Concepção Existencial de Deus
O Mito do Diabo
A mística é também um processo dialético, embora os místi-cos em geral recusem-se a admiti-lo. O sentimento místico é um impulso de integração do ser naquilo que é. Não importa se aquilo que é se revela como Bem ou Mal. O emprego da palavra mística por Dionísio o Areopagita, no século V, restringiu o sentido do termo às relações do homem com Deus. Dionísio se inspirava no filósofo neoplatônico Proclo. Os cristãos absorviam a seiva do pensamento grego e davam à sua terminologia aplicação própria. Era uma forma evidente de apropriação, justificada pela intenção. O que importa na Mística, portanto, é o seu sentido de unidade do ser relativo com o Ser Absoluto. Este pode se definir como Deus, o Diabo, um Ideal, um Sonho, uma Utopia e assim por diante. Mas toda forma de mística se desenvolve na contradição. A mais alta forma tinha de ser forçosamente uma contradição absurda. Porque nada se pode opor ao Absoluto. O processo de racionali-zação inconsciente levou a imaginação mística a elaborar na figura do Diabo o contrário de Deus. A dialética do Bem e do Mal, que vinha das experiências do homem primitivo em seus contatos com os elementos naturais, aprimorou-se nas civilizações e definiu-se nas religiões em duas formas de idealização antropo-mórfica – a de Deus e a do Diabo. Eram os símbolos da salvação e da perdição, os arquétipos positivos e negativos atraindo almas com igual poder. Embora teologicamente o Diabo apareça como um filho rebelado contra o pai, na prática e na vivência das religi-ões o filho se iguala ao pai em poder e liberdade. Toda a História Medieval não passa de um relato trágico da luta entre Deus e o Diabo. O mesmo ocorre com as fases medievais do Oriente, que dão a impressão de haverem cedido o seu modelo ao Ocidente.
O absurdo dessa dialética está na impossibilidade de se opor um Absoluto a outro, pois o Absoluto é o Todo e se outro Todo se lhe opusesse não teríamos dois Todos, mas apenas duas metades. Essa a razão fundamental por que Deus é o Ser e o Diabo é apenas um Mito. Deus se define filosoficamente como o Ser Absoluto, como Substância que a si mesma se basta, que de nada depende. O Diabo se define como uma sombra invertida de Deus no espe-lho côncavo da imaginação humana, uma espécie de figura gro-tesca e incoerente do não-ser. Por isso Kardec o apresenta como produto específico da imaginação terrena, incapaz de figurar com a mesma força de nitidez e colorido a Deus e ao Céu. Apegada à Terra, impregnada pelo magnetismo dos planos inferiores, tortu-rada pela visão e a experiência das provações terrenas, a imagina-ção humana só conseguiu figurar Deus e o Céu de maneira impre-cisa, ao mesmo tempo em que carregava a pintura do Diabo e do Inferno. Por isso também o Padre Teilhard de Chardin opôs-se em suas obras de renovação teológica a aceitar o dogma da condena-ção eterna do Diabo e reservou-lhe um lugar nos confins do Ple-roma, o suposto corpo místico de Deus. Ali o filho ingrato per-manecerá, sem ser lançado nas trevas exteriores, até que a miseri-córdia de Deus se manifeste em seu benefício. Como? Certamente com a solução apresentada por Giovanni Papini, em seu livro Il Diavolo, ou seja, com a reintegração do Diabo no Pleroma de maneira plena.
A mística do Diabo sempre teve o seu culto e os seus tem-plos, o seu sacerdócio e as suas corporações devotas. Mas tudo isso nunca passou nem pode passar de simples imitação grotesca do culto legítimo a Deus. Porque os seres humanos, criados por Deus, não podem distorcer, senão artificialmente, de maneira efêmera, o seu impulso de integração naquilo que é para aquilo que não é nem pode ser. Ao insistir na direção do mal, o homem se condena a si mesmo e a si mesmo se tortura, violentando suas potencialidades divinas e sofrendo na consciência a pressão das reações da sua própria natureza ôntica. É essa pressão que leva os criminosos, por mais transviados, à conversão e à regeneração, muitas vezes no declínio da vida. O enfraquecimento das forças vitais abranda a vontade rebelde e faz curvar a cerviz dos mais terríveis celerados.
Certas pessoas pensam haver descoberto a pólvora quando ouvem dizer que o Diabo não passa de um mito, e perguntam animadas: Então Deus também não seria um mito contrário? Não, simplesmente porque o contrário, aquilo que se opõe ao que é, não é Deus, mas o Diabo. Não há contrários a Deus, pois tudo quanto existe, pelo simples fato de existir já está subordinado a Ele. Na dialética mística há também a subcontradição do anseio de integração com o anseio de liberdade. As criaturas que não cedem à atração diabólica têm sempre o pendor de ceder ao desejo de fugir a Deus, principalmente em conseqüência da introjeção que sofreram da imagem tirânica de Deus em seus inconscientes, por força das crenças religiosas. O mito do Diabo tem o poder fascinante que provém das forças telúricas. Essa fascinação é alimentada pelas energias do ser do corpo, energias de sustenta-ção da vida vegetativa. A luta sem tréguas entre o espírito e o corpo, tão conhecida na dolorosa história da Mística, e sempre interpretada como ação violenta do Diabo sobre a frágil carne humana, nada mais são do que eclosões de energias vitais repri-midas pelas práticas ascéticas. É bem conhecida a mórbida ten-dência dos místicos para o erotismo. Nem as antigas flagelações, nem os recursos simplórios da ocultação do corpo aos olhos de fauno do Diabo, ainda hoje em prática, conseguem livrar os místi-cos de terríveis tentações. O desmoralizado mito de Satanás não é o culpado de eclosões sexuais. Culpados são os trânsfugas da existência, os lúbricos sonhadores de sensações celestiais, que pretendem sufocar os impulsos naturais do corpo, acreditando que com isso agradarão a Deus, que estabeleceu as leis genéticas no corpo humano para que a vida não se extinga no planeta.
O corpo humano é, existe porque é, porque goza do direito de ser no plano ontológico. Sua função não é apenas viver, mas principalmente servir ao espírito que através dele se projeta na existência. Se o espírito se recusa a existir, preferindo a fuga e a traição à vida, entregando-se à ilusão necrófila da santificação forçada, torna-se o Diabo de si mesmo, o tentador que o leva ao desespero, à humilhação e à marginalização existencial. O com-plexo místico-erótico devastou os conventos e mosteiros medie-vais, semeou loucura e simulação de santidade macerada nos caminhos da vida, enfeitando morbidamente suas margens com as flores roxas de olheiras fundas e olhos lânguidos em rostos páli-dos de candidatas ao coro celestial das Dez Mil Virgens. E quan-tos monges martirizados pelas garras noturnas do Diabo estrangu-laram-se a si mesmos na busca de uma santificação artificial? Enquanto isso, os párocos seculares, menos ambiciosos no tocante à glória eterna, mais sensatos e práticos, na convivência natural dos homens, ajeitavam-se longe dos cilícios e tocavam suas vidas em paz com Deus e com o Diabo. Souberam tirar ilações pragmá-ticas da lição de Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, sem lograr a um nem a outro, equilibrando a ba-lança da vida.
Nos fenômenos do misticismo popular encontramos episódios da alta roda social, como de Rasputin, na Corte Czarista, onde o terrível monge se infiltrou graças aos seus dons terapêuticos; e episódios sertanejos como o de Antônio Conselheiro, no Brasil, que só falava com as mulheres dando-lhes as costas, mesmo às velhas, para evitar o perigo das tentações. No alto clero o poder absoluto dos altos cargos, revestidos de autoridade divina, em meio à pompa e à fulguração dos palácios, o Diabo não causava transtornos e os escândalos eram abafados na maciez discreta das tapeçarias. Nas zonas interioranas, nas paróquias rurais os vigá-rios modestos se faziam queridos da população e não raro consti-tuíam famílias numerosas, que em nada os desabonava. Tinham o privilégio de dar vida aos filhos e mesmo os batizarem, limpando-os com as mãos paternas do pecado original. Homens sensatos e bons, ignoravam santamente as prescrições antinaturais da profis-são piedosa e não se entregavam à ambição mística, preservando-se do erotismo doentio. Entraram no Céu, como Jesus falou das prostitutas, antes dos fariseus hipócritas.
Encaramos todos esses aspectos do mundo religioso numa perspectiva puramente histórica, sem nenhuma intenção condena-dora ou agressiva. Os fatos nascem de circunstâncias decorrentes de condições sociais e culturais universais, a que os homens são naturalmente sujeitos em qualquer país e em qualquer instituição religiosa. Por isso mesmo não podem ser escamoteados numa tentativa de esclarecimento de realidades inegáveis e quase sem-pre tratadas em tom polêmico. Temos de analisar enganos e erros de interpretação, desvios do entendimento humano determinado por exigências institucionais inadequadas à verdadeira condição humana. Ainda hoje, nesta fase de abertura para uma Nova Era de maior conhecimento, jovens de ambos os sexos são submetidos à pressão de velhos e estúpidos preconceitos, de rançosas e doentias superstições. Há pouco um nosso colega de magistério universitá-rio contava-nos o que se passara com uma irmã que resolvera entregar-se, adolescente ainda, à sua vocação religiosa. Foi obri-gada a usar instrumentos especiais que lhe impedissem o desen-volvimento natural dos seios e a tomar banho sem se despir, para evitar a cobiça do Diabo que podia levá-la ao Inferno. Indignado, o irmão professor deu um escândalo na família e arrancou a jovem da condenação ao inferno do complexo místico-erótico que já a deformava física e espiritualmente. De toda essa mórbida situação resultou em nossos dias o desenvolvimento da Psicologia Liberti-na, em que psicólogos e psiquiatras aconselham jovens perturba-dos por desvios sexuais a se entregarem aos seus desvios e casais desajustados a resolverem seus problemas com a terapêutica do adultério. Do extremismo sumeriano, em que as práticas sexuais se realizavam nos altares, diante dos sacerdotes, e da prostituição sagrada nos templos de deuses mitológicos, até a condenação brutal do sexo nas chamadas religiões positivas, voltamos à posi-ção negativa da entrega à libertinagem através de prescrições médicas, sob a saturação pornográfica dos meios de comunicação de massa. A perversão diabólica do homem é considerada como libertação das forças vitais da humanidade para sua volta do Éden. O Paraíso Perdido está sendo reconquistado pelas publicações pornográficas de grande vendagem em todo o mundo. A prática secreta do nudismo torna-se pública e teólogos americanos, em entrevista à imprensa, rádio e televisão, justificam a volta ao primitivismo ingênuo da selva com o mito de Adão e Eva, decla-rando que a nudez é um estado de graça. Ao mesmo tempo a orla do Pacífico, nos Estados Unidos, se torna o domínio das Igrejas do Diabo. O culto diabólico excita a baderna sexual em todo o mundo, como reação geral à asfixia milenar de um moralismo malicioso e hipócrita, que condenava o instinto da reprodução como pecado e impureza. O contraste monstruoso teria de provo-car, além das explosões atômicas genocidas, a explosão pornográ-fica, a perversão sexual e o adultério, ambos terapêuticos.
Todo esse mural de Da Vinci sobre o Juízo Final foi pintado a sangue nas telas de pele humana do III Reich, entre as gritarias histéricas das ameaças de Hitler, um pintor de paredes que quase estrangulou a Civilização. Sob as suas trágicas botas de histrião o mundo tremia, implorando a clemência de Deus. A resposta do Céu veio nas asas de aviões especiais da grande democracia de Truman: duas bombas atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima. E isso era apenas um sinal, um toque de dupla explosão na carne humana, para lembrar que o problema é dos homens. Porque não foi Deus quem promoveu a guerra, mas os homens com sua desfi-guração de Deus, sempre em favor de seus interesses mesquinhos e de sua incomensurável ambição de riqueza e poder. O ponto central da tragédia humana está no conceito absurdo, formulado pela Inteligência mundial, de um Deus ilógico e sem grandeza. De nada valerão as assembléias mundiais de sábios e chefes de na-ções, as reuniões de cúpula das grandes potências, a assinatura de tratados sem substância moral, os gigantescos arsenais de armas atômicas, os pactos da traição. A mística religiosa e a mística ideológica se confundem na deformação e na negação da idéia de Deus. Enquanto não se fizer dessa idéia um conceito preciso e claro, o mundo continuará na loucura em que o vemos. Não se trata de uma suposição mística, mas de uma lâmina de navalha no pescoço dos homens. Sem Deus ou com um deus falso, o que dá na mesma, o mundo arrebentará. Porque o conceito de Deus é o pivô da estridência ou da harmonia, da barbárie ou da Civilização, da mentira ou da verdade. Esse conceito rege o comportamento humano individual e coletivo. Quando uma nação o põe em dúvi-da ou o joga pela janela, tem de se apegar a conceitos sociais que transformam a própria sociedade numa deusa da desconfiança e do medo. Elabora então um falso conceito que acaba implantando o Estado-Leviatã com todas as suas conseqüências. Deus é a unidade, mas o social é o múltiplo infinitamente fragmentado. Alguém ou alguma coisa deve substituir a regência de Deus no controle social. Esse alguém é um homem, um pequeno tirano cercado de asseclas amedrontados, e essa alguma coisa é uma ideologia, tão minuciosa e exigente para atender à pulverização social, que perde o senso humano e se transforma em computador. O conceito medieval de Deus, que se adaptava à estrutura feudal, serviu para a burguesia, que modelou o seu sistema sobre o anti-go, puxando as brasas para sua sardinha. As ideologias de Direita e Esquerda consideram o Deus dos burgueses como paternalista e reacionário. Hitler e Mussolini se colocaram no lugar de Deus e o mundo se afundou na loucura. Hiroíto apenas aferiu, pois já era deus de nascença. E truman julgou-se um novo Júpiter com as mãos carregadas de raios para fulminar as cidades e povos. Israel ressurgiu das cinzas num deserto coberto de ruínas, guiado por Moisés sob a proteção de Iavé. O Deus dos Exércitos restabeleceu o seu pequeno império com a petulância e a arrogância de um dominador do mundo, equipando-se com a técnica moderna de um 007. Os árabes se apegaram a Maomé e transformaram as antigas espadas em bazucas, metralhadoras, bombas e ogivas atômicas. As Américas caíram de joelhos ante o Dólar, um deus tilitante, e suas nações entraram em delírio.
O Brasil é um país abençoado por Deus, livre dos principais flagelos que devastam os outros. Mas a Nação Brasileira não tem um conceito claro de Deus. Nos seus oito e meio milhões de quilômetros quadrados de território, sem um só vulcão em toda essa amplitude, sem terremotos nem furacões, a idéia de Deus é um flatus, uma palavra sem conceito. Derrubada a Monarquia, e com ela o Catolicismo medievalesco herdado de Portugal, o Posi-tivismo dos republicanos lutou em vão para impor a Deusa Hu-manidade de Augusto Comte, que não tinha consistência para substituir o velho Padre Eterno de barbaças grisalhas, tão seme-lhante ao Imperador deposto e exilado. Ambos, de braços dados, voltaram para a Europa. Os holandeses, que nos podiam ter trazi-do um substitutivo mais definido, tiveram também de retornar com seu Deus às suas terras. E o tráfico negreiro nos trouxe a sarabanda dos deuses primitivos da África, com Alá de contra-bando nos porões dos navios negreiros. Os deuses indígenas, demasiado particulares, não tiveram condições de impor-se, con-tentando-se com a regência das tribos dizimadas e uma estreita faixa de terra no Sincretismo Religioso Afro-Brasileiro, à seme-lhança das faixas atuais delimitadas para os restos das antigas tribos. Em fins do século passado a contribuição de Kardec infil-trou-se entre nós, mas o Espiritismo brasileiro não foi além de uma mistura particular de resíduos católicos e alguns princípios kardecianos mal assimilados. Podemos repetir com Machado de Assis: a confusão era geral. Alguns expoentes culturais lutaram para elevar o conhecimento espírita, mostrando os seus aspectos científicos e filosóficos. Mas o clero católico se empenhou em combater a nova heresia, usando a sua arma mais poderosa: o conceito do Diabo. Esse conceito vazio, como diria Kant, corres-pondia ao mundo de superstições dominantes e era facilmente assimilado pelo povo. O conteúdo supersticioso enchia o vazio racional do conceito e lhe dava um aspecto sólido. Corremos o risco de substituir Deus pelo Diabo. O desenvolvimento cultural nos trouxe os ácidos corrosivos do intelectualismo pedante, do ceticismo leviano e do materialismo sem esperança. Hoje corre-mos o risco de trocar tudo pelo simples gosto de viver, não raro numa vida inteiramente sem gosto. Daí a razão deste ensaio, escrito ao correr das teclas, sem outra pretensão do que a de aju-dar os que lêem e pensam a despertarem para a necessidade de um esforço comum que consiga restabelecer o novo conceito de Deus em termos existenciais. Só dessa maneira poderemos substituir o borboletear das opiniões pelo conhecimento da existência de Deus e pela convicção da Verdade que hoje nos falta. A razão de todas as nossas crises é apenas essa: a falta de Deus, definido como o Intelecto da teoria de Anaxágoras. Sem essa volta às origens do pensamento grego, na concepção do Deus-Pai do Cristianismo (e é bom lembrar que Cristo é uma palavra grega), estaremos sujei-tos a entrar na Era Cósmica como um balão de luzes multicores soprado pelo vento das circunstâncias e dos interesses imediatis-tas. Nossa convicção não passará de uma mecha de fogo-fátuo.
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