Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 2 de 10 · parte 5/9

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Cavalo de Tróia 2: Massada

O diário ⠀猀攀最甀渀搀愀 瀀愀爀琀攀)

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

Depois de usarmos a contra-senha do dia “Yehohanan” (João) –, cruzamos o portão

de saída e nos juntamos, como turistas, aos escassos visitantes das ruínas. O

General, os diretores, meu irmão e eu comunicamos a Yefet que desejávamos

estirar as pernas e estaríamos de volta no último horário do funicular. A tensão e o

esforço daqueles dias haviam sido tais que os israelenses o compreenderam e não

opuseram resistência ao que supunham um irrelevante e inofensivo passeio pelo

chamado “caminho das víboras”.

De ânimo bem disposto, deixamos para trás o cume e iniciamos uma

compassada descida pelo coleante caminho da face oriental da Massada.

A uns 100 metros do topo, Curtiss deteve-se. Sentou-se à beira da vereda e,

baixando a cabeça, começou a desenhar estranhos signos na amarelenta e

calcinada terra. Seu espírito parecia mais tranqüilo do que nos dias anteriores.

Passados alguns momentos, presa de uma contagiosa excitação, deu-nos a

conhecer seus planos imediatos:

– Dada a celeridade com que decorrem os trabalhos no acampamento Eleazar,

é mais do que provável que na próxima segunda ou terça-feira nos vejamos

forçados a iniciar a fase secreta da montagem da estação. Nesse momento –

continuou, com sua borbulhante euforia – ativaremos a última etapa do nosso

plano: a “vermelha”. Como sabem, os israelenses deverão desalojar a “piscina”...

O General fez uma pausa, como que buscando as palavras e o tom adequados

ao que pretendia comunicar-nos.

– ... Sei qual será a resposta dos senhores – continuou, enquanto apontava

para o alto da Massada –, mas minha obrigação é perguntar-lhes. Estão os homens

do Cavalo de Tróia em condições de assumir um novo e considerável esforço?

– De que tipo? – foi nossa obrigatória pergunta.

– É preciso que o módulo esteja pronto para o começo da noite de 9 de março,

sexta-feira...

Olhamo-nos em silêncio. Supondo que, efetivamente, a fase secreta da

montagem arrancasse na segunda ou na terça, isso significava uma margem de

três ou quatro dias...

Alguns diretores moveram a cabeça, manifestando suas dúvidas...

– Para quando está previsto o lançamento? – interveio Eliseu com seu

costumeiro pragmatismo.

– Para essa mesma noite de 9 – respondeu o General sem rodeios –, se é que

seremos capazes de colocar o “berço” no centro do fosso...

Creio que nenhum de nós punha em dúvida a eficiência e a dedicação daquela meia centena de especialistas que nos acompanhava desde o princípio da missão.

O que nos inquietava – isso mesmo dissemos a Curtiss – era a falta de notícias do

combustível, da “vara de Moisés” e do resto dos equipamentos projetados para a

segunda exploração. Além disso, as reservas de hélio – vitais para o funcionamento

dos amplificadores maser74 – também não haviam chegado ao alto da Massada. O

General, como nós, sabia que sem os botijões de gás os trabalhos eram inviáveis.

Mas o chefe do Cavalo de Tróia, como o fizera em ocasiões anteriores ao lhe

manifestarmos estas mesmas apreensões, não se alterou. Evidentemente, o que o

preocupava naquele momento era saber se podia contar ou não com o supremo

esforço que solicitava de nossos homens. Quando, por fim, arriscando-nos a

assumir o sentimento da maioria, lhe asseguramos que o “berço” estaria pronto no

lugar e no momento desejados, Curtiss aliviou a ansiedade geral anunciando-nos

que, segundo os planos, tanto o hélio quanto o combustível para o módulo estavam

a caminho. Ambos chegariam ao acampamento na noite seguinte, domingo...

simultaneamente.

Na previsão de uma possível sabotagem palestina, o fornecimento de hélio à

estação receptora havia sido planejado – seguindo as recomendações do Serviço

de Informação Militar israelense – por dupla via. Excetuadas, obviamente, as

jazidas russas, o resto das reservas naturais desse gás nobre está localizado no

Canadá, na Polônia e em meu próprio país: Estados Unidos. Esta circunstância e o

fato de os Estados Unidos monopolizarem sua extração, manipulação e distribuição

por meio mundo nos proporcionaram uma estimável vantagem. O abastecimento

estava garantido, tanto em volume como em periodicidade.

Quanto à dupla via de suprimento à Massada, judeus e norte-americanos

haviam estabelecido duas pontes aéreas: uma, desde a Polônia e outra, desde os

Estados Unidos. Aviões cargueiros, especializados nesse tipo de transporte, deviam

aterrissar em Israel no curso das primeiras horas do domingo, 4 de março. Mas um

suspeito acidente de aviação, ocorrido na noite de 25 de fevereiro, forçou a

mudança de parte dos planos e o sacrifício de uma das pontes: a polonesa.

Nessa noite de quarta-feira última, segundo as informações recebidas por

Curtiss por volta das 23 horas, um aparelho da força aérea polonesa, tipo AN-24, se

havia acidentado a uns 6 quilômetros do aeroporto de Varsóvia. Ainda que a

visibilidade fosse boa, o aparelho incendiou-se em pleno vôo, perecendo seus

quinze ocupantes. Procedia de Golenion, perto do porto de Sczcecin, no mar

Báltico. O Mossad não descartava a hipótese de um atentado. O governo polonês

havia sido previamente notificado do plano de transportar um determinado

carregamento de hélio para Israel com fins puramente “industriais”: como gás

portador para cromatografia – e, “casualmente”, a pessoa que estava a par da tal

operação comercial, o ministro polonês do Interior, Wieslaw Ocieka, viajava no

avião acidentado... Como medida de segurança, o Estado-Maior israelense optou

por suprimir a fonte polonesa. O abastecimento, portanto, viria unicamente das

jazidas dos Estados Unidos.

O resto do passeio até a plataforma-base do funicular transcorreu em animada

conversa. O General havia conseguido infundir-nos seu entusiasmo. Quase sem dar-

nos conta estávamos a ponto de iniciar a “contagem regressiva” da ansiada

“segunda aventura”. Não imaginávamos, naquele instante, que, dois dias mais

tarde, nossas esperanças sofreriam um duro revés...

 

A ordem de Curtiss foi recebida com euforia pela gente do Cavalo de Tróia: “A

descida dos frascos de hélio ao fundo da “piscina” assinalaria o início da fase

“vermelha”. E todos nós nos preparamos para o grande momento.

No dia seguinte, domingo, com a chegada da noite, um resplendor

avermelhado e cintilante e o estralejar de motores nos advertiram da aproximação

dos poderosos S-64. Os dois primeiros helicópteros-grua depositaram no cume da

Massada um total de 360 bujões de heliogás (N-60). Duas horas mais tarde, outra

parelha ultimava o transporte com uma carga similar. No total, 720 botijões de 9,3

metros cúbicos cada um. Reserva mais do que suficiente para garantir o

funcionamento permanente (24 horas por dia) do criogênio durante 30 dias.75 O

que não podiam os israelenses suspeitar era que, confundidas entre os bujões de

aço de 1,60 metro de altura e 68 quilos de peso cada um, se achavam também

outras “garrafas” – idênticas na forma – mas com um conteúdo muito diferente: o

combustível para o “berço”!76 Segundo as explicações do General, a direção do

Cavalo de Tróia, levando em conta a maior duração do tempo de vôo do módulo

neste novo “salto”, havia modificado o tipo de carburante, substituindo o peróxido

de hidrogênio por uma mistura mais segura e potente. Existia, ademais, outra

razão: o forte caráter oxidante do H2O2 desaconselhava seu transporte por via

aérea. Na Mesquita da Ascensão, ainda que a manobra para a introdução do

combustível houvesse sido praticamente a mesma (confundido entre o heliogás), o

Cavalo de Tróia não havia tido necessidade de enfrentar, como agora, um

transporte por via aérea.

O que importava, em todo caso, era que o carburante – vital para nossos

propósitos – estava já no acampamento Eleazar.

Como proprietários e únicos responsáveis pela montagem dos maser, a

manipulação do hélio N-60 foi dirigida e executada pelo grupo norte-americano.

Isso era o pactuado. Os israelenses, respeitosos, deixaram-nos agir. Durante essa

noite, debaixo da atenta vigilância do General, baixamos os 720 botijões até o

fundo da “piscina” e os depositamos cuidadosamente, em posição horizontal, no

recinto de 20 por 2 metros destinado ao armazenamento.

Ao alvorecer da segunda-feira, 5 de março, quando as nove fileiras de 80

bujões cada uma estavam dispostas, Curtiss anunciou a Yefet e aos demais oficiais

que estávamos prontos para iniciar a fase secreta da montagem da estação.

Assim deu-se começo à última etapa que precederia o lançamento do módulo.

Mas os “problemas”, como passarei a contar, não haviam acabado.

 

A equipe diretora do Cavalo de Tróia soube conjugar nossas autênticas necessidades com as dos israelenses. No protocolo prévio, Curtiss havia

estabelecido, entre outras condições, um tempo máximo de duas semanas para a

completa montagem do instrumental “secreto”. Durante esse período – tido como

aceitável pelo Estado-Maior israelense – a presença de técnicos e militares judeus

no acampamento Eleazar ver-se-ia reduzida consideravelmente. Apenas uma

mínima parte dos cinqüenta homens permaneceria no cume e, naturalmente, sem

possibilidade de acesso ao interior da estação. Foram mantidos os serviços de

vigilância, cozinha e supervisão de Charlie e do tanque de armazenamento de

gasóleo. Yefet, como chefe do acampamento, foi o único oficial autorizado a

continuar na meseta, responsável que era pelas comunicações.

Naquela manhã de segunda-feira, 34 israelenses abandonaram

temporariamente a Massada dispostos a desfrutar de um merecido descanso. Sua

volta foi fixada para terça-feira, 20 de março. Esta era, portanto, a margem de que

dispúnhamos para preparar o “berço” para o lançamento e posterior regresso. Se

não surgissem inconvenientes, a hora zero – vale dizer, a decolagem do módulo –

teria lugar na noite de sexta-feira, 9 de março. (Curtiss manteve em segredo a

hora exata até a manhã desse novo histórico dia.) De acordo com esses planos,

Eliseu e eu nos “ausentaríamos” por um período de dez dias. A missão deveria

estar concluída, improrrogavelmente, na madrugada de 19 para 20 do mesmo mês

de março. Todavia, como havia sugerido Eliseu em uma das múltiplas sessões de

trabalho do Cavalo de Tróia, nossa permanência real “no outro lado” não seria de

dez dias.

A manipulação dos swivels nos oferecia a oportunidade única de “viver” um

período indefinido (inicialmente fixado em 40 ou 50 dias), e voltar ao nosso

presente cronológico (1973) no instante desejado. Como também insinuei, a idéia

tropeçou a princípio com a resistência, lógica, de alguns dos diretores do projeto.

Não havia informação sobre as possíveis repercussões dessa extrema manipulação

do tempo no organismo humano. Era provável que nada sucedesse. Mas, com base

nessa mesma lógica, tampouco podíamos ignorar a hipótese contrária. O que era

certo, todavia, é que estávamos dispostos a levar a efeito uma experiência

singular: viver um “tempo” – biológico e cronológico – mais prolongado e

teoricamente dissociado do nosso “agora” real.

Apesar das compreensíveis dúvidas, a missão se afigurava tão fascinante, quer

do ponto de vista histórico, quer do científico, que os diretores terminaram por

ceder, assumindo, do mesmo modo que nós, o possível risco. Quem haveria

imaginado, àquela altura, que a genial idéia de Eliseu nos conduziria a uma

“terceira e maravilhosa” experiência... e à morte?

Os homens do Cavalo de Tróia, tal como supúnhamos, aceitaram

entusiasmados o novo desafio. Tínhamos quatro dias e algumas horas para colocar

o módulo no centro da “piscina” e lançá-lo. E às 12 horas daquela segunda-feira, 5

de março, com uma certa solenidade, o fecho hidráulico foi acionado, sepultando

no fosso meia centena de técnicos e engenheiros em estado de absoluta euforia.

Contra o desejo geral, Curtiss estabeleceu um rigoroso sistema de turnos de

trabalho. Não convinha nos arriscarmos a despertar suspeitas entre os israelenses

que nos acompanhavam lançando-nos – como queria a equipe – a um trabalho em

massa e sem pausa, todos nós, americanos, metidos todo o tempo debaixo da

terra. De outro lado, além do necessário descanso, os homens de folga deveriam

vigiar estreitamente os passos e a atitude de nossos “aliados”.

Como medida de precaução, a cobertura do fosso só seria retirada alguns

minutos antes do lançamento do “berço”. Até esse instante, as entradas e saídas

do pessoal se efetuariam pelas escotilhas de emergência, abertas no fecho do

fosso, precisamente no centro, junto aos lados oriental e ocidental do grande

retângulo, respectivamente. Dessa forma, nossas manipulações no interior da

estação ficariam a salvo de qualquer olhar indiscreto.

Enquanto os técnicos faziam a rápida desmontagem dos sete grandes cubos de

“pedras” alaranjados depositados no centro da “piscina”, Curtiss e outros

especialistas se ocuparam da exaustiva revisão dos botijões de hélio. Ainda que, à

primeira vista, todos fossem iguais, logo me dei conta do que diferenciava os que

continham o combustível. Em sua parte superior – na área da ogiva cor de tabaco –

havia uma etiqueta de contraste que, habitualmente, vem no corpo da peça. Junto

à indicação da pressão (200 bares) aparecia, igualmente, uma fórmula de falso

conteúdo.77

Era preciso conhecer-se bem o que constitui uma fórmula típica do hélio N-60

para detectar-se que um de seus componentes – o O2 – estava ligeiramente

alterado em sua proporção. Em lugar de 0,15 ppm, Cavalo de Tróia havia colocado

0,16. Esta ligeiríssima diferença no índice de oxigênio e a posição das etiquetas nas

cabeças dos bujões, bem junto às correspondentes torneiras, era a chave para

distinguir umas das outras.

Subitamente, porém, Eliseu e eu experimentamos uma profunda emoção. Ao

retirar os painéis de cor de laranja – que outra coisa não eram senão grossas

pranchas de aço, recobertas exteriormente por uma delgada placa de pedra

dolomítica – o módulo, a nossa querida nave, surgiu aos nossos olhos. E, ao

acariciar-lhe as peças, uma torrente de recordações e sensações invadiu-nos a

ambos...

 

Tudo correu normalmente até pouco depois daquela comunicação da

plataforma-base da estação do funicular. Pelas 4 horas da tarde de terça-feira, 6 de

março, Yefet anunciou ao General a chegada dos dois técnicos norte-americanos

que dias antes haviam voado para os Estados Unidos com os estojos blindados que,

oficialmente, continham “material de laboratório”. O regresso de nossos

companheiros com a “vara de Moisés” encheu-nos de alegria. Tudo parecia sair na

medida dos nossos desejos... Todavia, para Curtiss e para mim, essa satisfação

ver-se-ia ofuscada por uma das notícias que traziam os viajantes procedentes da

base de Edwards.

O próprio chefe do Cavalo de Tróia, acompanhado por alguns homens que no momento estavam de folga, saiu ao encontro dos recém-chegados, carregando

para o interior da “piscina” as urnas que continham as diferentes peças que deviam

integrar minha saudosa “vara” e dois volumosos arcazes de aço sobre os quais se

liam idênticos rótulos: “Frágil. Material de laboratório”.

Os responsáveis por esse transporte fizeram a entrega a Curtiss de dois

envelopes lacrados. Ali mesmo, diante da mal dissimulada curiosidade dos técnicos,

que se empenhavam na preparação do módulo, o General abriu um deles. Depois

de examinar os documentos, terminou por passá-los a um dos diretores. A

informação que ele recebera – à qual me referirei daqui a pouco – estava

relacionada com os novos equipamentos a serem instalados no “berço”. E incluía,

igualmente, uma série de instruções sobre as modificações introduzidas na “vara de

Moisés” e no meu equipamento pessoal. O novo instrumental achava-se nos baús

metálicos.

A leitura da segunda mensagem foi muito diferente. O General, surpreendido

pelas informações, empalideceu. Um dos documentos, em especial, devia conter

alguma coisa sumamente grave. Não satisfeito com uma primeira leitura, repassou-

a mais uma vez, enquanto um quase imperceptível tremor dos dedos o traiu.

Maquinalmente, estendeu a primeira mensagem a outro dos diretores, guardando a

que tão profundamente o havia impressionado. Então, com o semblante alterado,

procurou-me no meio dos homens e dirigiu-me um olhar significativo. Tive a

intuição, nesse instante, de que a informação dizia respeito a mim e,

presumivelmente, a meu irmão de expedição. Mas em que sentido? Por que se

alterara daquela forma o frio e veterano militar? A resposta, desoladora, chegaria

nessa mesma noite.

A partir desse momento, pretextando uma persistente dor de cabeça, nosso

chefe desapareceu do fosso. E, após solicitar permissão para deixar o

acampamento, perdeu-se na solidão das ruínas do setor norte da meseta. Era

evidente que necessitava meditar e – quem podia suspeitar no momento – tomar

uma decisão crítica.

Eliseu, alguns diretores e eu trocamos um olhar cheio de funestos presságios.

Mas as tarefas na estação seguiram o ritmo costumeiro.

Antes de nos recolhermos, Eliseu e eu fomos requisitados pela equipe de

diretores que nos mostrou um dos documentos: o conteúdo do segundo envelope.

Procedia do Centro Geológico do Colorado e era a resposta dos especialistas em

terremotos aos sismogramas obtidos no monte das Oliveiras no inesquecível dia 7

de abril do ano 30. Exatamente como presumia o Cavalo de Tróia, as análises

concluíam por uma “apreciável explosão subterrânea” como a explicação mais

verossímil do que aparecia nos registros digitais e analógicos. Naturalmente, os

sismólogos não haviam sido informados nem do lugar nem da data em que haviam

sido captados aqueles movimentos telúricos. Por essa razão, os especialistas em

sismologia – ainda que determinassem a magnitude dos abalos, a possível energia

liberada na suposta explosão e outros parâmetros complementares – insistiam na necessidade de conhecer, sobretudo, as coordenadas da estação sismográfica da

qual procediam os misteriosos sismogramas. Com esse dado e com a data exata

dos movimentos sísmicos – esquecimento qualificado de incompreensível pelos

experts do Colorado –, seria possível uma consulta à rede de estações mais

próxima, completando assim o estudo.78 Certamente a equipe do Cavalo de Tróia

jamais lhes proporcionaria os informes solicitados e supostamente “esquecidos”.

Para nós era mais do que suficiente a confirmação de que estávamos ante uma

série de tremores provocados por uma explosão e não por um terremoto comum e

habitual.79 À vista das ondas longitudinais – do tipo “P” –, muito claras, e das que

foram registradas a seguir – superficiais – menores e regulares, os sismólogos

haviam determinado a magnitude do segundo abalo entre 6,0 e 6,9, inclinando-se,

com certas reservas, para 6,5. A energia liberada para esta última magnitude

correspondia a 5,6 x 1021 érgios. Em outras palavras, uma detonação equivalente a

uns 125 quilotons, com uma intensidade, segundo a escala de Mercalli, de VII,

aproximadamente.80

Graças a uma conscienciosa análise dos tempos de chegada das ondas “P” e de

outros parâmetros mais complexos, Cavalo de Tróia tinha a certeza de que a

misteriosa “explosão” havia ocorrido a várias centenas de milhas a leste-sudeste de

Jerusalém. Talvez em alguns dos domos ou cúpulas salinas ou no interior de uma

cavidade natural, nos depósitos estratificados de sal dos desertos de Nefud ou de

Dahna. Esta verificação veio confirmar nossa idéia inicial: o terremoto descrito pelo

evangelista nos momentos que precederam a morte do Filho do Homem não foi

casual nem podia ter origem natural. Principalmente em uma zona, como Israel, de

baixo índice de ocorrências desse tipo. Aquele era um motivo a mais para

realizarmos nosso plano de “voltar”. Curtiss, os diretores e nós mesmos estávamos

de acordo em um ponto: uma prospecção na área da detonação podia lançar muita

luz sobre tão incrível fenômeno.

 

Parece que a irrupção de Eliseu em minha tenda foi providencial. Eram 9 da

noite e o General continuava sem dar sinais de vida. Preocupado, meu

companheiro animou-me a sair em sua busca. Não era normal que em plena fase

“vermelha” Curtiss se ausentasse durante tanto tempo.

A benigna temperatura daquela terça-feira e o reluzente firmamento da

Massada convidavam a passear. Assim, providos de lanternas e da contra-senha,

deixamos para trás a paliçada.

Em silêncio, e em uma crescente inquietude, como se pressentíssemos alguma

coisa, escolhemos o labirinto dos armazéns herodianos e rumamos para o palácio

do norte. Uma vez na “proa” do “porta-aviões” de pedra, distinguimos no mesmo

instante a escura silhueta do General. Encontrava-se reclinado sobre a balaustrada

semicircular que fecha o terraço superior.

Ao ouvir nossos passos voltou-se lentamente.

– Eu os esperava – exclamou com voz inflamada.

Uma familiar corrente de fogo – prelúdio infalível de situações graves ou comprometedoras – percorreu-me todo o corpo.

– Esperava-os – repetiu, já agora com um fio de voz. E, introduzindo a mão

direita em um dos bolsos do seu blusão de trabalho, mostrou-nos os documentos

que o haviam perturbado no fosso.

Nem Eliseu nem eu nos atrevemos a articular palavra alguma.

– Tenho más notícias – anunciou, por fim, com o rosto descomposto. – Esta

informação, absolutamente confidencial, vem de Edwards...

– E então?

A voz de meu irmão saiu cheia de impaciência.

– Se isso for certo, talvez tenhamos cometido um erro irreparável...

Visivelmente esgotado, Curtiss deteve-se de novo. Eliseu fez um gesto de

arrebatar-lhe da mão os papéis, mas eu o contive e pedi-lhe calma.

– Será melhor que, como médico, o leia e opine. – E me estendeu o papel.

Assim fiz. E, depois de uma atropelada leitura, também minha expressão foi de

perturbação.

Eliseu, sem pestanejar, esperava minha palavra.

– Bem – balbuciei sem demasiada convicção – ... Isso não parece definitivo...

– Pelo amor de Deus! – explodiu meu companheiro. – Que diabos está

acontecendo?

– Os rapazes de Mojave – comecei a explicar, buscando termos pouco

complicados – descobriram “algo” de anormal nas ratas de laboratório. “Algo” que,

a meu ver, guarda estreita relação com as experiências de inversão de massa dos

swivels. “Algo” que pode afetar também nossos cérebros...

Diante da expressão de incredulidade de Eliseu, optei por mostrar-lhe várias

das microfotografias que acompanhavam os documentos. Em uma delas,

assinalados com uma flecha, apareciam os pigmentos do envelhecimento

(lipofucsina), típicos da passagem do tempo nos neurônios e em outras células

fixas posmitóticas ou sumamente diferençadas dos mamíferos e demais animais

multicelulares. A microfotografia mostrava o aspecto característico de tais

pigmentos em um neurônio do cérebro de uma rata de 8 meses.81 (A imagem havia

sido aumentada 500 vezes.)

– ... A presença desses pigmentos de envelhecimento – prossegui, sem

demasiadas esperanças de que Eliseu captara o dramático sentido de minhas

palavras – seria normal, não fora por um “detalhe”... arrepiante: esses neurônios

das ratas de laboratório estavam sucumbindo ver-ti-gi-no-sa-men-te, por haverem

sido submetidos a sucessivos processos de inversão de massa. O que, em um

processo normal de envelhecimento houvera necessitado meses ou anos, em tais

circunstâncias se dera em questão de dias... Não sei se me explico com suficiente

clareza.

– Mas por quê? – interpelou-nos Eliseu, intuindo o alcance daquelas

descobertas.

– Isso ainda não está claro – tornei eu, indicando o informe. – Parece que durante a fase infinitesimal de tempo da inversão dos swivels “algo” afeta os

neurônios, superexcitando-os ou estressando-os, com o conseqüente e galopante

consumo de oxigênio.82 E isso, como talvez você saiba, é uma arma de dois gumes.

O homem, em sua dependência aeróbica de ser pluricelular altamente diferenciado,

deve ao oxigênio sua vida e seu envelhecimento. Estamos, em suma, ante a teoria

dos chamados “radicais livres”, proposta pelos doutores Harman, Nagy, Hosta e

outros.83 Os radicais livres, para que me compreenda, não são outra coisa que o

oxigênio normal transformado e ativado pelas células. Pois bem, se excitamos um

neurônio, seu consumo de oxigênio se multiplica e os R-OH (radicais livres) atuam

como poderosos e corrosivos oxidantes, acelerando-lhe o envelhecimento e

causando-lhe a morte. Como vê, paradoxalmente, um gasto anormal de oxigênio

pelos neurônios leva-nos, inapelavelmente, a uma involução senil. Ainda que exista

toda uma gama de fatores ambientais e de dieta que contribuem igualmente para

a ação oxidante dos R-OH, o estresse é, possivelmente, um dos grandes algozes.

Você tem reparado como e a que velocidade envelhecem os estadistas e os

executivos?

Meu companheiro caiu em profundo abatimento.

– Todavia – tornei, tentando animá-lo e animar-me –, isso não pode ser

tomado como fato consumado. Afinal de contas, os resultados sobre animais de

laboratório nem sempre são aplicáveis ao homem...

Curtiss e meu irmão escutaram-me com benevolência. O certo é que nem eu

mesmo concedia demasiada credibilidade a tais raciocínios. No fundo não podia

compreender meu próprio comportamento. Eu, como Eliseu, talvez fosse vítima de

um erro fatal da Operação Cavalo de Tróia. E, no entanto, em lugar de mostrar-me

nervoso, ou assustado, estava lutando por negar importância ao assunto. Nunca

consegui explicar a mim mesmo o porquê daquela ilógica serenidade...

– O certo – argumentou o General abandonando seu mutismo e retomando os

documentos – é que estamos diante de uma grave possibilidade. E, para confirmá-

la ou não, só há um meio: voar para casa e submetê-los a um minucioso check-up.

Aqui não dispomos de especialistas nem de meios adequados. Se o processo de

inversão de massa afetou também seus cérebros, quem sabe estamos ainda a

tempo de evitar uma catástrofe...

E o militar, erguendo um olhar para as estrelas, suspirou ruidosamente, para

em seguida encerrar-se em nova e profunda meditação.

Um estranho temor tomou-me dos pés à cabeça. Eu sabia o que representavam

as últimas palavras do chefe do projeto. Mas uma súbita e importante pergunta de

meu companheiro distraiu meus temores.

– Diga-me, Curtiss, por que não fomos advertidos antes do primeiro “salto”?

Será que a falha não foi detectada nas experiências preliminares?

Inadvertidamente, com sua segunda pergunta, Eliseu mesmo havia respondido.

O General esboçou um amargo sorriso.

– Está insinuando que, se o houvesse sabido de antemão, Cavalo de Tróia os haveria lançado a essa aventura?

– Não, suponho que não... – reconheceu Eliseu, baixando os olhos.

– Só o que posso dizer-lhes – revelou-nos Curtiss, como que rogando

indulgência – é que, em todos os ensaios prévios com animais de laboratório, o

controle e a observação dos experts centraram-se no comportamento das funções

vitais das cobaias. E jamais foi detectada alteração grave. Certamente, agora o

sabemos, devíamos ter insistido nas explorações com os scanners, ao nível

cerebral, como sugeriu o doutor Shock, de Baltimore...

Deus meu! Aquela confissão trouxe-me à memória a inexplicável obsessão do

General pela nossa segurança pouco antes do lançamento do módulo na Mesquita

da Ascensão. E ainda que nunca chegasse a reprová-lo, naquele momento eu tive a

certeza de que o chefe da operação sabia “algo”, muito antes de janeiro de 1973.

– ... Mas quem poderia supor que se registraria uma alteração dessa natureza e

num ponto tão remoto como a colônia de neurônios?

Nisso Curtiss estava com a razão. De outra parte, a má sorte – ou não foi a “má

sorte”? – fizera com que a maioria daqueles animais utilizados nas inversões dos

swivels fosse abandonada ou sacrificada uma vez concluídas – “satisfatoriamente”

– as provas. O caráter secreto e militar do Cavalo de Tróia e a pressa sempre

implícita nessas operações conflitavam, evidentemente, com uma autêntica e

sensata política de investigação científica... Mas nada disso tinha mais conserto.

Cumpria enfrentar os fatos.

Agora entendia eu a razão da palidez do General na “piscina” e o porquê do seu

isolamento no rochedo. Sentia-se responsável. E, de pronto, à semelhança de uma

pancada, anunciou-nos o que, sem dúvida, era fruto de uma prolongada e penosa

reflexão:

– Está decidido... Não haverá uma segunda viagem.

Fiquei paralisado. Praticamente, senti-me pregado no solo da Massada. E o

General, sem mais comentários, fez menção de retirar-se. Não fosse por Eliseu, ali

mesmo tudo estaria acabado. Mas meu companheiro, recuperada sua habitual

frieza, interpôs-se em seu caminho. E, pousando suas mãos nos ombros de Curtiss

– um gesto muito “familiar” para mim –, falou-lhe nos seguintes termos:

– Um momento. Creio que você está equivocado...

Cansado, o General fitou-o sem compreender.

– Afinal – continuou Eliseu com calor – somos nós que deveremos tomar essa

decisão. São nossos cérebros os teoricamente lesados. Se a descoberta de Edwards

não fosse sobre nós, reconheço que haveríamos perdido uma oportunidade única.

Se, ao contrário, estão certos, e nossos neurônios foram danificados, esta – guarda

bem! – é uma ocasião que não podemos nem devemos desperdiçar...

Curtiss moveu a cabeça, aturdido.

– Escute, velho cabeçudo! Achamo-nos a um passo da decolagem. Você mesmo

o reconheceu: agora é impossível analisar nossos malditos cérebros. Em

compensação, se continuarmos com o plano previsto, a terceira e a quarta inversão podem lançar novos e preciosos dados sobre o problema. Como você vai

compreender, tanto Jasão como eu nos prestaríamos a uma missão mortal ou

irreversível. Entendo que os médicos e especialistas poderiam, talvez, encontrar um

atalho ou remediar mais eficazmente a hipotética alteração neuronal, se contassem

com uma série de comprovações.

Meu irmão procurou apoio ao seu duvidoso posicionamento, lançando-me um

olhar que jamais esquecerei. Deixando-me guiar pela intuição, terminei, então, de

encurralar o frágil ânimo do nosso chefe.

– Estou de acordo. Se realmente estima nossa vida, permita que sigamos

adiante. Apenas – rematei com toda autoridade de que fui capaz – exigimos um

minucioso controle no instante da inversão dos swivels. Como você já pôde

observar, as condições, físicas e mentais de seus astronautas são impecáveis. E

mais – acrescentei sem demasiada convicção –, duvido muito que nossos neurônios

estejam lesados...

Aquela meia verdade se reduziria a nada em meu coração quando, quase

simultaneamente, lembrei a aparição, em minha pele, de escamas e manchas cor

de café. Era mais do que provável que tais incipientes sintomas de envelhecimento

estivessem dando razão aos cientistas da base Edwards. Mas, graças aos céus,

Curtiss não foi informado... ao menos naquela altura dos acontecimentos.

Eliseu e eu percebemos uma onda de complacência no ressuscitado olhar de

nosso amigo.

– E então? – incitou-o meu irmão.

O General pigarreou, tentando ganhar tempo:

– Não sei – murmurou teimosamente.

– Curtiss! Em nome de nossa amizade: confie em nós!

– Não sei... Tenho de pensar.

E, safando-se das mãos de Eliseu, deu-nos as costas e caminhou no rumo do

acampamento. Segundos depois deteve-se, girou sobre os calcanhares e, com os

olhos úmidos, sussurrou:

– Deus os abençoe.

Aquela noite de terça-feira, 6 de março, foi simplesmente um pesadelo.

Suponho que Curtiss, como nós mesmos, não conseguiu dormir. Friamente, na

solidão de minha tenda, a informação procedente do deserto de Mojave se

instalaria para todo o sempre em minha vida. Os dados eram escassos e pouco

contrastados, mas tragicamente corretos. Eu o sabia. No fundo, e da minha

perspectiva atual, talvez deva agradecer à Providência que as coisas se passassem

assim. Não fosse a chegada daquela correspondência, nem meu companheiro nem

eu teríamos tomado uma “decisão” como a que – afortunadamente – adotamos em

plena segunda exploração... Mas essa é outra “história”, que deverei contar mais

adiante.

No momento – e nisso não havíamos mentido – nossos cérebros continuavam

funcionando normalmente. Mas... até quando? Na miscelânea das explicações científicas expostas no fatídico documento, uma havia que, intencionalmente,

apanhei de soslaio em nossa conversa no extremo norte da Massada. Segundo os

neurofisiólogos, a maior parte das mutações observadas nos cérebros dos ratos

registrava-se no hipocampo.84 E eu sabia que essa área cerebral regula o conceito

e a sensação de espaço e tempo. Em inúmeros casos de demência senil, por

exemplo, o envelhecimento do hipocampo é uma realidade clara e indiscutível. Que

sucederia com Eliseu e comigo se nossos hipocampos se vissem igualmente

lesados? Uma perda de memória, em tais circunstâncias, só para dar um exemplo,

teria sido o fim...

Assaltado por esses e outros menos funestos pensamentos, acabei por

abandonar a cama e sair da tenda. Uma ligeira brisa havia começado a soprar do

norte, fazendo baixar a temperatura e arrancando intermitentes cintilações brancas

e azuis das estrelas. E comecei a caminhar sem rumo. À exceção dos dez vigilantes

israelenses e do pessoal do turno que trabalhava no interior do fosso, o resto do

acampamento dormia placidamente. Contornei a margem norte da “piscina” e, à

busca de um lugar solitário, dirigi-me ao setor oriental da paliçada. Quando me

achava a poucos metros dos sacos de terra, a inesperada presença de um vulto

escuro sobressaltou-me. Ao ver-me, o indivíduo pôs-se em pé e avançou em minha

direção. Era tal a obscuridade que só quando chegou a 1 metro de mim é que

distingui a robusta silhueta de Eliseu. Como no meu caso, tampouco ele tinha

podido conciliar o sono. Mas suas razões eram outras.

Sentados sobre os sacos, sem que fosse necessário que eu o pressionasse,

abriu-me seu coração, confessando-me por que havia adotado aquela valente e

insólita postura diante do General. De certo modo, aquela atitude de meu irmão

não era surpresa para mim. Durante nossa estada em Jerusalém, Eliseu já me

havia dito: “Desejo, necessito ver Jesus de Nazaré... frente a frente”. E aquela

segunda oportunidade talvez não voltasse a apresentar-se. Não podia permitir que

uns malditos informes médicos, por mais graves que fossem, arruinassem seus

propósitos.

– E mais – acrescentou com veemência – se for preciso, continuarei fingindo e

mentindo.

– Mentindo? – interrompi-o sem compreender.

– Querido amigo – continuou ele, como se lesse meus pensamentos –, seu

destino e o meu estão unidos. Não nos enganemos. Você sabe muito bem que não

fui sincero ao antepor o interesse científico da missão à nossa sobrevivência. Não

me preocupa saber se, com as novas inversões de massa, se estancará ou não o

mal que se instalou em nosso organismo. Foi a primeira coisa que me ocorreu

naquele crítico momento e foi como se Deus me houvesse iluminado... Curtiss

duvidou. Você não pensa assim?

– Decerto que não. O General – disse-lhe sem dissimulação – não é homem

fácil de enganar. Mas em alguma coisa você teve razão, e ele soube captá-lo e

agradecer: a decisão de levar a cabo a segunda exploração depende, agora mais do que nunca, de nós dois...

Eliseu conhecia bem minha posição a esse respeito. Todavia, com sua natural

ingenuidade, forçou-me a expô-la mais uma vez.

– Está bem – tranqüilizei-o – também eu desejo “voltar”. E compartilho seus

sentimentos: não é a busca de um remédio para o nosso mal que me move a isso.

É “Ele” que me impele...

Meu companheiro sorriu satisfeito. E, ainda que ambos soubéssemos que a

última palavra quem a tinha era Curtiss, deixamo-nos arrastar pelo entusiasmo e a

esperança, discutindo e analisando, até o amanhecer, os pormenores de nossa

segunda e ainda hipotética missão.

E justamente ao alvorecer nossas dúvidas ver-se-iam dissipadas...

– Bom-dia, rapazes!

Eliseu, perplexo, não conseguiu responder ao General. Quase tive de arrastá-lo

até a mesa em que, sozinho, o General tomava uma fumegante e apetecível xícara

de café. A fisionomia de nosso chefe parecia transfigurada. Aquela cordialíssima

saudação e o sorriso aberto, tão oposto ao sombrio semblante da noite anterior,

deixaram-nos admiradíssimos. Que teria ocorrido?

Divertido, ele repetiu o bom-dia e, depois de tomar os últimos goles, foi direto

ao que desejávamos ouvir:

– Vocês ganharam. A missão seguirá adiante.

Pouco faltou para que meu irmão saltasse sobre ele, abraçando-o. Curtiss e eu

o contivemos, fazendo-lhe ver que não estávamos sós no refeitório.

– ... Sobretudo – sentenciou, enquanto assinalava com seu dedo indicador os

documentos que conservava em um dos bolsos – que ninguém saiba, ao menos até

que regressem, da existência do informe médico.

Aceitamos com um pronto e afirmativo movimento de cabeça. Mas, enquanto

Eliseu, com o ânimo refeito, despachava vorazmente seu desjejum, Curtiss leu em

meu olhar: “Que o havia feito mudar?”.

– Suponho que vocês têm direito a saber o porquê desta decisão.

O militar esfregou a face brandamente, cerrando os cansados e avermelhados

olhos. Quando baixou as mãos, já, o sorriso inicial se havia transformado em um

ricto severo.

– Como sabem, os graves acontecimentos que se aproximam no Oriente Médio

já sentenciaram a Operação Cavalo de Tróia. Esta é, portanto, nossa última

oportunidade de “voltar”. E desde que vocês, meus queridos “exploradores”, livre e

voluntariamente, colocaram o interesse histórico da missão acima de sua própria

segurança e sobrevivência, não serei eu quem se oporá. Entendo que há momentos

na vida de todo ser humano nos quais um ideal pode e deve pairar acima, até, dos

interesses pessoais. Nenhum de nós, agora, tem perfeita consciência da

transcendência do que temos em mãos. Será a História que um dia julgará a

Operação Cavalo de Tróia.

E, antes de retirar-se, comovido, resumiu seus sentimentos com as mesmas palavras que pronunciara diante do palácio de Herodes:

– Que Deus os abençoe...

Tal como eu imaginava, ainda que houvesse feito alusão ao “interesse histórico

e científico da missão”, ao General não escapara a verdadeira motivação da nossa

decisão de prosseguir. Curiosamente, nós três nos havíamos convertido em

cúmplices de um “sonho”...

 

Trinta e seis horas antes do lançamento do “berço”, a atividade na “piscina”

atingira um ritmo extraordinário. O renovado otimismo de Curtiss foi, aliás,

determinante. Tudo estava pronto. O módulo, definitivamente montado, e com os

novos equipamentos já embarcados, só esperava o abastecimento dos tanques de

combustível. Entretanto, por estritas razões de segurança, o combustível não seria

transvasado até a manhã do dia seguinte, sexta-feira.

O resto daquela quinta-feira, 8 de março, ainda que arrastássemos o cansaço

de uma tensa e dramática noite de vigília, transcorreu num abrir e fechar de olhos.

As reuniões com a equipe de diretores sucederam-se até bem entrada a tarde. Os

planos da segunda operação foram revistos várias vezes, com especial atenção aos

obrigatórios vôos da nave da Massada ao monte das Oliveiras e vice-versa. Todos

tínhamos noção da transcendência dessa navegação. Qualquer falha, fosse na ida,

fosse no retorno ao rochedo, podia ser desastrosa. Mas deixarei para mais adiante

os pormenores do nosso plano de vôo, assim como a descrição de algumas das

inovações introduzidas no módulo e nos equipamentos com vistas a essa fascinante

exploração no ano 30 da nossa era. Mas desejo anotar, aqui e agora, um fato

ocorrido nessa mesma noite de quinta, e que, em minha opinião, confirmou o que

já sabíamos em relação às verdadeiras e profundas motivações do general Curtiss

no momento em que autorizou aquele segundo lançamento.

Por outro lado, penso que – de acordo com minha intenção de transcrever fiel e

escrupulosamente tudo quanto vi e ouvi na Palestina de Cristo – este é o momento

próprio para encaixar um relato que havia ficado pendente: as conversações de

Jesus de Nazaré com seus íntimos na histórica “última ceia” da quinta-feira, 6 de

abril. Por motivos estritamente éticos, como assinalei em páginas anteriores, não

me fora permitido estar presente a esse tão notável acontecimento. Graças, porém,

às gravações captadas no módulo e a meus diálogos com André, o irmão de Simão

Pedro, a histórica reunião pôde ser reconstituída pelo Cavalo de Tróia. Antes de

entrar na transcrição da fita, é minha obrigação recordar algo que já apontei antes:

pela enésima vez, como inevitável conseqüência da passagem do tempo, muitas

das palavras do Mestre da Galiléia naquela “última ceia” seriam mutiladas,

omitidas e, o que é pior, adulteradas pelos chamados escritores sagrados e, em

última instância, pela própria igreja. Com o decorrer dos séculos, a maravilhosa

mensagem proferida por Jesus naquela “Quinta-Feira Santa” viu-se reduzida a uma

simples “fórmula matemática”. Uma caricatura...

Foi ali pelas 10 da noite. Eu me havia retirado para descansar, quando, de

súbito, apresentou-se na tenda um dos vigilantes israelenses. Curtiss chamava-me. Em um primeiro momento supus que se tratasse de alguma comprovação técnica.

Mas, ao ver que nos dirigíamos para o portão da paliçada, minha curiosidade voltou

a estimular-me. Ao transmitir-me o santo e a senha, o judeu indicou o palácio do

norte, explicando-me que o General e outro companheiro me aguardavam junto ao

terraço superior. Um tanto alarmado, tomei o rumo indicado e, realmente,

encontrei lá, relaxados, em animada conversa, meu irmão e o general Curtiss.

Ao ver-me, Curtiss convidou-me a sentar-me junto deles, sobre o solo do

terraço. E, sob o branco silêncio de milhares de estrelas, em um tom doce, quase

suplicante, rogou-me que antes de partir lhe satisfizesse um íntimo desejo,

materialmente sufocado até então pelas circunstâncias:

– Fale-me sobre Ele!

Certamente, os nada felizes acontecimentos em que nos havíamos envolvido

desde que pousáramos o módulo no hangar da Mesquita da Ascensão, as viagens e

sua transferência para a Massada, não nos haviam permitido uma serena e

repousada troca de impressões sobre a incrível figura que havia motivado nosso

primeiro “salto”. E ainda que me sentisse feliz por poder falar de Jesus de Nazaré,

de sua enorme atração humana, de suas palavras e de sua fascinante

personalidade, tive especial cuidado em não mostrar demasiada veemência. A

sagacidade do General não tinha limites e um erro nesse sentido, revelando meu

entusiasmo por Ele e pondo em dúvida nossa obrigatória objetividade como

“exploradores de outro tempo”, poderia ter tido, talvez, efeito mais severo que o

da descoberta de Edwards. E mais. Sangrando-me em saúde, manifestei certas

dúvidas em torno de sua pretensa ressurreição, acrescentando, tendenciosamente,

que a “nova exploração” poderia ser altamente esclarecedora nesse sentido.

Durante várias horas Curtiss ouviu meu relato sem quase formular perguntas.

Mas, ao chegar à noite de “Quinta-Feira Santa” e lembrar-lhe que as palavras do

Nazareno e de seus apóstolos haviam ficado gravadas no “berço”, o General, com a

voz entrecortada por uma súbita emoção, pediu-me que aguardasse. E, abrindo o

zíper do seu blusão, apanhou um pequeno pacote, envolto em papel de jornal,

colocou-o em terra e, cerimoniosamente, passou a desembrulhá-la.

Ao vermos do que se tratava, Eliseu e eu nos olhamos, adivinhando logo quais

eram suas intenções. Então, uma torrente de sensações se propagou pelo meu

interior, turbando-me a mente.

Curtiss acionou o diminuto gravador e uma nostálgica voz – doce, profunda e

brilhante como aquele firmamento – encheu o silêncio da montanha, crispando-me

a pele. O dedo do General deteve o giro da fita e a fez retroceder até o início da

gravação. Uma gravação que eu conhecia muito bem...

– Jasão, um último favor...

Não pude responder. Um nó havia cerrado minha garganta.

– ... Quero que você me traduza suas palavras.

Como não me ouvisse responder, Curtiss deve ter pensado que àquela altura, 2

da madrugada, meu mutismo era um natural sintoma de cansaço. Então rogou-nos que desculpássemos sua imprudência e, apanhando a garrafa térmica que Eliseu

trazia, ofereceu-me uma transbordante caneca de café. Mas não era a sede ou o

esgotamento o que me paralisava naquele momento. Meu irmão percebeu o

delicado transe que eu atravessava e, com uma presteza invejável, tomou a

iniciativa. A pretexto de estirar as pernas doloridas, apoiou-se em meu ombro

direito e golpeou com o joelho a caneca do fumegante café. O líquido escorreu

sobre meus músculos e a dor provocou minha reação. O pequeno e intencional

incidente devolveu-me à realidade. Tomei uma nova dose de café e, refeito,

anunciei a Curtiss que estava disposto a fazer a tradução.

Antes, porém, que ele acionasse a fita fiz-lhe um resumo dos acontecimentos

anteriores às conversações que iríamos escutar e que, do meu ponto de vista, eram

fundamentais para uma melhor compreensão do que ocorreu naquela noite no

pavimento superior da casa dos Marcos.85

Conforme fui avançando em minha exposição, o rosto do General foi refletindo

a surpresa. De certa maneira, a situação era absurda. O responsável máximo pela

Operação Cavalo de Tróia – se bem que eu reconheça que havia razões de sobra

para isso – não conhecia ainda muitos dos pormenores da nossa primeira missão

nem as circunstâncias que haviam rodeado os últimos onze dias da vida de Cristo...

Daí, por exemplo, o incidente dos divãs e a negativa dos apóstolos a se deixarem

lavar as mãos e os pés lhe causassem uma especial comoção. Nenhum dos

evangelistas – como apontou acertadamente – fazia alusão a tais fatos, criando

com isso uma imperdoável “lacuna informativa” que obscurecia a realidade

histórica. A cena da lavagem dos pés aparece nos Evangelhos Canônicos como

simples iniciativa do Galileu, desvinculada de qualquer acontecimento anterior.

Todavia, basta repassar esses textos, que os cristãos consideram sagrados, para

observar que o Mestre não era muito amante das iniciativas “gratuitas”. Todos os

seus atos e palavras tiveram sempre uma razão de ser. Mas, como já relatei e

continuarei revelando nas próximas páginas, não foram estes os únicos

acontecimentos escamoteados – consciente ou inconscientemente – pelos citados

evangelistas...

O microfone, dissimulado na base do lampião que havia iluminado a mesa em

forma de “U” da “última ceia”, havia respondido com perfeição. O som foi captado

“5 x 5” nos instrumentos do módulo.86

Em meio a um solene silêncio, Curtiss ativou a gravação. E meu coração voou à

histórica noite.

A extrema sensibilidade do microfone havia registrado até o rangido da porta

de dupla folha, empurrada pelos íntimos de Jesus quando entraram na sala.

– O Mestre – fui comentando enquanto ouvíamos passos e murmúrios –

achava-se no pavimento inferior, reunido com a família Marcos...

As vozes – todas em um claro aramaico ocidental ou galileu (a língua falada por

Jesus) – foram fazendo-se mais fortes e nítidas, à medida que os doze começaram

a distribuir-se em torno do “U”. Durante quatro ou cinco minutos, tudo correu normalmente. De súbito, porém, fez-se um brusco silêncio. Segundos mais tarde, o

sinal sofreu uma considerável elevação. Em uma confusa miscelânea, foram

surgindo ameaças, protestos e até maldições. Os discípulos, encolerizados,

recriminavam Judas por haver ocupado o divã situado à esquerda do lugar de

honra. Aquele vozerio cresceu ainda mais quando – a julgar pelos comentários –

João Zebedeu fez o mesmo, acomodando-se no divã da direita. A voz de Simão

Pedro, que se mostrava mais exaltado do que os outros, era facilmente

distinguível. Mas, de súbito, também a áspera e poderosa voz de Pedro silenciou. E

entre as acaloradas acusações ouvimos uns passos que, precipitadamente, se

afastavam da curvatura da mesa.

– Esse é Pedro – expliquei, interrompendo a gravação. – Está procurando o divã

mais baixo e distante, precisamente como explicou seu irmão André...

– Qual foi a distribuição final em torno à mesa? – perguntou o General.

– Segundo meu informante, Judas Iscariotes e João achavam-se à esquerda e à

direita do Mestre, respectivamente. O rabi, como sabes, ocupava o divã de honra,

no centro do “U”. Os demais distribuíram-se na seguinte ordem: Simão, o Zelote,

Mateus, Tiago Zebedeu e André, pelo lado de Judas. À direita de João, os gêmeos

Alfeu, Felipe, Bartolomeu, Tomé e Simão Pedro.

Tornei a acionar o gravador e, por um espaço de cinco ou seis minutos, as

violentas recriminações dos discípulos sucederam-se em um tom mais do que

vexatório. Provavelmente, anos mais tarde, quando alguns daqueles apóstolos e

seguidores do Nazareno decidiram-se a registrar por escrito a vida e a mensagem

do Filho do Homem, tiveram todo o cuidado de “esquecer” um incidente que, ainda

que humano, denegria a dignidade do nascente “colégio apostólico”.

Subitamente, os doze guardaram silêncio. Os registros do módulo haviam

captado o leve ranger de uma porta.

– Aí está Jesus... – exclamei imaginando Jesus no umbral do cenáculo.

Cinco segundos depois, em meio a um espesso silêncio, ouviam-se os passos

do gigante, em direção ao centro da mesa.

Um minuto... Dois... O mutismo era completo, apenas rompido de quando em

quando por um embaraçoso pigarro. Pouco a pouco, as vozes foram brotando na

sala, um pouco mais espontâneas e cordiais. Jesus de Nazaré continuava calado,

provavelmente observando seus amigos. Por fim, como se nada houvesse ocorrido,

sua voz se propagou, doce e conciliadora, provocando em nós uma indescritível

emoção:

– “Muito tenho desejado” – fui traduzindo com um fio de voz – “partilhar desta

ceia de Páscoa convosco... Queria fazê-lo uma vez mais antes de sofrer... Minha

hora é chegada e, quanto a amanhã, todos estamos nas mãos do Pai, cuja vontade

vim cumprir. Não voltarei a comer convosco até que vos senteis comigo no reino

que meu Pai me entregará quando houver terminado aquilo para que me enviou a

este mundo.”

O Mestre interrompeu-se e as conversas recomeçaram. Mas nenhum dos comensais fez referência às proféticas palavras do rabi. Ao contrário, vários

discípulos ressuscitaram a áspera polêmica dos divãs, criticando igualmente a

família Marcos por não haver designado um ou dois criados, com o que se haveria

evitado o aborrecido tema das abluções.

Por um momento imaginei o rosto grave e quem sabe decepcionado do Galileu,

atento à polêmica. Como André me advertira, seus olhos buscariam as jarras

destinadas às abluções, a ver se haviam ou não sido usadas.

O ardor da discussão arrefeceu, substituído pelo inconfundível som do vinho

sendo despejado nos recipientes de cristal. Era o ritual da primeira taça. Dois

minutos mais tarde, cumprida a cerimônia da mistura de água e vinho, Tadeu

voltou ao seu lugar e a voz de Jesus de Nazaré – mais severa do que da primeira

vez – encheu novamente o recinto. Depois de dar graças, exclamou:

– “Tomai esta taça e dividi-a entre vós. E quando a houverdes compartilhado,

pensai que já não beberei convosco o fruto da videira... Esta é nossa última

ceia...”.

Curtiss, Eliseu e eu captamos uma sombra de tristeza naquela breve pausa.

“– ... Quando nos sentarmos outra vez” – concluiu o Mestre – “será no reino

que está por vir.”

Novo silêncio caiu sobre a sala. Como já comentei, a tradição judaica

estabelecia que, uma vez sorvida a primeira taça, os comensais deviam levantar-se

e proceder ao rito das abluções. Entretanto, como já me havia dito o chefe dos

apóstolos, os registros sonoros não haviam detectado movimento algum entre os

doze. Melhor dizendo, apenas gravaram o roçar das vestes de um homem que se

ergue de seu assento e alguns passos – os do Nazareno – contornando o “U” em

direção às bacias. A seguir, ouvimos, partido daquele lugar da sala, o borbulhar de

um líquido – a água de uma das jarras – ao ser vertido em uma vasilha larga de

metal. Depois, três ou quatro novos passos, o golpe seco de uma das bacias ao ser

depositada no chão e outro impacto – de natureza desconhecida – sobre o piso.

(Possivelmente o ruído produzido pelo Galileu ao deixar-se cair de joelhos sobre o

assoalho.) Apenas dois segundos depois, o microfone fazia-nos chegar uma confusa

mescla de sons: copos depositados sobre a mesa, exclamações de surpresa e

corpos que se erguiam precipitadamente. Eram os doze levantando-se de seus

bancos, aturdidos ao descobrir a intenção do Mestre. E, pelo espaço de vários e

prolongados minutos, silêncio. Um total e eloqüente silêncio... Ninguém parecia

disposto a reconhecer a infantil e grosseira atitude geral. A suspensão daquele

dramático vazio coube a Pedro. Com voz trêmula e insegura, perguntou:

“– Mestre, realmente vais lavar-me os pés?”

Jesus deve ter erguido o rosto para o impetuoso e decepcionado pescador,

porque logo em seguida ouviu-se que dizia:

“– Pode ser que não compreendais o que me disponho a fazer... Mas, de agora

em diante, conhecereis o sentido de todas estas coisas.”

Um suspiro profundo escapou da garganta de Pedro.

“– Mestre, nunca me lavarás os pés!”.

Um tímido suspiro acompanhou essa imperativa decisão do discípulo. Estava

claro que os onze aprovavam as palavras de seu companheiro repelindo o que

qualificavam de penosa humilhação. (Como desejei ter estado presente àquela

cena e, sobretudo, haver perscrutado o rosto do Iscariotes! Compartilharia ele

aquele sentimento?)

“– Pedro” – replicou Jesus em um tom que não deixava lugar a dúvidas –, “em

verdade te digo que, se não te lavo os pés, não tomarás parte comigo no que estou

pronto a levar a cabo”.

Silêncio. Quinze, vinte, trinta segundos de um angustioso silêncio. Não era

difícil imaginar o atônito olhar de Simão Pedro. E, finalmente, outra das típicas

explosões do bom galileu:

“– Então, Mestre, não me laves apenas os pés... Também as mãos e a

cabeça!”.

Ninguém na sala parecia respirar. Só o ruído da água revelava que o rabi havia

iniciado a lavagem.

“– Aquele que já está limpo” - interveio de novo o Mestre – “só necessita que

se lhe lavem os pés. Vós, que vos sentais comigo esta noite, estais limpos...”

Seguiu-se uma pausa.

“– ... Ainda que não todos.”

Aguçamos os ouvidos, no intento de captar alguma pergunta em relação à

observação feita por Cristo. Mas talvez aqueles homens não tivessem sabido

avaliar a velada acusação do rabi...

E a voz de Jesus, entremeada com o ruído da água, continuou assim:

“– Deveríeis haver lavado o pó de vossos pés antes de vos sentardes para

tomar o alimento comigo. Ademais, quero fazer esta tarefa para ilustrar um novo

mandamento que vou dar-vos”.

Não houve mais comentários. Durante o tempo que durou a lavagem dos pés

dos seus íntimos – 36 minutos ao todo –, os passos de Jesus, suas sucessivas

genuflexões em torno do “U” e o rumor da água na bacia foram os únicos registros

gravados no módulo.

Concluída a operação, Jesus retornou ao seu divã. O ranger da madeira sob

seus pés foi, nesse momento, mais lento e leve. Como se as abluções o houvessem

relaxado.

Logo mais, sua potente voz soou clara e cálida:

“– Compreendeis o que vos fiz?”.

Silêncio.

“– Chamais-me ‘Rabi’” – acrescentou em tom condescendente – “e o dizeis

bem, pois o sou. Então, se o Mestre lavou-vos os pés, por que vos negais a lavar-

vos uns aos outros? Que lição deveis aprender desta parábola em que o Mestre, tão

prazerosamente, fez um serviço que vós haveis-vos negado mutuamente? Em

verdade, em verdade vos digo que um criado não é maior que seu amo. Nem tampouco é maior o enviado do que aquele que o envia. Vistes qual tem sido a

forma do meu trabalho em vida. Bendito seja quem tiver a despretensiosa valentia

de fazer outro tanto. Mas por que sois tão lentos em aprender que o segredo da

grandeza no reino do espírito nada tem a ver com os métodos do mundo do

material? Quando cheguei a esta sala, não só recusáveis lavar-vos os pés uns aos

outros senão que, além disso, discutíeis sobre quem deve ocupar os lugares de

honra em torno de minha mesa. Essas honras são os fariseus que as buscam... e as

crianças. Mas não será assim entre os mensageiros do reino celestial. Será que não

sabeis que não pode haver lugar de preferência em minha mesa? Não

compreendeis que vos amo a cada um de vós como aos outros? O lugar mais

próximo a mim pode não significar nada em relação a vosso posto no reino dos

céus. Não ignorais que os reis dos gentios têm poder e domínio sobre seus súditos

e que até são chamados benfeitores. No reino dos céus não será assim. Se algum

de vós quer ter a preferência, que saiba renunciar ao privilégio da idade. E se outro

deseja ser chefe, que se torne servidor. Quem é maior: o que se senta a comer ou

o que serve? Não se considera ao primeiro como principal? E, todavia, observai que

eu estou entre vós como o que serve...

“Em verdade, em verdade vos digo que se assim agirdes, fazendo comigo a

vontade de meu Pai, então tereis um lugar, ao meu lado, no poder.”

Quando Jesus terminou, interrompi a fita e alertei o absorto General sobre as

cenas que estávamos prontos para escutar e que lançam uma nova luz em torno

das confusas explicações dos evangelistas acerca de Judas e sua traição.

 

Pelas 8 horas daquela noite de quinta-feira, 6 de abril do ano 30 de nossa era –

Continuar: parte 6 de 9