Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos

Capítulo 4

Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões seguintes.

As relações naturaes a que o auctor da Historia universal allude na primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos deveres que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de instincto, facto comprovado em todas as especies animaes, e até nas vegetaes. Para as aves, por exemplo, os laços d'essas relações naturaes convertem-se em deveres, e todavia nós não podemos suppôr nas aves a noção moral de dever. Emquanto, entre algumas familias aladas, a mãi acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a femea, e muitos naturalistas citam o facto de certas aves educarem{12} seus filhos no que chamaremos arte do vôo, antes de os abandonarem a si mesmos.

Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de constituir sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. Tambem poderemos suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o conhecimento das vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, que vivem e trabalham em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de conservação, ou serão impellidas pela elevada idéa da utilidade de associação?

Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, desejamos accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.

Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente privadas de linguagem, mas entendemos com sir

John Lubbock[4] que essas tribus possuem todas uma linguagem, comquanto muito imperfeita e complicada de signaes.

Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si,

segundo o testimunho de James[5], ignorando completamente a linguagem umas das outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr dous individuos,{13} pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, conversando facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo as suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, por um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, o mais espalhado ainda entre elles.»