Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 5 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Três

CAPÍTULO

TRÊS

Hora 1, de 46

 

A MULHER idosa enxugava as lágrimas, tendo a Esposa por trás dela.

Estavam mortas, estavam...

"Soldado!"

Stephen imobilizou-se e

relaxou o dedo que pressionava o gatilho.

Luzes! Piscando em

silêncio. As luzes vermelhas de um carro de polícia. Mais dois carros. Depois uma dúzia, e uma van da Unidade de Emergência. Todos convergindo de ambas as extremidades da rua.

"Trave sua arma, soldado."

Stephen abaixou a arma e recuou até o saguão imerso na penumbra.

Os policiais brotaram dos

carros como água entornada de um vaso. Espalharam-se ao longo da calçada, olhando para os tetos das casas. Escancararam as portas da casa da Esposa, espatifando as vidraças. Cinco agentes da Operações Especiais, com uniforme completo, alinharam-se ao longo do meio-fio. A Esposa e o Amigo foram forçados a se deitar no chão. A senhora idosa também.

Mais carros. Stephen Kall

sentiu-se intimidado. Coberto de vermes. O suor umedeceu-lhe as palmas das mãos e ele flexionou os pulsos, para que as luvas de pano o absorvessem.

"Bater em retirada,

soldado."

Com uma chave de fenda,

ele forçou a fechadura e empurrou para dentro a porta principal do prédio. Abaixou a cabeça e correu para a entrada de serviço, que dava para um pátio situado na parte posterior do edifício. Logo estava do lado de fora, descendo a avenida Lexington, caminhando na direção sul através da multidão, rumo à garagem subterrânea onde estacionara a van.

"Mais policiais. Senhor!

Problema grave, senhor."

Tinham bloqueado a

Lexington a cerca de três quarteirões ao sul, e estavam traçando um perímetro de segurança que tinha a casa da Esposa como centro. Detinham carros, examinavam pedestres, iam de porta em porta. Stephen viu dois policiais pedirem a um homem para descer do carro enquanto examinavam uma pilha de lençóis que ele trazia no banco traseiro. O que preocupou Stephen foi o fato de que o homem era de cor branca e tinha aproximadamente a sua idade.

Sua pele ficou arrepiada,

percorrida por uma sensação úmida, como se vermes rastejassem por ela. Sentiu o suor brotar em sua testa e axilas. Estão em toda parte, pensou. Estavam à procura dele, no seu encalço. Surgiam dos carros, das ruas, das janelas.

A lembrança brotou novamente. O rosto na janela.

Respirou fundo.

Tinha acontecido há pouco

tempo. Stephen fora contratado para matar um assessor do Congresso em Washington. Esperara durante quatro horas; quando a vítima chegou a sua casa em Alexandria, Virgínia, Stephen fez um único disparo. Um tiro certeiro, calculou ele, mas o homem tombou num pátio, num local onde não podia avistá-lo.

Stephen pulou o muro e foi

até o corpo, certificando-se de que o tiro tinha sido fatal.

Mas então algo estranho

aconteceu. Talvez fosse apenas um acaso, devido à queda do corpo, mas ele teve a impressão de que alguém tinha puxado a camisa para examinar o ferimento.

Stephen olhou ao redor, à

procura de quem pudesse ter tocado no corpo. Do outro lado do pátio havia uma velha garagem, cujas janelas estavam sujas e cheias de manchas. Em uma delas viu, ou imaginou ver, um rosto que o fitava. Ele não pôde enxergar com clareza o homem ou a mulher, mas, fosse quem fosse, não parecia assustado. Não afastara o rosto, nem procurara esconder-se.

"Uma testemunha. Soldado,

você deixou uma testemunha."

"Senhor, eliminarei

imediatamente qualquer

possibilidade de identificação."

Mas quando Stephen

arrombou a porta com um pontapé, a garagem estava vazia. Ele entrou e ficou girando em círculos, devagar. Tinha sido apenas imaginação? Como seu padrasto, que costumava ver atiradores de tocaia nos ninhos de falcão das árvores de West Virginia?

Por fim, ele regressara ao seu hotel em Washington.

Stephen já tinha sido ferido

a bala, espancado, esfaqueado. Nunca se deixara impressionar pela expressão no rosto de suas vítimas, antes ou depois de executá-las. Mas aquele rosto na janela era como um verme subindo-lhe pela perna.

Uma sensação de repulsa...

Era exatamente o que voltava a sentir agora, observando as janelas escuras e lúgubres da rua por onde caminhava. Rezou para que não aparecesse um rosto numa delas.

O edifício onde guardara a

van estava dentro do perímetro de buscas. Não poderia sair guiando sem ser detido pela batida policial. Caminhou depressa rumo à garagem e abriu a porta do veículo. Livrou-se da roupa de operário, vestiu uma calça jeans, uma camiseta preta, um casaco de náilon verde-escuro, botas e um boné de beisebol. A mochila continha seu laptop, alguns telefones celulares, suas armas menores, munição, binóculos, um gravador de fita, ferramentas e alguns pacotes de explosivos.

O fuzil Model 40 estava

guardado no estojo de um baixo elétrico render. Ele o colocou no chão, ao lado da mochila, e pôs-se a pensar no que faria com a van. Era roubada; Stephen nunca a tocara sem estar usando luvas. Tinha removido o número do chassi; ele próprio falsificara as placas. Mesmo assim, decidiu abandoná-la. Deixou a garagem pelo elevador, levando seu equipamento. Ao sair do edifício, misturou-se à multidão, rumo à estação de metrô mais próxima.

 

PERCEY CLAY

desvencilhou-se do detetive que procurava mantê-la deitada no chão. A mãe de Ed estava deitada a alguns metros de distância, o rosto imobilizado numa expressão de choque. Brit Hale tinha as costas coladas à parede e o corpo coberto pelos de dois enormes policiais.

— Sinto muito, Sra. Clay

— disse um deles. — Nós...

— O que está acontecendo?

— Percey parecia atônita.

— Recebemos um chamado

urgente — explicou o detetive. — O comando acha que o homem que matou o Sr. Carney vai tentar matar vocês dois. O Sr. Rhyme acha que o assassino está na van preta que a senhora avistou.

— Mas já temos outros

homens para cuidar de nós — retrucou ela, indicando com um gesto os dois policiais que haviam chegado antes.

Hale espiou pela janela e

disse:

— Deve haver uns vinte

guardas lá fora.

— Afaste-se da janela, por

favor — disse o detetive, com firmeza. Percey passou o braço em volta da Sra. Carney.

— Está bem, mãe?...

— Mas o que está

havendo? O que quer dizer tudo isto? — perguntou ela, ainda desnorteada.

— Eles dois podem estar em perigo — disse o detetive. — A Sra. Clay e o Sr. Hale. São testemunhas no caso Hansen. Temos ordens para levá-los até o comando.

Outro oficial apareceu no

umbral.

— A rua está segura, senhor

— disse.

— Podem nos acompanhar,

por favor? Os dois.

— E a mãe de Ed? — perguntou Percey.

— A senhora mora aqui

perto? — perguntou o detetive.

— Não. Estou na casa de

minha irmã em Saddle River — disse ela.

— Vamos levá-la de volta.

Um policial de Nova Jersey montará guarda na casa. Mas como a senhora não está envolvida no caso, não creio que haja motivo para se preocupar.

— Oh, Percey... — As duas

mulheres se abraçaram.

— Vai dar tudo certo, mãe

— disse Percey, esforçando-se para conter as lágrimas.

— Não, não vai — disse a

mulher, com voz abatida. — Nunca vai dar certo.

Um policial a conduziu

para o carro. Percey dirigiu-se ao detetive que estava ao seu lado:

— E nós, aonde vamos?

— Vamos encontrar Lincoln

Rhyme. Vamos sair da casa andando; a senhora terá um policial de cada lado. Mantenha a cabeça abaixada. Vamos sair rapidamente e entrar naquela van ali adiante. Está vendo? Entre nela o mais depressa possível. Não olhe para fora e prenda o cinto de segurança. Vamos partir com velocidade. Alguma pergunta?

Percey desatarrachou a tampa do frasco e virou um gole de uísque.

— Sim. Quem diabos é

Lincoln Rhyme?

 

THOM APARECEU na

soleira da porta e fez um gesto, convidando alguém a entrar. Um homem bem vestido, cabelo com corte militar, cinquenta e poucos anos. O capitão Bo Haumann era o chefe das Unidades de Emergência da Polícia de Nova York — o equivalente, na polícia, a um grupo da SWAT. Grisalho e com tendões salientes no corpo magro, Haumann tinha exatamente a aparência do sargento implacável que tinha sido quando na ativa.

— É mesmo ele? —

perguntou. — O Dançarino?

— É o que parece — disse

Sellitto; Dellray confirmou com um aceno de cabeça.

Após uma pausa, Haumann

prosseguiu:

— Estou com duas equipes

32-E, em regime de dedicação exclusiva. Os agentes 32-E eram em sua maioria ex-militares que haviam recebido treinamento exaustivo em táticas de busca e vigilância, além de procedimentos de cerco e assalto, tiro ao alvo e resgate de reféns. Um homem franzino, de calvície pronunciada e óculos antiquados entrou na sala. Mel Cooper era o melhor técnico de laboratório da Divisão de Recursos e Investigações do departamento que Rhyme chefiara anos antes. Cooper jamais pusera os pés na cena de um crime, nem prendera um único suspeito; provavelmente já tinha esquecido como se disparava a pequena pistola que trazia a contragosto presa ao cinto. Não se sentia bem em lugar nenhum, a não ser sentado numa mesa de laboratório, com a cara metida num microscópio.

— Pensei que fosse

examinar uma amostra de areia — disse ele. — Mas, pelo que estou vendo, trata-se do Dançarino.

"Existe apenas um lugar

onde as notícias circulam mais depressa do que na rua", refletiu Rhyme, "e esse lugar é um departamento de polícia." Cooper prosseguiu:

— Desta vez vamos pegá-

lo, Lincoln. Com certeza.

Enquanto Banks repassava

com rapidez aos recém-chegados as informações sobre o caso, Rhyme percebeu por acaso uma mulher no vão da porta, cujos olhos escuros percorriam o aposento sem perder um só detalhe. Sem receio, sem desconforto.

— Sra. Clay? — perguntou

ele, e ela assentiu com um gesto. Um homem magro apareceu no umbral. Rhyme presumiu que se tratava de Britton Hale e falou para ambos: — Entrem, por favor.

Ela encarou Rhyme e em

seguida desviou os olhos para a parede coberta de instrumentos de pesquisa, onde Mel Cooper estava instalado.

— Pode me chamar de

Percey — disse ela, voltando-se para Rhyme. — Você é Lincoln Rhyme?

— Isso. Sinto muito pelo

seu marido.

Ela fez um gesto rápido

com a cabeça, pouco à vontade com aquela manifestação de simpatia. Lincoln encarou o homem.

— É o Sr. Hale?

O piloto assentiu e deu um

passo à frente, começando a estender a mão, mas só então percebeu que os braços flácidos do criminalista estavam presos por correias à cadeira de rodas. Ele emitiu um suspiro baixo e constrangido, enrubesceu e deu um passo para trás.

Rhyme apresentou os dois

ao restante da equipe, exceto a Amelia Sachs, que por insistência sua tinha saído para trocar o uniforme por jeans e camiseta. Rhyme explicara que o Dançarino da Morte costumava matar policiais quando precisava desviar as atenções, e que por isso ela devia andar à paisana.

Privado de seu próprio

corpo, Rhyme raramente prestava atenção às características físicas de outras pessoas. Mas Percey Clay era alguém difícil de ignorar. Tinha por volta de 1,60m de altura, mas parecia irradiar uma forma concentrada de energia. Seus olhos eram negros como a noite e muito atraentes. Só depois de desviar a atenção deles é que alguém prestava atenção ao seu rosto, que não era bonito — achatado, e um tanto masculino.

Ele percebeu que ela

também o examinava à distância. Ao avistar Rhyme pela primeira vez, as pessoas geralmente ficavam vermelhas como um pimentão e obrigavam-se a fitar a sua testa, para que o olhar não deslizasse por distração até o seu corpo inválido. Mas Percey olhou uma vez para o rosto dele — que era bonito, com lábios e nariz delicados, e sem aparentar os quarenta e tantos anos que tinha — e logo em seguida para o torso e os membros imóveis, e depois para a reluzente cadeira de rodas Storm Arrow, o controle de soprar e sugar que a comandava, o jogo de fones de ouvido e microfone, o computador.

Thom entrou na sala e

aproximou-se de Rhyme com os instrumentos para medir sua pressão.

— Agora não — disse o

patrão.

— Agora sim — insistiu

ele, e executou a tarefa. Depois aplicou o estetoscópio. — Não está mal, mas precisa de um pouco de descanso.

— Caia fora — resmungou

Rhyme.

Virou-se para Percey Clay.

Por ser um tetraplégico, um ser humano mutilado, a maioria dos visitantes lhe falava vagarosamente, ou até mesmo dirigia-se a ele através de Thom. Mas Percey falou-lhe num tom de voz normal.

— Acha que corremos

perigo? — perguntou ela. — Brit e eu?

— Correm, sim. Um perigo

muito grande.

Sachs entrou na sala e

olhou para Percey e Hale. Rhyme fez as apresentações.

Hale falou para os

policiais:

— Vocês vão ter alguém

vigiando Percey, não é? O tempo todo?

— Pode apostar que sim —

disse Dellray.

— Ótimo — disse Hale. —

E acho que vocês deviam ter uma conversa muito séria com esse tal Philip Hansen.

— Uma conversa? —

surpreendeu-se Sellitto. — Ele está incomunicável.

— Não pode ameaçá-lo,

alguma coisa assim?

— Não faz diferença —

disse Rhyme. — Ele não pode nos dizer nada que seja útil. O Dançarino nunca encontra seus clientes. E nunca diz a eles como pretende executar sua tarefa.

— O Dançarino? —

perguntou Percey.

— É o nome pelo qual

conhecemos esse assassino. O Dançarino da Morte.

— Um pouco sinistro —

disse Hale, em tom de dúvida.

Percey olhou nos olhos de

Rhyme, que eram quase tão escuros quanto os dela.

— O que aconteceu com

você? Levou um tiro?

Sachs reagiu a essa

pergunta imprevista, mas Rhyme respondeu com naturalidade.

— Eu estava examinando a

cena de um crime, num edifício em construção. Uma viga caiu e quebrou meu pescoço.

— Parecido com o que

houve com Christopher Reeve, aquele ator.

— Isso mesmo.

Hale comentou:

— Foi duro o que houve

com ele. Mas, puxa vida, o sujeito é corajoso. Acho que eu me mataria se algo assim acontecesse comigo.

Rhyme olhou para Sachs,

que retribuiu o olhar, e sua atenção voltou para Percey.

— Precisamos de sua

ajuda. Temos de saber como ele conseguiu colocar aquela bomba no avião. Tem alguma idéia?

— Nenhuma — disse

Percey, olhando para Hale, que também sacudiu a cabeça negativamente.

— Onde, exatamente,

estava o avião antes de levantar voo?

— Em nosso hangar. Nós o

estávamos preparando para os próximos voos.

— É fácil entrar nesse

hangar? — perguntou Sellitto.

— Nos últimos dois dias

temos equipes lá dentro 24 horas por dia.

— Conhece o pessoal

dessas equipes? — perguntou Sellitto.

— São como uma família

— disse Hale, defensivamente. Sellitto virou-se para Banks e disse:

— De qualquer modo,

vamos anotar os nomes de todos, se não se incomodar. Banks, verifique todo mundo.

— Nosso gerente

administrativo pode lhe fornecer uma relação de todo o pessoal.

— Vão ter de interditar o

hangar — disse Rhyme. — Manter todo mundo fora dele. Todos.

— Ih... — disse Percey, virando-se para Hale. — Foxtrot Bravo? Ele encolheu os ombros e respondeu:

— Ron disse que vai levar

pelo menos um dia a mais. Percey deu um suspiro.

— O Learjet que Ed estava

pilotando era o único preparado para esses voos que contratamos. Temos outro voo marcado para amanhã à noite. Precisamos trabalhar sem parar para aprontar nosso outro avião, Foxtrot Bravo. Não podemos correr o risco de perder o contrato.

— Sinto muito — disse

Rhyme —, mas vocês não têm opção.

Percey piscou os olhos.

— Quem é você para me

dizer que não tenho opção?

— Ei, calma aí — disse

Dellray. — Vocês não sabem ainda quem é esse bandido.

— Ele matou meu marido

— disse ela, com uma voz cortante. — Eu sei quem ele é, perfeitamente. Mas ninguém vai me fazer perder o meu trabalho.

Rhyme perguntou, muito

calmo:

— Pode nos conceder uma

hora para fazer as buscas?

— Uma hora? — perguntou

Percey, considerando a proposta.

Sachs deu uma risada e voltou seus olhos cheios de surpresa para o patrão.

— Buscas num hangar em

apenas uma hora? Ah, o que é isso, Rhyme...

Rhyme manteve os olhos

fitos em Percey, que respondeu:

— Tudo bem. Posso.

— Vou precisar de mais

tempo, Rhyme — protestou Sachs.

— Não se preocupe,

Amelia — disse ele. — Você não é a melhor que existe?

O tom brincalhão deixava

claro que sua decisão já tinha sido tomada.

— Quem pode nos ajudar

no local? — perguntou ele a Percey.

— Ron Talbot. E o nosso

gerente de operações.

Sachs anotou o nome em sua caderneta.

— Posso ir agora? —

perguntou ela.

— Ainda não — respondeu

Rhyme. — Espere até recebermos dados sobre a bomba. Preciso de você para fazer a análise. — Virou-se para Fred Dellray. — E quanto à casa onde as testemunhas vão ficar?

— Encontramos um lugar

que deve agradar à senhora — disse o agente virando-se para Percey. — No meio de Manhattan. O Departamento de justiça utiliza o local para os casos mais importantes. O único detalhe é que vamos precisar de alguém da polícia de Nova York para lhes fazer companhia. Alguém que conheça bem o Dançarino e que goste dele.

Todos se viraram para Jerry

Banks.

— O quê? — perguntou ele.

— O quê?

E, tentou em vão ajeitar o

topete.

 

DE TRÊS em três.

Percey Clay formara-se em

engenharia com honras, tinha diplomas de especialização em mecânica de aeronaves e de centrais elétricas, e era possuidora de todos os tipos de licença que a Administração Aérea Federal podia conceder a um piloto. Uma mulher com esse currículo não podia se dar o luxo de ser supersticiosa. Mas enquanto o carro blindado da polícia cortava o Central Park rumo à casa onde ficaria sob vigilância, ela lembrou-se do velho ditado: aviões caem de três em três.

Do mesmo modo, as

tragédias só aconteciam em trincas. Primeiro, Ed. Agora, um segundo golpe: a notícia que Ron Talbot lhe transmitia pelo celular diretamente do escritório da Hudson Air.

Estava espremida entre Brit

Hale e o jovem detetive Jerry Banks. Hale mantinha os olhos cravados nela, e Banks olhava para fora, examinando os outros carros, os transeuntes, as árvores.

— A US Medical

concordou em nos dar mais uma chance. — A respiração ofegante de Talbot sibilava junto ao ouvido de Percey. Mesmo sendo um dos melhores pilotos que ela conhecia, Talbot estava proibido de voar há anos devido à saúde precária. — Isso quer dizer que eles estão considerando a possibilidade de rescindir o contrato. O fato de ter sido uma bomba não nos livra inteiramente da responsabilidade.

— Mas vão nos deixar voar

amanhã?

Uma pausa.

— Vão, sim. — Ela escutou

Ron acender um cigarro.

— Vamos, Ron, diga logo

tudo — insistiu. Ficava sempre impaciente quando recebia más notícias.

— Temos um problema com

o Foxtrot Bravo — disse ele, com relutância.

— O que é?

O N695FB era o Learjet

pessoal de Percey. Todos os que trabalhavam na Hudson Air sabiam que o November Sexto Nono Quinto Foxtrot Bravo era sua máquina de estimação. Seu filho. E, nas numerosas noites em que Ed voava, a lembrança do jato era bastante para fazê-la suportar a solidão.

Talbot continuou:

— Não sei se vamos

conseguir fazer a adaptação a tempo.

— Continue.

— Muito bem — disse ele,

por fim. — Stu pediu demissão. — Era Stu Marquard, o chefe dos mecânicos. — Vai trabalhar com Sikorsky. Já foi pára lá, na verdade.

Percey ficou atônita. Para

que o Lear 35A pudesse prestar serviços à US Medical, a maioria das poltronas tinha que ser arrancada, para dar lugar a diversos freezers. Isto implicava uma profunda alteração nas partes mecânica e elétrica da aeronave. Sem Stu Marquard, Percey não conseguia imaginar como o avião poderia estar pronto para voar no dia seguinte.

— O que aconteceu,

Percey? — perguntou Hale, vendo a expressão no rosto dela.

— Stu foi embora —

sussurrou ela. — Foi trabalhar na empresa de helicópteros.

— Hale fitou-a com uma

expressão chocada.

— Hoje?

Ela assentiu com um gesto.

Do outro lado, Talbot continuou:

— Ele está com medo,

Percey. Todo mundo sabe que foi uma bomba. Os policiais não dizem nada, mas todo mundo aqui está nervoso. Estão perguntando se vamos fechar por uns tempos até a situação se acalmar.

— Não, não vamos fechar

— disse ela com firmeza. — Está tudo sob controle.

— Olhe... quanto ao Foxtrot

Bravo, acho que eu mesmo posso fazer a maior parte do trabalho — disse Talbot, que também era um mecânico diplomado.

Faça o que puder, mas veja

se consegue arranjar outro mecânico disse ela. — Conversamos depois.

Desligou. Continuava

perplexa, sem entender como a Hudson Air podia ser uma empresa tão atarefada e mesmo assim viver à beira da falência. Como Ed, Brit Hale e os outros pilotos, Percey trabalhava sem parar; por que a Hudson vivia sempre por um fio? Tinham quase afundado no mês anterior, mas Ed dera um jeito de arrancar aquele contrato com a US Medical. Prometera a eles uma entrega rápida e eficiente. Se o Foxtrot Bravo não estivesse pronto no dia seguinte... Ela não queria nem pensar.

Enquanto o carro da polícia

avançava pelo Central Park, Percey Clay contemplou os primeiros brotos da primavera desabrochando no parque. Ed adorava aquela área. Gostava de dar duas voltas completas ao redor do lago e depois voltar para o local onde ela ficava folheando um relatório de voo ou um manual de reparos de turboventilador a bebericar um WildTurkey, bourbon temperado com especiarias. Sorrindo, Ed vinha cutucar-lhe as costelas com os dedos fortes, para perguntar se não queria algo pouco saudável. Ao mesmo tempo, estaria furtando um ou dois goles da bebida.

Depois, ela recordou, ele

se inclinava para beijá-la no ombro.

Ed... Todas as estrelas da

noite...

Com os olhos rasos de

lágrimas, Percey Clay tomou uma decisão, e pegou o celular.