Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos
Capítulo 6
Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais cordeaes relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a theoria de Vico, dos povos mudos, exprimindo-se por meio de corpos ou de imagens, que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam exprimir, por exemplo, tres espigas para
significarem a idéa abstracta de tres annos[6], é manifestamente muito mais acceitavel do que a de Cantu, porque se funda na propria natureza humana, e destroe a opinião de que sem uma linguagem, no estado de perfeição em que Cesar Cantu parece suppol-a, a associação humana é inadmissivel.
O dr. Luiz Büchner[7] confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, que o homem primitivo foi necessariamente um sêr mudo, e a linguagem articulada uma acquisição lenta e gradual; que ella teve por origem os gritos espontaneos de prazer e dôr, a que succederam{14} os sons imitativos (onomatopéas), razão por que na grande variedade de todas as linguas (cerca de tres mil) ha um numero consideravel de sons equivalentes, e até mais ou menos analogos. Cita uma observação de William Bell, a respeito do monosyllabo loh, empregado em muitas linguas para designar a luz, a chamma, e que procede da simples exclamação oh! precedida de um l ou de uma vibração da lingua. Crê que a pouco e pouco se foram formando os polysyllabos, pela repetição de um som simples, como nas palavras mamã, papá ou pela agglutinação das syllabas. «Depois, observa finalmente, o simples grito, correspondente a um sentimento, foi imitado pelos companheiros d'aquelle que o soltou, e acabou por tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o proprio sentimento.»