Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos

Capítulo 71

um unico livro[71]. Assim é que a symbolica vai encontrar na

stipulacão a palha (stipula), que intervinha nos contractos[72] e que

até algumas vezes se cosia aos documentos[73]; na prova pelo fogo o symbolo da pureza, porque, segundo os antigos, o fogo, sendo o

grande purificador, «não podia conjurar contra o innocente[74].»

Em Portugal, as mulheres accusadas de adulterio purgavam-se a ferro caldo. O ferro, aquecido pelo fogo, accusava o crime ou a innocencia: o fogo, diz o Ramayana, vê tudo o que ha de manifesto e tudo o que{63} ha de occulto. Bastaria só este facto para demonstrar que o symbolismo tanto abrangia a religião como o direito. Por um lado o fogo tinha um caracter divino, encarnava-se

em Vesta, a que os gregos chamavam Estia, fogo domestico[75]; por outro lado revestia um caracter juridico, porque pela prova do fogo ficava a mulher legalmente rehabilitada. De modo que no ferro caldo não só se póde distinguir o elemento religioso e o elemento juridico, mas tambem a relação existente entre os dous elementos: sendo o adulterio um crime que principalmente affecta a vida de familia, a superstição continuou a fazel-o julgar pelo fogo, que na mythologia grega tinha um caracter divino de domesticidade.

Antigamente, o historiador fugia dos symbolos pela mesma razão que os caminhantes fugiam da Sphynge: por não poder adivinhar o que elles diziam. Mas depois de Vico, o primeiro philosopho da Historia, as allegorias tornaram-se claras, luminosas. Desde esse momento tanto se dilatou a esphera da Historia, que um só individuo passou a representar uma generalisação: Achilles o valor commum a todos os homens fortes, Ulysses a prudencia commum a todos os

sabios[76]. Esta generalisação illustrou ao mesmo passo o passado e o futuro: o passado, porque interpretou a antiguidade; o futuro, porque produziu a etymologia das linguagens poeticas.{64}