Concepção Existencial de Deus

J. Herculano Pires · Capítulo 5 de 14

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Concepção Existencial de Deus

Do Efeito à Causa

 

O pensamento científico inverteu os termos do pensamento antigo. Sabemos que essa inversão começou com Aristóteles, em sua curiosidade pela observação das coisas naturais. Mas na ver-dade começou bem antes, com fisiólogos gregos, entre os quais se destacam Tales de Mileto, um pesquisador atrevido que chegou a medir o diâmetro da Lua e calculou o seu peso. A intuição platô-nica, orientada pelas lições de Sócrates, eclipsou essa tentativa com esplendor de uma sabedoria de tipo pitagórico, haurida na fonte oculta das causas. Correriam os séculos sobre as inquieta-ções dos povos, até que a razão grega pusesse fim ao pragmatismo dos povos europeus. A luz da Ásia teria de misturar-se, como o fermento da parábola evangélica, à massa do pão ocidental para levedá-la. O que Dilthey chamou de Caldeirão Medieval de fusão das idéias, foi antes a panela de pressão em que, na medida de tempo de um milênio, rigorosamente controlada pela válvula de escapamento, Platão e Aristóteles seriam cozinhados no caldo dos princípios cristãos. Só no Renascimento teríamos o quitute prepa-rado com vários ingredientes estranhos colhidos no Olimpo de-vastado pelo vandalismo cristão.

Os estudos de Gilson sobre a Filosofia Medieval e as pesqui-sas de Dilthey, Cassirer e outros revelam que as fases sucessivas da ebulição do pensamento medieval seguiam a intenção secreta da inteligência imanente, um plano divino destinado a salvar o pensamento cristão puro do gigantesco sincretismo religioso-filosófico. Parece ter cabido a Abelardo a tarefa ingrata de prepa-rar o prato especial destinado a Descartes, escoimado dos exces-sos de gordura e condimentos míticos, para que os elementos essenciais da evolução espiritual não se perdessem na transição para a era científica. E Descartes realmente alimentou-se bem com o prato de Abelardo, o suficiente para rejeitar o cozido tradi-cional dos jesuítas do Colégio de La Fleche. Não fosse isso e o esbelto espadachim francês teria se empanturrado com cozidos e estufado a barriga como Tomás de Aquino.

Rejeitando o fascínio da Causa, o espírito ocidental preferiu a tarefa secundária de analisar e pesquisar os efeitos. Essa atitude de humildade socrática levou o pensamento ocidental à descoberta do problema central do método. O entendimento humano estava preparado para os novos tempos, mas se não lhe pusessem os freios do método ele poderia disparar como Quixote pelos campos da Mancha, a combater moinhos de vento. O efeito e não a causa, o fenômeno e não a sua interpretação teológica, essa a grande opção que o pensamento ocidental teve de fazer. Já advertiam os antigos romanos, com seu feroz instinto prático, que podemos tomar a nuvem por Juno. Os cristãos substituíam a deusa Juno por Maria de Nazaré e continuaram a cometer o erro pagão de vê-la nas nuvens, na escuridão sugestiva das grutas, no nevoeiro das florestas e até mesmo em imagens quebradas arrastadas nas águas de um rio. Galileu teria de arriscar a pele com suas experiências na Torre de Pisa e Giordano Bruno morrer na fogueira inquisitori-al como precursor herético de Espinosa e Leibniz. O século XVI foi a abertura do mundo antigo para as novas dimensões da Civi-lização que nascia, superando a bárbara concepção de Deus e do homem que se tornaram, na organização social e cultural, mais agressivas, deformadas e injustas que nos tempos selvagens. As figuras exponenciais que nem surgiram, como as que menciona-mos, tiveram de sacrificar-se para que os ideais cristãos não desa-parecessem da Terra para sempre, tragados nas chamas inquisito-riais, alimentadas muito mais pela arrogância de mentes embria-gadas na volúpia da vaidade e do poder.

Apesar dessa embriaguez generalizada e terrivelmente conta-giosa, geradora de crimes nefandos em nome de Deus e de Cristo, os objetivos secretos da inteligência imanente foram atingidos. Mas a estupidez humana é opaca e dura, não se deixa penetrar facilmente pela luz e resiste, encastelada nas fortificações feudais, a todas as tentativas de desalojá-las. Todos os que ainda hoje lutam pela modificação das estruturas sociais e culturais enfren-tam as maiores dificuldades. Não podem restringir-se à estreiteza da mentalidade vulgar, que se acomoda nos costumes e nas vanta-gens do momento, nem endossar os processos da política de com-promissos grupais ou de castas, nem mergulhar no comercialismo voraz e vampiresco do chamado poder econômico. Não obstante, a busca da verdade mudou de rumos e só é válida quando remonta dos efeitos às causas, libertando o homem do domínio dos mitos. Essa simples mudança de posição recompensa o martírio dos que morreram em nome da verdade, sem trair-se a si mesmos.

Em meados do século XIX o interesse pelo efeito desviou-se da área restrita dos fenômenos habituais, segundo a expressão de Richet, para as áreas desconhecidas e abandonadas dos efeitos inabituais. Pesquisadores norte-americanos seguiram os pioneiros da conquista da terra para tentar a conquista do espírito, obser-vando e analisando os famosos fenômenos de Hydesville, com as irmãs Fox. Essa tentativa repercutiu na França, onde Denizard Rivail iniciou corajosamente a pesquisa científica desses fenôme-nos. A pesquisa invadia diretamente as zonas sombrias do domí-nio religioso, a selva escura de Dante, em que se haviam refugia-do todos os mitos do passado. Era necessário penetrar nessa selva a fundo, vasculhar as suas furnas, espantar os mochos noturnos, desbastar os emaranhados de ramagens espinhentas que impediam a penetração de luz solar. O pedagogo, o médico, o cientista De-nizard Rivail, à maneira dos cristãos da era apostólica, mudou o seu nome conhecido por um pseudônimo simbólico, de origem gaulesa: Allan Kardec. E até hoje o simples enunciar do seu nome causa arrepios às mentalidades retrógradas e evoca o mito desmo-ralizado do Diabo. Foi a última vítima das fogueiras inquisitoriais, queimando em efígie e queimadas as suas obras numa fogueira erguida em Barcelona. O último bispo inquisidor não conseguiu o cheiro, tão agradável aos santos inquisidores, da carne humana queimada em vida. Teve de contentar-se com o cheiro de papéis queimados, e esse cheiro serviu para incentivar a busca da verda-de.

A pesquisa de Kardec ateve-se ao campo psicológico e psico-físico. Como todos os vanguardeiros, teve de criar os seus méto-dos de investigação, adequados ao objeto novo que tinha de en-frentar. Durante doze anos dedicou-se a essa pesquisa de maneira intensiva, chegando muitas vezes à exaustão. Ao mesmo tempo enfrentava os anátemas da Igreja, os ataques de todo o campo religioso da época, as críticas da leviandade mundana, as calúnias dos invejosos, as agressões violentas dos sistemáticos, a condena-ção das corporações científicas e as censuras filosóficas. A todas essas agressões e condenações respondeu com serena firmeza, apoiado em fatos, tentando esclarecer os adversários. Toda a sua obra é um exemplo de didatismo paciente na sustentação da ver-dade. Os doze volumes da Revista Espírita por ele regidos e pu-blicados em fascículos mensais, durante doze anos, são o arquivo dessa guerra branca, em que os ataques dos adversários são regis-trados e analisados e o material de suas pesquisas apresentado ao público. Hoje, felizmente, graças ao trabalho de tradução do Engenheiro Júlio Abreu Filho e ao lançamento da coleção pelo Editor Frederico Giannini Júnior, já o nosso público pode conhe-cer em nossa língua esse espantoso acervo.

Kardec, reconheceu Richet – que não partilhava da sua filoso-fia –, fundamentava-se sempre na pesquisa. Submeteu os proble-mas espirituais à investigação científica, através de uma metodo-logia rigorosa e tão bem esquematizada que as ciências psíquicas posteriores, desde a antiga Parapsicologia alemã, passando pelas Sociedades inglesas e norte-americanas de investigações psíqui-cas, até à psicobiofísica de Schrenk-Notzing na Alemanha e a Parapsicologia atual, não conseguiram sair (embora sem saber) do seu esquema metodológico e das classificações por ele estabeleci-das para os fenômenos. Por outro lado, as conclusões de todas essas ciências não conseguiram contrariar as de Kardec. Seu esquema metodológico estabelecia a mesma divisão de campos que elas tiveram de fazer: fenômenos subjetivos, anímicos e espi-ríticos; existência de um corpo espiritual das plantas, dos animais e dos homens; possibilidade de separação temporária do corpo espiritual para a hoje chamada projeção do seu eu à distância; natureza do corpo espiritual (perispírito) como semimaterial, dotado de energias físicas e espirituais; existência da memória profunda e possibilidade de sua emersão na consciência atual, com influências benéficas ou maléficas no comportamento huma-no; reencarnação e comunicabilidade dos espíritos (hoje pesquisas da reencarnação na Parapsicologia e fenômenos theta no grupo especial de pesquisas da Duke University e nas universidades européias e soviéticas). Quando Kardec tratou dos fenômenos anímicos (manifestações de dupla personalidade) e mostrou que a anomalia podia ser curada com a elucidação do caso, Sigmund Freud tinha apenas um ano de idade, e a catarse psicanalítica já era empregada pelo mestre francês em maior profundidade do que hoje, como lembrou o Dr. Ehrenwald. Hoje, na Universidade de Moscou, segundo divulgam os próprios russos, o Dr. Wladmir Raikov e sua equipe investigam o problema das chamadas reen-carnações sugestivas, que afetam o comportamento normal de muitas pessoas. Até mesmo os casos de agêneres (pessoas mortas que reaparecem como vivas e se relacionam com os vivos) têm ocorrido e chegado ao conhecimento de alguns pesquisadores, mas são sempre interpretados como alucinações. O Dr. Hamen-dras Nat Barnejee, da Universidade de Jaipur na Índia, famoso pesquisador dos casos de reencarnação, que tem estado numerosas vezes na URSS, soube de curiosos fatos que não puderam ser divulgados. Por fim, é bom lembrar que o próprio Stalin, apesar de seu materialismo, teve experiências notáveis com o médium polonês Messing, mundialmente famoso.

Não é de admirar, portanto, que tenha havido em Moscou um simpósio científico sobre a obra de Allan Kardec, segundo divul-garam em 1974 várias agências telegráficas. Kardec era apresen-tado como um racionalista francês do século XIX que havia ante-cipado muitas pesquisas da atualidade sobre fenômenos paranor-mais.

Na realidade, todo esse interesse mundial pelo paranormal decorre da colocação racional do problema, em termos de pesqui-sa científica. Existindo o fenômeno e sendo possível a sua inves-tigação, o que durante um século negaram, e ainda hoje tentam negar alguns opositores sistemáticos, não há motivo para que a Ciência se recuse a investigá-lo. O que impediu o desenvolvimen-to dessas pesquisas de maneira normal e seqüente foram as incrí-veis arruaças promovidas pelos que mais deviam interessar-se por elas, os que se dizem representantes de Deus na Terra. Por que essas arruaças, essas enxurradas de mentiras despejadas em forma de anátemas, bulas, folhetos, artigos e reportagens de jornais e revistas, conferências, programas de rádio e televisão, livros carregados de trapaças e ironias contra uma realidade que consti-tui a própria essência das religiões? Todos os truques foram em-pregados na luta contra a investigação de fatos que os homens sempre conheceram, desde a mais remota Antigüidade. É que os clérigos e os religiosos fanáticos ou tradicionais dão mais impor-tância ao convencional do que ao verídico, às elaborações fantasi-osas dos homens do que às manifestações de uma realidade evi-dente. Prezam mais a estrutura das igrejas, em que se acomodam, do que a estruturas da Natureza criada por Deus; preferem o reino passageiro do mundo ao Reino de Deus que pregam nos púlpitos e aceitam mais a exegese sectária do Evangelho do que relato sim-ples e claro dos textos evangélicos, repletos de exemplos de fe-nômenos paranormais, muitas vezes produzidos e explicados, sem ambigüidades, pelo próprio Cristo.

O método científico de investigação fenomênica, rigorosa-mente controlado, com centenas e milhares de repetições dos fenômenos, não deixa dúvidas sobre a sua realidade e a sua signi-ficação. A única maneira de combater as provas científicas é cobri-las com a cortina de fumaça da mentira. Já agora isso não é possível, a não ser no âmbito restrito das seitas ignorantes. O método científico triunfou e a pesquisa do fenômeno paranormal levou o homem a descobrir a causa desses fenômenos intrigantes, que está no próprio homem, na sua natureza espiritual sustentada teoricamente pelas religiões. O mundo amadureceu para a verdade e as novas gerações rejeitam a ilusão piedosa de uma fé que se fundamenta apenas em afirmações dogmáticas, sustentadas pelo autoritarismo dos poderes supostamente divinos de instituições formalistas erigidas e mantidas pelos próprios homens. A virada violenta e necessária da causa para o efeito, nos rumos do pensa-mento humano, leva-nos hoje ao conceito existencial de Deus, arquivando para sempre as falaciosas concepções do passado religioso.