Contos Paraenses

João Marques de Carvalho · Capítulo 29 de 41

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Contos Paraenses

Capítulo II

 

Uma tarde, quando o coronel Fonseca, encerrado no quarto, escrevia ao seu correspondente da capital, appareceu-lhe o Thiago, dizendo-lhe que necessitava falar-lhe com urgencia.

O velho estremeceu, prevendo talvez{112} que o filho ia acercar-se d'um assumpto ao qual elle fugia ha muito tempo.

Foi a fazer um violento esforço sobre si mesmo que murmurou:

—Fala quando quizeres.

Thiago sentou-se na beira da rede e guardou silencio por momentos.

O velho Fonseca olhava para elle com as palpebras escancaradas em uma expressão de curiosidade e pavôr. Tremia ligeiramente, com os nervos todos irritados.

—O diabo da gotta quer visitar-me! pensou.

No entanto, Thiago enxugava o pescoço com o lenço e começava em seguida:

—Meu pae, o negocio a respeito de que venho falar-lhe é importante de mais, para que eu estrague tempo e palavras em rodeios desnecessarios. Vou ser breve, mesmo porque estou morto por saber qual será a resposta de meu pae.—Desejo casar-me.

Conteve o coronel um gesto de indignação e disse, mostrando indifferença.

—Pois casa-te, rapaz. Eu não me opponho.... Contanto que seja a moça escolhida merecedora de ser tua mulher....

—Oh! se tal é a condição que apresenta, posso affiançar-lhe que brevemente me casarei. Bôa e séria, meiga e honesta, trabalhadora e cheia de dedicação, creio que poucas moças como ella encontrei no Pará durante os seis annos que lá estive a estudar no seminario e no lyceu.{113}

—Felicito-te, por isso, disse ainda o coronel, sentindo fortes dôres nas fontes, com o coração accelerado, porém a affectar tranquillidade.—Mas então quem é a rapariga?

Thiago sorriu indizivelmente,—com uma beatifica expressão de intensíssima felicidade no semblante, e exclamou:

—É a Venancia da villa, a minha querida Venancia!

O velho ergueu-se impellido pela commoção. Suppondo tal acção um meio de que o pae servia-se para testemunhar-lhe a sua acquiescencia, Thiago ergueu-se tambem e correu a abraçal-o.

Mas o velho, fazendo um lento signal com o braço estendido, paralysou-lhe a vivacidade do movimento e murmurou, tremendo todo:

—Attende-me, Thiago, meu filho! Ha muitos annos que sei de teus amores com a Venancia. Grandes motivos, que talvez conhecerás um dia, impediam-me de favorecer a esses amores, assim como inhibiam-me de oppôr-me a elles desassombradamente. Fingí ignorar tudo, na esperança de que os annos lançassem o tédio sobre as vossas almas captivas uma da outra por aquillo que eu pensava ser o enthusiasmo pela novidade. Com immensa dôr verifiquei o meu engano, porquanto foste fiel á tua palavra, do mesmo modo por que Venancia o foi á sua. Isto seria uma grande{114} felicidade se não fosse uma enorme desgraça. Quer dizer, seria um apreciavel penhor da tua ventura por vir, se o objecto da tua paixão fosse qualquer outra mulher, que não a Venancia..... Olha, Thiago, sem procurares inquirir qual o verdadeiro e imperioso motivo que assim me fórça a magoar-te o coração, esquece essa rapariga, deixa de visital-a, ausenta-te de Marajó, vae para a capital, ou para o Rio de Janeiro, ou para qualquer cidade longinqua, onde julgues ser-te facil achares uma mulher a quem possas offerecer a mão....

—Mas porquê, meu pae? interrogou Thiago assombrado, com o coração oppresso debaixo d'uma tristeza incalculavel, sentindo que as palavras do pae minavam-lhe o edificio da felicidade por tantos annos construido com um profundo amor expurgado de malicia.

—Porque assim é necessario,—redarguiu o velho, n'uma vehemencia de gesto e de entonação.

—Pois fique sabendo que, se não explicar satisfactoriamente a causa de similhante opposição, só tomarei as suas palavras como originarias d'uma razão que a edade torna vacillante e digna de piedade!—bradou Thiago já fóra de si, ferido n'essa grande porção de egoismo que todo o homem tem comsigo.

—Ingrato, murmurou o velho, deixando-se{115} caír sentado e chorando copiosamente.—Pois assiste á morte do teu coração, visto assim o desejares: ouve-me!

Pela janella aberta, via-se o vastíssimo campo do lado oeste da fazenda, coberto d'uma vegetação uniforme de capim crestado pelo sol. Vitellos saltavam ás cabriolas e grandes bois mansos, muito gordos e vagarosos, pastavam tranquillamente os fios de curto capim secco, abanando as longas caudas n'um compassado movimento automatico. Ao longe, um toiro preto, perfilado e sério, olhava para a linha escura do horisonte, entretido em lamber as ventas lustrosas de ranho com a flexivel lingua côr de cinza de charuto. Um cheiro almiscarado d'erva sêcca e de excremento de boi subia até ao quarto. Vaqueiros zangarreavam n'umas flautas campestres, muito rudimentares, feitas de talos de mamãoseiro. Urros melancholicos de vaccas chamando pelas crias casavam-se com essas faceis melodias bucolicas, vibravam pelo espaço em propagações suaves que, dilatando-se cada vez mais, perdiam-se no ar como um suspiro flebil de extrema ternura. E da linha do horisonte, que recortava-se muito distante sobre o azul escuro do ceu, levantava-se vagarosamente a noite, magestosa e tranquilla em sua imponencia seductora.

O velho enxugou as lágrymas e começou a falar.{116}