Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos
Capítulo 59
As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação levaram Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas, que até ahi faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de origem aryana. Por onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela applicação do methodo philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas sciencias, por igual importantes, a ethnologia e a philologia. E não diremos que a philologia é a base da ethnologia, porque muitas vezes a linguagem de um povo está falseada por agentes historicos e sociaes, taes como a conquista,{56} o commercio, e a irradiação de focos
intellectuaes mais ardentes[59]. Mas, como quer que seja, acompanhar a evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico das litteraturas sob o ponto de vista da
archeologia, da arte e da mythologia[60]. Os grandes problemas philologicos apenas começaram a inspirar geral interesse no principio d'este seculo. O ponto de partida dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem foi a Grammatica comparada das linguas indo-europêas por Francisco Boop. A antiguidade classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou grega, não podia
elevar-se ás theorias geraes[61]. Além do que, era preciso que a Historia fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para sobre o conhecimento pratico das linguas fundamentar a
moderna sciencia da linguagem[62]. No seculo actual a philologia começou a estudar as ramificações das linguas, a comparal-as, a classifical-as, a criticar os seus productos, como a Historia começou simultaneamente a estudar as ramificações{57} dos povos, a comparal-os, a classifical-os, a criticar as suas manifestações. A linguistica, estudando a phonetica e a estructura das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á philologia, porque se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz Hovelacque, se ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como poderá fazer um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente,
d'essa lingua[63]? A Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos de simplificação e de generalisação, tratou de procurar as leis que presidiram á formação das linguas, e assim é que a sciencia da linguagem tem chegado á descoberta de factos importantissimos. Averiguou-se, por exemplo, que a lingua chineza, a qual comprehende quarenta mil palavras, apenas possue um peculio de