Da importância da História Universal Filosófica na esfera dos conhecimentos humanos

Capítulo 68

Se os vocabularios foram considerados testimunhos importantes para a historia da civilisação dos povos, as litteraturas, os monumentos litterarios principiaram a reputar-se, perante a critica moderna, a photographia do estado do espirito d'esses povos, e dos

seus costumes. É por isso que Henri Taine[68] disse: «A historia transformou-se ha cem annos na Allemanha e ha sessenta em França, pelo estudo das litteraturas.» A litteratura copia o povo, como o livro copia o homem. Os monumentos litterarios são a concretisação da alma das nações: tudo o que ella sentia no momento em que produziu, influenciada pela força do meio physico, clima, e pelas disposições hereditarias, raça, está alli condensado. Uma epopéa é um composto determinado pela acção simultanea{61} d'estas tres forças primordiaes reconhecidas por Taine.

Interrogado o Mahabharata, reproduz a nossos olhos o cyclo tempestuoso das conquistas dos aryas, quando, avançando para o sul, se propozeram assenhorear as regiões do Ganges. O Ramayana é tambem um symbolo sob a fórma de uma epopéa. A serenidade e abundancia que succedem aos trabalhos de Rama, para rehaver o throno e a esposa, representam a conquista pacifica do Meio-dia da India depois da conquista guerreira. É o poema da posse, como o Mahabharata é o poema da lucta. Ambos elles respondem eloquentemente ás interrogações da Historia, ambos elles caracterisam a alma da raça arya ao tempo em que rolava do alto do Thibet para, como uma onda enorme, alagar talvez o

mundo[69]. Eis-aqui porque já haviamos dito que as obras de arte e de litteratura são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo.

Nos tempos modernos, a Historia, depois do rumo que lhe imprimiu Vico, pôde extrahir grandes recursos do estudo dos symbolos; quando ella chegou a lêr esses alphabetos mudos, permitta-se-nos a expressão, dos povos primitivos, descobriu segredos importantissimos. Na poesia do Ramayana conseguiu reconhecer em Rama e em{62} Sita uma dupla personificação da agricultura, da força que move o arado e do sulco que esse

movimento produz na terra[70], o que plenamente confirma a exegese em que o Ramayana é o poema da conquista do sul da peninsula indostanica pelo trabalho sereno, pela paz. O symbolismo juridico, interrogado pela Historia, produziu a poesia do direito, concepção encantadora que em Portugal só tem originado, até hoje,