Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos
Capítulo 14
Chegado á grande conquista do que chamaremos faculdade historica, isto é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se o homem de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia reconstruir o passado.
Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.
Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a estas arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem totalmente de flôres, como a amendoeira. A
imaginação, excitada pela tradição poetica[14],{21} estava n'elles em pleno vigor, pompeava as suas galas luxuriantes, á maneira das florestas virgens que se enredam em labyrinthos de phantasiosas ramarias.
Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, os primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as suas narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a imaginação acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.
Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá largas á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com colleccionar anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear os espiritos frivolos, porque são um brinco para a imaginação.
Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por sua vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da imaginação na Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e independente.
Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava com a posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente proxima de nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só para obter os restos mortaes de Santa Triphomena.{22} Theodoro, bispo de Metz, preava em Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava que não a largaria sem que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a desejava