Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 2 de 10 · parte 7/9

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Cavalo de Tróia 2: Massada

O diário ⠀猀攀最甀渀搀愀 瀀愀爀琀攀)

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

realmente o reino pelo qual tens suspirado. Não, porém, nesta vida. Continua

crendo em mim e no que te revelei e receberás o presente da vida eterna.”

A seguir, o Mestre postou-se diante de Mateus Levi.

“– Já não te competirá cuidar da caixa do grupo apostólico. Breve, muito breve,

todos vos dispersareis. Não vos será permitido desfrutar sequer o reconfortante e

contínuo apoio de um só de vossos irmãos. Quando sairdes a pregar este

Evangelho do reino tereis de buscar novos companheiros. Enviei-vos de dois em

dois durante o tempo de treinamento, mas, agora que vos deixo, deveis, assim que

vos tiverdes recobrado do golpe, ir sozinhos até os confins da Terra proclamando

esta boa nova: que mortais vivificados na fé são os filhos de Deus.”

Mateus, com sua calma e senso prático de sempre, perguntou por sua vez:

“– Mas, Mestre, quem nos enviará e como saberemos aonde ir? André nos

ensinará o caminho?”

“– Não, Levi” – respondeu Jesus, confirmando assim o que já se sabia e deixei

bem claro em relatos anteriores: a chefia do irmão de Simão Pedro –, “André já

não vos dirigirá na proclamação do Evangelho. Na verdade, continuará como vosso

amigo e conselheiro até o dia em que chegar o novo Mestre. Então o Espírito da

Verdade vos guiará ao estrangeiro para que trabalheis pela ampliação do reino.

Muitas mudanças operaram-se em vós desde aquele dia, no armazém aduaneiro,

quando pela primeira vez começastes a seguir-me. Mas muitas mais devem

acontecer antes que possais contemplar a visão de uma irmandade na qual

estrangeiros e judeus se sentem em fraternal associação. Mas sede rápidos em

ganhar vossos irmãos judeus. Quando vos sentirdes totalmente satisfeitos, voltai

então com ardor para os estrangeiros. De uma coisa podes estar seguro, Levi:

ganhaste a confiança e o afeto de teus irmãos. Todos gostam de ti.”

Um novo e geral murmúrio de aprovação sublinhou as últimas palavras de

Jesus:

“– Levi, sei de tuas ansiedades, sacrifícios e trabalhos para manter cheia a

caixa. Teus irmãos não o souberam. E sinto-me contente de que, ainda que o que

leva a bolsa não esteja presente, aqui esteja, em minha reunião de despedida, o

representante do taverneiro, com os mensageiros do reino. Oro para que possas

discernir o significado do meu ensinamento com os olhos do espírito. E, quando o

novo Mestre chegar ao teu coração, segue adiante. Ele te guiará. E mostra a teus

irmãos e a todo o mundo o que o Pai pode fazer com um odiado arrecadador de

impostos que se atreveu a seguir o Filho do Homem e a crer no Evangelho do

reino. Desde o princípio, Levi, gostei de ti como gostei destes outros galileus.

Sabendo, então, muito bem que nem o Pai nem o Filho têm em conta a posição das

pessoas, cuida de não fazer essa distinção entre os que chegarem a crer no

Evangelho através de teu ministério. E assim, Mateus, dedica toda tua vida de

serviço futuro, a mostrar aos homens que Deus não tem em conta a posição das

pessoas. Que, no conceito do Pai e da irmandade, todos os humanos são iguais,

todos são filhos de Deus”.

Tiago Zebedeu, o irmão de João, aguardava em pé o Mestre, que se

encaminhou para ele dizendo:

“– Tiago, quando tu e teu irmão menor chegastes uma vez a mim, buscando

preferências nas honras do céu e vos respondi que essas honras eram outorgadas

pelo Pai, perguntei-vos se seríeis capazes de beber da minha taça. Os dois

respondestes que sim. Ainda que nem então nem agora estejais preparados para

isso, breve estareis dispostos para tal serviço, graças à experiência que estais a

ponto de viver. Por aquele comportamento irritastes vossos irmãos. Se ainda não

perdoaram a ti de todo, o farão quando virem que bebes da minha taça. Seja o teu

ministério longo ou curto, conserva tua alma em paz. Quando vier o novo Mestre deixa que Ele te ensine o equilíbrio da compaixão e essa amável tolerância que

nasce da sublime confiança em mim e da perfeita submissão à vontade do Pai.

Dedica tua vida a demonstrar afeto humano e dignidade divina combinados. E

todos os que viverem assim revelarão o Evangelho, até na forma de sua morte. Tu

e teu irmão João ireis por diferentes caminhos e um de vós pode ser que se sente

comigo no reino eterno muito antes que o outro...”.

Sutilmente, Jesus de Nazaré estava anunciando a Tiago que sua morte

ocorreria muito antes que a de seu irmão.

“– Ajudar-vos-ia muito saber que a verdadeira sabedoria compreende discrição

e coragem ao mesmo tempo. Aprendereis a sagacidade, para associá-la à vossa

agressividade. Virão momentos supremos em que meus discípulos não hesitarão

em dar suas vidas por este Evangelho. Mas em circunstâncias ordinárias será

melhor aplacar a ira dos não crentes para que possais viver e continuar pregando

as boas novas. Enquanto tiverdes forças, vivei longamente para que vosso trabalho

seja frutífero em almas conquistadas para o reino celestial.”

Concluída sua despedida a Tiago, Jesus caminhou até a extremidade da mesa.

Ali encontrava-se André, seu fiel ajudante. Suas frases relacionadas com a chefia

do apóstolo não deixaram lugar a dúvidas:

“– André, tu me representaste com fidelidade como cabeça dos emissários do

reino celestial. Ainda que tenhas duvidado muitas vezes e em outras ocasiões hajas

manifestado uma clara e perigosa timidez, mesmo assim tens sido sempre sincero

e justo em tuas relações com os companheiros. Desde tua ordenação e a de teus

irmãos como mensageiros do reino tens sabido governar-te a ti mesmo nos

assuntos administrativos do grupo. Em nenhum outro assunto temporal tive de

dirigir ou influir em tuas decisões. E assim fiz para ensinar-te, com vistas a tuas

deliberações nos grupos futuros. Em meu Universo e no Universo dos Universos de

meu Pai, nossos filhos-irmãos são tratados como indivíduos em todas as suas

relações espirituais. Mas nas de grupo fazemos que exista uma direção. Nosso

reino é um reino de ordem e, onde duas ou mais criaturas atuem em cooperação,

sempre existe essa autoridade.

“E agora, André, uma vez que és o chefe de teus irmãos pela autoridade da

minha nomeação, e uma vez que assim tens servido, como meu representante

pessoal, e uma vez que estou prestes a ir-me para meu Pai, libero-te de toda

responsabilidade no concernente aos assuntos temporais e administrativos. De

agora em diante podes não exercer jurisdição sobre teus irmãos, exceto a que

tenhas ganho por tua capacidade como líder espiritual e que eles reconheçam

livremente. Desde este momento podes não exercer nenhuma autoridade sobre

teus irmãos, a não ser que eles a restaurem. Mas esta liberação como cabeça

administrativa do grupo de maneira alguma reduz tua responsabilidade moral para

fazer tudo que esteja em tuas mãos com respeito à manutenção da união de todos

no período de prova que se aproxima. De agora em diante só exercerei autoridade

espiritual sobre e entre vós.

“Se teus irmãos desejarem conservar-te como conselheiro, digo-te que deves

fazer tudo quanto possas para promover a paz e a harmonia (tanto nos assuntos

temporais quanto nos espirituais) entre os grupos de sinceros crentes no

Evangelho. Dedica o resto de tua vida a impulsionar os aspectos práticos do amor

fraterno. Sê amável com meus irmãos na carne. Mostra uma devoção amorosa e

imparcial aos gregos do oeste e a Abner, do leste. Ainda que estes, meus

apóstolos, venham a ser dispersos muito em breve pelos quatro cantos da Terra

para proclamar a boa nova da salvação, deves mantê-los unidos durante o tempo

de prova que se aproxima. Nessa ocasião deveis, todos vós, aprender a crer neste

Evangelho sem a minha presença pessoal. E assim, André, conquanto não recaiam

em ti os grandes trabalhos que vêm dos homens, contenta-te com ser o mestre e

conselheiro dos que os fazem. Segue adiante com teu trabalho na Terra (até o fim)

e assim continuarás este ministério no reino eterno. Não te tenho dito muitas vezes

que tenho outras ovelhas que não as deste rebanho?”

A despedida seguinte foi para os gêmeos Alfeu. Em pé, entre os dois, anunciou-

lhes:

“– Filhos meus, sois um dos três grupos de irmãos que escolheram seguir-

me...”.

Não conhecendo com precisão como se fizera a eleição dos doze, aquelas

palavras nos confundiram. Será que apenas a metade dos discípulos – os irmãos

Alfeu, André e Simão Pedro e Tiago de Zebedeu – haviam elegido seguir o Mestre?

E os outros seis?

Os motivos que justificavam nossa decisão de “regressar” continuavam

multiplicando-se...

“– ... Os seis” – prosseguiu Jesus – “tendes trabalhado bem e em paz com

vossa própria carne e sangue. Mas ninguém o tem feito melhor que vós. Tempos

duros se aproximam... Talvez não compreendais tudo que vai acontecer, mas não

duvideis de que uma vez fostes chamados para a tarefa do reino. Por algum tempo

não haverá multidões a dirigir. Mas não desanimeis. Quando vosso trabalho nesta

vida estiver concluído, receber-vos-ei no alto e ali, na glória, falareis de vossa

salvação aos exércitos seráficos e às multidões dos elevados Filhos de Deus.

Dedicai vossa vida a engrandecer as tarefas triviais. Mostrai a todos os homens e

aos anjos quão alegre e valente pode chegar a ser o homem mortal. E, após vossa

etapa a serviço de Deus, voltai aos trabalhos cotidianos. E fazei-o com a nova luz

da experiência de saber-vos filhos de Deus. A vós que haveis trabalhado comigo,

tudo vos tem tornado sagrado. Todo labor terreno é um serviço a Deus Pai. E

quando ouvirdes notícias dos feitos dos vossos anteriores companheiros

apostólicos, regozijai-vos com eles e continuai vosso trabalho diário como os que

esperam em Deus e servem enquanto esperam. Tendes sido meus apóstolos e

sempre o sereis e sempre vos recordarei no reino que há de chegar.”

Era a primeira vez que Jesus de Nazaré admitia que vários de seus homens

mais próximos não desempenhariam a tarefa de evangelizadores após o seu desaparecimento. A verdade é que, à exceção de uns poucos discípulos, as

atividades apostólicas do resto do grupo quase não ficaram refletidas nos escritos e

nas tradições dos cristãos.

Felipe foi o seguinte. Em pé, como os demais, escutou atentamente o seu rabi:

“– Felipe, tens-me feito muitas e loucas perguntas. E tenho feito o possível para

responder a todas elas. Agora responderei à última que surgiu em tua muito

honesta ainda que pouco espiritual mente. Todo o tempo tenho estado acudindo-te

enquanto te perguntavas: ‘Que farei se o Mestre se vai e nos deixa sós no mundo?’

Oh! tu, homem de pouca fé! E assim, e contudo, tens quase tanta quantos muitos

de teus irmãos... Tens sido um bom servidor, Felipe. Não falhaste senão poucas

vezes. E uma das falhas a utilizamos para manifestar a glória do Pai...”.

– A que pode estar-se referindo? – interveio Curtiss.

Tampouco eu soube responder. Sabia que Felipe era o responsável pela

intendência geral do grupo, mas nesse momento não podia imaginar de que falava

o Galileu. Quem poderia supor que eu mesmo assistiria à “falha” em questão? Mas

não adiantemos os acontecimentos...

“– Teu encargo de servidor está próximo de terminar. Logo deverás fazer o

trabalho para o qual foste chamado: a pregação deste Evangelho. Felipe, sempre

quiseste que se te mostrassem as coisas. Logo verás grandes feitos. Como tens

sido sincero, até mesmo em tua visão material, viverás para ver cumpridas minhas

palavras. E então, quando fores beneficiado com a visão espiritual, segue adiante

com teu trabalho, dedicando tua vida à condução da humanidade para a busca de

Deus e das realidades espirituais, mas com os olhos da fé, não com os da mente

material. Não te esqueças, Felipe, tens uma grande missão na Terra. O mundo está

cheio de homens que olham a vida como tu mesmo tens feito. Tens um grande

trabalho por fazer, e quando o terminares virás a mim, em meu reino, e terei

grande prazer em ensinar-te o que o olho não tenha visto, o ouvido, escutado, nem

concebido a mente mortal. Enquanto isso, sê como um menino no reino do espírito

e permite-me, como espírito do novo Mestre, guiar-te para o reino espiritual. Desta

forma poderei fazer muito por ti: o que não pude concluir quando permaneci

contigo como mortal. E recorda sempre, Felipe, quem me viu, viu o Pai.”

Quando Cristo terminou, Felipe voltou a sentar-se. E os passos do Mestre

dirigiram-se para o divã que vinha a seguir: o de Bartolomeu ou Natanael. Este já

se havia posto em pé, mas Jesus fez-lhe sinal para que se sentasse. O próprio rabi

fez o mesmo, acomodando-se a seu lado. E assim falou-lhe:

“– Natanael, tens aprendido a viver acima dos preconceitos e a praticar uma

tolerância cada vez maior, posto que te fizeste apóstolo. Mas há ainda muito que

aprenderes. Tens sido uma bênção para teus companheiros, sempre advertidos

com tua sinceridade. Quando me houver ido, pode dar-se que tua franqueza

interfira nas relações com teus irmãos, tanto os antigos quanto os novos. Deves

aprender que até mesmo a expressão de um bom pensamento tem de ser

modulada de acordo com o nível intelectual e o desenvolvimento espiritual daquele que ouve. A sinceridade é mais útil nas tarefas do reino quando se casa com a

discrição.

“Se aprendesses a trabalhar com teus irmãos poderias finalizar muito mais

coisas. Mas se te encontrares a ti mesmo na busca daqueles que pensam como tu,

nesse caso dedica tua vida a demonstrar que o discípulo conhecedor de Deus pode

chegar a ser um construtor do reino, mesmo que esteja só e separado de seus

irmãos crentes. Sei que serás fiel até o fim. E algum dia te darei as boas-vindas ao

amplo serviço do meu reino, no alto.”

Bartolomeu dirigiu-se então ao rabi indagando-lhe:

“– Tenho escutado teus ensinamentos desde a primeira vez em que me

chamaste ao serviço deste reino. Mas, honestamente, não pude compreender todo

o significado do que dizes. Não sei que mais devemos esperar. E creio que a

maioria de meus irmãos está perplexa como eu, ainda que hesitem em admitir sua

confusão. Podes ajudar-me?”.

“– Meu amigo” – respondeu-lhe Cristo prontamente – “não é estranho que te

encontres perplexo em tua tentativa de compreender o significado de meus

ensinamentos espirituais. Arcas com o preconceito da tradição judia e te empenhas

em interpretar meu Evangelho de acordo com o que ensinam os escribas e fariseus.

Tenho-vos ensinado pela palavra da minha boca e vivido entre vós. Tenho feito o

possível para iluminar vossas mentes e libertar vossas almas, mas o que não

haveis conseguido até agora por meus ensinamentos deveis adquiri-lo da mão

desse mestre dos mestres: a experiência real. Nessa nova marcha, eu irei adiante e

o Espírito da Verdade estará convosco. Não temais. O que agora não podeis

compreender, o novo Mestre, ao chegar, vos revelará nesta vida e em vosso

aprendizado no tempo eterno.”

Então Jesus dirigiu sua voz para o centro da mesa:

“Não vos perturbeis por não poderdes assimilar todo o significado do

Evangelho. Não sois mais do que homens finitos e mortais e o que vos tenho

ensinado é infinito, divino e eterno. Sede pacientes. Tende coragem. Tendes as

idades eternas diante de vós. Nelas continuareis vossa progressiva perfeição, assim

como vosso Pai do Paraíso é perfeito”.

Curtiss, Eliseu e eu nos olhamos, assaltados pelo mesmo sentimento. Era como

se as últimas palavras do Mestre – dirigidas para o centro do “U”, precisamente o

ponto onde se encontrava o microfone – não houvessem sido endereçadas apenas

aos seus íntimos...

Jesus levantou-se e caminhou para Tomé. E ouviu-se que dizia:

“– Tomé, muitas vezes te tem faltado a fé. Todavia, apesar desses momentos

de dúvida, nunca careceste de coragem. Sei muito bem que os falsos profetas e

mestres não te enganaram. Depois que eu me houver ido, teus irmãos apreciarão

muito tua forma crítica de ver e julgar os ensinamentos. E quando todos vos

dispersardes pelos confins da Terra, recorda que ainda és meu mensageiro. Dedica

tua vida à grande obra de mostrar como a mente crítica material pode triunfar sobre a inércia da dúvida intelectual quando se a enfrenta com a demonstração da

manifestação da verdade viva.

“Tomé, estou contente de que te tenhas unido a nós. E sei que após um curto

período de perplexidade seguirás adiante no serviço do reino. Tuas dúvidas têm

confundido teus irmãos, mas não a mim. Tenho confiança em ti e irei adiante de ti

aos mais remotos lugares da Terra.”

E Jesus, lentamente, foi colocar-se diante de um dos seus homens mais difíceis

e queridos: Simão Pedro. Estávamos a ponto de ouvir a outra profética alocução...

 

No caso de Pedro, como se verá, as repreensões do Mestre foram mais duras.

“– Pedro, sei que me amas. E sei que dedicarás tua vida à proclamação pública

deste Evangelho do reino a judeus e pagãos. Mas estou penalizado... Teus anos de

firme associação comigo não te ajudaram o suficiente para pensar antes de falar...”

Lastimei não ter estado presente àquela reunião. Estou certo de que a

expressão de Pedro devia ser um livro aberto.

“– ... Que experiência tens de viver para aprenderes a ser cauteloso com tua

boca? Quantos problemas nos tens dado por tua irresponsabilidade e tua

presunçosa confiança em ti mesmo! E estás destinado a criar-te muitos mais se não

dominares essa debilidade. Sabes que, apesar desse teu defeito, teus irmãos te

amam. E deves entender também que essa debilidade de modo algum diminui meu

afeto por ti. Mas reduz tua eficácia e multiplica teus problemas...”

O tom de Jesus fez-se menos severo.

“– Certamente, a experiência que passarás esta noite será para ti de grande

ajuda. E o que agora te digo, Simão Pedro, serve também para todos os que aqui

estão reunidos: esta noite correreis perigo se estiverdes comigo. Sabeis que está

escrito: ‘O Pastor será castigado e as ovelhas, dispersadas.’ Quando eu estiver

ausente haverá o risco de que alguns de vós sucumbam diante da dúvida e sofram

pelo que me suceder. Mas agora mesmo prometo-vos que voltarei por um curto

tempo e entrarei, então, na Galiléia.”

O fogoso Pedro não tardou em replicar:

“– Não importa se todos os meus irmãos vierem a sucumbir diante da dúvida

por tua causa. Prometo que não estarei contra nada que possas fazer. Irei contigo!

E, se for necessário, morrerei por ti!”.

O ardente e voluntarioso apóstolo aguardou a resposta do Mestre. E esta

chegou como um jarro de água gelada.

“– Pedro, em verdade, em verdade te digo que esta noite, antes que o galo

cante, ter-me-ás negado... três ou quatro vezes.”

– Três ou quatro vezes? – exclamou o General, que, obviamente, não conhecia

ainda nossa versão sobre o acontecido nessa madrugada de quinta para sexta-

feira.

– Afirmativo – respondi. – Foram três negações públicas e uma praticamente

em caráter privado.

“– ... Dessa forma” – prosseguiu Jesus –, “o que não tens conseguido aprender em tua pacífica união comigo, o assumirás entre problemas e penas. E, quando

houveres entendido esta necessária lição, deverás reconfortar teus irmãos e seguir

adiante, levando uma vida dedicada à pregação deste Evangelho. Ainda que possas

ir para a prisão e talvez seguir-me, pagando o preço supremo pelo amoroso serviço

de construção do reino do Pai.”

Simão Pedro, como os outros, não entendeu então o trágico alcance daquelas

proféticas palavras.

“– Mas, recorda minha promessa: quando eu ressuscitar, ficarei convosco algum

tempo, antes de ir ao Pai. Esta noite farei súplicas para que vos fortaleçais diante

do que deveis suportar. Amo-vos a todos com o amor com que o Pai me ama e,

portanto de agora em diante, deveis amar-vos uns aos outros como eu vos tenho

amado.”

O grupo pôs-se em pé e, dirigido por Jesus, entoou um novo cântico.

Cerca das 22h30 daquela quinta-feira, 6 de abril do ano 30, os passos e os

murmúrios dos doze perdiam-se no piso inferior do lar da família Marcos. A “última

ceia” havia terminado.

 

Um prolongado silêncio caiu entre nós três. De fato, havia demasiados pontos

sobre os quais meditar. E ainda que eu dê ao hipotético leitor deste diário o direito

de tirar suas próprias conclusões, penso que é minha obrigação dar conta de

algumas das apreciações e comentários que externamos naquela madrugada, na

solidão do cume da Massada.

Para o General – muito mais afetado do que nós pelo que acabávamos de ouvir

–, parecia de todo incompreensível que os evangelistas não tivessem feito menção,

entre outras coisas, aos incidentes dos divãs e dos lavatórios e às onze últimas

despedidas do Galileu. Só um dos escritores sagrados – Lucas – deixa entrever que

“algo” raro sucedeu entre os apóstolos: “Entre eles houve também uma altercação

sobre quem dentre eles parecia ser o ‘maior’ (22, 24)”. Por que nenhum dos outros

três fala dessa estranha “altercação”?

Para Eliseu, como para mim, a possível resposta – sempre a título de hipótese

de trabalho – estava justamente no denominador comum das mencionadas três

situações. Tanto na ácida polêmica sobre quem devia ocupar os postos mais

próximos do rabi, como na orgulhosa postura de não quererem lavar-se

mutuamente os pés e nas despedidas, os apóstolos não se saíram dignamente.

Como vimos, em cada “adeus” do Mestre flutuava uma considerável carga de

censura. Jesus, uma vez mais, chamou as coisas por seu nome revelando os

principais defeitos de seus discípulos. E isso, insisto, com o passar dos anos, deve

ter sido considerado como não “construtivo” pelo “colégio apostólico” ou pelos

responsáveis pelas respectivas redações evangélicas. Mas nem mesmo é o único

caso nos Evangelhos Canônicos...

Nesse mesmo sentido, é altamente estranho, para não dizer sintomático, que

apenas um dos evangelistas, João, registre em seus escritos o belíssimo gesto de

Jesus ao banhar os pés dos seus discípulos. Por que Mateus, Marcos e Lucas omitem completamente um fato tão edificante? Ocorreria, por acaso, que no

momento de descrevê-lo, e tendo obrigação moral de contar os fatos tal como

ocorreram, preferissem guardar silêncio para evitar um desgaste de sua imagem

individual e coletiva? Em defesa da objetividade informativa dos evangelistas –

ainda que haja fissuras demais para crer nessa objetividade – cabe alegar também

que talvez as atuais versões dos textos de Mateus, Marcos e Lucas não

correspondam aos escritos originais.

O primeiro documento sobre a vida e os ensinamentos de Cristo – ao menos de

que se tem notícia – foi obra de Mateus. Assegura a tradição que este, Mateus, foi

um dos doze. Entretanto, os cristãos não dispõem de prova irrefutável nesse

sentido. Admitindo, mesmo, que Mateus Levi, autor desse evangelho, fosse o

apóstolo, deparamo-nos com outro fato incontornável: o texto primigênio, redigido

em língua aramaica, foi perdido. Ficou-nos um evangelho de Mateus em grego, que

não é outra coisa senão uma fusão – cheia de possíveis modificações – do Mateus

genuíno. Para cúmulo dos males, a atual versão, em grego, deve ter sido lançada

ao redor dos anos 60 de nossa era. Quer dizer, uns trinta anos após a morte do

Salvador. Um período, ainda que historicamente curto, demasiado longo para poder

reconstituir com exatidão os extensos e profundos discursos de Jesus. Eu

acrescentaria que os dez ou vinte anos que talvez houvessem transcorrido entre a

desaparição do Galileu e a redação do primeiro evangelho – o Mateus aramaico –

constituem tempo demasiado para tentar memorizar e reter com acerto as

centenas de milhares de palavras proferidas pelo Mestre.

Quanto aos outros evangelistas – Marcos e Lucas –, a situação ainda se

obscurece mais. O primeiro talvez tenha sido aquele adolescente, João Marcos, que

de fato conheceu e conviveu com o Galileu.88 Mas sua permanência junto ao Mestre

foi muito espaçada e esporádica. É mais do que seguro que ao pôr no papel as

lembranças e pesquisas sobre o Cristo tivesse de recorrer às fontes já existentes:

Mateus e outros documentos que circulavam entre as comunidades cristãs. Ausente

da última ceia, Marcos teve de fiar-se em versões alheias. Então, ou a “altercação”

dos divãs e o tema dos lavatórios já haviam sido censurados ou, de mútuo acordo

com os apóstolos sobreviventes, achou mais prudente ignorá-los. O fato é que

nunca conheceremos as verdadeiras razões desta tríplice lacuna informativa.

O caso de Lucas afigura-se mais lógico. Os experts têm demonstrado que seu

evangelho foi escrito com base – em boa medida – nos textos de Mateus e de

Marcos.89 O evangelista copiou, modificou e suprimiu uma infinidade de passagens,

a seu critério e, sem dúvida, ao dos que o rodeavam. Sua versão, em

conseqüência, deixa muito a desejar, sem contar, como já observei, o deslize do

caso da “altercação”.

Talvez, porém, o capítulo mais delicado seja o da instituição da Eucaristia. Não

usarei rodeios. De meu ponto de vista, Jesus não instituiu Eucaristia alguma, tal

como hoje conceituam os cristãos este sacramento. E uma importante prova do

que afirmo está justamente na única testemunha que viveu a cena e sobre ela escreveu: João. Se Cristo houvesse em verdade pronunciado as conhecidas

palavras – “tomai, este é meu corpo” ou “este é meu sangue” –, o jovem discípulo,

que se encontrava à sua direita, não poderia tê-las ignorado. Se o fato passou-se

assim, reveste-se de uma tal importância que por si só eclipsa muitas outras

passagens da vida do Galileu. Por que, então, não aparece na narração de João

Evangelista? Alguns exegetas tentam contornar o acontecimento, alegando que a

missão de João ao escrever seu evangelho era tão somente a de completar as

lacunas dos outros três. A alegação é muito débil. Se essa tivesse sido realmente a

intenção do Zebedeu, por que repetir tantas passagens que já figuravam nos

evangelhos de seus companheiros? Por que insistir, por exemplo, na morte e

ressurreição?

Ao longo de toda sua existência o Filho do Homem jamais deixou um só legado

ou registro que não fosse sua mensagem e sua atitude diante da vida. Foi tão sutil

que nada deixou escrito. Nem sequer seus restos mortais nos ficaram. Por que

razão se arriscaria a cristalizar em umas palavras algo que, com o passar do

tempo, poderia ser motivo de interpretações e definições que limitassem suas

grandes verdades espirituais? Mais lógico seria que, sob o simbolismo do pão e do

vinho, falasse a seus discípulos de uma simples ceia de recordação. Esta, em minha

opinião, pode ter sido sua verdadeira intenção: que soubéssemos e tivéssemos

consciência de que, cada vez que se juntem os fiéis, Ele estará presente. Mas o

está sempre, sem necessidade de “fórmulas mágicas ou matemáticas” que,

definitivamente, constituem hoje a Eucaristia. Uma vez mais, suas palavras e

intenções foram manipuladas e enclausuradas pelos falsos e pueris julgamentos do

homem, que sente uma especial atração pelos dogmas. Quando se realiza uma

reunião de fiéis crentes, não é necessário associar a presença divina a um pedaço

de pão ou a uma taça de vinho. O espírito vivente do Filho de Deus – tal como Ele

repetiu – faz-se fisicamente presente em cada um dos espíritos dos congregados.

“Tomai esta taça e bebei dela. Esta será a taça da minha recordação...”

A manipulação do homem, uma vez mais, foi total. Duvido muito que Jesus

desejasse destruir o conceito individual da divina comunhão, estabelecendo uma

fórmula tão precisa e estranha aos seus hábitos, como a que hoje praticam os

cristãos. Seu estilo não foi precisamente o de limitar a imaginação espiritual do

crente, bloqueando-a com formalismos.

“Tomai este pão e comei-o. Tenho-vos manifestado que sou o pão da vida, que

é a vida unificada do Pai e do Filho em um só dom. A palavra do Pai, como foi

revelada pelo Filho, é realmente o pão da vida.”

Que relação guardam estas frases com as que nos transmitiram os três

evangelistas? Em minha opinião, nenhuma. Nem na letra, nem no espírito.

Infelizmente, de todas as suas parábolas e ensinamentos, talvez essa tenha sido a

mais manipulada e padronizada. Mas, como se verá mais adiante, não é o único

fato deformado ou omitido...

Em suma, considerando que não houve transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue do Galileu, como hoje sentencia a crença dos cristãos, menos se

pode polemizar sobre se Judas chegou a “comungar” ou não. O pedaço de pão

embebido no molho foi simplesmente um costume e um sinal. Uma “pista” que

sequer foi captada pelos discípulos. Como vimos, nem mesmo João – que se

achava à direita do rabi – percebeu o breve diálogo entre o Mestre e o traidor. É

óbvio, portanto, que o chamado “anúncio da traição de Judas”, de que fala João, foi

um fato “descoberto” pelo Evangelista, não no momento em que se produziu, mas

s i m a posteriori. Seguramente, os onze saíram do cenáculo ignorando as

maquinações de Judas. Só depois é que se inteiraram.

Por último – já que a análise da “última ceia” nos levaria longe demais –, por

que os textos evangélicos não dizem uma só palavra sobre a chefia de André, o

irmão de Simão Pedro? Por que não dedicam mais espaço às belas e esperançosas

revelações de Jesus sobre “seu Universo” e o “Universo dos Universos do Pai”, ou

ainda sobre as “moradas” ou “lugares de passagem” no mais além? Será que o

Universo do Filho do Homem é um e o de seu Pai outro?90

Será que não interessava deixar tudo isso bem esclarecido ou que,

simplesmente, nada compreenderam?

Creio que algumas destas apreciações pessoais podem ferir ou inquietar o

ânimo dos cristãos menos evoluídos. Não é essa a minha intenção. Poucas pessoas

no mundo professam uma fé em Cristo como a que me foi dada. Mas isso não

poderia significar ou implicar uma escravizante submissão a dogmas ou ritos que

não me satisfazem e que, sobretudo, não foram desejados pelo Mestre...

 

Nossas discussões terminaram com o amanhecer. E não por falta de temas ou

de interesse. Simplesmente por esgotamento. Curtiss, compreendendo que se

havia excedido, recomendou-nos que dormíssemos até nova ordem. E assim

fizemos.

Pelas 2 da tarde daquela sexta-feira, 9 de março de 1973, Eliseu tirou-me de

um profundo e reparador sono. Seu rosto parecia feliz. Iluminado.

– Vamos – sussurrou-me sem dissimular sua emoção. – Tudo está pronto.

O tempo havia mudado bruscamente. Nuvens negras e ameaçadoras

levantavam-se ao norte, impelidas por um forte vento. Meu companheiro percebeu

minha preocupação e, arrastando-me para o refeitório, pediu-me que esquecesse a

meteorologia.

Após um frugal almoço descemos ao fosso. A febril atividade do dia anterior

havia diminuído sensivelmente. O formidável esforço dos homens do Cavalo de

Tróia começava dar seus frutos. No centro da “piscina” – reluzente e majestoso –,

aguardava o módulo, com seus quase 7 metros de altura. Nesse instante, ao rodeá-

lo, um tremor sacudiu-me dos pés à cabeça. E creio que foi a partir desse momento

que intuí que “algo” extraordinário e inimaginável esperava-nos no “outro lado”.

O combustível – dimetil-hidrazina e tetróxido de nitrogênio – havia sido

colocado nos tanques. No total, 16.400 quilos. Mais do que suficiente para nossos

propósitos. Com aquelas quase 16 toneladas e meia dispúnhamos de uma margem máxima de vôo de 5 horas e 14 minutos.

Nessa altura, em razão dos novos equipamentos e da duração maior da missão,

o peso do “berço” havia aumentado consideravelmente, chegando a 25 toneladas,

das quais umas 17 correspondiam aos tanques e aos propelentes.

O General fez-nos sinal convidando-nos para uma reunião com os diretores do

projeto. Ali, afinal, tivemos notícia da “hora zero”. Salvo imprevistos, o lançamento

se daria à l hora de sábado, 10 de março.

Quando lhe pedimos informações sobre as medidas de segurança para o crítico

momento, Curtiss, sem perder o sorriso, esquivou-se:

– Não há problema – limitou-se a responder. – Será como um passeio.

– Mas, e os vigilantes? – tornei, alarmado.

O chefe da operação nem sequer me escutou. E prosseguiu concentrado nos

detalhes da exploração.

Por unanimidade, a inclinação dos eixos dos swivels havia sido fixada para a

primeira hora do domingo, 9 de abril do ano 30. Assim, uma vez realizada a

inversão de massa do módulo, teríamos tempo suficiente para alcançar o cume do

monte das Oliveiras antes das 3 da madrugada desse mesmo dia. A razão era

simples: eu devia estar no jardim (propriedade de José de Arimatéia) precisamente

ao ocorrer a primeira das supostas aparições do Ressuscitado. Como já assinalei, a

“vara de Moisés” havia passado por certas modificações. Uma delas – que

descreverei no momento adequado – consistia na incorporação de um

revolucionário sistema baseado em “transdutores de hélio”, que, na opinião dos

cientistas, podia ser de grande utilidade para analisar o enigmático corpo “glorioso”

de Jesus. Mas as coisas não iriam ser tão simples...

O General e os diretores mostravam-se especialmente preocupados com a falta

de dados concretos sobre as “aparições” do Mestre da Galiléia, as quais, insisto,

constituíam um dos objetivos básicos da missão. Mas, na hora de traçar o plano, as

múltiplas contradições dos evangelistas – nossa principal fonte de informação – só

contribuíram para complicar as coisas. Enquanto Mateus e Lucas, por exemplo,

falam apenas de duas aparições, Marcos cita três e João, o mais confiável, quatro.91

Um dos poucos pontos coincidentes nos quatro Evangelhos era o da data da

primeira aparição: “o primeiro dia da semana”, vale dizer, o domingo. O mesmo

não acontecia, entretanto, com a hora. Para Mateus, as mulheres que foram ao

sepulcro – sobre cuja identidade e número tampouco estão de acordo os escritores

sagrados – o fizeram “ao alvorecer” o dia. Marcos, como vimos, fala da “saída do

Sol”. Lucas é mais impreciso: “muito cedo”. Finalmente, João, mais minucioso,

oferece-nos um dado importante: “de madrugada... quando ainda estava escuro”.

Para nós, ainda que dispuséssemos da hora exata em que se registraram os

enigmáticos acontecimentos que rodearam a suposta ressurreição, o fato de poder

determinar com precisão o momento em que as mulheres irromperam na

propriedade de José de Arimatéia era de especial interesse. Se tivéssemos em

conta que o orto solar naquela data se havia dado, em Jerusalém, às 5h42, a tendência generalizada entre os homens do Cavalo de Tróia inclinava-se pela

versão de João Evangelista. Mas era preciso fazer urna verificação “sobre o

terreno”.

No que diz respeito ao famoso “terremoto” citado por Mateus – e ignorado

pelos outros três escritores – nosso ceticismo foi total. As vibrações e o zumbido

que acompanharam ou precederam – este ponto não estava de todo claro – a

“desaparição” do corpo do interior da gruta nada tinham a ver com o que hoje

interpretamos como um sismo. Quanto à pedra que fechava o sepulcro, as

contradições eram igualmente palpáveis. Mateus “culpa” o Anjo do Senhor que

baixou do céu. Marcos, Lucas e João, prudentemente, estão de acordo em que,

quando as mulheres chegaram ao lugar, a pedra já havia sido deslocada. Mas,

como e por quem? Possivelmente, como eu mesmo tive ocasião de ouvir do

pombal, o movimento, não de uma, mas das duas lápides, obedeceu a alguma

força ou entidade invisível aos olhos humanos.

Com respeito aos “jovens” ou “anjos” de vestes brancas e resplandecentes que

foram vistos pelas mulheres, o assunto complica-se até limites insuspeitados.

Mateus e Marcos falam de um só. Para o primeiro, fora do sepulcro. O segundo, ao

contrário, coloca-o no interior da cripta. Lucas e João citam os dois,

respectivamente...

Com que versão ficávamos?

O primeiro dos evangelistas – Mateus –, quando fala na aparição às mulheres,

entra de novo em flagrante oposição com João. Enquanto Mateus afirma que Jesus

saiu ao encontro das mulheres e que estas, “acercando-se, se ajoelharam aos seus

pés e o adoraram”, o Zebedeu assegura coisa muito diferente: que Maria Madalena

“voltou-se – estando ainda junto ao sepulcro – e viu Jesus”. E mais: chegou a

confundi-lo com o jardineiro, pedindo-lhe que lhe dissesse onde havia deixado o

corpo do Mestre. Quando, finalmente, Madalena reconhece o Galileu, este proíbe-

lhe que o toque, “que ainda não subi ao Pai.”

Enfim, para que continuar? O estudo e a revisão dessas passagens só

contribuíram para confundir-nos. Era necessário reconstituir os fatos. E desde o

princípio. Daí minha presença no jardim ser vital. E, se possível, como havia sido

planejado pelos diretores do Cavalo de Tróia, desde o momento da suposta

ressurreição. Mas o destino tinha outros planos...

 

Pelo segundo dos livros atribuídos a Lucas – Atos dos Apóstolos – sabíamos que

a última das aparições do Mestre a seus discípulos (denominada entre os cristãos

como a “Ascensão aos Céus”) verificou-se no quadragésimo dia da sua

ressurreição. Quer dizer, ali por 18 de maio, quinta-feira. Mas, logicamente, o dado

não era muito seguro. Assim, ainda que o tempo destinado a esta segunda

exploração ficasse inteiramente em nossas mãos, Cavalo de Tróia preocupou-se em

encher a dispensa do módulo com uma reserva de água e alimentos suficientes

para uns doze dias. Ainda que menor, esta foi outra das preocupações do General.

Se a missão, como estava inicialmente previsto, se prolongasse até um total de quarenta ou 45 dias, Eliseu e eu deveríamos suprir a falta de provisões recorrendo

“às fontes naturais do próprio meio”. Dadas as deficientes condições higiênicas da

época, a equipe de diretores havia fixado uma série de normas drásticas, de

caráter preventivo, que devíamos cumprir estritamente. Mas isso é assunto para

mais adiante...

A maior parte das reservas alimentícias do “berço”, tal qual sucedera no

primeiro “salto”, havia sido meticulosamente estudada, seguindo – como não! – as

diretrizes e costumes da NASA. No plano diário de trabalho – que afetava

sobretudo meu irmão – contemplavam-se três itens muito concretos: “desjejum”,

“almoço” e “jantar”. No total, o Cavalo de Tróia havia selecionado um cardápio

integrado por 35 pratos diferentes, todos desidratados. A dieta diária abrangia

desde espaguetes com molho de carne até salada de camarão, passando pelos

mais variados sucos de frutas, bolo de maçã, queijo, leite e uma infinidade de

verduras e outros alimentos ricos em glicídios ou hidratos de carbono, lipídios,

vitaminas92 e minerais. Este último capítulo recebeu uma atenção especial por

parte dos nossos especialistas. Sabe-se que os minerais, tal como as vitaminas,

não fornecem energia, mas têm muita importância na regulação de todas as

funções vitais. O homem pode tolerar a falta de vitaminas durante semanas.

Todavia, qualquer pequena alteração na concentração de cloreto de sódio no

sangue, para dar um exemplo, pode ter conseqüências fatais. Daí haverem

merecido um lugar de destaque as provisões ricas em minerais, sobretudo em

sódio, potássio, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, iodo, cobalto, cloro e flúor.

Os alimentos que costumam desfazer-se em migalhas foram reunidos por

bocados. Cada um perfeitamente envolto em uma camada de fécula que evitava o

esmigalhamento. A preparação do correspondente cardápio obrigava a um

tratamento prévio, à base de água fria ou quente, dependendo dos gostos pessoais

e da natureza dos manjares. Cada desjejum, almoço e jantar, havia sido

acondicionado em diferentes recipientes cilíndricos e tudo isso, por sua vez,

hermeticamente protegido em um compartimento destinado à “dispensa” e situado

na “popa” da nave. Por causa da forma prismática do “berço” – com um pouco mais

de 60 metros cúbicos de capacidade – no que poderíamos denominar de “proa”

havia sido colocado o grosso dos equipamentos eletrônicos e de navegação e

também o computador central: nosso serviçal e utilíssimo Papai Noel.

À direita e à esquerda dos assentos de pilotagem, ocupando quase a totalidade

das paredes laterais, estavam colocados os depósitos de carburante, água e gases

auxiliares. Tudo isso em compartimentos estanques, fabricados com uma liga

especial de alumínio. As juntas e outras áreas que podiam ver-se submetidas a

maiores esforços mecânicos eram de titânio. Sob nossos pés, como creio já ter

comentado antes, o motor principal e o dos reatores auxiliares e reguláveis. Os

outros oito foguetes achavam-se divididos estrategicamente nas diferentes faces

do módulo.

A “popa”, além da “dispensa” e dos beliches, abrigava complexos circuitos de rádio, de medição ambiental interna e externa e uma bateria atômica – tipo SNAP

27 –, capaz de transformar a energia calorífica do plutônio radioativo em corrente

elétrica (50 W), com uma vida útil de um ano. Esta pilha, especialmente blindada,

era o “coração” do módulo. Todos os circuitos e instrumentos, em maior ou menor

grau, dependiam dela. Não quero nem pensar no que nos teria sucedido se se

produzisse uma falha no sistema elétrico... Como medida de precaução, Cavalo de

Tróia acrescentou aos novos equipamentos uma bateria de espelhos metálicos –

doze ao todo – que podiam ser montados no exterior do “berço”, com

aproveitamento da radiação solar e podendo gerar até 500 W.93

Entre os assentos dos tripulantes achava-se o núcleo de controle dos eixos dos

swivels, essencial para a inversão de massa e o retrocesso no tempo.94 Este grupo

de equipamentos era controlado pelo computador central – Papai Noel – do qual já

tenho falado e cuja natureza nada tem a ver com seus “irmãos”, os computadores

de válvulas de alto vácuo ou de estado sólido. A coordenação dos principais

sistemas – propulsão, inversão dos eixos, varredura visual para vôos, descidas do

módulo, detecção e emissão, controles do meio biológico, alimentação geral dos

equipamentos etc. era executada mediante a técnica conhecida como “controle por

retroversão com o auxílio de computadores.95

E ainda que não pretenda estender-me nas sempre difíceis e complexas

características técnicas do instrumental e dos sistemas utilizados, tanto meu

companheiro de aventuras como eu mesmo sentimos uma profunda satisfação

quando, ao revisar o interior do “berço”, comprovamos que a equipe do Cavalo de

Tróia havia aceitado algumas das nossas sugestões, diante da iminência da nova

exploração. Na “popa”, adequadamente acondicionados, achavam-se, entre outros,

os seguintes aparelhos e “ferramentas”:

Dois microscópios. Um do tipo Ultropack, da casa Leitz, muito útil para

visualização de corpos opacos, e o segundo, mais completo, que àquela época

ensaiava seus primeiros passos no mundo da investigação científica: o denominado

“efeito túnel” – que procurarei detalhar oportunamente – e que seria de grande

utilidade para os propósitos da missão. O considerável peso e volume do

microscópio eletrônico levou-nos a desistir de sua instalação no interior da nave.

Além disso, um microdensitômetro e um sofisticado “interpretador” de imagens

que contribuiriam – e de que forma! – para o que, sem dúvida, foi um dos mais

sensacionais achados desse segundo “salto”.

O novo instrumental era complementado por um laser experimental, destinado

a comunicações a longa distância; um aparelho miniaturizado de raios X de

modulações dirigidas; material termográfico de alta velocidade e outros

“dispositivos” que, como disse, irei revelando quando chegar a ocasião.

Em um dos compartimentos da “dispensa” – protegidos a baixa temperatura –

foram incluídos diversos reativos e uma ampla série de antibióticos, sulfamidas e

outros fármacos sintéticos, imprescindíveis em um clima temperado, em especial

para combater possíveis infecções microbianas.96 Além dessa generosa representação da mais moderna quimioterapia – reservada, em princípio, de acordo

com o estrito código da operação, aos ocupantes do módulo – o general Curtiss e

alguns dos diretores haviam insistido na necessidade de abastecer a nave de uma

extensa reserva de plantas medicinais. No total, 147 espécies altamente benéficas

e que, em caso de necessidade, a nosso critério, poderiam ser tiradas do “berço”. A

maior parte delas, segundo os estudos de nossos especialistas, existia naquele

tempo na Palestina e regiões circunvizinhas. Sua presença, por isso mesmo, não

quebrava os esquemas ou o “quadro” evolutivo do momento. E devo reconhecer

que a idéia teria um resultado muito útil... Cada erva, depois de seca, foi

introduzida em pequenos frascos de vidro, etiquetados com o nome da planta e a

data em que fora colhida. Papai Noel recebeu igualmente uma completíssima

informação sobre a natureza, origem e propriedades curativas de todas elas.

Por último, entre as novidades, contávamos também com umas valiosas

réplicas das tábuas astrológicas utilizadas pelos egípcios nos tempos de Jesus,

assim como uma série de astrolábios assírios – igualmente talhados em tabuinhas

de madeira policromada que deveriam “ajudar-me” em minha tarefa como

“áugure” e “adivinho”.

Mas o que mais chamou nossa atenção foi uma caixa de aço, quadrada,

hermeticamente fechada, colocada também na “popa” e diretamente conectada

com o computador central. Por mais que inspecionássemos suas paredes – de 40

centímetros –, fomos incapazes de descobrir uma só inscrição ou pista que

revelasse seu conteúdo. Por achar-se firmemente aparafusada, não pudemos

também avaliar seu peso ou sequer intuir a razão de sua presença no interior do

módulo. Eliseu e eu, de mútuo acordo, interrogamos Curtiss sobre o misterioso

recipiente. O General parecia estar esperando a pergunta. Seu rosto ensombrou-se

fugazmente e, em tom autoritário, pouco comum nele, replicou:

– Lamento. “Isso” é matéria confidencial. Alto segredo.

E, dando meia-volta, afastou-se em direção à escotilha de emergência do fosso.

Naturalmente, acatamos a ordem. Mas Curtiss sabia que aquela medida de

caráter militar só poderia contribuir para excitar nossa curiosidade e, cedo ou tarde,

a tentar descobrir a missão de tão enigmática caixa...

 

Pelas 4h30 o General retornou à “piscina”. Ocupados na enésima revisão dos

equipamentos de bordo, não nos advertimos de sua chegada. Foi um dos

engenheiros quem, assomando a cabeça pela escotilha aberta no piso do “berço”,

anunciou-nos que o chefe reclamava nossa presença. Ao descermos pela escadinha

hidráulica do módulo, aguardava-nos outra surpresa: a totalidade do turno de

trabalho e outros homens de folga estavam reunidos diante da nave. Curtiss, na

primeira fila, sorridente, tinha nas mãos um cilindro de cristal. Consultou seu

relógio e, esbanjando satisfação, exclamou:

– Rapazes, dentro de sete horas e trinta minutos, se tudo correr normalmente,

iniciaremos a contagem regressiva... Desta vez não estarei fisicamente presente. A

segurança de vocês e de toda a equipe depende, em boa medida, da minha ausência... temporal. Logo compreenderão.

Baixou os olhos e, reunindo toda a sua energia, resumiu em uma frase os

desejos e sentimentos de quantos ali estávamos:

– Boa sorte... e que Ele os abençoe de novo!

Com os olhos umedecidos estendeu suas mãos para Eliseu e entregou-lhe o

broto de oliveira que a urna continha.

– Um último rogo – acrescentou. – Levem também este rebento e plantem-no

em nome dos que ficamos deste lado... Será o humilde e secreto símbolo de

homens que somente buscam a paz. Uma paz sem fronteiras. Uma paz sem

limitações de espaço... nem de tempo. Obrigado! E repito: boa sorte!

Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa abraçou-nos e rapidamente abriu

passagem entre os emocionados técnicos do projeto, perdendo-se escada acima,

rumo à superfície da Massada.

Eliseu e eu, com os corações acelerados, só tivemos forças para murmurar um

duplo e comovido “obrigado”. Tal qual ocorrera no primeiro “salto”, na Mesquita da

Ascensão, as palavras negaram-se a fluir dos nossos lábios.

 

Restabelecida a normalidade na estação, os diretores explicaram-nos por que o

General se ausentara inesperadamente nos últimos momentos da fase “vermelha”.

Dias antes, Curtiss havia convencido Qasim, o xeque beduíno que havia erguido

sua tenda bem junto à plataforma-base do funicular, a celebrar uma típica ceia

nômade, justamente na noite de sexta-feira, 9 de março. Os cordeiros e um

substancioso presente – em dólares, claro – haviam sido decisivos. A finalidade

outra não era senão manter Yefet, o chefe do acampamento Eleazar, afastado do

cimo do rochedo durante a abertura da “piscina” e o posterior lançamento do

“berço”.

O capitão israelense e nosso chefe eram os únicos convidados. Yefet

interpretou o gesto como manifestação da tradicional hospitalidade beduína e

aceitou encantado. Por um lado, recusar o convite dos shammar haveria sido um

insulto. Por outro, a festa rompia a monotonia e o duro enclausuramento a que se

achava submetido desde fevereiro.

Como o serviço do funicular se encerrava com o crepúsculo, e uma das cabinas

conduziu-os à base da Massada às 5 da tarde, ambos deveriam pernoitar na tenda

árabe. Como precaução especial, o chefe do Cavalo de Tróia havia estabelecido

uma senha, a utilizar nestes hipotéticos casos: se algo falhasse no fosso e a

decolagem do módulo falhasse, um de nossos homens deveria transmitir

imediatamente à estação de rádio localizada na plataforma-base do funicular uma

das frases da conversa mantida entre Kissinger e a jornalista da NBC Barbara

Walters, a propósito do aprendizado de inglês de Mao Tsé-tung:

“Sente-se, por favor”.

Se, ao contrário, Yefet fosse inesperadamente chamado para cima,

abandonando a hospitalidade dos shammar antes da 1 hora da madrugada do

sábado, Curtiss teria de engendrar um pretexto para vencer os 200 metros que separavam a tenda da estação de rádio e transmitir para o acampamento outra das

frases que nos havia recomendado memorizar durante a visita ao gerador:

“Isso é mais do que o senhor pode dizer em chinês”.

– Esperamos, para o bem da missão e de todos – foram os nossos votos –, que

não seja necessário usar nenhuma das ridículas frases...

Entretanto, nossa opinião era que nem tudo parecia tão simples. Ainda que o

perigoso Yefet houvesse sido afastado da meseta, ali estavam ainda outros 25

israelenses. E como despistá-los? Sobretudo, como neutralizar os vinte vigilantes? À

primeira vista, o plano do General era bom. Com os dois técnicos encarregados da

manutenção de Charlie não havia problema. Era improvável que, encontrando-se

na cisterna, vissem ou ouvissem algo de anormal. Quanto aos demais – os

cozinheiros e os componentes do grupo de vigilantes –, as ordens eram drásticas.

Pouco antes do jantar, por volta das 9 da noite, um de nossos homens deveria

infiltrar-se na cozinha, misturando na comida, na água e no vinho uma dose

reduzida de nembutal, um sedativo cuja ação – dependendo do número de

miligramas, pode prolongar-se entre 30 minutos e 5 ou 6 horas. De certa forma,

tanto o turno que iniciava a vigilância desde as casamatas oriental e ocidental às

10 da noite, como o que a deixava e se encaminhava para o refeitório estariam sob

os efeitos do sonífero 45 a 50 minutos após a ingestão.

Para não levantar suspeitas, os vinte especialistas do Cavalo de Tróia que

terminavam seu serviço na “piscina” pelas 21h30 deviam dirigir-se normalmente ao

refeitório e compartilhar com nossos aliados o jantar... e o nembutal... Se no dia

seguinte algum dos vigilantes decidisse confessar que havia dormido no seu posto

de observação – coisa pouco provável –, descobrindo-se, talvez, que os demais

haviam feito o mesmo, os militares israelenses seriam obrigados a reconhecer que

também os norte-americanos de folga haviam sofrido a mesma “anomalia”. O

golpe imaginado não era mau. Todavia, confiamos em que a situação não chegasse

a tais extremos. No acampamento era um segredo de polichinelo que, em geral a

partir das 11 ou meia-noite, a maioria dos vigilantes acabava por acomodar-se em

seus improvisados catres e dava umas “cabeçadas”... Não fora a inevitável abertura

do fecho hidráulico do fosso e o silvo dos motores do módulo ao decolar, talvez

aquela série de precauções houvesse sido desnecessária. (Como já mencionei, o

“berço” dispunha de um sistema de emissão de radiação infravermelha que o

tornava invisível aos olhos de qualquer hipotético observador. Essa fonte

energética radiava a partir de toda a “membrana”, que, como também já expliquei,

recobria totalmente a nave.97

23 horas.

Eliseu cerrou a escotilha do módulo.

– Sessenta minutos para o início da contagem regressiva.

– Entendido...

A voz dos técnicos chegava forte e clara. Nosso passo seguinte foi vestirmos os

trajes especialmente desenhados para o processo de inversão de massa, checando

no computador o novo dispositivo de RMN98 alojado nos escafandros e que deveria

fotografar os tecidos neuronais durante a mudança dos eixos dos swivels. Aquela

havia sido uma de nossas “exigências” para prosseguir na missão. Durante o tempo

infinitesimal das duas “inversões” inicialmente previstas, o sistema miniaturizado

de RMN, ou ressonância magnética nuclear, permitiria um fiel e minucioso

acompanhamento da atividade dos nossos neurônios, trazendo, talvez, nova

informação sobre o mal que – estávamos seguros – afetava nosso cérebro. Papai

Noel verificou e interpretou aqueles primeiros “cortes” da massa cerebral,

marcando a nova ligação automática da RMN para as 24h45; quer dizer, um quarto

de hora antes da decolagem. Isso permitiria – na presunção de que

regressássemos – uma análise comparativa do comportamento e possíveis

modificações dos pigmentos de envelhecimento, antes, durante e depois da

inversão axial. Essa espécie de “radiografias magnéticas” é totalmente inofensiva.

Todavia, o sistema não foi cogitado quando da nossa primeira exploração. Em

princípio deveria ter sido incorporado à “vara de Moisés”, com a missão básica de

estudar o cérebro de Jesus de Nazaré durante sua Paixão e Morte. Mas o fato de

que a RMN provoque a orientação de certos átomos na direção do campo

magnético foi tido como uma forma de alteração do organismo humano a observar.

E isso, como ficou dito, estava terminantemente proibido. O sistema, ademais, não

fora miniaturizado a tempo e foi preciso esquecê-lo. Agora as coisas eram

diferentes. De um ponto de vista ético não nos parecia reprovável tentar estudar

um corpo “glorioso” com a ajuda da ressonância magnética nuclear. O empenho,

nós o sabíamos, tinha mais de sonho do que de realidade científica. Nem sequer

estávamos seguros da existência desse “organismo” ressuscitado. E no caso de que

fosse real e visível, com que podíamos defrontar-nos?

Mas percebo que estou caindo na velha tentação de adiantar-me aos fatos...

 

23h30.

Estamos sentados diante do grande painel de instrumentos. Meu irmão dá início

à última consulta ao computador central...

– Medidores do campo gravitacional...

– OK.

– Indicadores de velocidade...

– OK.

– Painel de instrumentos de vigilância de motores: temperatura...

– OK.

A revisão concluiu-se às 23h40. Na realidade, tanto a decolagem, como o vôo e

a aterrissagem, assim como a maioria das funções de abastecimento, pilotagem

etc., achavam-se controlados pelo Papai Noel. Nosso papel, por conseguinte, era de

meros supervisores ou, em casos extremos, de retificadores.

– 0 hora.

– Sessenta minutos para a subida...

O início da contagem regressiva acelerou nossa freqüência cardíaca.

Se temos de ser sinceros, durante boa parte daqueles intermináveis sessenta

minutos, ainda que seguíssemos mecanicamente a evolução dos parâmetros de

vôo fornecidos pelo computador, nossos pensamentos estavam fora da nave.

Justamente na tenda que hospedava a estação de rádio. Àquela altura da noite –

já madrugada de sábado, 10 de março – a julgar pelas indicações dos técnicos que

permaneciam em contato com o interior do módulo, o sonífero fazia tempo que

surtira efeito, imergindo o acampamento em profundo silêncio. Quanto ao receptor-

transmissor de rádio, continuava “maravilhosamente mudo”...

Instintivamente imaginamos o velho General rodeado de beduínos e com os

Continuar: parte 8 de 9