Concepção Existencial de Deus
O Deus dos Místicos
Os místicos povoam a Terra. Estão em toda parte com suas mãos postas e olhos lânguidos, voz macia na busca do Céu e tonitruante como os trovões de Iavé na condenação dos pescado-res e nas ameaças do Inferno. São uma espécie dentro da espécie, quase uma antiespécie, unânimes na repulsa à condição humana. Adoram um Deus feito à sua imagem e semelhança, um anti-Deus que vem das páginas mais desumanas da Bíblia, do Corão, das escrituras sagradas do Egito, da Babilônia, da Índia e das entra-nhas de fogo de Moloch. Eles e seu Deus, ou seus deuses irascí-veis e impotentes, criaram e alimentam o fogo das geenas para queimar o lixo da Terra, a que se ligam pelo cordão umbilical da hipocrisia. São capazes de tudo, menos de se atreverem a escalar as montanhas para roubar, como Prometeu, o fogo do Céu e com ele incendiar a Terra. Preferem o fogo rasteiro das geenas de Jerusalém. Todas as deturpações da Verdade, todas as distorções da natureza humana, todas as mentiras sagradas são obra dessa turba de loucos mansos ou do palavreado absurdo e dos sacrifícios cruéis de criaturas inocentes e puras.
Este quadro dantesco pode parecer injusto, mas bastam as três cruzes levantadas sobre o Calvário para mostrar que não é. A mística é uma górgora insaciável, com sua cabeleira de serpentes ocultas no jardim das Hespérides. Detesta a razão, o bom-senso, o equilíbrio. Prefere o fanatismo, o contra-senso, as profecias esca-tológicas. Vive em delírio, mas nunca se arrisca na voragem da loucura legítima, que é prerrogativa das criaturas heróicas. Os místicos acenderam as fogueiras da Inquisição e promoveram as Cruzadas, com suas tropelias e matanças. Têm a paixão morna e mórbida dos sádicos e as mãos cheias de raios jupterianos, a boca esfogueante de anátemas e condenações sumárias. O conceito de Deus que semeia entre os homens é o de um tirano bárbaro. As delícias celestes que apresentam aos crédulos é a indolência dos sibaritas e, como proclamou Agostinho, a sua maior ventura é ver, das acomodações eternas do Céu, a tortura eterna dos ímpios nos caldeirões ferventes do Inferno. Não conhecem a virtude do meio termo, que Tomás de Aquino aprendeu com o pagão Aristóteles, como se o Cristo não a houvesse ensinado. Preferem os extremos, sem perceber que sua covardia inata não lhes permite jamais atingi-los, a não ser a mão do gato, através dos sectários imbecis e, portanto, irresponsáveis.
Existem várias espécies de Místicas, desde a que mal se des-vencilhou da magia primitiva, ainda encharcada com a água lodo-sa dos pântanos selvagens, até a dos fariseus carregados de orgu-lho e hipocrisia e a dos chamados Grandes Místicos, voltados para as fulgurações platônicas, no anseio de subir ao Céu através das grandes inspirações ou fazer que o Céu baixe até eles, como na anedota de Maomé e a montanha. Mas entre essas espécies diver-sas de tipologia inclassificável perpassam algumas figuras estra-nhas de homens-fantasma que rastejam humildes na terra, trocan-do os esplendores celestes pela dedicação humilde aos espoliados e sofredores. Por mais que brilhe a sabedoria dos grandes visioná-rios, são esses vultos de piedoso masoquismo os que ainda justifi-cam de certa maneira a existência da Mística. Por isso mesmo são eles os mártires de um ideal de sublimação humana, desprezados e explorados pelos potentados das instituições místicas. E nem por isso escapam à ilusão mística da fuga, que em última instância não passa de uma traição à espécie humana, nas vias tortuosas da alienação ao sonho, da esquizofrenia dosada pelo medo às puni-ções eternas. E existem ainda os místicos da matéria, que se alie-nam à realidade sensorial na convicção pretensiosa de poderem transformar o mundo num Éden sem maçãs e serpentes. Conde-nam a violência assassina dos místicos religiosos e entregam-se à violência das atividades terroristas, acreditando-se capazes de atemorizar a humanidade com seus atos de loucuras. Negam a Deus e ao mesmo tempo se empenham em combatê-lo, reconhe-cendo praticamente a sua existência, sem compreenderem a con-tradição do círculo vicioso de suas idéias.
Tudo isso nos mostra que a Mística, em todas as formas de misticismo, mesmo as mais prestigiadas nos meios culturais, não passa de um estado patológico a que tanto pode se entregar um religioso como um ateu e materialista. Esse estado se define pela idéia fixa da insubordinação ao real. Por isso, Padovan e Marcel, Amadou e Abagnano, e quantos se enfileiram na mesma linha de pensamento, enganam-se a si mesmos ao proclamar a excelência cultural da Mística, atribuindo-lhe um papel superior ao da Filoso-fia. Acreditam na sabedoria infusa que desce do Céu sobre algu-mas cabeças privilegiadas, esquecidos de que Descartes, para fundar o método científico, teve de apresentar-se como homem simplesmente homem, ironizando com finura e cautela os homens mais do que homens. Foi necessário um aviador arrojado e pionei-ro, como Saint-Exupéry, descobrir com seus vôos à Terra dos Homens com desertos, mares, montanhas e florestas, em que a humanidade luta sem cessar pela própria sobrevivência, para termos uma idéia aproximada da condição humana real e da bata-lha sem tréguas pela conquista real do saber. Não foram os gurus indianos ou os monges tibetanos, nem as patas do cavalo de Aní-bal ou os comissários soviéticos que arrancaram a Terra da servi-dão teológica e ensaios incipientes do renascentismo para lançá-la na era tecnológica e no limiar da era cósmica. Foram os homens integrados no processo existencial, vivendo a vida e assimilando a experiência vital do mundo, alheios aos delírios dos místicos e à dogmática eclesiástica, à exegese mística dos textos antigos, foram esses homens que prepararam, no mundo inteiro, as novas condições da cultura terrena. Os verdadeiros sábios não saíram dos arquivos de pergaminhos e da convivência com as traças dos mosteiros, mas da luta com a terra e os bichos, do fazer e do pesquisar da inteligência em contato permanente e pertinaz com a realidade dos reinos da Natureza. É fazendo que se aprende, e foi através do fazer contínuo que o homem conseguiu atingir as en-tranhas da matéria e nelas descobrir o espírito como elemento natural e não sobrenatural. A vitória do saber existencial sobre a cultura mística foi mais longe do que se esperava, reformulando ao mesmo tempo a concepção da matéria e a concepção do espíri-to e integrando ambos na dialética da evolução.
Pelo prejuízo do passado na formulação arrogante de pré-juízos e pré-conceitos arbitrários, que saltavam do palavreado dos doutores místicos, ainda hoje se confunde a nova posição espiritu-al do homem com a posição mística de um passado recente. Preci-samos compreender que o tempo dos místicos já se escoou, ironi-camente, na realidade invencível das ampulhetas antigas. O Espi-ritismo não descende dos místicos. Sua linhagem se define nas gerações de cientistas e pesquisadores. Kardec não negou a vali-dade do sentimento religioso, mas revelou a falácia do sobrenatu-ral, mostrando que a existência humana transcorre no seio da Natureza, onde Deus se manifesta em termos fenomênicos, na fenomenologia real de suas leis criadoras. A inteligência imanente chama constantemente a nossa atenção, a atenção da inteligência humana, para a realidade das suas criações científicas. Ciência e consciência se encontram e se conjugam no plano do real, cujas múltiplas dimensões se desvendam aos nossos olhos numa gigan-tesca ampliação do mundo e da vida. E é do mundo e da vida que se recorta o conceito de existência, colocando o homem na posi-ção de criador de si mesmo. De nada valem as longas preces dos fariseus nos templos ou nas esquinas das ruas, se os homens não se integrarem na realidade existencial, abrindo-se na convivência e no companheirismo, para o encontro em termos de razão e realidade. O Decálogo judaico, tão louvado como essência da moral cristã, pertence à época das civilizações agrárias e pastoris de um superado mundo teocrático. Para ajustá-lo ao presente, os teólogos e clérigos tiveram de cortar-lhe as prescrições mosaicas referentes aos costumes antiqüíssimos da Israel arcaica. Essas prescrições simplórias fariam rir aos crentes mais ingênuos de hoje. Isso não quer dizer que não haja no Decálogo uma orienta-ção moral válida, mas nos limites do horizonte agrário e pastoril das civilizações da época. As condições atuais de vida e as con-quistas culturais realizadas, a visão nova do mundo que hoje desfrutamos exigem uma nova ética, para a qual os Evangelhos, expurgados de suas implicações mitológicas – derivadas da cultu-ra do tempo em que foram escritos –, poderão contribuir com mais eficácia, em virtude da visão universalista de Jesus, voltada para os tempos futuros.
Nada justifica a fusão que as igrejas cristãs fizeram do testa-mento judeu com o testamento cristão. Jesus, como reformador do Judaísmo, corrigiu os excessos místicos da Israel arcaica e apon-tou novos rumos à compreensão humana do humano. A condena-ção do formalismo judaico, do conceito errôneo e hipócrita de pureza, do racismo comum às civilizações fechadas e isoladas, bem como a superação dos absurdos preconceitos sexuais, como se vê no episódio da mulher adúltera, o perdão do roubo de za-queu sob a condição de reparação do mal cometido, a violação do Sábado na sinagoga para atender um doente, a afirmação de que as prostitutas chegariam ao Reino dos Céus antes dos crentes vaidosos de sua pureza convencional são elementos indicadores de uma ética mais humana e ampla que deveria surgir no futuro. O próprio Apóstolo Paulo, tão fortemente marcado pelos preconcei-tos judeus do tempo, chegou a considerar que as Escrituras anti-gas estavam superadas pela reforma cristã. Não obstante, as igre-jas cristãs até hoje vivem apegadas aos textos antigos, que consi-deram como a palavra de Deus.
A mística judaica projetou-se em cheio na mística cristã me-dieval, contrariando os ensinos e os exemplos de Jesus, que prefe-riu viver com o povo a isolar-se nos templos para cultivar a vai-dade e a pureza mentirosa dos clérigos. Em Jerusalém e em toda a Palestina ele era conhecido como filho do carpinteiro José e sua esposa Maria de Nazaré. Mas a fantasia natural dos homens for-mados numa cultura mitológica, onde a realidade era o mito e não o real, o transformou no mito de um Messias nascido de uma virgem, segundo sistema mitológico em voga, como mostra Saint-Yves em seu livro As Virgens Mães. Além disso, o menino nasci-do em Nazaré, nas condições normais dos filhos de famílias po-bres da época, passou a ser considerado como natural de Belém, na linhagem de David, para enquadrar-se nas exigências proféti-cas, como Renan no século passado e Charles Guignebert em nosso século demonstraram de maneira incontestável. A supersti-ção do sobrenatural e o conceito negativo de sexo chegaram a modificar a data do recenseamento determinado por César Augus-to, para arranjar uma justificativa supostamente histórica para o nascimento mitológico em Belém. Que interesse teriam os roma-nos, que faziam recenseamento para saber onde cobrar os impos-tos, em deslocar famílias judias de suas cidades para atender a um capricho de genealogia dos judeus? A mentalidade mitológica era alegórica, apegada aos símbolos, aos mitos. Essas deturpações não foram certamente intencionais, mas forçadas pela necessidade imaginária de enquadrar Jesus nas profecias judaicas. Não obstan-te esse esforço dos evangelistas, de que Paulo não participou, os judeus ortodoxos, que conheciam bem a história real de Jesus, rejeitaram o Messias. Paulo jamais se referiu ao nascimento virgi-nal de Jesus em Belém. Isso nada significava para ele, que se interessava pelos ensinos do Mestre e não pelo ajustamento de sua figura às predições bíblicas. Apesar de sua formação judaica, e dos fundos resíduos do moralismo judeu que aparece em suas epístolas, era um homem de cultura universalista e soube superar esses pormenores ingênuos.
Não podemos querer, em nossos dias, sustentar essas ficções do passado mítico de Israel e alimentar ainda o misticismo de um rabinato falido, que negociou com os romanos a sua sobrevivência e entregou à condenação o rabino popular, reformador da religião arcaica, ao poder romano. Os cristãos que aceitam essa situação imoral, criada pelas ambições humanas do tempo, são cúmplices retardatários dos rabinos de há dois mil anos. Aceitam de mão beijada, em nome das tradições igrejeiras posteriores, a deforma-ção da figura de Jesus em mito, sem se lembrarem de que ele se sacrificou para combater os mitos e a hipocrisia da época. Nessa inconsciência mística, temerosos do pecado, na verdade pecam de maneira irremediável contra o objetivo principal da missão do Mestre, que era modificar a concepção de Deus entre os homens. O conceito cristão de Deus não se compadece com esse estranho apego às tradições judaicas. É evidente que, nessas condições, o materialismo teria de se avantajar em nosso tempo.