação.

Mas Maria do Rosário ainda não contara tudo:

- Não quer saber mais, D. Catarina?

Antes que a infanta pudesse dizer que não, continuou:

- Sei, ouvi aqui na corte - e lançou um ar de desprezo a Maria do Carmo -, que a sua mãe, a rainha, está a pensar mandar frei Domingos do Rosário, o seu confessor, na companhia do embaixador de Paris em Lisboa, procurar aprofundar as negociações...

Catarina corou, como corava quando estava mesmo zangada. Mas tinha de esconder a raiva: porque é que a sua querida mãe, sempre tão diligente com ela, insistia em tratá-la como se fosse demente? Porque é que não lhe contava os planos que tinha para ela, de forma a que uma aia ou uma dama não a apanhassem desprevenida? Mas Catarina sabia que era assim. Luísa tinha a força de um estadista e, com o pai progressivamente mais doente, assumia o papel com energia e dedicação, mas no fundo continuava a desejar que a ilha permanecesse uma criança ingénua e pura. Como se isso lhe aumentasse a cotação, pensou.

Estava na hora de entrar para a sala, onde Nocret já tinha a tela montada no tripé e as tintas espalhadas. Ninguém mais podia estar presente, excepto D. Leonor, que se sentaria a uma janela, guardiã da honra da princesa, mas com ordens para não a distrair. Nocret já tinha fama que chegasse para poder impor as suas regras.

Para a retratada aquela semana foi mágica. Nocret era conversador e, embora, não fosse luente em castelhano, conseguiam entender-se. Catarina nunca começava as conversas, mas o pintor tinha a arte de a fazer rir com os seus comentários e não precisava de ser encorajado para falar da corte francesa; com os seus «rr» carregados contava cenas perfeitamente picarescas, que a infanta atribuía ao seu desejo de se fazer de interessante, porque não queria acreditar que num paço onde o rei e a rainha estivessem presentes se passassem coisas daquelas. Por vezes D. Leonor tossia ou levantava-se para dar uma pequena voltinha pela sala, a pretexto de esticar as pernas, porque achava que o francês se esquecia que falava com a princesa de Portugal e, se tudo corresse bem, a sua futura rainha.

Mas a princesa parecia importar-se pouco com protocolos, tal a ânsia de perceber que vida e que mundo a esperavam. Rezava todos os dias à Senhora das Candeias para que este «negócio» com Luís XIV fosse por água abaixo e que Charles se revelasse capaz de angariar patrocínios para a sua causa. Cautelosa, porque sabia que a mãe nunca lhe perdoaria se desse indicação a um súbdito de Sua Majestade que o seu coração se inclinava para o outro lado do canal da Mancha, lá ia perguntando notícias de Charles. O que ouvia deixava-a angustiada - agora, pelo que dizia a língua viperina do pintor, andava de amores com uma Catherine Pegge e assentara arraiais em Bruges. Dizia-se que a senhora já estava à espera de um ilho seu, mas quanto a isso, ria Nocret, não havia de ser novidade nenhuma, e quantos mais haveria de outras mulheres.

O pintor não era desprovido de sensibilidade e depressa percebeu o que inundava a cabeça da pequenina infanta, e que 17 anos, mesmo que a caminhar para os 18, não eram na corte portuguesa iguais aos de uma dama da corte europeia, onde as próprias famílias faziam questão de preparar as suas raparigas mais bonitas para se tornarem concubinas de um duque poderoso, ou com sorte, e se pudessem ambicionar a tanto, do próprio rei.

Concentrou-se em captar os traços da princesa, e mordeu muitas vezes a língua. Quando, a pedido do embaixador Jacques de Jant, foi obrigado a escrever a Henriette Marie, mãe de Charles, teceu os maiores elogios à infanta. Era sensível, generosa, bem-humorada e simultaneamente de uma simplicidade e de uma obediência que certamente agradariam a Sua Majestade. E se era bonita, insistia o patrono, enquanto se debruçava sobre o seu ombro a vê-lo escrever: «A infanta D. Catarina tem um cabelo negro, uns olhos imensos, e uma elegância muito própria. De estatura pequena, o que em nada a desfeia, já que o corpo é extremamente bem proporcionado, dando-lhe um ar leve, que certamente Suas Majestades acharão belo.» Nocret não conseguia escrever que Catarina era linda, porque estava longe de o ser, mas não mentia quando dizia que o seu encanto ia para além dos padrões convencionais de beleza.

Numa manhã clara em que a luz de Lisboa se re lectia na tela que acabara de pintar, Catarina perguntou-lhe, com toda a franqueza:

- Monsieur Nocret, o senhor que conhece e pintou tantas mulheres, acha que vão troçar de mim?

Nocret deu um salto e ia pintando a sua própria cara com o pincel que tinha na mão:

- D. Catarina, que disparate.

- Disparate não, sei muito bem que estas não são as roupas que as damas da corte francesa usam...

E, olhando para D. Leonor de soslaio, aproveitou que a velha dama cabeceasse, para acrescentar:

- Não percebo nada de modas, nem me podia vestir de outra forma, porque é este o costume da corte portuguesa, mas dizem-me que por lá os decotes são arrojados, as cinturas marcadas. Tudo pormenores que a madre do Convento de Alcântara conta em detalhe, sem omitir um único, para depois tapar a boca como se estivesse chocada e explicar-nos que Deus castigará tais exibicionismos - acrescentou com um sorriso irresistível.

O pintor desatou às gargalhadas:

- C'est bon ça.

- Diga?

- Mantenha esse sentido de humor e esse espírito de observação, infantazinha, o resto aprende depressa. Agora venha cá, enquanto o seu cão de guarda dorme - e apontou a rir com a ponta do pincel para D. Leonor, que já ressonava.

Catarina correu para o lado de lá da tela e abriu a boca de espanto:

- Mas não é esse o meu vestido! Esse decote que deixa ver os ombros, esse brocado lindo, e esse encarnado nos punhos. Aliás, como é que sabe como são os meus ombros? - perguntou, fascinada.

Nocret ria deliciado, nunca mais se esqueceria desta semana, desta infanta. Talvez um dia fosse sua rainha, França icaria a ganhar, faria questão de o dizer ao embaixador e a quem encontrasse pelo caminho. Ao rei Luís, se lhe entregasse o retrato pessoalmente. De repente, nervoso, implorou-lhe:

- Princesa, não vou mostrar este retrato à sua mãe, por isso não me denuncie, por favor.

- A minha mãe nunca o deixará sair do paço sem lhe mostrar o que pintou, não o vai deixar mandar para a corte francesa um retrato que não tem a sua aprovação - protestou Catarina, assustada.

Nocret retirou de trás da tela que lhe mostrara uma outra:

- Este é que é o que a sua mãe vai ver. E mais ninguém.

Catarina olhou para a tela e suspirou:

- Mas esse é que é o verdadeiro. O meu cabelo preso nessas tranças horríveis que as camareiras insistem que está na moda, esse vestido com gola até ao pescoço, os folhos todos... Não pode enganar o rei de França, nem o de Inglaterra - murmurou.

- Não engano ninguém, D. Catarina. Veja melhor. Os seus olhos, a sua expressão, a intensidade do seu olhar, a generosidade e a determinação são traços que estão presentes em ambos. Que importa um vestido? No dia em que chegar a qualquer uma dessas cortes dão-lhe um guarda-roupa novinho em folha, penteiam-lhe o seu magní ico cabelo de outra forma, e voilà, está igual ao quadro que lhes mostrei e não àquele que eles nunca viram.

Catarina estava visivelmente a lita. Nunca, mas nunca mesmo, omitira nada à mãe. A mãe con iava nela, a sua única ilha, a sua única ilha viva, e por isso mesmo com a obrigação de honrar a memória de Joana, que, se não fosse a tosse e a doença, estaria ali em lugar dela. Filha primeira, princesa, aquela que cimentaria as alianças do reino.

Mas Nocret, vendo-a assim, apressou-se a dizer:

- Esqueça, princesinha. Vou fazer tudo direitinho, não se preocupe, não a quero ver de lealdades divididas, nem nervosa por causa das minhas ideias, estava só a tentar ajudar...

Catarina virou as costas, para que não lhe vissem as lágrimas, e saiu a correr. Tinha tanta pena. Estava tão mais bonita no outro, naquele que era segredo, no que mais ninguém em Portugal veria. Mas sim, icava mais sossegada com a verdade. Fizera bem, o seu confessor certamente não aprovaria outra conduta. Ao jantar, quando a mãe elogiou o retrato, Catarina agradeceu, olhos no prato. O pai e a mãe comentaram a excessiva modéstia da menina, e Pedro, que agora já vinha à mesa, protestou por não o ter visto.

Catarina ensopou a almofada de lágrimas naquela noite, e agora já não havia Joana para se aconchegar a ela dentro dos seus lençóis, como sempre acontecia quando ouvia os soluços da irmã mais pequenina.

Na manhã seguinte, quando se preparava para descer para as lições, que desde sempre recebia na salinha contígua aos aposentos da mãe, um criado trouxe-lhe um pequeno embrulho e um bilhetinho que lhe passou para a mão com um ar comprometido. O instinto disse a Catarina que era melhor subir de novo ao quarto, a pretexto de um esquecimento, e abrir o presente sozinha. Sentada sobre a cama, desatou os cordéis que prendiam o papel e exclamou de alegria e terror. Nocret enviara-lhe a miniatura que a mãe, o pai e toda a gente acreditava que circulava, de mão em mão, pelas cortes com rapazes em idade de casar. Só ela e ele saberiam que havia outro...

Abrindo a janela para o Tejo, Catarina debruçou-se e cantou. Há muito tempo que não sentia a alma tão leve. Tinha a certeza absoluta que, lá em cima, o seu querido Teodósio ria a bandeiras despregadas.

Lisboa, 27 de Maio de 1656

 

mãe abriu a porta e chamou-a. Catarina copiava uma partitura para

o pai e quase esborratou o que estava a fazer.

- Catarina, chega aqui.

Catarina puxou a cadeira para trás, pousou a pena no tinteiro, pediu licença à professora e entrou apressadamente na sala de trabalho da mãe. Teria descoberto tudo sobre o quadro? Catarina tremia como varas verdes, e ficou sem pinga de sangue quando a mãe começou:

- Faz um ano que Nocret saiu de Lisboa.

- Sim, e então? - perguntou, desejando que a ira da mãe se manifestasse depressa e a castigasse, para que tudo acabasse rapidamente.

Mas Luísa só falava do pintor para marcar um ponto no tempo. E continuou:

- Faz um ano que frei Domingos do Rosário foi para Paris, e, quer acredites quer não, todos os dias, daí até hoje, lhe tem sido prometida uma audiência, em vão.

Catarina sentiu-se corar, primeiro de alívio, logo a seguir de vergonha, e de indignação por fim:

- Mãe, tudo isso por causa de mim? Deixe-me icar perto de si, estou bem. Diga ao pai que mande vir dom Domingos, essa gente não o merece sequer a ele...

- Catarina, não sejas tola, por Deus. Quando se negoceia uma aliança entre dois países, e se salda essa aliança com um casamento, é preciso paciência. Tu, minha ilha, és o melhor que Portugal tem para oferecer como selo da nossa lealdade...

- Mas não chega, sequer, para que recebam o seu confessor, mãe...

Luísa franziu o sobrolho, zangada. Não precisava de que também Catarina pusesse o dedo na ferida. Justificou-se:

- Não tem nada que ver connosco, Catarina. Roma continua sob domínio espanhol, e os franceses, pelos vistos, não estão assim tão ansiosos por cimentar uma frente contra eles. Quanto a ti...

- Quanto a mim? Mas falaram de mim?

- Não te disse que finalmente frei Domingos foi recebido?

Catarina estava confusa:

- Não, disse apenas que não tinha havido audiência.

- Mas houve, um ano depois, mas houve. Com o cardeal Mazarino.

Catarina lembrou-se do comentário do tio de Maria do Rosário. Também ela não gostava daquele homem.

- E?

- Pedem um dote de um milhão de cruzados, e a cidade de Tânger. O cardeal pede para si próprio outros seiscentos mil...

- O cardeal? Age em nome da coroa francesa e ica com uma parte? -perguntou Catarina, chocada.

Luísa encolheu os ombros. De facto, D. Leonor tinha razão, talvez não tivesse feito mal nenhum pedir à ilha que estivesse presente em reuniões do conselho... Decididamente, quando António Vieira voltasse ia deixar-se de preconceitos e pedir-lhe que tutorasse a infanta - é o que dá con iar em conventos de freiras e professoras que pouco mais sabiam do que o bê-á-bá.

- E agora? - indagou Catarina, de novo vermelha como um pimento, não era agradável saber que só a aceitavam a troco de um preço tão alto.

- Agora não sei. A carta conta que o cardeal lhe afirmou que a família real tinha ficado muito impressionada com a beleza do teu retrato.

Catarina corou de novo.

- Escusas de corar, ilha minha. És bonita, graças a Deus, e os adereços e o vestido que tinhas para aquele quadro eram magní icos, deixavam perfeitamente entender a essa gente que aqui em Lisboa não ignoramos nem o que é bom, nem o que se usa.

Catarina ia-se engasgando com os comentários da mãe, mas conseguiu manter-se direita, encostada ao reposteiro:

- E o tratado de paz, a aliança contra Espanha, que sossegaria tanto o paizinho?

- Pois essa é a pior parte da história, por isso a guardei para o im: ameaçam no meio disto tudo, e sabe-se lá como, nem porquê, unirem-se a Espanha contra nós.

Catarina benzeu-se apressadamente. Para quando um país realmente livre, sem a sombra de Castela? Quantos mais reveses aguentaria o rei?

- Isso não faz qualquer sentido. Mesmo que tivéssemos esse dinheiro todo, que interesse poderíamos ter em fomentar uma ligação com gente que nos quer trair antes sequer de um papel assinado?

Luísa acenou que sim com a cabeça e mandou-a retirar-se.

Catarina deambulou pelos corredores pensando na quantidade de informação que acabara de receber. Nem sequer sabia o que sentir. Se ao menos tivesse Joana com quem partilhar isto tudo... e o pai? Porque é que ele não estava ao lado da mãe? Sabia que era Luísa de Gusmão quem liderava naquela casa, mas não era característico do pai não estar a seu lado numa altura tão importante.

Ia descer as escadas, mas mudou de ideias, a curiosidade fê-la andar até à porta dos aposentos reais. Discretamente, como tinha aprendido desde pequenina, abriu a porta e escondeu-se atrás da cortina mais próxima. O quarto estava todo escuro. O pai estava deitado na cama e gemia. Não havia médicos, não havia conselheiros e a sua mãe estava a tratar do reino. Quem tratava do pai? O que é que ele tinha? Catarina podia ser nova, mas já tinha visto os irmãos a serem levados pela morte, e reconhecia a gravidade dos gemidos das dores do pai.

- Pai? - disse ela num sussurro enquanto se aproximava da cama.

João rebolou para o lado onde Catarina estava e com esforço abriu os olhos. Devia estar a delirar de dores. Não podia ser Catarina, parecia-lhe um anjo. Proferiu o nome dele como se fosse sagrado. Será que ia morrer já? Por momentos icou aliviado de já ter escrito a António Vieira, exigindo que ele viesse incógnito. O tom da carta tinha sido grave. João sabia que não tinha muitos meses de vida. Sabia que o seu corpo estava cansado de lutar contra as pedras nos rins, a gota, as dores... e sabia também que a sua alma estava a partir, um bocadinho com o ilho, um bocadinho com Joana, e todo o resto na responsabilidade do dia-a-dia de um reino que, pensando bem, talvez nunca tivesse querido governar. Não se preocupava com Catarina, porque a conhecia mais forte do que parecia e sabia da ligação desta com António Vieira, aliás, tinha sido esta uma das grandes razões para lhe escrever. Mas doía-lhe que a sua ilha mais sensível tivesse, em tão poucos anos, que sofrer tantas mortes próximas.

- Catarina... - repetiu o pai.

Catarina beijou o pai na testa sem pensar duas vezes no perigo de infecção - Catarina era assim, o amor superava sempre o medo - e, sabendo que nada poderia fazer, correu para a capela para rezar com todas as forças que tinha para que o pai não a deixasse também.

Quinta Real de Alcântara, 25 de Outubro de 1656

 

oão decidira ir a cavalo, apesar da gota e da dor constante do lado

direito, que os médicos atribuíam às pedras nos rins. Estava cansado do ritmo das carruagens, que acusava de o deixarem tão dorido como se tivesse apanhado uma sova, e desejava apanhar ar. Se tinha de ir à Quinta Real de Alcântara iria montado. Catarina decidiu acompanhá-lo, também ela cansada de meses de depressão e clausura entre os jardins da Ribeira e a confusão dos comerciantes no Terreiro do Paço. Noutras circunstâncias Catarina talvez tivesse sido mais reservada, mas depois da forma como tinha visto o pai e pressentido que ele não estava bem, abriu-lhe o coração, esquecendo o seu papel de infanta e fazendo João esquecer o seu papel de rei.

Pai e ilha conversaram como há muito não o faziam, com a liberdade de um espaço aberto, sem camareiros nem conselheiros, sem criados, nem moços estribeiros, sem a mãe, sem Afonso, sem Pedro por perto, com o ouvido sempre à escuta.

Relembraram Vila Viçosa, falaram da música que Catarina transcrevia cuidadosamente para o pai, discutiram que nome dar ao único cachorrinho da ninhada da rafeira alentejana com que tinham decidido icar, e acordaram em Açor, que lhes lembrava (a ele de verdade, a ela de ouvir contar) os grandes pássaros que, elegantes como águias, sobrevoavam os céus azuis de Vila Viçosa. A medo, a certa altura, João perguntou:

- Ficaste triste por as negociações com França não terem dado em nada?

Catarina olhou-o com ternura, e um sorriso lindo estendeu-se de uma orelha a outra:

- Nada, pai. Fiquei preocupada que o pai não tivesse mais soldados para o seu exército e que se visse obrigado, tão doente e cansado, a pensar todos os dias onde vai arranjar dinheiro para reforçar as nossas fronteiras, mas sinceramente não iquei nem com um bocadinho de pena de não ir para Paris.

João acenou a cabeça, contente. Voltou à carga:

- Sabes que a ixação da tua mãe não era o rei Luís, mas Charles. Não sei se o rapaz se recomenda, pelo que ouvi é bonito e corajoso, mas não lhe tem feito bem andar anos sem rei nem roque por esse Mundo fora...

Catarina icou sem pio, e o pai, que tinha uma sensibilidade a iada, deu logo por isso:

- Falamos pouco, ilha, mas percebo que preferias um rei sem rei nem roque...

- Não sei, pai, mas cresci com a mãe a falar-me de Charles, no facto de o seu pai ter sido assassinado, de a mãe o ter deixado ainda criança, de ter crescido sem trono, mas a lutar por ele...

João atirou a cabeça para trás a rir:

- És uma romântica, Catarina, e ou me engano muito ou as tuas damas ou criadas andam a passar-te livros que a tua mãe não sonha que lês. Quem sabe o que o futuro te vai trazer, mas mereces tudo, minha pequenina.

Ao dizê-lo ficou subitamente pensativo:

- Posso perguntar-lhe em que é que pensa, pai?

- Em Maria - disse o rei, num tom de desa io, como se de repente quisesse deixar claro que neste assunto nem à filha permitia reparos.

Catarina a princípio não percebeu.

- Maria, pai?

- A Maria, foste à missa da sua entrada para o convento...

- Ah, essa Maria - disse Catarina, os pés nervosamente batendo contra a garupa do cavalo, que começou a acelerar o passo, para logo sentir o freio na boca.

- Maria é mais nova do que tu...

- Da idade do Afonso acrescentou Catarina, numa tentativa de deixar o pai à vontade e tornar a dolorosa conversa quase coloquial.

- Pois é, da idade do Afonso, mais coisa menos coisa, e continua no Convento de Carnide. Procurei arranjar as coisas para que casasse, estive em negociações com o duque do Cadaval, mas dizem-me que ela não quer sair de perto das irmãs onde tem sido criada. Preferia dedicar a vida a Deus...

- É parecida comigo e com a Joana?

- Não a vejo há anos, aliás, só a vi pequenina, mas não era parecida com as minhas gémeas, era muito loira de olhos azuis...

Catarina sentiu um nó na garganta. Teria o pai preferido que as suas duas ilhas tivessem cores mais claras, como os seus irmãos Bragança e muitos dos seus antepassados; como Afonso e Teodósio - que Pedro era como elas nitidamente filho de uma Medina-Sidónia. João sorriu:

- É claro que não queria que fosses um milímetro diferente do que és, nem do que Joana era. Vocês são a cara da vossa mãe, e tenho a maior admiração por Luísa, devo-lhe tudo, confio-lhe tudo, sei que quando Deus me levar será ela a proteger a família. A proteger o meu reino, que não era o dela mas que adoptou como seu e pelo qual tem lutado, até contra Espanha, de onde vinha.

Catarina não se atreveu a perguntar-lhe se amava a mãe. Nem tão--pouco, embora ardesse em curiosidade, em como era a mãe de Maria e porque é que ela o tinha levado a cometer a única in idelidade da sua vida, ou pelo menos a única que fora conhecida. Mas descon iava. Descon iava que a segurança e o pulso férreo de Luísa o faziam sempre sentir em falta, que a admiração que tinha pela sua força reforçava o seu sentimento de fraqueza, e descon iava, com uma descon iança que chegava à certeza, que a mãe de Maria, que ninguém parecia saber quem era, seria mais doce, mais submissa, talvez amasse música como o pai. Encolheu os ombros, zangada, era fácil dizer que a mãe era autoritária, mas se ela não o fosse, quem o seria por ela? Além do mais, essa Maria podia ter olhos azuis mas crescera privada da própria mãe, entregue e educada em casa do secretário do pai, enviada para um convento frio - não, não havia nada na vida de Maria que invejasse.

- Achas que tinhas coragem de a visitar, de falar com ela, Catarina, de levar contigo os teus irmãos a visitá-la, porque me sinto mal de a ter privado de uma família...

Catarina acenou que sim com a cabeça, faria isso pelo pai, faria isso por Maria, que não tinha culpa nenhuma dos actos do rei, mas nunca o faria sem o conhecimento e a aprovação da mãe. E disse-o. João ficou pensativo:

- Vou falar com ela. Também nunca te pediria que a traísses.

O dia ia ter mais sombras. Muito mais sombras. Catarina estava sentada no jardim com duas damas, a renda nas mãos, quando o criado do pai a veio chamar, aflito:

- Sua Majestade não se sente bem.

Quando Catarina chegou ao seu lado, João rolava os olhos para cima e gemia em agonia. O médico chegou a galope e António Cavide, o secretário do rei, já lá estava, sem se saber como ou quem lhe levara a notícia. A infanta foi suavemente empurrada para fora do quarto.

Paço da Ribeira, 6 de Novembro de 1656

 

mãe insistira e apesar de a opinião dos médicos ser claramente

contra, o rei fora de novo transportado, com todos os cuidados, para o Paço da Ribeira. Catarina reparara no olhar de ódio que Cavide disfarçadamente lançara à rainha. Percebeu-o, porque naquele momento sentia o mesmo: o espírito prático da mãe sobrepunha-se a tudo o resto, e ao avaliar o estado da saúde do rei não queria correr riscos de que o monarca português morresse noutro leito que não fosse o do paço real, que finalmente conseguira decorar ao que considerava ser à altura de um palácio europeu. Não precisava de muita perspicácia para ser capaz de ler os seus pensamentos: Que não fique o futuro de Portugal, ou o seu prestígio, em risco, quando os embaixadores de todas as nações vierem indagar pelo seu estado de saúde.

Catarina suspirou: a dedicação do secretário ao pai levava-o a não suportar que o seu rei fosse sujeito a mais sofrimento, mas de facto, era à mãe que todos eles deviam grande parte do sucesso da Restauração. Não era decididamente este o momento de questionar os seus métodos.

Tinha começado em Alcântara a sua agonia e agora, à medida que o palácio se ia enchendo de conselheiros e consultores, de médicos e escrivães, de uma corte inteira que, por solidariedade ou curiosidade, não queria estar longe, Catarina sentia que lhe roubavam o pai. A princesa con iava acima de todos no padre António Vieira, que aparecera no paço aparentemente de surpresa, embora lhe con idenciasse a ela, e só a ela, que recebera, meses antes, uma carta do pai a pedir-lhe que viesse. Mas isso eram segredos seus. Só a rainha e alguns conselheiros souberam que tinha regressado do Brasil, porque Vieira queria manter a sua presença incógnita. Não queria provocar a Inquisição. E aos que sabiam que estava em Lisboa contava que a sua viagem se devia à preocupação com os rumores de que o Conselho de Estado se preparava para destruir todo o trabalho que tivera a ajudar o rei e os comerciantes a construir a Companhia do Brasil. Luísa não descon iava por um momento deste argumento e acenava--lhe que sim, mas completamente ausente. Concordava com a preocupação do padre, também ela estava dividida nessa luta aguerrida que separava os conselheiros in luenciados pela Inquisição, e decididos a uma guerra aberta contra o jesuíta, e aqueles, cada vez menos, que se mantinham leais às decisões de um rei que agonizava. Mas para Luísa, e para o padre também, esses assuntos «urgentes» pareciam não ter urgência nenhuma, e cada um à sua maneira se dedicou totalmente a João.

Naquela manhã, Luísa entrara por uma porta traseira e subira directamente ao quarto.

- São de novo as pedras - disse-lhe, cabisbaixo, o médico.

- Mas corre risco de vida? - perguntou-lhe, directa, a rainha.

- Se os rins pararem, todo o corpo fará o mesmo - confessou o físico.

Luísa engoliu em seco, angustiada. Depois voltou a engolir, mas desta vez endireitou as costas, lançou os ombros para trás, naquele gesto seu, tão típico de quem encontrara forças, vindas sabe-se lá de onde, para enfrentar mais este obstáculo, sem nunca dar parte de fraca. Se o izesse, aquele pequeno mundo arriscava-se a desmoronar a seus pés.

Virando-se para o reposteiro-mor, silencioso junto à cortina de veludo pesada que cobria a porta dos aposentos do rei, ordenou à camareira que lhe trouxesse a imagem de Nossa Senhora da Conceição e a relíquia do Sagrado Lenho. Ordenou ao médico que voltasse a enviar um dos seus emissários lá abaixo, ao porto, e que procurasse, entre os comerciantes de plantas medicinais e outras «poções mágicas» vindas do Oriente, qualquer maravilha nova, que se experimente tudo... A sala aposta ao quarto do rei era já um pequeno laboratório, onde as drogas colocadas em frascos rotulados, as ervas em pequenos cestos, os artefactos com poder dito milagreiro, as pequenas imagens de santos e as velas que ardiam dia e noite davam nota daquele en contro de culturas entre Oriente e Ocidente, entre a religiosidade nacional e a que vinha de fora e que, para dizer com franqueza, chocava todos os padres que por ali passavam - e a notícia chegava sempre aos ouvidos dos inquisidores. Só António Vieira olhava a «botica», como lhe chamava, com orgulho, e sempre que por lá passavam dizia a Catarina:

- Nada disto é bruxedo, minha ilha. Temos é ainda tudo para aprender sobre o poder das plantas. Se visses como os índios as conhecem todas e curam as piores das febres com aquela lor pequenina, que nasce na clareira escondida no mais profundo da loresta, ou como aplicam as pedras quentes para tirar dores que mais nada parece conseguir afastar...

Catarina acenava que sim, entusiasmada, e por duas vezes, nestes dias tão longos e tristes, insistiu em ir com o boticário até às bancas do comércio, às escondidas da mãe e de D. Leonor.

Sentia-se mais livre do que alguma vez se sentira, nas ruas, entre as pessoas que iam à sua vida e nem davam por ela, envolvida na excitação das vozes, nos pregões cantados nos mais diversos sotaques, nas roupas de cada um, tão diferentes entre si, daquele que vendia missangas, a sua túnica branca até aos pés, o turbante de um tecido cheio de cor na cabeça, e daquele outro, de calças curtas e chinelos como nunca vira antes. As cores das peles, como eram variadas, como nas enciclopédias que o pai mandara vir de fora, e com que se entretinha, em pequena, ao lado de Teodósio, a decorar nomes de terras e povos estranhos. O boticário, embaraçado com a presença da infanta e de uma das suas criadas, só queria despachar o recado, porque, se era verdade que não se atrevera a dizer que não à princesa, temia as represálias de D. Luísa de Gusmão caso esta soubesse que ele fora cúmplice nesta infracção a todo o protocolo. De resto, sabia onde queria ir. Só con iava na pequena banca de Ali, sempre escondida no fundo de uma ruela. Ali era um sábio e não um vendilhão, como muitos que para aqui andavam. Nascido em Tânger, contava, quando decidia que o interlocutor merecia ouvir a sua história, como caminhara até à China e de lá até Lisboa, recolhendo em cada sítio os segredos dos feiticeiros e dos ísicos. Mas naquele dia Ali acenou que não ao boticário. Já conhecia o diagnóstico da doença de D. João IV, as notícias de que se agravara também lhe tinham chegado, mas não conhecia mais nada que o pudesse aliviar. Para desilusão do boticário, e de Catarina, recomendou banhos de imersão em água quente, como forma de aliviar as dores. A infanta sentiu o coração acelerar quando percebeu que o mouro a reconhecera. Ali baixou a cabeça em sinal de respeito, mas depois levantou-a e observou-a sem pudor, com os seus olhos azul-turquesa, que sobressaíam na pele tisnada pelo sol. Catarina corou. Sentia-se despida, como se aquele olhar fosse capaz de a ver por dentro e por fora, avaliando o estado do seu corpo e da sua alma. Sobressaltou-se quando ouviu a sua voz. Ali estendia-lhe um pequenino cartucho de papelão, e dizia:

- Sua Alteza dona Catarina deve beber a infusão destas ervas, hoje e para sempre, mesmo quando partir para longe desta praça e ao encontro da sua nova vida.

Apesar de ele falar como quem encanta serpentes, Catarina estremeceu, como se aquilo que lhe dizia fosse uma profecia assustadora. Metia-lhe medo que um estranho soubesse mais da sua vida do que ela mesma. O boticário do rei, porém, percebendo que permitira a fuga da princesa do palácio, só tinha agora um intuito, levá-la sã e salva de regresso. Implorou-lhe:

- D. Catarina, depois explico-lhe tudo, levo-lhe os recados que Ali me con iar, mas, por favor, vamos para casa, que o seu pai precisa dos nossos cuidados.

A chantagem emocional funcionou e a princesa limitou-se a inclinar ligeiramente a cabeça: alguma coisa lhe dizia que estava perante um sábio que merecia deferência. Se ao menos pudesse icar naquele banquinho de três pernas de madeira escura, certamente Ali a iluminaria e lhe ensinaria mais do que todas as suas mestras juntas. Despediu-se com um forte «obrigada», e escondeu, dentro dos bolsos do vestido modesto que pusera para sair à rua, o pacote de folhas que o árabe lhe estendera.

No regresso interrogou sem cessar o boticário:

- Porque me deu ele este remédio? De que sofro eu?

O boticário limitava-se a abanar com a cabeça. Nunca teria a coragem de lhe dizer que se tratava de folhas de um chá receitado às mulheres que tinham di iculdade em dar à luz os seus ilhos. Consternado com a loucura de Ali, benzia-se a cada cinco passos, que por pouco não eram de corrida. Só esperava que toda esta história fosse esquecida rapidamente e que Catarina, determinada como era, não fosse percorrer os livros do pai em busca da informação que agora lhe escondia.

- Agora a nossa prioridade é Sua Alteza - murmurava, e Catarina não sabia se era para ele mesmo, se para ela, mas depressa esqueceu o chá que trazia no bolso, tal o desejo de convencer o camareiro-mor e os outros médicos de que era preciso colocar o pai numa tina de água quente, a única coisa que lhe acalmaria as dores insuportáveis.

Depois do banho, que de facto pareceu aliviar o sofrimento, o doutor Faustino decidiu-se por um método mais radical, obrigando o rei a beber uma poção de um ópio tão forte que D. João sucumbiu a um estado letárgico em que não reconhecia ninguém. Catarina icou grata ao médico: mais nada lhe importava do que o deixar sem dores.

Sentada numa cadeirinha, no canto do quarto, reparou subitamente em Afonso, que entrava o mais silenciosamente que conseguia e se aproximava da cama do pai. João abriu os olhos, esboçou um sorriso ao ver o ilho, estendeu-lhe a mão e, depois, num gesto inesperado, puxou-o para junto de si, num abraço apertado.

O príncipe herdeiro começou a soluçar. Porque, mas porque é que ia perder o pai, como perdera Teodósio e Joana? Porque, mas porque é que o rei o aconchegava a si apenas quando ia partir, deixando-o com um peso imenso sobre os ombros?

João pediu-lhe obediência à mãe. Catarina, que se aproximara da cabeceira da cama, comovida, olhou assustada para a cara do irmão. Que Deus quisesse que neste momento Afonso se portasse como o futuro rei que era, e não desatasse numa diatribe contra a prepotência da rainha. Mas Afonso esteve à altura do momento, beijou o anel do pai e pediu-lhe que icasse tranquilo. Serenamente sossegou-o, prometendo-lhe que Deus não o levaria já, era apenas mais uma prova por que tinha de passar, e que se um dia o levasse para junto dos seus pais e dos seus ilhos já mortos Afonso velaria pelos que icavam nesta Terra, que o importante era que não ficasse em cuidado.

João sorriu-lhe, subitamente animado. Caso sobrevivesse a este purgatório, dedicaria mais tempo ao rapaz. Talvez ainda fosse a tempo, talvez ainda fizesse de Afonso o melhor dos reis de Portugal.

Os dias corriam compridos e as noites mais longas ainda. Havia momentos de completo desespero, porque nenhum remédio nem nenhuma poção era capaz de aliviar o sofrimento. Nem as pedras bezoares, nem os ouriços, nem nenhuma das drogas milagrosas pareciam surtir qualquer efeito. Na mesa-de-cabeceira do rei já fora colocada a cruz com uma das relíquias da Casa de Bragança, uma cruz com um dos espinhos da coroa de Nosso Senhor Jesus Cristo e, de tempos a tempos, o rei estendia a mão e trazia-a para cima do peito, junto do coração, fechando com força sobre ela as duas mãos.

 

Já ninguém se lembrava das razões que António Vieira tinha dado ao entrar no paço, o que todos sabiam era que tinha tomado assento no quarto de D. João e não voltara de lá a sair. Era ele que ouvia a sua con issão, lhe trazia a Sagrada Comunhão e se mantinha como uma presença forte e sólida naquela hora de dor.

Na manhã em que o próprio rei fez questão em chamar o notário para ajustar o seu testamento, as ilusões acabaram. Ninguém daria tal passo se não estivesse absolutamente certo de que já não havia nada a negociar com a morte. D. João quis que estivessem todos presentes quando ditou a nomeação de Luísa como regente, governante do reino, curadora e tutora dos seus ilhos, todos ainda menores. Afonso, o futuro rei, izera há pouco 13 anos, mas era preciso mais um para que atingisse a maioridade.

Pediu aos seus conselheiros que jurassem idelidade à rainha e depois mandou-os sair a todos.

- Vieira, por favor, fique. Catarina, não te vás embora.

O padre passou ternamente o braço pelos ombros da sua menina, num gesto só consentido pela familiaridade dos anos e num quarto sem mais testemunhas. O notário continuava com o bico da pena imerso no tinteiro, pronto a escrever, sem deixar que a face transparecesse a menor emoção, ou não izesse ele testamentos desde menino e moço, quando andava com o seu pai por quartos de moribundos fora.

- Pai, em que posso ser-lhe útil? - perguntou, assustada, Catarina.

- Quero que oiças o que vou ditar: «Declaro que tenho uma ilha de uma mulher limpa e que está no Convento de Carnide, por nome dona Maria, à qual deixo a Comenda Maior de Santiago e dois mil cruzados por ano, como até aqui.»

Recostando-se de novo nas almofadas, um espasmo de dor a impedi-lo de falar, esperou uns minutos, antes de continuar:

- Sigismundo, quero agora que escrevas uma carta - e ditou ao notário:

Minha filha Maria,

Foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha seja despedindo-me de vós e dando-vos minha bênção, acompanhada com a de Deus, que ique sempre convosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu fiz de vós - vosso pai que fica com grande sentimento de não vos ver,

o Rei

António Vieira apertou com mais força o braço que prendia uma Catarina prestes a desmaiar. Porque é que o pai quer que o oiça ditar cartas a outra ilha?, pensava para si mesma, o sangue a esvair-se da cabeça, a visão a turvar-se.

João virou-se para ela, assustado, como se tivesse tomado consciência do efeito que o seu ditado tivera em Catarina, e suplicou:

- Perdoa-me, ilha, mas tens tido tudo de mim e Maria tão pouco, e preciso que saibas, que conheças as minhas disposições, para que não a abandones, nem deixes que os outros o façam. Mas descansa, Catarina, que pedi licença à tua mãe para que tudo fosse assim, e ela aceitou que assim fosse, serenamente, sem vinganças, nem mágoas. Ela sabe, como tu, que a minha lealdade estará sempre convosco.

António Vieira mantinha os olhos no pôr-do-Sol que se percebia já sobre as águas do rio e o seu braço apertado em redor da princesa.

O rei, já cansado, continuou a falar, ordenando ao notário que escrevesse:

- À minha ilha muito amada, Catarina, deixo a ilha da Madeira, Lamego, a vila de Moura.

Depois, virando-se para a filha - insistiu:

- E nunca te esqueças de Mourão. - A palavra soou como um címbalo no coração de Catarina. O pai lembrava-se de como Mourão era especial para ela, dizia-lhe, nesta hora inal, que também ele estava grato à Senhora das Candeias pelo milagre que protegera a filha.

Virando-se contra o peito do padre, Catarina soluçou baixinho, e agora eram os dois braços de Vieira que a apertavam com força contra si. Já não ouviu João ordenar que se escrevesse:

- Tenho tratado de casar minha ilha, a infanta D. Catarina, com el-rei de França, e porque de todos estes negócios sabe a rainha, peço-lhe que os prossiga como entender.

António Vieira empurrou Catarina para junto da cama do pai, a princesa beijou-lhe a testa e as lágrimas de um e de outro juntaram-se num único ribeiro. Depois levou-a gentilmente para fora do quarto. Pobre criança, nem 18 anos tinha e já vivera intensamente a morte de três dos seus entes mais queridos.

 

A 15 de Novembro, Afonso, com 13 anos, era jurado rei, Afonso VI de Portugal. Na Missa de Acção de Graças rezada em homenagem ao novo soberano português eram muitas as cabeças dobradas em fervorosa oração. Luísa, baixinho, pedia desculpa por duvidar subitamente da clarividência de Deus Nosso Senhor: como podia ter levado João, deixando-a, aos 43 anos acabados de fazer, viúva, mãe de três ilhos menores, a governar um país ainda longe da paz, regente de um ilho que temia não ter, nem agora, nem daqui a uns meses quando atingisse a maioridade, condições para governar Portugal? Pedro, do outro lado da mãe, olhava o irmão engalanado, com os lábios pressionados numa tensão visível: como podia servir quem desprezava? Catarina olhou primeiro para a mãe, depois para o irmão mais novo, e percebeu tudo o que lhes ia na alma. Juntando as mãos com irmeza em oração pediu à Senhora da Conceição, aquela a quem o seu pai oferecera a coroa de Portugal, que velasse por todos.

Biblioteca do paço, 17 de janeiro de 1657

 

cordara encharcada em suor, assombrada por um pesadelo em que

a cara de Ali flutuava sobre o seu corpo, os olhos azuis virados sobre si como archotes, as mãos em concha, cheias até cima com pequenas folhas cinzeladas.

Perdera o cartucho que o mouro lhe dera naquele dia, e o sofrimento da dor e da morte do pai tinham apagado qualquer memória daquele estranho encontro e das palavras do boticário. Nunca mais se lembrara, mas agora, que o Inverno descia frio e húmido sobre o paço e o preto permanecia nas roupas e na alma da mãe e dos ilhos, o medo apanhava-a de surpresa, pela calada da noite.

Poderia Ali ter adivinhado o seu futuro, como aqueles que o descobrem nas constelações das estrelas? Desejaria protegê-la contra a impossibilidade de ter filhos, como acontecia a tantas e tantas rainhas, «por questões de sangue», como lhe explicara uma das suas mestras? Mas como poderia ser estéril, se o homem a que se prometera desejaria acima de tudo dar ao seu reino um herdeiro? Como poderia ser impedida de gerar se percebera que era intrinsecamente mãe no primeiro segundo em que pegara no pequenino Afonso ao colo?

Decidida, levantou-se. Vestiu a capa quente e forrada a pêlo de ovelha e acendendo uma lamparina, abriu a porta, decidida. Os corredores estavam escuros mas no piso de baixo a guarda da rainha estaria atenta. Para chegar à biblioteca do pai teria de usar as escadinhas de serviço, tendo o cuidado de não deixar que os degraus de madeira rangessem à sua passagem.

Quando entrou na sala forrada a estantes e pousou a luz no chão, o coração batia acelerado. Sentou-se no chão e respirou fundo: por onde deveria começar? Das folhas tinha apenas a imagem fugaz do sonho, nem sequer sabia se correspondia à realidade - como poderia imaginar coisas que nunca vira? A outra hipótese era procurar por tema. Não tinha sido o boticário a dizer-lhe que se destinavam a tratar o ventre de mulheres que não conseguiam nele transportar os seus filhos?

O herbário que o pai encomendara a um chinês era grosso e pesado, forrado a cabedal encarnado. Com as pernas a tremer e num equilíbrio inseguro, desceu o escadote com ele debaixo do braço. Pousou-o silenciosamente na mesa de carvalho onde tantas vezes vira o pai debruçado e deixou o dedo nervosamente correr o índice. Como que comandado por uma força exterior, o indicador estacou na palavra temida: Infertilidade. Inspirou longamente o ar frio da noite, e quando o ar saiu dos pulmões formou uma nuvem frente aos seus olhos. Impedia-a de ver, talvez fosse um sinal de que a vontade de Deus era que fechasse o livro e confiasse apenas nos seus desígnios.

Mas as mãos já o abriam na página indicada. Lá estava ela, a folha dos seus sonhos, tinha a certeza disso. Repetiu baixinho: «Uncaria tormentosa.» A imagem mostrava uma trepadeira com lores em forma de pompom. As folhas pareciam ásperas e muito verdes. Tentou ler o que dizia, mas não percebia aquela língua, nem sequer sabia identi icá-la. Mas o diagrama a carvão da barriga de uma mulher grávida e de uma outra que não o estava, com setas apontadas às suas entranhas, uma bolsa onde um bebé nadava, não deixavam dúvidas: Ali dera-lhe um chá para aquilo que mais temia.

Deixou-se escorregar da cadeira e, tapando a cara com as mãos, chorou primeiro baixinho, depois em longos soluços incontroláveis. Chorava um futuro que acreditava que lhe fora roubado naquela noite, chorava todas as lágrimas retidas desde que o pai a deixara sozinha.

Quando a luz começou a entrar pelas frinchas das portadas de madeira levantou-se a custo, as pernas entorpecidas, gelada até aos ossos. Colocou o livro na prateleira mais alta a que conseguia chegar. Não queria, não podia voltar a pensar neste assunto. Não queria, não podia deixar que Ali e os seus olhos azuis assombrassem as suas noites. Era preciso vestir-se e ir à missa das 7 horas, com a mãe. Tinha 18 anos, o seu corpo comportava-se há muito como o de uma mulher. Estava certa que, lá do Céu, o pai e Joana velariam para que um dia se visse rodeada de filhos fortes e saudáveis.

Lançou um último olhar ao livro e, fechando a porta com determinação, deu duas voltas à chave.