Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 10 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Oito

CAPÍTULO

OITO

Hora 25, de 45

 

O DEBATE estava acalorado.

— Acho que você está

errado, Lincoln — disse Lon Sellitto. — Temos de tirá-los daqui. Ele vai atacar a casa outra vez.

Rhyme desejou que Dellray

estivesse ali, e Sachs também, embora naquele mesmo instante ela estivesse vasculhando as estações de metrô abandonadas, com os agentes federais. Até aquela altura, não tinham achado o menor traço do Dançarino e de seu cúmplice.

— Não — retrucou Rhyme,

inabalável. — Ele vai persegui-los, não importa onde estejam. Aqui, pelo menos, estamos em território nosso. Podemos prever o ataque. E temos boa cobertura para armar emboscadas.

— Esse é um ponto a seu

favor — reconheceu Sellitto.

— Isso também vai deixá-

lo inseguro. Neste exato momento ele não sabe que atitude tomar. Se removermos Percey e Hale, que é o que ele imagina que vamos fazer, ele vai tentar atacá-los no trajeto. E é muito mais difícil manter a segurança no meio do trânsito do que aqui, num local fixo. Não. Temos de mantê-los onde estão e prever qual vai ser o próximo movimento dele. Fiquem prontos para entrar na casa.

"Mas será que estou

certo?", perguntou-se Rhyme. "O que ele estará planejando? Como posso saber?"

Um vulto apareceu na

soleira: um dos policiais que estavam de guarda à porta da rua. Ele estendeu um envelope para Thom e voltou ao seu posto.

— O que é isso? —

perguntou Rhyme.

Thom abriu o envelope e

leu.

— O FBI contactou um

especialista em areia — disse.

Era um relatório sobre o

outro caso. Rhyme olhou o papel. "Substância submetida, à análise não é areia, tecnicamente falando. Trata-se de oólitos, fragmentos de coral extraídos de formações de arrecifes. Contêm seções de corpos de vermes marinhos e de conchas de gastrópodes. Origem mais provável: norte do mar do Caribe: Cuba, as Bahamas.

Mar do Caribe.

Interessante. Pois muito bem; depois que o Dançarino fosse empacotado e despachado, ele e Sachs voltariam a cuidar do caso do agente desaparecido.

SILENCIOSAMENTE, os

 

agentes das Unidades de Emergência rodearam a estação de metrô. Policiais locais tinham registrado a presença de um viciado vendendo pílulas nas imediações. Era um homem de compleição leve, o que estava de acordo com o tamanho das pegadas recolhidas.

A estação era, literalmente,

um buraco na parede, tornado obsoleto anos atrás pela entrada em funcionamento da moderna estação de City Hall, a poucos quarteirões de distância. Os policiais das Unidades 32-E se posicionaram, enquanto agentes de busca e vigilância preparavam microfones e sensores infravermelhos, e guardas interrompiam o trânsito em volta daquele trecho. O comandante da operação deslocou Sachs para longe da entrada principal, fora da linha de fogo. Deram-lhe a incumbência de vigiar uma saída trancada com cadeado. Ela imaginou se Rhyme estaria de conluio com Haumann para mantê-la num lugar seguro.

A chuva começou a cair em

volta dela, uma chuva tão fria quanto o céu sujo e cinzento, tamborilando sobre o lixo acumulado diante das grades de ferro que fechavam a saída. Será que o matador estaria lá dentro? Ela não achava que ele fosse se entregar sem uma luta encarniçada. E enfurecia-se ao pensar que ficaria de fora dessa luta.

Desceu as escadas e colou

o corpo à parede. Examinou as grades de ferro, as correntes enferrujadas, o cadeado. Olhou para dentro do túnel escuro, sem ver nem ouvir coisa alguma.

"Onde estará ele? E por que

toda esta demora?"

Ficou sabendo a resposta

um instante depois, através dos fones de ouvido: estavam esperando reforços. Haumann tinha requerido mais agentes.

"Não, não, não", disse ela a

si mesma. Estava errado. Bastaria ao Dançarino dar uma espiada do lado de fora para ver que não havia um único automóvel, táxi ou pedestre passando pela rua, e no mesmo instante ele compreenderia que uma operação tática estava sendo levada a cabo. Haveria um banho de sangue. "Será que eles não percebem?"

Sachs subiu de novo até o

nível da rua. Um pouco mais adiante havia uma farmácia. Ela comprou duas latas de butano e pediu emprestada ao dono da loja uma haste de aço usada para firmar o toldo, uma peça resistente com l,5m de comprimento.

De volta à saída do metrô, enfiou o cabo de metal num dos elos da corrente e torceu-o até deixá-la totalmente retesada. Depois de calçar uma luva Nomex, esvaziou as latas de butano sobre o metal, vendo como ele se recobria de espuma congelada ao ser resfriado pelo gás. Amelia não tinha vivido em vão nas proximidades de Times Square; o seu know-how em táticas de forçar portas e fechaduras era o bastante para lhe garantir a sobrevivência caso resolvesse mudar de lado.

A policial segurou a haste

com as duas mãos e começou a rodá-la. Com um estalido leve, o elo partiu-se ao meio. Ela desenrolou a corrente, colocou-a com cuidado sobre uma pilha de folhas secas e empurrou a grade para dentro, puxando a Glockào coldre e pensando: "Errei você a trezentos metros, mas não vou errar a trinta. "Por um instante, lembrou-se de Rhyme. Ele não aprovaria o que ela estava fazendo, é claro. Mas não precisava saber.

Ela penetrou no corredor

sombrio, saltou por cima da velha roleta de madeira e começou a caminhar pela plataforma que levava à estação. Não tinha andado seis metros quando ouviu vozes, vindas da parte superior.

— Tenho de sair agora, está

ouvindo? Caia fora daqui.

Voz de homem, branco.

Seria ele?

O coração martelava dentro

do peito. "Respire devagar. Atirar é respiração, acima de tudo."

— Hein, tá falando o quê?

— Outra voz. Homem, negro. Algo naquela voz a amedrontou. — Eu tenho grana. Olhe aqui, sessenta pratas. Está vendo?

— Mudei de idéia, tá legal?

Vou lhe dar umas pílulas.

— Você não falou aonde

está indo. Onde é? Fala aí.

Sachs começou a subir a

escada da plataforma, rumo à direção de onde vinham as vozes.

— Você não vai comigo —

disse o homem branco. — Caia fora. Tome aqui. Aqui tem doze. Pegue e caia fora.

— Doze. E não preciso

pagar? — O negro riu alto.

Sachs ia chegando perto do topo da escada. Daí a pouco teria uma visão da estação. Estava pronta para disparar. "Se ele se mover um palmo, garota... atire."

"Esqueça as regras. Esqueça..."

De repente a escada sumiu.

Um grunhido de susto

brotou-lhe do fundo da garganta quando ela veio abaixo.

Tinha pisado numa

armadilha. O degrau de cima estava apoiado apenas em duas caixas de sapato, que cederam sob seu peso, fazendo-a rolar escada abaixo. A pistola voou de sua mão; ela tentou dar um grito de alerta, mas percebeu que o fio do rádio tinha se soltado durante a queda.

Aterrissou com um ruído

surdo no concreto e sua cabeça chocou-se com violência contra o corrimão de metal. Rolou sobre si mesma, estonteada.

— Ih, olha só. — Era a voz do homem branco, vindo do topo da escada.

— Que diabo é isso? —

perguntou a voz do negro.

Ela ergueu a cabeça. O

homem branco descia com rapidez os degraus, empunhando um bastão de beisebol.

"Estou morta", concluiu ela.

"Morta."

Ainda tinha o canivete no

bolso. Precisou de todas as energias que lhe restavam para sacar a arma, mas já era muito tarde. O homem pegou-lhe o braço, prendendo-o contra o piso, e abaixou-se para examiná-la de perto.

"Ai, cara... Rhyme...

Estraguei tudo. Queria que tivéssemos tido uma noite de despedida melhor do que a de ontem. Sinto muito..."

Com a mão de tendões

salientes, que mais parecia a garra de uma ave, o homem tirou o canivete do bolso de Sachs e o lançou para longe. Balançando distraidamente o bastão, falou:

— Agora vai me dizer o

que está fazendo aqui. Quem é você?

— O nome dela é Srta.

Amelia Sachs — disse o negro, que de repente já não tinha mais a aparência de mendigo. Ele adiantou-se e, num gesto rápido, arrancou o bastão das mãos do outro. — E, a não ser que eu esteja muito enganado, ela veio aqui para agarrá-lo. Assim como eu.

Sachs apertou os olhos para

vê-lo melhor, enquanto se erguia. Era Fred Dellray, e agora já apontava uma pistola automática para o homem atônito.

— Você é policial? —

perguntou ele. — Mas que azar o meu!

— Isto não tem nada a ver

com azar — disse Dellray. — Vou colocar estas algemas em você, e nada de gracinhas, ou vai passar meses gemendo de dor. Estamos de acordo?

 

— ENTÃO, o que temos

aqui?

Enquanto falava, Rhyme

deu um leve sopro no tubo de comando de sua cadeira Storm Arrow, impelindo-a para frente.

— Um bicho saído do lixo

— sugeriu Fred Dellray, que já tomara banho e trajava novamente seu terno verde. Ele virou-se para Jodie, dirigindo-lhe um olhar severo. — Quieto! Não diga uma palavra. Só fale quando alguém lhe perguntar alguma coisa.

— Você me enganou. — O

pobre homem estava completamente atônito.

— Cale a boca, vagabundo.

Rhyme não estava satisfeito

com o fato de Dellray ter feito uma incursão por conta própria; mas o agente tinha obtido resultados, e ainda por cima salvara a vida de Amelia.

Logo ela estaria de volta.

Os médicos a tinham levado para uma radiografia das costelas. Rhyme ficara chocado ao constatar que a conversa que tinham tido na noite anterior de nada adiantara: ela entrara sozinha no metrô para caçar o Dançarino.

"E tão cabeça-dura quanto

eu", pensou ele com seus botões.

— Eu não ia machucar

ninguém — protestou Jodie.

— Você é surdo? Falei para

não dar uma palavra.

— Eu não sabia quem era

ela.

— Não, não sabia. Você

nunca viu um distintivo como o que ela usava, não é mesmo, palhaço?

Sellitto adiantou-se dois

passos.

— Fale alguma coisa sobre

o seu amigo.

— Eu não sou amigo dele.

Ele me sequestrou. Eu estava...

— Vendendo drogas. Isso

nós sabemos. Conte o resto.

— Ele disse que estava ali

para matar umas pessoas. Achei que ia me matar também. Ele me disse para ficar quieto e aí aquele agente apareceu. Eu não sabia que ele ia matá-lo.

Jodie fez uma pausa e

Sellitto, que estava examinando os sacos plásticos os com indícios, ergueu os olhos.

— Continue.

— Bem, ele disse que me pagaria se eu o ajudasse a sair dali, e eu o guiei pelo túnel até o metrô.

— Quem o contratou para

matar as pessoas? — perguntou Sellitto. — Ele disse algum nome?

— Não, não disse. — A

voz de Jodie vacilou. — Olhe... — Ele virou-se para Dellray. — Ele queria que você o ajudasse também. Mas assim que ele saísse dali, eu iria à polícia. Juro. Ele é um cara estranho, me deu medo.

— O que ele queria que

você fizesse? — perguntou Rhyme.

— Ele pediu que eu ficasse

mexendo nas latas de lixo em frente de uma casa e que olhasse os carros que saíam. Depois eu ligaria para ele, daquele celular ali. Mas eu não ia fazer isso, eu ia contar tudo para vocês.

— Você é incompetente até para mentir — disse Dellray.

— E verdade, eu ia sim —

insistiu ele. — Achei que ia rolar alguma recompensa.

Rhyme observou os olhos

cobiçosos de Jodie e sentiu-se inclinado a acreditar nele. Olhou para Sellitto, que concordou com um leve gesto de cabeça.

— Coopere conosco —

disse Sellitto — e podemos evitar que você seja preso. Sobre dinheiro, não posso garantir nada. Talvez. A que horas ele disse para estar lá?

— Meio-dia e meia.

— Tinham ainda cinquenta

minutos.

— Como é ele?

— Tem trinta, 35 anos, eu

acho. Não é alto. Mas é forte. Cara, ele tem cada músculo... Cabelo preto, corte militar. Rosto redondo.

— Deu algum nome? Falou

alguma coisa? De onde ele é?

— Não sei. O sotaque

parece meio do sul. Ah, tem uma coisa. Ele disse que matou um cara, lá na terra dele, quando era garoto.

— Quando era garoto? —

exclamou Rhyme com desdém. — Registros desse tipo não são divulgados.

— O que mais? — insistiu Dellray.

— Olhe — disse Jodie —,

eu já fiz muita coisa errada, mas nunca machuquei ninguém. Esse cara me sequestrou, anda cheio de armas, e é meio psicopata; eu estava morrendo de medo. Vocês fariam a mesma coisa, no meu lugar. Se quiserem me prender, me prendam, mas não vou falar mais nada.

Amelia Sachs apareceu na

porta.

— Diga a eles — disse

Jodie. — Não machuquei você. Fale para eles. Amelia dirigiu-lhe o mesmo olhar que dedicaria a um chiclete jogado no chão.

— Ele só estava pronto

para estourar meus miolos com um taco de beisebol — disse ela.

— Não! Não é verdade!

— Você está bem, Sachs?

— perguntou Rhyme.

— Um arranhão nas costas, mais nada.

Sellitto e Dellray se

aproximaram de Rhyme, enquanto este repassava para Sachs o que Jodie tinha informado. Sellitto e Dellray disseram ter acreditado no que o vagabundo tinha contado, mas prefeririam mantê-lo sob estrita vigilância.

Rhyme concordou, mesmo

relutando um pouco. Aquela altura, seria difícil chegar ao Dançarino sem a ajuda de Jodie.

Sellitto chamou Jodie a um

canto.

— Muito bem, vamos fazer

um trato. Você vai nos ajudar. Ligue para o cara da maneira como ele instruiu. Se nós o prendermos, retiramos as acusações contra você. Você pode até ganhar uma recompensa.

— Quanto? — perguntou

Jodie. — Preciso pagar um tratamento numa clínica de reabilitação. Preciso de mais dez mil.

Sellitto olhou para Deliray.

— De quanto é mesmo a

verba para informantes de vocês?

— Podemos colaborar —

disse o agente. — Se vocês derem metade.

— É mesmo? — sorriu

Jodie. — Faço tudo que vocês mandarem.

STEPHEN ESTAVA

enveredando por becos, tomando ônibus, despistando os policiais que via e o Verme que não conseguia avistar. O Verme, que o espreitava através de cada janela. O Verme, cada vez mais próximo.

Pensou em Jodie. Pensou no

que tinham conversado. Que diabotalvez eles pudessem mesmo se encontrar para um café, depois que tudo aquilo acabasse. Café de verdade, forte, como o que a mãe de Stephen fazia para o padrasto — a água fervendo em borbulhas, uma medida exata de duas colheres e três quartos por xícara, e nem um grão de café derramado sobre a mesa. E talvez uma caçada ou pescaria não estivesse totlmente fora de questão.

Ainda não era tarde para

mudar os planos. Havia alternativas. Ele podia dizer a Jodie para abortar a missão. Podia cuidar sozinho da esposa e do Amigo.

"Abortar, soldado? Do que

está falando?"

"Senhor! Nada, senhor!

Apenas levando em conta todas as eventualidades, senhor."

Stephen desceu do ônibus e

esgueirou-se pelo beco que ficava ao lado do quartel dos bombeiros, em Lexington. Escondeu a mochila atrás de um contêiner de lixo, sacou a faca da bainha e ocultou-a dentro do casaco.

Jodie. Joe D. O modo como

o rapaz tinha olhado para ele. Foi bom ter conhecido você, parceiro.

Stephen foi surpreendido

por um calafrio. Fechou os olhos e retesou o corpo de encontro ao muro de tijolos; aspirou o odor do cimento molhado. Jodie era...

"Soldado! O que está

acontecendo?"

"Senhor, eu..."

"O quê? Desembuche

agora, soldado!"

"Senhor, acabo de constatar

que o inimigo estava se valendo de guerra psicológica. A tática não obteve sucesso. Estou pronto para prosseguir na execução do plano."

Stephen se deu conta, enquanto forçava a fechadura da porta traseira do alojamento dos bombeiros, de que não dava mais para modificar o planejado. Era uma armadilha perfeita e ele não podia deitá-la a perder, ainda mais porque ela lhe dava a possibilidade de matar não apenas a Esposa e o Amigo, mas Lincoln, o Verme, e a policial ruiva também.

Jodie ligaria para o celular

de Stephen dentro de 15 minutos. Stephen ouviria pela última vez a voz aguda do amigo.

Infiltrar, avaliar, designar,

isolar, eliminar. A verdade é que ele não tinha escolha. "Além disso", pensou, "íamos conversar sobre o quê, depois de tomar o tal café?"

 

ESPERAR.

Rhyme estava sozinho em

sua cama no andar superior, acompanhando pelos fones de ouvido os diálogos na faixa privativa dos agentes em ação. Estava morto de cansaço. Era meio-dia do domingo. Ele tinha dormido muito pouco e estava exausto; a maior parte desse cansaço vinha do esforço de tentar se antecipar ao Dançarino. O corpo começava a pagar o preço.

Cooper estava lá embaixo,

no laboratório. Todo o resto do pessoal estava na casa-esconderijo, inclusive Amelia Sachs. Depois que Rhyme, Sellitto e Dellray chegaram a um acordo quanto ao que acreditavam ser o próximo passo do criminoso para eliminar Percey Clay e Brit Hale, Thom mediu a pressão arterial de Rhyme e fez valer sua autoridade quase paterna para mandá-lo para a cama. Tinham subido pelo elevador com Rhyme mergulhado em silêncio, questionando-se mais uma vez se seu palpite estaria certo ou não.

Agora ele estava com a

cabeça afundada naquele maravilhoso travesseiro. Thom ligara o sistema de reconhecimento vocal e, a despeito do cansaço, Rhyme tinha cumprido o ritual de conectar o computador à frequência de rádio usada pela polícia. O sistema era uma coisa espantosa. Fazia com que ele se sentisse diferente. Ele já se resignara a nunca mais levar uma vida comum, mas aquela máquina fazia com que se sentisse normal.

Rolou a cabeça de um lado

para o outro e deixou-a repousar sobre o travesseiro, tentando não pensar no fracasso com Sachs na noite anterior.

Um movimento próximo.

Era o falcão macho, visível através da vidraça. Rhyme teve o vislumbre de uma mancha de penas brancas; a ave virou para ele o dorso coberto de penas cinza-azuladas e ficou vigiando o Central Park.

O rádio crepitou. Era voz

tensa de Amelia Sachs.

— Estamos todos no andar

superior, com Jodie — disse ela. — Espere... Lá está o caminhão.

A isca a ser usada era um

caminhão 4 x 4 de vidros espelhados, com quatro agentes do grupo de operações táticas em seu interior. Seria seguido por uma van, disfarçada de carro da companhia de esgotos, com agentes do grupo 32-E. Dois outros policiais estariam usando disfarces para serem tomados, à distância, por Percey e Hale. O casal está no térreo — anunciou Sachs. — Aí vão eles. A caminho.

Um clique, e o rádio ficou mudo.

Outro clique. Sellitto.

— Conseguiram. Parece

tudo bem. Vamos dar partida. Os carros da escolta estão prontos.

— Tudo bem — disse

Rhyme. — Digam a Jodie para fazer a ligação.

— Beleza, Linc. Aí vamos

nós. — O rádio foi desligado.

Esperar. Para ver se desta vez ele adivinhara as intenções do Dançarino da Morte.

 

O CELULAR de Stephen

soou e ele atendeu com rapidez.

— Alô.

— Oi. Aqui é...

— Já sei. Nada de nomes.

— Claro, claro. — Jodie

parecia nervoso como um gambá encurralado. Depois de uma pausa, ele prosseguiu: — Bem, estou aqui.

— Ótimo. Aquele negro

está com você?

— Hum, sim. Está aqui.

— Onde você está

exatamente?

Na rua, em frente à casa.

Tem uma van estacionada. E um Yukon azul, com vidros espelhados.

— Isso quer dizer que são

vidros à prova de bala.

— É mesmo? Puxa, é

incrível como você sabe coisas.

"Você vai morrer", disse

Stephen para si mesmo.

— Agora um homem e uma

mulher saíram do beco, com uns dez policiais. Tenho certeza de que são eles. Você está num carro?

— Claro — disse Stephen.

— Um desses carros japoneses baratos. Vou segui-los até chegar a uma área deserta.

— Pode vê-los? —

perguntou Jodie, soando pouco à vontade.

— Sim — disse Stephen.

— Estou dando partida agora.

— Um carro japonês —

repetiu Jodie. — Como um Toyota, ou coisa assim?

"Por que pergunta, seu traidor nojento?", pensou Stephen com amargura.

Na verdade, Stephen estava

vendo o caminhão Yukon e as vaus da escolta passarem à sua frente. Mas não estava num carro japonês, caro ou barato. Não estava em carro algum. Usando o uniforme de bombeiro que tinha acabado de furtar, estava parado na esquina, a trinta metros da casa-esconderijo, observando a versão real dos acontecimentos que Jodie distorcia. Jodie não estava ali, nem o negro.

Stephen pegou o pequeno

transmissor cinza para detonação à distância. Calibrou a frequência para a bomba instalada no celular de Jodie e armou o detonador.

— Fique firme — disse ele.

— Claro — riu Jodie. —

Estou aqui.

Stephen apertou o botão.

A explosão foi

ensurdecedora. Abalou as vidraças e fez milhares de pombos levantarem voo para o céu. Stephen viu os pedaços de vidro e madeira voarem do topo da casa-esconderijo, na parte lateral que dava para o beco. Ele esperava que Jodie estivesse nas proximidades da casa. Talvez diante dela, numa van da polícia. Mas não conseguia acreditar na própria sorte: Jodie estava dentro da casa. Perfeito!

Imaginou quem mais teria

morrido na explosão. Rezou para que tivesse sido Lincoln, o Verme. Ou a policial ruiva.

A fumaça se elevava do

topo da construção. Faltavam apenas alguns minutos para que seus colegas bombeiros chegassem e Stephen pudesse juntar-se a eles.

RHYME ORDENOU ao

computador que desligasse o rádio e atendesse o telefone.

— Sim? — falou.

— Lincoln. — Era Lon

Sellitto. — Ele explodiu a bomba.

— Eu sei.

Ele tinha ouvido: a casa-

esconderijo ficava a quase dois quilômetros da sua, mas suas janelas tinham sido chacoalhadas e os falcões levantaram voo, assustados.

O que atraíra a atenção de

Rhyme para o celular de Jodie tinham sido os minúsculos fragmentos de polistireno que Sachs recolhera na estação do metrô. E também os resíduos de explosivo plástico. Rhyme tinha comparado os fragmentos da substância com o revestimento do aparelho que o Dançarino dera a Jodie e chamara o departamento de bombas da Sexta Delegacia. Dois detetives tornaram a bomba inofensiva e encarregaram-se de montar uma menor acoplada ao mesmo sistema de detonação, colocando-a no interior de um tonel de metal numa das janelas da casa, apontada para o beco ao lado, como um morteiro.

Rhyme percebera a tática

do assassino: utilizar a bomba para desviar a atenções da van e dar-lhe uma chance melhor de atacar os passageiros. O criminoso também tinha adivinhado, provavelmente, que Jodie iria delatá-lo à polícia. No íntimo, Rhyme sentiu admiração pela inteligência do assassino.

Sellitto explicou: Temos

dois dos nossos carros seguindo um Nissan. Talvez seja ele.

Uma pausa. — Que

bobeira.

— O que foi?

— Oh, nada. E que ninguém

se lembrou de avisar a Central para ignorar a explosão. Estou ouvindo sirenes de bombeiros se aproximando Bem, a van com o despistamento está indo na direção leste, Linc. O Nissan vai atrás.

— Certo, Lon. Amelia está

aí? Gostaria de falar com ela.

— Mas que diabo... —

Sellitto interrompeu-se. — Isto aqui está cheio de caros de bombeiros. Ninguém se lembrou de...

"Não", refletiu Rhyme,

"ninguém pensou nisso. Não se pode pensar em tudo quando..."

Ligo depois, Lincoln. Os

bombeiros estão cercando a casa, subindo na calçada, e preciso fazer alguma coisa.

 

O QUARTO ESTAVA

escuro, as cortinas cerradas.

Percey Clay estava

amedrontada. Ela detestava aquele local. Um lugar fechado. Tomou outro gole do seu frasco de uísque. Rhyme lhe contara a respeito da armadilha: o Dançarino iria seguir uma van, imaginando que ela e Brit Hale estariam lá dentro. A polícia então cercaria o carro, para prendê-lo ou matá-lo. Em dez minutos liquidariam o indivíduo que tinha mudado a vida dela para sempre.

Roland Bell tinha dado

ordens para que ela permanecesse trancada em seu quarto, com as luzes apagadas. Todos os outros estavam no andar superior da casa. Ela escutou a explosão, mas não tinha imaginado que fosse sentir tanto medo. Um medo insuportável.

Caminhou até a porta,

abriu-a, deu um passo para o corredor, que estava escuro e deserto. Algo moveu-se no fundo do saguão. Uma sombra apareceu na escada. Ela olhou na direção do movimento, mas ele não se repetiu.

O quarto de Brit Hale

ficava a poucos metros dali. Ela precisava muito conversar com ele. Mas não queria que ele a visse daquele jeito — pálida, as mãos trêmulas. Voltou para dentro do quarto, trancou a porta, deitou-se na cama.

Teria ouvido passos?

 

— MODO COMANDO —

disse Rhyme. A caixa de resposta surgiu obedientemente na tela do computador.

Ouvia-se o som longínquo

de uma sirene.

Foi nesse instante que

Rhyme percebeu o erro que cometera. Carros de bombeiros!

— Oh, não — murmurou

ele.

O Dançarino devia ter

conseguido um uniforme de bombeiro, ou de médico, e naquele mesmo instante estaria se infiltrando no esconderijo.

— Como pude ser tão

desligado? — disse em voz alta.

O computador ouviu a

última palavra e obedientemente encerrou o programa de comunicação.

— Não! — gritou Rhyme.

— Não!

No entanto, o sistema não

compreendeu seu grito frenético, e uma mensagem silenciosa brotou na tela: Você tem certeza de que quer desligar o computador?

— Não — respondeu ele,

em desespero.

Outra mensagem: O que gostaria de fazer agora?

— Thom! — gritou ele. —

Alguém venha aqui, por favor!

Mas a porta estava fechada

e não houve resposta.

O dedo anular da mão

esquerda de Rhyme, o único que preservara algum movimento, tremia espasmodicamente.

— Modo comando —

ordenou ele, tentando recuperar a calma.

Não entendi o que disse,

respondeu o computador. Por favor, tente outra vez.

Onde estaria o Dançarino

agora? Já estaria dentro da casa? Estaria a ponto de atirar em Percey Clay ou Brit Hale? Ou em Amelia Sachs?

— Thom! Mel!

Não entendi o que disse...

"Por que não pensei

direito?"

— Modo comando — disse

novamente, quase sem fôlego, tentando controlar o pânico.

A tela de resposta surgiu,

afinal.

— Descer cursor —

arquejou ele. — Parar. Clique duplo.

O ícone de um walkie-

talkie apareceu no monitor. Rhyme enxergava, em sua mente, o vulto do Dançarino da Morte aproximando-se por trás de Percey Clay, empunhando uma faca ou um garrote.

 

ERA COMO um pesadelo.

Stephen Kall, com máscara

de esqui e vestindo um volumoso casaco de bombeiro, estava estirado rente ao piso no corredor do esconderijo, por trás do corpo de um dos dois policiais que tinha acabado de matar.

Outro disparo passou perto,

arrancando estilhaços do chão, próximo a sua cabeça. O tiro fora disparado pelo detetive de cabelo castanho, meio calvo — o mesmo que vira através da janela. Estava agachado atrás de uma porta, mas Stephen não conseguia um bom ângulo de tiro contra ele. O detetive tinha uma pistola automática em cada mão, e era um excelente atirador.

Stephen arrastou-se mais um metro para a frente, aproximando-se de uma porta aberta. Sensação de pânico, de espasmo, de vermes colando sobre a pele.

Tinha arrombado a entrada

do beco, com uma pequena carga de explosivo, e penetrado na casa, esperando encontrá-la tomada pelo caos, em chamas e com paredes desmoronadas, e os corpos da Esposa e do Amigo despedaçados. Mas o Verme o enganara mais uma vez.

Certamente o celular fora

grampeado. A única coisa que eles não esperavam é que ele tentasse entrar na casa após a explosão. Mesmo assim, tinha sido recebido a bala por dois policiais. Tivera de abatê-los.

Dispunha talvez de um

minuto, não mais do que isso. Sentia-se tão coberto de vermes que tinha impulsos de gritar. Lincoln, o Verme. Quem era ele? O detetive meio careca com as duas automáticas?

Outra rajada partiu da arma

de Stephen e, que diabos, o detetive mergulhou sob a linha de tiro e continuou avançando. Qualquer outro policial teria batido em retirada. Stephen recarregou, voltou a disparar. Avançou mais um metro, já estava próximo à porta do quarto.

— Aqui é Bell! — ouviu o

policial gritar ao microfone. — Preciso de cobertura.

Bell. Stephen anotou o

nome. Então, aquele não era Lincoln, o Verme.

O agente recarregou a arma

e continuou atirando. Doze tiros, depois mais 12. Stephen admirou-lhe a técnica. Uma bala cravou-se na parede a um centímetro do rosto de Stephen, que devolveu com tiro igualmente preciso.

Bell adiantou-se, disparando as duas armas ao mesmo tempo. Stephen abaixou a cabeça e jogou uma bomba de ofuscação; quando o artefato detonou, Bell caiu de joelhos, cobrindo o rosto com as mãos.

Stephen já deduzira, pela

presença dos dois guardas e pelo desesperado esforço de Bell para detê-lo, que ou a Esposa ou o Amigo estaria naquele quarto. Tinha calculado que, fosse quem fosse, estaria escondido embaixo da cama ou dentro do closet. Mas se enganara.

Quando colocou a cabeça

no umbral, viu o vulto que partia em sua direção empunhando uma pesada luminária, soltando um grito cheio de medo ou de raiva. Cinco tiros seguidos, bem colocados, arremessaram o corpo para o lado oposto do quarto.

"Bom trabalho, soldado."

"Passos se aproximando.

Não há tempo para finalizar. Evacuar o território."

Correu para a porta dos

fundos e pôs a cabeça para fora, chamando os bombeiros aos gritos. Seis deles se aproximaram, cheios de cautela. Ele fez um gesto, apontando para dentro da casa.

— Tubulação de gás

rompida! — gritou. — Evacuem todo mundo Agora!

Sumiu no beco, correu até

alcançar a rua principal, evitando os carros de bombeiros, as ambulâncias, os carros da polícia. Abalado, sim. Mas satisfeito. Já tinha cumprido dois terços do trabalho.

 

AMELIA SACHS não sabia

como o Dançarino tinha conseguido entrar ali Mas não estava ligando para isso. Queria apenas avistar o alvo durante alguns segundos para enfiar nele meio pente de balas 9mm.

Com a Glock em punho,

irrompeu no corredor do segundo andar. Atrás dela, vinham Sellitto, Dellray e um jovem policial uniformizado. Jodie estava agachado no chão, por trás deles.

Cruzaram o corredor,

olhando de relance para dentro de cada um dos aposentos, agachando-se abaixo da linha do tórax, para onde uma arma estaria apontando. Sachs entrou no quarto no momento em que dois dos agentes de Haumann entravam pelo rombo aberto na porta traseira.

— Cobertura! — gritou ela,

e antes que alguém pudesse detê-la, saltou para dentro do dormitório, com a arma apontada para a frente.

E imobilizou-se quando viu

um cano de revólver apontado para o seu peito.

— Meus Deus! —

exclamou baixinho Roland Bell, baixando a arma. Seu cabelo estava desalinhado, e o rosto, sujo. Dois projéteis tinham resvalado em seu colete à prova de balas e dilacerado sua camisa.

E então os olhos de Amelia

registraram o espetáculo terrível no meio do aposento.

Havia uma porção de

indícios a serem recolhidos na cena do crime, e por este motivo ela sabia que precisava ajudar Percey Clay a pôr-se de pé e afastar-se do amigo assassinado. Mas tudo que conseguiu foi ficar observando o rosto contorcido da mulher, que, agachada, segurava no colo a cabeça ensanguentada de Brit Hale, murmurando:

— Oh, não... não...

O rosto de Sachs era uma

máscara impassível, sem lágrimas.

DUZENTOS e trinta metros

de distância entre ele e a casa.

Luzes vermelhas e azuis de

dúzias de veículos de emergência piscavam, tentando cegá-lo, mas ele estava mirando através do telescópio e não percebia nada que não estivesse enquadrado na retícula. Stephen moveu o instrumento numa lenta varredura da cena. Tinha retirado o Model 40 de seu esconderijo sob a caixa-d'água do prédio, onde o deixara de manha. A arma estava carregada e engatilhada e ele estava pronto para matar.

Naquele instante, contudo,

não era a Esposa que ele estava procurando.

A porta da frente da casa-

esconderijo foi aberta, e Jodie saiu, com passos vacilantes. Olhou em redor, apertando os olhos.

"Você..."

Stephen deslocou o visor

até enquadrá-lo bem no peito.

"Vamos em frente, soldado,

dispare. Ele pode identificá-lo."

"Senhor, estou ajustando o

foco e calculando o vento."

"Ele o traiu, soldado.

Merece morrer."

"Sim, senhor. Ele já está

frio. É um homem morto."

Apertou o gatilho.

Devagar... devagar...

Mas a arma não disparou.

Quando ele colocou a alça de mira bem na cabeça, os olhos de Jodie, que esquadrinhavam os tetos dos edifícios, o avistaram.

Stephen tinha esperado

demais. Apertou o gatilho com brusquidão, como um garoto disparando seu rifle calibre 22 num acampamento de verão.

Jodie saltou para o lado,

empurrando os policiais que o acompanhavam.

Stephen disparou mais dois

tiros, mas Jodie, àquela altura, já tinha sumido de vista.

E o fogo de resposta

começou: uma dúzia de armas, depois outra dúzia.

"Por que esperei tanto? Por

quê? Podia ter atirado nele e já estaria fugindo."

O som de um helicóptero.

Mais sirenes.

"Evacuar, soldado. Evacuar

o terreno."

Stephen enfiou o Model 40

no estojo, jogou a mochila sobre os ombros e começou a descer a escada de incêndio, rumo ao beco.