Contos Paraenses

João Marques de Carvalho · Capítulo 8 de 41

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Contos Paraenses

Capítulo IV

 

 

Estava n'este ponto a saudosa recordação do moço estudante, na janella do seu modesto terceiro andar de uma das ruas do Recife, quando o piano da vizinha desconhecida gemia tambem o adoravel remate da Serenata.

João sentiu-se commovido por aquella musica inspiradíssima, que lhe avivára tão grata lembrança de seu venturoso passado,—agora que elle estava ausente do querido sólo natal, onde moravam todos os que possuiam-lhe a flôr do affecto. Ergueu os olhos ao céo, n'uma necessidade de soltar livremente o espirito pela amplidão infinita do vacuo. No firmamento azul tachonado de louras lucilações, o crescente de lua{43} vogava para o occaso como uma alegria fugitiva; pequeninos flócos de nuvens seguiam, muito calmos e ethéreos, pelo espaço adeante, projectando sombras cinzentas sobre o calçamento da rua. Da margem opposta do Capibaribe, uma voz de soldado ergueu-se bradando—alerta!—á sentinella.

Então, por um impulso de agradecimento, o espirito de João partiu pelo infinito a fóra, chegou ao Pará, atravessando a cidade, e foi ajoelhar-se piedoso á modesta pedra gradeada que sella o tumulo venerando de Antonio, o estremecido pae de sua noiva.{44} {45}