Concepção Existencial de Deus

J. Herculano Pires · Capítulo 3 de 14

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Concepção Existencial de Deus

Deus no Homem

 

A consciência humana tem a mesma estrutura fundamental em todas as raças. O problema das raças está hoje praticamente superado, em virtude da miscigenação, das incessantes misturas raciais que se verificaram no tempo e em todos os tempos, produ-zindo sub-raças e variedades inúmeras de tipos humanos em todas as latitudes do globo. Pesquisas universais, realizadas pelos orga-nismos especiais da ONU e de vários governos e instituições científicas, revelaram a inexistência de uma raça pura no mundo. Mas a tipologia racial ainda se apresenta de maneira definida em certos povos, caracterizando-os quanto à linhagem principal do seu desenvolvimento. Este não é o problema de nosso estudo, mas como se relaciona com ele, aludimos à questão sem maiores in-formações a respeito.

Hoje, o mais certo seria falar-se de nacionalidades, pois em cada nação, mesmo naquelas racialmente mais definidas, existe sempre um mosaico racial que não se revela facilmente quando a mistura se deu em vários ramos da mesma raiz, do mesmo tronco racial e lingüístico. Mas o que nos interessa é a constatação em todos os povos da mesma estrutura fundamental da consciência humana, naturalmente diferenciada com a preponderância ou não de fatores constitutivos, em virtude de exigências mesológicas ou da interferência de fatores históricos e culturais ligados às condi-ções geográficas, climáticas, alimentares, tradicionais e assim por diante. Mesmo na Antigüidade, nas fases de isolamento das civili-zações, os fundamentos da consciência humana revelavam-se os mesmos em todos os povos, como se pode verificar pelas suas manifestações culturais. Nesse sentido, não importam as diferen-ças da concepção de Deus entre os povos, que tanto podiam cultu-ar a Zeus como a Brama, ao Tao chinês como ao Ivaé hebraico ou aos deuses egípcios. Do Templo de Amom-Rá ao Templo de Diana ia a distância espacial e cultural que os tornavam estranhos.

Mas em todos os templos e cultos o que se manifestava, como lei universal, era a idéia de um poder superior que o homem deve-ria reverenciar. E para reverenciar esse poder os homens deviam sempre mostrar-se dignos dele, cumprindo as leis morais das prescrições religiosas. Cultos e ritos podiam variar ao infinito, mas a essência era a mesma: a intenção de agradar aos deuses através de um comportamento coerente com as exigências da evolução espiritual do homem.

Nas civilizações mais adiantadas os princípios fundamentais da consciência humana se evidenciavam em traços mais fortes. No plano moral as divergências formais davam, aos observadores superficiais, a impressão da existência de sistemas morais contra-ditórios. Isso acarretou, a partir do Renascimento, o desenvolvi-mento das pesquisas científicas, um movimento intelectual depre-ciativo para o conceito de moral. Entendeu-se que cada povo tinha a sua moral própria, de maneira que a suposta existência de uma moral superior e eterna não passaria de sonho vão, acalentado por sonhadores e místicos. Como a moral vem da raiz latina mores, que quer dizer costumes, chegou-se a conclusão de que a moral era nada mais do que uma práxis, variável em seus fundamentos como os costumes. Citou-se muito o exemplo da Grécia, onde o casamento era monogâmico antes da Guerra do Peloponeso e tornou-se poligâmico depois da guerra, pela necessidade de res-taurar a população masculina terrivelmente dizimada. Esquecia-se o essencial, ou seja, que o objetivo da poligamia então instaurada era o restabelecimento da nação em seu estado natural, destruído pela guerra, e do seu poder defensivo. O que se objetivava, por-tanto, não era a poligamia em si, mas a continuidade da nação e do seu desenvolvimento cultural, ou seja: o bem. O prossegui-mento das pesquisas e dos estudos a respeito dessas variações da moral acabou revelando que o princípio moral prevalecia sempre, na busca de um objetivo único, que era o bem das nações, dos povos, do homem em geral. Coube a Henri Bergson, na linha das proposições universalistas de Pestalozzi, restabelecer o conceito de moral como elemento básico da consciência humana. Bergson revelou a conotação natural existente entre Religião e Moral, em sua famosa tese sobre As Duas Fontes da Moral e da Religião. Ambas, religião e moral, brotam das exigências da consciência humana, primeiro nos costumes e depois na estruturação conven-cional das regras de moral, bem como na formulação dos precei-tos religiosos, cultos e ritos.

Essa reviravolta anulava os efeitos negativos da interpretação errônea de moral e religião. A verdade era que ambas nasciam da própria natureza espiritual do homem, que requeria disciplina e orientação nas estruturas sociais. Um duro golpe para o pensa-mento materialista, que insistia na tese da natureza animal do homem. As pesquisas antropológicas e sociológicas, particular-mente entre povos primitivos, em regiões selvagens, confirmaram essa nova colocação do problema, embora ainda hoje materialistas e pragmatistas insistam no erro, procurando sempre, segundo a expressão do Apóstolo Paulo, sujeitar o espírito à carne. Vã tenta-tiva sustenta a vaidade humana, que vai sendo progressivamente frustrada pelo avanço das pesquisas científicas sobre a natureza humana. Temos assim três princípios fundamentais da consciência humana bem visíveis em suas manifestações no plano social: a idéia de Deus no homem, o seu anseio de transcendência e o desejo natural do bem. Neste anseio do bem encontramos o senti-mento de afetividade, de amor pelos semelhantes, que se traduz no princípio de fraternidade universal. Do anseio de transcendên-cia derivam os impulsos de ligações sociais, que determinam a formação das famílias e grupos afins, bem como o sentimento estético, determinante do interesse pelo belo em todas as suas expressões. O sentimento de justiça é corolário do amor e depen-de, nas suas variações de intensidade e clareza, do grau de nitidez da idéia de Deus.

Esses vetores da consciência humana pertencem à espécie, e estão presentes em todas as criaturas humanas, com as variações determinadas pelos fatores psicofisiológicos e mesológicos ou ambientais, influenciados em maior ou menor grau pela educação e o meio social. A idéia de Deus é o conceito que rege ao desen-volvimento e à manifestação de todos estes vetores na dinâmica social da existência individual e coletiva. Vem daí a importância do conceito de Deus para o comportamento do homem, solitário ou em grupo. O chamado homem sem Deus, que não aceita a existência de Deus por falta de um conhecimento mais claro do problema, nem por isso está desprovido desse princípio em sua consciência. O conceito de Deus, mesmo negativo, exerce influ-ência em seu comportamento. Ele pode contrariar essa influência em virtude de preconceitos ou de experiências passadas, como frustrações religiosas ou sociais, mas em geral, mais hoje ou amanhã, cederá aos impactos dos seus impulsos afetivos. A liber-dade é a própria consciência, o ambiente espiritual em que todos esses vetores conscienciais se desenvolvem. A supressão da liber-dade numa consciência é o eclipse que a lança na escuridão. Essa supressão pode ser produzida por fatores endógenos ou exógenos, por temores e traumas íntimos ou por diversos tipos de pressão vindos do exterior. Os tiranos assumem pesada responsabilidade, seja no âmbito restrito das relações familiais ou no âmbito aberto das atividades políticas e sociais, ao criarem situações supressivas ou limitadoras da liberdade.

O problema da estética, geralmente considerado em segundo plano, negligenciado pelos estudiosos do comportamento humano, é o segundo em importância, depois da idéia de Deus, na estrutura da consciência. O belo não é apenas um vetor da consciência, é um arquétipo espiritual da espécie humana que atrai o homem para a transcendência e particularmente para sua integração cons-ciencial. As fases iniciais da transcendência, que se passam no plano da sociabilidade (a transcendência horizontal de Jaspers) preparam a consciência para sua integração, que é a fusão dos vetores conscienciais numa unidade global. O chamado homem prático desenvolveu eficazmente a sua consciência de relação, através da mente, que é o instrumento das relações com o exterior. Esse homem, como ensina René Hubert, tem plena consciência de sua posição social e de seus deveres profissionais, acha-se teórica e praticamente preparado para as suas atividades. Mas sua consci-ência só atinge o pleno desenvolvimento quando ele aprimora a sua estesia, conquistando os planos superiores de uma visão esté-tica geral. Sabemos a importância que os gregos davam à beleza e ao sentimento estético. Platão chegou a afirmar que através dos belos corpos a alma atingia o Belo. A pobreza espiritual do nosso tempo interpreta essa afirmação em termos sensoriais, quando o seu sentido é puramente espiritual. Os belos corpos despertam admiração e amor, este se converte em devoção e eleva a alma ao encontro do arquétipo ou idéia superior do Belo, no mundo das idéias. Só neste momento o homem se liberta da animalidade e penetra os arcanos da espiritualidade. Sua consciência se despren-de dos liames terrenos para atingir o desenvolvimento pleno. A visão do Belo impregna toda a sua alma, transfigura o mundo aos seus olhos iluminados pelos clarões da Eterna Beleza. Essa visão não tolera o mal nem a injustiça e penetra na essência do próprio Feio para ali descobrir os germens ocultos da Beleza. Deus não é apenas o Bem, pois sem o Belo não existe o Bem na sua perfeição necessária.

Como vemos, Deus está no homem não apenas como idéia, mas como a própria essência da criatura. Foi o que sentiu o após-tolo Paulo quando disse que em Deus vivemos e nele nos move-mos. Deus é assim a essência da existência humana. Por isso, Deus não é o Existente Absoluto apenas por existir além das nossas dimensões, mas porque determina o homem como existen-te e participa da existência humana. O conceito existencial de Deus é o único adequado a esta fase tormentosa da evolução humana, quando todos os mitos do passado se despedaçam aos nossos pés para que a Verdade possa escapar do invólucro dos símbolos e iluminar o mundo novo que está nascendo.