Concepção Existencial de Deus
Deus Social
As estruturas sociais da Terra parecem suficientes para negar tudo o que dissemos sobre Deus e a consciência humana. Basta a seqüência de guerras e atrocidades que assolaram o planeta em todos os tempos para mostrar essas estruturas, em crise permanen-te através dos milênios, que jamais se ajustaram ao que costuma-mos chamar os desígnios de Deus. Como decorrência do livre-arbítrio do homem, indispensável à formação da sua responsabili-dade e do seu senso moral, o poder social organizou-se na linha dos interesses imediatistas dos homens, que apesar da fragilidade humana e da efemeridade da vida, da morte sempre à espreita, só se lembra da sobrevivência quando a vida material lhe escapa das mãos. Em todos os tempos as novas gerações se instalam no chão do planeta como herdeiras incontestáveis dos privilégios sustenta-dos pelas anteriores. As linhagens do sangue desaparecem na voragem dos túmulos suntuosos, mas o exemplo subsiste e novas linhagens se formam com outros fundamentos. Do caciquismo ingênuo das tribos às dinastias da nobreza, do dinheiro e da técni-ca as posições sociais se conservam substancialmente as mesmas. As civilizações teocráticas provam historicamente que a idéia de Deus no homem foi posta a serviço das ambições mundanas. As instituições religiosas utilizam seus ritos, sacramentos e bênçãos para atingir os soberanos em nome de Deus. Foi por isso que Jesus respondeu aos fariseus, com a moeda romana entre os de-dos: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não se trata de esperteza política, para escapar ao dilema, como até hoje se interpreta esse episódio. A grandeza espiritual de Jesus e a sua inteira abnegação à causa humana não comportariam jamais essa interpretação entre povos mais adiantados. Jesus apenas mostrava que eram inúteis os sacrifícios de uma revolta insensata numa estrutura social dominada por César, com suas legiões brutais. Era preferível pagar o tributo enquanto ele semeava as idéias novas de redenção humana pelo esclarecimento das consci-ências, e despertar nas criaturas os sentimentos inatos de amor e justiça que traziam em si mesmas.
As leis da evolução dirigem o desenvolvimento social, como as leis biológicas dirigem o desenvolvimento do corpo humano. Tentar o aceleramento dessas leis por meios artificiais é aumentar e exacerbar os conflitos sociais sob o ônus de novas injustiças e brutalidades. O necessário é preparar os homens para situações novas que devem nascer de suas próprias consciências. Os atos de violência, como assinalou Frederic Wertham, são contagiosos e se propagam no organismo social como câncer no organismo huma-no. O homem não dispõe apenas de liberdade para agir, mas tam-bém de consciência para orientar a ação num sentido criador e não destruidor. Cada luta na Palestina, naquele momento, contra o poder de César resultava unicamente em centenas de crucificações ao longo das estradas. A semeadura de Jesus redundaria na sua própria crucificação, mas as sementes chegariam à Roma e abate-riam a sua arrogância.
Iavé, o deus judaico, estava submetido a Júpiter, o deus ro-mano. As classes dominantes de Israel haviam negociado a sub-missão com o invasor. A Águia Romana pousara sobre o templo de Jerusalém, com a aquiescência do Sumo Sacerdote. O Messias não vinha fazer o milagre da expulsão dos romanos, mas da trans-formação do mundo. As condições históricas locais, portanto, concretas, resultam de encadeamentos de causas ao longo do tempo e são processos temporais terrenos pertencentes à jurisdi-ção humana. A transformação do mundo, que depende de fatores conscienciais, é um processo abstrato que depende de interven-ções espirituais. A questão do pagamento do tributo era um negó-cio de César. A missão de Jesus era uma delegação de Deus. Essa divisão jurisdicional explica por que motivo as grandes revolu-ções que modificam os sistemas sociais, apesar de assentadas na estrutura sócio-econômica das nações, dependem do chamado momento psicológico para sua eclosão eficaz. Há que amadurecer no psiquismo dos povos o processo transformador, e esse amadu-recimento decorre de intrincados fatores nem sempre perceptíveis, pela sutileza de seus componentes. A Revolução Cristã não devia ser cruenta, e só o foi pelo desequilíbrio dos homens nas fases de transição.
Deus, como Existente, no seu constante ascender do imanente para transcendente, participa com os homens de todo o processo social. É um Deus Social, de ação temporal humana no plano humano. Kardec aceitou a interpretação religiosa do episódio da moeda romana, mas converteu-o numa lição de aplicação geral. Foi o que fez com numerosas passagens evangélicas, evitando que a transição para nova compreensão dos textos fosse demasiado rápida. Usou o bom-senso da dosagem cautelosa da revisão exe-gética. O mesmo havia feito Jesus no tocante a problemas de ordem circunstancial. Os espíritos esclarecidos procedem como professores experientes nas relações com o povo, mormente em questões de fé, evitando perturbações desnecessárias. Tudo vem a seu tempo no processo evolutivo e só os homens inquietos, des-providos da calma necessária para enfrentar as dificuldades de uma renovação em plano social, usam de precipitação nesses casos.
Deus não está ausente nas horas difíceis das grandes trans-formações sociais. Pelo contrário, sua presença se faz sentir de maneira mais intensa nessas horas, orientando através se suas leis os processos renovadores, de maneira a que os excessos sejam contidos por meios naturais. Na parábola do joio e do trigo, Jesus esclareceu com admirável simplicidade a questão principal. Con-vém deixar o trigo amadurecer, para que não seja arrancado jun-tamente com o joio. De cada fase da evolução a experiência acu-mulada contém elementos valiosos que não devem ser destruídos. Sistemas econômicos e culturais renovam-se na sucessão das gerações. Dewey lembrou que a educação existe por causa da morte, pois se não morrêssemos não precisaríamos ensinar às novas gerações o que aprendemos. Mas lembrou também que cada geração reelabora as experiências da anterior. Ernst Cassirer mostrou que as civilizações extintas renascem no seio das posteri-ores graças ao acervo das experiências e conquistas válidas que deixou gravadas em suas ruínas. Existe uma imortalidade material do pensamento, que se grava nas pedras e até mesmo na argila, assegurando a continuidade, através dos milênios, do desenvolvi-mento seqüente da cultura. E em todas as civilizações, em todas as culturas, encontramos a idéia de Deus marcando os passos humanos. Deus acompanha o homem, passo a passo, na roda incessante das gerações e das civilizações em torno do globo planetário.
Episódios curiosos da História revelam a intervenção de Deus nas atividades humanas mais diversas, ora através de inspirações, ora através de agentes especiais. Sócrates surge do meio dos sofistas gregos, que revolucionavam a Filosofia, graças à influên-cia do seu daimon, o espírito que o aconselha constantemente. E é no Templo de Delfos que vai encontrar um dos princípios funda-mentais da sua moral: Conhece-te a ti mesmo. Joana D’Arc, jo-vem camponesa, empunha armas, comanda exércitos, coroa o Rei e expulsa os ingleses da França por ordem das suas Vozes Ocultas que só ela ouvia. Lincoln assina a lei de extinção da escravidão negra na América por ordem dos espíritos que se comunicavam em suas sessões mediúnicas na Casa Branca. Lindenberg atraves-sa o Atlântico num vôo solitário, instaurando as rotas aéreas, auxiliado e estimulado por companheiros invisíveis. Os sonhos premonitórios e os fenômenos de aparições, determinando revira-voltas nos processos históricos, estão presentes nos anais das Sociedades de Pesquisas Psíquicas.
Mais significativas, pela quantidade incalculável e a eficácia imediata, são as intuições populares, os pressentimentos, as pre-monições ocorridas nos momentos de penetração em terras desco-nhecidas, para sua integração na civilização, ou de fundação de novos núcleos populares e criação de cidades, ou de devassa dos mares para a abertura de uma nova era, como na era da expansão marítima, quando o Infante D. Henrique se transforma no criador da Escola de Sagres e Colombo vence todos os obstáculos, em terra e no mar, para realizar o desígnio oculto que brota da cons-ciência subliminar impelindo-o na arrojada aventura. No mundo inteiro dos povoados mais distantes e humildes até as grandes capitais, homens, mulheres e crianças participam de visões, ou-vem vozes secretas, sentem impulsos que não sabem explicar e realizam pequenos feitos que, em seu imenso conjunto, revelam um desígnio secreto que comanda a ação humana na ampliação da Terra e no enriquecimento material, cultural e espiritual dos po-vos. É o comando de Deus, ora diretamente por sua ação endóge-na na consciência humana ou sua exógena através de seus instru-mentos paraexistentes, dos oráculos e pitonisas ou dos médiuns modernos, desenvolvendo, ampliando e enriquecendo as socieda-des humanas. Os cientistas procuraram, até agora, atribuir todo esse vasto e múltiplo testemunho da presença de Deus na experi-ência social à ação puramente humana. Mas nesta hora em que o próprio espaço sideral começa a ser devassado pelas sondas espa-ciais e os foguetes espaciais tripulados, e em que mais do que nunca a harmonia e a grandeza da Criação se desvenda assustado-ramente aos olhos humanos, é impossível insistir na pretensa supremacia do homem, esse bicho da terra tão pequeno, na ex-pressão de Camões.
O homem, que aparece no mundo como um náufrago nu e desmemoriado, segundo a concepção existencialista, que não sabe de onde vem nem para onde vai, cuja inteligência não lhe permite muitas vezes nem mesmo reconhecer a sua própria natureza, não tem mais a menor possibilidade de sustentar o seu orgulho fátuo na rejeição à existência de Deus. Torna-se ridícula a tentativa dos astronautas soviéticos de continuar negando Deus por não o terem encontrado em seus vôos mecânicos em torno da Terra, um grão de areia no infinito. No século XVIII os cirurgiões alegavam com ênfase estúpida que não haviam jamais encontrado a alma humana na ponta de seus bisturis primitivos. Hoje astronautas que mal iniciam a aventura cósmica no âmbito apenas do nosso Sistema Solar, repetem o atrevimento daqueles cirurgiões. Não obstante, a idéia de Deus se torna cada vez mais evidente e necessária, para que se possa explicar, pelo menos de maneira rudimentar, o misté-rio da realidade universal.
Deus, o Existente, é um Ser social. Toda a existência de Deus, como subjetividade, semelhante à nossa, revela-se na natu-reza naturans da concepção espinosiana. É o número Kantiano que se projeta nos fenômenos normais e paranormais. Acessível à investigação científica, esse número, essência e alma do fenôme-no, é a própria Alma de Deus que tantos negam por não poder vê-la, como negam a alma humana que constitui o próprio ser do homem. É possível a uma criatura de inteligência mediana e de mediana cultura querer que a visão sensorial humana, mais limi-tada que a de muitos animais, possa captar em seu minúsculo campo visual a Alma de Deus? Além do orgulho e da colocação falsa do problema pelas religiões, suas pretensas teologias e suas místicas sectárias e dogmáticas, existe hoje o impedimento ideo-lógico dos materialistas que, contraditoriamente se dizem huma-nistas, reduzindo o homem a nada em suas elucubrações sofísti-cas.
É também suposta prova de superioridade intelectual dizer-se materialista livre-pensador, homem liberto das ilusões metafísi-cas. Tudo isso podia produzir efeito ilusório no passado, mas não hoje. A Metafísica trata precisamente do que está além da Física. No entanto, a própria Física moderna entrou no plano da trans-cendência vertical de Jaspers, obrigada pelas exigências inexorá-veis do desenvolvimento científico. Onde e como se confirma a superioridade intelectual de um intelecto que, fugindo às crendi-ces do passado, da mesma maneira que um pobre tabaréu foge do fogo-fátuo julgando-o assombração, recusa-se a tomar consciência das novas dimensões do conhecimento científico?
Até nisso, nesse temor pedante, confirma-se a sociabilidade de Deus, um ser social que se impõe ao meio cultural dos nossos dias pela sua participação em todas as atividades humanas. Deus, Ser Absoluto, é o arquétipo do homem. Como este, é subjetivida-de pura que escapa às percepções sensoriais, mas projeta a sua realidade extrafísica no sensível, nas éctases da sua possibilidade de manifestação. Quando dizemos, conscientemente ou por hábi-to: Se Deus quiser, estamos reconhecendo, conscientemente ou por hábito, que Deus convive conosco em nossa éctase existenci-al. Querer negar essa realidade evidente é repetir os argumentos dos anticopérnicos, que viam o Sol rodar em torno da Terra mas não viam nem podiam ver a Terra girar em torno do Sol. Não vemos Deus, nunca o vimos, e os que pensaram que o viram e falaram com ele não podem provar que isso não foi alucinação. Mas a presença de Deus no mundo é bem visível e palpável. Queremos algo mais positivo do que a realidade em que vivemos e a que pertencemos, tão dura e opaca aos nossos sentidos, e não obstante fluídica e transparente como os véus de Ísis?