Contos Paraenses

João Marques de Carvalho · Capítulo 15 de 41

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Contos Paraenses

Capítulo IV

 

A alcôva nupcial na manhã seguinte ao dia do casamento.

Pela janella deixada entreaberta, um raio de sol penetra na peça e vae beijar as rosas de varias côres que, emergindo de grandes jarros de porcellana, pendem as frontes fanadas, receiosas de se mirarem aos espelhos, como invadidas por um pudor, em razão dos amorosos ruidos que durante a noite inteira sairam, por intermittencias de longos socegos, d'aquella cama honestamente encoberta pelos discretos{78} refolhos das cortinas cerradas. Ao longe, no quintal, gallos cantam alegremente, cumprimentando o sol e fazendo a côrte ás gallinhas, que cacarejam esgaravatando o chão.

E um como effluvio de ventura evóla-se pelo aposento....

E a luz da lampada de vidros fôscos diminúe de intensidade, bruxolêa palpitante, ameaçando extinguir-se....

Em cima da commoda, a grinalda de flôres de larangeiras occulta-se mais debaixo do lenço de custosa cambraia, como envergonhada, ou como enxugando n'elle as lágrymas que o espirito da Pureza houvesse porventura derramado sobre suas pétalas inodoras....

Aos pés da cama, perfilados sobre a fina alcatifa azul, os pantufos de sêda branca escancaram as cavas, n'uma expressão de abhorrecimento pela demorada immobilidade, n'uma expressão de appello aos pés que devem calçal-os.