Contos Paraenses
Capítulo II
A familia do commendador Pereira de Castro seguiu viagem e, com ella, a pequena Isaura.{122}
Josepha, a escrava, transportada ao cumulo das grandes e mudas afflicções, não pareceu viver desde a partida da filha. Viam-n'a as outras escravas atravessar calada os aposentos desertos, alheiada de tudo, olhando em frente, como se divisando estivesse nos curtos longes do horisonte limitado uma visão, só para ella creada, a attrair-lhe poderosamente o olhar, a absorver-lhe todas as forças vivas do espirito e da razão.
Mas um dia, trez annos depois, o socio do commendador mandou chamal-a ás pressas. Acudiu indifferente, sem mau modo nem solicitude na expressão do rosto, como quem está acostumado a pensar e agir por vontade de outrem.
O socio e procurador do velho Castro entregou-lhe, a sorrir, uma carta. Bateu desusadamente o coração da preta. Aquelle papel não poderia ser senão da sua Isaura: o commendador, de tempos a tempos escrevendo ao socio, pedia-lhe sempre informasse á Josepha estar a filha d'esta com saude, muito desenvolvida e bastante adeantada nos estudos. Segurou a carta a tremer, e ficou-se a olhar longamente aquelle homem, que sorria-lhe docemente, compadecidamente.
—Anda, vae, disse elle; é uma carta de tua filha.... escripta por ella propria.
Escorreram lágrymas jubilosas dos olhos da escrava. Uma alegria sem fim dava-lhe{123} precipitados pulos ao coração. Conservou-se, todavia, immovel deante do branco, e olhava para elle, como desejando dizer-lhe alguma coisa.
Elle pareceu comprehendel-a:
—Queres que a leia?
—Sim, sinhô, respondeu Josepha, entregando-lhe apressada a carta e preparando-se para ouvil-a, para saborear-lhe o gosto transcendente dos sentidos, a divina musica ignorada das dôces palavras escriptas pela mão infantil da filha.
O socio do Castro leu:
MINHA QUERIDA MÃE,
Escrevo-lhe de Paris, onde estou aprendendo n'um collegio e d'onde lhe envio milhares de beijos n'esta carta, a primeira que por meu punho escrevo, para lhe contar, se podesse, as muitas saudades que tenho da minha santa mãe e o grande desejo que sinto de estudar muito, para voltar depressa para onde está a mãesinha do meu coração. Ante-hontem fiz dez annos e o meu protector offereceu-me uma bonita penna d'ouro, dizendo-me que com ella deveria escrever-lhe esta carta, minha boa mãe. Tenho passeado muito e gostado immenso d'esta bella cidade, onde o meu{124} prazer seria completo se a senhora aqui estivesse junto da sua filha.
Abençôe-me e receba mil beijos que lhe envia
ISAURA.
Paris, 30 de dezembro de 1887.
Josepha chorava, soluçando, quando ouviu o nome que rematava a carta,—simples linhas banaes, cheias de phrases feitas, possuidoras, comtudo, do grande merecimento de virem de parte da sua querida Isaura.