Contos Paraenses

João Marques de Carvalho · Capítulo 24 de 41

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Contos Paraenses

Capítulo I

 

 

O meu amigo Ernesto accendêra um charuto, concertára o pince-nes sobre o espirituoso nariz arrebitado; accommodou-se melhor na vasta poltrona, muito fôfa, em que estava sentado deante de mim e começou:

 

—Pois vou referir-te o grande caso a que ha pouco alludi, á mesa, sem poder contar-t'o inteiro, pela importuna presença d'aquellas senhoras.{96}

Afigura-te ao espirito, meu amigo, a mulher mais bellamente divina e mais divinamente fascinadora que possa existir: alta, esbelta, de corpo dotado de umas adoraveis redondezas triumphantes; cutis morena, avelludada; olhos negros e brilhantíssimos,—como duas caçoilas de mysteriosos philtros embriagadores;—cabellos muito pretos e ondeados, rescendentes a bôa olencia de selvática baunilha; um donaire, uma soberania inteira de magestoso porte e fidalga apresentação captivante, capaz de enleiar-nos em toda a série de crimes que ao humano pensamento é dado formular em dias de tôrvas reflexões e sinistras ebriedades peccaminosas: uma revelação pasmosa, um exemplar perfeitíssimo da mulher-unica, da mulher-incomparavel, o archétypo da elevação dos dotes, a civilisada manifestação das nossas lendárias yáras amazonicas! E, a par de tudo isso, um espirito cultivado, uma illustração perfeita de erudita, conversas seductoras borbulhando entre uns dentes alvíssimos, pequeninos e eguaes, feitos de puro marfim, d'uma alvura de leite, engastados em formoso coral, brilhante como os róseos labios humidos da microscópica boquinha sombreada d'um leve buço,—o complemento da seducção, o requinte da tentadora volupia d'aquelle delicioso ser. Imaginaste? Pois bem; assim era a Marócas, a esposa do altivo general Bandeira,{97} velho quinquagenario d'elevada riqueza materialisada em appetitosas centenas de contos de réis, depositados nos principaes bancos do Brazil.

Comprehende agora, depois do que tenho vindo a dizer-te, emquanto a azulada fumaça d'este charuto caprichosamente descreve espiraes no espaço, como poderia amal-a o esposo, vendo-a tão nova, a seu lado, toda entregue a seu amor,—desde os timidos beijos assustadiços repentinamente dados, ás vezes, no vão de qualquer janella dos aposentos desertos de enfadonhas testemunhas, até ao completo desnuamento arrepiado e perfumoso, muito encolhido e cálido, que apresentava-lhe na mysteriosa liberdade pacifica da recatada alcôva, alta noite, com a sua elevada estatura de lyrio a erguer-se, entre neves de rendas, diffundindo aromas que sabia embriagadores, irresistiveis.

Uma fascinação, aquella dupla existencia de accendrado amor. Mutuos caprichos eram satisfeitos com afan, com orgulho, como quem dedica-se a todos os sacrificios para conquistar uma estima á força de constantes provas de louvavel desinteresse.

Confesso não ter ainda visto a repetição d'aquella invejavel existencia d'affectuoso enlevo,—elle no declinar da vida, ella em toda a maravilhosa florescencia dos seus vinte e cinco annos. Passava horas inteiras a contemplal-os, absorto na admiração d'essa{98} alheia felicidade que fazia-me venturoso,—tanto é certo que uma perfeita harmonia de suave existencia rica de affectos possue o dom de espalhar ao redor de si um como jubiloso transbordamento do seu excesso.

Muitos annos haviam já passado, desde que o matrimonio os uniu, quando Marócas fizéra o seu decimo quinto anniversario,—e nem um só instante o arrependimento lhes chegára de se terem para sempre ligado por um prematuro enlace sacramental: era a sua vida actual como a fiel reproducção do dia em que, pela vez primeira, acordando na penumbra da discreta alcôva, deram-se, entre dois beijos pouco ousados ainda, o amoravel tratamento de esposo.

Verdadeiramente admiravel, não achas?