Contos Paraenses

João Marques de Carvalho · Capítulo 27 de 41

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Contos Paraenses

Capítulo IV

 

 

Chegando ao Lyceu, o general consultou furtivamente o cartão que lhe entregara a mulher:

 

Antonio da Silva Larangeira{106}

 

Encaminhou-se ao grupo de examinandos e perguntou pelo sr. Larangeira. Apresentou-se-lhe um rapazelho espigado e pallido, de cabellos á quirirú, olhos arregalados e unhas sujas, orladas de escoriações na derme. Que era elle proprio, sim senhor. E uma vóz fanhosa, cheia de bajulações servilíssimas, resmoneou a pequena phrase affirmativa, solicitando ali, em sua exaggerada affabilidade, a complacencia do examinador.

O general voltou-lhe costas, com a garganta apertada pela commoção, mal resistindo ao desejo de esbofetear sem clemencia aquelle vadio que tivéra o arrojo de ir apadrinhar-se com a sua Marócas, para induzil-o ao crime d'uma indignidade—arrastal-o a quebrar os seus votos de severa justiça de indomavel rispidez com os estudantes.

D'ahi a pouco, foi chamado ao exame oral o sr. Larangeira, cuja prova escripta não poderia ser peor. Escusado é dizer-te que o pequeno espesinhou a sciencia com toda a coragem d'um preparatoriano ignorante. Como, porém, desempenhava ali as altas funcções de representar a bella Marócas, á falta de Minerva, o general deu-lhe boa nota e muito empenhou-se para que a indulgencia dos demais examinadores salvasse da guilhotina o infeliz.

Ao regressar a casa, encerrava-se o general em seu quarto, quando appareceu-lhe a esposa, sempre seductora e rescendente{107} a gratos perfumes finíssimos, Couro da Russia, e jasmim do Cabo.

—Então?—perguntou ella meio-rindo.

—Approvado, affirmou o general deixando pender a cabeça, desfallecido,—talvez envergonhado da sua fraqueza, córando porventura de não haver opposto resistencia á tentação.

—Oh! bello! bello!—gritou a Marócas, lançando-se-lhe ao pescoço, beijando-o com frenesi, apresentando-lhe á flor do rosto— á ponta do nariz—os lindos pomos entumecidos, alvejando sob o fino tecido das rendas que ornavam o penteador sobre o peito.

Elle abriu os braços, recebeu-a como dentro de si proprio, n'um grande amplexo nervoso—a manifestação penultima do seu intensíssimo desejo de reconciliar-se com a mulher.

Ella impellia-o, devagarinho porém incessantemente, para o sofá perfilado junto á secretária do general, acarinhando-o com o olhar, com a voz, com os labios estendidos em titubeante murmurio voluptuoso.

Mas o velho deteve-se de repente, como transformado em estatua. Immovel, silencioso! So as palpebras tremiam-lhe precipitadamente. Afinal, duas grossas lágrymas escorreram-lhe dos olhos, muito grandes, muito lentas.

—Que tens? inquiriu ella, assustada,{108} beijando-o sobre uma orelha, amimada e tentadora, infantilisando a voz, que logo tomou dulcíssima harmonia.

—Penso que muito caras custaram-me estas pazes, meu amor. Um escandalo, aquella approvação!

—Ah! volveu ella, abraçando-o com força, reconquistando-o, reconduzindo-o para o sofá, espiritualisada de prazer, sorrindo extranhamente.

E após um instante empregado em oscular a fronte encanecida do esposo,—caíndo ambos para o sofá hospitaleiro—murmurou-lhe ao ouvido, entre um rugeruge de roupas:

—O que é bom custa caro!{109}