Concepção Existencial de Deus
A Loucura de Existir
O conceito de existência impôs-se à Filosofia Contemporânea pela necessidade de se distinguir o simples ato de viver, comum a todos os seres vivos, do ato complexo e profundo de um viver ascensional. Andar, mover-se de um lado para outro, buscar ali-mentos, evitar perigos, entregar-se às funções instintivas de con-servação e reprodução da espécie todos os seres vivos fazem naturalmente. Mas escalar uma montanha exige intenção, pensa-mento, vontade ativa, guiada por objetivos definidos, um esforço que implica todas as possibilidades vitais do homem postas a serviços da sua subjetividade total: do saber, do sentir, do querer, do amar, do aspirar e do fazer. Todos esses dispositivos interiores do ser humano, que são as molas do seu existir, e outros facilmen-te perceptíveis numa análise mais minuciosa, constituem a sua subjetividade. Por isso a existência é subjetiva, está em nosso íntimo, pertence ao que podemos chamar de psiquismo e não ao soma, ao corpo material. Há no homem dois seres que se conju-gam na sua facticidade, ou seja, na sua organização, com a qual ele surge feito na existência e não por fazer. Há o ser do corpo e o ser da existência. No ser do corpo acumulam-se os elementos vegetativos da vida e no ser da existência projetam-se os impulsos de transcendência. A ligação dos dois seres se faz por um sistema de ação e reação. O corpo sofre a ação do meio sobre ele e capta o meio através da percepção, reagindo imediatamente através do fazer. Perceber e fazer constituem assim o fundamento dinâmico de viver, que interliga os dois seres do homem e, numa conse-qüência dialética, liga o homem ao mundo.
Se essa ligação com o mundo se processa em ternos de aco-modação, o homem passa simplesmente a viver no mundo. Mas se ela se verifica em ternos de projeção, o homem existe no mundo. A existência é um ato de afirmação do homem diante das duas realidades que lhe são dadas ao nascer: a sua facticidade e a facti-cidade do mundo. Essa afirmação do homem diante de si mesmo e do mundo implica a sua decisão de aceitar o desafio do mundo para conquistá-lo, dominá-lo e superá-lo. A síntese final de todo esse processo é a dialética da evolução, que caracteriza o homem como um projecto, um ser lançado na existência como uma flecha em direção a um alvo, que é a transcendência. Por isso o homem nasce, vive e morre. Esse passar pela vida no mundo é simples-mente o trajeto que todos têm de percorrer. É também uma facti-cidade, algo que já está feito, que o homem recebe como um itinerário que ele tem de seguir, sem outra opção a não ser a fuga, que lhe oferece várias opções à sua liberdade relativa: a morte antecipada, a inadaptação esquizofrênica, a loucura, o delírio místico, a alienação de sua subjetividade à ilusão material e assim por diante. Em todas essas opções, porém, o homem seguirá o itinerário como um ser que se projeta do nascimento à morte por determinação das leis naturais. Por isso, Sartre entendeu que o homem é uma frustração, pois não consegue atingir a transcen-dência, uma vez que acaba na morte. A alienação mental de Sartre à visão materialista do mundo teria de levá-lo a essa frustração de si mesmo. Heidegger e Jaspers discordam dessa posição, o primei-ro vendo na morte o completar do homem como ser, e o segundo mostrando que a transcendência começa no plano horizontal da existência, desde o nascimento, para depois se projetar no plano vertical da busca de Deus. Mas essa busca não pode ser acomoda-tícia, o homem se abandonando nas mãos de mestres e guias, de instituições sectárias e formalistas, acomodando-se na responsabi-lidade alheia e considerando-se privilegiado e salvo pelo sangue de Cristo ou pelos sacramentos formais desta ou daquela igreja ou ainda pelas instruções de livros sagrados ou de sabedoria oculta, reservada aos supostos escolhidos de Deus. A busca de Deus é a busca da Verdade, a descoberta por cada um da essência do real, a superação do ilusório. Essa a razão porque o misticismo, rústico ou refinado, inferior ou superior, não é mais que um meio de fuga, de deserção do homem na existência. Fundado no conceito do sobrenatural, o misticismo nos afasta do natural e nos lança no desfiladeiro do orgulho, da pretensa superioridade, geralmente revestida de uma leve camada de verniz de humildade convencio-nal que não passa de fingimento, hipocrisia. Acostumado aos arranjos das conveniências terrenas, o místico transfere insensi-velmente a sua busca de proteção e companheirismo aos planos do espírito e se entrega à ilusão de um protecionismo exclusivista que acabará fatalmente em frustração e revolta. Quantos místicos passaram da alienação espiritual à alienação materialista em vir-tude de decepções sofridas em sua leviana ilusão de intimidade interesseira com Deus. Cada ser humano é dotado de potenciali-dades divinas e precisa confiar nessas potencialidades para trans-formá-las em ato, em realidades atuantes. Esse é o trabalho de cada um, intransferível, de responsabilidade pessoal. A fé em si mesmo é o primeiro passo no caminho ascensional da fé em Deus.
Para os que se acomodam na estrutura social que encontrou feita, apoiando-se nas próprias injustiças do mundo, entregue à rotina, a atitude existencial é simples loucura. Quando Jesus atingiu a idade que devia iniciar a sua missão na Terra, seus pa-rentes e amigos o consideram tomado de loucura. Sua mãe e seus irmãos foram buscá-lo em pleno trabalho e tentaram levá-lo de volta para casa. Muitos ainda hoje o consideraram como um jo-vem alucinado que pretendeu apresentar-se ao mundo como en-carnação de Deus. Jamais ele cometeu esse engano. Dizia-se ao mesmo tempo filho de Deus e filho do Homem e explicava que todos poderiam fazer o que ele fazia e até muito mais. Os que não podiam negar a evidência dos seus poderes e a grandeza do seu saber o transformaram em mito, chegando ao absurdo de reconhe-cer na sua pessoa o próprio Deus encarnado. E quase dois mil anos depois Benét Sanglé publicava em Paris o seu famoso livro La Folie de Jesus (A Loucura de Jesus), tentando demonstrar que o Messias cristão sofria de loucura hereditária. Essa estranha forma de loucura, que se traduzia em atos de amor, lições e exem-plos da mais alta sabedoria, dividiu a História Universal em duas fases e transformou o homem e o mundo. Nunca a existência brilhou tão poderosamente na Terra como na loucura de Jesus, que se tornou o arquétipo do futuro existente da Filosofia atual. Sua crucificação entre dois ladrões, o bom e o mau, selou em sangue e luz sua existência, que se passou entre os humilhados e entre eles se findou. A elaboração mítica desse sacrifício dramati-zou em estilo grego a sua morte, que os mitólogos consideram como paródia da morte de Osíris. A comparação mais certa seria com Sócrates, que também existiu e morreu entre humilhados, recusando-se a fugir à condenação dos homens acomodados. O mau ladrão precisava estar ali, ao seu lado, porque ele não rejeita-va os maus, procurava compreendê-los e despertá-los. A existên-cia de Jesus, ainda hoje negada por alguns espíritos sistemáticos, que alegam a falta de provas históricas, provou-se por si mesma, pela existência. Nenhum mito poderia ter existido como ele exis-tiu. (Note-se a razão do grifo, distinguindo o conceito filosófico de existência de existir comum). O testemunho dos apóstolos e discípulos, que morreram por ele após a sua morte, é mais impor-tante que documentos históricos. O testemunho de Paulo, que não o conheceu mas perseguiu os seus seguidores para depois se integrar no pensamento cristão, vale mais que qualquer referência de historiador antigo, sempre voltado para figuras exponenciais do tempo. E hoje as pesquisas universitárias não deixam mais a menor dúvida quanto à existência real da figura de Jesus. O pró-prio Sanglé, para provar a loucura hereditária de Jesus, teve de mergulhar nessas pesquisas, examinando a linhagem de Jesus, sem o que a hipótese da hereditariedade seria vã. Temos ainda a prova dos evangelistas, homens de formação mitológica, que não puderam evitar pintá-lo à maneira do tempo e da cultura em que viviam. Para esses homens o colorido do mito era mais válido que o real. Não podiam fugir a esse condicionamento mental. Vemos isso claramente no Evangelho de João, o último evangelista e o derradeiro apóstolo a morrer. João começa o seu Evangelho com o mito do Verbo, de origem egípcia, desenvolvido pelas escolas gregas de Alexandria. Vivendo então em Éfeso, por longos anos, João impregnou-se das idéias filosóficas da era helenística e foi o precursor de Agostinho e Tomás de Aquino na tentativa de expli-car o Cristianismo pelo pensamento de Platão e de Aristóteles. O que ressalta no evangelho de João, mistura de realidade e mito, são as descrições minuciosas de episódios da vida de Jesus, como a da sua discussão com os fariseus num dos pátios do Templo, em que Jesus chama os fariseus de filhos do Diabo. São episódios vivos, de uma realidade flagrante, em termos de relatos clássicos realistas (o naturalismo literário da época), que destoam das ex-pressões grandiosas e obscuras da Filosofia Alexandrina.
Esse curioso contraste nos mostra a dificuldade de uma tran-sição do plano dos mitos, do idealismo helênico, da especulação filosófica ou teológica para o plano existencial. A herança das civilizações agrárias, cujas raízes se afundam nas selvas primiti-vas, pesa ainda esmagadoramente no psiquismo humano. A acei-tação do método científico pelo homem atual, apesar de todo o prestígio da Ciência e dos avanços tecnológicos dos últimos anos, encontra barreiras muitas vezes intransponíveis na maioria das pessoas, mesmo entre as que militam no campo de estudos e pesquisas. Essa situação criou sérias dificuldades para o esclare-cimento racional de problemas religiosos e espirituais. Já assina-lamos o prejuízo causado por Kant com sua delimitação arbitrária do campo científico. Até hoje a autoridade kantiana prevalecia sem contestação possível, e ainda prevalece em muitos espíritos sistemáticos. A Ciência tem os seus limites no sensível platônico, na realidade dialética dos contrastes. Passando desses limites ela não pode mais funcionar, pois não dispõe dos recursos sensoriais para investigação. Essa posição, ao contrário dos próprios objeti-vos da crítica de Kant, reforçou as heranças místicas e, conse-qüentemente, a posição religiosa formalista, apegada a evidentes resíduos mágicos irracionais. A luta contra a razão, apoiada nes-ses resíduos e na idéia do sobrenatural inverificável e incontrolá-vel, fortaleceu-se também com essa tese. Por outro lado, a recusa da Ciência em ampliar os quadros de suas pesquisas no terreno aparentemente fugidio e escorregadio dos fenômenos paranor-mais, abandonando o terreno às interpretações religiosas e à ga-nância dos charlatães, forçou muitas inteligências insatisfeitas a aceitar a dogmática das igrejas e procurar enriquecê-las com estudos e princípios pseudocientíficos. O problema da existência de Deus, já de si bastante complexo, revestiu-se de novos aparatos culturais sofisticados, que exaltavam o saber infuso dos homens mais do que homens da ironia cartesiana. Temos hoje uma vasta literatura cristã na mesma linha de sincretismo da literatura medi-eval. Essa literatura satisfaz os espíritos de tendência mística que repelem a aridez dos tratados científicos e esperam encontrar nela os esclarecimentos que a Ciência se mostrou incapaz de lhe pro-porcionar.
O que sofreram cientistas como Crookes, Richet, Lodge, Zöllner, Gibier, Crawford e tantos outros, por se aventurarem e dar prosseguimento à pesquisa científica além dos limites marca-dos por Kant, mostra e prova o apego dos homens, mesmo quando cientistas, ao formalismo cultural anticientífico.
Como advertiu Kardec, numa posição tipicamente existencial, “a Natureza é uma só e a Ciência tem o dever de investigá-la até onde as possibilidades humanas o permitirem.” Os fenômenos sobrenaturais não podem existir fora da natureza. Se são fenôme-nos, pertencem à Natureza e devem oferecer condições favoráveis à investigação científica. Levantou-se a falsa acusação de que esses fenômenos eram puramente ocasionais, impossíveis de serem repetidos segundo as exigências da Ciência. Os fatos, como assinalou Lombroso, são fatos e podem ser examinados e investi-gados. A questão, afirmou Kardec, é puramente metodológica. O método científico tem de ser adequado ao tipo de objeto a que se aplica. As discussões a respeito se prolongaram, até que a própria investigação científica do nosso tempo rompeu naturalmente os limites arbitrários. A função da Ciência é esclarecer mistérios, torná-los inteligíveis. Felizmente a Física, que Rhine chamou de Ditadora das Ciências, foi a primeira a invadir o domínio secreto dos mitos, ampliando ao infinito as dimensões estreitas da reali-dade física. O atrevimento dos físicos, tomados da loucura exis-tencial, derrubou as muralhas do preconceito científico. Não há mais razão para qualquer retração da Ciência diante dos mistérios que a desafiam. A segurança dos métodos e dos instrumentos atuais de pesquisas garantem a validade dos resultados.