Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 6 de 12

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Catarina de Bragança

Paço da Ribeira, 23 de Abril de 1662

 

ediu o pequeno-almoço na cama. Luísa nunca lho havia consentido,

defendendo que a preguiça era a mãe de todos os vícios. Mas hoje era diferente. Hoje sabia que podia pedir tudo, como tudo é permitido a uma criança no dia de anos, ou quando recupera de uma doença que deixou a todos com o coração nas mãos. D. Leonor já tinha desistido de conter as lágrimas, Afonso, na véspera, chorara como um menino pequeno, e Pedro andava atrás de si, como um cachorro gigante, tal qual o Teo que lhe havia dado quando ele fizera seis anos. Frei Pedro vestia o hábito mais escuro e fundia-se contra as portas ou os reposteiros à sua passagem e Catarina fingia que não o via, entrando no jogo que permitia que nem um nem outro submergissem à emoção que os tomava. Carminho, a sua companhia de tantos anos, agarrava-se-lhe ao vestido, como se a quisesse ainda mais pequenina do que era, do tamanho de lhe voltar a pegar ao colo. As criadas afadigavam-se no arranjo dos últimos baús, os pregos de latão polidos até brilharem, os saquinhos de alfazema para que a roupa que usaria na viagem, e sobretudo à chegada, cheirasse a fresco. Toda a outra bagagem já repousava nos porões dos navios que baloiçavam ao vento, mesmo em frente da janela. Catarina embrulhara ela própria a sua imagem da Senhora das Candeias, deixando-a à mão, porque sabia que precisaria de toda a força da Santa para suportar a partida, a viagem, a chegada, o futuro. Num outro canto da arca, as cartas de Charles - quando duvidasse de tudo mergulharia de novo em cada uma das linhas escritas pelo seu marido, e teria coragem para mais um dia...

O pequeno-almoço na cama, com um raminho de laranjeira entre o guardanapo de linho bordado pelas irmãs do Convento das Chagas, que recebia sobre as pernas tapadas pela manta de Monsaraz, de cores garridas, que insistia que lhe cobrisse sempre a cama. As costas encostadas nas almofadas de penas, roubadas aos patos do paço alentejano, os olhos negros e enormes presos na tapeçaria pendurada na parede do seu quarto. Queria guardar todos os pormenores, como que pintados de forma indelével - como gostaria de saber manusear um pincel, um lápis que fosse, para retratar tudo. Então, nos dias em que as saudades se tornassem insuportáveis, passaria as folhas do seu caderno e encontraria em cada página um objecto favorito, a lor lilás dos rosmaninhos, a fachada do paço, o coche em que Luísa chegara de San Lucar, e as caras, a cara do pai, de Teodósio, de Joana, de Afonso e de Pedro. Não pintaria a mãe, concluiu, a mãe nunca poderia icar contida num retrato - eram coisas de mais para caberem numa imagem só.

Olhou, de novo, o tabuleiro do pequeno-almoço, e desta vez viu. Viu a carta, a letra de António Vieira que reconheceria em qualquer lado, e sentiu uma paz imensa. Mesmo sem a ler sabia que Vieira a protegeria, mesmo se nessa ilha para onde ia não fosse compreendida ou aceite.

Abriu com uma mão o sobrescrito, enquanto com a outra segurava a fatia de pão fresco e geleia de marmelo em que dava trincas minúsculas, na esperança de que durasse, durasse para sempre aquele sabor a casa. Sorriu: era típico do jesuíta. Quando esperava uma homilia, conselhos para a vida de casada, ou de como missionar numa terra de hereges, Vieira surpreendia-a com um poema em latim: «CC - Ao felicíssimo casamento de D. Catarina com o rei de Inglaterra, Charles II. Auguro no duplo CC duzentos anos de Império, e caso se convertam num único, torná-lo-ão eterno.»

Catarina chamou D. Leonor e começou a dar ordens. Hoje ia dar ordens. Ia cumprir todos os seus desejos. Ia recusar protocolos, brincar com tudo o que fora proibido, ia chamar Afonso e Pedro e passeariam no jardim dos buxos, e sem ninguém ver havia de os convencer a tentarem apanhar os peixinhos encarnados do tanque. Como a mãe lhe contava que Teodósio fazia no claustro de D. Jaime. Depois, obrigá-los-ia a lançar de novo o peixe à água e ela, Catarina, ficaria a vê-lo nadar, ao sol de Lisboa.

Sé de Lisboa, 23 de Abril de 1662

 

ra isto casar? Ser vestida a rigor, penteada e pintada, coroada com

colares e pulseiras, usar sapatos de salto alto, e sorrir, sorrir o tempo todo. Ir à varanda acenar ao povo que se juntava no terreiro para a saudar, eufórico por um dia de festa, estender a mão a beijar a embaixadores e senhores, aceitar as felicidades de damas envoltas em tafetás e rendas, olhar para o Terreiro do Paço, para o seu terreiro, e perceber que as carruagens eram tantas, que onde uma começava a outra acabava, como um tigre que tenta morder a cauda.

Casar sem marido, acompanhada dos irmãos, Pedro apertando-lhe o braço e mal escondendo as lágrimas de um lado, Afonso do outro, trajado a rigor, pois os olhos de todos iam dela para ele, como se esperassem que naquele dia tudo lhes fosse revelado.

Procurava recitar para si própria esta lengalenga, a que ia acrescentando os acontecimentos à medida que eles se iam sucedendo, para tentar calar a dor imensa que sentia dentro de si. A magia resultava, intercalada por ave-marias e pais-nossos, mantendo-a como que distante de tudo.

De que outra forma poderia ser? Se não estivesse anestesiada de algum modo, como suportaria a ideia de que este abraço que agora dava à mãe seria o último? Separaram-se no patamar das escadas, a rainha-mãe não quis descer, nem participar na cerimónia da Sé, não podia arriscar-se a desfazer-se em lágrimas diante de todos.

- Filha, meu amor, ico a ver-te da janela, vou seguir-te pela calçada acima e pela calçada abaixo, quando atravessares o jardim os meus olhos estarão em ti, e depois não deixarei, nem por segundos, de os manter presos no barco onde viajas. Continuarei a ver-te, enquanto as ondas baterem no casco, e estarei contigo quando, inalmente, puseres os pés em terra irme, nesse lugar onde o teu marido te espera, onde darás à luz os meus netos, e nunca ninguém que te conheça esquecerá alguma vez o nome de Portugal.

Catarina não respondeu. Dobrou o joelho até ao chão e beijou a mão da mãe. Afonso levantou-a, e Pedro deu-lhe a mão, como izera tantas vezes em pequeno. Viraram as costas, e Catarina não se voltou mais. Mas sentia os olhos da mãe em si. Naquele dia e em todos aqueles que viveu.

 

Sandwich estava fascinado: de onde aparecera tanta gente, tantos coches, cavaleiros, soldados fardados a rigor, tapeçarias estendidas das janelas, arcos de lores que moças rosadas e de trajes coloridos seguravam de um lado e de outro, para que a rainha de Inglaterra passasse por baixo? A carruagem da rainha partira do Pátio da Capela, seguia pela Rua Nova, subia a calçada em direcção à Sé.

- Quantos sinos tem esta cidade - protestou o almirante Sandwich, colocando as mãos sobre os ouvidos e procurando fechar as janelinhas da carruagem onde seguia, mesmo atrás da de Catarina, ou não fizessem, ele e Fanshawe, o lugar do noivo nesta cerimónia protocolar mas que para os portugueses representava tudo.

- Que toquem. Que o povo se divirta, que beba e dance. Merecem, coitados, o seu suor contribuiu para o dote da infanta, e que enriquecerá os cofres de Charles, sendo-lhe dado, espera-se, bom uso - respondeu-lhe o embaixador inglês, com a voz ligeiramente amargurada.

O marquês de Sande ingiu-se entretido com os laços dos sapatos, enquanto lady Fanshawe limpava as lágrimas que já lhe tinham começado a cair.

- Mulher, poupa-me essas lágrimas para quando eu fugir com outra -gracejou o embaixador inglês, ansioso por aliviar o ambiente e disfarçar a gaffe diplomática de que tinha sido autor.

Sandwich ajudou, comentando:

- Até eu ia chorando quando vi a forma digna como a rainha de Portugal e Sua Majestade de Inglaterra se despediram. Muito sinceramente, pareciam inglesas - acrescentou, sorridente.

D. Francisco sorriu também. De facto, D. Luísa de Gusmão devia possuir algum antepassado nórdico, pela capacidade que revelava de sempre pôr o dever à frente de tudo, de conter as suas dores, para não contagiar com elas os outros. Sinceramente admirava-a e servia-a com toda a dedicação.

Fanshawe, como que lendo os seus pensamentos, rematou:

- Dom Francisco deve estar orgulhoso do seu trabalho. Tenho a certeza de que foi a sua persistência, aliada à visão de Sua Majestade, a rainha-mãe, que permitiram que este dia chegasse a acontecer, acredito que para felicidade dos nossos dois reinos.

O marquês de Sande fez-lhe um pequeno cumprimento com a cabeça, enquanto Sandwich pensava: «De facto, só tu é que levavas o rei a assinar um acordo destes, e a mim, almirante da armada inglesa, a voltar para casa com apenas metade do trabalho cumprido.» Mas o mais estranho é que o pensamento não o angustiava.

Quando a carruagem parou, os seus ocupantes apressaram-se a sair. Sandwich tomava discretamente notas e à noite escreveu no seu precioso diário:

«Apeámo-nos e fomos à frente, icando eu colocado imediatamente antes de D. Pedro. O rei de Portugal conduzia a rainha de Inglaterra pela mão, e próximos da porta, quando íamos a entrar, todos pararam. Eram aguardados por padres, que traziam consigo uma cruz, sob um rico pálio, suportado por seis outros padres. O rei, a rainha e D. Pedro beijaram a cruz, ajoelhando-se sobre uma almofada. Subiram para o lugar do coro, numa varanda de onde se via toda a igreja, e o rei e a rainha sentaram-se, lado a lado. O conde da Ponte e o visconde, não sei bem o seu nome, levaram-me para um aposento especialmente preparado para que descansasse enquanto se celebrava a missa.»

A porta tinha sido aberta no muro do jardim, propositadamente para aquele dia. Assim, a rainha de Inglaterra podia descer do coche no terreiro, rodeada do seu povo, sem de que dar a volta para chegar ao jardim, onde fora construído um pontão, a que estava atracado o bergantim real.

- Catarina, foi neste que chegaram pela primeira vez a Lisboa? -perguntou Pedro, com a voz trémula.

Catarina olhou o barco e sorriu, como se de repente estivesse livre de tudo aquilo, e nos braços de Carminho, naquele dia de Natal que marcara o início de uma vida nova para todos os Bragança.

- Foi, Pedro, foi neste. O pai veio buscar-nos à Aldeia Galega. Eu era demasiado pequena para me lembrar de tudo, mas os manos contaram-me tantas e tantas vezes, que é como se me lembrasse de verdade. O pai, vestido como hoje está o Afonso, como nunca o tinha visto, o seu sorriso meigo, feliz e preocupado, ansioso por ter junto de si a mulher e os ilhos. Nunca fomos de nos separar muito, e em Vila Viçosa só as idas à caça o tiravam de casa...

Afonso não quis ficar de fora da conversa:

- Acho que tenho muitas coisas do pai, não achas, Catarina?

Pedro teve vontade de tossir de reprovação, mas Catarina fulminou-o com os olhos, comprando o seu silêncio:

- És sensível e bondoso como o pai, Afonso. Tens a sua cor de cabelo e de olhos, a dele e de Teodósio. Sabes ser leal e justo e tenho a certeza que o pai se vai orgulhar da forma como vais governar o reino...

- Agora sem ti ao lado, não sei - murmurou o rei.

- Mas à distância de uma carta, Afonso. Se calhar, vamos dizer muito mais um ou outro por escrito do que temos dito cara a cara - disse-lhe Catarina, apertando-lhe a mão com força.

Mas a conversa tinha de acabar. Aportavam ao Royal Charles, e Catarina, que nunca pusera um pé num barco daquele tamanho, embora os contemplasse todos os dias, icou deslumbrada. No convés já a esperavam aqueles que iam viajar com ela, e o almirante estava pronto a fazer-lhe uma visita guiada.

Catarina abriu a boca de espanto: parecia uma casa, a sala, o quarto, os magní icos tapetes que cobriam o chão de madeira, as paredes forradas a damasco, a cama, enorme e convidativa. Richard Russel servia de tradutor.

- Sua Alteza, espero que seja muito feliz nesta viagem - disse Sandwich, beijando-lhe a mão.

- Serei, certamente, tratada desta maneira não há razões para que o não seja - respondeu, formal, Catarina.

Lá de fora chegava o barulho do ribombar dos canhões do James e do Henry, dois dos outros barcos da frota inglesa, os apitos das fragatas e das faluas que circulavam em redor dos maiores, os gritos das pessoas que invadiam a pequena praia, saltando o muro que dividia o terreiro do rio, apesar da guarda, que tentava manter a ordem. Catarina quis ir ver, mas o almirante foi irme: a partir de agora Sua Alteza estava con inada aos seus aposentos. O nó na garganta apertou-se e Catarina, com a força que herdara da mãe, solicitou:

- Então, por favor, deixem-me sozinha.

As ordens das rainhas mereciam obediência. Afonso e Pedro estavam tão ansiosos como ela por icarem sozinhos, por se refugiarem no paço, onde poderiam esconder as emoções num canto menos exposto, num quarto mais escuro, num banco da capela. Despediram--se como se fossem encontrar-se de novo amanhã, no dia seguinte, e naquele que viria depois desse. Contendo as lágrimas, disseram um «até logo», no tom mais coloquial que conseguiram. Era assim que a mãe dissera adeus à sua única

ilha, era assim que fariam também. Horas depois, e pela primeira vez

desde que era bebé de colo, o rei de Portugal soluçou no ombro da sua mãe, o braço em redor dos ombros do irmão mais novo. António Vieira e frei Pedro assistiam à cena, de um canto da sala. Sabiam que este milagre seria breve.

D. Maria bateu à porta do camarote e, entrando, ingiu que não via as lágrimas de Catarina.

- Sua Alteza, trago-lhe um chá, bem forte, e uma carta da rainha--mãe.

Catarina, que mantinha os olhos no chão, deu um salto, esticando a mão, ansiosa:

- Uma carta da minha mãe? Meu Deus, meu Deus, muito obrigada, muito obrigada, dona Maria.

Maria de Portugal fez uma vénia e suavemente fechou a porta atrás de si. - Pobre princesinha, que sorte a dos reis, que não a invejo nem por um minuto, mesmo partindo eu também, murmurou.

Catarina contemplou o sobrescrito fechado como quem tem medo de precipitar o prazer para se descobrir de novo sem nada. Virou-o e revirou-o e notou, escrito na margem, em letrinhas pequeninas, quase como uma mensagem secreta, as palavras da mãe «carta de saudade estando a ilha ainda embarcada».

Mordeu o lábio com força.

Bebeu mais uns goles do chá quente a que, por indicação do médico, D. Maria acrescentara umas gotinhas de láudano, que as emoções deste dia eram imensas para uma mulher tão frágil, dissera o bondoso doutor António. Sem saber o que bebia, sentiu-se sossegar, e procurou o conforto da cadeira, abrindo as cortinas para deixar entrar a luz da sua cidade. Sorriu com afecto quando percebeu que eram bordadas com a sua inicial e a de Charles, entrelaçadas num monograma. Precisava de se concentrar no amor do marido, no futuro. Aconchegou--se e com todo o cuidado abriu o sobrescrito e começou a ler, co movida e espantada com a forma como a mãe, sem barreiras, lhe falava pela primeira vez do desgosto de a ver partir, do seu imenso amor por ela.

Minha Catarina e Todo Meu Bem,

É tal a minha desgraça que até ver esse navio desta janela, de que me sirvo muito desde que entraste para o barco e me deixaste, me deixa sem ar. Mas que Deus seja louvado por tudo aquilo que quer que eu padeça, e só tenho que lhe pedir paciência, tão necessária para o trabalho que tenho ainda pela frente, tão contrário ao meu ser, e acredita, filha minha, que se não fosse esta prisão te seguiria pessoalmente. Os teus irmãos estão já cheios de saudades, e Pedro chorou muito e pediram-me licença para que os deixe voltar ao barco de novo, o que permiti com grande inveja minha, mas sei que essa sorte não me foi reservada. Espero que todos tomem bem conta de ti, e não te esqueças de guardar na tua memória como és e serás sempre a minha Catarina, que Deus me deu.

A tua mãe, que muito te ama,

Rainha

Bendito calmante. As lágrimas quentes sabiam a sal mas não a enchiam de desespero. A mãe amava-a, os olhos dela seguiam-na, Deus estava com ela, e António Vieira profetizara um casamento feliz. Deixou a cabeça encostar às almofadas e fechou os olhos, a carta no colo.

Quando D. Maria a veio espreitar, sorriu. Não deixaria que hoje mais ninguém a incomodasse. Mais tarde dar-lhe-ia uma canja, ajudá--la-ia a vestir a sua camisa de dormir e, se tudo corresse bem, o amanhã chegaria com uma rainha descansada e cheia de força.

Catarina acordou confusa, que barulhos eram aqueles, porque baloiçava tudo? Ao lado da cama, uma das suas criadas dormia num sofá. Perguntou:

- Teresinha, sonhei ou ouvi a voz do meu irmão Afonso a cantar à minha janela?

Teresa, que a conhecia de menina, afagou-lhe o cabelo, num gesto que deixava claro que para ela Catarina seria sempre e apenas «a sua menina», e respondeu:

- Credo, dona Catarina, não sonhou, não. O rei veio no bergantim, com muitos músicos, e tocaram e cantaram para si, mesmo aqui de baixo da sua janela...

Catarina escondeu a cara na almofada e pensou: Como está desperdiçado o valor e o amor do meu irmão.

No mesmo dia, o almirante escrevia no seu diário:

«A 24 de Abril o vento e o temporal eram fortes de mais para podermos partir. Mas levantámos ferro pelas 10 horas e fomos fundear diante de Alcântara, e o rei e D. Pedro vieram a bordo.»

Não poderia ter escolhido um sítio mais perfeito: da escotilha do seu camarim Catarina despedia-se da Quinta de Alcântara, que tanto lhe lembrava o pai.

Mas era a mãe que agora a surpreendia. Pedro entregou-lhe, quase envergonhado, um outro sobrescrito, com as palavras «Sua Alteza» esborratadas certamente pelas lágrimas da mãe. Catarina engoliu em seco, e Afonso tossiu:

- Se fosse a ti guardava essas cartas para quando tiveres motivo para chorar, agora ri-te, fala connosco, conta-nos como é ser prisioneira num barco em pleno Tejo.

A irmã piscou-lhe o olho, agradecida, e jogaram xadrez toda a tarde. A carta, essa, ficou na mesa-de-cabeceira, intocada. Afonso tinha razão: se lhe era pedido que suportasse esta longa e penosa viagem, que ao menos vivesse plenamente cada minuto que passava com os seus adorados irmãos. Além do mais, eram o pretexto de que precisava para justi icar não receber mais ninguém. Por minutos icou pensativa: de todos aqueles que estavam embarcados só havia um que seria bem-vindo - Edward Montagu. Os ares do mar estavam a fazer--lhe mal, pensou.

O almirante do Royal Charles veio de manhã dizer-lhe que iam partir. Estavam a 26 de Abril de 1662, e três dias a balouçar no Tejo já o punham nervoso, a ele e à sua tripulação, e à de todos os outros barcos. Era preciso sair dali. Aliás, já tais eram os comentários e as graças que os seus homens às escondidas murmuravam contra a feiura das damas da Casa da Rainha, que temia que em algum impulso algum deles atirasse uma pobre senhora aos tubarões... Só a simpatia da rainha poderia servir de antídoto, de facto, porque não acreditava que nem o gosto, nem o vocabulário do seu rei, aprendidos em aventuras como estas, fossem muito diferentes dos da sua tripulação!

Cá em baixo, de onde a rainha de Inglaterra não podia sair, não fosse uma gaivota raptá-la do barco, como comentava a rir, ouvia-se os pés dos marinheiros no convés, o barulho dos cabos e das enormes velas içadas para apanhar o vento.

Nas salas contíguas conseguia escutar o choro das damas, os gritos das criadas quando o barco adornava e tudo parecia virar-se de pernas para o ar. Deitou-se na cama, uma almofada em cima da cabeça, apenas os olhos de fora, e abriu uma das duas cartas:

De lado, de novo, na letra certa e irme da mãe, uma nota: «Carta de grandes amores e encarecidas saudades da partida da Filha.»

Continuou a ler:

Filha minha, e todo o meu Amor.

Sem ti o que será de mim? Não te volto a falar da minha dor permanente para não te cansar, nem te contagiar com ela, basta o que fazem os outros, e deixo à tua consideração ponderares o que sofri para não te mostrar como me custava ver-te partir.

Catarina deu por si a rir: será que a mãe pensava que depois de mais de vinte anos juntas, não era capaz de lhe ler os pensamentos, mesmo quando tentava disfarçar os seus sentimentos? Querida mãe.

A página seguinte estava cheia de pormenores mais práticos, mas a sua parte favorita eram os « ins». Nunca imaginara ouvir da mãe, ou melhor, ler, tais declarações de carinho. Como era possível que Luísa escrevesse coisas como «a tua Mãe que só a ti idolatra, Luísa que pertence a Catarina».

Fixou o dossel da sua cama, como que hipnotizada. Lá fora os sons de vida continuavam, e durante um tempo Catarina tentou identificá--los e dar-lhes nome. Depois respirou fundo e estendeu a mão para a última carta recebida, a última que havia de receber pelo menos até chegar a Inglaterra. Mas aí teria Charles.

Esta começava com a sua frase favorita - «Minha Catarina dos meus olhos» e continuava numa confissão tão franca que era comovedora: «Eu sei sentir melhor as saudades do que declará-las.» Para D. Luísa de Gusmão esta admissão era extraordinária, como era importante que fosse capaz de lhe dizer que esperava que ela soubesse o quanto a amava. Mais triste era quando escrevia que sem ela a solidão seria insuportável, porque a filha sabia que a mãe não mentia, e que nem Afonso, nem Pedro seriam capazes de substituir a sua presença - se ao menos tivesse noras simpáticas, netos...

Havia, contudo, um sinal de esperança: a ilha ainda não tinha saído da barra e a rainha-mãe já se queixava do peso das suas ocupações, das noites passadas de volta dos papéis e dos documentos. Só mergulhada na sua actividade frenética encontraria a paz de espírito para aguentar estas semanas sem notícias de Catarina e tantas pessoas de quem gostava perdidas no mar.

Catarina leu várias vezes as palavras inais - mais uma vez a cereja em cima do bolo:

«Deus te guarde, minha ilha, e te dê a sua bênção, que eu vou à capela pedir que assim seja, e rezar, que é a única coisa que me consola.

A tua mãe que te adora,

Rainha.»

Paço da Ribeira, 30 de Abril de 1662

 

o paço as águas estavam tão turbulentas como aquelas que o

Royal Charles atravessava. António Vieira fora fiel à promessa feita na Quinta de Alcântara: era preciso expulsar António Conti de Portugal. Neste momento viajava já para o Brasil. Com ele seguira também o seu irmão João, mais uns tantos. O seu tempo tinha acabado, como lhes dissera pessoalmente o jesuíta, e era melhor recomeçarem uma nova vida longe do que passarem o resto dos seus dias a apodrecer nos calabouços da Torre de Belém.

Estava Vieira a acabar de lhe dar os pormenores da operação e já os gritos de Afonso se ouviam à distância. Quando soubera da partida de Conti, daquele que acreditava ser a razão de ser da sua vida, contra tudo e contra todos, Afonso correra ainda ao cais de embarque. Quantas vezes lhe jurara o italiano que nunca o deixaria sozinho - não duvidava o rei que o tinham levado preso, agrilhoado no porão do barco. Culpada só podia haver uma, a mãe, que por ódio, ódio que não entendia, o queria privar do trono e da felicidade, só podia ser.

Frei Pedro procurara consolá-lo, explicar-lhe que era uma decisão tomada pelo Conselho de Estado e pelos tribunais, que a relação prejudicava o seu exercício de rei, mas Afonso nem o ouvia. Tentara exortá-lo a seguir o exemplo de Catarina, embarcada num barco rumo a um destino tudo menos certo, mas Afonso afogara-se dentro de si mesmo, dolorosamente consciente das suas de iciências ísicas, das suas limitações, da falta de amor verdadeiro e eterno.

De uma coisa tinha a certeza, António Vieira havia de pagar, tinha a certeza que só podia ser ele a armar toda esta cilada. De uma forma ou de outra destruiria todas as muralhas protectoras que a mãe construíra em redor do jesuíta. Havia de pagar caro ter-se intrometido na sua vida, na vida do rei de Portugal.

Gritou ao reposteiro-mor que lhe abrisse a porta do salão de Luísa, mas Luísa não estava. O homem, assustado com os gestos descontrolados do rei, o cabelo em pé, as vestes em desalinho, achou que era melhor abrir as portas de par em par, para que o rei constatasse que estava vazia.

A rainha-mãe fechara-se na capela, colocando um guarda em frente de cada porta de entrada. Ajoelhada frente à Cruz do Santo Lenho, que o marido mandara fazer em homenagem à determinação, à alegria e à inteligência de Teodósio, chorou todas as lágrimas que há tantos anos guardava. Também ela carregaria a sua cruz.

Chegara a hora de partir, de se refugiar num convento, onde encontraria a paz que tanto ambicionava. Estava cansada de disputas, do trabalho, dos papéis, dos documentos para ler e assinar, estava cansada, tão cansada e tão sozinha, Deus meu. Levantando-se, as pernas dormentes das horas passadas de joelhos, aproximou-se do tabuleiro das velas. Acendeu uma delas e colocou-a aos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição, a quem pediu, quase num grito:

- Senhora minha, guarda, de noite e de dia, a luz dos olhos meus.

«Se ao menos não o amasse tanto!»