Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 7 de 12 · parte 1/4

Páginas do PDF

Catarina de Bragança

Portsmouth, 14 de Maio de 1662

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

dward empurrou dois senhores, pediu licença a um grupo de

damas, furou o caminho entre validos, duquesas e marqueses, que não deixavam por um minuto que fosse a antecâmara do camarote real. Quase um mês de viagem, a suportar o mar picado e o vento forte que adornavam o Royal Charles como se fosse uma casca de noz e provocavam vómitos, a «corte» que embarcara em Lisboa e não saía daquele espaço fechado, sempre à espera de fazer chegar aos ouvidos de Sua Majestade os seus queixumes e a sua má-língua.

Finalmente, a porta de carvalho. Bateu com força e gritou, para reforçar a sua importância: vinha a mando do almirante, e trazia novas.

D. Maria abriu-lhe a porta, mas ordenou-lhe que falasse baixinho. Depois de vinte dias de uma viagem para esquecer, Catarina inalmente adormecera.

Edward Montagu estava longe de falar bem português, mas o que conhecia da língua já chegava para apontar para terra e exclamar:

- Chegámos. A rainha precisa de saber que vamos aportar.

O reposteiro de veludo pesado foi puxado para o lado por umas mãos pequeninas e delicadas, e a cara de menina de Catarina surgiu por detrás dele:

- Edward, chegámos onde, chegámos a Inglaterra?

O estribeiro-mor da rainha corou até à raiz do cabelo, a cara tão encarnada como os seus caracóis, e respondeu subitamente gago:

- É isso mesmo, Sua Alteza. Estamos a umas horas do porto. O almirante queria avisá-la com tempo, para se preparar. Muito ao longe já se ouve foguetes - acrescentou, feliz.

D. Maria apontou-lhe a direcção da porta. Que se passava aqui, Santo Deus. O estribeiro julgava-se camareiro, e a rainha, a rainha falava com o sujeito como se fosse um velho amigo. Teria de lhe recordar a necessidade de marcar a distância em relação aos súbditos, sob risco de não a respeitarem? Logo aqui, numa terra de estranhos.

Fechou a porta com força, não sem antes chamar as criadas. Preparava-se para o sermão quando Catarina lhe lançou os braços em redor do pescoço e implorou:

- Dona Maria, deixe lá, tenho muito tempo para fazer tudo como a senhora quer. Deixe-me ser feliz. Já pensou que vou conhecer o meu marido, aquele por quem espero desde que nasci - acrescentou num tom teatral. As criadas que traziam a água quente e as toalhas para o banho comoveram-se, atrevendo-se a um tímido sorriso a que Catarina correspondeu com outro mais rasgado, ingindo não ver a desaprovação que causava em D. Maria e D. Elvira.

Mas a batalha prometia. Catarina insistia em usar o vestido do decote acentuado que Charles lhe mandara mas que a mãe ordenara que fosse colocado no fundo da arca, numa tentativa de a fazer esquecer aquele vestuário impróprio. D. Luísa subestimava a ilha. Catarina não esquecia, e sabia ser tão teimosa como a mãe.

- Julgaram que nunca mais me lembrava dele? - perguntou, irritada. -Pois assim, é bem feito, têm dois trabalhos: escondê-lo e voltar a encontrá-lo. Já, já!

Ninguém se atreveu a desobedecer.

 

Chegavam os apitos dos barcos de pescadores que os vinham receber à barra. O estrondo dos foguetes enchia já o camarote, mas agora eram as pancadas delicadas de Sandwich na porta que Catarina escutava.

- Sua Alteza, pedia-lhe que me desse a honra de subir comigo ao convés...

Catarina deixou que lhe apertassem um colar magní ico em redor do pescoço e que a criada lhe passasse uma última escova pelo cabelo, mas não queria fazer esperar o almirante. Na bolsinha de mão colocara discretamente a miniatura de Charles e as suas cartas - queria levar consigo o bocadinho dele que já era seu, como que um certi icado de garantia e validade...

Na ponte, a rainha olhava a costa e pestanejava com a intensidade da luz depois daqueles dias de clausura. Era tudo tão bonito, tão verde, tão diferente, dizia entusiasmada ao bispo. E Russel, seu professor de inglês, repetia «lovely», «green», «so di f ferent», e ambos riam. Pequenina, as costas hirtas e os punhos cerrados com o nervosismo, sentia-se protegida entre o marquês de Sande e o conde de Sandwich.

Foi Sandwich que lhe apertou o braço delicadamente, enquanto com a outra mão apontava um ponto preto na água:

- Sua Majestade, o rei Charles II de Inglaterra, vem ao seu encontro no bergantim real.

Catarina sentiu vontade de dar pulos de contentamento. A viagem chegava ao im e o marido vinha buscá-la, não contendo sequer a impaciência de a aguardar em terra, ou em casa...

O marquês de Sande pedira um óculo, e um nó apertou-se na garganta, por baixo daquele outro, esse dado no lenço de seda que lhe fechava a camisa: o rei não estava no barco, apenas o irmão James, o duque de York, o príncipe Rupert, que há muitos anos buscara em Lisboa protecção contra Blake, e uma série de outros, alguns conhecidos, outros nem tanto... Deveria dar a notícia, suavizar o embate, ou icar calado e deixar que o novo cunhado izesse as apresentações e transmitisse pessoalmente as desculpas do rei?

Uma troca de olhares com o almirante chegou. Charles não tinha emenda, pensaram em simultâneo, sem que nenhum o dissesse alto.

Catarina, rápida, percebeu que a expressão na cara dos dois homens tinha mudado:

- O que foi, digam, por favor? Digam-me antes que o bergantim encoste ao Royal Charles... Sua Majestade não está nele?

Sandwich teve uma pena imensa do desapontamento da rainha, que tão corajosamente suportara aquelas semanas de suplício, os dramas do dote, a incerteza da aventura em que embarcara, mas decidiu-se pela franqueza. Com Catarina era melhor assim:

- Não, Sua Alteza, Sua Majestade não vem no bergantim.

- Estará em terra, nos preparativos.

Que ingénua criança, pensaram angustiados os dois homens, e pensou-o também Edward Montagu, um pouco atrás da comitiva que se formara no convés.

O almirante respondeu no mesmo tom:

- Duvido, dona Catarina. Algum negócio do reino o terá impedido de sair de Londres, mas enviou o irmão James, o único a quem con iaria uma tarefa tão importante como esta.

O único que lhe faria o frete, a lito pelos danos que a inconstância do irmão rei provocava nos outros, pensou Sande.

O barco já estava su icientemente perto para que as feições dos membros da comitiva se fossem de inindo. Catarina sorria, mas era um sorriso que colara à cara, sabendo que não podia deixar transparecer, nem por um minuto, a imensa desilusão que sentia. Como era possível escrever aquelas cartas apaixonadas, pedir-lhe que viesse o mais depressa possível, deixasse mãe e irmãos e reino para trás, tão longe, tão longe, tão longe, e depois não se dar ao trabalho de fazer umas milhas para a receber? Quem era, afinal, este Charles?

Olhou para o marquês com um olhar zangado, como se o acusasse de a ter enganado, de lhe ter pintado um noivo que não existia. Sande respondeu, com um outro directo e frio, e disse alto, e num tom firme:

- Sua Alteza terá de me desculpar, mas não sou nem mãe, nem pai, do rei de Inglaterra!

Depois, com determinação, voltou a pegar no óculo. Tinha vontade de acrescentar: «Nem tão-pouco seu pai, que bem pedi que lhe contassem mais e a preparassem melhor para este rei e para esta corte tão diferente de tudo o que a sua imaginação seria capaz de antever!»

 

James, loiro, de olhos azuis, era o oposto do seu marido, pensou Catarina. Bonito, mas sem o encanto que adivinhara na miniatura recebida e, sobretudo, nas histórias sobre ele contadas.

O cunhado beijava-lhe a mão, e em castelhano - que alívio, falavam a mesma língua, podiam entender-se! - apresentou as desculpas do rei. Uma reunião urgente do Parlamento obrigara-o a permanecer em Londres, Catarina havia de entender a demora. Mas aqui em Portsmouth estava ele, o seu irmão de que era tão próximo, para lhe manifestar o agrado e a honra que Inglaterra sentia em recebê-la.

Catarina gostou do olhar sincero e claro de James. Não fazia teatro, não exagerava as desculpas, mostrava-se respeitoso e carinhoso. Além disso, sabia bem que as suas convicções eram próximas de Roma, o que fazia dele um potencial e poderoso aliado.

Catarina agradeceu num castelhano luente a amabilidade da sua vinda. Depois virou-se para Rupert, com uma alegria genuína.

- Voltamos a encontrar-nos, dona Catarina - disse-lhe ele com uma profunda vénia.

- Venho devolver-lhe a visita que nos fez, agora que já conseguiu escapar ao pirata - retorquiu Catarina com a primeira gargalhada do dia.

- Nunca me vou esquecer da hospitalidade do seu pai - disse-lhe, sincero.

- Não imagina como é bom encontrar aqui alguém que o conheceu, que conheceu Lisboa - respondeu a rainha, subitamente nostálgica.

As horas que se seguiram foram apenas um nevoeiro confuso de nomes e conversas que não entendia, apesar do esforço de interpretação de Richard Russel. Pensando bem, lembrava-se de a certa altura lhe ter dito:

- Por favor, não traduza mais, a minha cabeça já não assimila nem mais uma migalhinha de informação...

Russel sorrira-lhe, bondoso:

- Pobre dona Catarina, não me admira nada. O corpo ainda está habituado ao mar, essa sensação de não ter os pés bem assentes na terra é real. E esta gente toda, de uma vez, é de mais para um dia só.

O marquês de Sande percebeu igualmente o cansaço da rainha, e acrescentou:

- Dona Catarina, continue a sorrir e a agradecer, «thank you so much», como ensaiámos, que vou tentar tirá-la daqui o mais rapidamente possível.

O povo abriu alas, forçado pela guarda, e Catarina, delicada, morena como nunca tinham visto nenhuma, os olhos negros e cintilantes - «como estrelas», murmurou a mulher de um pescador, estendendo a mão para lhe tocar -, foi sorrindo à direita e à esquerda, enquanto o coração chorava pela mãe, pelo pai, por Teodósio, Joana, Afonso, Pedro; chorava pelos braços quentes da sua Carminho, pelas palavras de conforto de frei Pedro, pelo olhar protector de António Vieira.

James deu-lhe o braço e, num tom coloquial, sussurrou:

- Vamos fugir daqui depressa, cunhada...

Catarina virou para ele os olhos cheios de gratidão, e James pensou: Tem sempre sorte, este meu irmão. Não sei é se ela poderá dizer o mesmo.

 

A cunhada Anne Hyde, duquesa de York, recebeu-a à porta do Great Hall. A sua barriga de sete meses não lhe permitira subir ao bergantim, e muito menos a bordo, mas a sua presença naquele estado era sinal de imensa consideração. Fez uma vénia e preparava-se para beijar a mão à rainha, mas Catarina impediu-a. Russel deu-lhe a conhecer o reconhecimento da rainha:

- Sua Alteza agradece-lhe imenso a sua presença. Espera que possam ser boas amigas.

A cunhada comoveu-se sinceramente. O chanceler seu pai pedira-lhe encarecidamente que tomasse conta de Catarina, e a ajudasse a sobreviver aos «tubarões», do sexo feminino e masculino, que rodeavam Charles, como comentara. «Procura protegê-la do próprio rei», chegara a dizer a mãe. Anne, que vivia na corte, percebia o apelo: como reagiria a infanta de Portugal, agora rainha de Inglaterra, ao ser obrigada a concorrer com as mulheres mais bonitas e mais debochadas do reino, escolhidas a dedo pelo próprio marido? A duquesa esperava, sinceramente, que Catarina não o amasse já, nem o viesse a amar, mas sabia que era di ícil fugir da teia sedutora do rei. Temia, no entanto, que fosse tarde de mais. Mesmo sem perceber metade do que Catarina dizia, já entendera que as suas esperanças eram vãs. Bastava olhar para a forma como Catarina falava de Charles, apesar de o bandido nem sequer se ter dignado a aparecer, para entender que estava apaixonada, pior ainda, presa numa utopia que ela própria criara. Talvez fosse daquele género de pessoa que nunca acorda dos seus sonhos, pensou, esperançada.

Mas, meu Deus, perdera-se em pensamentos, e nem sequer retribuíra os cumprimentos transmitidos por Russel. Apressou-se a dizer:

- Por favor, senhor bispo, diga-lhe que estarei sempre com ela. Que me considere, por favor, como uma irmã.

Catarina sorriu com a resposta, e estendeu a mão para o ventre redondo da cunhada. Dentro em breve, dentro em breve, estaria também ela à espera do seu bebé, que Deus o permitisse.

Russel trocou olhares com Sande, que vinha atrás com a comitiva portuguesa. A aliança com a mulher de James era fundamental, por muito que, pela cara amuada das damas portuguesas, fosse já um sinal das forças que dividiriam Catarina: a corte portuguesa sempre à defesa, sentindo-se traída de cada vez que a rainha se aproximava do inimigo; e a inglesa troçando do provincianismo evidente dos recém-chegados.

Sabiam que era preciso equilibrar estas duas forças. Sabiam também que o poder de D. Maria, D. Elvira, dos padres e capelães, confessores e músicos, poderia ser perigoso, porque nenhum deles hesitaria em usar o nome de D. Luísa de Gusmão para manipular a filha.

- Dom Richard, talvez na próxima homilia fossem importantes umas palavras sobre a necessidade de nos adaptarmos sempre aos costumes de quem nos recebe, nem que para isso deixemos alguns dos nossos hábitos para trás - disse baixinho o marquês de Sande.

O bispo riu:

- Curiosamente, sentia que era nesse sentido que Deus Nosso Senhor me apontava o caminho!

Entre dentes, Sande acrescentou:

- Falarão na mãe, e na vontade de Deus, para não abrirem mão do seu poder sobre a rainha. A própria já foi tão envenenada contra mim que não sei se me escutará, e temo por ela se não o fizer...

Russel tranquilizou-o:

- Nas nossas lições de inglês, que prosseguem a bom ritmo, tentarei ser um antídoto.

Sorriram um ao outro - a partir de agora tudo se faria por alianças, suspirou o marquês. Contra ou a favor da princesa, na corte portuguesa e na corte inglesa, a uma dimensão que mesmo os seus bons contactos teriam dificuldade em controlar. Que tomasse o Altíssimo conta do assunto.

 

Catarina entrou nos seus aposentos temporários e abriu a boca de espanto. Esperava encontrar um espaço modesto, já que não contava passar aqui mais do que uns dias, mas tudo tinha sido decorado para receber uma rainha.

Anne pensou, com uma ponta de raiva, que o seu cunhado era o maior encenador de teatro que conhecia, que ninguém lhe chegava aos pés quando se tratava de desenhar o cenário ou declamar algumas deixas...

James estava agora a fazer as honras da casa e, em nome do rei, apresentou-a à sua camareira-mor:

- Lady Suffolk, nomeada por Sua Majestade para a ajudar a dirigir a sua Casa. Está à sua disposição de noite e de dia, e vai ajudá-la com os preparativos para o casamento, falar-lhe mais dos nossos costumes...

Catarina já estendera a mão a beijar à condessa. Era formal, fria, mas falava um pouco de castelhano, e a rainha tinha consciência de que se fora uma escolha do rei, não tinha outro remédio senão conquistá-la...

Apresentou D. Maria e D. Elvira à condessa, mas bastou observar a forma como se cumprimentaram para perceber as guerras que a esperavam. Anne observava tudo cuidadosamente, e teve vontade de sossegar a cunhada: nada do que ela dissesse ou izesse teria importância nessa batalha de poder. Lady Suffolk assumira a gestão da Casa da Rainha, e não era preciso conhecê-la bem para saber que isso signi icava apenas uma coisa: ela, e só ela, mandaria.

Catarina suspirou, subitamente exausta. Tinham sido dias di íceis, e todas as forças seriam poucas para conseguir mover-se nestes terrenos movediços. Estendeu a mão para a bolsinha de mão e tacteou com os dedos o retrato de Charles: tudo seria diferente quando ele estivesse com ela.

Com irmeza virou-se para a gente que se reunira naqueles quartos e pediu:

- Retirem-se, por favor.

Até a condessa estremeceu. Como é que aquela menina delicada, de aspecto frágil, o vestido sofrível, o cabelo num penteado que já provocara gargalhadas nas damas inglesas, se transformava tão de repente, assumindo toda a força e a autoridade de uma rainha?

O marquês de Sande lançou-lhe um olhar de aprovação e Catarina apanhou-o no ar, sorrindo-lhe de volta. Talvez a tivessem enganado em relação ao embaixador. Fosse como fosse, observara bem como os ingleses lhe falavam com respeito e consideração: era nele que teria de recair o seu conselho.

James, depois de umas palavras da mulher, dirigiu-se à camareira-mor:

- Lady Suffolk, sei que esta é uma missão diplomática di ícil, mas julgo que hoje a rainha não tem forças para mais nada. Agradeço-lhe que ajude as senhoras portuguesas a tomarem conta dela, do modo que melhor entenderem fazê-lo. A rainha pode começar a aprender amanhã...

A senhora era tudo menos estúpida. Baixou a cabeça e assentiu. Mesmo começando só amanhã, tinha todo o tempo do mundo...

Londres, 15 de Maio de 1662

 

m Londres, Charles andava de um lado para o outro do escritório,

preocupado. Mas muito mais preocupado do que ele, como sempre, estava o pobre do seu chanceler, o pescoço afundado no corpo rechonchudo, como uma tartaruga assustada.

- Mas como é possível, Sua Majestade, que ainda esteja aqui, quando há dois dias a sua mulher desembarcou em Portsmouth? Quanto mais tempo vai empatá-la, obrigar o seu irmão - e calou «e a minha ilha» - a fazer o papel que só a si lhe cabe? - dizia, transtornado.

Charles, como uma criança pequena, batia o pé e protestava:

- Para si é fácil, não é?

Hyde não via porquê. Fácil é que nada na sua vida lhe parecia ser.

- Não percebe que Palmer, que está prestes a dar à luz um ilho meu, jura-me que se vai instalar em Hampton Court, para onde vou levar a minha mulher? Tenho de a distrair com jeito, com charme, com cuidado, sabe como ela é capaz disso e de muito mais, pobre Catarina...

Hyde rebolava os olhos nas órbitas. Este homem não existe!, comove-se com a mulher que não conhece, pelo sofrimento que só ele lhe pode evitar, tendo simultaneamente pena da maior chantagista do reino, com quem fornica todos os dias sob o olhar complacente do marido, e ainda por cima depois tem pena do bastardo e dá-lhe o seu nome, e uma pensão de dinheiro que não tem, e um título para compor o ramalhete, pensou. Mas o que dizia alto tinha de ser bem pensado. Só concordando com o rei, e usando de alguma ironia, seria capaz de o levar a agir como queria:

- Pois tem toda a razão, Sua Majestade. A rainha já esperou tanto tempo, espera mais um pouco, então. Ainda por cima em Portsmouth, uma cidade magnífica, com uma vida social intensa e animada. Não mandou alcatifar de novo os aposentos e cobrir as janelas de reposteiros dos tecidos mais luxuosos? Não lhe enviou uma camareira-mor, damas, o seu irmão, a sua cunhada e toda a gente mais? Está certamente entretida, e é isso o que importa.

Charles olhou para ele, pronto a fulminá-lo, mas inesperadamente mudou de humor e soltou uma gargalhada:

- Só o meu chanceler me fazia rir no meio desta trapalhada. Hyde, você não tem jeito nenhum para a ironia. As palavras, em vez de esvoaçarem, parecem dardos atirados a um alvo. Homem, esteja sossegado, sei bem que não é bonito o que estou a fazer, mas...

- Mas... mas, Sua Alteza desculpe a franqueza, mas pressinto medo, medo do compromisso, medo de que a sua mulher seja maçadora, o canse, exija, o obrigue a mudar, quem sabe até a renunciar aos prazeres da carne, exigindo-lhe a idelidade que pela primeira vez vai prometer, frente a Deus.

Charles deixou-se cair numa cadeira. Hyde acertara em cheio, tudo aquilo era verdade. Uma coisa era escrever cartas apaixonadas, empenhar-se para que a infanta fosse bem recebida, gastar o dinheiro que não tinha a mimá-la com presentes que lhe havia de entregar no dia do casamento, outra, completamente diferente, era sentir que o prendiam, o agarravam. Não conseguia prometer o que não tencionava cumprir. Por isso desenvolvera a arte de se autoconvencer daquilo que queria, segundos antes do momento do juramento, para poder prometer com toda a sinceridade. Infelizmente, logo depois mudava de ideias, de forma igualmente veemente. Contudo, esta estratégia permitia-lhe sentir-se, a todo o momento, absolutamente sincero!

Arrebatado por mais um desses acessos de menino bem-comportado, depois de um longo silêncio, que Edward Hyde não interrompeu, declarou:

- Vamos então a isso, Hyde. Hoje janto com a Palmer, ponho o ar mais displicente possível para combater aqueles ciúmes loucos, e depois salto para a sela e faço o caminho de uma vez só, sem parar. Amanhã estou lá...

- Loucura é essa ideia, que me desculpe Sua Alteza, vai assim sem dormir, sem dar descanso aos cavalos e ao corpo? Porque não parte já, com calma...

- Lá está você. Quer mesmo ver a Barbara a dar à luz nos aposentos da rainha em Hampton Court, no dia em que a ingénua criança lá chega para passar a lua-de-mel?

- Sem querer intrometer-me, sir Charles, gostava de lhe lembrar que é rei. E dá ordens. Para serem obedecidas.

Charles suspirou:

- Hyde, poupe-me. Esta mulher é mãe dos meus ilhos, é linda, é uma deusa na cama, arrisca tudo por mim... e, confesso-lhe, consegue ser tão persistente nos seus choradinhos, nas suas chantagens e lamúrias, que gostava de o ver a si metido nesta camisa-de-onze-varas. Além do mais, tem uma vantagem essa viagem desesperada até Portsmouth - exclamou, subitamente divertido.

- Por favor, elucide-me, porque não vejo nenhuma.

Charles estava de novo animado. Agora percorria a sala dando corda aos seus inúmeros relógios, que espalhava por todos os palácios, por todas as salas:

Rindo às gargalhadas, explicou:

- Pense lá comigo... Primeiro chego lá sujo, exausto, suado, sem dormir. Se fosse mulher, o que pensava?

- Que izera tudo isso por mim - disse Hyde cumprindo o seu papel neste exercício.

- Exactamente! Não o comovia, tanto esforço, tanta dedicação?

Agora Hyde já ria também:

- Em absoluto, perdoava-lhe todas as suas falhas anteriores...

- Nem mais. Mas veja ainda. Caso a senhora seja horrível, só vimos retratos, lembre-se!, enfadonha e exigente, anuncio imediatamente que tenho de me retirar para pôr o sono em dia...

- Ai, Virgem Santíssima - suspirou Hyde -, pobre rainha...

- Deixe-se disso, Hyde. Vai correr tudo bem. Se gostar dela, juro-lhe que me transformarei, que acabo tudo com a Palmer, que me torno num marido exemplar e fiel.

Agora era o chanceler que tinha vontade de rir, mas conteve-se. Acenou um sim conformado com a cabeça, e apelou à graça de Deus.

Portsmouth, 19 de Maio de 1662

 

corpo paga as desilusões do coração.» As mãos subiam

instintivamente e tapavam os ouvidos, como se quisesse calar aquela voz. Bastava-lhe a dor de garganta, a febre que subira durante a noite, a sensação de ser uma criança frágil que cedia ao primeiro embate, quanto mais ainda ter de ouvir, dentro de si, a frase que tanto podia sair da boca de frei Pedro como da de António Vieira. O corpo manifestava-se contra aquilo que não podia dizer alto, mesmo que soubesse a língua: que não se sentia, nem de perto, a noiva das novelas romanescas que lera. Que as suas expectativas tinham sido goradas, que a tensão entre as damas, os olhares e os risinhos de quem a rodeava lhe tinham minado a confiança.

Mandara puxar os reposteiros da cama de dossel e tencionava icar escondida e guardada, a imagem de Nossa Senhora das Candeias discreta em cima de umas confortáveis almofadas de penas, o retrato do marido escondido por debaixo das mesmas - não queria dar parte de fraca, nem de sentimental.

Quando não era a voz de frei Pedro que ouvia, era a da mãe: «Filha minha, julgas-te alguma mulher do povo que casa por amor, numa festa cigana que dura três dias e três noites? Estás ao serviço de Portugal e, acima de tudo, de Deus.»

Recusara o confessor. Num tom rebelde dissera-lhe que não tinha nada para confessar, e só por orgulho não lhe ordenou que fosse procurar o rei e ouvisse os pecados de Sua Majestade, que ela era inocente nesta farsa toda.

O médico receitara-lhe chá preto quente, a que juntara uns pós para a febre. Recusara-se a deixar que D. Maria e D. Elvira espalhassem pela sua Casa que estava doente. «Indisposta» chegava, desejava tudo menos visitas e atenções. Que a deixassem em paz!

No seu inglês inapto, fora mais simpática para com a camareira inglesa, porque não podia correr o risco de passar por uma rainha caprichosa. Pedira-lhe mesmo desculpa por não estar a pé e pronta para a missa das 7 horas mas, estranhamente, lady Suffolk parecia ter acordado diferente: sem os olhos do irmão do rei a vigiá-la, com o quarto vazio, fora mesmo carinhosa, passando-lhe a mão suavemente pelo cabelo. Hoje servia a nova rainha, mas já fora noiva, e era mulher e mãe. A espontaneidade e a inocência de D. Catarina comoviam-na. Era tão diferente das meninas que aos 15 anos chegavam à corte com ar de já saberem tudo o que há para saber sobre a arte de manipular os outros, e seis meses depois eram mestras na arte da sedução. Lady Suffolk era amiga da mãe de Charles, Henriette Marie, e não aprovava a licenciosidade do mundo que o novo rei criara em seu redor.

- Dona Catarina - disse devagarinho, num inglês pousado -, tem de acreditar que o rei não veio porque não pôde, mas tudo isto - e apontava para o luxo em seu redor - é sinal do amor e da consideração que tem por si.

Catarina sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, mas não podia dar parte de fraca. Acenou que sim com a cabeça, mas pediu-lhe que fechasse de novo as cortinas.

«Sleep», disse em inglês, a palavra sozinha, de quem não se arrisca a mais.

Lady Suffolk puxou o reposteiro, dizendo-lhe:

- Vinte dias de enjoo e mar alto devem tê-la debilitado muito, Sua Alteza. Durma, durma, para estar ainda mais bonita para o seu casamento.

D. Maria entrava naquele momento, mas conteve-se. Era mais sensata do que as outras e sabia que era preciso abrir mão da infanta, dar-lhe espaço para se revelar e se tornar, aos poucos, rainha deste país tão distante, mas tão poderoso. Recordou, enquanto se sentava na cadeirinha a coser uma bainha de um dos vestidos que Catarina decidira que queria usar, o verso de António Vieira: se os dois C se entrelaçassem de facto, o poder de Catarina e Charles seria imbatível. Era preciso ter fé. E deixar que o remédio do Dr. António fizesse efeito.

Nan e Meg chegaram na mesma carruagem do que o embaixador Fanshawe e a mulher. Margaret tinha 15 anos, mas era mais alta do que Anne, mais velha dois anos, e os temperamentos de uma e de outra eram tão diferentes como o Sol e a Lua. Nan, como lhe chamavam sempre, era extrovertida, impulsiva, comovia-se facilmente, indignava-se com a mesma convicção, e estava atenta a tudo o que se passava - a ama chamava-lhe «a minha bruxinha», porque invariavelmente conseguia adivinhar o que a esperava e muitas vezes agir a tempo de evitar o que lhe desagradava. O cabelo ondulado de Meg, os seus olhos verdes, o queixo mais empinado e uma timidez que por vezes a impedia de se revelar tornavam-na misteriosa. Os homens viravam a cabeça quando passava, e ela tinha absoluta consciência do seu poder sobre eles. Nan, por seu lado, fazia amigos para onde fosse, desde o cocheiro ao duque que visitava o pai; Margaret acumulava pretendentes, a quem não dava, no entanto, con iança para mais do que um olhar platónico distante - ainda estava por nascer, dizia muitas vezes, o marido que lhe conquistaria o coração. Nan, essa, apaixonava-se com facilidade, pelas pessoas, pelas causas, pela cor de um vestido, o cheiro de uma lor, ou o desa io de subir as escadas a correr para ver quem chegava lá acima mais depressa.

O pai ordenara-lhes que estivessem caladas. Nan fora mesmo avisada várias vezes. Era preciso que soubessem guardar segredos, opiniões, irritações.

A estratégia era arriscada, mas Sande e Russel estavam a par dela - na viagem de barco tinham acordado que era preciso introduzir na Casa da Rainha, entre as damas inglesas, algumas que fossem, de facto, iéis a Catarina. Era fundamental munir a rainha de aliadas capazes de falar as duas línguas, su icientemente inglesas para que as outras as aceitassem como parte do grupo, su icientemente sensíveis a Portugal para saberem o que estava em jogo.

- Espias? - protestara lady Fanshawe quando ouvira o marido conspirar com o embaixador português.

- Mulher, não digas disparates. Quais espias. Não é necessária espionagem para saber o que os protestantes deste país pensam de uma rainha católica; não precisamos sequer de puxar muito pela cabeça para dar conta da superioridade e troça com que olham para a comitiva portuguesa de dona Catarina; que, ainda por cima, lamentavelmente não vai agradar nada ao próprio rei, porque são raras as mulheres novas e bonitas.

- Mas é ao rei que queremos servir, ou à rainha? - perguntava, acutilante, lady Fanshawe.

- Sem servirmos o rei não serviremos a rainha, porque Charles tem todo o tempo do mundo para se entreter com estas intrigas da corte, que a par do ténis, e da equitação, lhe ocupam o dia inteiro... já que pouca ou nenhuma paciência tem para os assuntos de Estado - respondeu o marido.

- Mas explica-me então onde vais encontrar essas raparigas, bonitas, inteligentes, inglesas, mas capazes de entender português, conhecedoras das duas cortes. Vais anunciar o pedido nas missas católicas romanas, ou mesmo nos jantares da corte?

- Não, minha querida - disse Fanshawe com uma voz melí lua que fez sorrir o marquês de Sande -, não vou falar nisto a ninguém. Vou recrutar as tuas duas ilhas mais velhas e transformá-las em damas de honor da rainha.

Lady Fanshawe icou branca, tão branca que o marido gritou a um dos criados que lhe trouxesse um copo de água com açúcar.

Reconfortada numa cadeira, a senhora reencontrou a palavra:

- Estás a referir-te a Nan e a Meg, às minhas queridas ilhas? Damas de honor? - disse, entre o medo e o entusiasmo.

- Sou embaixador de Sua Majestade, escolhido por ele para o representar neste enlace, que o serve há tantos anos, aqui e no exílio, tenho a certeza de que não me negará esta vontade. Para te ser sincero, já tenho a carta...

- Sir Richard, quando é que deixa de me obrigar a fazer estas iguras de tonta, logo em frente de estranhos? Se tinha tudo tratado, para que é que vem pedir, agora, o meu conselho? - ripostou, amuada.

- Pense bem, lady Fanshawe, de que valia encher-lhe o coração de esperanças, e depois desiludi-las...

- Realmente, senhor embaixador, a política do facto consumado é muito mais cómoda...

- Não tive tempo de conversar consigo, minha querida mulher, o bebé que nasceu há meses, a senhora ocupada com as nossas viagens para cá e para lá. Além disso, sabia lá eu que ao chegar a Inglaterra teria de correr a Londres para descobrir o que se passava com Sua Majestade.

- Já agora, o que se passa? - perguntou lady Fanshawe, aliviando o marquês de colocar a mesma questão...

- Sua Majestade teve de ir ao Parlamento, demorou-se, enviou-me agora, em pessoa, para dizer que chega hoje mesmo, mas mais tarde. Vem a galope sem parar para dormir ou comer - acrescentou na tentativa de impressionar a mulher.

- Mas enquanto estiveste com ele, e te pediu o favor de vires aqui apaziguar o coração despedaçado da pobre menina, aproveitaste para inventar o quê?

- Nada - disse Fanshawe, com o seu ar mais inocente. - Quer dizer, aproveitei o tempo para apresentar este meu pedido.

Depois, sorrindo para Sande, acrescentou:

- Quando a consciência de Sua Alteza pesa, é mais fácil levá-lo a decidir depressa e bem.

- Mas aceitou o quê, mais propriamente?

- Que as suas ilhas, se consentir que assim seja, integrem o grupo de damas jovens, ilhas dos Grandes deste reino, e sirvam com lealdade e dedicação a rainha - interveio Sande.

- Mas dizem que a corte de Charles é de moralidade duvidosa. Não há pérolas nem pendentes que comprem a honra das minhas ilhas -protestou a embaixatriz.

Sande e Fanshawe olharam para ela, fingindo-se chocados:

- Lady Suffolk é um senhora honrada, com ilhos e netos até. Será a ela que entregaremos a vigilância das nossas meninas, mas de qualquer maneira garanto-te que, nem uma, nem outra, se deixarão levar por esses costumes, se é que não passa tudo de um boato mal-intencionado.

- Estiveram em Portugal, não falam propriamente português, embora Nan tenha encontrado com quem conversar em todas as esquinas, e Meg tenha lido imensos livros e dicionários, que prefere sempre a via académica - disse, divertida.

- Além disso, dona Catarina sabe que foram apresentadas à sua mãe, e que dona Luísa as elogiou muito, o que contará para formar uma boa opinião delas - acrescentou o marido.

Lady Fanshawe fechou os olhos e recordou o Tejo, as casas de Lisboa, as uvas deliciosas.

- Ficaram a amar o rio e o azul do céu - disse, pensativa.

- Perfeito - disse Sande, esfregando as mãos. - Agora só é preciso, lady Fanshawe, que nos faça o favor de lhes pedir que ajudem a rai nha a adaptar-se aos costumes ingleses, sem que isso a faça sentir que tem de trair os seus princípios e valores, a sua fé.

- Tenho pena da rainha, e se alguém a pode ajudar são, de facto, as minhas queridas filhas - concluiu, orgulhosa, lady Fanshawe...

 

Quando Richard Fanshawe pediu para ser recebido, porque trazia novas do rei, Catarina sentou-se mais direita entre as almofadas, pediu que lhe cobrissem os ombros com um manto e mandou-o entrar. Tinha uma imensa con iança na bondade deste homem, e na da sua mulher, que a tratavam sempre com um carinho tão maternal. O embaixador nunca lhe dera a impressão de a olhar como um produto a negociar entre reinos, como tantos outros a olhavam.

- Dona Catarina, que triste vê-la deitada. Está melhor? - disse no melhor português que conseguiu.

Catarina estendeu-lhe a mão a beijar e mandou-o sentar, cobrindo-o de sorrisos de afecto.

- Que notícias tem? - perguntou.

- As melhores de todas. Sua Alteza já deixou Londres, e é tal a ânsia de a ver que cavalga noite e dia para cá chegar o mais depressa possível. Manda pedir de novo desculpas, e conta cá estar ainda hoje.

- Hoje - exclamou Catarina, horrorizada. O nariz estava vermelho de tanto assoar, a voz saía-lhe demasiado assobiada porque lhe doía a garganta, e não podia receber o rei de Inglaterra na cama, meu Deus.

- Vejo que a perturbei...

- Não, não, ico tão feliz, é só que - e sorriu timidamente - estou neste estado!

Fanshawe devolveu-lhe a simpatia:

- Está linda, acredite, dona Catarina. Além do mais, o rei tem o seu feitio -ia quase dizendo «as suas falhas», era preciso cautela com as palavras -, mas não há nada de que mais goste do que proteger uma dama frágil.

Piscando-lhe o olho, acrescentou:

- Deixe-se estar aí, que está muito bem, acredite que era o conselho que lady Fanshawe lhe daria...

Catarina perguntou-lhe então pela mulher e pela família:

- Posso contar-lhe uma coisa? Sabe qual é o nosso presente de casamento? As nossas duas filhas...

Catarina julgou não ter entendido o português tão cheio de sotaque britânico do embaixador:

- Por favor, sir Richard, o que diz? Vai oferecer-me as suas filhas?

Chegando-se mais perto da cama o embaixador contou-lhe o seu plano. Teria em Ann e Margaret as suas maiores aliadas. Sabiam o português su iciente para se fazerem entender, conheciam a sua Lisboa, o seu Paço da Ribeira, o seu Tejo, mas também o Tamisa, Hampton Court, St. James, e os costumes deste novo reino.

Catarina sentiu a dor de cabeça melhorar instantaneamente: Nan e Meg, lembrava-se que era assim que os pais lhe chamavam, podiam ser para ela como irmãs mais novas. Não escutaria todos os seus conselhos, sabia bem o que queria, mas dar-lhe-iam o conforto da certeza de que não a viam como inimiga. Podia pedir-lhes que traduzissem o que queria dizer, que lhe dessem um palpite sobre como o cabelo se deveria usar, ou se era importante subir a saia ligeiramente. Mais do que tudo, sabia que possuíam o carácter recto e bem formado dos pais, e que estavam do seu lado.

Bateu palmas como uma criança pequena:

- É o melhor presente que já tive. Por favor, agradeça a generosidade a lady Fanshawe, que terá certamente algum desgosto em separar-se das suas filhas. - Como a minha mãe teve de me ver partir - acrescentou.

Fanshawe despediu-se com uma vénia. Pobre Catarina. Esperava que Nan e Meg lhe prestassem um bom serviço.

 

As senhoras da sua Casa tinham entrado numa agitação imensa ao saber, pelo marquês de Sande, que o rei chegava hoje mesmo:

- Terá de esperar - dizia D. Elvira.

Sande irritara-se:

- Pretende dona Elvira começar uma guerra entre marido e mulher, talvez?

D. Elvira corou, zangada. Não gostava daquele homem, sobranceiro, altivo, convencido de que por dominar o inglês e conhecer estes bárbaros era superior a todos os outros.

- Não julgo, não, senhor embaixador - e evitou tratá-lo por marquês, promoção que, aliás achava um exagero de D. Luísa. - Tenho é a certeza de que a rainha-mãe não aprovaria que o primeiro encontro entre os reis fosse entre uma dona Catarina doente e acamada e Sua Alteza Real obrigada a sentar-se no fundo de uma cama...

Sande franziu o sobrolho - já começavam a usar o nome de D. Luísa para defender as suas próprias convicções. Respondeu-lhe, procurando controlar a irritação:

- Será, dona Elvira, mas o melhor é deixar de fazer planos para um rei que não obedece a nenhuns, nem àqueles feitos pelos seus conselheiros mais próximos. Vou para baixo esperar pelo rei, que deve vir exausto e impaciente. A bem da rainha agradecia-lhe que ajudasse, em lugar de dificultar, este encontro.

As palavras do marquês de Sande não surtiram qualquer efeito naquela gente. Era preciso deixar claro desde o primeiro minuto que a rainha não estava sozinha, que para chegar até ela mesmo o rei teria de passar por eles.

Quando as botas cardadas de Charles se ouviram nas escadas, a antecâmara dos aposentos privados de Catarina estava apinhada de gente: damas, músicos, médicos, padres e frades. Aparentemente, só as criadas e os cozinheiros continuavam o seu trabalho, no andar de baixo da casa.

James tentava acompanhar o passo do irmão, recomendar-lhe calma, e Sande dramatizava a doença, mas Charles vinha demasiado mergulhado no papel que tinha de representar para aceitar que lhe boicotassem a actuação.

- James, cala-te, por favor. Só pude vir agora, galopei vinte e quatro horas seguidas e queres mandar-me embora? Então e os protestos da indignidade que era abandonar a minha pobre esposa?

Russel continha com di iculdade a vontade de rir. Não havia no Mundo monarca mais caprichoso, mais teimoso, mas, apesar de todos os defeitos, mais adorado. Era talento raro, este de alternar dedicação com a mais absoluta leviandade - o charme capaz de o permitir não se vendia nas lojas.

Sande ia à frente, nervoso. Estava habituado à imprevisibilidade do monarca inglês, mas sinceramente continuava a desconcertá-lo.

Abriu a porta e pediu ao porteiro-mor para anunciar a chegada de Sua Majestade. As vozes silenciaram-se e as pessoas encostaram-se às paredes, nervosas, curiosas.

Charles, ao entrar, estacou:

- O que faz toda esta gente aqui? - exclamou bem alto, a voz forte e quente.

Sande explicou que os membros da Casa da Rainha velavam por ela, que estava, como Sua Majestade sabia, adoentada, mas o rei nem parou para o escutar.

Virando-se para uma senhora de cabelos brancos, perguntou:

- Onde está a minha mulher?

A senhora olhou para Russel, implorando tradução:

O bispo veio em seu auxílio:

- Dona Maria de Portugal, Sua Alteza.

Charles acenou que tinha entendido, mas insistiu:

- Vim ver a minha mulher, não manter conversa de circunstância com um grupo de pessoas que não me diz nada.

Baixinho, para o irmão, murmurou:

- James, diz-me de onde saíram estas criaturas todas? Não te disse que mulheres feias, nunca?!

O irmão não riu. Charles encolheu os ombros e, desistindo dos seus interlocutores, abriu alas e bateu à porta do quarto de Catarina.

Duas ou três damas atravessaram-se no caminho, como se fossem mártires dispostas a dar a vida para salvar a virgindade da sua senhora, mas o rei olhou-as, trocista:

- Não vou violar a minha mulher, vou visitá-la, conhecê-la apenas - disse-lhes num fluente castelhano que as deixou estarrecidas.

Catarina ouvia as vozes vindas ao longe, e enervava-se. Lady Suffolk colocava umas flores numa pequena jarra e pedia autorização à rainha para colocar a imagem da Senhora das Candeias numa mesa-de-cabeceira, que se podia estragar entre os lençóis. Catarina ainda lhe pediu que acendesse a vela do oratório, e depois, a medo, inquiriu em inglês:

- Ugly? Muito feia?

Lady Suffolk acenou que não com a cabeça. Também não teve tempo de acrescentar mais nada, porque as portas se abriram de par em par, e Charles, entre os gritos histéricos das damas portuguesas, marchou pelo quarto adentro.

Olhava para a rapariga frágil, o cabelo atado por uma ita de seda, o nariz encarnado como o de uma rena num dia de frio, os folhos em redor do pescoço que mais pareciam uma guilhotina. Pensou em virar costas, mas icou preso nos seus olhos - eram sensíveis, meigos, mas revelavam também humor. Catarina, por dentro, divertia-se com toda aquela quebra de protocolo, e isso era um sinal de esperança, pensou o rei.

A rainha, de facto, não parecia minimamente embaraçada pela situação. Olhava para o marido e gostava do que via. Quando ouviu a sua voz profunda, gostou ainda mais. Estendeu-lhe a mão, e ele aproximou-se enfeitiçado:

- Mulher minha, peço-lhe as maiores desculpa por não ter conseguido chegar mais cedo.

Catarina derreteu-se com o tratamento carinhoso. Abençoado castelhano que neste momento era a sua tábua de salvação.

- Não fez diferença nenhuma. Obrigada pelo luxo dos aposentos e pela simpatia das pessoas, tenho sido muito bem tratada. Mas agora estou doente, não muito, e não vos posso receber de outro modo, que os médicos não deixam.

Continuar: parte 2 de 4