Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos

Capítulo 12

A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á

guerra, que, segundo Victor Cousin[12], é o instrumento terrivel mas necessario da civilisação. «A hypothese de um estado de paz perpetua na especie humana—diz elle—é a hypothese da immobilidade.» Comquanto não nos exalte em favor da guerra esta opinião de Victor Cousin, somos todavia levados a acreditar que a vida das primeiras nacionalidades se fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se fortalece pela gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos povos, nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que é a

primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos[13].

Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações das brumas do maravilhoso.

Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois de haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar a historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado fabuloso. Na mais antiga parte dos Vedas, o Rigveda, os indios agradecem a intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra protege a carnificina, como nós, quando{19} procurámos uma origem maravilhosa, fizemos intervir Christo na batalha de Ourique.

Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, misturados com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.

Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as ruinas da humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer destroços. Na China, a monarchia dos Hia, que durou quatrocentos annos, acabou acompanhada de graves perturbações. Eis-aqui como foram augmentando os materiaes da Historia: ruinas e destroços.

Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores coloridos da manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada nação, envolta nas tradições maravilhosas da sua origem poetica.

Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros homens que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura das gerações que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes vida nova, imitando a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e dar-lhes pensamento e voz, e ouvil-as, e collocal-as á volta de si mesmos, vendo-as passar em turbilhões phantasticos como na formosa ballada da dança dos mortos! O historiador, por uma arrojada abstracção, collocava-se fóra do seu paiz, e com uma poderosa{20} alavanca, muito semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao rei Hieron, levantava a terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações que a povoaram, mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente assombrosa esta nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o homem transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta. Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á vida de seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um presente de seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, arremessaram para a immensidade do futuro a outra extremidade da corrente de ouro, a que as gerações subsequentes haviam de encadear novos anneis.