Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 2 de 10 · parte 3/9

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Cavalo de Tróia 2: Massada

O diário ⠀猀攀最甀渀搀愀 瀀愀爀琀攀)

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

para esclarecer tudo...

A possível solução – que surpreendeu a todos – chegou dessa vez pelas mãos

de Eliseu. Após escutar-nos pacientemente, expôs o que chamou de “via

intermediária”. Consistia basicamente no seguinte: a “ausência” física do módulo,

desde o instante da inversão de massa até o “regresso”, podia estabelecer-se em

quinze ou vinte dias. Mas, uma vez “situados” no domingo, 9 de abril do ano 30, os

expedicionários executariam seu trabalho por um período de tempo indefinido.

Uma vez concluída a exploração, seria questão só de manipular os swivels,

forçando seus eixos no instante escolhido para o retorno e descida... no século XX.

Embora os “astronautas” vivessem física e realmente esses quarenta dias ou mais

no passado, essa manipulação dos swivels tornaria viável o “salto” para o futuro.

Justo no momento “cronológico” fixado para o final da operação.43 “Jogava-se”, por

conseguinte, com dois termos e realidades aparentemente “superpostos” – o tempo “cronológico” que “fluía” em 1973 e o de idêntica natureza que havia “fluído”

em “outro agora”: o do ano 30 da nossa era –, mas que, por causa de nossa

tecnologia, tornavam-se independentes entre si. Outra questão era o tempo

“biológico”. Os cientistas sabem e demonstraram que este obedece a uns

parâmetros que em muitas ocasiões nada têm a ver com os do tempo

“cronológico”. Um ser humano “vê” ou “sente” passar “seu” tempo “cronológico” e,

por sua vez, seus órgãos podem experimentar outro tipo de envelhecimento – o

“biológico” – que não tem por que guardar relação alguma com aquele. Essa foi a

nossa grande incógnita. A sugestão de Eliseu era tecnicamente viável. Entretanto,

nas experiências efetuadas no deserto de Mojave jamais se havia manipulado o

tempo até esses extremos. Ignorávamos, portanto, quais as conseqüências que

poderiam provocar no organismo humano. E isso, evidentemente, preocupava-nos

a todos. Este fato acarretaria a mim e a meu irmão gravíssimos e irreversíveis

danos...

O polêmico assunto ficou finalmente suspenso, esperando um estudo mais

detalhado. Curtiss, nervoso ante os acontecimentos que se aproximavam e que,

lamentavelmente, eram de uma natureza mais prosaica, tinha pressa de encerrar a

reunião.

Antes de desaparecer do Ramada Shalom deu-nos as últimas instruções:

No dia seguinte, às 7 horas, um veículo especial, a mando de um oficial judeu,

passaria para nos apanhar. Até este momento “era aconselhável” que não

saíssemos do hotel.

– Evitem, especialmente, a Mesquita da Ascensão...

(Ao que parece, a Operação Eleazar teria início nessa mesma noite, com o

transporte dos contêineres ali depositados.)

– A hora “H” – acrescentou – coincidirá com um ataque preventivo israelense.

Esse “golpe de força” visa uma dupla finalidade: desviar a atenção dos palestinos e

do povo em geral para a direção oposta à dos comboios da Operação Eleazar.

O General fez uma pausa.

– ... Quanto ao segundo objetivo, amanhã os porei a par... pela imprensa. Eu

não estarei no seu transporte especial. Minha missão agora é velar pela integridade

dos equipamentos. Irei à frente de um dos dois comboios; nos veremos em nossa

“base”. Boa sorte.

Mais uma vez deixou-nos perdidos na incerteza. Que queria dizer ele com

“imprensa”?

 

Aquele foi um dos poucos momentos divertidos da aventura em que estávamos

imersos. Quando, pouco antes das 7 da manhã de quinta-feira, 22 de fevereiro, os

diretores do projeto, Eliseu e eu nos encontramos no hall do hotel, não pudemos

dominar uma solene gargalhada. Nosso “aparato” poderia parecer-se com qualquer

profissão, menos com a sugerida por Curtiss: a de arqueólogo. Mas que isso seja

dito em nosso favor: quem demônios poderia saber qual é a vestimenta mais usual

entre esses esforçados profissionais? O caso é que nos deixamos levar pelo puro instinto ou pelo que cada um lembrava de novelas e filmes relacionados com este

ofício. Por isso, vários de meus colegas apareceram com rudimentares chapéus de

palha (nunca soube onde os conseguiram), grossos casacos – nas cores mais

extravagantes e berrantes que se possa imaginar – pesadas botas militares de

cano alto e, como não!, câmeras fotográficas e cachimbos de duvidosa utilidade.

(Pouparei uma descrição de meu traje, que não diferia muito do dos meus

companheiros.)

Nosso regozijo terminaria logo. Às 7 horas, segundo o previsto, um microônibus

branco, com placa amarela (60-609-72) e com grandes janelas negras, a uma

considerável altura do chão – uns 2 metros –, brecava suavemente em frente do

Ramada Shalom. Prontamente, dele saltou um tenente com as insígnias da Divisão

de Sapadores do Exército de Israel e cumprimentou-nos. O motorista, outro oficial

de Engenharia, tomou conta da bagagem e, sem mais demora, às 7h15 partíamos

rumo ao desconhecido.

Como se tudo tivesse sido meticulosamente planejado, sobre cada uma das

poltronas que devíamos ocupar havia um exemplar do jornal matutino Jerusalem

Post. E, lembrando as palavras do General, lançamo-nos com avidez sobre suas

páginas. O tenente, sentado ao lado do motorista, parecia estar esperando essa

reação de todos. Contudo, não fez comentário algum e limitou-se a perscrutar

nossa expressão.

Meu Deus! Na primeira página, e com letras garrafais, lemos duas notícias que

nos fizeram estremecer. A primeira, tal qual havia prognosticado Curtiss,

correspondia ao ataque preventivo judeu...

“Forças de terra, mar e ar” – rezava a informação – “atacaram na noite passada

vários acampamentos palestinos no Líbano. Foi uma das incursões mais intensas

em território libanês. Ao que parece, há numerosas vítimas. Os objetivos militares

foram os campos de guerrilheiros e bases terroristas contra Israel nas proximidades

de Trípoli, na parte norte do Líbano, a uns 190 quilômetros da fronteira israelita

mais próxima. Duas unidades da Marinha lançaram um intenso bombardeio contra

o acampamento de Nahar el Bard, ao norte de Trípoli. Simultaneamente,

helicópteros judeus aterrissaram em uma área próxima ao acampamento Badawi.”

Não pude evitar. Ao ler a concisa e trágica informação senti-me cúmplice

daquele massacre. Dias depois, ao repassar os jornais norte-americanos atrasados

que chegaram à “base”, pudemos confirmar nossas suspeitas iniciais. Segundo um

telex da agência palestina Prensa Wafa, “inúmeras mulheres e crianças haviam

sido mortas ou feridas naquele ‘golpe’ do Exército judeu em território libanês”.

Segundo os palestinos, o número de mortos era superior a 21. A organização

guerrilheira Al Fatah, por sua parte, sustentara que os serviços jordanianos e

israelenses de espionagem estavam mancomunados na luta contra a causa

palestina.

Naturalmente, a imprensa de Jerusalém “justificava” tal “ataque preventivo”

como “uma medida necessária diante dos planos terroristas dos palestinos descobertos devido às detenções, na Jordânia, de Abu Daoud e seus seguidores”.

Este era o segundo objetivo mencionado pelo general Curtiss. Do primeiro, porém –

a manobra diversionista para tirar o equipamento da Mesquita –, não se dizia uma

só palavra.

Como disse, senti-me deprimido. Eliseu e os demais experimentaram idêntica

sensação. Esses não eram os nossos propósitos. Éramos todos cientistas e homens

de paz... Tínhamos certeza de que deveriam existir outros “métodos” menos

violentos para efetuar um seguro e eficiente transporte do material.

A segunda notícia, tão desoladora quanto a que eu acabara de ler, dizia assim:

“Aviões israelenses derrubaram ontem um avião comercial líbio, Boeing 727,

com os passageiros, ao ser localizado na península do Sinai e negar-se a atender

às ordens de aterrissar”.

As primeiras e confusas informações estimavam setenta passageiros mortos e

treze sobreviventes.

“ ... O avião” – continuava o jornal – “havia caído a uns 20 quilômetros ao leste

do canal de Suez, na zona do Sinai. Helicópteros judeus trasladaram os feridos para

o hospital de Tel Hashomer, em Tel Aviv. O Boeing 727 realizava um vôo regular

de Bahrein – nos Emirados Árabes – para Alexandria, no Egito.”

A única “explicação” para tão lamentável acontecimento foi a seguinte:

“O avião, ao que parece, perdeu a rota, devido às péssimas condições

meteorológicas, invadindo o espaço aéreo de Israel”.

Tanto meus companheiros quanto eu achamos este “raciocínio” da imprensa

judia bastante estranho. Teríamos de esperar por novas informações –

especialmente dos jornais árabes – para saber o que realmente acontecera sobre a

península do Sinai. Ninguém na equipe poderia calcular, então, as gravíssimas

repercussões do triste e casual (?) incidente líbio-israelense. Tanto para as já

tensas relações de Israel com seus vizinhos quanto para a nossa própria missão.

Curtiss tinha feito veladas insinuações sobre o agravamento da situação de “nem

guerra nem paz” existente entre Egito, Síria e Israel. Contudo, para dizer a

verdade, o plano de paz – em três fases – apresentado na segunda-feira, 19 deste

mesmo mês de fevereiro, por Hafiz Ismail, então conselheiro da segurança nacional

egípcia,44 despertou-nos esperanças de uma provável e paulatina melhora das

coisas. De repente, porém, depois do ocorrido com o Boeing 727 da Líbia, as

nuvens negras voltaram...

 

O microônibus prosseguiu pela estrada de Jericó. Nenhum dos que compunham

a expedição parecia disposto a falar. Em parte, devido à atenta vigilância do oficial

judeu; em parte, suponho, porque deprimidos também pelos trágicos

acontecimentos de que acabáramos de tomar conhecimento.

Durante longo tempo meu olhar ficou perdido no céu tempestuoso, que

açoitava o asfalto e os vidros fumê do veículo com furiosas rajadas de chuva. (Era

admirável. A meticulosidade dos israelenses chegava a extremos incríveis. Naquele

microônibus, por exemplo, as vidraças fumê – na verdade eram vidros semi-refletores – só permitiam ver de dentro para fora. O contrário não era possível.

Isto, unido à considerável e calculada altura das janelas, tornava quase impossível

que um helicóptero observador distinguisse quem ou o que viajava em tal veículo.

Por alguns minutos lutei para afastar de minha mente os funestos presságios que

rondavam a futura missão, fixando minha atenção nos detalhes do microônibus, no

temporal, que recrudescia, ou na paisagem. Entretanto, foi inútil. A cada instante

parecia-me ver flashes das sangrentas cenas dos bombardeios ou da derrubada do

avião de passageiros. A velha angústia aflorou e senti um nó na garganta. Nesse

instante, a mão de Eliseu – sentado à minha esquerda – pressionou-me o

antebraço. Não fizemos comentário algum. Meu rosto devia ser um livro aberto...

Perto das 7h45, o microônibus deixou para trás o pedregoso deserto da Judéia.

E as placas amarelas, em hebraico e inglês, vieram a confirmar o que eu já sabia.

Nas proximidades de Almog dobramos à direita, deixando a estreita estrada que

conduz à fronteira da Jordânia. Ao avistar a plácida e esverdeada superfície do mar

Morto, meu companheiro indicou-me em um mapa rodoviário que aquela rota

levava ao Sinai. Estive a ponto de esclarecer suas dúvidas assinalando o local –

justamente defronte ao famoso mar que agora costeávamos – onde, se não estava

enganado, a viagem deveria terminar. Arrependi-me, entretanto e, com um sorriso,

guardei o lápis no bolso do meu pesado casaco. Aquela estrada, de fato, levava até

a cidade mais meridional de Israel: Eliat, à beira do golfo que leva seu nome, às

portas do deserto do Sinai.

O motorista reduziu a velocidade. A intervalos, das escarpadas encostas

avermelhadas que se erguiam à nossa direita corriam pequenas e alvas cascatas

de água que invadiam o asfalto, dificultando a passagem. Os leitos das correntes –

que aumentavam em número e volume conforme nos íamos aproximando de nosso

objetivo – terminavam indefectivelmente nas salgadas águas do mar Morto (400

metros abaixo do nível do Mediterrâneo).

Às 8 horas, quando estávamos a contemplar as famosas cavernas de Qumran –

onde beduínos descobriram os célebres Manuscritos do mar Morto – e com isso

distraíamos em parte nossa tristeza, o rotor de um helicóptero do Exército

devolveu-nos à realidade. Vinha do norte, rastreando, a baixa altura, os 300 metros

de dunas que nos separavam da praia do grande lago. Todos, instintivamente,

dirigimos o olhar para o tenente, mas ele, impassível, limitou-se a dar uma

olhadela no aparelho. Este, após um vôo estacionário de alguns minutos na frente

do microônibus, levantando nuvens de areia e agitando sem piedade os juncos e as

giestas, deslocou-se na direção sul. Ainda que aquela zona, desde o extremo

noroeste do mar Morto, estivesse cercada de arame e repleta de avisos proibindo

os banhos, e tudo ali, enfatizasse o caráter militar da região, todos sentimos o

mesmo: aquele helicóptero não estava efetuando um vôo rotineiro. E o fato de ele

ter-se imobilizado diante do veículo aumentou nossas suspeitas. Não cabia dúvidas.

Nossa viagem estava sob vigilância.

O motorista acelerou, deixando para trás o oásis Ein Gedi. E às 8h20, para surpresa geral, o veículo abandonava a via principal para entrar por um desvio à

direita. No inesperado cruzamento, um enorme cartaz “gritou-nos” o nome de

nosso iminente destino. Um destino que, efetivamente, o General Curtiss já me

havia adiantado...

 

“Massada”!

Um murmúrio quebrou o silêncio do grupo, fascinado ante a súbita aparição – a

oeste – da histórica e altiva rocha. Em pouco mais de oito minutos, o microônibus

percorreu os 3 quilômetros de curvas até a base da grande montanha truncada, à

margem do mar Morto. Com o passar dos séculos, os leitos das correntes de chuva

– como naquele momento, de forte precipitação – haviam esculpido estranhas e

quase mágicas formas entre dunas e montículos ocres e amarelados que cercam

quase toda a formidável “meseta” da Massada.

O lugar não poderia ser melhor nem mais adequado. Tanto para a montagem

da estação receptora de fotos como para nosso verdadeiro objetivo. Isso por dois

motivos. Primeiro, pelas características físicas da isolada montanha, que no seu

lado leste eleva-se a 1.300 pés acima do nível do mar Morto; segundo, pela sua

localização privilegiada: a uns 100 quilômetros ao sul de Jerusalém e a centenas de

quilômetros dos dois focos de atrito (as colinas de Golan, na fronteira com a Síria, e

o Sinai). Aquele “colosso” de rocha, dourada pelo ardente Sol do vizinho deserto da

Judéia, com seu topo plano e em forma de “convés de barco”, tem 633 metros de

comprimento (norte-sul) e outros 216 de leste a oeste, praticamente recortado em

toda a volta, era uma “base” segura, quase inacessível. Ideal para uma operação

como a que nos propúnhamos.

O segundo motivo era mais pessoal e mais importante para os judeus do que

para nós, os homens do Cavalo de Tróia. Na vasta documentação que me havia

dado o General estava detalhada a insólita e emocionante história daquele

gigantesco promontório. A Massada foi o cenário de um dos mais dramáticos e

simbólicos acontecimentos da vida sempre agitada de Israel. No ano 66 da nossa

era, o povo judeu voltou a lutar com armas contra o Império Romano. Aquela

guerra duraria quatro anos, ao cabo dos quais, no ano 70, o general romano Tito

conseguiu vencer a determinação dos defensores de Jerusalém, destruindo a

Cidade Santa. Mas, um último grupo de valentes israelitas refugiou-se no alto da

Massada, resistindo ao cerco romano até a primavera do ano 73.45 No ano 72, o

governador romano Flávio Silva tomou a decisão de esmagar este último e molesto

reduto dos judeus insurrectos. Dirigiu-se, então, à Massada com a Décima Legião,

tropas auxiliares e milhares de prisioneiros israelitas. Ao todo eram em torno de 15

mil homens. Tanto os sitiados quanto os atacantes prepararam-se para um

prolongado assédio. Silva fez construir em torno da Massada oito acampamentos e

uma muralha, impedindo assim qualquer tentativa de fuga. Em vista dos

escarpados que formam as paredes da rocha, os romanos executaram uma

faraônica obra no lado oeste da grande meseta: uma rampa à base de pedras e

terra branca prensada. Quando a rampa – que ainda se conserva – ficou pronta, Silva levantou no seu extremo uma torre de ataque provida de um formidável

aríete e assim conseguiu abrir uma brecha na muralha. Naquela noite – antes da

definitiva conquista da Massada pela legião romana –, os 960 zelotes que

integravam o núcleo de resistência judia tomaram uma heróica decisão. Em um

discurso memorável – relatado pelo historiador Flávio Josefo –,46 o chefe dos

“revolucionários”, Eleazar Ben Yair, ante a difícil situação, decidiu que “uma morte

gloriosa era preferível a uma vida de infâmia, e que a solução mais digna seria a de

rejeitar a idéia de sobreviver à perda de sua liberdade”. E Josefo continua:

“Antes de serem feitos escravos do vencedor, os defensores – 960 homens,

mulheres, anciãos e crianças – ali mesmo tiraram a própria vida com suas mãos.

Quando os romanos chegaram no topo, na manhã seguinte, não encontraram nada

mais além de silêncio...

“E assim encontraram [os romanos]” – concluiu Josefo seu dramático relato –

“a multidão de mortos; contudo, não puderam alegrar-se com isso, muito embora

se tratasse de seus inimigos. Nem tampouco puderam deixar de admirar seu valor,

sua determinação e o frio desprezo pela morte, que tantos deles haviam

demonstrado, levando a cabo uma ação como aquela.”

Somente duas mulheres e cinco crianças salvaram-se do suicídio coletivo

escondendo-se em uma caverna. Foram elas que, segundo o historiador judeu

romanizado, relataram o acontecido.

A Massada, desde então, tem sido e continua sendo um símbolo para o povo de

Israel. Um monumento ao heroísmo e aos homens que preferem a morte à perda

da honra e da liberdade. Essa heróica resistência de Eleazar Ben Yair e dos seus

zelotes fez com que um poeta judeu proclamasse: “Massada, não tornarás a ser

conquistada”.

Era fácil entender por que o governo de Golda Meir – permanentemente

ameaçado por seus vizinhos, os árabes – tivesse escolhido o cimo da Massada

como o assentamento ideal de uma equipe de técnicos e um instrumental que

deveria velar pela segurança e, definitivamente, pela liberdade de todo um povo.

Ali a Operação Eleazar adquirira um profundo e simbólico significado que soubemos

respeitar. Por outros motivos, aquele baluarte também iria representar para o

Cavalo de Tróia um histórico e inesquecível “símbolo”...

Ao pé da Massada, na face leste, os israelenses aproveitaram as péssimas

terras formadas por depósitos de greda sedimentada construindo um incipiente e

florescente complexo turístico orientado para a exploração das “antiguidades” do

cume da grande meseta. Desde que o eminente arqueólogo judeu Yigael Yadin,

catedrático de Arqueologia na Universidade Hebréia, concluíra suas escavações e

trabalhos de restauração (entre os anos 1963 e 1965) na fortaleza rochosa, os

curiosos e visitantes acorreram em grande número. Foi só a partir de 1970, quando

a companhia suíça Willy Graf, de Meilen, instalou um sistema de funiculares juntos

à base da rocha, que o fluxo de turistas tornou-se considerável. O funicular passou

a ser fator de vital importância para nossa tarefa no cimo. Perto das 8h30 daquela quinta-feira, 22 de fevereiro, o microônibus estacionou em uma ampla esplanada

muito próxima da base do funicular e de algumas instalações turísticas bem

modestas. Um forte vento sudeste, com suas rajadas, encharcou-nos de chuva e

nos trouxe um penetrante odor de salitre vindo do mar Morto. Uniformizado e

protegido com uma pesada capa de chuva, Curtiss deu-nos as boas-vindas e

convidou-nos a segui-lo ao albergue de jovens situado a pouco mais de cem

passos. O General parecia satisfeito, o que fez com que a equipe se enchesse de

esperança.

Desde o momento em que descemos do microônibus, chamara-nos atenção a

presença de quatro vetustos caminhões quase caindo aos pedaços, carregados com

enormes blocos de pedra de uma belíssima tonalidade alaranjada. Ao redor,

formando um círculo fechado, vimos também vários veículos militares e um grande

grupo de soldados armados. Sinceramente, de imediato, não associamos aqueles

caminhões de carroçaria verde, sem cobertura, com a Operação Eleazar. Mas os

judeus nos surpreenderiam mais uma vez...

Ao entrarmos no frio albergue, dois oficiais do corpo de engenheiros do Exército

de Israel, que certamente nos aguardavam, puseram-se de pé e nos

cumprimentaram militarmente. Atrás deles haviam sido colocados vários mapas e

fotografias aéreas; todos do cume da Massada.

Após livrar-se de sua encharcada capa verde-oliva, Curtiss serviu-nos

reconfortantes xícaras de café quente. A seu convite, sentamo-nos para examinar

os planos.

– Bem, senhores – iniciou o General, com sua peculiar frieza, com a qual jamais

cheguei a acostumar-me –, como sabem, a Operação Eleazar está em andamento.

Parte dos equipamentos, o primeiro comboio, para ser exato, encontra-se há horas

neste lugar...

Curtiss apontou para “alguma coisa” que devia estar no exterior, na esplanada.

Mas eu e meus companheiros não adivinhamos qual seria o comboio. Diante dos

olhares incrédulos de alguns diretores do programa, o General sorriu, apontou para

os silenciosos oficiais israelenses e esclareceu:

– Compreendo a surpresa dos senhores. Nossos amigos e aliados, com sua

habitual eficiência, arquitetaram uma forma para o transporte desse instrumental,

usando os caminhões que, creio, devem ter visto ao descer do microônibus. –

Curtiss, seguindo um velho costume seu, tratava-nos de “vocês” ou de “senhores”,

segundo seu estado de espírito ou segundo a gravidade do momento. – Pois bem,

agora não há por que ocultar-lhes. Esse tipo de transporte civil, o único autorizado

a cruzar a fronteira jordaniana e chegar a Amã, foi a camuflagem perfeita para tirar

os equipamentos da Mesquita da Ascensão e trazê-los à Massada...

– Mas – interveio Eliseu – esses caminhões só estão carregados de grandes

blocos de pedra alaranjada...

O General não respondeu. Limitou-se a dar uma piscadela de cumplicidade para

os oficiais judeus. E prosseguiu sua explanação:

– Como ia dizendo aos senhores, a Operação Eleazar, em memória de Eleazar

Ben Yair, encontra-se em pleno andamento. Hoje mesmo o número de homens vai

ser completado e no sábado, se Deus quiser, chegará o segundo comboio. O

transporte do instrumental montanha acima terá início às 10 horas. Quer dizer... –

Curtiss consultou seu relógio – daqui a mais ou menos 55 minutos. As ordens são

claras e precisas. Uma vez concluído o transporte do material da base ao topo, nos

instalaremos no alto da rocha. Repito: todos, sem exceção, acamparemos na

Massada...

Alarmou-nos a ênfase usada naquelas últimas palavras. Que quis ele dizer? O

que nos aguardaria naquela desafiadora e nebulosa meseta?

 

– E agora, por favor, prestem atenção.

Curtiss passou a palavra a um dos oficiais.

– Meu nome é Bahat. É um prazer estar a seu serviço como supervisor da

Operação Eleazar. “Oficialmente” fazemos parte de uma nova expedição

arqueológica, patrocinada e dirigida pela Universidade Hebréia de Jerusalém, pela

Sociedade de Exploração da Terra Santa e pelo Departamento de Antiguidades do

governo de Israel. Meu companheiro, o capitão Yefet, é o chefe do acampamento.

Ao término desta breve reunião informativa, os senhores receberão documentos

que os creditam como membros dessa operação... Enquanto permanecermos na

Massada, seus nomes e profissões serão os que figuram nesses documentos.

Minutos após, quando o capitão Yefet distribuiu as falsas identidades, meus

companheiros não se aperceberam de um detalhe que refletia a sutileza dos

serviços secretos israelenses. Ignorando os pormenores das expedições

arqueológicas desenvolvidas antes na Massada – dirigidas pelo General e

arqueólogo Yadin entre 1963 e 1965 –, os homens do Cavalo de Tróia não

descobriram que pelo menos 34 daquelas filiações e profissões correspondiam às

de arquitetos, arqueólogos, restauradores, supervisores e pessoal administrativo

que haviam sido membros das expedições dirigidas por Yadin. Os nomes Bahat e

Yefet, por exemplo, aparecem nos relatos daquelas expedições históricas como

“supervisor” e “chefe de acampamento”. Penso que os judeus não sabiam que eu

estava a par disso. Embora duvide que isso os viesse a preocupar.

– ... Vou-lhes mostrar o novo assentamento.

O suposto Bahat – nunca viemos a saber se era esse seu real nome – apontou

para uma das enormes fotografias aéreas do cume da Massada.

– Observem que se trata de uma considerável meseta, em forma rombóide ou

de “convés de barco”. Mede aproximadamente 633 metros de norte a sul e 216, de

leste a oeste. Pouco mais da metade norte dessa plataforma natural encontra-se

“ocupada” pelas ruínas de palácios, armazéns, sinagogas etc., edificados por

Herodes, o Grande, pelos zelotes e pelos monges bizantinos que mais tarde

tomaram posse da Massada. O resto, pouco menos da metade sul, quase não

apresenta edificações, à exceção do “banho ritual”, do acesso a uma cisterna

subterrânea – a chamada “grande lagoa” – e, logicamente, das ruínas da muralha que cercava o cume.

O oficial ia mostrando na foto cada uma dessas relíquias arqueológicas.

– Pois bem, depois de estudar o terreno e as nossas necessidades, a zona

eleita para o assentamento da estação receptora de imagens do satélite Big Bird

foi esta: o sul da meseta.

Bahat dirigiu-se, então, a um dos mapas topográficos, o que reproduzia o cume

em escala, e completou sua exposição:

– Notarão que o assentamento guarda semelhanças com um triângulo isósceles

quase perfeito. Ali nos movimentaremos. As dimensões são mais do que suficientes

para nossos propósitos: pouco menos que 4.500 m2, descontada a superfície das

ruínas de que já lhes falei.

O oficial dispensou mais alguns minutos com diversos aspectos relacionados à

segurança do acampamento Eleazar – e a outros de que em breve falarei –,

passando de imediato às perguntas.

Na realidade, as dúvidas dos presentes centralizavam-se em assuntos que nada

tinham a ver com toda aquela preparação, que cabia aos judeus. Por essa razão, as

perguntas foram tão poucas quanto simples. Contudo, uma pergunta, feita por um

dos diretores do projeto, era bastante procedente, dados nossos objetivos

secretos:

– Se o cume da Massada continua aberto ao turismo, com que tipo de

segurança será executada a Operação Eleazar?

O oficial israelense parecia estar esperando essa pergunta.

– Temos pensado muito sobre esta questão – explicou. – Em uma primeira

fase, nosso governo chegou a pensar na possibilidade de fechar a Massada ao

turismo e aos visitantes em geral. As avaliações da Inteligência, porém, mudaram

essa alternativa. Nesta época, a afluência de curiosos não é significativa. Por outro

lado, como observarão durante a subida, todas as possíveis medidas de segurança

foram adotadas. Embora apenas formemos um “esforçado grupo de arqueólogos”,

entre o pessoal do acampamento Eleazar haverá um destacamento permanente,

secreto, encarregado da vigilância interna e externa.

Adotando um tom tranqüilizador, Bahat acrescentou:

– Não devem alarmar-se. Tal qual aconteceu com o primeiro assentamento na

Mesquita da Ascensão, nosso governo não poupará meios para que seu trabalho se

desenvolva com um mínimo de comodidade e tranqüilidade.

Aquela firmeza do oficial judeu fez-me tremer. Que haveriam preparado no alto

da montanha?

– Certamente – concluiu –, durante os próximos dias, até que o último

contêiner seja depositado no acampamento, a Massada permanecerá fechada.

Calculamos que já no próximo domingo a situação esteja normalizada. De acordo

com nossas previsões, o mau tempo reinante nos favorece. É mais do que provável

que entre hoje e amanhã as violentas correntes de água que descem das

montanhas, e que vocês tiveram ocasião de ver durante a viagem, “obriguem” a sucessivos e “lamentáveis” fechamentos da estrada... Isso tornará mais simples a

suspensão temporária das visitas às ruínas arqueológicas. Creio haver-me

expressado com clareza.

A verdadeira intenção de algumas das palavras ditas por Bahat, e que coloquei

entre aspas, não deixava lugar a dúvidas. As intensas chuvas de fevereiro

provocavam naquela região freqüentes deslizamentos ou inundações. Não soaria

de todo estranho, portanto, que a estrada sul que leva ao mar Morto, Ein Hatzeva,

Ein Yahav e Eliat viesse a ser afetada por essas abundantes águas que descem dos

escarpados do deserto da Judéia.

Ao término da reunião, o chefe do acampamento passou a distribuir os falsos

documentos de identidade, assim como nossas capas de chuva; mas, requisitou

todas as nossas câmeras fotográficas. Cumprindo as instruções de Curtiss, o

acompanhamos depois até a plataforma-base do funicular. A chuva havia parado,

mas o vento continuava. Eram quase 10 horas da manhã.

Ao cruzar a esplanada percebemos que os caminhões já não estavam no local.

Também não vimos movimentação de turistas ou visitantes. A explicação para a

misteriosa desaparição dos caminhões não tardaria a chegar.

Os responsáveis pela Operação Eleazar estacionaram os caminhões ao pé da

casamata que abrigava as duas cabinas do funicular. Por meio de uma poderosa

grua instalada em um transporte militar, os blocos de pedra cor-de-laranja

começaram a ser içados dos caminhões e depositados sobre umas pequenas bases

quadradas ou retangulares providas de rodas e que eram rapidamente introduzidas

no interior das cabines do funicular. Antes disso, a porta de correr de cada módulo

já havia sido desmontada, facilitando assim o acesso dos aparentemente pesados

blocos de pedra. O lugar estava cercado pelo pelotão de soldados que víramos um

pouco antes junto dos caminhões. Meus companheiros e eu começamos a

entender...

Um após outro, uma vez carregados com os blocos, os funiculares saíam da

base e subiam para o cume da Massada. A laboriosa operação – como pudemos

experimentar pessoalmente no transporte do último carregamento – sem dúvida

tinha os seus riscos. Principalmente se o vento alcançasse 60 quilômetros por hora.

Neste caso, a cabine poderia sofrer um perigoso balanceio. E uma queda de 262

metros seria fatal...

Essa possibilidade obrigou a que se fizesse um bom número de pausas no

transporte dos blocos. A cada instante, os militares israelenses destacados no cume

do penedo comunicavam-se pelo rádio com seus companheiros na base do

funicular, informando sobre as variações dos anemocinemógrafos.47

O conhecimento preciso da velocidade e direção dos ventos era vital. Se a

velocidade fosse inferior aos 60 quilômetros horários, o funicular empreendia a

subida.

Às 13 horas, aproveitando o transporte dos últimos blocos, a equipe principal

do Cavalo de Tróia (doze dos 61 membros) embarcou nas cabines, rumo ao topo. Fui com Curtiss e três oficiais judeus. O funicular em que subimos – o vermelho –

estava praticamente ocupado pela última das 26 “misteriosas pedras” que já

haviam sido enviadas ao alto da rocha; nunca esquecerei aqueles tensos

momentos...

Após termos percorrido a metade dos 799 metros de ascensão, o interfone do

condutor soou. O militar que substituíra o vigilante e condutor habitual do funicular

respondeu com um seco e preocupante “De acordo!... paramos!”

E a cabina ficou imóvel no vazio, a uns 238 metros de altura. Talvez a

expressão “imóvel” não seja correta, porque as rajadas de vento começaram a

assobiar entre os cabos, fazendo-nos cirandar como plumas.

Os judeus inspecionaram a posição da pedra, e ao verem minha palidez,

sorriram zombeteiramente.

Próximo que estava das barras horizontais de segurança, evitei olhar para o

abismo, concentrando minha atenção na quase ausente “decoração” da frágil

cabina.

“Carga máxima: 40 mais uma pessoa, ou 2.600 quilos.”

“Não fumar.”

“Meu Deus”, pensei, “será que os ganchos vão resistir a essa tensão?” O vento

sul continuava golpeando-nos e fazia ranger o L metálico que unia o teto do

funicular ao grosso cabo de aço.

Instintivamente desviei o olhar do segundo cartaz: “262 metros: queda

vertical”.

Quem será que teve a idéia de colocar ali um aviso tão macabro?

“Capacidade por hora: 640 pessoas.”

A cabine continuava bamboleando, a comprometer nosso já precário equilíbrio.

Tentei aplacar o medo – por que ocultá-lo? – enredando-me em um inútil cálculo

mental:

“Se a extensão é de quase 800 metros e a capacidade máxima por viagem é de

41 pessoas... isso significa um total de 15 viagens por hora ou, o que é a mesma

coisa, um descarregamento a cada 4 minutos... Caso estejamos mais ou menos na

metade do caminho, ainda faltam uns 2 minutos ou mais para pisar nesse maldito

cume...”

“Hegeman-Harris C.O. N. York.”

“Esse deve ser o fabricante” – pensei – “ou serão os suíços?”

Dava no mesmo. A única coisa que eu desejava era que os materiais

resistissem. Sem perceber, estava praticando um dos sistemas de

“descongestionamento mental” para situações de emergência, que são ensinados a

todos os astronautas americanos no Instituto da Força Aérea, em Ohio. Tratava-se,

sem perder de vista o problema principal, de desviar dele a atenção do piloto,

evitando com isso uma queda emocional.

O General provavelmente adivinhou o que se passava dentro de mim. E,

apontando para as fotografias de uns rapazes e um pequeno vaso com um cravo – tudo isso sobre o painel de comando do condutor –, brincou com os oficiais

perguntando-lhes se aquilo (propriedade, sem dúvida de algum dos condutores

oficiais) “fazia parte também da Operação Eleazar”.

Os militares israelenses aceitaram com prazer o descontraído comentário,

esquecendo por alguns instantes nossa delicada situação. A verdade é que os

meticulosos judeus corrigiram o pequeno descuido ao chegar no cume, fazendo

desaparecer da cabine os retratos e a flor.

Finalmente, o vento amainou e o toque do interfone deu-nos o sinal esperado

para retomar a subida.

 

Perto das 14 horas – depois de suportar os dez longos minutos da “violenta

imobilização” sobre o abismo – a cabina número 2 estacionou na plataforma de

embarque da montanha, a 60 pés abaixo do cume. Poucas vezes em minha vida

desejei com tanta ansiedade pisar em terra firme...

Os engenheiros militares judeus e o resto de nossos amigos aguardavam-nos

com impaciência. E, sem demora, os técnicos desembarcaram a pedra alaranjada,

fazendo-a rolar da plataforma até a estreita passarela de terra existente entre o

terminal do funicular e a encosta avermelhada da Massada. As barreiras de ferro

que regulam a entrada e a saída dos passageiros das cabines também foram

desmontadas, para facilitar a movimentação dos blocos. Fiquei perplexo. Acima de

nossas cabeças, na borda do cume, os israelenses haviam montado uma grua –

tipo pena – que, em questão de minutos, começou a içar a carga. Dessa forma

resolvia-se o incômodo desnível que separa o terminal da meseta propriamente

dita. Ao percorrer os 120 metros do passadiço que sobe pela face leste da Massada

– o único acesso que vai da base do funicular ao cume – concluí que o transporte

dos blocos, se feito por ali, teria sido tão penoso quanto ineficiente. No extremo

dessa passarela, de 3 metros de largura, havia uma reduzida casamata de cimento

– local de controle e de venda dos ingressos para as ruínas – que também poderia

ter impedido a passagem das pedras.

Quando, finalmente, chegamos ao topo, um misto de emoção e curiosidade

tomou conta de toda a equipe. O vento continuava açoitando aquela incrível

plataforma natural, trazendo do sul densa neblina que se arrastava lentamente

pela areia e pela terra ressequida do cume. Aquele seria o nosso ponto de

lançamento, salvo eventuais mudanças de plano. A árida e majestosa beleza da

Massada cativava-me minuto a minuto.

Ao oeste, recortavam-se as suaves “corcovas” e os alcantilados amarelados do

deserto da Judéia, milagrosamente vivos e em movimento, graças às dezenas de

cascatas e rios pluviais que desciam em direção à margem ocidental do mar Morto.

Durante minha estada na Massada pude ver como os wadi alimentavam com suas

águas turbulentas as gigantescas cisternas mandadas escavar na rocha viva por

Herodes, o Grande.

A uns 3 quilômetros, em frente à fortaleza, na direção leste, as águas verde-

azuis do mar Morto refletiam toda a paisagem como um espelho. Por vezes, raios do Sol conseguiam varar as baixas nuvens negras e chegar à superfície do lago

salgado com as cores do céu ao entardecer. Ao longe, à beira-mar, achava-se o

oásis de Ein-Gedi.

Curtiss, porém, afastou-me desses primeiros contatos com a região. A equipe

do Cavalo de Tróia já se encaminhava para a zona sul da meseta, na companhia do

chefe do acampamento e de Bahat, o supervisor.

Era incrível! Junto à grua estava empilhada boa parte dos blocos trasladados

pelo funicular. Vários tratores especiais transportavam as pedras pelo centro da

meseta, até a longa paliçada que separava a parte sul da norte. Mas como haviam

conseguido colocar aquelas máquinas pesadas no alto da rocha? Claro estava que

não subiram sozinhas, e muito menos pelo funicular, pois não caberiam. A

explicação me foi dada naquela mesma noite...

A paliçada – porque realmente se tratava de uma paliçada – fora erguida pelos

judeus com grossos troncos firmemente fincados na terra. A altura – uns 4 metros –

era suficiente para que nada do que viesse a acontecer na face sul pudesse ser

visto do outro lado, desde as ruínas do norte.

Ao atravessar o largo portal dessa paliçada por onde passavam os tratores, vi

um espetáculo insólito. À direita desse único acesso, bem junto dos restos da

muralha que cercava a Massada a oeste, o Exército israelense instalara dez

grandes barracas de campanha, alinhadas em duas fileiras. Em continuação, e

seguindo também a linha da casamata herodiana, os judeus haviam armado dois

barracões. Um deles, a curta distância das negras e quadradas tendas, já servia de

refeitório para os técnicos e militares. A julgar pelo que vi, já deveria fazer algum

tempo que ali estava. O outro, bem menor, achava-se a uns 20 metros do primeiro

e praticamente encostado à chamada “grande lagoa”, uma das poucas ruínas

arqueológicas que – como nos informou o oficial – estava dentro do triângulo

isósceles que constituía o acampamento Eleazar.

Mas, o que chamou mesmo a atenção do grupo foi uma enorme escavação – já

concluída – aberta no centro geométrico do triângulo. Media 50 metros de

comprimento por 30 de largura e 10 de profundidade. A impressionante “piscina”

deixou-nos atônitos.

No momento, não sabíamos se o General estava a par daquela intrigante e

audaciosa escavação. Ao nos aproximarmos, porém, observamos que no fundo

havia alguns dos blocos alaranjados. Começamos, então, a perceber a verdadeira

finalidade do fosso. Outra potente grua, estacionada na borda norte da escavação,

apanhava os blocos e depositava-os no leito da “piscina”, cujas paredes e fundo

haviam sido cuidadosamente cimentados e cobertos por chapas de material

isolante. A sudoeste do fosso, um grupo de trabalhadores iluminava o fundo do

tanque com as deslumbrantes labaredas azuladas dos maçaricos.

Alguns diretores do programa trocaram olhares inquisitivos comigo e com

Eliseu, buscando uma explicação para tal obra. Mas ninguém se atreveu a formular

qualquer hipótese. Às nossas costas, ao pé da paliçada, empilhavam-se centenas de sacos que, presumi, deveriam conter as toneladas de terra extraídas do enorme

fosso.

Silenciosos, os oficiais judeus divertiam-se com nossas conjecturas. Após alguns

minutos, Yefet, o chefe de tão estranho acampamento, convidou-nos a ir para o

refeitório. O almoço estava pronto. Lá, finalmente, tiramos todas as dúvidas.

 

Embora não houvesse calefação, a comida em abundância e o vinho do Hebron

acalmaram os ânimos, fazendo-nos esquecer momentaneamente a torrente de

interrogações acumuladas desde que pisamos na Massada. À hora do café, quando

todos os engenheiros e militares judeus terminaram a refeição e voltaram às suas

tarefas, Bahat, o supervisor, trancou a porta a chave. Foi então que o general

Curtiss tomou a palavra e dirigiu-se à equipe:

– Sei que estão pensando em uma infinidade de perguntas – falou em tom

pausado. Parte do material, como lhes disse, já se encontra no acampamento...

A velha raposa fez uma pausa enquanto observava nossas expressões.

– Suponho que me tomarão por louco – juntou ele, reforçando

intencionalmente o ar de mistério que já envolvia tudo. – Há, aqui, somente

pedras, os senhores me dirão, sólidos blocos de rocha dolomítica alaranjada... Sim

e não. Seguindo estritamente um plano israelense, os dois terços do instrumental

da estação de fotografias foram transportados para cima desta montanha,

camuflados no interior dos falsos blocos de pedra... Como sabem, esses caminhões

e esse tipo de carregamento são os únicos autorizados a cruzar a fronteira com a

Jordânia, chegando habitualmente até Amã. Dificilmente alguém viria a suspeitar

de maciços cubos pétreos na aparência... Quanto ao resto do equipamento –

prosseguiu, dirigindo-se a dois oficiais israelenses sentados à mesa –, se não

houver inconveniente, estará aqui no alto da rocha na manhã de sábado...

seguindo outro tipo de “via”.

Bahat e Yefet assentiram.

– Até então – continuou o chefe do Cavalo de Tróia – nossa missão será muito

simples: esperar. Amanhã, talvez a essa mesma hora, o grupo do gerador elétrico

entre em funcionamento...

– Assim é o previsto – disse o chefe do acampamento, como se buscasse nossa

indulgência. – Será desembarcado hoje mesmo. Pedimos-lhes que nos desculpem o

atraso.

“Desembarcado”? A quase 426 metros de altitude? Como?

Os judeus são capazes de tudo. Nesse ponto, ninguém se atreveu a perguntar

nada.

– ... A imediata e lógica pergunta – continuou Curtiss – é onde e quando será

montada a estação receptora. Por razões de segurança, e também seguindo as

instruções do governo de Golda, dessa vez não haverá hangares ao ar livre.

O General percebeu nossa estranheza. E, apanhando de sua inseparável pasta

um envelope branco com a inconfundível estrela azul de seis pontas – emblema do

Estado de Israel –, tirou dele uma planta pormenorizada do fosso.

Não foram necessárias muitas explicações. Curtiss apontava para o centro da

“piscina” – assim a definiríamos no jargão do Cavalo de Tróia –, convidando-nos a

examiná-la. A escavação, tal qual pensáramos, não era outra coisa senão o

receptáculo para a estação receptora de fotografias.

Vinte metros do fosso comportariam o grosso dos equipamentos: consoles

autônomos operacionais (número 1 e 2), painéis de comando (de distribuição e

alimentação elétrica), material de telefonia e rádio, armários de telecomunicações

e conversão digital de sinais do satélite,48 receptores especiais, transmissores da

faixa “S”, monitores de televisão, sub-controladores de tempo, climatizadores etc.

Os restantes 30 metros da “piscina” achavam-se divididos em dois setores: ao

longo da parede sul (ocupando uma superfície de 2 x 10 metros) haviam sido

dispostos os laboratórios para revelação de fotos, uma seção auxiliar de telemetria,

armários para gravadores de fitas magnéticas (largas ou estreitas) e impressoras

ultra-rápidas, capazes de ler e imprimir dados à razão de 80 mil dígitos por minuto.

O restante da faixa sul (de 2 x 20 metros) era usado como depósito de hélio.

O espaço existente entre essas “baterias” de instrumentos encontrava-se

praticamente vazio. No total, quase um quadrado de 28 metros por 25. Aquela era

outra das “novidades” da Operação Eleazar: nessa área no centro da “piscina” seria

colocada uma antena parabólica orientável de 26 metros, capaz de seguir

automaticamente o Big Bird e receber sinais desde 100 quilômetros.49 O GSFC50

havia recomendado, desde o início da operação, a utilização desse tipo de antena.

Entretanto, por razões de espaço, não fora viável na Mesquita da Ascensão. A

verdade é que a inesperada e rápida desmontagem das instalações não havia

permitido sequer a montagem das antenas rastreadoras de varredura de fase, que

deveriam substituir a aconselhada pelo Centro de Vôos Espaciais Goddard.

Uma vez concluída a montagem da estação, a “piscina” fora dotada de um

engenhoso sistema para fechá-la – acionado manualmente ou por eletricidade –

que vedava completamente o grande fosso. Os israelenses nos deram mais

detalhes a esse respeito. A cobertura, que corria sobre roldanas, foi projetada

tendo em vista um tipo de lâmina dupla de vidro plastificado, de grande dureza e

ductilidade, que permitia a passagem dos sinais radioelétricos procedentes do Big

Bird. Isso, especialmente nas transmissões diurnas, favorecia a camuflagem da

estação. No caso de recepções noturnas, a cobertura podia ser retirada, deixando

exposta a superfície ocupada pela antena parabólica. Pintada de preto, a antena

era praticamente invisível a qualquer hipotético avião de reconhecimento inimigo.

Quando a montagem do instrumental foi concluída, ficamos maravilhados. A

sagacidade e meticulosidade dos israelenses os levavam ao extremo de pintar a

cobertura com a mesma cor da terra – ocre amarelado – que cobria a meseta. Aqui

e acolá, com uma paciência beneditina, os engenheiros militares foram colando

sobre essa cobertura uma infinidade de pedrinhas recolhidas na zona norte do

cume, que proporcionavam à falsa superfície um mimetismo invejável.

Quando o deserto da Judéia ficava avermelhado, aos últimos raios do Sol, os trabalhos no acampamento Eleazar eram interrompidos. A falta de fornecimento da

energia elétrica tornava difícil e perigosa a movimentação dos tratores e da grua.

Para piorar, as chuvas e os ventos fortes continuavam castigando o cume da

Massada. De comum acordo, recolhíamo-nos cedo às barracas que nos haviam sido

destinadas. Cada um daqueles incômodos alojamentos, feitos de resistente lona

preta, daria abrigo, daí por diante, a dez membros da suposta operação

arqueológica. Sagazmente, os judeus fizeram com que um ou dois de seus homens

compartilhassem conosco desses abrigos de campanha. Dessa forma, poderiam

estar a par de nossas conversas e propósitos. Tal circunstância provocou na equipe

do Cavalo de Tróia alguns momentos de tensão. Entretanto, soubemos resistir a

esta sutil espionagem...

 

A tênue claridade do lampião de gás que pendia do teto da barraca e o forte

ulular do vento entre as lonas levaram meus pensamentos, mais uma vez, para Ele.

Não havia dúvidas: sua imagem e suas palavras já eram parte do meu próprio ser.

E uma doce melancolia foi-me invadindo. Somente com muito esforço consegui

voltar à realidade. Foi então que esse estranho sentimento desapareceu para dar

lugar a muitas dúvidas que me assaltavam. Uma, em especial, não me deixava

conciliar o sono: “Como faríamos para lançar o ‘berço’ de dentro do fosso?” A

antena parabólica – embora pudesse ser desmontada – constituía-se em um sério

obstáculo...

De repente, perto das 9 horas, um ensurdecedor estrondo tirou o acampamento

de seu repouso forçado. Em uníssono, eu e os sete norte-americanos e os dois

israelenses que dormíamos naquela tenda precipitamo-nos para a saída.

Uma incrível agitação apoderou-se da meia centena de homens que ocupava a

base. Em meio à escuridão e à implacável chuva, a pouca distância, não mais que

10 ou 20 metros sobre nossas cabeças, quatro potentes refletores iluminavam a

extremidade sul do acampamento Eleazar. O ruído dos motores e as luzes

vermelhas e verdes intermitentes fizeram-nos perceber que se tratava de dois

poderosos helicópteros. Estavam no estacionário, entre o fosso e as escadas de

pedra que conduziam à cisterna subterrânea. Ao nos aproximarmos, graças à

extraordinária potência dos quatro faróis instalados na parte de baixo dos

aparelhos, vimos que dos CH-47 Chinook – helicópteros de transporte utilizados

pela Marinha israelense – pendiam enormes embalagens. Pouco a pouco, seguindo

as indicações do pessoal que estava em terra, as cargas foram liberadas. E,

rapidamente, cumprida a missão, os Chinook desligaram as luzes e, redobrando a

potência dos rotores, desapareceram ao norte, em meio às temíveis rajadas de

vento e chuva. Na manhã seguinte, quando vimos o peso, volume e natureza do

transporte, não pude deixar de admirar aqueles audazes pilotos judeus.

Calados, voltamos às tendas, à espera do novo amanhecer com impaciência. E,

na verdade, aquela sexta-feira, 23 de fevereiro de 1973, seria um dia não só de

trabalho, mas também de surpresas.

A primeira delas chegou com o amanhecer. Perto das 6h45, depois de uma noite intranqüila, em que quase não consegui conciliar o sono, ao chegar à porta da

barraca testemunhei um espetáculo inesperado. Como por milagre, em muitas

áreas do acampamento e do resto do cume surgiram flores de todas as cores. Era

admirável. Em questão de horas, fruto das torrenciais chuvas, a meseta estava

florida, adornada com milhares de brilhantes e cheirosas flores amarelas e

vermelhas e folhagens verdes. Nas áreas mais baixas, o temporal deixara imensos

charcos, transformando o terreno em um verdadeiro lodaçal. Apesar de a Massada

e seus arredores – o mar Morto à direita, o deserto da Judéia à esquerda – serem

muito ressequidos, a realidade que vira surgir diante de meus olhos confirmava as

palavras de Flávio Josefo quando, 1.900 anos antes, descreveu essas salvadoras

chuvas.51

A segunda surpresa ocorreu ao penetrar no barracão que servia para duchas,

latrinas e asseio em geral. Como já comentei, havia sido edificado quase parede

contra parede com a peça retangular conhecida como “grande lagoa”. Aquele foi

outro dos múltiplos detalhes que me haviam passado inadvertidos durante a

primeira estada no acampamento.

Além da falta de energia elétrica no alto do rochedo, um dos principais

problemas, no momento de preparar o assentamento da estação receptora de

imagens, foi a falta de água. Certamente, segundo nos iam explicando os técnicos

israelenses, ambos os problemas podiam ter sido resolvidos – sempre parcialmente

– com a ocupação das instalações situadas a leste da montanha, no local do

funicular. Mas isso, com as quilométricas extensões de cabos e tubulações, teria

sido tão complicado quanto “escandaloso”. O suprimento de energia elétrica, além

do mais, seria claramente insuficiente para o elevado consumo da estação. Por isso

tudo, depois de estudar exaustivamente os dois assuntos, o governo israelense se

decidira pelo transporte, até o alto da Massada, de geradores. O segundo obstáculo

– o da água – foi resolvido da forma como o haviam feito as expedições de Yadin

nos anos de 1963 a 1965. A uns 6 quilômetros a oeste da montanha existia uma

rede de tubulações que havia sido de propriedade da empresa Nafta Oil e servira, à

época, para prospecções. Seguindo instruções do Exército israelense, a Mekorot

(Companhia Nacional de Águas) havia instalado uma tubulação mais delgada, que

solucionou os problemas de Yadin, e agora, oito anos depois, os nossos. Tal

tubulação subia até o alto da Massada, correndo paralelamente à rampa romana.

No ponto onde terminava – no extremo noroeste –, os engenheiros ligaram várias

centenas de metros de novos tubos, ocultos sob o piso de terra da casamata ou

muralha de muro duplo que corre pela face oeste da meseta. Ao mesmo tempo, o

interior da “grande lagoa” havia sido aproveitado para a montagem de depósitos,

com a capacidade de 120 mil litros. Por último, os israelenses os haviam

camuflado, cobrindo a “grande lagoa” com o emprego de caniços. Dessa forma, o

suprimento de água potável ao acampamento e aos complexos sistemas de

refrigeração ou alimentação dos equipamentos estava amplamente assegurado.

(Na hipótese de avaria, o tanque oculto entre as paredes retangulares da “lagoa” podia satisfazer às necessidades da estação – sempre uma prioridade – por espaço

de seis ou sete dias.)

Concluído o desjejum, Curtiss e o restante da equipe ofereceram sua

colaboração aos técnicos israelenses nas tarefas que julgaram oportunas. Yefet,

porém, depois de agradecer nossa sincera e excelente disposição, não aceitou,

alegando que aquelas não eram as ordens. O Sol pairava, já, sobre as colinas azuis

de Moab, rumo a um céu transparente. O vento havia cessado e o dia, enfim,

parecia apresentar-se tépido e aprazível.

Minutos antes do desjejum, os oficiais destacados na base do funicular haviam

feito contato pelo rádio com o acampamento, informando o General sobre as

razões do atraso da meia centena de homens que completava a expedição da

Operação Cavalo de Tróia, e que, segundo Curtiss, deveria ter chegado à Massada

na noite anterior. Talvez o carro que os trasladaria desde Jerusalém tivesse sido

obrigado a retornar, por causa dos cortes na estrada.

“Sua incorporação ao acampamento Eleazar” – concluíram os militares – “dar-

se-ia ainda de manhã.”

Ignorávamos, até o momento, as “más novas” que nos trariam aqueles

compatriotas e companheiros...

Já que nossas obrigações eram quase nulas, cada qual se dedicou ao que achou

mais conveniente. Curtiss e vários diretores fecharam-se na tenda que fazia as

vezes de estação de rádio e os demais optaram por descansar ou vagar pelo

rochedo, sempre debaixo da discreta vigilância de alguns israelenses, que se

ofereceram, “encantados”, como improvisados guias turísticos.

Eliseu e eu, de comum acordo, ocupamos boa parte da manhã no meticuloso

reconhecimento do perfil e da topografia do triângulo que constituía nossa base.

Desde o amanhecer o acampamento havia recuperado seu intenso ritmo de

trabalho. Os tratores levados para o alto da meseta pelos helicópteros prosseguiam

no febril transporte das pedras alaranjadas que eram colocadas pela grua no fundo

da “piscina”. Boa parte dos engenheiros e técnicos israelenses dedicava todo seu

esforço e atenção aos gigantescas caixas de aço baixados pelos Chinook. Um deles

continha um potente equipamento eletrogêneo, de continuidade, o verdadeiro

“coração” do acampamento. Sem aquele gerador, tudo haveria sido inútil. Os

israelenses o sabiam e se apressaram a retirá-lo da superfície do rochedo,

transportando o motor, o alternador, o tabuleiro, os painéis de comando, os

sistemas de filtragem e tudo mais ao fundo da cisterna subterrânea. Até nisso

tiveram sorte os israelenses e, indiretamente, o Cavalo de Tróia. A localização do

gerador havia representado um árduo problema. Por elementares razões de

segurança não podia ficar à vista nem ser colocado na “piscina”, junto aos

delicados instrumentos da estação receptora. As constantes vibrações, além do

ruído do motor, teriam interferido nos equipamentos e causado uma série de

inconvenientes desnecessários. Por isso, ao estudar o subsolo e a configuração da

zona sul da meseta, os experts não hesitaram em escolher a cisterna subterrânea como o esconderijo ideal para o complexo eletrogêneo e o correspondente tanque

de gasóleo para o diário. A gigantesca cisterna, perfurada no penhasco por ordem

de Herodes, o Grande, tem uma capacidade de 42.672 metros cúbicos. É uma

formidável “sala” de 8 metros de altura, à qual se chega por escadas igualmente

conquistadas à rocha. Para lá, enfim, foi levado, e imediatamente montado, o

flamante gerador – tipo 16 cilindros (V), da série 149, fabricado pela General

Motors –, com uma potência de 1.200 KVA ou 1.300 HP e uma voltagem de saída

de 30 mil volts. (Com semelhante “monstro” é possível suprir as principais

instalações de um aeroporto de tipo médio.) Foi assombroso. Aquelas 10 toneladas

– em seco, isto é, sem água e sem combustível – foram montadas e postas em

condições de entrar em ação em 24 horas. A perícia dos engenheiros,

especialmente na decisiva operação de alinhamento do motor e do alternador, foi

notável.

Por último, um feixe de cabos, enterrados a 1 metro de profundidade e

cuidadosamente isolados, foi distribuído pelo acampamento, pronto para “dar vida”

aos diferentes serviços. Aproveitando duas grandes aberturas no teto da cisterna

subterrânea – pelas quais no passado penetrava a água e que são visíveis sobre o

escarpado sudeste da montanha –, os especialistas israelenses montaram,

igualmente, um poderoso sistema de extratores e ventiladores, proporcionando,

assim, uma contínua e eficaz renovação do ar. 52 Ainda que Charlie – assim

batizamos o gerador – apenas produzisse vapor, tanto a tubulação de escapamento

de gases como o restante do complexo de aeração foram dotados de diferentes

grelhas de filtragem. Se chegasse a ocorrer um escape de fumaça ou qualquer

fonte de calor, um hipotético inimigo teria sabido que “algo” anormal estava

havendo nas entranhas da Massada.

A segunda gigantesca caixa depositada pelos helicópteros sobre o

acampamento Eleazar era de idêntica e vital importância. Continha ao redor de 350

lâminas de aço, de 1 metro de largura cada uma, destinadas à construção dos dois

depósitos de combustível do grupo eletrogêneo: o do dia e o de armazenagem.

Charlie consumia uns 160 gramas de gasóleo por cavalo-hora, o que exigia a

existência de um tanque-dia com uma capacidade mínima de 5.420 litros. (Foi esse

o consumo médio diário do grupo eletrogêneo.) Obviamente, era mais fácil,

rentável e seguro instalar na rocha um tanque de armazenamento do que

transvasar diariamente o combustível necessário. Uma operação que, dada a

Continuar: parte 4 de 9