Catarina de Bragança
Somerset House, Maio de 1683
harles galopara ininterruptamente de Newmarket para Londres, e
entrara pelo quarto da rainha a meio da noite, suado e exausto. Catarina sentou-se na cama, assustada, mas quando viu que era o marido sossegou: independentemente do que tivesse acontecido, nada importava muito se Charles estava aqui a seu lado.
A sua primeira reacção foi sorrir-lhe:
- Decidiu fazer uma recriação romântica da primeira vez que nos vimos. Faz por estes dias vinte e um anos que entrou no meu quarto e se sentou assim na borda da minha cama, encantando-me com o seu castelhano -gracejou.
Charles, a cara encoberta pela escuridão, chegou-se mais próximo, e Catarina só se assustou quando deitou a cabeça no seu peito e sentiu as suas lágrimas quentes.
- Charles, o que é que foi? Por amor de Deus, diga-me?
- Desta vez foi a sério! Desta vez não se tratava de uma conspiração patética, imaginada e inventada para tentar cruci icar inocentes. Desta vez tive a sorte, assim como James, de não termos voltado ao nosso quarto em Rye House à hora combinada. Quando regressámos tarde de um jantar em casa de lord Shef ield, vimos que a pensão ardia e com ela todas as pessoas, crianças inclusivamente, que não acordaram a tempo do seu justo sono.
- Uma tentativa de homicídio? Mas não terá sido apenas um acidente trágico, Charles? - perguntou a rainha, agitada.
- Não foi um acidente, Catarina. Mandei que uma parte da minha guarda voltasse mais cedo, e pelos vistos os assassinos, ao verem o meu estandarte, acharam que o rei regressara também. Lançaram fogo à casa, em quatro ou cinco pontos diferentes, e a madeira crepitou seca, como se estivesse numa maldita lareira. Dois dos meus homens morreram...
Catarina apertava os braços em torno do corpo que procurava aconchego contra o seu. Mas sabia que não era a tentativa que assustara Charles, um homem que tratava sempre a sua própria vida com displicência. Suavemente, perguntou:
- Conseguiram prender os criminosos?
Charles sentou-se, agora zangado:
- Chegámos pouco depois, e os guardas tinham apanhado dois de um bando que parece ser de cinco. Não demorou muito a que lhes extorquissem uma con issão. Como sempre, eram apenas uns pobres coitados a quem tinham sido dadas umas moedas de ouro em troca do serviço.
- Não disseram quem lhes pagava?
O rei levantou-se e refugiou-se no escuro do quarto, caminhando de um lado para o outro, a sua sombra na parede, projectada pela luz da vela que ardia frente à imagem da Senhora de Mourão.
- Foi essa a informação que me matou. Pouco me importava se tivesse sido comido pelas chamas! Sei lá se não preferia ter morrido, a saber o que sei agora!
- Querido - gritou Catarina, assustada com a intensidade do desespero.
Charles respirou fundo.
- Não a queria assustar, minha doce e paciente rainha, mas...
- Quero saber quem foi. Discípulos de Oates?
- Tomara que assim fosse. Quando são desconhecidos que nos querem matar, parece-me normal, estou tão habituado à ideia, mas quando é alguém em quem confiamos, dói tanto, tanto, tanto...
Catarina icou em silêncio. Só poderia estar a referir-se a Buckingham ou a... mas não, Virgem Santíssima, ele não seria capaz de uma coisa dessas.
Charles mordeu a mão, desejando que a dor ísica atenuasse a que sentia na alma. Não se lembrava de sofrer assim desde que Minette morrera, ele que era campeão na arte de fugir ao sofrimento...
- É exactamente em quem está a pensar. Jemmy, duque de Monmouth...
- Mas pode não ser verdade. Qualquer pessoa que quisesse magoar o rei colocaria o seu nome num papel forjado, Charles, sabe bem que assim é, que ninguém pensa duas vezes antes de falsi icar provas e incriminar pessoas que nada izeram de mal - dizia Catarina, agora envolvida num roupão, e a andar também de um lado para o outro, incapaz de ficar quieta.
- Ai, Catarina, era feliz se assim fosse, mas não é. James tem raiva a Jemmy, toda a gente o sabe. Não o ama como eu o amo, e de qualquer maneira tem mais a perder se morrer agora, é mais novo do que eu, tem a ambição legítima de governar a seguir a mim.
Catarina apertou-lhe a mão com força:
- Não diga disparates, explique-me mas é essa suspeição terrível. Como é que a confirmaram.
- Estava a contar... James mandou que os seus homens lhe trouxessem o meu ilho. Não estava longe dali, estivera connosco naquela tarde nas corridas de cavalos. Jemmy chegou de mãos acorrentadas e lançou-se aos meus pés a pedir-me desculpa. Como se tivesse partido um prato, ou entornado a papa. Pediu-me desculpa por me ter mandado matar!
A rainha não sabia o que dizer. Ficou em silêncio, rezando baixinho.
- James pegou-lhe pelos colarinhos e atirou-o para as mãos de um dos meus guardas, que o arrastou até ao seu cavalo. James ordenou que o encarcerassem na Torre e dessem o mesmo destino a todos os seus companheiros, à medida que os fossem prendendo.
- Na Torre de Londres? - murmurou Catarina.
Charles, com aquela ironia que se tornava mais ina quando o magoavam, comentou:
- Um local onde muito boa gente, bem melhor do que ele, já passou muitas noites.
Estava exausto e de repente parecia não querer pensar mais nesta noite terrível, e menos ainda nas decisões que teria de tomar quando o dia nascesse.
Murmurou:
- Se a minha mulher fosse uma víbora, como tantas outras o são, diria agora que era bem feito que o homem que mais detesta tomar decisões à face da Terra tenha de decidir se condena ou não o seu próprio ilho à morte.
Catarina abraçou-o com força.
- Já chega, meu querido, já chega por hoje. - Sentando-o na cama, tirou-lhe ela própria as botas, a capa e toda a roupa, empurrando-o suavemente para debaixo dos lençóis. Depois, deitando-se devagarinho ao seu lado, prendeu-o a si e passando a mão em gestos suaves pelo cabelo, cantou-lhe uma canção de embalar portuguesa. Charles, como uma criança, dez minutos depois dormia a sono solto. Catarina, alerta, vigiou o seu sono até que o barulho de uma criada, que entrara para abrir as cortinas antes que a rainha a pudesse mandar embora, acordou o rei. Estremunhado, olhou à volta sem se lembrar de onde estava. Sorriu mecanicamente para Catarina, mas de repente tudo lhe veio à memória. Soltou um longo gemido e tapou a cara com uma almofada.
Jemmy partiu dias depois para a Holanda, exilado por ordem do rei de Inglaterra. Catarina interviera a seu favor, defendeu-o dizendo que era novo, in luenciável, andava apenas em más companhias, acreditara tempo de mais na possibilidade de subir ao trono. James zangara-se com a cunhada, acusando-a de ser inconsciente. Porque, defendia, quem atenta contra a vida do próprio pai uma vez volta a fazê-lo, e bastava falar com Jemmy para perceber que o seu arrependimento era falso, que se aproveitava de uma forma inquali icável do amor do pai - do pai que tentara queimar no sono. Catarina fora sensível aos argumentos do duque de York, mas rebatera com os seus: pouco lhe importava Jemmy em si, gostava dele, mas nunca depositara no rapaz a sua con iança. A sua defesa do ilho de Charles resultava do seu amor ao pai, argumentava, e o rei, um homem pací ico e tolerante, nunca perdoaria a si mesmo se mandasse cortar a cabeça ao seu primogénito, bastardo ou não. James voltava à carga acusando-a, o mais discretamente possível, de estar apenas a dizer ao marido o que ele queria ouvir, porque sabia que Charles nem em defesa própria era capaz de tomar uma decisão. James não tinha o charme nem a inteligência de Charles, e enchera o espaço destas qualidades com pompa e arrogância, com uma intolerância que chamava de «pulso irme» e que a rainha não tinha di iculdade em prever que lhe iria tornar o futuro difícil. Catarina conseguiu irritá-lo a sério quando lhe disse:
- O senhor duque não sabe o que diz. O seu irmão já provou, quando tal foi necessário, que é capaz de lutar pelos seus princípios. Que é capaz de defender a sua mulher, rejeitando propostas de divórcio, e perseguindo aqueles que se atrevem a dizer mal da rainha. Por isso não lhe admito que acuse o rei de Inglaterra de falta de coragem.
James icara de língua atada e, depois de um cumprimento sumário, descera as escadas em passo rápido, as botas batendo contra a pedra. Catarina olhou para D. Luís, que assistira à conversa. Sentia que o seu conselheiro mais próximo tendia a concordar com James quanto ao «presunçoso» do duque de Monmouth. Sabia que tinham razão, Jemmy poderia voltar a ser perigoso, até porque com o orgulho ferido aumentara certamente o ódio que tinha ao tio, e mesmo ao pai. Não faltaria quem o bajulasse para o levar a arriscar um novo atentado... Mas não queria pensar nisso. Sabia que tinha razão quando dizia que Charles não se suportaria se tivesse mandado matar o filho.
Quanto ao futuro, Deus lá estava em cima para velar por eles.
Londres, 25 de Setembro de 1683
atarina escrevera ao novo rei de Portugal. Viva el-rei D. Pedro II de
Portugal, aclamado no dia 12 de Setembro, com 35 anos de idade. Tinham acabado os falsos títulos, os regentes e os príncipes, o desconforto de reinar com o rei na prisão.
A carta era sóbria. Doía-lhe de mais escrevê-la. Sua Alteza só o era porque Afonso morrera no mesmo dia, depois de seis anos encarcerado num quarto. Neste caso nem era rei morto, rei posto, porque arrumado já estava há tantos anos, disse Catarina, numa ironia dorida.
Envenenado, diziam as fontes de Castelo Melhor. Mas ao ouvir a acusação, Catarina encolhera os ombros:
- Envenenado para quê, se não incomodava em nada Pedro, se não o impediu, nem impedia, de lhe tomar o trono e a mulher!
De facto, pensou D. Luís, envenenado porquê? Afonso, aos 40 anos, tinha todos os motivos para desejar morrer, todas as razões para acabar com aquele suplício, e pedir a Deus para o levar para junto dele.
No inal de Dezembro, nova carta para Lisboa. Desta vez de pêsames. A rainha Maria Francisca só usara de novo o título de rainha durante três meses, até que umas febres a tinham levado também. Catarina não conseguia deixar de ler nesta morte um sinal. Do casamento com Pedro resultara apenas uma única ilha, Isabel Luísa Josefa de Bragança, agora com 14 anos, coitadinha, sem uma avó, ou uma tia, ou, sobretudo, uma irmã que a consolasse neste momento.
Sabia que Pedro tratava já do seu casamento. Recordou-se de como o irmão lhe pedira para ser madrinha da criança, e sentia-se cruel por ter recusado, mas na altura era a única atitude que podia tomar. Talvez agora, que a sua mãe desaparecera, pudessem ser amigas.
Whitehall Palace, 20 de janeiro de 1685
rei não andava bem há já algum tempo, tinha crises de febre muito
alta, de que demorava cada vez mais tempo a recuperar. Os médicos diziam que tudo começara com uma mordidela de mosquitos - havia tantos em Windsor - e o conde de Castelo Melhor mandou vir um medicamento que no Terreiro do Paço se vendia para o tratamento de males semelhantes. Charles agradecera, entusiasmado, enquanto a rainha ficara grata, que Deus lhe perdoasse, esta acalmia forçada dos hábitos reais. Nos últimos anos tinham passado longas temporadas juntos em Hampton Court, Windsor ou Cambridge, fazendo uma vida, como dizia Catarina a Nan e Meg, «quase de um casal normal».
Mas desde o Natal que o sentia cada vez mais frágil, os passeios a pé mais curtos, voltando das cavalgadas ofegante, e, embora mantivesse as suas amantes, as idas ao teatro e os jogos de cartas pela noite fora, tudo acontecia a um ritmo mais lento e ponderado.
Em Londres, no entanto, insistia em icar em Whitehall, enquanto a rainha se mantinha na casa que era agora sua - Somerset. Mas as crises tornavam-se mais frequentes, e Catarina acabou por engolir o orgulho: teria de regressar aos seus aposentos antigos, porque não podia correr o risco de estar longe do marido quando ele precisasse dela...
Uma manhã, depois de ter sido chamada durante a noite a Whitehall, anunciou à sua Casa a mudança.
Nan ainda protestou e lady Suffolk fez coro. Sentiam que a rainha estaria muito mais exposta a humilhações vivendo no mesmo palácio da «consorte» Louise e do seu ilho Charles. Diziam-lhe que em Somerset House criara uma família, uma igreja e uma comunidade religiosa que lhe davam a serenidade de que precisava. Mas Catarina quando tomava uma decisão cumpria-a, e a mudança fez-se. Apesar do frio e da neve, voltaram a Whitehall, para gáudio dos pequeninos Fanshawe, que achavam mil vezes mais excitante o ritmo de vida do «castelo do rei» e adoravam patinar nos canais gelados.
Ao saber da sua chegada, Charles viera visitá-la aos seus aposentos. Beijara-lhe a mão longamente.
- Obrigado - dissera apenas.
Catarina sorriu-lhe. Estavam juntos sob o mesmo tecto, era o que importava.
Whitehall Palace, 2 de Fevereiro de 1685
ames entrou no seu apartamento sem bater. Nem os guardas da
rainha, nem o porteiro-mor se tinham atrevido a solicitar ao duque de York que se fizesse anunciar. Catarina chegava da missa, e ria com as suas damas, enquanto se preparavam para um pequeno-almoço verdadeiramente inglês.
- Breakfast, disse-lhe Nan. - Já pensou no que quer dizer a palavra pequeno-almoço em inglês, dona Catarina? Quebra do jejum, depois de uma longa noite, e de uma missa ainda por cima...
A conversa foi interrompida pelo rosto lívido do cunhado. Catarina levou a mão ao peito. O coração disparara, a respiração tornara-se difícil:
- O que aconteceu a Charles? - perguntou imediatamente.
- Estava a fazer a barba, quando a cabeça caiu para a frente - balbuciou o irmão.
- O que dizem os médicos? - insistiu ela.
- Que é uma apoplexia, que está mal, muito mal... Catarina, o que é que fazemos, meu Deus?
A rainha encheu o peito de ar e, zangada com a fragilidade do cunhado, que lhe parecia retirar o direito de o ser, ordenou:
- Nan, lady Suffolk, peçam ao meu capelão que mande rezar uma missa pelo rápido restabelecimento do rei.
Depois virando-se para James, disse-lhe:
- Tenhamos fé, James! Vamos...
Nunca o vira assim. Charles tinha a cara presa num esgar de sofrimento, e uma enorme di iculdade em articular palavras. Deitado sobre almofadas, na sua cama em forma de barco, cerradas as cortinas de veludo pesado, com medo de que a luz agravasse o seu estado, olhava sem ver. Quando o viu, Catarina rezou baixinho: «Catarina de Medina-Sidónia, pede forças a Deus e à tua mãe, mas lembra-te que ele nunca, nunca, te abandonou quando estiveste doente, e tu não o deixarás por um momento que seja, custe-te o que te custar!»
Sentando-se ao seu lado, apertou-lhe as mãos geladas e enormes entre as suas quentes e pequeninas, e murmurou:
- Charles, meu amor, mexa a cabeça se me consegue ouvir.
Para sua alegria, o rei fez um esforço imenso para virar os olhos na sua direcção, e Catarina juraria que ensaiou um sorriso. A rainha manteve-se junto dele durante horas, sem que ninguém se atrevesse a sugerir-lhe que fosse comer qualquer coisa ou descansar.
Foi apenas o seu querido Dr. Pierce, que rodeava o rei acompanhado de uma equipa de cinco ísicos, que por im a conseguiu persuadir de que Charles precisava de ser examinado em privado, que a sua situação estava estável, e que ela, Catarina, tinha obrigatoriamente de se ir deitar um pouco, sob risco de não estar em condições de continuar a acompanhar o marido. O médico conhecia-a bem e sabia que só com esse argumento a rainha aceitaria repousar.
- Há quantos dias está o rei doente? - perguntou, numa voz fatigada.
- Há dois, Sua Alteza - respondeu Meg, que viera de casa mal soubera do sucedido, deixando os filhos com a avó Fanshawe.
- Estou gelada por dentro, Meg. Tenho tanto medo que, por muito que reze, nada me sossega. Adormeço e acordo com pesadelos, vejo o Royal Charles a ir ao fundo, gente a gritar por socorro. Estou no cais, chamo por ajuda, não posso ver tantos inocentes a morrer, surge Edward Montagu e estende-me a mão, mas não a aceito. Tenho medo de ofender o rei, mas olho em meu redor e o rei está a afastar-se. Julgo que a culpa é minha e peço-lhe desculpa, imploro-lhe que regresse, prometo que lhe vou dar um
ilho, mas Meg, ele não volta. Vejo-o dobrar uma esquina, e nem se vira para trás para me dizer adeus.
A recordação do sonho deixara a rainha transtornada e Meg de lágrimas nos olhos. Levantou-se e chegou-lhe aos lábios um chá quente, a que por ordem dos médicos juntara umas gotas de um sedativo.
Mas nada conseguia acalmar Catarina.
- Meg, Nan...
- Sua Alteza - responderam em coro.
- Preciso de falar com o duque de York. Já não me deixam entrar no quarto do rei. Está cheio de conselheiros, de ministros, de cortesãos que tiram prazer do sofrimento alheio, gente que só quer contar no salão o que viu, o que aconteceu... E eu, eu que sou a sua mulher. Não era eu e só eu que lá deveria estar?
- Claro que sim, dona Catarina, mas o médico não a quer exausta, e a maior parte do tempo, segundo nos contou o doutor Pierce, o rei dorme... Serenamente, não sofre, o médico garantiu-nos que não sofre.
- Terá perguntado por mim, Meg? Lembras-te como eu o chamava nas minhas doenças, como o chamo ainda? E como ele vinha?
Meg suspirou. Lembrava-se de ter 16 anos, da doença da rainha que quase lhe roubara a vida, e da dedicação do rei; mas recordava-se também de tantas e tantas vezes em que fora ele a provocar-lhe a maior mágoa, com aparente indiferença. Decididamente, Catarina tinha uma memória selectiva e guardava sempre o melhor do seu marido. O melhor de toda a gente, para ser justa, pensou.
- Meg, o quarto está cheio de gente da Igreja Anglicana, não está?
Meg acenou que sim com a cabeça. Era natural, num país onde o rei era o chefe da Igreja de Inglaterra.
- Não está a perceber, Meg. O rei é católico, sei que o é, sempre o foi, tal como James, mas teve sempre o cuidado de não deixar que nada transparecesse.
Meg olhou-a, procurando esconder o seu cepticismo. Na hora da morte talvez Charles se tornasse piedoso, mas nunca conhecera ninguém tão desapegado dos ritos religiosos, e quantas e quantas vezes o escutara a dizer que as religiões serviam apenas para apaziguar o medo da morte e não justi icavam os desentendimentos que provocavam. Mas calou-se. Que sabia ela destes assuntos, que sabia ela do que o rei pensava ou sentia, muito menos neste momento dramático.
- Meg, por favor, chame o meu cunhado, ou a minha cunhada Maria Modena, se não encontrar James.
- Só saio daqui se Sua Majestade aceitar que a ajude a deitar-se na sua cama, para que descanse um bocadinho. Deixe-se ir para perto da sua imagem da Virgem, do seu oratório, das suas coisas...
Catarina permitiu que a levassem como uma criança, e sob as ordens de Meg as criadas vestiram-lhe uma camisa de noite de rendas e deitaram-na, aconchegando-a com cobertores quentes.
- Meg, agora que iz o que me pediu a mim, faça por favor cumprir o que lhe pedi a si...
- Esteja descansada, que vou sair agora mesmo para tratar de tudo, se me prometer que dorme um bocadinho.
Meg atravessou os corredores que conhecia de cor, directa aos aposentos do duque de York. Caminhava depressa, e ao passar pela porta dos quartos do rei ouviu os cânticos, cheirou o incenso, e pelas portas abertas da antecâmara percebeu que a rainha não inventava: o ar era irrespirável, e a multidão de gente, homens e mulheres, acotovelava-se na tentativa de chegar mais à frente, de ver mais um bocadinho.
Zangada, continuou a acelerar o passo: se James fosse Charles nada daquilo estaria a acontecer. Charles, o homem tolerante, dissoluto e alegre, saberia pôr aqueles abutres na ordem. Há muito que estariam num salão bem distante, e era se quisessem, porque o mais provável é que se queixasse de que vinham apenas comer à custa de um rei falido, expulsando-os do palácio, pensou Meg, e momentaneamente sorriu.
- Lady Margaret, lady Margaret - ouviu uma voz, quase infantil, chamar atrás de si.
Virou-se, espantada, e deu de caras com uma criada que pouco mais velha era do que a sua filha. A miúda, corada de tanto correr, deu o recado:
- Lady Portsmouth pede-lhe que vá até aos seus aposentos, por favor. A senhora insistiu que frisasse o «por favor» - explicou, enquanto embrulhava as mãos, num gesto de embaraço.
Meg olhou-a com ternura:
- Acredita que vou porque gosto de ti... - disse, directa.
Louise tinha os olhos encarnados de chorar. Será que gosta mesmo dele, ou tem apenas medo de perder o lugar, que será extinto no mesmo instante em que o reifechar os olhos?, pensou Meg, enquanto lhe pedia que explicasse o que pretendia, porque tinha de levar um recado da rainha e tinha pressa.
Para seu espanto, Louise não esteve com rodeios:
- Não visito Charles, o pai do meu ilho, porque não quero magoar a rainha. Acho que, neste momento, não merece que a minha presença vá contribuir para intensi icar a sua dor, que sei, acredite, ser imensa. Mas percebi que o rei está rodeado de anglicanos, e sei que Charles gostaria de receber os sacramentos católicos...
Meg pensou se lhe deveria dizer que era exactamente essa a missão que a levava em busca de York, mas optou por receber o recado em silêncio. Nada em Louise lhe inspirava con iança, e as lágrimas, as lágrimas, há quem as consiga arranjar quando precisa delas.
- Darei o recado a quem de direito, mas vai-me desculpar, mas tenho pressa.
Louise fez-lhe uma pequena vénia, que Meg retribuiu apressadamente.
Que voltas o Mundo dava, pensou, enquanto procurava James.
- A rainha pede-lhe que venha aos seus aposentos - disse-lhe quando o viu.
Pobre York, pensou, não deve ser fácil ver morrer um irmão.
Meg, Nan, o conde de Castelo Melhor e James entraram no quarto da rainha. Era um gesto inédito, mas a dor da morte próxima de Charles tornara todos os protocolos risíveis.
- Perguntei a Charles - sussurrou James ao ouvido, se queria receber os sacramentos da Santa Madre Igreja, contou James.
- E ele? - perguntou Catarina, ansiosa.
- O rei acenou vigorosamente que sim com a cabeça, com forças que lhe vieram não sei de onde, enquanto olhava para veri icar que ninguém nos via. Sabe que está muito mal, mas mesmo assim não quer provocar cismas...
- Terá de ser uma cerimónia em segredo - constatou muito prático Castelo Melhor, que subitamente parecia ter envelhecido.
James concordou. Estava exausto. Há dias que permanecia à cabeceira de Charles, e quando o irmão estava lúcido sorria-lhe, e passava-lhe as pastas e os segredos de Estado, com uma generosidade a todos os títulos notável. Apontava até para as gavetas onde tinha os documentos, chamava os seus ministros e secretários e apontava para James e com di iculdade articulava coisas como «Sirvam-no bem, é o vosso rei.» Mas os aposentos estavam apinhados de espiões, de membros da Igreja Anglicana que já várias vezes tinham oferecido os seus préstimos, e a quem o rei respondia sempre com um «Para já não.» «Uma prova», dizia James à rainha, «de que sabe bem o que quer e o que não quer.»
- Mas não posso enviar-lhe nenhum dos nossos padres. Primeiro, seriam reconhecidos, e depois, não falam inglês com a luência necessária. Seriam imediatamente descobertos - dizia Catarina, com os olhos negros brilhando. De certa forma, pensou Nan, esta necessidade de organizar a extrema-unção do rei, e o orgulho de sentir que a inal tinha razão e que o seu marido professava interiormente a sua fé, sedavam a dor.
Nan dobrou-se sobre Meg, sentada no chão, e disse-lhe:
- Enquanto planeia esta estratégia, sente-se feliz por perceber que o rei professava interiormente a sua fé, não sente o choque da morte que se aproxima. Da morte da única pessoa que lhe tem dado sentido à vida...
- Aparentemente, só aparentemente, porque o coração de dona Catarina está povoado de pessoas. Vais ver que mesmo sem o rei, e com a força desta fé, encontrará outras razões para viver. Que ao menos Sua Alteza receba os Sacramentos, para que a alma da rainha sossegue - respondeu Meg.
Castelo Melhor, que as tinha estado a ouvir, tomou uma decisão. Virando-se para a rainha e para James, anunciou numa voz que não admitia discussão:
- Dentro de duas horas a contar deste momento, vou entrar nos aposentos de Sua Alteza Real, o rei Charles de Inglaterra, acompanhado de um padre anglicano, para lhe apresentar os meus cumprimentos em nome de Portugal, e da rainha, a quem o médico proibiu de sair da cama. Ficava muito grato ao duque de York se estivesse à minha espera, para me acompanhar até junto de Sua Majestade.
Todos se olharam, espantados. Mas D. Luís não esperou pela autorização nem da rainha, nem do duque. Virando-se para as irmãs Fanshawe, pediu-lhe que o seguissem.
- Preciso que me arranjem uma cabeleira escura, uma batina negra como a dos padres anglicanos. Procurem na sacristia, sei que na gaveta de cima há vários tipos de paramentos. Dentro de uma hora reencontramo-nos lá em baixo no jardim das estátuas...
E saiu disparado.
- Eu sei onde o conde vai - disse Meg, satisfeita.
- Mana querida, desta vez comungamos dos mesmos pensamentos. Eu também - ripostou Nan.
Catarina, a imagem da sua Virgem e do Menino de olhos postos nela, também sabia. Compreendera logo o plano de D. Luís, e percebera que não con iara no duque de York para o revelar de imediato. Castelo Melhor lembrara-se do father Huddleston, capelão de Somerset House. O inglês era a sua língua, conhecia os rituais e os costumes dos seus «rivais», conseguira sobreviver intocado mesmo nos dias mais ferozes das perseguições aos católicos, mas, mais do que tudo, mais importante do que qualquer outra coisa, pensava a rainha, amava verdadeiramente o rei. Salvara-o do exército de Cromwell, quando não passava de um adolescente aventureiro, e salvá-lo ia agora, abrindo-lhe as portas do Céu. De olhos fixos na Virgem de Mourão, Catarina rezou com todo o fervor:
- Senhor, se Charles tem de partir, que seja abençoado por um padre, ungido com os sagrados óleos. Sei que assim lhe perdoarás todas as falhas e o acolherás junto de ti.
Até o Deus mais insensível daria ouvidos a uma mulher como Catarina de Bragança.
Catarina quisera vestir-se. Queria estar pronta a ir ao quarto do rei, se tal lhe fosse permitido, queria estar sentada numa das suas cadeiras na sala quando Castelo Melhor voltasse e lhe descrevesse como tudo se passara, queria ouvir de pé a notícia mais terrível, se fosse caso disso.
Não icou muito tempo sozinha. Meg e Nan regressaram aos aposentos da rainha, e vinham tão entusiasmadas que se sobressaltaram quando viram a rainha.
- Contem-me, por favor - pediu a rainha, suplicante.
Esquecidas da iminente morte do rei, Nan e Meg sentiam-se transportadas no tempo. De repente, em lugar de mulheres e mães, voltavam a sentir-se duas meninas, damas da Casa da Rainha, a quem haviam jurado, com toda a solenidade, servir.
Atropelaram-se na descrição:
- Num cesto de piquenique, escondemos os paramentos e a cabeleira.
- Para disfarçar o father Huddleston? - perguntou a rainha.
As irmãs olharam-na, espantadas:
- Dona Catarina sabia que era nele que dom Luís pensava quando saiu daqui disparado?
Catarina sorriu tristemente:
- É claro que sim. E é um desígnio de Deus...
- Um desígnio que quem o salvou uma vez lhe traga de novo a salvação -disse Nan, numa voz suave.
Foi a vez de Catarina se sobressaltar:
- Não fui eu que disse estas palavras, Sua Alteza, mas o father Huddleston, quando aqui chegou.
Os olhos negros de Catarina brilharam de felicidade.
- O conde de Castelo Melhor foi buscá-lo a Somerset House, vestiu a batina por cima da sua, no vão das escadas de caracol, e partiram os dois pelo corredor...
Catarina ordenou-lhes que rezassem:
- Não podemos fazer mais nada, senão rezar para que a Virgem esteja com ele, e todos os santos também. - Quando viu o father Huddleston entrar pela porta, Catarina sentiu que o coração parava. Como é que alguém podia sentir simultaneamente tantas coisas diferentes? O motivo da presença do padre era trágico, mas a felicidade de o ver e de sentir que tudo acontecera como previsto deixava-a de alma lavada, pronta para suportar todas as dores. Huddleston coxeou até junto de Catarina, de quem gostava tanto, e sentou-se na cadeira que Castelo Melhor colocara ao lado da rainha.
- Minha querida ilha, Charles confessou-se e recebeu os Sagrados Sacramentos, ungi-o com os óleos que o tornarão mais forte, mais capaz de suportar tudo aquilo por que tenha de passar, até encontrar a paz do Senhor.
- Mas como? - perguntou Catarina, as lágrimas a correrem-lhe pela cara, sem que se desse sequer ao esforço de as disfarçar.
- Dom Luís, com a sua mestria, entrou na sala e desviou de mim a atenção dos presentes. Pequeno como sou, vestido de negro entre tantos outros com a mesma veste, fui pedindo licença e passando até chegar junto do rei, sem que ninguém desse por nada. O duque de York revelou-se, como se revelam as pessoas boas em tempos de necessidade, e ordenou que toda aquela multidão saísse do quarto do rei para que o conde de Castelo Melhor, em nome da rainha impedida de visitar o marido pelo médico, pudesse ter com Sua Majestade uma conversa particular.
- James foi capaz de mandar calar as pessoas, de as fazer recuar para outro quarto, sem que nenhum ministro pedisse para icar? - perguntou Catarina.
- Julgo que foi o factor surpresa, minha ilha. Temo mesmo - disse com um ar ligeiramente angustiado - que o duque de York não demore muito a descobrir o prazer de mandar, e se deixe inebriar por ele. Charles, o meu querido Charles, nunca foi prepotente, nunca tirou prazer no exercício do poder pelo poder, da humilhação como forma de conquista...
Catarina soluçava.
- Chore, minha ilha, chore, que as lágrimas fazem bem à alma. Não acredite nos padres que lhe disserem que não deve chorar. Jesus Cristo chorou na cruz, a sua mãe chorou certamente, e bem, ao ver o ilho pregado no madeiro, como choraram os seus amigos. É tão digno chorar, como rir, minha querida Catarina - disse-lhe, dando-lhe festas nas mãos que a rainha torcia no colo em desespero.
Respirando fundo, Catarina voltou a insistir:
- Mas conte-me mais, father Huddleston, conte-me o que sentiu, o que acha que Charles sentiu? Fizemos bem? Acha mesmo que era este o seu desejo, a sua vontade?
- Não tenho dúvidas nenhumas, Sua Alteza. Meu querido ilho - disse com a voz trémula de comoção -, meu querido ilho que voltou a estar nos meus braços, que me confessou, como pôde, os seus pecados, que me pediu a mim, ao conde e a James que velassem por si.
Catarina julgou que ia desmaiar. Meg viu-o na sua expressão e apressou-se a dar-lhe um gole de um vinho do Porto. Direita como uma sentinela, os seus cabelos loiros em cachos, os seus olhos molhados mas bem abertos, Meg deixou-se icar em pé, por trás da cadeira da rainha, uma mão em cada um dos seus ombros.
A rainha virou a cabeça para a sua menina, agradecida, e Meg reparou que o father Huddleston olhava Catarina com uma ternura imensa:
- Corro o risco de a comover de mais, Sua Alteza, falamos depois...
- Não, não, por favor, father Huddleston, descreva-me como tudo se passou.
- Vou contar-lhe então tudo porque os próximos dias, as próximas semanas, os próximos meses vão ser duros, e vai precisar destas palavras, destes episódios que lhe conto, para perceber o quanto a sua força, a sua generosidade, as suas convicções, e até a sua teimosia - disse, os cantos da boca revirados num ligeiro sorriso -, foram importantes para que Charles II de Inglaterra fosse melhor pessoa, e tivesse o privilégio de uma morte santa.
- Mandou-me mais algum recado?
- O rei repetiu várias vezes, e dom Luís não me deixa mentir, que lhe pedia perdão...
- A mim? - gritou Catarina. - Eu é que lhe tenho de pedir desculpas, deixem-me ir dizer-lho pessoalmente. Eu é que não lhe dei um herdeiro, eu é que fui ciumenta, caprichosa.
O father Huddleston encostou o dedo à própria boca, num gesto de silêncio:
- Dona Catarina, é preciso saber receber, assim como dar. Ninguém tem dúvidas de que o rei tem razões para lhe pedir perdão, como temos todos a certeza que o facto de não ter ilhos não resultou de uma vontade sua, mas de Deus, que por vezes escolhe caminhos complicados de entender.
Pondo-se de pé com dificuldade mas determinação, o father Huddleston anunciou que tinha de partir. A missa da tarde esperava-o. À despedida abraçou a rainha, e prometeu-lhe:
- Vou escrever tudo isto num livro, que lhe vou oferecer. Quero que guarde a memória deste dia importante, para si e para tantos católicos que como mártires perderam a vida nos últimos anos. Julgo que é importante que fique para a História quem era o verdadeiro Charles.
- Sabe - disse Catarina, mais serena -, sempre tive a sensação de que conhecia um homem diferente daquele que todos os outros viam.
- Não era ilusão, Sua Alteza. Tanto eu como dona Catarina tivemos o privilégio de conhecer o melhor dos dois.
E aceitando que a rainha lhe beijasse a mão, partiu.
Meg já estava com Nan na carruagem, ansiosa por ir abraçar o seu Francis e os seus Robins dos Bosques, como lhes chamava, quando se lembrou:
- Mana, desculpa, deixa-me ir fazer um recado de que me esqueci...
Correndo o mais que a saia lhe permitia, entrou nos aposentos de Louise. Lady Portsmouth lia um livro a uma criança igual a Charles, os cabelos e os olhos tão negros como os seus, a boca cor-de-rosa e curiosa. Meg parou, comovida, mas lembrou-se de que Nan a esperava.
- Venho só dizer-lhe, pedindo-lhe, obviamente, o maior segredo, que foi possível cumprir o seu desejo.
Louise deixou cair o livro e apertou o pequenino Charles com força contra si:
- Bendito seja Deus.
Com uma vénia, Meg voltou a correr para a carruagem. Quando se precipitou pela porta, abraçou-se a Nan e chorou como uma criança. Nan deixou-a repousar nos seus braços, enquanto o balanço da carruagem a embalava.
- Que pena dona Catarina ter perdido, tão cedo, a irmã.
- Temos de continuar a tomar conta dela - soluçou Meg.
- Mais do que nunca - murmurou Nan.
Já tinham passado quatro dias, e neste dia 6 de Fevereiro Charles não parecia melhorar. James queria acreditar, no entanto, que a visita do father Huddleston e a força dos Sacramentos lhe tinham dado outra paz. Dizia-o constantemente a Catarina, enquanto se sentavam os dois, um de cada lado da cama, olhando para o rosto pálido do rei.
Charles recuperava por momentos a consciência, e de uma das vezes, ao ver os ministros reunidos ao fundo da sua cama, arranjou forças para dizer, com uma curta gargalhada: «Meus senhores, peço-vos desculpa por até a morrer ser indeciso!»
James escondeu a cara nas mãos. A força de Charles comovia-o sempre. Que Deus lhe desse um quarto daquele ânimo e daquela generosidade. Catarina apertou-lhe a mão, mas não conseguiu dizer nada, a voz demasiado embargada para falar. Como gostaria que o seu marido não fosse rei de Inglaterra, não tivesse de morrer rodeado desta gente, como desejava poder deitar a cabeça sobre o seu peito, como tantas vezes izera, e deixar que ele a apertasse nos seus braços fortes, e lhe dissesse como, à sua maneira, a tinha amado.
Mas Charles já não lhe pertencia, nem sequer o seu Charles, que ela e o father Huddleston guardariam para sempre no coração.
Quando voltou a olhar para o rei, James fechava-lhe os olhos e beijava-o na testa, sem esconder as lágrimas. Catarina não se lembrava de mais nada. Quando deu por si estava aconchegada na cama, uma laranja pousada ao lado da sua almofada. Num bilhete, a letra firme de frei Pedro:
«Não sei, mas pressinto que precisa de mim, hoje, agora, e com uma urgência que nunca senti antes. Não posso ir ter consigo, minha querida infanta D. Catarina, por muito que há 23 anos não tenha outro desejo. Envio-lhe uma laranja, uma laranja apanhada no seu paço, num daqueles dias frios e azuis, tão transparentes que o horizonte ica sem im. Espero por si aqui mesmo.»
Estendendo a mão para a pequena miniatura com a imagem de Charles, abraçou-se a ela e chorou. Frei Pedro sabia que já nada a prendia aqui...