Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 2 de 10 · parte 4/9

Páginas do PDF

Cavalo de Tróia 2: Massada

O diário ⠀猀攀最甀渀搀愀 瀀愀爀琀攀)

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

situação da Massada, só se podia praticar rápida e comodamente pelo ar. Nisso

teriam destacado papel os helicópteros-cisterna do Exército israelense. Uma vez a

cada trinta dias, vários daqueles gigantescos Sikorsky S-64 (tipo CH-54 Tarhe),

previamente adaptados, voavam durante a noite até o acampamento, enchendo o

tanque de armazenamento: 162.600 metros cúbicos. Este segundo depósito – de 5

metros de largura por 15 de comprimento e 3 de altura – foi montado em uma das

covas que se alinham no já mencionado escarpado sudeste da montanha, muito

próximo à cisterna subterrânea.53 Com a ajuda da grua e de cordas, em uma verdadeira operação de “alpinismo”, e vencendo uma encosta de mais de 300

metros de altura, os israelenses foram transportando as peças de aço desde o cimo

até a boca da gruta natural. Creio que jamais conseguiremos agradecer-lhes tal

esforço suficientemente. Na manhã do sábado, uma vez concluída a operação de

junção e soldagem do tanque, os engenheiros deixaram em ordem as bombas que

levariam o líquido aos dois depósitos – o de armazenamento e o diário – com uma

tubulação que encravaram e camuflaram na parede sudeste da Massada. O

conduto penetrava na cisterna subterrânea através de um dos orifícios de

ventilação.

Meus conhecimentos sobre a história da Massada, de seus edifícios e dos

castelos fortificados de origem romana que a rodeiam – tudo isso fruto da

documentação proporcionada pelo General –, se mostrariam muito úteis quando,

seguindo nosso plano de reconhecimento do terreno, nos dirigimos para o norte da

meseta. Meu irmão e eu ficamos maravilhados pela audácia e beleza do palácio do

norte, com seus três terraços escalonados. E sentimos uma especial emoção ao

percorrer o labirinto formado pelas ruínas dos armazéns mandados construir por

Herodes, justamente ali, seu palácio suspenso. Aquele vértice da grande rocha –

em especial os terraços central e inferior – é o único ponto resguardado do ardente

Sol e dos temíveis ventos do sul, que às vezes superam 97 quilômetros por hora.

“Se não fosse este compacto complexo de ruínas (palácios, armazéns, balneários,

edifícios administrativos, postos de guarda etc.), o acampamento Eleazar” –

explicou-nos um dos inseparáveis ‘guias’ – “teria sido instalado ali mesmo.”

Aqueles incômodos ventos do sul e do sudoeste, tão freqüentes na Massada,

iriam constituir um autêntico pesadelo para os homens do Cavalo de Tróia,

principalmente nos decisivos minutos da decolagem e da ulterior aterrissagem do

módulo. (Espero que Deus me conceda a força necessária para chegar a esse ponto

deste relato.) Nos estudos meteorológicos da estação de Kalya, ao norte do mar

Morto, as estatísticas elaboradas com base nos dados recolhidos em 1972 pelos

três centros de observação54 projetavam, todavia, para fevereiro, uma freqüência e

intensidade dos ventos relativamente baixas ou suportáveis: a estação número 20

apontava uma porcentagem de 18,9 para o vento sul e apenas uns 4% para o

sudoeste. As estações números 21 e 22, por sua vez, fixavam – para os mesmos

ventos – uns índices de 18,9 e 7,9 e de 14,7 e 5,6, respectivamente. Nos três

casos, as velocidades dos ventos oscilavam em torno dos 12-19 quilômetros por

hora. Só as estações 20 e 21 previam ventos entre 50 e 61 quilômetros por hora,

mas em porcentagem muito baixa (0,1). Naturalmente, o pico da Massada

encontra-se a mais de 300 metros de altitude e isso se notava.

Mas o lugar que mais nos impressionou – talvez porque se conserve tal qual o

deixaram os legionários de Silva – foi a rampa de terra e pedra prensadas que se

empina desde as profundidades até quase tocar a fímbria noroeste da meseta.55

Aquele maciço de assalto é, sem dúvida, uma das estruturas ou “fórmulas” de

assédio do Exército romano mais interessantes do mundo. A verdade é que se encontra muito bem conservada. A brancura da rampa – cuja terra foi extraída do

chamado “promontório Branco”, justamente onde ela se inicia – é deslumbrante.

Durante alguns minutos ficamos ali, surpresos e absortos, a contemplar o maciço e

o acampamento de Flávio Silva. Agora, 1.900 anos depois daquela luta pela

soberania e liberdade de um povo, o Estado de Israel havia retornado à Massada,

precisamente, como já observei, para velar por essa segurança...

 

Nosso passeio pelas ruínas da Massada viu-se agradavelmente interrompido

quando, pelo meio da manhã, os funiculares conduziram ao cimo os cinqüenta

retardatários especialistas do Cavalo de Tróia. Como fizera conosco, Curtiss já os

havia posto a par de “alguns” detalhes da missão secreta. E todos, como era

previsível, se mostraram entusiasmados com aquela segunda operação. Sua

permanência no acampamento Eleazar foi, por isso mesmo, tão discreta e eficaz

como seria de esperar. Mas aqueles amigos não eram portadores de boas notícias

precisamente...

Por ordem de Curtiss, havia sido reunida uma ampla coleção de jornais

internacionais daqueles dias. Tanto o General quanto o resto da equipe intuíamos

que a recente derrubada do Boeing 727 líbio sobre a península do Sinai poderia

acarretar péssimas conseqüências no já deteriorado cenário político do Oriente

Médio. Não nos equivocamos. Os comentários e reações de meio mundo foram

unânimes: o metralhamento do avião de passageiros e a morte de 104 deles foram

condenados sem atenuantes. Especialmente os países árabes se mostraram muito

agressivos, acalorando ainda mais o clima de pré-guerra para seu vizinho, Israel. A

leitura dos jornais ingleses, norte-americanos e egípcios nos encheu de confusão e

incerteza.

A imprensa do Cairo, por exemplo, classificava o fato de “assassínio

premeditado” e de um “novo e bárbaro crime contra civis árabes”. O diário egípcio

Al Ahram trazia também as declarações de um porta-voz do governo de Sadat, nas

quais, entre outras coisas, assegurava que “o sionismo israelense, que vive da

agressão, da usurpação e do crime, pagará caro esta ação e receberá seu justo

castigo das mãos dos árabes”.

Por sua parte, os mais prestigiosos diários de Nova York e Washington se

pronunciavam nos seguinte termos:

“A incursão israelita no Líbano e a derrubada de um avião de passageiros sobre

o Sinai provocaram no mercado de valores de Nova York o medo de que a situação

no Oriente Médio se agrave. Isso fez cair extremamente os preços dos mercados de

valores”.

“Nixon e o secretário de Estado dos Estados Unidos, William P. Rogers,

enviaram mensagens de condolências a Muamar Kadafi e ao presidente do Egito.”

Superfície da meseta da Massada. No triângulo sul, o acampamento Eleazar. 1. recinto

subterrâneo destinado à estação receptora de fotografias (a “piscina”); 2. escadas que

conduzem à cisterna subterrânea; 3. a lagoa grande; 4. barracão destinado aos

lavatórios; 5. refeitório; 6. tendas de campanha; 7. portão da paliçada; 8. a cidadela

ocidental; 9. o banho ritual; 10. a muralha ou casamata oriental; 11. muralha ou

casamata ocidental; 12. moradia dos zelotes; 13. pombal; 14. oficina de mosaicos

bizantinos; 15. residências da família real; 16. dormitórios dos zelotes; 17. tanque de

natação; 18. vila; 19. palácio ocidental; 20. a rampa romana; 21. a igreja bizantina; 22.

edifício dos oficiais; 23. a torre ocidental; 24. moradias dos zelotes; 25. cisterna aberta;

26. funicular; 27. portão do caminho ou vereda das víboras; 28. armazéns; 29. banhos;

30. palácio do norte: terraço superior; 31. terraço intermediário; 32. terraço inferior.

 

Em editorial intitulado “Tragédia no Sinai”, dizia The Times que “o incidente

não era apenas outro infeliz fato de guerra, mas uma matança de civis irrefletida.

E, como tal, injustificada, senão totalmente premeditada”.

O Daily Telegraph qualificava a ação israelense de brutal, assegurando que “a

matança de civis supunha um duro golpe nas tentativas de Nixon para conseguir

um acordo sobre o canal de Suez”.

Por último, porque a lista seria interminável, escrevia o Financial Times:

“Depois de um período de cinco anos de ‘não paz, não guerra’, Israel não quer

arriscar-se a negociar um verdadeiro acordo de paz”.

Em tudo aquilo, todavia, percebia-se algo estranho. Por mais que

repassássemos os jornais, em nenhum se encontrou uma só reação ou declaração

do veemente coronel Kadafi. O Boeing sinistrado era de seu país e, além disso, 55

dos 104 passageiros mortos eram líbios... Por que guardava um mutismo tão

inexplicável? Será que havia algo a ocultar da opinião pública? Por que o avião se

havia desviado centenas de milhas de qualquer das rotas habituais de vôo desde

Bahrain, nos Emirados Árabes, a seu aeroporto de destino, em Alexandria?56 Não

dispúnhamos naquele momento dos dados meteorológicos da zona relativos ao dia

21 de fevereiro – data do sinistro –, mas parecia-nos difícil de crer que “as más

condições climáticas” (razão alegada a princípio pela imprensa israelense)

houvessem forçado o Boeing a violar o espaço aéreo de Israel, e justamente sobre

um setor militar. Era, quando menos, suspeito...

As escassas e tímidas notícias procedentes de Tel Aviv também não projetaram

demasiada luz sobre o ocorrido no centro do Sinai. Em uma coletiva de imprensa

realizada no Cairo, os jornalistas asseguraram haver escutado a voz do

comandante do Boeing 727 gritando: “Estão-nos alvejando! Estão-nos alvejando do

caça!” Naturalmente, como era de esperar, a imprensa israelense acusava o piloto

de desobedecer às ordens dos interceptores. O co-piloto, Jean Pierre Hure, um dos

sete sobreviventes, assegurou que “estavam aterrorizados e por isso não acataram

as instruções dos caças israelenses, preferindo escapar”.

A poucas horas do incidente o chefe supremo da Força Aérea Israelense,

general Mordekai Hod, e os pilotos do Phantom, cujos nomes não foram revelados, celebraram outra coletiva de imprensa para informar sobre o gravíssimo assunto.

Segundo eles, “fizeram-se desesperados esforços para obrigar o Boeing a

aterrissar. Um dos caças até se aproximara o suficiente para fazer sinais com as

mãos à tripulação líbia para que aterrissasse. Mas o Boeing 727 fugiu” –

informaram os oficiais israelenses – “para evitar um conflito diplomático”.

Algum tempo mais tarde, a própria imprensa de Israel lançaria outra não

menos estranha explicação: “Temiam que o Boeing viajasse em missão de

sabotagem a Tel Aviv”. E ainda que, realmente, as ameaças dos guerrilheiros de

bombardear aquela cidade fossem reais, no fundo ninguém acreditou em nenhuma

das “justificativas”. Nem nas israelenses nem nas árabes...

Dias mais tarde, ao regressar aos Estados Unidos, Curtiss nos informaria sobre

a verdadeira “razão” daquele lamentável episódio. Uma razão suficientemente

grave para os israelenses, mas que eles jamais admitiriam “oficialmente”...

 

Nada digno de menção sucederia mais naquela sexta-feira, 23 de fevereiro. A

equipe, intranqüila devido àqueles acontecimentos, fazia-se mil perguntas, todas,

porém, sem resposta até o momento. Como poderia nossa missão concorrer para

agravar as relações entre israelenses e árabes? Se tudo desembocasse em novas

hostilidades, ou, o que seria ainda pior, em uma quarta guerra, que papel

desempenharia aquela meia centena de americanos perdida no alto de uma

solitária montanha?

Ao entardecer, pouco antes de os funiculares deixarem de funcionar,

submetendo-nos, assim, a um forçado isolamento, Curtiss procurou reunir à sua

volta vários de seus diretores do projeto e, no curso de um aprazível passeio pelas

ruínas do setor norte – dessa vez sem “guias” ou intrusos israelenses – distribuiu as

“instruções” para o dia seguinte, sábado:

– Devemos estar atentos à chegada do restante dos equipamentos. Uma vez

no alto da meseta, Cavalo de Tróia porá em ação a fase “verde” da operação.

Como já assinalei, a fase “verde” consistia, fundamentalmente, no processo de

montagem da estação e, a partir de um determinado momento, do “berço”. Essa

última parte da fase “verde” havia sofrido modificações substanciais em relação à

sua gêmea da Mesquita da Ascensão no cume do monte das Oliveiras. A especial

configuração da “piscina” e do acampamento Eleazar exigia outro tipo de tática

para manter distantes os israelenses durante o processo de montagem dos

scanners ópticos e do restante instrumental “confidencial”. O pacto inicial de Curtiss

com o governo de Golda Meir, pelo qual o pessoal israelense deveria abandonar a

estação enquanto durassem os trabalhos secretos, continuava vigorando. Mas

ninguém estava a par da argúcia planejada por Curtiss.

Quando um dos diretores mostrou interesse pela “vara de Moisés” e pelo

combustível do módulo – em especial pela fórmula escolhida para introduzi-lo

clandestinamente na Massada –, o General limitou-se a repetir:

– Calma. Tudo está previsto.

O crepúsculo colocou ponto final nos febris trabalhos dos israelenses. Excepcionalmente, dada a urgência e natureza da Operação Eleazar, os turnos de

montagem de Charlie e do tanque de armazenamento foram liberados da sagrada

obrigação de guardar o sábado. Apoiados por grandes lanternas alimentadas a gás,

os técnicos encerrados no reservatório subterrâneo e na gruta prosseguiram em

quase total obscuridade, quebrada apenas pelos mortiços lampiões instalados no

interior das tendas e do refeitório. Por óbvias razões de segurança, o Exército havia

proibido a utilização de refletores na superfície do planalto. Nem sequer quando o

conjunto eletrogêneo entrou em funcionamento se quebrou essa rígida norma. A

integridade física da estação e da centena de homens que compunham o

acampamento o exigia. Éramos uma “simples e pacífica expedição arqueológica” e,

portanto, a presença de refletores no triângulo sul da Massada apenas haveria

servido para despertar suspeitas.

Ao clarear do dia seguinte, quando nos preparávamos para tomar o café-da-

manhã, notamos a falta de Curtiss e de vários oficiais-chefes do acampamento.

Bahat, adivinhando nossa indagação, convidou-nos a observar a orla oriental do

penedo. Para lá nos encaminhamos, cheios de grande curiosidade. Para ser franco,

nada naquele momento lembrava as palavras do General Curtiss acerca da

chegada do último terço do material.

O portão de entrada do chamado “caminho de serpente ou vereda das víboras”

– uma sinuosa e estreita vereda que se eleva até o alto da Massada pela vertente

leste57 – ofereceu, então, aos nossos olhos uma visão difícil de esquecer: muito

próximo da base do funicular, ocupando praticamente a esplanada contígua,

agrupava-se uma apreciável manada de camelos ou dromedários (daquela

distância era difícil precisar).

Nosso grupo entrou em uma acesa polêmica em torno das possíveis razões da

presença na Massada daqueles animais do deserto. Teria o carregamento chegado

em seus lombos? Se assim era, por quê?

O debate encerrou-se com a chegada de alguns dos militares israelenses.

Estávamos sendo chamados à estação de rádio. Minutos mais tarde, uma vintena

de homens do Cavalo de Tróia embarcava no funicular, rumo às instalações da

base.

O insólito e multicolorido espetáculo que nos aguardava no sopé do rochedo

deixou-nos sem fala. Curtiss e várias dezenas de israelenses empenhavam-se na

descarga de avantajados fardos, ajudados sempre pelos membros daquela

caravana beduína. Cerca de quarenta ou cinqüenta dromedários – os famosos

“barcos do deserto” – se apertavam, nervosos, diante da plataforma do funicular.

De suas corcovas pendiam – por ambos os flancos – uns fardos emalados que

continham arcazes, utensílios domésticos e até pequenos cordeiros. A certa

distância, entre as dunas, permaneciam outras seis a oito bestas, carregando

grandes baldaquinos descobertos nos quais se distinguiam mulheres e meninos.

Os nômades, vestidos com largos albornozes negros de lã, sem mangas, e com

as cabeças cobertas com gorros de pêlo de camelo e airosos mantões vermelhos e brancos, desenganchavam as canastras e as levavam para o interior das cabines do

funicular. Por um momento perguntei-me para que necessitaríamos no

acampamento de todas aquelas coisas, inclusive os cordeiros. Os beduínos haviam

obrigado os dromedários a ajoelhar-se e os mantinham nessa mais acessível

posição graças a uma corda que unia as cabeças dos animais a um ou ambos os

joelhos.

Concluída a operação, os dromedários foram desatados e um dos voluntários

árabes – aparentemente o chefe da tribo – despediu-se do oficial mais graduado

com um seco Salaam aleikum (A paz seja contigo). O israelense correspondeu com

outra leve inclinação de cabeça, respondendo: Aleikum as salaam (Que contigo

seja). E beduínos e dromedários tomaram a direção das dunas e se uniram ao

grupo das mulheres.

Sentia-me tão fascinado por aqueles incríveis exemplares humanos que, de

volta ao rochedo, quase não prestei atenção às explicações do General sobre os

fardos que acabavam de ser descarregados e sobre sua singular viagem.

Se não me falha a memória, três dias antes é que a caravana em questão se

havia encarregado desse último terço do instrumental, cuidadosamente camuflado

nos fardos. A coleta do carregamento se dera na noite de 21, quarta-feira, em um

ponto ao noroeste de Qumran, em pleno deserto da Judéia, zona freqüentada

desde tempos imemoriais pelas caravanas de beduínos que iam e vinham da

Arábia. Muitas delas traficavam com armas ou trocavam vinho por mulheres,

cruzando livremente a fronteira da atual Jordânia. Suponho que por um alto preço

aquela tribo ou clã dos nobres shammar58 havia aceitado a missão de transportar

para a Massada aquilo que, oficial e aparentemente, era apenas um prosaico

conjunto de vasilhas e outros utensílios domésticos, “necessários em qualquer

acampamento”. Os beduínos fizeram-se surdos e mudos diante da generosa

recompensa dos israelenses...

Realmente, o plano da Inteligência israelense funcionou com perfeição. Quem

haveria imaginado que entre os fardos daquela austera caravana viajava um

sofisticado equipamento de recepção de fotografias via satélite?

Sempre distantes das estradas e dos núcleos povoados, os shammar haviam

caminhado durante a noite – descansando de dia – por uma intrincada rede de

vales e veredas, em pleno deserto, que conheciam e palmilhavam desde há

séculos.

Mas a missão dos beduínos não havia terminado. Ao meio-dia, atendendo ao

convite do xeque da tribo para participar do sempre complexo ritual da preparação

e degustação do café, Curtiss teria a oportunidade de maquinar novo e astuto

plano. Um estratagema que nos “cobriria as costas” no crítico momento do

lançamento do módulo...

 

Aquele trabalho foi bem-vindo. O isolamento no alto de nosso “porta-aviões” de

pedra, sem suprimento elétrico nem distração alguma, e com meia centena de

homens ociosos, começava a preocupar-nos. Assim, espontânea e voluntariamente, o grupo do Cavalo de Tróia ofereceu-se para transportar os fardos e depositá-los –

com o resto das pedras cor de laranja – no fundo da “piscina”. Oficialmente, a fase

“verde” acabava de ser inaugurada...

Curtiss, que, como já expliquei, forjava algo em seu cérebro, pediu-nos que

separássemos a meia dúzia de cordeiros. E o pessoal o fez com satisfação,

prendendo-os a uma das cordas da tenda do General. Alguns dos rapazes,

compadecidos ante os lastimosos balidos das frágeis crias, improvisaram-se em

“nutrizes”, dizimando as reservas de leite da cozinha. A verdade é que não se viram

caras contrariadas entre os cozinheiros israelenses. Ali, só o que sobrava eram

comida e aborrecimento. (Cada manhã, pontual e religiosamente, o funicular nos

abastecia de pão quente, leite e daquelas iguarias que começavam a escassear nas

dispensas do barracão.)

Pelas 2 horas da tarde o General tomou seus seis cordeirinhos e, acompanhado

por Bahat, o supervisor, cruzou o portão da paliçada em direção à plataforma do

funicular. O paciente Curtiss recebeu com espírito esportivo as graçolas de judeus e

norte-americanos, divertidos ante a pouco habitual visão de um general da USAF

pastoreando um rebanho. Quando interroguei Eliseu sobre as intenções do nosso

chefe, meu irmão deu de ombros. Ninguém no acampamento Eleazar tinha a menor

idéia da razão por que se havia encarregado dos animais. A explicação possível

devia estar no interior da grande tenda negra de pele de cabra que naquela mesma

manhã os shammar haviam levantado sobre as amarelentas dunas que se

estendem a nordeste da montanha, a pequena distância das ruínas do

acampamento romano “B”. 59 Era evidente que os beduínos tinham intenção de

permanecer no lugar, ao menos por algum tempo. Mas essa circunstância não

parecia inquietar os militares israelenses. De qualquer forma, equivocamo-nos

quando demos como certo que, a seu regresso à meseta, Curtiss desfaria o

mistério. Entre outras razões, porque o General não voltaria à Massada. Pelas 4 da

tarde de sábado o funicular trouxe Bahat, com o encargo de recolher os escassos

pertences do General e baixá-los a toda pressa à plataforma-base. O supervisor foi

muito parco em explicações. Um carro oficial aguardava Curtiss. Sua presença fora

reclamada com urgência pela embaixada americana. Horas mais tarde os oficiais

encarregados do rádio receberiam uma comunicação do próprio General. Achava-se

em Tel Aviv pronto para decolar para os Estados Unidos. Aquilo consternou os

homens do Cavalo de Tróia. Nos planos do chefe da operação – ao menos ao que

sabíamos – não figurava aquela repentina viagem. O que estaria acontecendo?

As últimas palavras da mensagem de Curtiss, todavia, pareciam

tranqüilizadoras: “Comecem sem mim. Regressarei a tempo”.

O resto da jornada transcorreu quase sem sentir. Os homens se refugiaram nas

tendas ou no refeitório, discutindo e polemizando sem cessar sobre tão inesperada

partida.

Chegada a noite, as acaloradas discussões foram momentaneamente

interrompidas pela presença dos Sikorsky no cume do rochedo.

De acordo com o programa traçado pelos israelenses, uma vez completada a

montagem dos depósitos de combustível seriam eles enchidos no decurso de duas

noites consecutivas: as de sábado e domingo. Para a maior parte do

acampamento, aquele transvase de gasóleo constituiu um dos piores suplícios de

toda a operação. Por motivos de segurança, os gigantescos helicópteros-grua

israelenses – a cujo bojo haviam sido acoplados vários tanques de 10 toneladas

cada um – só podiam sobrevoar a Massada em plena obscuridade e, se possível,

sem luzes. A troada dos rotores principais, com suas seis pás, foi como um

pesadelo. Cada hora, pontuais como relógios, um par de Sikorsky aterrissava na

orla sudeste do triângulo, esvaziando seus depósitos. Foi inútil tentar dormir.

Impacientes por verificar o bom funcionamento do gerador, os israelenses –

uma vez abastecido o tanque diário com os 5.500 litros de gasóleo – ativaram o

Charlie. Os sistemas responderam de forma perfeita e os técnicos, claro,

felicitaram-se mutuamente.

Por volta das 5 da madrugada de segunda-feira, 26 de fevereiro, o último S-64

se alçava do planalto distanciando-se rumo ao sul, ou seja, à base de Etzion. O

laborioso armazenamento de quase 170 mil litros de combustível havia terminado.

Um mês mais tarde, se tudo corresse dentro do previsto, os helicópteros repetiriam

a operação de encher o tanque de armazenamento. Mas antes, muito antes, teriam

lugar “outros” acontecimentos...

 

Muito antes do amanhecer do domingo, 25 de fevereiro, mais de metade do

acampamento Eleazar achava-se de pé, despertada pelo incessante estrondear dos

helicópteros. De comum acordo, e ainda que os homens denotassem nos rostos um

profundo cansaço, como conseqüência de uma noite de vigília, os oficiais judeus e

os diretores do Cavalo de Tróia marcaram aquela mesma manhã para o início da

montagem da estação receptora de imagens. Entretanto, a maior parte do dia foi

destinada a trabalhos preliminares, abertura dos falsos blocos de pedra e dos

fardos e, muito especialmente, a uma exaustiva série de testes do fecho elétrico

que deveria cobrir a “piscina”. Quando os técnicos de ambos os grupos se

declararam satisfeitos, o “teto” da futura estação foi cerrado, iniciando-se, então,

os trabalhos prévios de desembalagem.

Judeus e norte-americanos, ombro a ombro, nos empenhamos com ardor no

que, para as duas partes, significava uma missão de “vital importância”. Para eles

em um sentido; para o Cavalo de Tróia, claro, em outro, muito diferente...

Apenas sete dos 26 cubos de “pedra” de cor laranja – previamente marcados

com um círculo negro – foram respeitados. Para nossos “amigos”, aquela parte

continha o instrumental “secreto”, que só podia ser aberto e manipulado por nós.

Prudentemente, para evitar desagradáveis “confusões” na hora de manejar o

material, as sete caixas foram isoladas no centro do fosso e convenientemente

atadas com lacres. Ao se estabelecerem os turnos de trabalho – o plano previa

quatro, de seis horas cada um –, os diretores norte-americanos designaram três

dos nossos dez especialistas (cada turno era formado por duas brigadas – israelense e norte-americana – de dez homens cada brigada), com o velado

objetivo de não perderem de vista tais blocos. Graças a esse sutil procedimento, o

“berço” esteve protegido dia e noite.

À medida que os dias foram passando e a estação começou a tomar forma,

Eliseu e eu demo-nos conta de outro “detalhe”, magistralmente planejado pela

equipe de diretores. Como já disse, uma de nossas muitas preocupações, desde

que subíramos a Massada, havia sido a indispensável antena parabólica, prevista

no centro da estação. Nossa torpeza não tem perdão. Ao colocar os sete blocos de

“pedra” no meio do fosso, Curtiss, astutamente, impossibilitou o início da

montagem da parabólica, que, em condições normais, podia ser feita

simultaneamente com a dos outros equipamentos. Esta manobra nos beneficiaria

consideravelmente. (O assentamento do módulo, como iremos vendo, foi projetado

na área em que devia erguer-se a parabólica de 26 metros de diâmetro.) Por outro

lado, em boa lógica, e com a finalidade de não retardar o trabalho dos técnicos, os

israelenses concordaram com a proposta de seus aliados: a instalação e as provas

da parabólica ficariam para a fase final.

Até a terça-feira, 27 de fevereiro, não se iniciaria a montagem propriamente

dita da estação receptora de fotos do Big Bird. Na segunda-feira, finalizada a

operação de transvase do gasóleo, os israelenses, sempre minuciosos e

desconfiados, colaboraram na desembalagem dos equipamentos, mas seus

esforços e sua máxima atenção concentraram-se na infra-estrutura que devia

“mover” aquela complexa rede de instrumentos e instalações. Boa parte de seus

homens permaneceu sob a terra, verificando e pondo à prova uma e outra vez os

sistemas de aeração, suprimento de combustível, fiação elétrica etc.

Lembro-me de que a chegada dos jornais – ali pelo meio-dia da terça-feira –

trouxe um salutar relaxamento dentro do campo. Ainda que as reações contra a

derrubada do 727 da Líbia continuassem extremamente duras,60 as tranqüilizadoras

declarações de Hafiz Ismail, conselheiro de Segurança Nacional do Egito –

conhecido como o Kissinger egípcio – lançaram um pouco de luz sobre a

tormentosa conjuntura do Oriente Médio...

“Apesar do incidente no Sinai” – dizia Ismail em Washington – “ainda há

esperanças de paz.”

Ao mesmo tempo, Dayan pedia um telefone vermelho para unir Israel com

outras capitais árabes, como meio de evitar incidentes como o do Boeing líbio.

Mas o que causou especial impacto foi a súbita viagem de Golda aos Estados

Unidos. Segundo os jornais israelenses, a primeira-ministra chegaria nessa mesma

noite de terça-feira aos Estados Unidos. Fontes oficiais adiantavam que “a visita

tinha como objetivos prioritários encontros com o presidente Nixon e outras altas

autoridades e, presumivelmente, a negociação da compra de aviões Phantom”.

Se levássemos em conta que no sábado, dia 24, o ministro israelense Galilli

havia declarado ao Jerusalem Post que a visita de Golda Meir aos Estados Unidos

se daria em princípios de março, como deveríamos interpretar semelhante

mudança de planos?61

Instintivamente, os homens do Cavalo de Tróia associaram este inesperado vôo

da primeira-ministra de Israel a Washington à não menos repentina viagem do

nosso chefe, o general Curtiss.

“Algo” especialmente grave sucedia...

Era curioso e significativo. Por mais que mergulhássemos naquele emaranhado

de notícias ainda não havíamos achado uma só que fizesse alusão ao pensamento

ou às intenções do coronel líbio Kadafi. Eram decorridos seis dias desde que o

Boeing fora abatido e, inexplicavelmente para os observadores políticos, o

messiânico e polêmico líder da revolução líbia continuava mudo. Horas antes, em

Bengazi, durante os funerais das vítimas do avião, milhares de líbios haviam saído

às ruas bradando por vingança: “Vingança, Kadafi, vingança!” Cartazes diziam: “As

almas dos mártires do Sinai só descansarão com a vingança” e “Olho por olho,

dente por dente”.

O tumulto alcançou tal grau de histeria e violência que Kadafi viu-se obrigado a

escapar da multidão em um Land Rover. O estranho, porém, é que o dirigente líbio

ainda dessa vez não fez manifestação alguma.

Os egípcios, por seu lado, também se haviam lançado às ruas clamando por

vingança e bradando em coro um grito que nos encheu de espanto: “Guerra,

guerra, Sadat!”.

Deus meu! Em que podia acabar tudo aquilo? Talvez a melhor síntese tenha

sido a que fez o então ministro de Assuntos Exteriores do Egito, Mohamed Hassan

el Zayyat: “O Oriente Médio” – declarou ele na segunda-feira, 26 de fevereiro –

“está próximo de estourar. Nosso país deve empreender todos os esforços

racionais, tanto políticos como militares ou econômicos, para solucionar a atual

situação.”

Essas manifestações – formuladas depois da reunião dos embaixadores árabes

no Cairo para tratar do incidente do Sinai – abalaram muito especialmente os

militares israelenses do acampamento Eleazar. Prudentemente, porém, guardaram

silêncio, negando-se a fazer comentários. As medidas de segurança em torno de

nossa base e das instalações do funicular foram discretamente reforçadas. Notícias

procedentes de Damasco – onde se haviam reunido guerrilheiros palestinos, sob a

presidência de Yasser Arafat, líder da OLP (Organização para a Libertação da

Palestina) – advertiam para um iminente recrudescimento dos atentados terroristas

contra Israel, “em todo o mundo e em todos os níveis”.

Naquela tarde, a pedido dos israelenses, haveria no acampamento uma reunião

secreta e urgente, com a participação de nossos diretores, na qualidade de

representantes de Curtiss. No dia seguinte, os homens teriam ocasião de conhecer

e experimentar algumas das “medidas especiais” adotadas por nossos superiores...

 

Ao fim da reunião, a tenda que abrigava o rádio conheceu uma inusitada

atividade. Os oficiais israelenses entravam e saíam distribuindo ordens ao pessoal

subordinado. Ao cabo de uma daquelas sigilosas comunicações com a estação da plataforma-base do funicular, a grua e os tratores começaram a ser desmontados a

grande velocidade. Pelas 10 horas da noite, o eco do motor de um helicóptero,

golpeando como uma gigantesca massa a escarpa oeste da Massada, tirou-nos dos

albergues. Poucos minutos depois, outro poderoso Sikorsky (S-64) fazia uma

manobra estacionária a 3 metros do topo. E ali permaneceu, sem tocar em terra,

até que o contêiner, com o material desmontado, fosse adequadamente acoplado

ao seu bojo. Depois se alçaria e desapareceria como uma sombra, recortando-se

entre as estrelas.

De acordo com o Estado-Maior israelense, as ruínas arqueológicas da montanha

foram definitivamente abertas ao público na manhã da quarta-feira, 28 de

fevereiro. O tempo havia melhorado nos últimos dias e, por expressa

recomendação do Mossad, era conveniente não levantar suspeitas, o que ocorreria

se continuasse fechado o acesso ao topo. Se, como se esperava, as ações

guerrilheiras voltassem a multiplicar-se, uma parcial “normalidade” na Massada

poderia ser uma excelente fórmula para desviar a atenção dos palestinos. A

presença de turistas, ainda que escassos, comportava também alguns riscos; mas a

Inteligência israelense e os militares do acampamento Eleazar souberam resolver

as coisas satisfatoriamente. Desde aquela mesma manhã tudo retomou seu ritmo

normal, tanto no funicular quanto nas ruínas do setor norte. Os soldados

“desapareceram”, e diante do portão da paliçada foi erguido um grande painel em

que se lia, em inglês e em hebraico:

 

OBRAS DE RESTAURAÇÃO DA CIDADELA OCIDENTAL

UNIVERSIDADE HEBRÉIA DE JERUSALÉM

SOCIEDADE DE EXPLORAÇÃO DA TERRA SANTA

DEPARTAMENTO DE ANTIGUIDADE DO GOVERNO DE ISRAEL

– PROIBIDA A PASSAGEM –

 

Nem é preciso dizer que aquele “proibida a passagem” era praticamente ocioso.

O único acesso ao triângulo sul era por aquele portão. E este, desde o amanhecer

daquela quarta-feira, estava, já, permanentemente vigiado por dois israelenses

cuja missão básica era identificar quantos entrassem ou saíssem. Na reunião

secreta do dia anterior, nossos diretores e os oficiais israelenses se haviam posto

de acordo, entre outras questões, em que se estabelecessem rigorosos turnos de

vigilância interna e externa do acampamento, assim como em que se criasse um

curioso sistema de contra-senha. Explico-me. Cada dia – enquanto durasse a

operação – o chefe da segurança receberia do Estado-Maior, em código, um nome.

Esta palavra era transmitida pelo rádio à meia-noite e valia por 24 horas. A idéia

deve ter sido obra de alguém que conhecia bem os pormenores das anteriores

escavações arqueológicas de Yadin. Ao longo desses trabalhos, os membros da

expedição – creio que um dos voluntários, domador de elefantes em sua vida

normal – encontraram entre as ruínas62 onze pequenos e estranhos “ostraca” ou

artefatos de olaria com inscrições que na Antiguidade constituíam material comum

e habitual de escrita. (Convém recordar que o papiro e o pergaminho eram muito caros.) Pois bem, nesses onze “ostraca” – diferentes das setecentas inscrições

achadas na Massada – apareciam vários nomes, nenhum igual ao outro, ainda que,

aparentemente, escritos por uma mesma mão.63 Eram vocábulos estranhos. Algo

como apelidos ou codinomes. Por exemplo “Joav” ou “Joab” (nome pouco freqüente

na época do Segundo Templo e que significava “homem especialmente valoroso”).

Outro dos nomes era o mítico Ben Yair, que, seguramente, se referia ao caudilho

zelote: Eleazar Ben Yair.

As contra-senhas usadas naqueles dias basearam-se, todas, nesses nomes. De

acordo com as necessidades do acampamento, cada pessoa que o deixava recebia

o santo e a senha do dia. Apenas o chefe da segurança e os guardiões do portão

estavam a par do nome. Qualquer (improvável) tentativa de penetração de um

estranho à operação estaria condenada ao fracasso.

Além dessa medida, os israelenses designaram, dentre seus homens liberados

do serviço na “piscina”, um turno permanente de dez vigilantes, responsáveis pela

segurança geral do acampamento. Nós, os americanos, de acordo com os planos do

Exército, ficamos de fora dessa ingrata missão. Ainda que o acesso ao topo da

Massada pelas encostas oriental e ocidental fosse quase impraticável, os

israelenses estabeleceram seis pontos de observação (três em cada uma das

vertentes citadas), estrategicamente distribuídos no interior da casamata. Com

semelhante manobra, os trabalhos na meseta viram-se contínua e perfeitamente

protegidos.

“Demasiado protegidos”, deploramos, nós os homens do Cavalo de Tróia, ao

prever que aquele férreo controle do acampamento só nos poderia trazer

transtornos nos momentos decisivos da decolagem do “berço”.

Só que Curtiss não era fácil de vencer...

 

A rotina era quase um milagre com aquele homem. Uma vez mais ele nos

surpreenderia a todos. Às 12 horas da quarta-feira, 28 de fevereiro, quando o

primeiro turno de trabalho – no qual eu estava incluído – deu por terminada sua

missão na “piscina”, um sorridente e familiar rosto nos aguardava no alto da

pequena escada de acesso ao fosso.

Curtiss!

O General havia regressado tão inesperadamente como se fora. E, como era de

seu costume, não deu grandes explicações, ao menos nas primeiras horas de sua

nova estada no acampamento. O pessoal de folga o rodeou e assediou com mil

perguntas, mas ele, impenetrável, limitou-se a perguntar pela marcha da

montagem da estação. A verdade é que, impelidos pelos acontecimentos do Sinai e

o agravamento da situação internacional, os oficiais israelenses haviam imprimido

um ritmo acelerado às tarefas de montagem. Era evidente que pressentiam alguma

coisa e desejavam concluir a Operação Eleazar em tempo recorde.

Eliseu, os diretores e eu quase não trocávamos palavras com o General.

Bastou-nos atentar para seus olhos para compreender que ocultava “algo”

especialmente grave. Decidimos esperar. Se o desejasse, não tardaria a abrir-se conosco.

E assim foi, de fato. Terminado o almoço, com a desculpa de mostrar-lhe

Charlie e as admiráveis instalações levadas a cabo no reservatório subterrâneo, os

diretores, meu irmão e eu tivemos oportunidade de conhecer esse “algo”. Com

franqueza, hesitei no momento de narrar esta parte da operação. Transcorridos

cinco anos, será que beneficia alguém o conhecimento do que aconteceu naqueles

primeiros meses de 1973? Talvez não. Do que estou seguro – razão que

definitivamente me impeliu a relatá-lo – é de que o mundo tem direito a saber

como e até que extremos é manipulado secretamente pelas grandes potências.

Meu Deus, como estamos cegos! Ignoramos tudo que se trama nos escritórios dos

políticos e militares; e o pior é que muitas dessas “manobras” e “operações”

confidenciais – como no caso que me disponho a expor – têm conduzido e

continuarão a conduzir à morte, à ruína e ao caos milhões de inocentes...

Sirva, pois, de exemplo o que vou dizer.

O general Curtiss explicou-nos como foi chamado pelo próprio Kissinger. No

mesmo dia de sua chegada a Nova York – 25, domingo – o então conselheiro do

presidente Nixon o atendera em seu apartamento de luxo do Hotel Waldorf Astoria.

Dentro do mais estrito segredo, Curtiss receberia duas informações que justificaram

de sobra seu precipitado chamado aos Estados Unidos. E que, certamente, o

fizeram tremer...

A primeira referia-se à derrubada do Boeing 727 líbio no coração da península

do Sinai. Todos – já o manifestei anteriormente – havíamos intuído que aquele

acontecimento obedecia a “razões especialmente graves”. Não era normal que a

Força Aérea israelense se dedicasse a metralhar aviões civis, e de passageiros, em

pleno vôo... Os agentes norte-americanos em Jerusalém e Tel Aviv – sempre em

estreita conexão com a Inteligência de Israel – haviam confirmado um ponto

decisivo que, obviamente, jamais seria admitido pelo governo de Golda Meir: no

momento do encontro entre os caças Phantom e o Boeing 727, este sobrevoava a

área de Refidim. Nesse ponto, àquela época, achava-se estacionada parte do

arsenal nuclear israelense. (Em outubro do mesmo ano de 1973, no transcurso das

primeiras e dramáticas horas da guerra do Yom Kippur – quando o Estado judeu

viu-se surpreendido pelos ataques sírio-egípcios –, o próprio Parlamento de Israel

chegou a cogitar da hipótese de utilizar uma de suas bombas atômicas sobre a

cidade de Damasco. Mas este tenebroso assunto nos afastaria demais do

verdadeiro objetivo deste diário.)64

A desobediência dos pilotos do avião líbio certamente crispou os nervos do

Estado-Maior israelense, que deu então a ordem de neutralizá-lo. O que nunca se

apurou – Kissinger, ao menos, parecia não o saber – é se o 727 chegou a registrar

informações à sua passagem por Refidim, ou se, como pensavam alguns setores do

Mossad, os planos secretos da base já viajavam no Boeing. Nesta hipótese, o

desvio do avião podia obedecer ao intuito de confirmar o que já tinham. De uma ou

de outra forma, a verdade é que o abate do 727 cortara pela raiz ambas as (verossímeis) possibilidades. (Deve-se recordar que as vítimas – incluídos os sete

sobreviventes – e os restos do aparelho foram controlados desde o primeiro

instante pelo Exército de Israel.)

Se isso era certo, o desacostumado silêncio do coronel Kadafi estava

justificado...

Segundo Kissinger, o incidente era suspeito demais para que se lhe colasse a

etiqueta de “casual” ou fosse atribuído a uma “infeliz audácia” dos líbios, inimigos

mortais de Israel. O Mossad estava especialmente preocupado com aquela invasão

aérea. Como haveriam obtido uma informação tão altamente secreta? Quem

estaria por trás dos medíocres serviços de espionagem da Líbia?

A resposta possível estava irremediavelmente vinculada à segunda informação

proporcionada pelo conselheiro presidencial a Curtiss. Uma informação que fez

empalidecer nosso chefe e nós com ele...

O bramido de Charlie era tal que Curtiss nos convidou a procurar um lugar mais

sossegado. Antes, porém, abrindo as páginas de um exemplar do New York Times,

exclamou, indicando determinada parte do jornal:

– Vejam isto! Mao também está aprendendo inglês!

Desconcertados pelo insólito comentário, precipitamo-nos sobre o jornal que

Curtiss tinha na mão. Na página 6, realmente, entre outras informações das

agências United Press e Associated Press, estava uma breve e discreta resenha de

uma entrevista gravada nos estúdios da NBC (National Broadcasting Company), em

Nova York. Os protagonistas: Henry Kissinger e a temida jornalista Barbara

Walters.

Sob a desculpa da recente viagem de Kissinger à China e de sua entrevista com

Mao Tsé-tung, Barbara havia inquirido o conselheiro presidencial acerca do inglês

do líder chinês.

– Leiam, leiam! – animou-nos Curtiss. – É um diálogo que não devemos

esquecer!

Olhamo-nos com estranheza. Que queria dizer? Por que não devíamos

“esquecer” semelhante trivialidade?

Referindo-se a um comentário anterior de Kissinger – no qual afirmava que Mao

“usava algumas frases em inglês” –, a jornalista fizera a seguinte pergunta:

“– Podia dizer-nos quais?

“– ‘Sente-se, por favor’ – respondia Kissinger.

“– Isso é mais do que o senhor pode dizer em chinês...

“– Assim é, realmente.”

Alguém do grupo quis saber de Curtiss qual seria o interesse de tão

intranscendente diálogo. O chefe, depois de um pigarro simulado, lançou um olhar

furtivo aos técnicos de manutenção do gerador. Continuavam distantes e alheios à

nossa conversação.

– Apenas – sentenciou enfaticamente –, não o esqueçam. Pode ser-nos útil na

fase “vermelha”.

Obedecemos e nos calamos. Ao cabo de minutos, quando já havíamos

memorizado o diálogo, o General tornou a folhear o jornal e nos mostrou outra

“surpresa”. Sobre toda a página dedicada à habitual seção de Business-Finance

havia sido colada uma folha de papel mecanografada e com um cabeçalho que, a

princípio, não nos disse grande coisa:

“O RAPTO DE EUROPA”.

Pelo pouco que pudemos ler, aquele documento – tão destramente camuflado –

falava de um plano secreto entre a União Soviética e nosso país, os Estados

Unidos. O fato, porém, é que quase não tivemos tempo de passar do primeiro

parágrafo. Quando Curtiss calculou que havia captado nossa atenção, fechou o

jornal e nos deixou em suspense. Galgamos os degraus de pedra e, uma vez no

acampamento, o rosto do General sofreu uma drástica transformação. Dias depois,

com a chegada dos novos equipamentos, seus olhos voltariam a obscurecer-se com

a mesma amargura.

O Sol começava a tingir de violeta o horizonte do deserto. Sem pressa,

simulando um passeio, fomo-nos aproximando da metade oriental da paliçada. Ali,

após nos sentarmos sobre os sacos de terra, a prudente distância dos israelenses,

tivemos conhecimento do mais sujo e inumano projeto que qualquer mente poderia

imaginar.

Curtiss abriu de novo o jornal e, com voz baixa e insegura, leu-nos aquele

documento: a segunda informação – altamente confidencial – transmitida por

Kissinger.

Em síntese – porque a exposição detalhada do plano poderia ocupar muitas

páginas e não é esse o meu verdadeiro objetivo – estávamos diante de um acordo

secreto dos dois grandes – União Soviética e Estados Unidos – para provocar a

destruição moral e econômica de dois perigosos “rivais” no concerto mundial:

Europa e Japão. Esses dois blocos estavam colocando em sério risco os programas

econômicos e expansionistas de soviéticos e norte-americanos. Pois bem, semanas

antes, Moscou e Washington haviam traçado o chamado Rapto de Europa: título

em código65 de uma diabólica manobra. Tanto o corrupto Nixon quanto o frio e

impiedoso Brezhnev sabiam que a fórmula mais eficaz para lograr seus propósitos

era a utilização de uma nova e infalível arma: o petróleo. Se a Europa e o império

nipônico vissem cortados seus suprimentos de óleo, suas economias sofreriam

violentamente. Mas como consegui-lo? Como fazer para que os poços petrolíferos

do Oriente Médio – principais “torneiras” de alimentação da pujança do mundo

ocidental – fossem fechados? E, sobretudo, como conseguir que nenhum dos

“inspiradores” do macabro projeto fosse descoberto ou envolvido diretamente?

Não é preciso dizer que semelhante plano somente era conhecido pelos muito

chegados a Nixon e Brezhnev.

A Operação Rapto de Europa implicava uma sinistra solução: uma quarta guerra

no Oriente Médio. Um plano tão simples quanto impiedoso.

– Para isso – prosseguiu o General –, sempre de comum acordo, os “grandes” deviam manipular todos os processos a seu alcance para “estimular e dirigir os

maltratados sentimentos patrióticos dos árabes contra o sempre odiado vencedor:

Israel”.

Essa guerra havia sido meticulosamente planejada pelo Kremlin e pelo

Pentágono. O documento estabelecia, também, as possíveis datas para o conflito,

sua duração máxima, países que deveriam enfrentar o Exército israelense, táticas a

seguir, limites nos apoios logísticos e de material por parte dos Estados Unidos e

União Soviética e seus respectivos “aliados” e até o número de baixas estimado

nas hostilidades...66

Entre os métodos a adotar para “elevar a temperatura da pré-guerra” na zona,

o Rapto de Europa especificava uma série de gradativas mobilizações dos Exércitos

árabes (desde janeiro de 1973 o Egito mobilizaria suas reservas em vinte ocasiões,

intensas campanhas terroristas,67 intoxicação da opinião pública mundial contra

Israel, com a difusão de emissões de rádio que indicassem a iminência de um

ataque dos israelenses em qualquer de suas fronteiras, falsas pistas e comunicados

à imprensa estrangeira em relação ao “deficiente material bélico dos árabes”68 e

um pormenorizado et cetera que contribuiu para aumentar nossa vergonha...

A operação concluía com uma não menos exaustiva análise das posições

políticas e econômicas dos países europeus e do Japão, com respeito a árabes e

judeus, e das “quase certas” conseqüências da projetada quarta guerra.

Conseqüências – como fatalmente sucederia – que trariam divisão entre os povos e

o sombrio colapso das economias. (Nem a União Soviética, nem os Estados Unidos

dependiam do petróleo árabe.) No caso do império nipônico, por exemplo, seu

consumo de petróleo desde 1971 representava uns 8% de toda a produção

mundial. Desse percentual, 75% procediam dos poços do Oriente Médio...

O ardil, em suma, era perfeito. No fundo, o resultado da contenda – “pré-

traçado” por Washington e Moscou – era pouco importante. A chave da sinistra

operação era outra: forçar o mundo muçulmano a cortar ou reduzir o

abastecimento do petróleo. O fantasma de alta dos preços do petróleo fazia tempo

que pairava sobre os países industrializados. Com esta “criminosa jogada” a Europa

e o Japão ver-se-iam forçados a tomar posição, ou a favor do dinheiro judeu ou do

fluxo (vital) do óleo árabe. A neutralidade diante da guerra era quase impensável.

Até porque nem uns nem outros a perdoariam.

A sorte do Japão e da Europa estava lançada. (Basta analisar os meses que se

seguiram à guerra do Yom Kippur para perceber a extensão do diabólico plano.69

Um projeto que ninguém se atreveu a revelar até hoje.)

Era grotesco. Sentados sobre uns prosaicos sacos de terra, acabávamos de

conhecer um dos segredos mais zelosamente guardados. O mais paradoxal, porém,

é que ali estávamos nós, americanos, no alto da Massada, em pleno coração de

Israel, colaborando na montagem de uma estação receptora de imagens com fins

de espionagem, ao mesmo tempo que nosso governo se declarava “amigo” dos

judeus, forjava e consentia em uma guerra contra o seu aliado... Não era para enlouquecer?

Na opinião de Curtiss, a derrubada do Boeing líbio fazia parte da campanha

orquestrada pelo plano Rapto de Europa para instigar e promover o ódio

generalizado aos israelenses, assim contribuindo para a deterioração crescente da

atmosfera política no Oriente Médio. Nesta linha, Kissinger lhe havia “insinuado”

que, segundo seu Serviço de Inteligência, a informação sobre o arsenal nuclear de

Refidim havia sido fornecida à Líbia por uma típica e tortuosa via que não inspirava

suspeitas aos receptores de alto segredo. A sibilina operação foi ativada no final de

1972 pelo GRU,70 serviço secreto soviético, com prévio conhecimento e

consentimento da CIA. Os agentes russos expulsos do Egito em julho de 1972 pelo

presidente Sadat se haviam apoderado de preciosos e precisos detalhes acerca da

localização e natureza das bombas atômicas israelenses. O Mukhabarat el

Kharbeiyah (serviço de espionagem do Cairo) havia pressionado os assessores

soviéticos para que lhes transmitissem o que sabiam sobre tão apetitoso assunto.

Mas Moscou negou-se enfaticamente. Como costuma suceder no tenebroso mundo

dos serviços de informação, os egípcios, contrariados, não tiveram escrúpulo em

colocar nesse campo os cada vez mais numerosos homens da CIA em terras

egípcias. Em compensação, a Inteligência americana proporcionou-lhes informes71

de “segunda categoria” e outros, “altamente secretos”... e falsos.

O caso é que quando os russos abandonaram o país os serviços egípcios de

espionagem – e, quase simultaneamente, os norte-americanos – tiveram muitas

surpresas. Uma delas, por sinal, especialmente grave. Durante sua estada no Egito,

os agentes do Departamento de Tecnologia e Investigação do Ministério da Defesa

da União Soviética haviam efetuado provas de guerra bacteriológica no interior das

pirâmides...

Aquilo foi uma comoção para a CIA. Pelo que Kissinger relatou a Curtiss, as

surpreendentes alterações de radiação dentro das pirâmides favoreciam ao

extremo o desenvolvimento de determinadas bactérias, altamente letais. Os

egípcios não souberam o que fazer com aquela perigosa informação. Mas a CIA,

sim.

Naquele mesmo verão de 1972, representantes da KBG soviética e da CIA

acertaram uma entrevista em terreno neutro: Paris. Ali, uns e outros confirmaram a

veracidade de suas respectivas suspeitas: os norte-americanos sabiam das

atividades russas nas pirâmides e Moscou, por sua vez, do arsenal atômico

israelense e da assistência técnica de Washington ao arsenal. E, como em ocasiões

precedentes, estabeleceram um pacto: cada parte arquivaria o que havia

descoberto em relação à outra. Ambos os lados tinham muito que perder e, por

isso mesmo, o arranjo foi rápido e simples.

Todavia, ao nascer o projeto Rapto de Europa, russos e norte-americanos

entrariam em acordo e decidiriam utilizar parte daquela informação em benefício

mútuo.

Era um segredo de polichinelo que a França vinha fornecendo armamento – em especial aviões Mirage – a diferentes países árabes. Um dos clientes era a Líbia.

Pois bem, Washington e Moscou estenderam sua teia preparando uma sutil

tramóia.

Quase ao final desse ano de 1972, três agentes soviéticos na França – Alexei

Krojin, V. Romanov e Victor Volodin 72 – receberam de seus superiores um dossiê

“altamente secreto”, com a missão específica de que o deixassem cair em mãos

francesas. Tratava-se de uma detalhada e fiel informação sobre a possível base

nuclear de Refidin (Sinai). Um daqueles agentes russos havia organizado uma rede

de espionagem dentro da polícia política francesa. A “filtragem” do dossiê,

portanto, não foi laboriosa. O que as autoridades gaulesas ignoravam,

naturalmente, é que – paralelamente – Kadafi havia recebido dos próprios russos

algumas “insinuações”, dando-lhe a entender que Paris dispunha de uma preciosa

informação sobre o arsenal atômico de Israel. Em suas conversas com o coronel

líbio, os astutos soviéticos o aconselharam a pagar as altas cifras exigidas pela

França pelos Mirage, “sempre e quando – em justa compensação – os franceses

fizessem acompanhar os caças do valioso dossiê”. O temperamental Kadafi mordeu

a isca, esfregando as mãos diante da magnífica possibilidade de obter um segredo

que beneficiaria seus irmãos árabes. A ambiciosa França cedeu finalmente às

pretensões da Líbia, fechando a venda de 28 aviões Mirage.73 Em princípios de

1973, o documento em questão era transferido ao chefe da revolução líbia.

O resto da truculenta história é fácil de imaginar. Com uma mais que notável

torpeza, Kadafi instruiu os pilotos do Boeing 727 a confirmarem a informação que

chegara ao seu poder. O resultado final – de todos conhecido – “elevou a tensão no

Oriente Médio”, precisamente como desejavam os “pais da Operação Rapto de

Europa”...

Quando Curtiss finalizou sua minuciosa e dramática exposição, um silêncio de

morte caiu sobre nós.

Não era preciso que o General nos recordasse o caráter “absolutamente

confidencial” do monstruoso plano, nem tampouco o grave risco que correriam as

vidas de todos nós, na hipótese de que alguém se decidisse a prevenir os

israelenses ou os árabes. Simplesmente, estávamos prisioneiros da gigantesca

envergadura do próprio segredo.

Alguém, por fim, decidiu-se a fazer um comentário, lamentando que um

presidente dos Estados Unidos fosse capaz de participar de semelhante aberração.

E Curtiss, com as pupilas fatigadas, limitou-se a responder com umas expressões

que se revelariam proféticas:

– Nixon pagará por isto... Watergate será seu verdugo...

Antes de nos recolhermos às tendas, o General fez um último esforço,

aconselhando-nos a esquecer e a nos entregar à nossa verdadeira e secreta missão

de paz. Kissinger, ao perguntar, interessado, pelos preparativos do Cavalo de Tróia

para a “segunda grande viagem”, o havia animado a executá-la “o mais

rapidamente possível”. Se o plano de Moscou e Washington prosperasse, não haveria outras oportunidades. A enlouquecida parafernália da guerra estava em

marcha. Era preciso, portanto, agir com cautela e diligência.

 

Na manhã seguinte, quinta-feira, 1o de março, durante a sobremesa, Bahat, o

supervisor, mais excitado do que nunca, meteu-se em uma acre polêmica com

outros militares israelenses. O motivo não era outro senão a repentina visita a

Moscou do ministro da Guerra do Egito. O general Ahmed Ismail Ali, acompanhado

de representantes de todas as armas de seu país, havia iniciado na capital

soviética uma suspeita rodada de conversações do mais alto nível. Ainda que essa

conferência egípcio-soviética estivesse envolta em impenetrável segredo, o fato de

Ismail Ali haver voado em avião especial e ser escoltado por altos oficiais de todas

as armas egípcias infundiu em Israel um especial receio. Para alguns dos técnicos

que polemizavam com Bahat, estávamos diante de uma perigosa fase de

rearmamento egípcio. O supervisor, por sua vez, foi mais longe: “Aquela súbita

reaproximação entre Cairo e Moscou” – advertiu com tanta veemência quanto

razão – “só podia ser o prelúdio da guerra.”

Curtiss, em silêncio, deixava-os falar. Ao ouvir a palavra “guerra”, dirigiu-nos

um olhar eloqüente, dando-nos a entender que as apreciações de Bahat não eram

despropositadas. Aqueles cinco dias de entrevistas na União Soviética não tinham

outra finalidade senão a de colocar os egípcios “a par de alguns dos capítulos

essenciais do sinistro plano concebido por Washington e Moscou”. Naturalmente,

durante as cinco horas que durou a reunião entre Ismail e Brezhnev, o premier

russo teve o especial cuidado de não levantar suspeitas entre seus “amigos”, os

egípcios, quanto aos verdadeiros objetivos e inspirações do projeto Rapto de

Europa. Quando os enviados de Sadat regressaram ao Cairo, a quarta guerra se

convertera em algo irreversível...

Aquele indisfarçável sentimento de perigo – paradoxos do destino! –

beneficiaria nossos planos secretos. Israel, desconfiado sempre, ativou suas

defesas e redes de informação até limites insuspeitos. E uma das recomendações

do Estado-Maior israelense, por sinal, afetou-nos em cheio: “A estação receptora de

fotografias tinha prioridade absoluta. Não se devia poupar homens nem meios para

pô-la a funcionar com fulminante rapidez”.

E os técnicos e militares israelenses – e nós com eles – se lançaram a um

esgotante esforço. A estação – essa foi a ordem – deveria iniciar suas primeiras

recepções de imagens em 1o de abril. Isso nos dava uma escassa margem de

tempo e, conseqüentemente, novas preocupações. A mais grave, pelo menos no

momento, era o combustível do “berço”. Nem os diretores do programa, nem Eliseu

nem eu tínhamos a mais leve idéia de como e quando podia ele chegar até o alto

da Massada. Certamente nossas notícias a respeito da “vara de Moisés” eram

igualmente nulas. Mas alguma coisa havíamos aprendido naquela apaixonante

aventura: a confiar em Curtiss. Assim, no decurso da primeira semana de março,

ainda que essas interrogações estivessem nas mentes de todos, ninguém mostrou

inquietação alguma. Simplesmente trabalhamos duro e esperamos...

Naquela quinta-feira, ao sabermos do assalto à Embaixada da Arábia Saudita

em Cartum, no Sudão, por parte dos guerrilheiros do Setembro Negro, o

acampamento sentiu um novo abalo. As ações terroristas, como previa o Mossad,

seguiam sua inelutável espiral, favorecendo, assim, as diabólicas maquinações do

Rapto de Europa.

Por fim, ao meio-dia do sábado, 3 de março, nosso chefe decidiu-se a falar.

Continuar: parte 5 de 9