Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 2 de 10 · parte 2/9

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Cavalo de Tróia 2: Massada

O diário ⠀猀攀最甀渀搀愀 瀀愀爀琀攀)

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

Talvez não o devesse ter feito. No fundo eu sabia o que me aguardava. Meu

espírito, porém, impulsionava-me a “encontrá-Lo” ou encontrar algum vestígio que

me recordasse sua presença.

Agora, decorrido tanto tempo, tenho certeza de que fiz bem em ocultar a

Curtiss e à direção do projeto minha profunda angústia e aquele obsessivo desejo

de “voltar”, fruto de uma complexa mistura de admiração por Ele e de uma ardente

necessidade de conhecê-Lo melhor. Ninguém, nos meus longos anos de vida, havia

atingido tão certeira e profundamente meu atormentado coração. E mais e mais

fazia-me a mesma pergunta: por que logo eu? Por que um indivíduo ruim, impuro e

eternamente em dúvida, como eu, se havia envolvido em semelhante situação?

Que tinha aquele Homem para conseguir transformar tão violentamente uma vida

– a minha – cheia de vazios?

Conforme disse, se tivesse dado a conhecer ao Cavalo de Tróia minha fraqueza

por Jesus de Nazaré – pois que era bem isso na realidade – tão flagrante

parcialidade e entusiasmo pelo personagem motivo da segunda expedição me

haveriam desqualificado inapelavelmente. A objetividade e frieza nos exploradores

eram condições básicas para o desempenho de uma missão daquela natureza. E,

embora meu companheiro e eu compartilhássemos desses sentimentos, creio que

na hora da verdade soubemos respeitar essa regra de ouro da operação, mantendo

sempre uma posição distante e à margem do curso dos acontecimentos, mesmo

em ocasiões de sérias dificuldades.

Sozinho, cruzei o arco da Porta de Jafa, no extremo oeste da Cidade Velha de

Jerusalém, quando o frio das primeiras horas daquela manhã começava a amainar.

Uns tíbios raios de Sol suavizaram minha intensa palidez e alegraram o ocre das

pedras da cidadela. Uma multidão heterogênea dava vida à curta rua que separa

os bairros armênio e judeu, ao norte, do cristão e muçulmano, ao sul. Embora

houvesse passeado em várias oportunidades – antes da “grande viagem” – por

aquele mesmo setor da Cidade Santa, agora era diferente. Muito diferente...

Ao chegar ao extremo da rua da Corrente, hesitei. Para onde me dirigiria? À

minha direita, a curta distância, encontrava-se o Muro das Lamentações: último vestígio do imponente Templo construído por Herodes o Grande. E instintivamente

caminhei em sua direção. Na grande esplanada existente ao pé do muro ocidental

do antigo templo, centenas de pessoas – na maioria turistas – perambulavam de

um lado para outro examinando tudo com curiosidade e tirando fotografias.

Aproximei-me vagarosamente da muralha. Era incrível que daquela monumental

construção que eu vira em nosso primeiro “salto” só restasse de pé um reduzido

paredão de 12 escassos metros de altura e pouco mais de 70 de comprimento.18

Numerosos rabinos e fiéis judeus, entre estes crianças e jovens, rezavam ou liam

os rolos da Lei, com os rostos encostados nos gigantescos e erodidos blocos

acinzentados. A devoção e o respeito daqueles israelitas, cobertos com seus

mantos brancos e os típicos chapéus pretos, e com os filactérios19 pendurados,

eram surpreendentes.

Levantei os olhos e percorri minuciosamente as onze fileiras de pedra que

ainda resistiam ao passar dos séculos. Descobri algumas coisas que não haviam

mudado no venerável muro. Entre os buracos e ranhuras dos imponentes blocos

continuavam florescendo tufos de ervas silvestres que abrigavam um bom número

de pombos e passarinhos. O sussurro das orações fez-me recordar as palavras que

pronunciara Jesus de Nazaré ao entardecer da terça-feira, 4 de abril do ano 30:

“... Vistes estas pedras e este Templo maciço? Pois em verdade, em verdade

vos digo que chegarão dias, muito próximos, em que não restará pedra sobre

pedra. Serão todas derrubadas”.

Impulsionado por uma estranha força, acerquei-me de uma das moles de

pedra. Minhas mãos acariciaram a superfície rugosa e meu rosto, lenta e

suavemente, foi tocar aquela segunda fileira. Fechei os olhos tentando captar a

formidável energia que, sem dúvida, estava armazenada naquela relíquia. Minha

alma necessitava desesperadamente de um sinal, uma pequena lembrança, talvez

o fugaz perfume de algumas pedras que haviam sido mudas testemunhas da

presença de Cristo... Um pranto doce e tranqüilo foi a única resposta.

Quando aquela dilacerante tristeza estava quase a sufocar-me, uma mão

pousou em meu ombro direito. Por um instante neguei-me a abrir os olhos,

imaginando que aquele gesto – tão típico de Jesus – estava acontecendo em “outro

tempo”...

Contudo, ao olhar na direção do homem que estava ao meu lado, um reflexo

esverdeado devolveu-me à trágica realidade. Era um pára-quedista do Exército

judeu, com seu uniforme de camuflagem e uma metralhadora a tiracolo no ombro

esquerdo, com o cano apontando para o chão. Em volta de seu pescoço pendia o

mais singular manto de oração que eu já vira diante do Muro das Lamentações:

duas cartucheiras repletas de balas que brilhavam aos fracos raios do Sol da

manhã.

O jovem – talvez um judeu ortodoxo que cumpria seu serviço militar – olhou-

me em silêncio. E, após um leve sorriso, fez um único comentário:

– Irmão, o espírito divino está sempre presente nestas pedras. Mesmo que não seja judeu, reze, peça a Deus... Seus desejos serão satisfeitos.

Não sei ao certo se correspondi ao seu sorriso. O caso é que me senti aliviado

e, seguindo seu conselho, rezei em silêncio e com todas as forças do meu coração

oprimido. Ao fazê-lo, outras inesquecíveis palavras do Mestre brotaram em meu

cérebro:

“... Nenhuma súplica recebe resposta, a não ser que proceda do espírito. Em

verdade, em verdade te digo que o homem se equivoca quando tenta canalizar sua

oração e suas petições para o benefício material, próprio ou alheio. Essa

comunicação com o reino divino dos seres de meu Pai só obtém completa resposta

quando obedece a uma ânsia de conhecimento ou consolo espiritual. O mais – as

necessidades materiais que tanto vos preocupam – não são conseqüência da

oração e sim do amor de meu Pai”.20

Nesse instante compreendi que boa parte de minha angústia nascia de um

desejo egoísta: só pretendia satisfazer minha curiosidade e instintos mais íntimos.

E ali mesmo pedi perdão, suplicando ao Pai que, se nossa segunda “aventura”

chegasse a materializar-se, que Ele me desse luz e força para vivê-la e aproveitá-la

com o único fim de beneficiar as gerações futuras.

Um pouco mais calmo, afastei-me daquele ponto e dirigi-me à extrema direita

do muro: o lugar destinado às mulheres. Passei pela barreira metálica que separa

os dois setores e, apanhando meu velho caderno de notas, escrevi três palavras:

“Voltar a Ele”.

Aquele era, e é, um dos costumes mais propagados entre as pessoas que

visitam o Muro das Lamentações: escrever em um papel alguma oração ou desejo

particular e introduzi-lo, dobrado, em uma ranhura existente entre as grandes

fileiras de pedra.21 A tradição popular assegura que tais petições sempre se

cumprem. Dado que nenhum homem pode entrar no setor feminino, pedi a uma

turista que depositasse minha “mensagem” na muralha. A mulher, compreensiva, o

fez na hora. E ali ficou – e ali suponho que esteja ainda – o breve, sincero e intenso

rogo. Hoje posso comprovar, ao menos no meu caso, que a crença popular está

certa...

O resto de meu passeio pela Cidade Velha não contribuiria exatamente para

me animar. Todos os lugares pelos quais andei estavam irreconhecíveis. Não

guardavam praticamente nada de parecido com aquela Cidade Santa do ano 30.

Era lógico. Se não me falha a memória, desde o ano 587 a.C., data da construção

de Jerusalém e do Templo por Nabucodonosor, a Cidade Santa havia sofrido

dezesseis invasões, fora arrasada e edificada novamente mais de uma dezena de

vezes.22 Era absurdo que eu pretendesse ver e reconhecer na atual esplanada do

“Domo da Rocha” o magnífico Segundo Templo, ou, no bairro muçulmano, o

primitivo traçado das ruelas que havia percorrido...

Ao entrar no gigantesco retângulo onde em outros tempos erguia-se o

magnífico Templo de Herodes, um guia, a meia voz, explicava a um grande grupo

de curiosos e respeitosos turistas ingleses como muitos rabinos e judeus de Mea Shearim (o bairro religioso da cidade) só caminham descalços ou, de outra forma,

negam-se a pisar a esplanada onde nos encontrávamos. Segundo esses rigorosos

observadores da lei judaica, “ali se encontra sepultada a famosa Arca da Aliança, o

que torna aquele um lugar sagrado”.

Na verdade, enquanto me dirigia às mesquitas que ocupam hoje o terreno do

Segundo Templo – a do “El-Aksa” e a conhecida como o Domo da Rocha – tive de

reconhecer que aquele é um dos raros pontos onde os humanos não caíram ainda

no lamentável tráfico comercial existente no que os cristãos chamam “lugares

santos”. Ali tudo é silêncio e recolhimento. A venda ou a mercantilização de

lembranças mais ou menos santas ou religiosas está terminantemente proibida.

Ante a Mesquita Distante ou de El Aksa,23 situada ao sul do grande retângulo,

meu espírito voltou a estremecer. Atrás dela e à esquerda de sua cúpula de prata

distinguia-se boa parte do monte das Oliveiras e, acima, na encosta ocidental, o

Getsêmani. Ao vislumbrar, de súbito, a colina e a ladeira pela qual eu havia subido

e descido tantas vezes, desencadeou-se dentro de mim uma reação quase violenta.

Então dei meia-volta e afastei-me a passos largos, rumo à bela Mesquita de Omar

ou Domo da Rocha.24

Detive-me por uns poucos instantes junto à “Oitava Maravilha do Mundo”.

Aquele, na minha opinião, é o lugar exato onde, há 2 mil anos, erguia-se,

majestoso, o Santuário propriamente dito. Ali mesmo, muito perto de algumas das

faces do octógono de 60 metros de diâmetro que constitui o exterior da mesquita –

talvez aquelas voltadas para o sul ou para o sudoeste –, estavam naquele tempo

as escadas de acesso ao Templo, onde eu vira e ouvira o rabi da Galiléia. Ali,

naquela esplanada, eu assistira ao insólito espetáculo de um Jesus firme e seguro,

de látego na mão, abrindo os portais do setor norte do chamado Átrio dos Gentios

e provocando o estouro dos animais destinados aos sacrifícios sagrados. Durante

segundos, no silêncio do lugar, pude ouvir os mugidos dos bois, a algazarra dos

cambistas de moedas e o estrondo de mesas e tendas ao serem atiradas ao chão

pelo gado. Quão longe e quão perto, ao mesmo tempo, tudo me parecia.

A 30 ou 40 metros a noroeste, no que é atualmente norte do monte em que

fica o Templo, imaginei por um momento a quase inexpugnável e orgulhosa

Fortaleza Antônia. E novas e vivas lembranças acudiram à minha mente. Do

formidável “quartel-general” romano não resta quase sinal ou vestígio algum. Tudo

desapareceu.25 Pensando melhor, nem tudo...

Tive ocasião de visitar, tempos atrás, o convento das Irmãs de Sião, onde os

cristãos veneram o famoso litóstrotos ou pátio pavimentado por grandes lajes,

parte, ao que parece, da primitiva Fortaleza Antônia.26 Para alguns, este seria o

lugar onde Cristo foi julgado por Pôncio Pilatos e apresentado à multidão após a

flagelação. Outros arqueólogos e exegetas, mais prudentes, não têm tanta certeza.

Após descer por umas escadas de poucos degraus, situadas na face noroeste do

monte Moriá, e deixar à minha direita – no que fora o coração da Fortaleza Antônia

– um passeio semi-oculto, de ciprestes novos, entrei sem mais demora no convento das Irmãs de Sião, em pleno bairro árabe. Meu espírito voltou a inquietar-se.

Embora compreendendo que, às vezes, essas coisas são inelutáveis, não pude

evitar um sentimento de aversão. Ao passar sob a pequena porta do santuário

apareceu diante de mim uma loja muito iluminada, repleta até o topo de toda sorte

de lembranças da capela da Flagelação ou do venerado litóstrotos: desde medalhas

e escapulários até camisetas, cinzeiros, artesanato, cartões-postais, bustos

policromados de gesso de Maria ou de seu Filho, réplicas da coluna da flagelação e

um interminável et cetera, para não falar dos brinquedos japoneses ou refrescos...

Aquele lugar, como muitos outros, para não dizer a maioria, se havia convertido em

um excelente negócio... à custa de Jesus de Nazaré e dos seus padecimentos. E

outras frases de Cristo, pronunciadas na madrugada da segunda, 3 de abril, na

casa de Lázaro, em Betânia, voltaram-me à mente:

“... Minha alma sofre pelos filhos dos homens porque estão cegos de coração;

não vêem que chegaram vazios ao mundo e tencionam sair vazios do mundo.

Agora estão bêbados. Quando vomitarem seu vinho, arrepender-se-ão”.

Talvez o mais doloroso daquele “profano negócio” é que, tal qual sucedera com

Anás e os outros sacerdotes – proprietários do negócio dos intermediários no átrio

do Templo –, agora, 2 mil anos depois, os que se dizem sacerdotes ou religiosos ao

serviço do Filho de Deus continuam praticando ou participando de uma exploração

comercial que nada tem a ver com o que Ele desejava e pretendia. E isso,

precisamente ali, naquele cenário de tão trágicas cenas, desvaloriza

consideravelmente a grandeza do lugar. Enquanto caminhava em direção à sala

abobadada onde está o litóstrotos, perguntei-me que teria acontecido se o rabi da

Galiléia tivesse expressado o menor desejo de que suas vestes, objetos pessoais

etc. fossem conservados e reverenciados... Conhecendo bem, como conhecia, a

debilidade da natureza humana, teve extremo cuidado de não cometer semelhante

erro. Apesar disso, os cristãos, longe de praticar os ensinamentos ou a religião de

Jesus, caíram desde os primórdios no que, justamente, não desejava o Mestre:

uma religião, uma forma de ser e uns rituais “a pretexto” de Jesus...

Ao ver as pedras retangulares, que se supõe serem as mesmas que João cita

no seu Evangelho, senti um frêmito. Algumas das enormes e desgastadas pedras –

estriadas para evitar que os cavalos escorregassem – eram parecidas às de calcário

duro que eu vira e pisara no pátio central da Fortaleza Antônia. O esmero das

religiosas responsáveis pelo litóstrotos e o passar dos séculos haviam-nas alterado

em parte, emprestando-lhes um brilho especial. Entretanto, aquele pavimento não

correspondia ao do grande pátio lajeado à base de seixos rolados, situados no

setor norte da fortaleza, onde se congregara a multidão na manhã da Sexta-Feira

Santa. Somente o lajeado do terraço situado defronte à referida esplanada, na qual

se deu o debate entre Pilatos e os sacerdotes judeus, guardava semelhança com o

que tinha agora diante de mim.

A bem da verdade, João, o Evangelista, não cometeu erro algum ao afirmar que

o Mestre fora levado ante Pilatos, “no tribunal, no lugar chamado de litóstrotos”. O que pode constituir um erro crasso é associar este pavimento do convento das

Irmãs de Sião com o “tribunal” no qual se sentava o procurador romano.

Independentemente do meu testemunho, a comprovação que deveria ser levada

em conta pelos exegetas e arqueólogos bíblicos está gravada precisamente em

algumas dessas lousas. Nelas têm-se um conjunto de riscas traçadas a fio de

espada ou com instrumento pontiagudo, que todos os experts têm identificado

como um certo “jogo do círculo” – citado por Plauto –, do qual os legionários

romanos eram apreciadores. Como já mencionei antes em meu diário, sobre uma

das lajes do pátio central pude notar um círculo e uma linha sinuosa que corria

entre diversas figuras (uma coroa real e um “B”). Os soldados, um após outro,

lançavam quatro dados marcados com letras e números cantando jogadas

chamadas de “Alexandre”, de “Dario” ou de “efebo”: e a que rematava a partida: a

do “rei”. Logicamente, um divertimento dessa natureza – que obrigava a marcar e

danificar o lajeado – dificilmente teria como cenário um lugar tão solene como o

litóstrotos, onde Pôncio praticava a justiça, mas sim o pátio das arcadas do quartel

romano, ponto de reunião dos homens quando não estavam em serviço e onde não

ocorriam muitos atos oficiais.

Quando me dispunha a sair da câmara, o sussurro de um guia turístico

comentando os detalhes e pormenores do “jogo do rei” deteve-me. “Segundo a

tradição” – explicou o hebreu – “se um réu aceitava jogar e ganhava a partida,

podia salvar a vida... No caso de Jesus” – concluiu o bom homem com um sorriso –,

“os legionários romanos não aceitaram porque sabiam que o Galileu podia

ganhar...”

Sentindo-me um pouco reconfortado pela ingenuidade daquele guia, deixei

para trás o convento das Irmãs de Sião e entrei na Via Dolorosa (Tario Al-

Mujahedeen), como é denominada pelos cristãos, e que faz parte de um intrincado

labirinto de vielas estreitas, malcheirosas e, em certos trechos, cobertas, em pleno

mercado oriental. Como na Jerusalém do ano 30, aquele setor – hoje ocupado

pelos muçulmanos – conservava alguma semelhança com o que eu havia

conhecido: passagens, ruelas muito estreitas, precariamente pavimentadas e, na

maioria dos casos, sulcadas de pequenas e pestilentas canaletas. Nos dois lados

das ruas havia um sem-fim de lojinhas e diminutos estabelecimentos infectos nos

quais se preparavam comidas, vendia-se ou comercializava-se uma infinidade de

coisas inimagináveis. Confuso, abrindo caminho com dificuldade entre aquela maré

humana – mescla de turistas, árabes puxando asnos carregados de volumosos

fardos, mulheres de rosto coberto e equilibrando grandes cântaros de argila na

cabeça, religiosos de todas as religiões e um ou outro rabino apressado a exibir sua

tradicional indumentária: sobrecasaca negra como a noite e chapéu de abas largas

de veludo igualmente azeviche, barbas longas e suíças encaracoladas caindo desde

as têmporas –, finalmente consegui chegar a outro dos santuários da Cidade Velha.

Sem dúvida, o mais santo para a cristandade: a igreja do Santo Sepulcro.

Não foi fácil desembaraçar-me da criançada desde o instante em que pisei a

suposta Via Dolorosa,27 pois que praticamente assalta os transeuntes estrangeiros

ou aqueles com aspecto de turista, impingindo-lhes todo tipo de mercadorias.

Recordo-me com nostalgia de uma das sextas-feiras, por ocasião do meu

treinamento. Eram 3 horas da tarde e eu estava na Via Dolorosa quando vi a

tradicional e semanal procissão organizada pelos frades franciscanos. Aquele

espetáculo comoveu-me. Enquanto os religiosos e fiéis avançavam lenta e

pausadamente pelas ruas, ora de joelhos, ora carregando grandes cruzes de um

lado e de outro, os comerciantes continuavam a anunciar seus produtos e

souvenirs, alheios ao que se passava, sem o menor respeito para com aqueles

devotos cristãos.

Mas aquele descarado e irritante negócio perde a importância, a meus olhos,

diante do que para mim constitui uma das mais negras e frias afrontas que se

possa conceber em um lugar tão sagrado e especial como o Santo Sepulcro...

 

Agora pergunto-me se não deveria ter omitido estas nada edificantes

observações. Mas é preciso que eu seja fiel aos meus próprios sentimentos e

absolutamente claro e sincero.

Na verdade, não tem maior transcendência que a rocha do Gólgota – quase

oculta sob a basílica do chamado Santo Sepulcro – estivesse ou não uns metros

mais ao norte ou ao sul da sua atual e pretendida localização. O que importa é que

este sim foi o lugar real e concreto onde se desenrolaram as dramáticas horas

finais do Nazareno. Mesmo a circunstância de o túmulo de Cristo ter sido marcado,

pela religião e pelas tradições, a tão pequena distância do lugar da execução não

deve gerar problemas. (Como também já falei, a propriedade de José de Arimatéia

– uma pequena fazenda de recreação e descanso – achava-se relativamente

distante do Gólgota.) Não era habitual, nem lógico, que este tipo de propriedade se

achasse praticamente ao lado de um lugar tão tétrico como o das execuções

públicas. Ao meu “regresso” da Jerusalém do ano 30, após consultar mapas e

percorrer a zona, convenci-me de que a gruta que abrigou o corpo de Jesus

encontra-se em algum ponto do lado nordeste do atual bairro árabe. Mais

precisamente, entre a igreja de Sant’Ana e o Museu Rockefeller; este último, fora

do bairro árabe. Talvez, algum dia, caso se efetuem escavações nesse setor o

mundo possa descobri-lo.28

O que me parece realmente indigno do lugar que se pretende venerar foi um

fato que tive de viver naquela agitada manhã.

Durante um bom tempo perambulei pelas escuras e exageradamente

decoradas capelas, absurdamente divididas entre gregos ortodoxos e católicos

romanos,29 e até cheguei a descer a uma das criptas onde, segundo a tradição,

Santa Helena encontrou as três cruzes, “jogadas em uma espécie de lixo pelos

soldados romanos, uma vez findas as crucificações.30 Em outra das dependências

voltei a encontrar-me com a “coluna da flagelação”: um delicado e caro marco de

mármore vermelho de uns 50 centímetros de altura e com um pedestal. Não pude

deixar de sorrir. Um marco daquele tipo, jamais poderia ter sido utilizado para amarrar alimárias. Era demasiado caro e delicado...

Logo deparei-me com um grupo de turistas que fazia fila para visitar o não

menos pretenso túmulo do Galileu.31 Aquele era um dos santuários que me havia

negado a visitar durante a etapa de meu treinamento. Já o disse anteriormente:

tanto a direção do Cavalo de Tróia quanto eu mesmo considerávamos que, para

determinadas fases da missão, melhor seria prescindir das informações já

existentes. Isso nos proporcionava um maior grau de objetividade. Daí que, ao

unir-me ao paciente grupo, sentisse uma inevitável curiosidade. Era

completamente impossível que a gruta que serviu de túmulo a Jesus de Nazaré

estivesse tão próxima ao Calvário (apenas 20 ou 30 metros no interior da igreja).

Mesmo assim, decidi visitá-la.

O monumento que hoje recobre e protege essa sepultura é excessivamente

decorado e tem uma grande cúpula de estilo russo. A tumba, propriamente dita, é

tão estreita que só permite a entrada de quatro ou cinco pessoas ao mesmo

tempo. A grande velocidade, quase mecanicamente, os turistas que me precediam

foram entrando e saindo do túmulo. Quando chegou minha vez, fiquei

simplesmente horrorizado. Em um estreitíssimo cubículo, de apenas 2 metros de

comprimento por 1 de largura e outros 2 de altura pode-se contemplar, à direita do

local, uma laje de mármore que não supera 1,70 m de comprimento. Era impossível

que o corpo de Cristo, com seu 1,81 m de altura pudesse ter-se encaixado na

posição horizontal sobre a lápide. Mas estas considerações, insisto, são de menor

importância. O que me exasperou foi a atitude do sacerdote grego que permanecia

em pé ao lado da cabeceira do suposto túmulo. Sua principal, e eu diria única,

missão consistia em arrecadar as notas – se fossem moedas fortes, tanto melhor –

que cada visitante se via quase forçado a dar de presente. A “operação” por parte

dos cobiçosos gregos ortodoxos era perfeita. Ao entrar na reduzidíssima câmara, os

quatro ou cinco emocionados e trêmulos fiéis viam-se abordados por um “ajudante”

do hierático sacerdote que, mostrando-lhes um punhado de finas velas negras e

quase sem nada falar, dava-lhes a entender que o correto seria deixar uma boa

“esmola”. Caso o surpreendido visitante hesitasse ou não soubesse que quantia

deixar os astutos “proprietários” do túmulo iam depositando as moedas mais fortes

(dólares, marcos alemães etc.) ao pé de um dos círios situados na cabeceira da

lápide, junto ao vigilante sacerdote.

A “abordagem” é tão descarada e fulminante que são muito poucas as pessoas

que não sucumbem a semelhante “ataque”. E o mais doloroso é que, uma vez

consumado o “assalto”, não há tempo para mais nada. Nem sequer para balbuciar

um apressado pai-nosso. (É preciso lembrar que a grande maioria dos que desfilam

pelo túmulo de Cristo está convencida de que aquela é a pedra sobre a qual

repousou o corpo do Salvador. Algo grandioso e emocionante que merece que se

possa orar ou meditar durante alguns minutos. Até isso, porém, é sutilmente

“proibido” pelos modernos Anás e Caifás...)

Uma vez acesas as velas, o grupo é convidado – quase compelido – a abandonar o lugar, com a desculpa de que são muitos os fiéis que ainda aguardam

do lado de fora. Nisso têm razão, embora as verdadeiras intenções dos gregos

ortodoxos apontem para outra direção. Se levarmos em conta que ao longo de

qualquer Semana Santa uma média de 46 mil indivíduos visitam essa cripta e a

média de dinheiro doado per capita é de uns 5 dólares americanos, não é

necessário ser muito perspicaz para intuir quais as intenções... Como dizem os

israelitas, o túmulo de Jesus de Nazaré é uma “mina de ouro”. Qual o negócio

dessa espécie que arrecada um lucro médio diário de 15 mil dólares?

Foi talvez um momento de fraqueza; mas, diante de semelhante abuso, não

pude conter-me. Lógico que não dei nem um centavo. Ao invés disso, encarando o

impassível sacerdote, recriminei-o pelo que considerava um desonesto “aluguel” do

túmulo de Nazareno. O grego acariciou suas negras e desalinhadas barbas e,

olhando-me com displicência, argumentou:

– Ninguém o obriga, irmão...

– Claro...

Não houve tempo para mais nada. O “ajudante” obedecendo a um significativo

e estudado olhar do sacerdote, pressionou meu braço e, suave mas firmemente,

arrastou-me para a saída.

 

Sofrido e indignado, não me detive até alcançar a muralha sul da Cidade Santa.

“Cidade Santa”? Meu Deus! Quão pouco haviam mudado as coisas!...

Uma ligeira brisa recebeu-me sob o arco da Porta de Sião no fim do bairro

armênio. Detive-me, procurando serenar meu espírito. No fundo, quem pode mudar

tão drasticamente as tendências e as fraquezas humanas? Algum dia – como

profetizou o Mestre – “o mundo sairá do inverno materialista para entrar na

primavera espiritual...” Isso, porém, parece-me ainda distante.

Ao pisar a calçada de Hativat Etzioni, entre as muralhas da Cidade Velha e o

monte Sião, o instinto foi meu único guia. Ao cabo de uns minutos achava-me à

borda dos profundos barrancos do vale de Hinnom, onde, antigamente, estivera

localizado o lixo da Jerusalém bíblica: a Geena mencionada nos Evangelhos

canônicos. Aquela tortuosa depressão, salpicada de rochas e penhascos, não havia

variado demais.

A principal e mais forte lembrança daquele desfiladeiro era a ansiosa busca do

desaparecido Judas na manhã de sábado, 8 de abril do ano 30, em companhia do

jovem João Marcos. Tratei de orientar-me, num absurdo esforço para reconhecer o

ponto exato sobre o qual havia despencado o infeliz apóstolo. Recordava muito

bem que o corpo jazia no fundo daquela garganta, a uns 40 metros de

profundidade. Retrocedi até o oeste, margeando a zona onde sê encontra hoje o

túmulo de David e o Cenáculo. Foi inútil. As sucessivas edificações e mudanças na

orografia haviam apagado parte da antiga e abrupta depressão. Talvez a igreja de

Santo André, à borda do Derech Havron, seja o rincão mais aproximado. Mas não

poderia assegurá-lo. É triste que a cristandade – apesar de ter sido ele traidor –

não tenha erigido um simples e modesto monumento em memória de um personagem tão importante e – por que não? – tão próximo ao Mestre. Oxalá estas

linhas movam alguém a empreender a caritativa – não sei se justa – empresa de

fincar uma cruz no fundo ou na borda do vale do Hinnom, em memória do

Iscariotes. De minha parte, depois de recolher, em uma das encostas do

escarpado, um punhado das primeiras margaridas, fiz um arranjo com os verdes e

brilhantes mirtos silvestres, muito abundantes entre os rochedos, e joguei o

improvisado ramalhete no coração do desfiladeiro. Nunca cheguei a uma

explicação, que me satisfizesse, do porquê daquele gesto, todavia sincero. Talvez,

em certas ocasiões, me sinta mais atraído pelos homens derrotados ou errados do

que pelos justos ou irrepreensíveis. “Ele”, apesar de tudo, também havia amado

Judas. E em certa ocasião havia dito: “... Deus é tão liberal que até permite que te

equivoques... Quando for o caso, pede explicação ao teu irmão, mas nunca o

odeies. Somente quando olhares para teus irmãos com caridade poderás sentir-te

contente”.

Lancei um último olhar à minha modesta oferenda, confundida entre os

arbustos e abrolhos que crescem com grande esforço nas gretas rochosas da

garganta e, reconfortado, voltei pelo caminho que serpenteia paralelamente ao

Hinnom, tomando as calçadas de Melchisedeck e Há’Ofel. Sob o famoso Pináculo do

Templo, no extremo mais oriental da Cidade Velha, dezenas de pombos – como há

2 mil anos – encolhiam-se nos buracos da orgulhosa muralha. Mas minha atenção

viu-se desviada para a encosta oeste do monte das Oliveiras. A passagem dos

séculos e a construção, na ladeira, das conhecidas igrejas e santuários do

Getsêmani, Dominus Flevit,32 o túmulo da Virgem Maria, o de Santa Maria

Madalena33 e a das Nações,34 entre outras, alteraram o primitivo e genuíno perfil do

monte sagrado. À exceção de alguns isolados círculos de oliveiras, o resto está

igualmente irreconhecível. Caminhei lentamente, seguindo o curso da muralha

oriental do desaparecido Segundo Templo, com freqüentes paradas. Salvo, porém,

pelos precipícios que acompanham o velho leito do rio Cedron e os quatro

monumentos funerários que ainda estão em pé na cabeceira daquela rampa do

monte das Oliveiras – atribuídos a Absalão, Josafá,35 Tiago e Zacarias –, nada

conserva seu antigo aspecto. À exceção do vale, os velhos caminhos que dali

saíam, e que o Galileu havia palmilhado em suas idas e vindas de Betânia ou do

acampamento do Getsêmani, haviam sido apagados ou substituídos por modernas

estradas e vias asfaltadas.

Um vento frio começou a soprar do nordeste, arrastando negras e ameaçadoras

nuvens sobre Jerusalém. Restavam apenas três horas de luz e, sabendo que nossa

próxima reunião no Ramada Shalom havia sido programada para as 18 horas,

acelerei o passo. Nem naquele momento sabia o que buscava. Seria, talvez, algum

oculto ou remoto vestígio do lugar onde o Mestre costumava instalar seu

acampamento?

Conforme fui-me aproximando do Jardim do Getsêmani, aquele desejo foi-se

diluindo. Como disse, nem sequer o templo que homenageia o local onde foi preso o Galileu está corretamente situado. Durante alguns minutos, subi pela estreita e

íngreme rua que leva ao cume e desemboca na Mesquita da Ascensão. E, tomando

como referência a Porta Dourada do muro leste do Templo (agora lacrada até o

“fim dos tempos”), dobrei à esquerda, saindo da calçada. Se não me enganava,

não muito longe dali eu havia vivido os tensos momentos da “oração do horto”, do

processo de suor de sangue ou “hematidrose” de Jesus e, em uma altitude inferior,

no velho e desaparecido caminho, da chegada da tropa romana e levita que

empreendeu o acidentado aprisionamento do Mestre. Não tardei muito em desistir.

Depois de uma curta incursão por um reduzido campo onde cresciam oliveiras

muito novas, uma série de modernas chácaras impediu-me de continuar. Tudo

havia sido engolido pelo progresso. Mais uma vez, perdido no meu próprio

presente, lamentei que os seres humanos não hajam sabido ou querido respeitar

um lugar tão íntimo e sagrado como aquele. Sei que é um sonho impossível;

contudo, não teria sido mais emotivo e autêntico conservar tais como eram os

lugares onde viveu o Cristo, sem igrejas nem santuários? Depois dessas

decepcionantes vivências, compreendo melhor os seguidores do rabi da Galiléia,

que preferem guardar sua lembrança afastando-se dos tradicionais “lugares santos”

e buscando aquelas paragens – montanhas, desertos, praias da Galiléia ou

campinas – que continuam virgens e sem transformação alguma.

Pouco faltou para que, ao descer na direção da movimentada estrada de

Derech Jericho – a que passa defronte à igreja do Getsêmani – seguisse meu

caminho em busca de um táxi que me levasse ao hotel. “Algo”, porém, inexplicável,

essa espécie de “força” interior que me acompanha desde então, obrigou-me a que

me detivesse frente à entrada do Lugar Sagrado: o jardim onde são

carinhosamente conservadas e cuidadas as oito veneráveis oliveiras que, segundo

a tradição, foram as mesmas que abrigaram o Mestre. Depois de livrar-me dos

inevitáveis vendedores ambulantes e dos árabes que se empenham em montar os

turistas em seus camelos, penetrei no silencioso e sossegado recinto. Começava a

chover e a maioria dos poucos visitantes precipitava-se para a saída. Ao ver as

velhas e enroscadas oliveiras senti um estremecimento. Alguns daqueles vetustos e

grossos exemplares eram idênticos aos que cresciam na propriedade de Simão, o

Leproso. Agarrado à cerca de ferro que as separa e protege do público, e absorto

na contemplação daquelas possíveis testemunhas mudas da passagem de Jesus de

Nazaré durante suas caminhadas pelo sopé do monte das Oliveiras, não me dei

conta da forte chuva que me encharcava. Até que, providencialmente, quase como

uma aparição, vi surgir de baixo de uma das frondosas oliveiras uma personagem

franzina que, rapidamente, se colocou diante de mim. Com um luminoso sorriso, o

franciscano devolveu-me à realidade, lembrando-me de que estava chovendo. E,

sem mais protocolos, fez-me atravessar a grade, conduzindo-me ao pé da

gigantesca árvore de onde eu o vira sair segundos antes. Era o padre José

Montalverne, jardineiro amador e uma das autoridades mundiais sobre as velhas

oliveiras do Getsêmani. Sob as brilhantes folhas verde-brancas do improvisado “guarda-chuva” estabeleceu-se entre nós uma simpatia mútua. Quando o

interroguei sobre a real antiguidade daqueles oito exemplares, o religioso sorriu

maliciosamente, como se aquela pergunta fosse habitual entre os peregrinos que

as visitam diariamente. O amável e paciente franciscano explicou-me então que

haviam submetido a lasca de um tronco, em 1954, às provas de carbono 14. Pois

bem, segundo as tabelas de Nieh-Bohr, aquela madeira remontava a 200 anos

antes de Cristo. Quando repliquei que os romanos haviam ordenado a tala de todas

as árvores que rodeavam Jerusalém,36 Montalverne, sem se alterar, aconselhou-me

que se desejasse maiores informações sobre as oliveiras eu deveria consultar o

professor Shimon Lavee, diretor do Volcani Agriculture Centre em Bet-Dagon. Lavee

é considerado o maior especialista em oliveiras do mundo. E, segundo este

cientista, “qualquer oliveira de Israel que tenha uma circunferência de 6 metros na

base, tem, pelo menos, 2 mil anos”. O franciscano mostrou então o enrugado e

tortuoso tronco da árvore que nos resguardava da chuva, acrescentando:

– ... E esta, querido amigo, tem 11,80 metros.

A verdade é que não precisava de tantas explicações. Contudo, elas foram bem

recebidas. Saltava à vista que algumas das veneradas oliveiras do horto do

Getsêmani somavam 2 mil anos ou mais.

E, movido por um íntimo desejo, tomei um dos galhos entre meus dedos e

aproximei-o dos lábios. O bom franciscano, comovido talvez por aquele espontâneo

beijo, apressou-se então a cortar um pequeno galho para me dar. Eu sabia que

aquilo era proibido. Um dos motivos da existência dessa cerca metálica que rodeia

as oito oliveiras é precisamente este: evitar que o excesso de entusiasmo dos

peregrinos acabe por destruir as árvores.37 E agradeci muito sua generosidade.

Hoje, as pontiagudas, ainda verdes e queridas folhas são as únicas lembranças

físicas de minha passagem por Israel.38

Entre as sombras do ocaso, com meu precioso “tesouro” entre as mãos,

regressei finalmente ao nosso quartel-general, o Ramada Shalom. Eliseu

aguardava-me nervoso e impaciente. “Algo” muito grave estava acontecendo.

 

A preocupação de meus companheiros era mais que justificada. Durante a

estada deles na embaixada americana em Jerusalém havia circulado um rumor –

confirmado nessa mesma manhã – que poderia complicar ainda mais a já precária

situação. As autoridades jordanianas haviam detido o chefe dos serviços secretos

da organização guerrilheira palestina Setembro Negro, Abu Daoud, quando estava

prestes a passar de automóvel para a Jordânia vindo da Síria. Com ele foram

capturados outros vinte terroristas. A informação, devidamente comprovada pelo

Mossad e o Agaf, 39 era correta e não demorou a chegar aos serviços de inteligência

norte-americanos destacados em Amã e, quase simultaneamente, aos de Israel.

No dia seguinte, 20 de fevereiro, o jornal Davar confirmaria os fatos

prognosticando o recrudescimento da “guerra fria” entre Líbia – defensora radical

dos movimentos guerrilheiros palestinos – e Jordânia. Aquilo, insisto, poderia

prejudicar-nos seriamente. Era por todos sabido que quando o Mossad Lemodiín Vetafkidim Meiujadim (o célebre Instituto de Informações e Operações Especiais,

ou Mossad) ou o Exército judeu dirigia um golpe à resistência palestina, esta

respondia tanto com violência quanto com rapidez, escolhendo – às vezes de

maneira suicida – os objetivos mais à mão. E “nós” – a estação receptora de

fotografias desmontada e escondida no interior da Mesquita da Ascensão – éramos

mais que um hipotético objetivo “militar” das facções palestinas.

Aquela noite de 19 de fevereiro foi especialmente tensa. Temíamos pela

segurança do “berço”; contudo, salvo roer as unhas e tentar encontrar Curtiss, não

conseguimos grande coisa. O General, de acordo com as informações que tínhamos

em nosso poder, devia achar-se – desde a manhã do domingo, 18 de fevereiro, em

plena “batalha” com o Estado-Maior do general Eleazar, lutando e pressionando,

supúnhamos, para decidir a nova localização da estação e a “estratégia” que

permitiria o transporte dos equipamentos.

Perto das 11 da noite, finalmente, soou o telefone do quarto de Eliseu, onde

estávamos reunidos. Era o diretor do projeto. Suas ordens foram breves:

deveríamos pôr em andamento a fase “azul” do programa. Apesar de nossas

insinuações, Curtiss negou-se a falar. “Amanhã em Lod” – foi a resposta – “tudo já

estará decidido. O árabe os apanhará às 8 horas. Boa sorte.”

Eliseu compreendeu que nada havia a fazer e desligou o telefone. A fase “azul”

– nome de código só conhecido por Curtiss, pelos diretores e por nós – era, na

realidade, a primeira das três etapas em que havia sido dividida a segunda

“aventura”. Entretanto, não irei referir-me, agora, às fases seguintes: a “verde” e

“vermelha”. A que deveríamos executar no dia seguinte era vital à “exploração” a

que nos propúnhamos. Como mera informação antecipada, direi que, segundo o

programa previsto pelo Cavalo de Tróia, um dos meus “trabalhos” do “outro lado” –

supondo que tudo funcionasse corretamente – seria analisar a natureza e a

composição atômica e molecular do chamado, pelos cristãos, “corpo glorioso” de

Cristo. Supondo, naturalmente, que tais “aparições” evangélicas, depois da morte e

ressurreição, fossem reais...

Para isso, minha querida e familiar “vara de Moisés” – tão útil nas

comprovações médicas durante a Paixão e Morte de Jesus – deveria sofrer certas

modificações sobre as quais falarei a seu devido tempo. Um dos dispositivos era

especialmente básico para o desempenho dessa missão de investigação do

misterioso “corpo glorioso”. Muito embora seu acoplamento no interior da “vara”

não oferecesse demasiadas dificuldades técnicas, por outro lado a escassez do

tempo disponível e o transporte da sofisticada “ferramenta” aos Estados Unidos nos

preocupava. Nisso se apoiava a fase “azul”: no envio ao nosso país dos

equipamentos suscetíveis de alterações ou mudanças. Dadas as circunstâncias que

atravessávamos – dificultadas ainda mais pela detenção de Abu Daoud –, o que em

condições normais teria sido um trâmite sem complicações agora se nos

apresentava como uma operação comprometedora. Explico-me. Em vista dos

acontecimentos vividos nos últimos dias, e por razões de segurança, Curtiss preferiu que a “vara de Moisés” permanecesse com o resto dos equipamentos na

mesquita. Agora, não só tinha de tirá-la de lá como também cuidar da sua

camuflagem e embalagem para ser levada para os Estados Unidos com o máximo

de segurança e rapidez. Com os israelenses, a princípio, parecia não haver muitos

problemas. No decurso de seus contatos com o Estado-Maior, o General havia-se

encarregado de esclarecer que, diante de uma segunda montagem da estação

receptora de fotos, “parte do instrumental” deveria ser revisada e renovada pelos

experts da USAF. Os judeus compreenderam e aceitaram, oferecendo toda sorte de

facilidades para o traslado. Contudo, a ameaça palestina contra o octógono da

Ascensão obrigava a adoção de medidas “complementares”. Aí entrávamos nós,

sempre “de mãos dadas” e convenientemente “protegidos” pelos sagazes

israelitas...

O plano para retirada da “vara” era simples, mas perfeito e sem complicações

aparentes.

Na manhã seguinte, às 8 horas de terça-feira, dia 20, um potente automóvel –

um Subaru de placa amarela40 com licença de número 22-552-84 – estacionava

diante do hotel. Eliseu e eu, de acordo com o estabelecido, entramos no carro, que

partiu rapidamente. Ao volante e ao lado – silenciosos como múmias – viajavam

dois indivíduos absolutamente desconhecidos para nós. Vestiam-se à moda árabe

com enormes abba ou albornozes de lã marrom-escuro e, na cabeça, um pano

xadrez vermelho e branco preso com duas voltas de grosso cordão negro. O

motorista, a julgar pelo bigode, cavanhaque e pele escura, devia ser um autêntico

muçulmano. Talvez um beduíno. O outro, ao invés, mais jovem, pele e olhos claros

e nariz proeminente, tinha algumas das características típicas dos sabras.41 Ambos,

por dedução, deviam ser membros do Exército judeu ou – nunca o soubemos –

talvez de algum dos serviços de inteligência de Israel. Mas o importante é que

estavam ali para nos ajudar.

Após vinte minutos de percurso, o Subaru estacionava no restaurante The Tent.

Os controles montados pelos soldados israelitas ao redor da Mesquita da Ascensão

– situada a 20 metros desse restaurante – impediam a passagem de qualquer

veículo não autorizado. E o nosso, ao que parecia, não estava. Estranhei aquilo.

Horas depois, Curtiss nos explicaria o porquê de tão anômala e, até certo ponto,

absurda situação.

Bastou descer do carro, para que o “árabe” de pele branca se dirigisse ao oficial

responsável, mostrando-lhe um documento do qual somente consegui decifrar

algumas palavras em inglês. O resto estava escrito em caracteres orientais. E de

repente comecei a perceber...

Aquele órgão oficial – Santa Custódia – deu-me uma idéia do que haviam

tramado as “altas esferas”. Desde o início dos trabalhos de restauração das

supostamente danificadas fundações do octógono, os membros da Santa Custódia

dos Lugares Sagrados – responsáveis também pela mesquita – vinham controlando

o trabalho dos arqueólogos e especialistas. Aquela visita, portanto, poderia ser interpretada como uma inspeção rotineira feita por qualquer hipotético

“observador” do recinto.

O que desconhecíamos, entretanto, era que o tenente encarregado dos

documentos estava a par da manobra e, obviamente, da verdadeira identidade dos

nossos acompanhantes. Isso explicava por que naquela circunstância tão perigosa

– com a ameaça de um atentado palestino – o oficial israelense nos desse tão

pouca atenção. Depois de simular uma revista, deu ordem para que nos

acompanhassem até o muro que rodeia a capela. Os supostos “árabes”

precederam-nos e, uma vez no interior, fecharam a pequena porta metálica,

fazendo-nos um sinal para que os seguíssemos.

Durante todo o tempo que levamos para localizar e reunir os dois estojos

blindados – com pouco mais de 1 metro de comprimento e um rótulo onde se lia:

“Frágil. Material de laboratório” – que continham as diferentes peças desmontadas

da “vara de Moisés”, nossos protetores não arredaram pé dali.

Às 9 horas, uma vez acomodado o “carregamento” no porta-malas do carro,

este partiu a toda velocidade na direção norte. Vinte minutos depois, no aeroporto

de Jerusalém, um helicóptero da Força Aérea israelense nos levava a Tel Aviv. Às

10h05, após 16 minutos de vôo, aterrissávamos na zona militar do Aeroporto

Internacional de Lod. Ali, no fim da pista, aguardava-nos sorridente o general

Curtiss. Ele mesmo tomou conta das caixas metálicas, confiando sua custódia aos

dois homens do Cavalo de Tróia que deveriam transportá-las à base Edwards, nos

Estados Unidos. Um pouco mais tarde, um vôo regular da TWA decolava, via Roma,

com nosso precioso instrumental. A fase “azul” estava quase concluída.

Durante nosso regresso a Jerusalém sentíamo-nos mais relaxados, e a velha

raposa quis saber como fora a nossa visita à Mesquita da Ascensão. Quando lhe

perguntei por que não haviam dado a óbvia autorização oficial para que o Subaru

estacionasse na praça, simplificando assim as coisas, Curtiss fez-nos a seguinte

observação: a “farsa” fora preparada pela Inteligência israelense com um objetivo

primordial, ou seja, despistar os possíveis informantes da guerrilha palestina, muito

atenta, segundo o Mossad, aos mínimos movimentos dentro e fora da mesquita.

Nesse sentido, a sutileza dos judeus havia chegado ao extremo de utilizar um

automóvel similar ao do árabe encarregado dos souvenirs no escuro interior do

octógono, até mesmo falsificando as placas... Em resumo, dado o íntimo

relacionamento desse muçulmano – cuja identidade silencio por razões óbvias –

com a Santa Custódia, o serviço secreto aconselhou, para essa missão, que o árabe

encarregado da mesquita fosse substituído com automóvel e tudo. Se o “resgate”

da “vara” – concluiu o General – tivesse sido efetuado “abertamente” pelo Exército

israelense ou pelo pessoal norte-americano, seu transporte estaria constantemente

ameaçado. O Mossad advertiu-o com toda clareza, não se responsabilizando pela

segurança do instrumental se seus planos e seus métodos não fossem acatados.

Uma vez concluídas estas explicações, Curtiss não fez mais quaisquer

comentários, embora o houvéssemos instigado. O resto dos 62 quilômetros que separam Tel Aviv de Jerusalém transcorreu em denso silêncio. Sabíamos que o

General estava de posse de novas informações, mas respeitamos seu mutismo,

mesmo estando impacientes para conhecer o desenlace da missão.

Aquilo era uma novidade: Curtiss olhou-nos divertido, mas nada disse. Quando

finalmente nos sentamos no quarto de Eliseu, o General, referindo-se aos três

homens uniformizados que havíamos cumprimentado no corredor junto a nossos

quartos, esclareceu:

– Não se alarmem. São coisas da embaixada... Lá no hall, digo só para informá-

los, há mais deles.

Era a primeira vez que se tomavam medidas tão excepcionais de segurança e,

francamente, ficamos alarmados. Evidentemente, “alguma coisa” não estava

funcionando bem. Contudo, o som do telefone nos obrigaria a deixar para depois

algumas das muitas perguntas que, na minha opinião, tínhamos direito de fazer. O

resto da equipe esperava no restaurante do hotel.

Ao sair do quarto, Curtiss trocou umas breves palavras com um dos funcionários

e, de imediato, dois deles juntaram-se a nós. Apenas iniciado o almoço – sempre

sob a discreta vigilância dos guarda-costas sentados a uma mesa próxima – o

General adiantou-se aos meus pensamentos e intenções:

– Suponho que já saibam da prisão desse guerrilheiro... como se chama?

– Abu Daoud – interveio um dos diretores do projeto.

– Isso mesmo – assentiu Curtiss com um gesto de preocupação. – O governo de

Golda teme uma represália palestina. Portanto, não estranhem – comentou

baixando o tom de voz e apontando discretamente para os funcionários – a adoção

de medidas especiais. Acredito, pessoalmente, que esse incidente pode beneficiar-

nos...

Diante da óbvia consternação dos presentes, concluiu assim sua explanação:

– Esse perigo latente obrigou os israelenses a acelerar o transporte dos

equipamentos para o novo local de assentamento.

– Então – interrompeu Eliseu – já se sabe qual o lugar... Curtiss esboçou um

malicioso sorriso. Esperávamos a resposta com ansiedade. Contudo ela não

aconteceu.

– Há 48 horas. Para ser mais exato, desde a manhã de domingo, pouco depois

que a rede do Mossad foi informada da presença de Daoud na Jordânia.

– E então? – tentávamos pressioná-lo.

– Sinto muito. Peço-lhes um pouco mais de paciência. Às 7 horas da próxima

quinta-feira, dia 22, talvez eu tenha permissão para revelar-lhes o local...

Curtiss percebeu nosso descontentamento e nossa desilusão pela nossa

expressão. Éramos seus homens de confiança... Por que então tal postura absurda?

– ... Compreendam – insistiu, tentando amenizar a clara decepção coletiva. –

São ordens do Estado-Maior israelense. O que sem dúvida posso adiantar-lhes é

que a Operação Eleazar começará amanhã ao anoitecer...

“Eleazar? Amanhã? Que diabos quis dizer?”

Segundo seu costume, Curtiss deixou-nos falar. Quando os ânimos pareciam

serenados, retomou a palavra fazendo duas únicas advertências. Primeira: “O

Exército israelense executaria nessa noite, dia 21, um ataque preventivo que

marcaria o começo da Operação Eleazar”.

Segunda: “Às 6h45 da quinta-feira, todos nós, com nossas bagagens,

deveríamos encontrar-nos no vestíbulo do hotel”.

– Ah! Ia-me esquecendo – concluiu Curtiss, recobrando seu sorriso

tranqüilizador – e com o aspecto de arqueólogos dedicados...

Nenhum dos presentes insistiu. Conhecíamos o veterano militar e não valia a

pena. “Algo” decisivo – isto estava claro fora maquinado nos despachos do Estado-

Maior israelense. Mas, quê? Até que ponto corria perigo a segurança da estação

receptora de fotografias para que o Exército tivesse planejado um ataque

preventivo? Meu Deus! Todos conhecíamos a dureza desses “ataques-surpresa”

israelenses e começamos a temer que o derramamento de sangue não tardaria a

começar. Aquela funesta idéia – tão fora de tudo quanto eu havia aprendido com o

Mestre – não me abandonaria nas próximas horas carregadas de tensão.

Curtiss mudou de assunto, interessando-se pelos detalhes do aparentemente

próximo “salto”. Examinou superficialmente o relatório redigido pela equipe e

depois de o guardar em sua pasta prometeu estudá-lo nessa mesma noite. Vários

dos diretores do programa, logicamente preocupados com uma infinidade de

problemas técnicos, crivaram-no de perguntas. Contudo, o General só respondeu

mais concretamente a uma delas, ou seja, a que se referia ao estoque de

combustível. Sem essa reserva de peróxido de hidrogênio – que deveria chegar dos

Estados Unidos – a nova e fascinante “aventura no tempo” seria inviável.

– Está caminhando – disse enquanto se levantava da mesa, dando assim por

encerradas a refeição e a reunião. – Amanhã, às 8, tornaremos a ver-nos, quando

talvez se possa esclarecer algumas das incógnitas apontadas por vocês. Mas, por

favor, continuem trabalhando no plano... Preocupa-me, em especial, o novo

equipamento de Jasão e o tempo real de permanência do “outro lado”. Venha,

acrescentou, fazendo-me um gesto para que o acompanhasse – tenho um trabalho

extra para você...

E, ao aproximarmo-nos da porta do hotel, Curtiss abriu de novo sua maleta e

dela tirou um pequeno pacote. E antes de entrar no veículo oficial que o esperava

sussurrou-me quase no ouvido:

– Confio na sua total discrição... Quero que você estude isso. Será muito útil a

vocês. Mas, por favor, nenhuma palavra a quem quer que seja. Ao menos, até que

eu o autorize pessoalmente...

Assenti com um gesto. Segundos depois perdia-me na solidão de meu quarto.

Aquela misteriosa incumbência do General havia aguçado novamente minha

curiosidade.

 

O pacote continha quatro livros não muito volumosos. Todos sobre um mesmo

tema. Curtiss, ao selecionar os autores – Flávio Josefo, Adolfo Schulten, Yadin e a antologia formada por Avi-Yonah, N. Avigad, Y. Aharoni, I. Dunayevsky e S.

Guttman – havia buscado, como sempre, a máxima eficiência.

Ao informar-me, através daquelas páginas, das sucessivas expedições

arqueológicas realizadas e dirigidas por esses autores (com exceção, naturalmente,

do judeu romanizado Flávio Josefo) comecei a compreender. “Aquele” lugar

descrito com toda a riqueza de detalhes nas obras que me havia dado o General

tinha de ser o misterioso assentamento da estação receptora de imagens... e do

“berço”. Se assim fosse, a não menos intrigante Operação Eleazar do Exército

israelense também começava a ter um indubitável e inteligente sentido...

Permaneci absorvido no estudo e na leitura daqueles textos, mapas e

fotografias até bem tarde da noite. O que mais me preocupava, então, era a

considerável distância existente entre o “monumento” da história de Israel e o

“ponto de contato” que tínhamos escolhido, em princípio, para a descida do

módulo. Esta circunstância, como disse, poderia multiplicar os riscos da missão.

Mas é justo dizer que também a suposta futura “base” de operações reunia

consideráveis vantagens.42

Somente quando Eliseu reclamou pelo telefone foi que me dei conta de que

havia esquecido meus companheiros. A equipe estava reunida há horas em seu

quarto, ao lado do meu. Não demorei em juntar-me a eles para retomar as

exaustivas revisões do plano. Ninguém me perguntou nada. Entretanto, ao ver

minha expressão grave e preocupada, Eliseu olhou-me com apreensão. Dois dias

depois – já em pleno andamento da Operação Eleazar – recordar-me-ia daquele

momento e de como ele pressentira que eu estava a par de “algo” importante. Ao

nos retirarmos já de madrugada, para repousar, pouco faltou para que eu contasse

ao meu caro companheiro o que Curtiss havia colocado em minhas mãos. Contudo,

o espírito de disciplina impôs-se e deixei que os acontecimentos seguissem seu

curso natural.

Ao contrário do que provavelmente aconteceu com os diretores do programa e

com Eliseu, a tensão nervosa traiu-me. Foi uma noite difícil. Carregada de

presságios. Angustiante. Após remexer-me várias vezes na cama, optei por me

levantar e afundei-me novamente nos livros do General. Aquelas informações

tornaram-se obsessão. Contudo, as longas horas de vigília não foram totalmente

infrutíferas. Ao menos cheguei a uma conclusão que seria de indubitável utilidade

na solução da futura exploração: uma vez consumada a inversão axial das

partículas subatômicas do módulo, este deveria efetuar um vôo horizontal e

manual, até o “ponto de contato” no cume do monte das Oliveiras. Essa seria

minha proposição definitiva.

Às 8 horas da quarta-feira, 21 de fevereiro, depois de uma prolongada e

relaxante ducha, reuni-me no hall com os diretores e com o pontual Curtiss. E

quero ressaltar um fato que descobri naquela manhã, justamente enquanto eu

fazia a toalete, e que então não valorizei na medida justa. Tratava-se de uma série

de manchas em que eu não havia reparado e que salpicavam grandes áreas dos meus ombros, tórax, braços, antebraços e dorso das mãos. O que mais me

surpreendeu, porém, foi a presença de escamas, não muitas, nas pernas (faces

anteriores) e nas zonas dorsais dos antebraços. Jamais me havia acontecido nada

igual, e, na verdade, nesse momento tampouco dei-lhe muita importância.

“Talvez o prolongado uso da ‘pele de serpente’” – pensei “tenha provocado

essas alterações na epiderme...” Felizmente esqueci-me do incidente e nem sequer

cheguei a comentá-lo com meu irmão, nem com o resto dos homens do Cavalo de

Tróia. Se o tivesse feito, e levando em consideração a fatal “descoberta” de Curtiss

pouco antes do lançamento, a missão talvez houvesse naufragado ali mesmo...

Uma vez mais, a sorte esteve do nosso lado.

O General, tal e qual prometera, havia revisado a fundo o projeto elaborado e

redigido pelos diretores da operação e por nós mesmos. Longe, porém, de

esclarecer dúvidas, foi ele quem dedicou boa parte da manhã a interrogar-nos. A

discussão centrou-se, como era previsível, no tempo de permanência do módulo e

de seus tripulantes do “outro lado”. Para alguns chefes do projeto, o ideal seria

uma exploração que não passasse de três dias. Quer dizer, o tempo necessário

para recuperar o microfone. Durante os outros dias, praticamente a maioria de nós

considerou que se tratava de uma ocasião única para tentar desvelar o acontecido

nos quarenta dias que, segundo os escritos evangélicos, transcorreram entre a

morte e a suposta ascensão aos céus de Jesus de Nazaré. A nova missão fora

concebida de tal forma que, além de obter a peça perdida, os “exploradores”

teriam ocasião de verificar algumas das misteriosas “aparições” do Mestre da

Galiléia e, especialmente, analisar a natureza do discutível e discutido “corpo

glorioso”. De fato, a “vara de Moisés” seria preparada para este fim...

Este último critério – o dos quarenta dias – encerrava, não obstante, um sério

inconveniente que todos reconhecemos. Com sorte, esticando ao máximo o período

de montagem do instrumental secreto da estação receptora de imagens, o Cavalo

de Tróia poderia dispor de uma margem de quinze a vinte dias para o lançamento

do “berço”, desenvolvimento da missão e retorno à base. Um tempo insuficiente

Continuar: parte 3 de 9