Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 4 de 12 · parte 1/4

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Catarina de Bragança

Paço da Ribeira, 21 de Agosto de 1657

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

atarina já falara duas vezes no assunto. De ambas recebera da mãe

uma resposta de falso entusiasmo. Que sim, que claro, que a maioridade do rei seria celebrada em pompa e circunstância, no próprio Terreiro do Paço, com foguetes e barcos iluminados no Tejo, como pedia a data e um aniversário no mês das noites mais quentes da cidade.

Não era essa a pergunta implícita, mas Luísa ignorava-a declaradamente, e Catarina não insistiu. Queria saber se Afonso teria um lugar de maior destaque ou se tudo continuaria na mesma. Não lhe passava pela cabeça que a mãe deixasse de ser regente, bastava ouvir as conversas da corte e dos conselheiros de Estado para entender que quase todos desejavam que D. Luísa de Gusmão se mantivesse no governo do reino pelo máximo de tempo possível, já que o ilho não melhorara nem um bocadinho o seu comportamento nem revelara o menor interesse na missão que tinha pela frente. Catarina sabia que Afonso seria o primeiro a negar-se a assumir mais responsabilidades e que mesmo que lhe perguntasse na intimidade responderia que quanto mais tempo a rainha quisesse representá-lo na enfadonha tarefa de ouvir discursos, petições e pedidos de ministros, mais grato lhe icaria. A irmã não era já capaz de dizer se, magoado, Afonso construíra as suas defesas tão altas e tão fortes que nada, nem ninguém, as conseguiria penetrar, ou se apenas não confiava nela para lhe falar na humilhação que tudo isto lhe provocava.

- Mas ao menos vai ser-lhe dada uma Casa, mãe? O Pedro tem a dele e, criança como é, não perde uma oportunidade de atirar o facto à cara do Afonso. O Pedro tem um palácio, uma corte de nobres que a mãe lhe indicou - e Catarina sabia que Luísa escolhera os mais importantes para o

ilho mais novo. - Que sentido faz manter Afonso, o rei de Portugal, mãe,

preso à sua doença? Não vê que só lhe fará pior? E é ele, e não Pedro, o rei, mãe, por amor de Deus!

Luísa olhava-a como se encarasse uma criança que insistia em puxar as saias da mãe para lhe exigir mais doces. Que teimosa que Catarina conseguia ser. Ignorante e desinteressada de tanta coisa do reino, incapaz de lhe recitar de cor as linhas das fronteiras, era como um animal feroz a defender as suas crias. Quando os assuntos eram de família, Luísa já tinha deixado de contar com a obediência cega da filha.

- Catarina, porque é que me obrigas a repetir tudo do princípio? Não, Afonso não terá, de momento, uma Casa. Falei ontem com o conde de Odemira, o seu aio mais do que paciente, mais do que dedicado, e o teu irmão não está pronto para governar ninguém... Queres que tenha uma Casa sua e nos escandalize a todos com a gente que convida a frequentá-la? Ou pela forma como trata os criados ou aqueles que procuram simplesmente que saia à rua vestido condignamente?

De facto, era preocupante esta última moda de Afonso, que consistia em vestir roupas sobre roupas, como se fosse um pedinte a quem tivessem sido oferecidas túnicas e camisas, e as usasse sobrepostas com medo de que lhas roubassem. Mas será que a mãe não via que o fazia apenas para esconder o seu corpo disforme, a barriga descaída, a sua corcunda? O facto de o querer esconder revelava claramente que a indiferença que manifestava em relação aos bons costumes que lhe queriam impingir era

ingida - Afonso tinha tanta consciência da sua de iciência que fazia tudo

para que não se notasse. Exagerava, chamava ainda mais a atenção sobre si com aqueles trajes carnavalescos? Certamente, mas mais razão para o ajudar a procurar a melhor forma de suportar a cruz que Deus Nosso Senhor lhe tinha dado. Catarina encolheu os ombros, desesperada. Não valia a pena explicar tudo isto à senhora sua mãe, nem sequer ao aio, porque não a entenderiam, ou não queriam entender. Nem sequer os podia condenar por isso, porque reinar era ter a capacidade de esquecer os indivíduos e pensar no bem comum, como tantas vezes ouvira ao pregador do reino, António Vieira, nos seus sermões. Onde andaria? Talvez a mãe o ouvisse, mas e daí talvez não, porque fora sobretudo o pai que protegera os «desvarios» do jesuíta, como a mãe acidamente lhes chamava. Agora sem a protecção do rei, e Afonso também nunca lha daria, António Vieira estava provavelmente em grande perigo - era melhor não lhe pedir que comprasse novas guerras.

Catarina despediu-se da mãe, mas quando fechava já a porta Luísa voltou a chamá-la:

- Não me deixes assim, minha ilha. Sou mãe, acredita que sofro, sofro muito, mas não posso cometer inconsciências só para te agradar. Daqui a quatro anos, quando izer dezoito anos, Afonso terá a sua Casa por direito, até lá deixa ver se aqui, junto de nós, amadurece...

Catarina queria tanto acreditar que a mãe era sincera e que o seu plano não estava há muito já traçado, talvez desde aquela triste festa de anos em que ela dera a Pedro um cachorrinho e os pais a Casa do Infantado!

Fez-lhe uma nova vénia e saiu, sem comentários. Ia procurar Afonso. Às três da tarde estaria prestes a acordar, pensou. Às três da tarde, quando Pedro por essa hora já teria passado a guarda em revista, feito os seus trabalhos académicos, reunido com os seus conselheiros, visitado o Palácio Corte Real, mandado mensagens aos nobres da sua Casa... Tinha de admitir, Afonso não se ajudava a si mesmo e agora nem pai havia para o proteger.

Conselho de Guerra, Lisboa, 10 de Setembro de 1657

 

rainha não dormia. Havia tanta coisa que fazer. Era preciso

reorganizar o exército no Alentejo, era necessário acalmar as hostilidades entre os dois partidos que, pela calada, se iam formando no reino. Tantos anos depois era um desespero ouvir os conselheiros dar nota de que o exército castelhano continuava diariamente a ameaçar as nossas linhas, que Olivença continuava espanhola, que o assalto tentado a Badajoz, na ânsia de causar estragos nas fileiras alheias, tinha resultado numa operação falhada.

Depois havia a insistência de Catarina. A suave Catarina, que quando metia uma ideia na cabeça ninguém lha tirava de lá. Manhã sim, manhã não, entrava no escritório da mãe para lhe recordar a importância de reconquistar Mourão, de libertar a «sua» Senhora das Candeias das garras dos castelhanos, para que lá pudesse voltar em peregrinação. O seu discurso era estupidamente sentimental, pensava irritada a mãe: ela preocupada em impedir a entrada dos espanhóis por terras portuguesas, em impedir que tomassem cidades importantes, e a ilha a falar do resgate de uma imagem.

- Vai falar com frei Pedro, Catarina, e ele te dirá que por muita homenagem que as imagens nos mereçam, não são a elas que rezamos, mas a quem representam. Se não, é blasfémia, ilha. Falas como se acreditasse que a Virgem está cativa do inimigo...

Catarina sabia tudo isso, mas não lhe importava: queria Mourão de volta, ponto inal, e se por algum lado tinham de recomeçar a reconquistar as praças roubadas, porque não por ali, onde certamente contaria com a graça da Senhora na sua demanda.

A infantilidade da ilha perante uma guerra tão séria, e que representava anos de sofrimento, irritava a rainha, mas a verdade é que, nessa tarde, levantou o assunto no Conselho de Guerra, que já conhecera tantas transformações que por vezes icava com a impressão de que era a única que restava do tempo da sua fundação, dias depois da aclamação do marido.

Por coincidência (ou seria que Catarina tinha manipulado Pedro para falar em Mourão aos nobres da sua Casa e conseguia assim chegar mais longe do que a mãe a julgava capaz?), nesse dia foi votada a nomeação do comandante Joane Mendes de Vasconcelos como chefe do exército do Alentejo, com o objectivo de retomar Mourão e Olivença, praças consideradas vitais para manter a defesa da linha de fronteiras e para reavivar o moral das tropas.

Quando ao jantar D. Luísa de Gusmão informou o seu ilho rei D. Afonso da decisão tomada, Catarina escondeu o olhar no guardanapo. Dissessem o que dissessem, a verdade é que a sua Senhora não podia icar nas mãos de Castela.

No final de Outubro, a notícia chegou. O comandante Vasconcelos saíra de Elvas a 22 de Outubro, chegara a Mourão a 25, segundo carta enviada ao rei, e depois de quatro dias de cerco a guarnição espanhola que a ocupava capitulou. Mourão era de novo portuguesa e as ordens recebidas é de que fosse fortificada de novo, munida de artilharia, refeitas as muralhas em revelim, dando-lhe a forma de uma estrela e tornando-a operacional como bastião do reino. A partir dali se partiria, depois, para Olivença.

Joane estranhou quando recebeu uma efusiva carta de Catarina: porque se interessava a infanta por aquela praça tão distante do seu paço lisboeta?

Perguntou e depressa descobriu «que tinha sido Nossa Senhora das Candeias, a Virgem que está lá em cima na ermida, que salvou a infanta da morte», como lhe explicou um dos seus soldados mais novos. Preocupado, foi con irmar se os castelhanos não tinham pilhado a igrejinha e roubado a imagem. Ali estava ela, intacta, respeitada pelo inimigo, que a inal professava a mesma fé. O comandante ajoelhou--se, benzeu-se e agradeceu a vitória.

No dia seguinte, já não o surpreendeu a carta recebida, desta vez da rainha-mãe, que o mandava apresentar-se em Lisboa.

O povo reunira-se no paço ao saber da sua chegada. Joane de Vasconcelos não era novo nestas andanças, e, embora nem sempre compreendido, era um herói nacional. A reconquista da praça de Mourão, para seu espanto, entusiasmava também esta gente que saía agora à rua para lhe gritar «vivas».

Concluiu que era melhor deixar de se surpreender. Foi por isso que sorriu com total serenidade à mulher pequena e delicada que o esperava no cimo da escadaria de mármore que marcava a entrada nobre do paço. Beijou-lhe a mão e disse-lhe apenas:

- Sua Alteza, a Senhora das Candeias está no altar, formosa e intocada pelo inimigo, esperando certamente visita sua.

Catarina, contra todos os protocolos, fez-lhe uma ligeira vénia:

- Comandante Joane Mendes de Vasconcelos, acredite que estará sempre presente nas minhas orações. E agora vá, que a rainha espera--o: Olivença e Badajoz virão a seguir.

Quando Joane levantou a cabeça, a princesa desaparecera no corredor escuro do paço e o capitão da guarda estava silencioso ao seu lado, pronto a escoltá-lo à Sala do Conselho.

Paço da Ribeira, 15 de Novembro de 1657

 

 

promessa estava por cumprir. À noite, quando se ajoelhava para

fazer as suas últimas orações, Catarina sentia um aperto no estômago: ainda não fora capaz de visitar a meia-irmã no convento, como prometera ao pai na hora da morte.

Já confessara a frei Pedro esta sua falha, mas a condescendência que ele revelava sempre para com os seus erros desvalorizava os seus conselhos. Diz-me isto porque gosta tanto de mim, pensava Catarina sempre que se erguia do confessionário e se voltava a ajoelhar para rezar a penitência que lhe coubera. Frei Pedro insistia que era preciso dar tempo ao tempo, que lá onde estava, no Céu, D. João não andava de relógio e entenderia que não era fácil para a ilha aceitar a sua in idelidade e, mais do que isso, a existência de uma rival. Se não era rival no paço, pelo menos tinha-o sido, até ao fim, no amor do pai.

Os dias estavam cada vez mais curtos, a noite caía cedo, e hoje a chuva batia com força nas vidraças e doía-lhe a cabeça, por isso pedira que lhe trouxessem o jantar ao quarto, um luxo que só a doença podia permitir, e sentara-se a ver as sombras dançar nos telhados de Lisboa.

A sua serenidade foi interrompida por vozes de rapazes que saíam por uma das portas de serviço da Ribeira. Espreitou pela vidraça e abanou a cabeça em desespero: ainda esta manhã estivera com a mãe num encontro com o conde de Odemira e ouvira os queixumes do senhor, que confessava, sem esconder nada, o seu desespero por «não conseguir ter mão em Sua Alteza».

Se ao menos o padre António Vieira não estivesse tanto tempo fora, pensava Catarina, teria a inteligência, a sensibilidade e a força moral para agarrar Afonso. Este, quando não se sentia desa iado, mostrava sem di iculdade rapidez de raciocínio e uma coragem na defesa dos seus aliados que a deixavam cheia de admiração por ele. Seria ela, Catarina, capaz de desa iar a mãe, D. Leonor e as suas professoras daquela maneira? Nunca. Ou talvez apenas se a ofensa às suas razões fosse tão injusta, tão injusta, que a levasse a perder, por momentos, a razão.

Injustiça? Provavelmente era essa a palavra-chave para compreender Afonso. Será, pensava a irmã, que procurava por todos os meios que alguém lhe retirasse aquele peso de cima, o «interditassem» de assumir o cargo? Mas a verdade é que Afonso gostava do poder, gostava da pompa, das fardas de gala, dos tapetes encarnados estendidos à sua passagem. Provavelmente, como lhe dissera uma vez, Afonso desejava o poder como nenhum outro, porque acreditava que se o administrasse conseguiria repor a justiça. Mas não procuraria vingança?, perguntou então, assustada, Catarina. A cabeça baixa e os olhos nas bainhas da batina preta não lhe tinham transmitido nenhum sossego.

Talvez Catarina ainda fosse a tempo de o ajudar. Era tão criança, pelo menos por dentro, e todos eles haviam sofrido tanto nestes últimos anos -talvez, e o pensamento cruzou-lhe a mente sem que soubesse de onde vinha, talvez fosse a altura certa de visitar o convento. Talvez, talvez, ao ver Maria, Afonso percebesse que havia outros mais discriminados pelas circunstâncias do que ele.

Tinha de arranjar maneira de falar com o irmão sem aquele detestável António Conti por perto, sempre de sorriso cínico, como se gozasse cada momento de humilhação que conseguia impor à família real. Rodeado pelos seus «amigos» da rua, Afonso sentia-se sempre obrigado a fazer o papel do príncipe rebelde.

O irmão dava-se com mercadores e homens da rua e desde os 13 anos introduzia nos aposentos do paço rapazes que chegavam a pernoitar por lá, apesar do protesto dos seus mestres, da oposição do porteiro, e de uma ou outra vez o capitão da guarda de serviço ter corrido com o bando inteiro, apesar dos gritos estridentes de Afonso, que batia o pé e ameaçava vingar-se dele mais tarde ou mais cedo.

Catarina não se atrevia a esgueirar-se até ao quarto dele, por medo de encontros inoportunos. Agora que Afonso era o herdeiro da coroa, abrira de vez o paço à pernoita dos companheiros de farra e não per mitia que ninguém o desautorizasse, por isso Catarina não queria lá ir de manhã cedo, nem enfrentar o olhar angustiado do criado de quarto, envergonhado, mas compelido ao silêncio. Que raiva, onde o poderia apanhar a jeito, e sozinho, o seu Afonso?

Decidiu-se por um bilhete e por um encontro marcado no torreão filipino, aquele onde, em crianças, passavam tantas horas de óculo a ver a chegada dos barcos à barra. Subitamente entusiasmada por ser o centro de uma conspiração, e não apenas um peão, Catarina sentou-se à sua mesinha e escreveu. Escreveu a Afonso a solicitar a sua presença às dez da manhã seguinte, a Pedro pediu que viesse pelas onze e meia. À mãe enviou uma breve nota a dizer que iria com os irmãos cumprir a promessa que fizera ao pai - não era preciso dizer mais nada. Depois havia que avisar as irmãs de Carnide, e a própria Maria, agora freira de clausura, e que podia não estar disposta a recebê-los passado tanto tempo.

Maria. Durante alguns instantes deixou o tempo andar para trás. Após as exéquias do pai, as notícias tinham-lhe chegado de que a meia--irmã sofrera um desgosto tão grande que rapara a sua farta cabeleira loira e decidira dedicar-se totalmente à vida religiosa. Que relação tinham, a inal, o seu pai e aquela ilha, para que a morte do rei lhe desse direito a manifestações tão exuberantes? Oportunista não podia ser, nem ela, nem a mãe, sempre discreta, porque se dedicara a Deus, em lugar de aproveitar a comenda e o dinheiro que D. João lhe deixara.

Quando soubera do cabelo, lembrava-se como se fosse hoje, colocara-se frente ao espelho, deixara cair os cabelos soltos sobre os ombros, penteara-os até brilharem como a noite, mas em lugar de pensar no pai, ou em tesouras, só lhe viera à cabeça a imagem de Charles. «Charles», pronunciara baixinho, «não posso cortar o meu cabelo, porque sei que Charles gostará dele assim», murmurou. Só recordar a cena fazia-lhe incandescer de novo o rosto. Sentira vergonha então, e sentia-a agora. Pecava e tornava a pecar, ao pensar no namorado imaginário em lugar de no rei seu pai, e cometia ainda por cima o pecado da vaidade, encantando-se com a sua própria imagem. Lembrava-se de como se ajoelhara de imediato e pedira perdão a Deus. «Mas a verdade, dizia agora para consigo mesma, é que não cortei o meu cabelo.» Num gesto infantil, virou os olhos para a estatueta da Senhora das Candeias, com as suas fartas melenas, e consolou-se: «Mas a minha Virgem também não!»

Estranhamente, Afonso aceitou com entusiasmo a ideia. Talvez Catarina tivesse razão e o irmão sentisse um afecto especial por aquela que icara sempre de lado e tivera apenas direito a umas migalhas do tempo e do afecto do pai. A que a corte estigmatizava, tal como o marcava a ele. Além do mais, suspeitava Catarina, Afonso não poderia deixar de saber que a visita magoaria Luísa, e como feri-la parecia ser um dos seus itos constantes, esta cartada era sem dúvida uma jogada alta. Pedro, provavelmente pela mesmíssima razão, mostrou-se mais relutante, perguntou mil vezes se a mãe autorizara expressamente que fossem ao convento e só acabou por ceder porque o medo de que alguma coisa importante acontecesse nas suas costas era superior ao receio de desagradar à rainha.

Maria, Maria de Bragança como gostava de dizer a si própria, embora penitenciando-se sempre depois pelo pecado da vaidade cometido, recebeu-os com uma imensa mistura de sentimentos. Porque se interessavam agora por ela, como se fosse um bicho raro? Se julgavam que a iam usar como peão em alguma estratégia política, ou mesmo de alianças, estavam absolutamente enganados. Julgavam, talvez, que vivia entre grades por ser uma ilha bastarda, mas não podiam estar mais longe da verdade: dos quatro ilhos vivos de D. João IV de Portugal, era ela a mais livre, tinha a certeza disso. Escolhera o convento porque desejava dedicar-se a Deus, e cortara o cabelo porque genuinamente amara o pai, e a mãe falara dele sempre com tanta paixão que lhes perdoara tudo, a ele e a ela. Uma das noviças viera dizer-lhe que o rei, o novo rei queria ela dizer, e os infantes a esperavam na sala da madre superiora. Respirou fundo, abriu a porta da biblioteca e caminhou orgulhosa ao seu encontro.

Os olhos de Afonso icaram presos em Maria - era muito mais parecida com ele do que os dois irmãos inteiros que tinha e que estavam ao seu lado. Os olhos claros, a pele branca, as feições suaves, recordavam-lhe o pai, e lembravam-lhe que entre ambos havia um io condutor que o tempo não conseguiria apagar. Maria olhou-o directamente nos olhos e dirigiu-se-lhe por «Sua Majestade». Afonso sentiu a garganta apertar-se, como se o ar tivesse icado subitamente irrespirável. Tratara-o com mais respeito e dignidade do que a maioria das pessoas que o rodeavam, para não dizer todas, sem ironia, nem cinismos. Nem Catarina nem Pedro faziam o mesmo. E os seus olhos pareciam ver para dentro dele, sem se deterem nas suas deformidades. Afonso estava para sempre conquistado, e Catarina sorriu para si própria e agradeceu a inspiração à Senhora de Mourão. Talvez esta estranha que, no entanto, tinha o sangue do seu pai conseguisse ajudar o rei seu irmão, tal como a sua mãe ajudara o rei seu pai.

Cumprimentaram-se com toda a solenidade e Maria icou com a impressão de que Catarina tinha os sentimentos emaranhados num novelo que não conseguia (e será que queria?) desemaranhar. Catarina entendeu que não causara grande impressão na meia-irmã, mas pela primeira vez na vida não se importou com o que outra pessoa pensava dela. Estava aqui a cumprir uma obrigação, uma promessa feita ao pai, uma promessa que, pensando bem, agora que o tempo autorizava uma análise mais fria, sentia que nunca lhe deveria ter sido exigida, e que sendo, ela deveria ter tido a franqueza de recusar. A verdade é que desejava apenas que Maria soubesse que numa emergência poderia contar com ela, mas mais nada do que isso. Percebia agora, quando a tinha diante de si, que Maria a enraivecia. A sua generosidade não chegava para aceitar que ocupasse um lugar no coração do pai: era ela, Catarina, a menina que tinha direito a sentar-se ao colo do pai, ou no banco do cravo; era só a ela, e sim, a Joana também, a quem o pai deveria ter dedicado todo o seu afecto. Não achava justo que um bastardo sofresse o pecado dos pais, mas, para ser sincera, porque haviam de ser os ilhos a carregá-lo? Lembrou-se de Charles. Se algum dia os seus sonhos se realizassem, como reagiria aos ilhos que o rei inglês tivesse fora do casamento?

Pedro, por seu lado, pressentiu o desconforto que se instalara mal a conversa de conveniência acabou e entreteve-os com descrições do seu cão, procurando encher o vazio, até serem interrompidos pela irmã Cecília, que vinha dizer que estava na hora da missa, a que poderiam assistir. Maria por trás das grades, os príncipes numa balaustrada por cima do altar. Despediram-se, mas desta vez foi Afonso que insistiu em dobrar o joelho e beijar-lhe a mão. Maria agradeceu com um sorriso tímido e prometeu-lhe rezar por ele, todos os dias.

- Por si e pelo nosso pai que está no Céu.

Nessa noite Catarina não conseguia adormecer. Havia momentos em que tinha a impressão de que corria de um lado para o outro a segurar as pontas, procurando que o Mundo não se des izesse, como se a responsabilidade pela rotação contínua da Terra fosse sua, e só sua. Mas hoje sentia era pena de si mesma. Chorava por si, menina per dida, incompreendida, traída.

Não conseguia deixar de pensar que Luísa agira por vingança, quando após o jantar lhe entregara para ler a carta acabada de receber do embaixador de Portugal em França. Dizia-lhe que o rei Luís continuava interessado em Catarina e estava mesmo disposto a dar por ela 300 pistolas, mas a carta não se icava por aqui. Relatava, em pormenor, a preocupação com o comportamento do herdeiro da coroa inglesa, que continuava no exílio. Sabia-se que Charles acabara de ter mais um ilho -desta vez em Bruges, da tal amante Catherine Pegge, e a quem tinham dado o nome do pai. Charles Fitzcharles, mais propriamente, o segundo varão que publicamente assumia como seu.

Que raiva, que raiva, que raiva, porque amava um homem assim, que não conhecia, não sabia quem era, e ainda por cima deitava na sua cama uma «senhora» com o seu nome? O pior de tudo fora, no entanto, um esgar de ironia que, jurara, apanhara na cara da mãe quando esta lhe passara para a mão o sobrescrito - talvez tivesse imaginado tudo, talvez amanhã acordasse e nada disto passasse de um pesadelo. Exausta de tanta emoção, adormeceu.

Paço da Ribeira, 26 de Dezembro de 1658

 

aia chamou-a de mansinho uma vez, e não precisou de a chamar

segunda, porque nos últimos tempos o sono de Luísa era cada vez mais leve, como se estivesse em alerta constante.

- Vossa Alteza, o conselheiro de Estado pede para lhe falar com urgência, e apresenta desculpas pelo adiantado da hora...

Luísa ordenou-lhe que acendesse a lareira do escritório e mandasse entrar as criadas para a ajudarem a vestir. Tal era a ansiedade, no entanto, que optou por vestir apenas um roupão pesado e quente por cima da camisa de noite e ir mesmo assim: nunca, nestes anos todos, nem na pior das crises, algum membro do seu Governo, ou do de João, tivera esta urgência.

A cara do conselheiro deixou-a perceber imediatamente que não havia mesmo forma de adiar a conversa. Elvas estava cercada pelo exército de Filipe, comandado por um dos seus generais mais brilhantes, dom Luís de Haro. Não brincavam, nem a ameaça era para ser levada como um simples sinal de intimidação. Com catorze mil homens na infantaria e cinco mil cavaleiros, tinham cercado a cidade, e a população e as tropas lá sedeadas morriam de fome e de doença. O exército castelhano começara mesmo a bombardear as muralhas.

Nestes cinco dias que o mensageiro levou a chegar estimava-se que já tivessem morrido centenas de pessoas e os nossos espiões diziam que o objectivo final era Lisboa. Espanha voltava em força à reconquista.

- Veja se entendo bem: o exército alentejano está preso dentro das muralhas. Os portugueses morrem de fome e doença. Os ilipinos têm uma força de quase dezanove mil homens, e nós estamos de mãos e pés atados? Como é que chegámos a esta situação?

O conselheiro baixou os olhos. Sabia há muito que o portador das más notícias é sempre aquele que recebe o castigo, mas aceitara a missão porque sabia também que D. Luísa depois deste primeiro rebate começaria a pensar com a cabeça e não com o coração. Aguardou por esse momento, que não tardou.

- Suponho que já me traz um nome? - atirou de chofre.

O conselheiro nem se fez de desentendido, nem perguntou «nome para o quê?», nem tentou empatar o tempo com sinais exteriores de subserviência. Atirou, tão rápido como Sua Majestade:

- É opinião do Conselho de Guerra que a responsabilidade pela região militar do Alentejo deverá ser entregue ao conde de Cantanhede, se essa for a vontade do rei. - Luísa insistia que deveriam sempre referir-se ao rei quando falavam, já que ela era uma mera regente, e os conselheiros encolhiam os ombros e obedeciam.

- A D. António Luís de Meneses? Para que reúna um novo exército e liberte Elvas? Mas em quanto tempo pode fazê-lo, e a que preço?

- Não temos dúvidas de que só um recrutamento pago funcionará com esta limitação de tempo, mas não podemos olhar a dinheiro no momento em que é, de novo, a independência que está em causa.

- Não sei porque é que me veio acordar a meio da noite, conselheiro, quando o caminho é só um e já está traçado. Será arrojado de mais da minha parte presumir? - que D. António já aí está no corredor?

- Não foi Sua Alteza que disse que não havia tempo a perder? - atreveu-se a sorrir-lhe o conselheiro.

- Mandem-no entrar - disse então Luísa aos dois soldados que guardavam a porta do escritório.

Aos seus pés, beijando-lhe a mão, estava segundos depois o conde de Cantanhede, que três horas mais tarde partia para Estremoz, com os planos aprovados e uma arca de moedas acabadas de cunhar.

Paço da Ribeira, 16 de janeiro de 1659

 

 

atarina quase arrancou a carta-relatório do conde de Cantanhede

das mãos da mãe, que lhe sorriu, divertida:

- A minha ministra da Defesa quer estar a par de tudo o que se passa nas nossas fronteiras? Leia, que só lhe faz bem.

Os olhos da infanta já tinham saltado todos os protocolos iniciais e descobrira rapidamente o que lhe interessava. Escrevia o conde, dirigindo-se a el-rei D. Afonso e à rainha-regente:

Vivendo no Alentejo, paredes meias com o inimigo, as gentes sabiam o que significaria um avanço das tropas castelhanas sobre as suas colheitas, os seus poços de água, as suas filhas... Em menos de duas semanas recrutámos 2500 soldados pagos, 5500 ordenanças e 3000 cavaleiros. A registar, que a população trouxe ao acampamento sete canhões, de que nem sequer conhecemos a origem.

Sua Alteza entenderá que a angústia crescia: as notícias de Elvas eram as piores, sendo o inimigo mais mortal do que a peste, que dizimava centenas por dia. Lá dentro, de mãos e pés atados, o exército português que recuara de Badajoz e a guarnição estacionada na vila conseguiam, de tempos a tempos, enviar um mensageiro que furava as ileiras ilipinas e nos trazia pormenores.

Pensei a estratégia com os meus mestres-de-campo, contando sempre com gente dali que nos sabia dizer, melhor do que qualquer mapa, os melhores caminhos, o relevo do terreno e os pontos de abrigo.

Acabei por decidir que o ataque às linhas do inimigo se faria por Murtais, através das colinas da Assomada.

Foi assim que na manhã de 13 de janeiro, ainda o sol nascia entre uma neblina cerrada, daquela que gela os ossos, avançámos, em nome de Deus, em nome do rei Afonso VI e da Independência de Portugal.

A princípio não deram por nós, o nevoeiro a esconder o silêncio com que deslizávamos no terreno, até os cavalos, Sua Majestade, pareciam ter as patas almofadadas. Os castelhanos mantinham os olhos em Elvas, como pretendiam, sem perceberem que chegávamos pela retaguarda. Às oito horas, infelizmente, o general Luís de Haro já dera por nós, mas felizmente não tiveram tempo de se preparar.

Às nove horas rompemos a primeira linha do cerco, abrindo assim caminho aos cinco mil soldados do exército do Alentejo, que saíram de Elvas imediatamente em nosso auxílio. A luta foi renhida, e quando o Sol já ia a pique era possível ver o campo cheio de corpos inertes, cavalos sem dono vagueando assustados, soldados que procuravam abrigar-se e fugir enquanto ainda tinham força para tanto.

Confesso a Sua Alteza que só pelas três da tarde respirei fundo: o general Haro partiu do Forte de Nossa Senhora da Graça, onde se mantinha aquartelado, sem nunca descer ao campo da batalha, levando com ele a cavalaria. Procurou refúgio em Badajoz, de onde, rezo a Deus Nosso Senhor, nunca volte a sair, como foi nessa noite o desejo expresso de muitas saúdes bebidas em todas as terras do Alentejo onde a notícia da vitória já chegara.

Parou de ler. Já sabia o que importava: tinham vencido e afastado o perigo de uma invasão ao coração do reino, Lisboa.

A contagem inal era triste, mas animadora do ponto de vista dos portugueses, pensou a infanta, embora fosse estranho estar a rejubilar com a perda de sangue espanhol, a inal o país da sua mãe. Do lado de Filipe, 2500 mortos, 4000 prisioneiros (que destino se lhes daria agora?), 15 000 armas capturadas. Do nosso lado, apenas 200 mortos (Catarina procurou não pensar que entre eles pudesse haver alguém que lhe fosse querido!) e 600 feridos, que os conventos alentejanos tinham acolhido e as irmãs tratavam com o desvelo dedicado aos heróis. Elvas tinha de novo água e comida, e agora que os corpos dos mortos podiam ser enterrados longe, e cobertos por cal, a epidemia de peste parecia estar a ser debelada, embora os números de vítimas ainda fossem altos.

Quando Luísa chegou da missa tinha já inúmeras cartas por abrir em cima da secretária e o pedido de audiência dos embaixadores francês, inglês e holandês. A notícia da vitória chegara às cortes estrangeiras e

izera maravilhas pela imagem de Portugal: a batalha dera a impressão de

que o exército nacional estava bem organizado, tinha comando e estratégia, tanto que conseguia vencer uma guerra onde a sua força era substancialmente menor do que a do adversário.

Mas, acima de tudo, frisou Luísa solenemente, depois da bênção do jantar: «Ficaram convencidos, acredito que de uma vez por todas, de que os portugueses recusam qualquer outro estatuto que não o de um povo livre.» Quando se sentou, Afonso, que parecera aparentemente distraído, comentou:

- Julgo que até Filipe de Espanha aprendeu a lição.

Por uma vez a mãe olhou o filho de 15 anos com alguma admiração:

- Que Deus te oiça, meu filho.

E ouviu.

Paço da Ribeira, 2 de Fevereiro de 1659

 

carta do embaixador português em Londres chegou pelas mãos de

um estafeta lívido, que cavalgava desde Salamanca sem dormir. Insistia que a missiva tinha de ser entregue em mão e, depois de um longo debate com o capitão da guarda, ansioso por ser ele o portador da carta misteriosa, lá conseguiu que o levassem até à sala do conselho, onde D. Luísa presidia a uma reunião.

Entregue a carta, o pobre e suado escudeiro foi enviado para a cozinha, com a promessa de um copo de bom vinho, e Luísa sentou-se a ler a missiva. D. Francisco de Melo contava que Oliver Cromwell estava às portas da morte e que se esperava, com nervosismo, como se faria a sucessão. Ou se haveria sucessão, já que o povo parecia cansado deste interregno mal sucedido na história do seu país. Dizia-se que o seu ilho, Richard Cromwell, lhe tomaria o lugar, mas o embaixador adiantava que a ser essa a solução, seria sempre de curto prazo, pois os ingleses abominavam o homem, um oportunista sem o talento do pai, nem sequer a sua honra. Acabava a carta pedindo a D. Luísa toda a contenção na sua política para com os britânicos residentes em Portugal, sobretudo os comerciantes e homens de negócio, porque se o volte-face se desse, Charles seria certamente convidado a tomar o trono de Inglaterra, e todas as oportunidades de uma aliança pelo casamento retomariam força. Pedia mesmo autorização para se articular com o embaixador em França, onde certamente Charles e a família real inglesa no exílio seguiriam a situação atentamente, de forma a dar já um primeiro passo no sentido de reiterar a possibilidade de negociações.

«Se nos anteciparmos, enquanto ainda não estiver no poder, recordar-se-á certamente de como tomámos sempre o seu partido e apoiámos a sua causa, mesmo quando ela ainda não era uma causa ganha», escrevia.

Luísa fez o seu primeiro largo sorriso em meses, e os conselheiros perceberam que as notícias eram promissoras. Não estranharam quando a rainha pediu para se ausentar, porque precisava de responder, com toda a pressa, à carta recebida.

 

Sozinha, Luísa de Gusmão recostou-se na cadeira de braços confortável e larga. Se a independência de Portugal parecia agora assegurada, podia dedicar-se à estratégia internacional. A guerra no terreno poderia dar a impressão de ter sido miraculosamente ganha terminadas que estavam -esperava-o sinceramente - as guerras da Restauração, mas no plano diplomático a dinastia de Bragança ainda tinha de fazer valer o seu lugar no Mundo. Para negociar um casamento realmente importante para Afonso e para Catarina, para assegurar alianças que solidi icassem as defesas portuguesas contra novos ataques da cobiça alheia, nomeadamente os territórios do Brasil e do Oriente, precisava desesperadamente que estas negociações corressem bem. Se casasse Catarina com Charles de

Inglaterra, pensou com um sorriso sarcástico, enfureceria os espanhóis e o papa: que Portugal tivesse laços fortes com um país protestante era a última coisa que desejavam.

Deu todos os poderes ao embaixador. Disse-lhe para ser generoso no dote, que logo se veria como seríamos capazes de o entregar, e concordou entusiasticamente com a ideia de que a negociação deveria começar antes da aclamação do rei de Inglaterra.

Naquele dia, enquanto passeava pelo jardim com Catarina, deu--lhe a notícia, mas a ilha preferiu uma postura defensiva: sabia que a mãe poderia, a qualquer momento, usar os seus sentimentos contra ela, como já o fizera antes.

- O que aconteceu, filha? Nem te reconheço. Não era isto que querias?

Há anos que Catarina, nos seus sonhos de adolescente, alimentava um ódio crescente a Cromwell, que fora capaz de decapitar o pai de Charles e expulsara o herdeiro do trono e toda a sua família do seu próprio país. Catarina não gostava de revolucionários e acreditava, com toda a sua simplicidade, que os reis são emissários de Deus e devem, como tal, ser respeitados. Mas estranhava que a mesma mãe que lhe dera a ler, por puro despeito, aquela carta em que o nosso embaixador dava conta do nascimento do segundo ilho daquele que seria o seu noivo, agora viesse defender o mesmo homem como o melhor dos partidos para a sua única

ilha. Além disso, para ser sincera, ela própria não se sentia muito segura:

como seria capaz de viver com um homem que já tinha tido tantas mulheres, como seria dar à luz um ilho que o nosso marido encararia apenas como «mais um»? Mas não valia a pena falar de nada disto à mãe. Luísa desejava certamente a sua felicidade, não punha isso em causa, mas não lhe passava pela cabeça que a sua própria ilha tivesse enchido a cabeça de ideais delicodoces, esquecida de que era ilha de um rei e que a sua vida e o seu coração não lhe pertenciam.

- Catarina, insistes em ficar calada? Não me bastam os sarilhos de Afonso e daqueles tresloucados amigos, e agora tu, que sempre foste a luz dos meus olhos, a ilha que tudo fez para me poupar qualquer contratempo, ficas aí nesse silêncio, como se me castigasses por alguma coisa?

Catarina sentiu que mordia o lábio - não podia dizer o mesmo da mãe -, mas foi incapaz de prolongar o amuo, tão carente da aprovação e do amor materno:

- Nada, mãe, dói-me a cabeça.

- A cabeça, filha? Tens tosse? Vamos chamar o médico - respondeu Luísa, que agora entrava em pânico sempre que algum dos seus ilhos se queixava de uma dor, sem conseguir esquecer nunca que os outros lhe tinham sido levados assim de repente, sem grandes avisos senão uma tosse e um estado febril.

Catarina arrependeu-se da desculpa, esquecera-se de como a mãe se tinha tornado nervosa quando o assunto eram doenças:

- Não é nada, mãe. Talvez tenha sido sol a mais na cabeça, ou essa notícia... É claro que farei tudo pela glória de Portugal, já o paizinho me tinha pedido que assim fosse, mas às vezes tenho medo... Não quero deixar este nosso paço, os meus irmãos e a minha mãe, tudo o que conheço, por aquilo que desconheço. E se não gostam de mim, se não me adapto a um país de que nem a língua entendo ou falo sequer...

Tentou sorrir serenamente para a filha:

- Também deixei o meu paço para casar com o teu pai...

- Mas era a dois passos, mãe, a língua fácil de entender...

- Fácil de entender? Ainda hoje não falo o português correcto, nem o teu pai, nem ninguém entendiam completamente o castelhano, e eu, então, tinha uma di iculdade imensa em perceber o português, que me garantiam ser igualzinho ao castelhano, mas não há maior engano. Mas reconheço, era tudo mais próximo, e percebo que tenhas medo, mas vai contigo D. Francisco de Melo, conde da Ponte, e tantos outros.

Catarina fez um esgar de desagrado.

- Nunca entendi porque é que não gostas de D. Francisco, que ainda por cima tem dedicado tantos anos da sua vida a procurar o casamento que mais te convém, a esforçar-se por colher vantagens para Portugal. O que é que se passa?

- Nada, não gosto dele, é pomposo, olha para mim como se fosse uma mercadoria, e nem sequer em muito boas condições. Sinto que estou numa banca à venda. No outro dia perguntou-me se falava inglês, e quando lhe disse que não bem vi o seu desagrado, como se estivesse a defraudar as suas expectativas, não valesse o dinheiro que pedia por mim.

Luísa suspirou. Procurara proteger a ilha do mundo para que não sofresse, mas via agora que izera mal - Catarina não se deixara fechar numa campânula de vidro, mas Luísa não a via su icientemente preparada para a vida, para perceber que nos negócios e na política, os sentimentos, o gostar ou deixar de gostar, não tinham lugar.

- Tem razão D. Francisco, amanhã mesmo vais começar aulas de inglês, que esquecimento o meu. Bem digo que os meus ilhos foram prejudicados por terem uma mãe demasiado envolvida no governo do reino e com menos disponibilidade para governar a sua casa; mas também foram tantas as mortes, as surpresas. Se o Teodósio aqui estivesse seria ele a negociar o teu casamento, seria ele a presidir ao Governo, seria ele a tomar tantas e tantas decisões que todos os dias é necessário tomar.

Catarina sentiu uma tontura. Tantos medos, ansiedades e expectativas. Pondo a mão na cabeça, que agora latejava a sério, pediu à mãe:

- Posso recolher-me, mãe? Não me sinto realmente bem.

Luísa viu-a subir pela escada de ferro em caracol, com o sobrolho franzido. Em que errara desta vez?

Paço da Ribeira, 22 de janeiro de 1660

 

 

assara quase um ano, e Catarina todas os dias se enfurecia consigo

mesma: que criança fora em achar que tudo se resolveria num abrir e fechar de olhos. Os dias corriam e Charles, o seu Charles, continuava distante do poder - e de ter algum interesse em escolher uma desconhecida para mulher legítima.

Quando uma das criadas a veio chamar à biblioteca, onde naquela manhã se refugiara com o pretexto de que tinha de se certi icar do estado dos livros favoritos do rei seu pai, ouviu a mensagem que ela lhe trazia com uma calma absoluta.

- Senhora dona Catarina, não olhe para mim assim, como se não fosse fazer caso do pedido da sua mãe para que vá ter com ela o mais depressa possível - protestava Júlia, que a conhecia de pequenina.

- Está descansada, já lá vou. Ia lá agora desobedecera uma ordem da minha mãe, ainda por cima trazida por ti - disse com um sorriso divertido, enquanto voltava a colocar na estante uma das suas partituras favoritas. Júlia não arredou pé:

- Fico aqui até a ver atravessar aquele corredor em direcção aos aposentos de Sua Majestade - insistiu.

Catarina riu abertamente, tocando-lhe afavelmente no braço:

- Então vamos.

 

Pela cara da mãe, percebeu imediatamente que havia notícias a sério, e que eram boas. O coração disparou:

- 0 que foi? - perguntou entre a excitação e o terror.

- O Protectorado caiu, inalmente, Deus é grande. Richard Cromwell nunca foi grande peça e os ingleses estavam cansados de viver num estado de agitação permanente. Revoltaram-se. O nosso embaixador enviou uma carta onde diz que um general escocês, o general Georg Monck, avançou e tomou Londres, com medo das proporções que a revolta popular podia assumir.

- Charles é rei dos escoceses - acrescentou Catarina verdadeiramente entusiasmada.

- Exactamente. A Escócia aclamou-o como tal...

- Por isso, o general já pediu a Charles que voltasse, e guarda-lhe o trono até que tenha tempo de regressar - apressou-se a continuar Catarina.

- Catarina de Bragança, é isso mesmo.

- E agora, mãe, o que fazemos nós? Todos os reinos da Europa e de mais além vão querer as ilhas casadas com o rei de Inglaterra. Teremos alguma hipótese?

Catarina esperava que a mãe lhe respondesse com um dos seus seguros «Claro!», com o sotaque castelhano a marcar a força da palavra, mas Luísa sentou-se, ajustou as almofadas atrás das costas como se quisesse ganhar tempo, e finalmente, numa voz ligeiramente arrastada, disse:

- Vamos tentar, mas não será fácil. Charles assinou um papel a renunciar ao dinheiro de todos os seus feudos, ficando dependente do orçamento que o Parlamento lhe autorizar. É um rei que retoma a coroa, mas não terá muito dinheiro para se financiar, a ele e à sua corte.

- Ou seja, vai querer uma mulher com um dote que lhe permita pagar as contas, e nós não temos dinheiro, com o desgaste da guerra - declamou Catarina.

- Não temos dinheiro, de facto, mas temos muitas coisas que podem interessar a um rei. Territórios riquíssimos, rotas comerciais, portos onde pode negociar açúcar, canela, especiarias, jóias, pedras preciosas.

- E a mim! - declarou, endireitando as costas, Catarina.

Luísa parou a enumeração de bens e sorriu-lhe:

- E a ti, luz dos meus olhos!

Catarina sentiu os seus humedecer.

Breda, Holanda, 8 de Maio de 1660

 

 

inguém conseguia bater aquele sentido de humor, aquela

sensibilidade para a ironia dos outros e, simultaneamente, aquela irresponsabilidade total, de quem não está habituado a prestar contas pelos seus actos a seja quem for, pensou o camareiro-mor de Sua Alteza Real Charles II, como sempre lhe chamara desde que o seu pai morrera, indiferente ao que mandava Cromwell.

Charles assobiava e cantarolava enquanto lhe faziam a barba, porque hoje era um dia bom. Hoje, amanhã e para todo o sempre seria soberano dos reinos de Inglaterra, Irlanda e Escócia, a vida inalmente fazia-lhe justiça e devolvia-lhe o que lhe pertencia por direito.

Passou horas a vestir-se, como se a partir de agora nenhum pormenor fosse indiferente. Experimentou três cabeleiras, e não gostou de nenhuma, optando por mandar que lhe penteassem os seus próprios caracóis escuros. O camareiro respirou de alívio quando engraçou à primeira com a casaca que lhe sugeriu, mas o que Charles não complicou à primeira complicou à segunda, protestando com os folhos a mais da camisa, e os que tinha a menos, a outra. Quando o rei saiu dos seus quartos neste palácio de Breda, onde acabara de receber ordens para embarcar para Inglaterra, os criados estavam à beira do colapso.

Foi por isso num dia invulgarmente favorável, em que o sol entrava pelas vidraças, que o embaixador português o encontrou.

Já fora portador de uma proposta de casamento com a infanta Catarina ainda estava ele em França, e agora encontrava-o aqui, a dias de fazer as malas, antes de todos os outros «cães de caça» das cortes europeias o afogarem com convites. Bem visto, pensou Charles para consigo, mas não resistindo, como nunca resistia a nada que tivesse realmente vontade de fazer, disse alto:

- Senhor embaixador, já sei o que o traz por cá: a mais bela princesa do Mundo, que o senhor não quer que eu perca a oportunidade de tornar minha mulher...

O embaixador português tinha alguma di iculdade em adaptar a sua formalidade à ironia que caracterizava este homem, que objectivamente desprezava o protocolo e a quem faltava, a seus olhos, uma postura mais real, mas de que confessava ser impossível não gostar.

- Antes de mais queria, em nome do rei Afonso VI de Portugal e da rainha-mãe, oferecer-lhe os maiores votos de felicidade. Como Sua Majestade certamente não esqueceu, ao contrário de muitas outras nações, Portugal sempre apoiou a sua causa e o tratou como alto dignitário da nação inglesa.

O inglês do homem não era mau, pensou Charles, tentando manter uma cara séria, mas muito gostavam estes embaixadores de palavreado caro! Reconhecia que a proposta de casamento que o embaixador reiterava era uma proposta antiga e que representava uma aposta e um voto de con iança que nenhum outro reino lhe tinha dado. Amanhã, ao saberem da notícia da sua partida, estariam todos a fazer ila à porta, mas quando vagueava de corte em corte só os portugueses haviam persistentemente repetido a oferta - a rainha de Portugal, a senhora da mais ancestral Casa espanhola, que traíra os seus para adoptar em absoluto a causa do marido, deveria ser uma mulher de se lhe tirar o chapéu, talvez a ilha herdasse aquela força e aquela lealdade.

Não fazia a mais pequena ideia do que o embaixador há mais de dez minutos ia dizendo, porque se perdera em pensamentos, mas também pouco lhe importava que o senhor icasse com a impressão de que falava com as paredes. Mas quando voltou a prestar atenção, reparou que o embaixador lhe estendia uma pequena miniatura. Segurou-a na mão com avidez. Repetidamente dissera aos seus conselheiros que estava disposto a casar a bem de Inglaterra e dos seus cofres, mas nunca se o preço fosse «meter uma mulher feia na cama». Já lhe haviam dito que Catarina era pequenina mas elegante, e o seu primo Luís de França, que encomendara um retrato da infanta a Nocret, gabara-lhe a beleza e o gosto. Agora tinha a oportunidade de a ver com os seus próprios olhos.

O retrato mostrava uma jovem morena, de grandes bochechas rosadas.

O cabelo dava-lhe uma incontrolável vontade de rir - que moda era aquela, meu Deus? -, duas tranças grossas e negras, uma de cada lado da cara simpática, caíam em canudos, como se fosse uma cabeleira de um juiz. E a franja? Ridícula, coitada da princesinha. Como lhe parecia disparatado o vestido, fechado até ao pescoço, sem deixar um pedacinho de carne à mostra, provavelmente por ser pecado, que lhe diziam que em Portugal a religião era vivida com ferocidade. O entusiasmo de Luís parecia-lhe exagerado. Será que vira um retrato muito diferente do que lhe mostravam agora? Havia de pedir à mãe Henriette que lho pedisse emprestado, para ver se percebia como é que o rei de França chegara a tão brilhante conclusão.

O embaixador ia como que pondo legendas na miniatura, para divertimento de Charles. Escutou-o, enquanto o senhor tentava traduzir para inglês qualquer coisa como «Há-de Sua Majestade reparar no rosto, de uma candura infantil pura, que encanta, mas cuja boca revela uma vontade muito própria.»

Charles atirou para trás a sua cabeça cheia de caracóis e riu alto, mas conteve-se imediatamente, que esta gente tomava ofensa depressa, e todos lhe diziam que exagerava na sinceridade das suas manifestações.

- Senhor embaixador, não rio da sua princesa, parece-me encantadora e bem vestida, e com o cabelo, como direi, menos hirto será certamente linda. Ria-me apenas da maneira como me tentava comunicar, diplomaticamente, que Catarina de Bragança parece um anjinho tirado do altar, mas herdou da mãe, certamente, uma personalidade de ferro.

- Tem uma personalidade própria, defende as suas convicções, mas é muito suave e gentil, detesta discussões e con litos, é obediente e bem-educada.

O embaixador puxava pela cabeça, na tentativa de encontrar uma forma delicada de lhe dizer que Catarina não era propriamente uma mulher de armas como Luísa de Gusmão.

Por seu lado, Charles procurava manter um ar sério. Mal sabia o homem que faria melhor em vender-lhe o lado mais impulsivo e forte da infanta, porque tinha pouca paciência para cordeirinhos ou para andar a apaparicar almas sensíveis, de olhos encarnados de tanto chorar, sem réstia de humor, como parecia o caso dos portugueses que conhecia até então.

Continuar: parte 2 de 4