Concepção Existencial de Deus

J. Herculano Pires · Capítulo 10 de 14

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Concepção Existencial de Deus

A Ação de Deus

 

A ação providencial de Deus na vida humana, segundo o con-ceito de Deus comum às igrejas cristãs – e a quase todas as de-mais igrejas –, decorre dos tempos mitológicos. Fez-se muito alarde da originalidade do providencialismo judeu e Dilthey o inclui entre os três elementos fundamentais da consciência mo-derna, fundidos no caldeirão medieval. Mas a verdade é que ele existiu em todas as religiões antigas. O conceito antropomórfico de Deus dominou o mundo desde todos os tempos, pois o homem, superadas as fases primárias de sua evolução nas selvas, com as concepções míticas ligadas aos reinos naturais, passando progres-sivamente do totemismo à antropolatria, só conseguia imaginar Deus à sua imagem e semelhança. Por isso os deuses sumerianos, babilônicos, egípcios e persas, indianos e gregos estiveram sem-pre muito ligados às atividades humanas de seus adoradores. Só na Alta Filosofia Grega o conceito de Deus se distanciou do ho-mem e tornou-se indiferente à realidade existencial, como se vê em Platão, Aristóteles e Pitágoras. Na concepção bramânica os homens nascem da própria anatomia humana de Brama, determi-nando as castas de um sistema social impermeável. E em todas as religiões antigas os homens prestavam homenagens aos deuses precisamente para obterem suas graças e providências na solução de problemas individuais ou sociais. Os deuses mitológicos che-gavam a participar dos trabalhos e das guerras humanas, interfe-rindo na vida íntima dos seus adoradores e até mesmo conquis-tando as mulheres belas, pelas quais se apaixonavam. Pitágoras era considerado filho de Apolo e não de seu pai Mnésicles. Reve-lando suas profundas raízes mitológicas, Iavé ordenou a saída do clã de Abraão, Isaac e Jacó da cidade de Ur, na Mesopotâmia, e conduziu-o ao Egito, para depois, através das guerras implacáveis do relato bíblico, levá-lo à conquista de Canaã. Os romanos obe-deciam às ordens de Júpiter e sua Corte, submetendo-se ainda aos manes ou deuses familiares, que interferiam em todas as suas atividades. As procissões piedosas das religiões cristãs têm sua origem nas procissões dos deuses-lares de Roma, carregados em andores pelas ruas para que não se esquecessem de auxiliá-los em seus negócios, disputas e empreendimentos. Iavé não fez mais do que seguir o exemplo condenável dos deuses anteriores, quando mexericava nas tendas do deserto a ponto de se tornar alcoviteiro, como ao defender o direito de Moisés de arranjar mais uma espo-sa, além das que já possuía.

Não é necessário gastarmos muito tempo e papel com essas questões que figuram amplamente na Bíblia e nas demais escritu-ras sagradas das religiões antigas. Basta-nos assinalá-las como dado importante que revela o engano universal de considerar-se o providencialismo como originalidade absoluta judeu-cristã. O mesmo se dá com a idéia de criação do mundo a partir do nada. Na verdade, a Bíblia não explicita o fato suposto de que Deus criou o mundo do nada, sendo mesmo contraditória em seus livros no tocante a esse ato de magia. O conceito do nada considerado por Kant como conceito vazio, desprovido de objetos, foi longa-mente debatido pelos filósofos gregos e adquiriu vários sentidos contrários à idéia específica do vazio absoluto. A idéia de que o nada é o não-ser (aquilo que não é) exige a existência de um ser do não-ser, que supriria o vazio, desfazendo o nada. A Ciência atual, amparada pelas pesquisas da Astronáutica, não encontrou o nada em parte alguma. Assim, a idéia do nada se tornou absurda, filosófica e cientificamente. Coube a Filon, de Alexandria, filóso-fo judeu, dar a definição mais simples e clara do ato de criar: Deus criou o que não existia. Criar, nesse caso, seria tirar do nada alguma coisa. Mas esse nada não será absoluto, pois sua relação com o criador existe deste e da coisa que se designou como sendo nada em relação ao que foi criado. Por exemplo: o escultor tira uma estátua do nada, sem dispor de modelo ou idéia preconcebi-da, mas o nada, no caso, é apenas simbólico, pois ele a tirou da sua inspiração e do material de que se serviu. O próprio Filon chama Deus, como Criador, de Demiurgo, que era para Platão o Deus subalterno ao qual Deus proporcionava a matéria para cria-ção de um mundo. É evidente que a idéia de criar do nada não representa nenhuma originalidade específica dos judeus ou dos cristãos. Abagnano diz mesmo que ela não consta da Bíblia.

Essas questões precisam ser expostas para vermos que o pro-blema da existência de Deus foi envolvido em muitas trapaças do pensamento, em conseqüência dos desvios místicos e das exigên-cias dogmáticas. Para provar a existência de Deus não se precisa-va inventar originalidades inexistentes no pensamento judeu-cristão. A grande originalidade do Cristianismo não foi a palavra nada, mas o sentido e a força de universalidade dada à palavra Pai por Jesus.

Platão, Plotino e os neoplatônicos foram mais precisos quan-do propuseram a tese de que Deus criou por emanação de si mes-mo. Essa emanação podia ser do pensamento, aglutinando-a à matéria dispersa para estruturá-la em átomos e mônadas; como podia ser um processo de tipo ectoplásmico em que a própria matéria seria criada por Deus em si mesmo e expandida no pré-cosmo (o inefável de Pitágoras) para criar não apenas a Terra mas o Cosmo. De qualquer maneira, porém, não se poderia negar uma realidade anterior, que se constituiria do espaço cósmico e da existência de Deus. E essa incógnita não pode ser resolvida.

Mas tínhamos de tratar de tudo isso, embora de forma sumá-ria, para tentarmos uma solução do problema da ação de Deus. Esse problema está hoje mais próximo de nós, graças ao conceito existencial de Deus. Remontando do efeito à causa, já vimos que não se pode negar a ação de uma Inteligência imanente na reali-dade existencial. Ninguém admitirá que uma flor desabrocha sem motivo, que uma pedra cai sem causa. Da mesma maneira, não podemos admitir que um Universo apareça tirado da cartola de um mágico. Não ficaria bem atribuirmos a Deus o papel de presti-digitador. Há, pois, uma causa e disso estão seguras a Ciência, a Filosofia e a Religião. Ao menos nessa questão elas estão de acordo. Já vimos que a idéia de Deus como Acaso é contraditória, pois teríamos um acaso inteligente; que a idéia de Deus como um homem gigantesco é simplesmente grotesca e que a idéia de Deus como o número 1 a desencadear a Década é bela e poética, mas tão inviável como as anteriores. A única admissível é a de uma Consciência Cósmica, que não sabemos como surgiu ou se sem-pre existiu, mas que responde pela estruturação da realidade com que nos defrontamos no mistério do Infinito. Temos pelo menos a certeza do efeito, no qual nos integramos como sua parcela insig-nificante, mas pensante e inquiridora.

Deus, pela sua transcendência, é o Criador, mas pela sua ima-nência se integra na Criação. Existente Absoluto, está presente em todas as coisas e em todos os seres. No homem a sua presença não está apenas na ação das leis naturais, mas também e principalmen-te na consciência humana, que implica toda a sua estrutura ôntica, todo o seu ser. Foi o que Jesus explicou aos judeus, quando disse: Não está nas vossas escrituras que vós sois deuses? Porque toda criatura humana é um deus em potencial. O corpo material está para o homem como o Universo está para Deus. O homem cria o seu próprio corpo e isso não só através das leis genéticas, mas também pela sua mente. Na Parapsicologia define-se a ação da mente sobre o corpo como fenômeno psicapa, de ação da mente sobre a matéria. Cada embrião humano traz em si mesmo o plano de seu corpo, como a semente de uma planta traz o plano da árvo-re em seu interior. Mas se, no vegetal e no animal, esse plano se desenvolve por si mesmo, através das leis naturais, no homem o problema é mais complexo e o espírito colabora no desenvolvi-mento do plano. A mente, que não é física, atua sobre a formação do corpo de acordo com o esquema a desenvolver. A integração espírito-corpo se processa através de todo o período de gestação. A mente age como sonâmbula, sua ação é praticamente catalítica, mais de presença do que propriamente de ação. Ela sabe o que será o seu corpo e o estrutura lentamente, sem pressa, na medida do tempo que lhe é concedido. As leis do espírito controlam essa atividade sonambúlica. Duas linhas de hereditariedade estão presentes no embrião: a hereditariedade genética e a hereditarie-dade psíquica. A primeira vem dos genes paterno e materno, a segunda vem do próprio espírito, do ser espiritual que se reencar-na, das experiências, acertos e erros do passado. A facticidade nasce com a criança, não lhe é dada arbitrariamente, nem ao sabor das influências do meio. No seu desenvolvimento embrionário, a criança já estava enquadrada nas condições mesológicas que iria encontrar. Tudo havia sido previsto e determinado. Essa a ação de Deus, através das inteligências que o servem. E a presença de Deus se faz sentir na estrutura consciencial da criança. Os princí-pios fundamentais da consciência, os vetores da atividade psíqui-ca, abrangendo todas as instâncias do psiquismo, ali já se encon-tram, amadurecendo para a manifestação nas condições biofisio-lógicas das primeiras idades. Por isso diz Kardec: A criança nasce com a roupagem da inocência. Por trás dessa roupagem encontra-se a personalidade adulta que irá se definindo aos poucos, no ritmo do desenvolvimento orgânico. A teoria materialista da tábula rasa dos empiristas ingleses, que considera a mente infantil como uma página em branco, já foi superada pelas pesquisas psicológicas atuais. As pesquisas hipnóticas de regressão da me-mória, quando levadas além dos limites da vida intra-uterina e do berço, revelam a ancestralidade do espírito reencarnante. Foi o que mostraram as pesquisas de Albert De Rochas, em Paris, nos fins do século passado, e o que hoje revelam as experiências do mesmo tipo do Prof. Wladimir Raikov em Moscou, não obstante os disfarces exigidos pelo figurino político-ideológico. O fenôme-no é o mesmo, os métodos são os mesmos. Muito além das ins-tâncias psicanalíticas de Freud, Kardec revelou (quando Freud tinha apenas um ano de idade) que no inconsciente do médico vienense havia um profundo acervo do passado desconhecido.

Esse quadro esquemático, baseado em dados atuais das pes-quisas psicológicas e parapsicológicas (Jung, Ehrenwald, Montes-sori, Kerchensteiner, René Hubert, Frederich Myers e outros) nos introduz no problema da ação de Deus no homem. As consciên-cias humanas são reproduções microscópicas da Consciência Suprema. E funcionam no homem como bússola e tribunal. A bússola indica os rumos a seguir na existência. O tribunal alerta, corrige os desvios ou adverte o ser a respeito, julga-o aqui mes-mo, na Terra, e quando necessário também após a morte condena-o ou concede-lhe as recompensas merecidas. No seu livro O Céu e o Inferno Kardec oferece um quadro grandioso das punições e recompensas da consciência, com exemplos colhidos ao vivo em suas pesquisas. Whately Carington, da Universidade de Cambrid-ge (Inglaterra) em suas pesquisas parapsicológicas, fez verifica-ções semelhantes em nossos dias e provou que a mente humana não desaparece na morte. Não se trata, pois de hipóteses, de teori-as audaciosas ou de suposições místicas, muito menos de afirma-ções teológicas. Trata-se de fatos, resultantes de investigações científicas susceptíveis de tantas repetições quantas forem neces-sárias à sua verificação.

O homem é o seu próprio juiz, no aquém e no além. Ninguém lhe pede contas do que fez, mas ele mesmo se defronta com a imagem do que foi e do que é. Essa a infalibilidade da Justiça Divina. O Tribunal de Deus está instalado na consciência de cada um de nós e funciona com a regularidade absoluta das leis natu-rais. Não somos julgados por nenhum tribunal sobrenatural, mas pela nossa própria consciência. Daí a fatuidade dos julgamentos religiosos, das indulgências e sacramentos. Deus, o Existente, partilha conosco as provas existenciais. E é dentro de nós, em nossa consciência, em nosso íntimo – sem que tenhamos a mínima possibilidade de fuga ou desculpas mentirosas – que somos julga-dos. Mas a Justiça de Deus, se é rigorosamente precisa, é também revestida de misericórdia. As atenuantes justas são levadas em conta e as oportunidades de regeneração e reparação dos erros e crimes jamais nos serão negadas. Deus não nos castiga ou repro-va. Entrega-nos a nós mesmos, sob a garantia infalível do tribunal consciencial. Deus não nos criou para perdição, mas para o de-senvolvimento das nossas possibilidades divinas. O simbólico pagamento das dívidas do passado não é mais do que a reparação necessária dos nossos erros, por mais graves que sejam, para que possamos continuar na administração da nossa herança divina.