Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos

Capítulo 24

Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem primeiro executou a idéa de uma Historia universal.

Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia do povo de Deus, que foi o fundamento da religião. Escreve, portanto, sob o ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua obra é, para assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a originalidade que revela está, como observa Cousin, na execução. Vendo caminhar o povo de Deus á face da terra, sempre guiado pelo milagre, que faz, por exemplo, com que a vara de Moysés aparte as aguas do mar Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse povo a mão de Deus, o espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na mobilidade dos acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas lembrai-vos, meu senhor

—conclue o prelado de Meaux[24]—que esta longa cadêa das causas particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens secretas da divina{29} Providencia.» Embora arrastado pelas convicções profundamente religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo dever da sua posição social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, unico, intransigente; mas em todo o caso imprime á Historia um caracter philosophico, porque determina um mobil e um fim a todos os acontecimentos humanos.

O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a França, a França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se comtudo, perante o espectaculo da Providencia, embevecido em extasis religiosos, de estudar as relações dos povos entre si para se elevar até á humanidade. Elle preoccupa-se com o povo de Moysés como se esse povo constituisse por si só a humanidade. Na historia dos imperios, a que consagra a terceira parte da sua obra, procura systematicamente a ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de Deus. Não só o Oriente falta no grande livro de Bossuet,