Dança com a Morte
Capítulo Dez
CAPÍTULO
DEZ
Hora 32, de 45
À S 5:00H DA TARDE DO DOMINGO, os policiais trouxeram Jodie, que estava na casa-esconderijo, num dos quartos do andar térreo guardado a sete chaves. Ele subiu as escadas da casa de Rhyme com passos relutantes, levando sob o braço um exemplar do livro Dependente Nunca Mais. Rhyme lembrava-se do título, que aparecera na lista de best-sellers do Times durante meses. Com um espírito um tanto pessimista, ele disse consigo mesmo: Dependente Para Sempre.
Um grupo de agentes
federais estava voando de Quantico para Cumberland, em West Virgínia, a cidade natal de Stephen Kall, para recolher o máximo de informações a seu respeito. Rhyme disse a Jodie:
— Você nos contou
diversas coisas sobre ele, mas precisamos saber mais. Vamos lá, faça um esforço.
Jodie franziu a testa. Rhyme
imaginou que ele estivesse pensando no que poderia dizer para demovê-los, mas surpreendeu-se quando o outro falou:
— Bem, para dar um
exemplo: ele morre de medo de você.
— De mim? — Rhyme
estava atônito. — Ele me conhece?
— Ele sabe que seu nome é
Lincoln e que você está a fim de pegá-lo.
— Como ele sabe?
— Não sei — disse Jodie,
mas logo completou: — Bem, ele fez algumas chamadas com aquele celular. Ficou escutando durante um tempão.
— Oh, diabos — exclamou
Dellray. — Ele grampeou uma linha.
— Claro! — gritou Rhyme.
— Provavelmente o escritório da Hudson Air. Foi assim que ficou sabendo do esconderijo.
Virando-se para Jodie,
Rhyme prosseguiu:
— O que mais ele sabe a
meu respeito?
— Sabe que você é um
detetive. Não acho que ele saiba onde você mora, nem qual seja seu sobrenome.
"Então vamos ver, Stephen
Kall", cismou Rhyme, tomado por um misto de excitação e orgulho. "Vamos ver se posso lhe dar mais algum motivo para sentir medo."
— Você já nos ajudou antes, Jodie. Preciso que ajude novamente.
— Está louco?
— Cale a boca e escute —
disse Dellray secamente. — Certo?
— Não vou fazer mais nada
disso — disse Jodie. Sua voz soava quase como um ganido.
— É no seu próprio
interesse que você vai nos ajudar — disse Sellitto em tom conciliador.
— É no meu interesse que
vou levar um tiro? Pois sim.
— Tudo bem, posso
explicar — grunhiu Sellitto. — A esta altura, o Dançarino já sabe que você o entregou. Depois que ele invadiu a casa, poderia ter escapulido de lá rapidamente. Mas, não; ele ficou por perto, só para tentar acertar você. Isso é muito claro: ele não vai descansar enquanto não conseguir.
Dellray complementou:
— Estou certo de que você
não acha boa a idéia de tê-lo batendo na sua porta, daqui a uma semana, ou daqui a um ano. Estamos de acordo?
— Portanto — retomou
Sellitto —, você deve ter todo interesse em nos ajudar a pegá-lo antes.
— Mas vocês vão me dar... como se diz... proteção para testemunhas?
Sellitto encolheu os
ombros.
— Se nos ajudar, sim.
Os olhos de Jodie estavam
úmidos. Ele parecia bastante amedrontado. Rhyme perguntou-se como seria viver uma vida tão cheia de pavores como aquela. Uma vida de ratazana.
Há muitas maneiras de morrer.
Sellitto disse:
— Você estava lá quando
ele matou um dos nossos agentes. Aquele SUjeito podia estar vivo agora. Você pode nos ajudar a pegar o assassino.
Jodie estava folheando
distraidamente o seu livro, com um polegar encardido. Por fim, ergueu os olhos e disse, com uma firmeza surpreendente:
— Quando eu o levei para
o lugar onde durmo, houve um momento em que pensei que podia empurrá-lo para cair num bueiro. Sei também onde ficam aquelas pilhas de espigões de ferro dos dormentes do metrô; eu pensei em acertá-lo na cabeça por trás com um deles. Pensei nisso pra valer, juro. Mas fiquei com medo. — Ele ergueu o livro, mostrando uma página. — "Capítulo três: Enfrentando os Seus Demônios." Nunca tive coragem de fazer nada disso.
— Muito bem — disse
Sellitto. — Esta é sua chance.
Jodie folheou as páginas
amarfanhadas, suspirando.
— O que eu tenho de fazer?
— Vamos chegar lá —
disse Rhyme. — Thom! Thom! Venha aqui.
O rosto exasperado do ajudante surgiu no umbral.
— Sim?...
— Estou me sentindo
vaidoso — anunciou Rhyme. — Preciso de um espelho.
— O quê? Um espelho?
— Um bem grande. E, por
favor, penteie o meu cabelo.
A VAN da US Medical and
Healthcare entrou na pista asfaltada. Os dois enfermeiros vestidos de branco que conduziam um quarto de milhão de dólares em órgãos humanos não deram sinal de preocupação com a presença dos soldados armados de metralhadora que montavam guarda no aeroporto. Só reagiram quando King, o pastor alemão usado pelos policiais, foi trazido para farejar a carga que traziam.
— Hum, cuidado com esse cão — disse o homem. — Um fígado é sempre um fígado, e um coração é um coração.
Mas King se comportou
como um profissional impecável.
Percey já fizera a revisão
externa da aeronave, acompanhada de Brad Torgeson, o co-piloto free-lance que tinham contratado para o voo. Foi o exame visual de rotina mais minucioso na história da aviação, com os dois sendo auxiliados por Roland Bell, três policiais e o pastor alemão.
King prosseguiu com seu
exame olfativo dentro do avião. Rhyme e Sachs não haviam encontrado nenhuma amostra que coincidisse com o pedaço de látex descoberto no local da queda da outra aeronave, e tinham concluído que o material devia ter sido utilizado para lacrar o explosivo de modo que um cachorro não pudesse farejá-lo. Assim, Percey e Brad esperaram do lado de fora, enquanto agentes da polícia técnica varriam o avião inteiro com microfones ultra-sensíveis, tentando localizar o possível relógio de um detonador.
Tudo limpo. Enquanto isto,
Dellray tinha conseguido junto às autoridades aéreas que o plano de voo fosse mantido em segredo e sob esquema de segurança. A pista do aeroporto de partida e as de todas as escalas estariam sendo vigiadas por policiais uniformizados.
Agora, com os motores
funcionando, o co-piloto Brad sentado na cadeira da direita e Roland Bell remexendo-se inquieto na cadeira por trás deles, Percey Clay falou para a torre:
— Lear Nono Quinto
Foxtrot Bravo pronto para taxiar.
— Positivo, Nono Quinto Foxtrot Bravo. Licença para taxiar. Apenas um toque nos comandos de alta precisão e o ágil aeroplano começou a girar na direção da pista. Percey empurrou as alavancas mais para perto da parede corta-fogo e o Learjet acelerou até a posição de espera, onde o assassino tinha colocado a bomba no avião de Ed. Pela janela, viu dois policiais montando guarda.
— Lear Nono Quinto Foxtrot Bravo — chamou o controle de terra. — Seguir para a pista número cinco à esquerda e aguardar.
Quando chegou a
autorização para decolagem, ela conduziu o Learjet para a pista, apontou o nariz da aeronave direto para a pista e empurrou os comandos para frente. O avião começou a rodar cada vez mais depressa sobre a faixa de concreto.
— Oitenta nós — anunciou
Brad. — Checando.
— Checado — confirmou
ela, depois de uma rápida consulta ao velocímetro.
— V 1 — disse Brad. —
Rotação.
Retirando a mão direita da
alavanca de comando e empunhando o manche, Percey o trouxe para trás, fazendo o nariz do Lear apontar para cima. Ouviu o agradável rangido dos turboventiladores às suas costas. Dentro daquela delgada agulha de prata, ela se sentia voando direto para o coração dos céus, deixando para trás tudo que era incômodo, pesado, doloroso.
Estavam ganhando mais e
mais altitude, quando ela ouviu atrás de M uma exclamação assustada de Roland Bell.
— Está se divertindo,
agente? — Percey perguntou.
— Apenas curioso — disse
ele, olhando com nervosismo para a larga janela arredondada. — Sabe... daqui você pode olhar verticalmente para baixo. Por que fazem as coisas deste jeito?
Percey deu uma risada.
— Nos aviões comerciais
eles fazem de tudo para você esquecer que está voando. Onde está a graça? Que sentido tem?
— Eu posso dar uma ou duas sugestões — disse ele, mascando seu chiclete com determinação e fechando a cortina ao lado.
A altitude de seis mil pés
eles finalmente emergiram do colchão de nuvens para contemplar de frente um dos crepúsculos mais magníficos que Percey já presenciara. Ela e Brad deram início aos procedimentos rotineiros de ativamento do piloto automático, que se encarregaria de levá-los a Chicago numa trajetória retilínea como a flecha de um samurai.
Bell deu uma risada contida
e comentou:
— Sabe de uma coisa?
— O quê?
— Esta é a primeira vez
que estou vendo você mais ou menos descontraída, desde que a conheci.
— É o único lugar onde me
sinto em casa.
— Estamos a 300km/h e a
l,5km de altitude, e você se sente segura?
— Não. Agora estamos a
600km/h e a seis quilômetros de altitude.
— Eh... Obrigado pela
informação.
VERMES...
Coberto de suor, Stephen
Kall estava num banheiro imundo de um restaurante de comida cubana e chinesa. Lavando as mãos para salvar a alma. Até as cutículas começarem a sangrar.
"Soldado, este sangue pode
servir de indício. Não pode deixá-lo aqui..."
"Senhor, estou ocupado.
Suma daqui!"
"Esfregar, esfregar,
esfregar. Lincoln, o Verme, está à minha procura. Onde Lincoln, o Verme, olha, vermes começam a brotar."
"Soldado, você não pode..."
"Vá embora!"
Stephen enxugou as mãos,
agarrou o estojo da guitarra e a mochila e retornou para o interior do restaurante. Os fregueses, alarmados, olharam suas mãos manchadas de sangue, sua expressão transtornada.
— Vermes — murmurou
ele, como que se explicando. — Vermes rastejando.
Abriu caminho até a rua e
desceu-a em passos apressados, pensando no que tinha a fazer em seguida. Tinha de matar Jodie, claro. "Tenho de matá-lo, tenho de matá-lo, tenho de..."
"Por quê, soldado?"
E tinha de matar Lincoln, o
Verme, porque os vermes iriam tomar conta dele se não o fizesse. "Tenho de matá-lo, tenho de..."
"Está me escutando,
soldado? Está me escutando?"
Era tudo que precisava
fazer. Lincoln: morto. Jodie: morto.
"Tenho de matá-lo, tenho
de..." E depois não haveria mais nada para mantê-lo ali.
Quanto à Esposa... ele
olhou o relógio. Passava um pouco das 7:00h da noite. Bem, a esta hora provavelmente já estaria morta.
DELLRAY ENFIOU Jodie
num colete à prova de balas e entregou-lhe um casaco para vestir por cima. O colete consistia numa camada espessa de kevlar por cima de uma malha de aço. Pesava 42kg. Rhyme não conhecia um único policial em toda a cidade que usasse proteção como aquela. Com ele, Jodie ganhava uma silhueta musculosa.
— Mas e se ele atirar na
minha cabeça? — Jodie perguntou.
— Ele está mais
preocupado em pegar a mim do que a você — disse Rhyme.
— E como vai ficar
sabendo que estou aqui?
— O que você acha,
debilóide? — cortou Dellray. — Vou dizer a ele.
— Tudo pronto — anunciou
Sellitto. — Levem-no.
Dois agentes secretos
saíram ladeando Jodie. Dellray suspirou. Pelo celular, ele enviou uma mensagem previamente preparada para a Hudson Air, cuja linha o Dançarino grampeara.
SENTADO NUM carro
roubado, a certa distância da estação do metrô onde Jodie se abrigara, Stephen Kall observou a chegada de uma viatura oficial. Jodie e dois policiais desceram, olhando para os tetos das casas. Jodie entrou apressadamente e cinco minutos depois estava de volta, com dois pacotes embaixo do braço. De acordo com o que Stephen ouvira pelo grampo, Lincoln tinha concordado em deixar que Jodie voltasse para pegar objetos pessoais, em troca de mais informações sobre o criminoso.
Stephen não viu nenhum
automóvel cobrindo a retaguarda do outro. Isso confirmava o que ouvira no grampo. Ligou o motor e seguiu o carro. pensando que não existia lugar melhor do que Manhattan para andar atrás de alguém sem ser percebido. O veículo dos policiais ia depressa, mas ele conseguiu manter a distância entre os dois. O carro diminuiu a manha quando alcançaram Central Park West e passou diante de uma casa a altura da rua 70: dois homens postados diante da casa, evidentemente policiais
disfarçados, trocaram um breve sinal com o motorista.
"Então é isto. A casa de
Lincoln, o Verme."
O carro continuou na
direção norte. Stephen o seguiu, mas de repente estacionou e saiu, desaparecendo por entre as árvores do parque — com seu estojo de guitarra em punho. Movia-se silenciosamente.
"Como uma corça,
soldado."
"Sim, senhor."
Ele ocultou-se por trás de
um arbusto e encontrou abrigo adequado sob um pé de lilases. Abriu o estojo. O veículo que trazia Jodie tinha feito o retorno e estava agora parando diante da casa. Dois policiais saíram, escoltando calçada afora um Jodie bastante amedrontado. Stephen removeu a tampa do telescópio e começou a preparar a arma.
De repente, um carro negro
cruzou a rua; Jodie assustou-se e deu um salto correndo para o beco. Seus guarda-costas deram meia-volta, com as mãos procurando as armas, de olho no automóvel negro. Então viram as quatro garotas de aparência latina dentro dele e riram. Um deles chamou Jodie em voz alta.
Mas Stephen não estava
interessado em Jodie naquele momento. Sabia que não podia abater Jodie e o Verme num só ataque, e era Lincoln que ele pretendia matar. Era algo palpável, uma fome, uma necessidade física.
Atirar no rosto atrás da
vidraça, matar o verme.
"Preciso, preciso,
preciso..."
Olhava através do
telescópio, esquadrinhando as janelas da casa. E lá estava ele — Lincoln, o Verme.
Por alguma razão, Stephen
não ficou surpreso ao ver que o Verme era um tetraplégico. Na verdade, foi só por este detalhe que ele soube que o homem de rosto bonito na moderna cadeira de rodas era Lincoln. Porque Stephen acreditava que seria preciso um homem extraordinário para apanhá-lo. Alguém cuja essência fosse apenas mental. Os vermes podiam percorrer o corpo inteiro de Lincoln e ele nem sequer os sentiria.
As balas explosivas estavam no pente. Ele engatilhou uma delas. Lincoln dirigia-se a alguém que ele não conseguia avistar. O aposento parecia ser um laboratório. Ele viu mesas com equipamentos e a tela de um computador.
Stephen colocou a correia
da arma em volta do corpo e colou o rosto à coronha. Alinhou cuidadosamente a alça de mira com a orelha de Lincoln, o Verme, enquanto este olhava para a tela do computador. A pressão do dedo sobre o gatilho foi se acentuando. Um pouco mais... mais...
Então Stephen avistou algo.
Muito leve — apenas uma certa irregularidade na manga da camisa de Lincoln. Não era uma prega do tecido. Era uma distorção.
Aplicou mais resolução ao
telescópio e observou a tela do computador. As letras estavam às avessas.
Um espelho!
Ele estava mirando num
espelho. Era outra armadilha.
Stephen cerrou os olhos,
sentindo o retorno do medo, da sensação de estar coberto de vermes. Olhou em redor. Sabia que devia haver em torno dele uma dúzia de agentes de busca e vigilância, com microfones ultrapotentes, esperando apenas o som do tiro para localizá-lo instantaneamente e abatê-lo com fogo cruzado.
Em silêncio absoluto, ele
recolocou a arma no estojo.
"Soldado..."
"Senhor, vá embora,
senhor."
"Soldado, o que você
está..."
"Senhor, dane-se, senhor!
Vá para o inferno."
Stephen deslizou por entre
as árvores e caminhou com naturalidade tio redor do gramado. De repente, afastou-se da alameda por onde vinha seguindo e fez uma pausa junto aos arbustos, olhando em volta. Eles temeram tanto que ele estranhasse um parque subitamente deserto que não tinham fechado as entradas.
Este foi o seu erro.
Stephen viu um grupo de
homens mais ou menos da sua idade vestindo agasalhos e conduzindo estojos com raquetes, falando em voz alta enquanto caminhavam. Seus cabelos estavam úmidos após um banho de chuveiro. Juntou-se a eles, sorrindo para o mais próximo. Balançando descontraidamente o estojo da guitarra, ele acompanhou o grupo ao longo do túnel que levava ao Upper East Side.
O CREPÚSCULO já os
cercava. À frente, Percey podia ver o clarão distante que era Chicago.
O centro de controle, em
Chicago, autorizou sua descida para 12 mil pés.
— Iniciando descida —
avisou ela. — ATIS.
Brad conectou seu rádio ao
ATIS, o sistema de informação automática do aeroporto, e ajustou o altímetro. Percey falou ao microfone:
— Chicago, aqui é o Lear
Nono Quinto Foxtrot Bravo. Autorizado para 12 mil pés. Direção dois-oito-zero.
— Boa noite, Foxtrot
Bravo. Desça e mantenha um-zero-mil pés. Vetores esperados a 27, direita.
Percey recusou-se a olhar
para baixo. Em algum lugar abaixo e à frente estava o túmulo do seu marido e de seu avião.
Talvez tivesse sido
justamente dali que ele lhe telefonara.
FOI EMBORA — disse
Dellray. — Mas estava aí fora, eles têm certeza. Rhyme fechou os olhos com desagrado.
— Não posso acreditar —
disse.
Olhou para o enorme
espelho que tinha mandado instalar diante da janela e fez uma careta, sentindo um amargo desapontamento por mais um truque que não funcionara.
— Onde está Jodie? —
perguntou.
Dellray deu uma risadinha.
— Escondido no beco. Viu um carro qualquer passando e apavorou-se. Vai voltar quando estiver com frio.
— Ou para pegar a grana
— disse Sachs, indo até a janela.
— Não vá — Rhyme
advertiu-a. — Ainda não temos certeza de que ele foi embora.
Sellitto fechou as cortinas,
mantendo-se afastado da janela. Foi nesse instante que o telefone tocou junto a Cooper, que atendeu, escutando em silêncio.
— Lincoln — falou ele por
fim —, é o pessoal do Departamento de Bombas. Eles checaram a coleção de referências sobre explosivos. Nada conduz àquele tipo de borracha, mas ela tem semelhança com um material utilizado em detonadores de altitude. Um balão de látex cheio de ar se expande quando o avião sobe, por causa da pressão menor lá no alto. Com isso, ele aperta um botão na parte lateral da bomba e ela explode.
— Mas esta bomba foi
detonada por um contador de tempo.
— Bem, ele só está
comentando a respeito do látex.
Rhyme olhou para o saco
plástico onde estava guardado o contador. Por que permanecera em tão bom estado? Colocá-lo por trás da lingueta de aço tinha parecido a princípio um descuido do Dançarino. Agora, Rhyme não estava tão seguro.
Ouviu a voz de Sachs.
— Diga a ele que o avião
explodiu quando estava descendo — disse ela
Cooper transmitiu o recado,
escutou a resposta e depois voltou-se para Sachs:
— Ele falou que pode ser
uma variação da mesma idéia. Quando o avião sobe, o balão infla, e liga um botão que arma a bomba. Quando o avião desce, o balão murcha, o circuito é fechado e a bomba explode.
Rhyme sussurrou:
— O contador de tempo é
uma pista falsa. Ele teve todo o cuidado para que não fosse destruído, para que pensássemos que era uma bomba de tempo. — Virou-se. — A que altura estava o avião de Carney quando explodiu?
Sellitto correu até o
relatório do Departamento de Segurança dos transporte.
— Cinco mil pés.
— Então a bomba foi
armada na subida, quando eles atingiram essa altitude, e detonou quando desceram abaixo disto, ao se aproximar de Chicago.
— Mas... — disse Cooper.
— Para que todo esse trabalho para nos fazer pensar que era um tipo de bomba, e não outro?
Sachs e Rhyme intuíram a
resposta quase no mesmo instante.
— Oh, não! — exclamou
ela. — O esquadrão estava procurando uma bomba de tempo hoje à noite. Tentando escutar um contador. Percey e Bell estão agora com uma bomba de altitude no avião.
VELOCIDADE de descida:
1.200 pés por minuto — anunciou Brad. Percey puxou para trás, muito de leve, a alavanca de controle, diminuindo a velocidade. O avião atingiu os 5.500 pés.
Ela escutou um chiado. Era
o telefone celular de Bell.
— Cinco mil e trezentos —
anunciou Brad.
Um instante depois soou um grito na cabine.
— Subam!
Bell estava agachado ao
lado de Percey, com o aparelho na mão.
— O quê?
Há uma bomba no avião.
Bomba de altitude. Vai detonar quando descermos a 5.000 pés. Subam! Mais! Já!
Percey anunciou:
— Acelerar, 98%.
Brad empurrou os controles
para a frente, enquanto Percey iniciava uma rotação ascendente de dez graus com o Lear, fazendo Bell esparramar-se no chão, no outro extremo da cabine.
Brad ia contando:
— Cinco mil e duzentos...
5.400... 6.000 pés.
Percey Clay jamais
declarara uma emergência em todos os seus anos de pilotagem, mas anunciou:
— Mayday, mayday, Lear
Nono Quinto Foxtrot Bravo.
— Na escuta, Foxtrot
Bravo.
— Atenção, Chicago, temos
informação de bomba a bordo. Precisamos de liberação imediata para um-zero-mil pés e indicação de rota para circular sobre área não habitada.
— Positivo, Nono Quinto
Foxtrot Bravo — disse o controlador de tráfego, sem se alterar. — Mantenha a presente rota de dois-quatro-zero. Liberado para um-zero-mil pés. Estamos em contato com todas as aeronaves nessa área.
Brad lançou um olhar
preocupado para Percey, enquanto ligava o sinal automático de alerta pelo radar, indicando que Foxtrot Bravo estava com problemas.
O celular de Bell chamou
novamente. Ele escutou, deu um suspiro e perguntou a Percey:
— A distribuidora
Northeast Aircraft entregou hoje um extintor de incêndio?
— É lá que a porcaria está?
— perguntou ela, com amargura.
— Parece que sim. O
caminhão que fez essa entrega teve um pneu furado logo após apanhar a carga no armazém. O motorista levou uns vinte minutos para trocá-lo.
Percey olhou
involuntariamente para o outro extremo da cabine.
— E eu mesma a instalei —
falou.
Um instante depois, uma
chamada soou no rádio. Era Lincoln Rhyme.
— Percey, está me ouvindo?
— Alto e claro. Esse
sujeito nos aprontou uma boa, hein?
— É, parece. Quanto lhe
resta de combustível?
— Uma hora e 45 minutos.
Aproximadamente.
— Está bem, então vamos
ver. Não pode desaparafusar o tubo do extintor? Deixá-lo cair?
— Daqui de dentro, não.
— Tem alguma opção para
reabastecer sem pousar?
— Reabastecer? Com este
avião aqui, não.
— Pode voar alto o
bastante para tentar congelar o mecanismo da bomba?
Ela espantou-se com a
velocidade de raciocínio daquele homem.
— Talvez — respondeu. —
Mas mesmo que desçamos depois em linha reta, não acho que ele continue congelado... Além disso, a manobra provavelmente nos faria em pedaços.
Rhyme ficou em silêncio.
Brad engolia em seco e limpava as mãos nas calças de vinco impecável. Roland Bell fazia o corpo oscilar para frente e para trás. "Não vai haver saída", refletiu Percey, enquanto contemplava o azul carregado do céu.
— Lincoln, você está aí?
— perguntou.
Ouviu a voz dele em
seguida. Ele estava chamando alguém, e dizia em sua voz impaciente:
— Não, não é esse mapa.
Você sabe muito bem qual é.
Silêncio. "Ai, Ed",
exasperou-se Percey. "Nossas vidas sempre seguiram caminhos parecidos. Talvez nossas mortes sejam parecidas também."
Então ela ouviu Rhyme
perguntar:
— Com o combustível que
tem, até que distância pode alcançar?
Ela olhou para Brad,
enquanto ele digitava os números.
— Se mantivermos uma
certa altitude, digamos que 800 milhas.
— Tive uma idéia — disse
Rhyme. — Dá para chegarem a Denver?
— A ALTITUDE do
aeroporto é de 5.180 pés — disse Brad, apontando para o Guia Aéreo do Aeroporto Internacional de Denver. — É mais ou menos o que atingimos em Chicago, e ela não explodiu.
— A que distância?
— Deste ponto agora,
nove-zero-dois milhas.
Percey precisou de apenas
uns segundos para tomar a decisão. Vamos tentar. — E, para o rádio: — Temos o combustível exato, Lincoln. Preciso checar uma porção de coisas; já ligo de volta.
Brad verificou o mapa.
— Virando à esquerda,
direção dois-meia-meia.
— Dois-meia-meia —
repetiu ela, e em seguida chamou o tráfego aéreo. — Atento, Chicago, aqui é Nono Quinto Foxtrot Bravo. Talvez tenhamos uma bomba de altitude a bordo. Favor requerer auxílio de navegação VOR para Denver.
— Positivo, Foxtrot Bravo.
Daqui a um minuto.
Brad pediu:
— Por favor, Chicago, informe como está o tempo nessa direção.
— Uma frente de alta
pressão passando por Denver. Ventos de proa: de 15 nós a dez mil pés até 70 nós a 25 mil.
— Ihh... — Brad voltou a
fazer seus cálculos e, depois de um momento, avisou: — O combustível vai acabar a 55 milhas de Denver.
O controlador aéreo perguntou:
— Foxtrot Bravo, pronto
para copiar as frequências VOR para Denver?
Enquanto Brad copiava as
informações, Percey pensava no discurso inflamado que fizera para Rhyme naquele dia. Ela não tinha percebido o quanto suas palavras eram verdadeiras, o quanto ela e Rhyme eram dependentes daqueles frágeis pedaços de metal e plástico. Talvez estivesse prestes a morrer por causa deles.
— Cinquenta e cinco
milhas a menos. O que poderiam fazer?
Por que ela não tinha uma
mente como a de Rhyme, capaz de açambarcar tudo? Não haveria alguma maneira de poupar combustível? Voar a maior altitude, talvez. Voar com menos carregamento, também. Jogar fora do avião a carga da US Medical tornaria a aeronave mais leve, mas ela jamais seria capaz de fazê-lo.
— Brad — disse ela de
repente —, qual é a nossa taxa de voo planado?
— Em um Lear 35A. Não
faço a menor idéia.
O Lear pesava cerca de
sete toneladas. Mesmo assim, qualquer aeronave era capaz de planar.
— Bem, vamos pensar —
disse ela. — Qual seria a taxa de descida, em voo livre?
— Acho que podemos
mantê-la em torno de 2.300 pés. Uma descida vertical de cerca de 45km por hora.
— Agora calcule: se
gastarmos combustível para subir até 55 mil pés, quando vamos ficar sem ele?
— Cinquenta e cinco mil?
— perguntou Brad, surpreso, enquanto digitava os números. — Já gastamos um bocado aqui, mas depois de 35 mil a eficiência aumenta... Se ficarmos com um motor, vamos gastar até ficar a 83 milhas de distância, mas aí teremos ganhado em altitude.
Percey Clay, que podia
fazer cálculos precisos sem a ajuda de uma calculadora, viu os números passando velozmente em sua mente. Fim do combustível e motores parados a 55 mil pés, taxa de voo planado 42.300... Eles poderiam cobrir um pouco mais de oitenta milhas antes de pousar, talvez até mais, se os ventos de proa fossem mais brandos.
Brad chegou à mesma
conclusão:
— Vai ser a conta certa.
— Deus nunca nos dá
certezas.
— Atento, Chicago —
chamou ela. — Lear Foxtrot Bravo requerendo autorização para 55 mil pés.
Às vezes a gente tem de
arriscar, e pronto.
O controlador aéreo
respondeu:
— Foxtrot Bravo, vocês
são um Lear 35. O teto
operacional máximo de 45 mil pés.
— Positivo, mas
precisamos ir além disso.
— A vedação foi checada
recentemente?
Os lacres contra pressão.
As portas e janelas. Tudo que evita que uma aeronave se despedace em pleno ar.
— Sim, está tudo bem —
respondeu Percey, omitindo a informação e que o avião fora todo furado a tiros na véspera e remendado às pressas naquela mesma tarde.
— Positivo. Autorizado
para cinco-cinco-mil pés, Foxtrot Bravo.
E Percey deu a ordem que
poucos pilotos de Learjets já pronunciaram, se é que algum o fez:
— Positivo. Estamos
subindo de dez para 55 mil.
Ela fez a aeronave derivar devagar numa curva ascendente, que ameaçou a levá-los mais e mais alto.
Todas as estrelas da noite.
Dez minutos depois, Percey
desligou o segundo motor e sentiu uma pequena oscilação lateral quando o empuxo do seu lado esquerdo cessou. Ajustou o leme para compensar a diferença e ergueu-se do assento.
— Vou fazer um café. Ei, Roland, como é mesmo que você toma o seu? Açúcar ou adoçante?
DURANTE quarenta
insuportáveis minutos o silêncio reinou na casa de Rhyme. O telefone não tocou sequer uma vez. Nenhum fax foi recebido. Não se ouviu nem uma vez a voz do computador anunciando: "Um e-mail acaba de chegar."
Por fim, o celular de Sellitto soou.
— Sim?...
Rhyme ficou observando o
rosto flácido e estóico do policial. Sellito fechou o aparelho com um estalido.
— Era Roland Bell —
disse ele. — Acaba de anunciar que ficaram sem combustível.
TRÊS ALARMES diferentes soaram ao mesmo tempo. Combustível baixo. Queda na pressão do óleo. Queda na temperatura do motor.
Com um ruído áspero, o
motor número um tossiu por algum tempo e depois ficou em silêncio total. A cabine de comando estava completamente às escuras.
— Esqueci — disse Percey.
— Precisamos de eletricidade. Abaixe a RAT. Brad estendeu a mão para os controles e fez descer a RAT, a turbina movida a ar instalada na parte de baixo do avião. O ar que passava através dela fazia girar o mecanismo do gerador, que fornecia energia para que o painel e as luzes funcionassem normalmente. Mas essa energia não chegava aos freios, nem aos controles de navegação.
As luzes se reacenderam
logo a seguir. Percey estava fitando o indicador de velocidade vertical, que acusava uma descida de 3.500 pés por minuto. Estavam indo para o solo a uma velocidade próxima de 80km/h.
"Por quê?", perguntou-se
ela. Por que um resultado tão diverso do que tinham calculado?
Por causa da atmosfera
mais rarefeita ali no alto! Ela tinha calculado a velocidade de mergulho baseando-se numa atmosfera mais densa.
Agarrou os controles e
puxou-os para trás, para retardar a descida. A velocidade caiu para 2.100 pés por minuto, mas a velocidade do ar caiu proporcionalmente e a luz dos controles esmaeceu. Numa situação como aquela, se a energia sumisse não teriam como recuperá-la.
Percey empurrou os
controles para a frente. Voltaram a descer mais rapidamente, mas a velocidade do ar aumentou. Ela prosseguiu neste jogo ao longo de quase 100km. Os controladores do tráfego aéreo avisavam onde os ventos de proa eram mais fortes e ela tentava encontrar a melhor combinação entre altitude e rota. Por fim, com os músculos doloridos, ela falou:
— Ligue para eles, Brad.
— Atento, Denver, aqui é
Lear Sexto Nono Quinto Foxtrot Bravo, fazendo contato a um-seis-mil pés, a 19 milhas da aterrissagem.
— Estamos ouvindo,
Foxtrot Bravo. Mantenha aproximação, rota dois-cinco-zero. Pelo que entendo estão sem combustível, correto?
— Somos o maior planador
que vocês já viram, Denver.
— Positivo. Querem
bombeiros?
— Tudo a que tivermos direito. Achamos que estamos com uma bomba a bordo.
— Denver — perguntou
Percey —, qual é o altímetro?
— Bem... Temos três-zero-
ponto-nove-seis, Foxtrot Bravo.
— Está aumentando?
— Afirmativo, Foxtrot
Bravo. Frente de alta pressão se aproximando. oh, não. Aquilo iria aumentar a pressão interna do ar da cabine, fazendo murchar o balão, como se estivessem a uma altitude mais baixa do que de fato estavam.
Brad digitou alguns
números na calculadora e olhou para ela.
— A bomba pode explodir
a vinte metros do solo.
— Ok. — Percey respirou
fundo. Com que margem de exatidão o Dançarino, nino teria trabalhado, na hora de montar o detonador da bomba? Ela virou-se para Roland Bell. — Roland... só uma coisa. Quando pararmos, corra para longe do avião, o mais depressa que puder.
A 16km da pista —
anunciou Brad. — Velocidade: 200 nós. Altitude: novo mil pés. Precisamos diminuir a velocidade.
Percey puxou a alavanca
apenas um pouquinho e a velocidade caiu de forma acentuada. O vibrador do manche começou a trepidar. Se estivessem energia naquele momento, seria a morte. Ela empurrou a alavanca para a frente. Quatorze quilômetros... Doze... Sentia as bolhas d'água que tinham-se formado entre o polegar e o indicador. Onze... nove...
— Oito quilômetros para a
aterrissagem. Velocidade do ar, 210 nós.
— Diminuir — ordenou
Percey.
Brad girou a roda que
reduzia manualmente a rotação, arquejando devido ao esforço.
— Diminuindo.
A velocidade do ar caiu
para 180 nós. Ainda muito rápido. Sem poder usar o reverso, cruzariam num piscar de olhos toda a extensão da pista por mais longa que fosse.
Alavanca para trás. Nova
ameaça de queda de energia. Alavanca para frente.
— Quatro quilômetros,
altitude 1.900 pés.
Com mãos molhadas de
suor e inclinando-se para a frente, Percey olhou por cima do nariz prateado do avião. Via as luzes do aeroporto piscando, os pontos azuis indicando a pista de taxiagem, os pontos vermelho-alaranjados margeando a pista de pouso. Tocariam o solo dentro de mais trinta segundos, mas a velocidade ainda era muito alta. Sem reversos, mesmo uma pista de três quilômetros logo chegaria ao fim.
Por isso, Percey provocou
um resvalamento lateral.
Uma derrapagem desse tipo
é uma manobra simples, desde que se esteja numa aeronave pequena. Basta girar a direção para a esquerda e pisar o pedal do leme direito. Percey não sabia se alguém já tinha feito aquilo num jato de sete toneladas.
— Vou precisar de sua
ajuda aqui — disse ela a Brad, respirando forte devido à dor em suas mãos esfoladas. Ele agarrou a alavanca e calcou também o pé no pedal. Isso reduziu a velocidade do avião, embora a asa esquerda se inclinasse perigosamente.
— Velocidade? — perguntou ela.
— Cento e cinquenta nós.
Taxa de descida, 2.600.
Ainda muito rápido. Lá
estavam as luzes do aeroporto piscando bem diante deles — chamando-os para baixo, para baixo, para baixo. No momento em que se precipitavam rumo aos trilhos paralelos das luzes, Percey gritou:
— Meu avião!
Brad soltou a alavanca.
Percey endireitou o avião no meio da derrapagem e conseguiu fazer seu nariz apontar para cima. O avião reagiu valentemente e elevou-se no ar a alguns metros da cabeceira da pista, reduzindo a inclinação abrupta da descida.
Percey empurrou para a
frente a alavanca. O aeroplano mergulhou e ela voltou a puxar a alavanca para trás. O pássaro de prata estremeceu todo quando as rodas bateram e começaram a deslizar de encontro ao concreto.
— Freio total.
Ela e Brad pisaram o mais
forte que puderam nos pedais. A cabine se encheu de fumaça. Ainda estavam a uma velocidade de l60km/h.
"Grama", pensou Percey.
"Vou dar uma guinada, se for preciso, Destruo a parte de baixo do avião, mas salvo a carga." Cento e dez quilômetros por hora... Noventa e cinco...
— Alarme de fogo na roda
direita — anunciou Brad. — Alarme de fogo na roda da frente!
"Dane-se", pensou ela, e
continuou pisando com toda força.
O Lear começou a deslizar
e a vibrar. Ela compensou a derrapagem liberando a roda do nariz do avião. Mais fumaça. Noventa qulômetros por hora, oitenta, sessenta...
— A porta! — gritou ela
para Roland Bell.
Num átimo, o detetive
empurrou a porta para fora, que se desdobrou numa escada. Carros de bombeiros convergiam na direção da aeronave. Com um derradeiro gemido, o Lear N695FB imobilizou-se a apenas três metros do final da pista.
A primeira voz a se ouvir
dentro da cabine foi a de Bell.
— Agorara, Percey. Saia!
Bell ajudou tanto ela quanto
Brad a saltarem. Depois pulou também para o chão de concreto e os três afastaram-se correndo do avião.
Bell empunhava um dos
revólveres que trazia. Em outras circunstâncias. Percey teria achado aquilo meio paranóico, mas, no momento, não era o caso.
Pararam um instante quando
já estavam a uns trinta metros de distância do Lear. Percey virou-se para olhar o Foxtrot Bravo, cuja superfície prateada refletia as luzes dos holofotes; nesse instante, ouviu-se uma explosão ensurdecedora. Ela lançou-se ao chão, enquanto a aeronave se desintegrava numa enorme bolha de chamas alaranjadas, fazendo chover pedaços de metal por toda a área.
— Oh... — foi o que ela
pode dizer, levando a mão à boca. Não restava sequer uma gota de combustível nos tanques, é claro, mas a preciosa carga ardeu furiosamente enquanto os caminhões dos bombeiros se precipitavam para a frente, despejando montanhas inúteis de espuma branca sobre os destroços fumegantes.