Concepção Existencial de Deus

J. Herculano Pires · Capítulo 9 de 14

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Concepção Existencial de Deus

Embora conheçamos as limitações da nossa condição…

A Paraexistência

 

Embora conheçamos as limitações da nossa condição tridi-mensional e saibamos que as dimensões da realidade ultrapassam de muito as nossas restritas possibilidades de percepção, quere-mos viver tranqüilos em nosso pequeno mundo sensorial. Quere-mos, e isto é justo, ter segurança, ter a certeza de que nossa exis-tência específica não será perturbada por invasões estranhas. Nossos objetivos existenciais estão definidos em nossa subjetivi-dade própria e temos a consciência de que precisamos realizá-los. O instinto de conservação e o impulso vital são os esteios perma-nentes da nossa vontade natural de viver enquanto possível. Mas, apesar disso, nossa existência, desde que o mundo é mundo, tem sido invadida por uma existência circundante, uma espécie de paraexistência que nos obriga a reconhecer que temos vizinhanças incômodas. Verificamos isso nas próprias condições das cidades. Vivemos em São Paulo, por exemplo, numa área central que chamamos a cidade (the city), mas ao redor desse miolo expan-dem-se os bairros, as zonas suburbanas e a zona rural. Temos assim a cidade e a paracidade. O exemplo é tridimensional, mas é desse plano que temos de partir para a boa compreensão do pro-blema.

Nas dimensões cósmicas a situação é a mesma. Estamos na Terra e queremos passar nela a nossa atual existência. Mas ao nosso redor há a zona lunar e as zonas das órbitas planetárias, e sabemos que além delas temos ainda a imensidade da Galáxia a que estamos atrelados, com milhões de mundos e de sóis inimagi-náveis. Nossas sondas espaciais e nossos astronautas, neste fim de século, andam pesquisando essas extensões siderais em que, num meio fluídico, aparentemente vazio, os mundos estão suspensos e circulam em órbitas precisas. Quase sabemos de tudo isso, mas temos uma visão geral abstrata, que não nos perturba, antes nos embala em sonhos e esperanças.

Radiações solares, estelares e lunares nos envolvem, incidem sobre nós de maneira inevitável, e isso não nos atemoriza, pois ocorre de todos os tempos. Pasteur, em sua loucura existencial, descobriu uma faixa perigosíssima da paraexistência que nos cerca no mesmo plano tridimensional em que vivemos. Ninguém quis acreditar naquele absurdo de pequeninos animais invisíveis que podiam invadir o nosso corpo e nos levar ao sofrimento e à morte. Mas hoje sabemos que existem bactérias microbianas e vírus que não deixam em paz o sistema defensivo secreto do nosso organismo. Toleramos essa realidade incrível e tratamos de pesquisá-la para melhor nos defendermos. Os físicos descobriram a paraexistência de um mundo de vibrações terrenas e cósmicas que nos atingem e podem destruir-nos facilmente. Não há como refutar esse absurdo e o suportamos confiando em nossa estranha segurança milenar. Nossas cidades são cercadas e pontilhadas de áreas tradicionais em que, segundo dizemos, os mortos repousam. Pretendemos retê-los ali, enterrados, entregues ao mundo dos vermes que brotam do próprio corpo apodrecido e surgem de suas moradas subterrâneas. Sabemos que esses cemitérios também nos esperam e que, mais hoje, mais amanhã, estaremos mortos e enter-rados ou mortos e incinerados no forno dos crematórios. E nem por isso deixamos de viver, querer e fazer, enquanto isso for possível, às vezes até o extremo limite, à última hora e o último segundo da nossa existência.

Não somos inconscientes, temos plena consciência de tudo is-so e, entretanto, vivemos como bois de corte no curral ou galinhas no galinheiro, disputando migalhas entre nós, lutando sem cessar por coisas mínimas, como se a nossa existência não pudesse aca-bar agora mesmo. Por outro lado, achamos a nossa situação ab-surda perfeitamente racional e normal e rimos dos que falam que temem a morte. Entretanto, desde todos os tempos, desde as sel-vas até às civilizações, sabemos que criaturas mortas invadem a nossa zona existencial, mostrando-se vivas, falando, dando sinais inteligentes de sua presença, servindo-se de médiuns como de intérpretes e até mesmo tornando-se visíveis e palpáveis como se ainda estivessem de posse do seu corpo já destruído. Isso assusta quando ocorre, mas se demora a ocorrer de novo logo vamos nos esquecendo do estranho fato e nos contentamos com explicações alucinatórias bem montadas pelos especialistas em religião ou ciência.

Esse levar a vida como ela é, esse aceitar da vida e esse ape-gar-se a ela com unhas e dentes devia parecer-nos estranho, mas não parece. É o normal, como se diz. Heidegger lembrou que nos livramos levianamente da morte através de um truque de lingua-gem, empregando a partícula reflexiva se. Dizemos morre-se referindo-nos aos outros, o reflexivo não nos atinge, não nos envolve. Temos a nossa vida e a nossa morte está distante, talvez nem chegue. Exorcizamos a morte com jogos de palavras e trapa-ças do raciocínio. Ela desaparece da nossa mente e voltamos alegremente a viver, e mesmo que penosamente insistimos na vida. Bastaria um pouco de reflexão sobre tudo isso para compre-endermos que somos instrumentos de uma orquestra, não músicos nem muito menos maestros-regentes. A vida, o mundo, as coisas, os vivos e os mortos não nos pedem licença para existir, existem por si mesmo ou par la force des choses, ou talvez, por uma de-terminação misteriosa de estranhas circunstâncias. Pode ser que Deus exista, pode ser que não. Se existir, é ele o responsável por tudo. Se não, tudo pode ocorrer por simples acaso. Esta acomoda-ção é característica do vivente, não do existente. O homem que tem consciência da sua existência, o existente, esse não se con-forma com levar a vida, pois quer existir e precisa existir. Para ele, Deus é a fonte da vida, a inteligência das coisas e dos seres, o poder inteligente que tem consciência de sua Criação e dirige toda ela em seus mínimos detalhes, preparando os efeitos necessários para que ela atinja a sua finalidade prevista. Veja-se a displicência de um filósofo existencial, como Sartre, quando trata dessas ques-tões fundamentais. A sua lucidez e o seu critério filosófico desa-parecem quando ele se afasta das questões puramente existenciais. Para explicar o ser foi obrigado a lançar mão de um princípio metafísico: o em-si da Filosofia clássica de Hegel, e o transfor-mou numa coisa oblonga e viscosa, que existe em si mesmo, sem consciência de nada, como um pinto no ovo, e que de repente sai da casca e se projeta na existência. Com essa piada, que até nos faz ouvir o pio do pinto ao sair da casca, ele liquida o assunto e passa a tratar do ser na existência, ou seja, do homem no mundo. Isso nos mostra que há graus de existentes, pois há existentes que se comportam como simples criaturas que vivem, quando tratam dos mais graves problemas existenciais.

Leibniz, pelo contrário, se apega ao conceito da mônada e com ele fundamenta o ser. Kardec pesquisa durante quinze anos, exaustivamente, doze deles na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, e chega à conclusão de que existe uma criação dos seres através de um processo dialético assombroso, inteligente e cons-ciente, teleológico, objetivando fins definidos, e que esse proces-so, por tudo isso, só pode ter sido criado e posto em prática por uma Inteligência Cósmica. E acaba revelando-nos, através de pesquisas rigorosas, que ao redor da nossa existência no mundo existe o que hoje podemos chamar de uma paraexistência de seres desprovidos de corpo material, mas dotados de um corpo espiritu-al. Esses seres, como os do mundo das bactérias ou como o das radiações invisíveis, exercem influências maléficas e benéficas sobre nós. Os cientistas atuais investigam o problema no campo parapsicológico, chegando às mesmas conclusões, e os cientistas soviéticos, hoje fundamente empenhados, descobrem o corpo bioplásmico, que ao mesmo tempo explica a existência de seres corporais fora do plano material conhecido e a possibilidade de existência humana diferenciada nas dimensões da antimatéria, onde os físicos constataram a existência de elementos químicos do nosso mundo em direção e sistema ao inverso do nosso. A paraexistência espiritual se define em termos de existência anti-material, no exato momento em que Rhine, Pratt, Soal, Carington e outros, nas Universidades americanas, européias e asiáticas, provam e comprovam a sobrevivência do homem após a morte física. Como contestar tudo isso? Através de argumentos falacio-sos e trapaças teológicas e filosóficas, como fizeram com Kardec? Isso não é mais possível, está fora de qualquer viabilidade. Rhine afirma que o pensamento não é físico, não se submete às leis físicas conhecidas. Conseqüentemente, existe no homem um conteúdo extrafísico e a mente, que não é física, rege esse conteú-do. Carington, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, formula uma teoria da mente extrafísica, constituída de psicons, que seri-am uma espécie de átomos do plano mental. Vasiliev, soviético, pretende provar que a teoria de Rhine e Carington é falsa e dedi-ca-se a uma série de pesquisas rigorosas, chegando declaradamen-te à conclusão de que não encontrara provas em contrário. O que mais esperam os defensores da hipótese vazia do Acaso e os pregoeiros de uma sobrevivência nebulosa, em que a alma aparece como assombração e não como gente, como ser que volta à forma limbosa, segundo Sartre? De que recursos dispõe a cultura atual para provar que Deus não existe?

Se a nossa existência é subjetividade pura, como querem os filósofos existenciais, não é evidente que só existimos no inteligí-vel e não no sensível, como queria Platão? Seria possível, filosofi-camente, refutar os dados da Ciência? Podem os teólogos conti-nuar sustentando as suas deduções ilógicas em face das provas múltiplas e progressivas das induções científicas?

As igrejas insistem nos seus dogmas revelados, na autentici-dade da palavra de Deus escrita pelos homens, na validade dos fundamentos divinos de sua instituição, mas os templos se esvazi-am e o poder institucional declina. A paraexistência substitui as instâncias do mundo sobrenatural do passado. O terrorismo diabó-lico desaparece nas provas diárias. O mito do Diabo serviu e serve apenas de instrumento para os espíritos maldosos, esses paraexis-tentes que enxameiam ao nosso redor na Terra e querem subme-ter-nos pelo medo aos seus caprichos, na busca de sensações que não podem mais obter, mas que conseguem nas relações mediúni-cas, embora de forma indireta. Para uma pessoa dotada de media-na cultura atualizada, em nosso tempo, as carradas de ilusões religiosas do passado não podem mais subsistir. Seu destino é o arquivo dos museus que guardam os resíduos de tempos mortos. Para um materialista esclarecido quanto aos problemas atuais da matéria, sua constituição e sua natureza, as funções e suas possi-bilidades, a sustentação de uma concepção materialista do Uni-verso é simples suicídio intelectual. O dualismo espírito-matéria é apenas circunstancial e funcional. A matéria é energia sedimenta-da para servir aos desígnios do espírito, como a argila é terra molhada para servir aos desígnios do oleiro. Por trás de cada realidade funcional existe uma inteligência criadora. Como negar, por trás da realidade funcional do Universo, a existência da Inteli-gência Criadora a que tradicionalmente chamamos Deus?

A mente, que não é física, age por vias não físicas sobre a matéria. Essa é uma das conclusões decisivas da pesquisa parapsi-cológica do laboratório da Duke University. Rhine a proclamou como conquista definitiva da Ciência em nossos dias. Os seus opositores não conseguiram até agora nenhuma esperança de prova em contrário. A matéria radiante, ou quarto estado da maté-ria, provado por Crookes, é o plasma físico que os soviéticos hoje consideram como a matéria do corpo bioplásmico. Quem quiser vangloriar-se do espírito forte e dotado de cultura superior, não pode mais usar as armas quebradas do materialismo, pois parecerá simplesmente atrasado e desatualizado. Estamos em pleno psychic boom, segundo assinalou o último suplemento de ciências da Enciclopédia Britânica. Essa explosão psíquica assinala a abertura de uma nova cultura, em que o homem se liberta da hipnose da matéria para mergulhar na realidade substancial. Entre o existente e o paraexistente multiplicam-se os interexistentes, médiuns de aguda sensibilidade que vivem praticamente num intermúndio (como os deuses gregos antigos) relacionando-se ao mesmo tem-po com os homens e os espíritos e servindo de intermediários entre eles. Os sentidos humanos rompem as malhas estreitas da rede sensorial orgânica para captar a realidade extra-sensorial. A paraexistência se revela interpenetrada na existência. Os mistérios do passado se esclarecem através do acelerado desenvolvimento científico e tecnológico dos nossos dias. O Céu, o Purgatório e o Inferno estão aqui mesmo, no nosso planeta.