Contos Paraenses
Capítulo II
Era noite de Natal. Nove horas acabavam de sôar no relogio da varanda. Um socego inalteravel e feliz pairava pela atmosphera da sala, onde a familia estava reunida em grupo aprazivel, ao fundo, em torno do sofá. Das ruas vinham pelas janellas abertas fortes sôpros de brisas cheirosas e sons de guitarras fugitivas, dedilhadas por alegres grupos de transeuntes. A espaços, uma voz, um grito chegava até á sala, revelando que pela cidade havia quem passeiasse, tentando festejar o anniversario do nascimento de Christo.{37}
Na sala a conversa era geral. Uma creancita formosamente encantadora sugava a extremidade de um tubo de mamadeira, sobre o cólo de sua virtuosa mãe, a qual, supposto conversar com o extremoso marido, não afastava do rosto da filha os grandes olhos expressivos, fluctuando n'um lago de ternura meiga e immaculavel como um beijo maternal.
Contemplando este quadro rubenesco, João pensava nos santos prazeres do lar,—elle, que era um mísero orphão, um desgraçado pariá do amor!—emquanto Dhalia, a sua querida noiva, sentada junto a elle, falava-lhe compungida ácêrca de uma infeliz mulher que, pela manhã, recebera de suas pequeninas mãos bemfazejas, roupas e sustento para os filhinhos. E dominando a todos, no meio do sofá, com a expressão suavíssima do rosto espiritualisada por um sorriso que venerandamente lhe frisava os labios, o velho Antonio, de cabellos e longas barbas sedosos e brancos, dirigia-se ao filho mais moço, ao Theodoro, aconselhando-o ao trabalho honrado, apontando-lhe como exemplo a seguir várias scenas a que assistira em sua passada vida commercial.
Uma exhalação de virtude emanava d'aquelle grupo: revelavam os rostos a tranquillidade invejavel de quem vive contente com a sorte e depõe muitas confianças no futuro.{38}
De repente, n'um silencio entre duas pontas de dialogo, uma voz ergueu-se da rua, fazendo-se acompanhar por uma guitarra:
Folguem todos n'esta noite,
Venha a festa sem egual:
—Hoje em nada se repara,
Porque é noite de Natal.
Hoje em nada se repara,
Porque é noite de Natal.
E a guitarra chorava em tom menor, fazendo côro ao ritornello. A voz de um agradavel tenor prendeu logo a attenção dos que estavam na sala:
Esta noite abençoada
Pertence aos que têm amor;
No presepe bethlemita
Veiu ao mundo o Deus-Senhor.
Novo ritornello choroso na guitarra.
Por isso, moços e moças,
Entregae-vos ao prazer,
Emquanto não vem a edade
Vossa fronte encanecer!
Terceira e ultima plangencia melancholica desferida na guitarra.
Aos derradeiros versos, o velho Antonio levantára a cabeça, n'uma energia de movimento,{39} com as narinas afflantes, os anneis da cabeça tremendo-lhe sobre os hombros.
—Tôlo!—exclamou, referindo-se ao cantor, cuja voz perdia-se agora ao longe, na extremidade da rua.—Pois que venha cá, a ver se os velhos não têm amores e prazeres!.. Que venha presenciar a este quadro e me dirá ao depois se eu não amo as minhas queridas filhas, o meu bondoso Braga, o meu Theodoro e á innocentinha que ahi dorme sob as bençãos do meu olhar!..
Um soluço gemeu-lhe no peito: Dhalia ergueu-se, radiante como a encarnação do carinho e, muito piedosa e pura,—qual um raio de sol illuminando a face de uma estatua antiga,—foi beijar amoravelmente a fronte do ancião....
Que não se affligisse, pediu-lhe affagando-o;—que não désse importancia a similhantes asneiras. Todos sabiam perfeitamente com que intensidade elle amava a familia, e que suaves prazeres tirava d'esse amor. E demais, aquella noite era de festa, como dissera o desconhecido cantor, não valia a pena entristecer-se....
—Para o lado os pezares!—terminou sorrindo.—Como distracção agradavel a todos, vou tocar ao piano a Serenata de Schubert.
Já se tinha João levantado, prevendo{40} este desfecho: correu ao piano, abriu sobre a estante a musica desejada e, accendendo as velas, sentou-se ao lado do banquinho, que Dhalia veiu occupar.