Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos
Capítulo 80
Portanto foram levados a concluir que residia no calor a causa de todo o movimento nos corpos inorganicos, e de todos as phenomenos vitaes nos corpos organisados.
Mas a presença ou a ausencia de calor, estudada no corpo humano, produziu a noção de tres funcções differentes.
FUNCÇÃO PHYSICA.—O corpo do homem ganhava pelo calor a actividade, a vida, que perdia pelo resfriamento.
FUNCÇÃO PSYCHOLOGIGA.—Desde o momento em que o corpo do homem se tornava cadaver por um resfriamento geral, a faculdade de pensar desapparecia.
FUNCÇÃO METAPHYSICA.—Se pela ausencia da luz o mundo ficasse sepultado em trevas, a intelligencia humana, dado que podesse funccionar, ficaria inteiramente desajudada do auxilio da vista, que é o sentido pelo qual nós adquirimos a percepção de quasi todas as idéas, especialmente a idéa da harmonia das cousas, e
conseguintemente do principio de que emanam[80].
Assentes estes principios, vejamos como se póde affirmar a unidade historica das religiões pela sua filiação commum no elemento vedico do calor. Tomemos na religião{68} que seguimos um exemplo, o dogma da trindade.
Temos no christianismo o Padre, o Filho e o Espirito, e na trindade aryana a concepção de tres deuses que resumiam o nucleo da theogonia: Savitri, Agni e Vâyu.
Savitri, o productor, o pai celeste, é o sol.
Agni, é o fogo, habita na terra. O seu nascimento é mystico: se por um lado tem um pai terrestre, Twastri, que quer dizer carpinteiro, por outro lado descende do céo, e foi concebido pela vontade de Vâyu no ventre de Mâyâ.
Vâyu, no sentido material é o vento, o ar em movimento, que alimenta a luz e o fogo; no sentido metaphysico é o espirito de vida, a immortalidade em si mesma.
Todos estes tres deuses estão, pois, substancialmente identificados na trindade aryana como na trindade christã. São uma concepção metaphysica baseada sobre uma concepção muito vaga da natureza.
Mas a unidade historica das religiões póde ainda acompanhar-se na vida de Agni, o deus que se humanisa, porque desce á terra.
Twastri, seu pai, é o carpinteiro, que fricciona os dous bocados de madeira, de que ha-de sahir o «filho divino».
Mâyâ é a personificação da potencia productora sob a fórma de mulher.{69}
Agni nasce homem e transforma-se em deus quando um sacerdote, collocando-o sobre o altar, derramou sobre a sua cabeça o licôr sagrado, sôma, e o ungiu com a manteiga do sacrificio. Entre os aryas da Asia central a vacca era o typo por excellencia dos animaes, produz o leite, o qual produz a manteiga. A manteiga clarificada é a materia animal que melhor serve para alimentar o fogo. O sôma é um licôr alcoolico, produzido pelo succo da asclepias acida, que, fermentado, e lançado ao fogo, cria chammas esplendidas.
O sôma das religiões do Oriente transforma-se nas religiões do Occidente em vinho, o licôr sagrado. Assim como Agni reside no sôma, Christo reside no vinho, tambem sob uma fórma mystica. Ainda vamos encontrar no vinho o elemento vedico do fogo: a uva amadurece pelo calor, concentra-o, e transmitte-o a quem bebe o seu succo. O bolo que na religião indiana é feito de farinha e manteiga, materias eminentemente combustiveis e nutritivas, transforma-se na religião christa na hostia feita de farinha e agua, convindo lembrar que a combinação do hydrogenio com o oxygenio, de que resulta a agua, tem por condição, essencial o calor. Agni como Christo residem n'esta offrenda solida: são o sacrificador que se offerece a si mesmo como victima.