Concepção Existencial de Deus
Pode parecer absurdo querermos tratar de uma…
Autogênese de Deus
Pode parecer absurdo querermos tratar de uma possível ori-gem de Deus. A mente perquiridora do homem não se conforma com o mistério. Se a Ciência não dispõe de recursos para a inves-tigação nesse plano, e se a Teologia só fez aumentar o mistério através de sistematizações sectárias, só resta a cogitação filosófica para oferecer à inquietação humana o consolo de uma proposição racional. As primeiras indagações gregas a respeito de Deus mos-traram que a origem da dicotomia Natural e Sobrenatural derivou de uma confusa concepção da realidade universal, que considera-va a Terra como separada do espaço cósmico. Os astros são clas-sificados como seres divinos, constituindo o mundo celeste ou sobrenatural; dessa maneira, a Natureza pertencia à Terra, despro-vida de brilho próprio e iluminada pelos astros. A distinção per-maneceu até os nossos dias, embora com diversas alterações do pensamento primitivo, que não afetaram a essência do problema. Os deuses pairavam no Infinito, sobre a natureza essencialmente terrena. A idéia de um Deus Criador surgiu pela primeira vez, em termos filosóficos, com Anaxágoras, que o considerou como ordenador do mundo, criador da ordem natural. Anaxágoras cha-mou esse Deus pelo nome de Intelecto, reconhecendo nele a Inte-ligência organizadora da realidade. Com Platão surgiria mais tarde o conceito do Demiurgo, ou seja, do construtor do mundo. Isso implicava a existência de um poder superior a Deus, pois o construtor trabalhava a matéria que lhe era dada. Aristóteles figu-rou Deus como O Primeiro Motor Imóvel que punha em movi-mento todos os demais motores da dinâmica universal. Sua voca-ção prática, e portanto científica, comprovada por suas pesquisas naturais, dava o primeiro passo contra a idéia do sobrenatural. Com os estóicos surgiu o panteísmo que contaminaria também o neoplatonismo. Deus era o mundo, o mundo era Deus. Natural e Sobrenatural fundiam-se confusamente e Tales de Mileto afirma-va que o mundo estava cheio de deuses. A intuição grega traçava, nos quadros de sua cultura nascente, o esquema do futuro. A concepção de Deus seguiria esse esquema nos milênios seguintes, oscilando entre as alternativas gregas, adaptando Platão e Aristó-teles ao pensamento judeu-cristão e, por conveniência político-teológica do poder romano, restabelecendo a supremacia do so-brenatural. Caberia a Espinosa definir com precisão matemática, sob a dupla ameaça de judeus e cristãos indignados, o infuso panteísmo da era helenística. O império cairia sob a invasão bár-bara e a Igreja se ergueria como poder supremo, com o prestígio do sobrenatural, amparada nas ordenações do Messias crucificado, para que as cabeças coroadas da Europa se curvassem reverentes à unção divina dos clérigos. A concepção do Deus Único triunfaria a ferro, fogo e sangue. A proposição grega de Crísipo, entrosando o homem no esquema dos poderes terrenos, seria esquecida por um milênio. A teocracia massiva das antigas civilizações orientais transferia-se para as terras ensolaradas do Mediterrâneo. E os Evangelhos se tornariam livros proibidos para o povo, que só poderia ouvir a sua leitura em latim, a língua misteriosa do impé-rio morto. Todo um milênio de servidão fermentaria entre as púrpuras herdadas do Templo de Jerusalém. Os filósofos gregos, mortos e vivos, seriam submetidos à servidão. E a própria Filoso-fia, deusa-coruja, bateria suas asas noturnas sobre os dois cadáve-res: o do Império e o do Cristianismo.
Ninguém se atreveria a pedir que a razão explicasse de onde surgira o Deus Criador, pois sua origem era vedada ao conheci-mento humano. A razão grega se apagara à distância, como fogo simbólico de uma olimpíada pagã, e o seu renascimento na Euro-pa só aconteceria, como o da Fênix, quando as cinzas da inquisi-ção lhe pudessem proporcionar os elementos necessários ao re-nascimento da liberdade. Quem se atreveria a indagar onde e como Deus nascera? O mistério insondável não poderia ser tocado por mãos profanas de servos sem direitos, mesmo que filósofos. De que valiam os filósofos, ante a sabedoria dos teólogos? O Livro da Sabedoria não viera da Grécia, mas de Israel. Era a Bíblia hebraica a que se acrescentavam os Evangelhos, a ela subordinados. Quem contrariasse esse código do direito divino só devia esperar a sentença piedosa do Santo Ofício, inspirada por Deus Todo Poderoso. Por sua própria origem, essa sentença não era um castigo, mas o prêmio da Salvação para a vida eterna, livrando o infeliz da eterna condenação.
Com o Renascimento a liberdade ateniense de pensar e per-quirir restabeleceu-se na Terra. As multidões ignaras da descen-dência bárbara podiam então redescobrir o gosto da liberdade, enquanto os homens de pensamento restabeleciam os direitos da estranha serva dos teólogos, a Filosofia, que voltaria a investigar os mistérios proibidos. O avanço da Ciência anunciava tempos novos. Mas a herança do Milênio pesava sobre as consciências, a ameaça do sobrenatural continuava pairando sobre a cabeça dos atrevidos. As multidões acarneiradas no imenso rebanho não dispunham de luz nem de experiência para romper as muralhas das cidades fortificadas. Não obstante, homens de pensamento surgiam por toda parte e o clima cultural se restabelecia na Euro-pa sacudida por idéias libertárias. Descartes atirava no cesto toda a sabedoria duvidosa que lhe haviam dado no Colégio Jesuíta de La Fleche, Kant examinava os problemas da razão, Bacon lem-brava que a Ciência só podia vencer obedecendo a Deus e Voltai-re perguntava, com um sorriso irônico, pela origem e natureza de Deus. O dogma da queda dos anjos era substituído pela tese da queda do homem na sociedade. Lutero clamava pela volta a Cris-to. Deus reassumia no pensamento humano a posição de Causa e Newton atormentado transformava a maçã do Éden no verdadeiro fruto da Sabedoria. O Sic et Non de Abelardo podia ser lido no-vamente e A Nova Heloísa mostrava como devia ser a nova famí-lia numa sociedade organizada pelo Contrato Social, na visão pré-revolucionária de Rousseau.
Nesse quadro mental apenas esboçado estabelecia-se o armis-tício entre os homens e Deus. A distinção entre a Divindade e Deus, motivo de especiosas condenações de tribunais sagrados, desaparecia no conceito cristão do Deus-Pai, embora chamuscado de fogo e manchado de sangue. Figuras divinas como a de Fran-cisco de Assis haviam abrandado a ferocidade dos guardiões da Fé. Tornava-se possível o retorno aos problemas fundamentais da origem e natureza de Deus. Mas crescia a maré do materialismo e do ateísmo no pensamento moderno. A reação de impiedade brotava da terra, como os cogumelos da heresia no tempo de Tertuliano, contra as piedosas mordaças dos guardiões e a genero-sa concessão da morte mais rápida pelo garrote-vil inventado na Espanha. Os ventos do mediterrâneo sopravam mais suaves nas praias romanas e o céu da Itália parecia tocado por um azul mais puro. Muitos ainda temiam tocar no nome sagrado, mas vozes corajosas indagavam cada vez mais pelo grande mistério. Os deuses mitológicos tinham sua origem e linhagem conhecidas no simbólico fabulário das crenças mortas. Pensadores livres davam ao Deus Único a miserável origem do medo gerado pela ignorân-cia nas selvas. O dogma do absoluto, sem princípio nem fim, contrariava os princípios invioláveis da Lógica, herança aristotéli-ca absorvida pela Fé. Reinvestido na sua dignidade de Causa Primeira e Absoluta, que produzira por meios sobrenaturais o efeito natural do mundo, o conceito de Deus não podia ficar flutu-ando nas nuvens das suposições. Era necessário dar-lhe uma segurança racional, que pelo menos aquietasse os espíritos inquie-tos. Os teólogos não se atreviam a sair do campo do mistério, da impossibilidade humana de devassar o sagrado, enquanto os atre-vidos profanadores de revelações arcaicas zombavam das contra-dições, dos ilogismos grosseiros e das fantasias do passado imagi-nário. Nem mesmo a teoria neoplatônica da emanação satisfazia os inquiridores dotados de novas técnicas e novos conhecimentos. Prometeus equipados de aparelhagem científica antecipavam a invasão do Cosmos, procurando devassar os bastidores de Deus. Onde escondia ele a sua origem, a sua certidão de nascimento? Para acalmar a sede lógica dessas feras voadoras só havia uma possibilidade, a que os místicos jamais recorreriam. Os céticos racionalistas não vacilaram em tirá-la da caixa de segredos com as garras do Diabo. E até hoje, em plena Era Cósmica, no tempo antimatéria, não se consegue outra brecha, nem mesmo nas mais audaciosas equações matemáticas, para se roubar uma fagulha do Céu e com ela acender a lamparina da razão.
Tentaremos expô-la de maneira simples. O Deus-Intelecto de Anaxágoras, o Bem de Platão, o Primeiro Motor Imóvel de Aris-tóteles, por mais que se sustente sozinho no Inefável de Pitágoras, não tem o direito de aturdir a sua própria Criação com a recusa a qualquer origem. A razão humana, para aceitar a Divindade tem de enquadrá-la nos seus limites. Esse enquadramento se faz com auxílio da concepção budista do eterno existente. Há algo que sempre existiu, que não foi criado. Esse Universo pré-existente, para Buda, é a realidade concreta. Nunca houve o Fiat, esse tru-que judaico. Em termos da razão acidental podemos eliminar a contradição oriental e supor a existência da matéria incriada, espécie de névoa na boca irreal do abismo inexistente. O abismo seria vazio sem nome, o nada inimaginável mas necessário. Essa névoa de matéria primária amadureceria no vazio produzindo lentamente massas de matérias secundárias, das quais nasceriam os primeiros reflexos de futuras energias. Através dos milênios essas energias, em concentrações ocasionais, produziriam um sistema de ações e reações que acabaria gerando uma estrutura inteligente, mais tarde uma consciência: Deus. Como se vê, fica em suspenso um grave dilema: aceitamos o acaso inteligente ou admitimos a existência anterior a Deus, que na verdade é o Deus Criador. Caímos no solipsismo platônico do Demiurgo, que ora aparece como o Criador Absoluto, ora como simples construtor da realidade, servindo-se da matéria prima posta à sua disposição pelo Demiurgo anterior. Mas não nos assustemos com isso, nem consideremos perdido o nosso tempo. Nada melhor que um exem-plo para verificarmos ao vivo a impossibilidade de sondarmos, ao menos no atual estágio de nossa evolução cultural, o mistério da origem de Deus. Outros dilemas podem ser observados nesse silogismo complexo que simplificamos ao máximo para torná-lo mais acessível ao leitor. A suposta teoria da autogênese de Deus, do Deus que se autogerou, que nasceu em si mesmo e não tinha o que fazer na solidão absoluta, dá-nos a possibilidade de avaliar a impossibilidade do nosso entendimento e com isso nos lembra a conveniência da humildade. A negação científica de Deus não é menos incongruente, implicando contradições insolúveis. No plano teológico a afirmação da revolta dos Anjos e da existência do Diabo (Lúcifer, o mais sábio) estabelecendo-se em forma antropológica a dialética do bem e do mal, é um verdadeiro rede-moinho de contradições que só a crença ingênua das massas pode aceitar. O mesmo se dá com o problema das penas eternas na Justiça Divina e assim por diante. Vemos assim que a razão hu-mana é impotente para enfrentar os problemas inerentes à Causa, pois o seu plano de aplicação é dos efeitos.
Nem por isso devemos descrer do valor da nossa razão, pois já vimos que ela pode remontar dos efeitos às causas, e até mesmo provar a existência da Causa Suprema. Além disso, como Frederi-ch Myers demonstrou sobejamente em A Personalidade Humana (The Human Personality), dispomos da razão imediata, na consci-ência supraliminar, que se aplica à vida terrena, mas também da razão futura, na consciência subliminar, destinada a sondar as situações vindouras em nosso processo evolutivo. Só compreen-deremos plenamente a Causa quando houvermos atingido os estágios superiores do desenvolvimento espiritual, realizando a síntese consciencial estética a que se refere René Hubert em seus estudos sobre a Moral.
O problema da gênese da consciência, estudado por Gustave Geley, em seu livro Do Inconsciente ao Consciente, é por ele colocado em termos de um dinamismo-psíquico-inconsciente que desenvolve na evolução geral, mostrando a intencionalidade da Causa na seqüência dos efeitos, na mesma linha da evolução criadora de Bergson. O homem, como sustentou Oliver Lodge, é um processo em desenvolvimento. Nossas potencialidades inter-nas são muito maiores do que podemos pensar. A impotência atual da razão humana será suprida gradativamente pelo acrésci-mo de potência que a atualização progressiva da consciência subliminar proporciona à consciência supraliminar. O conceito existencial do homem nos leva a uma visão mais ampla e mais segura da realidade de nós mesmos e do mundo. Sua aplicação ao problema de Deus descortina aos nossos olhos um panorama coerente e grandioso do futuro humano. Deus existe como uma realidade existencial inegável que se comprova na cogitação filosófica, nas deduções lógicas e nas induções científicas, bem como na experiência vital e psicológica da existência humana.