Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 14 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Doze

CAPÍTULO

DOZE

Hora 44, de 45

 

S ACHS DETEVE-SE à beira do lago. A névoa, avermelhada pela claridade do sol nascente, flutuava em cortinas espectrais sobre a superfície acinzentada e imóvel da água.

Sachs olhou para a casa.

Nenhum sinal de Jodie. Agachou-se junto do cadáver de um dos guardas. Seus dois coldres estavam vazios, é claro, nada de munição. "Mas ele é um mero ser humano, Rhyme."

Ao revistar o corpo já frio

ela encontrou o que procurava: a arma de reserva do policial, num coldre preso sob a axila. Uma arma boba. Um colt de cano curto, cinco tiros. Ela olhou para a casa justamente a tempo de ver o rosto de Jodie espreitando pela janela. Ele ergueu o rifle. Sachs apertou o gatilho repetidamente até esvaziar o tambor do revólver, depois saiu em disparada, rodeando o lago, seguida por Bell e Percey. Correram como loucos, em ziguezague, pela grama embebida em orvalho. A uns cem metros da casa ouviram o primeiro tiro, que fez um torrão de terra voar perto de Percey Clay.

— No chão! — ordenou

Sachs, apontando para uma depressão no solo. Os três rolaram para lá no instante em que o rifle voltou a disparar.

Ainda estavam a uns

cinquenta metros do bosque. Tentar atingi-lo, naquele momento, seria suicídio. Sachs ergueu o rosto. Um instante depois, um projétil sibilou no ar, passando muito perto. Ela sentiu o mesmo terror paralisante que experimentara no aeroporto. Enterrou a face na grama.

Bell levantou a cabeça e

abaixou-a rapidamente. Outro tiro passou a centímetros dele.

Acho que o vi — disse ele,

com voz entrecortada. — Os arbustos à direita da casa. Naquela elevação ali.

Sachs rolou uns dois metros

para a direita, ergueu e abaixou a cabeça quase no mesmo segundo. Bell tinha razão: o assassino estava na encosta de uma pequena colina; ela avistou o reflexo da lente do telescópio. Se ele subisse mais, a trincheira rasa onde se abrigavam não ofereceria mais abrigo.

Passaram-se cinco minutos

sem que soasse um tiro. Provavelmente ele estaria subindo com todo cuidado para o alto da colina. E o helicóptero da SWAT, que não chegava!

Sachs fechou os olhos com

força, aspirando o cheiro de terra e grama.

"Você o conhece melhor do

que ninguém, Sachs."

"Mas, Rhyme", pensou ela,

"este não é Stephen Kall. Não foi na mente de Jodie que eu consegui penetrar."

"Tente adivinhar os

pensamentos dele, Sachs. Sua arma mais perigosa — minha arma mais perigosa — é o despistamento."

— Vocês dois — disse

Sachs de repente, olhando em redor. — Ali.

Ela apontou na direção de

uma pequena ravina. Bell assentiu, concentrado, e seguiu naquela direção, puxando Percey pelo braço.

Sachs checou sua arma.

Quatro cartuchos. O bastante, se fizesse tudo certo.

— Haja o que houver,

fiquem abaixados — disse ela, pondo-se de joelhos.

— É um tiro de cem metros,

Amelia — disse Bell baixinho.

Ela o ignorou e ficou de pé.

Não se agachou, não se virou de lado: firmou-se na clássica posição de tiro com a arma erguida nas duas mãos. De frente para a casa, de frente para a figura deitada na encosta da colina com o rifle de mira telescópica apontado para ela. A pequena arma de cano curto em sua mão parecia tão leve quanto um copo de uísque.

Ela apontou para o brilho

na lente do telescópio, à distância de um campo de futebol. O suor e a neblina umedeciam-lhe o semblante. Obrigou-se a dominar o pânico.

"Espere. Escute... fique

escutando... Agora!"

Ela girou nos calcanhares e

deixou-se cair de joelhos no instante em que um tiro espocou, oriundo dos troncos de árvore às suas costas. A bala passou por cima de sua cabeça.

Sachs encarou um Jodie

atônito, com o rifle de caça ainda colado ao rosto. Ela lhe adivinhara a estratégia — deixar o rifle telescópico preso nos braços de um dos guardas mortos, enquanto dava a volta pelo meio do bosque para atacá-los por trás. Por um segundo, nenhum dos dois se moveu. Um leve sorriso surgiu nos lábios de Sachs quando ela ergueu a arma com as duas mãos.

Num movimento frenético,

o Dançarino ejetou o cartucho vazio e inseriu outro na câmara, mas quando ergueu a arma Sachs já estava disparando. Dois tiros.

Os dois o atingiram, jogando-o para trás, enquanto o rifle caía para um lado.

— Fique com Percey,

detetive — disse ela para Bell.

Encontrou Jodie caído na

relva, de rosto para cima. Um dos tiros dela tinha partido o ombro esquerdo do assassino. O outro tinha acertado a mira telescópica do fuzil, cravando estilhaços de metal e vidro em seu olho direito. Ela engatilhou o revólver e apertou o cano de encontro à têmpora de Jodie, enquanto o revistava. Uma pistola Glock e uma longa faca de carbureto.

— Tudo bem — anunciou

ela, enquanto o algemava.

O Dançarino tossiu e

cuspiu, limpando o sangue que lhe toldava o olho que permanecera intacto. Quando ergueu a cabeça, viu que Percey Clay se erguia do chão, encarando-o.

Ele deu um gemido horripilante, mas permaneceu imóvel.

O trio ficou de pé à sua

volta, vendo o sangue empapar lentamente na relva ao redor. Dali a instantes ouviram o farfalhar de um helicóptero que se aproximava sobre as árvores.

 

— É CONTRA o

regulamento, Lincoln. Não posso permitir — teimava Lon Sellitto.

Mas Rhyme era ainda mais

teimoso.

— Só quero meia hora com

ele.

— Eles subiram pelas

paredes quando eu sugeri. Você é um civil.

Eram quase 10:00h da

manhã de segunda-feira. O depoimento de Percey diante do grande júri tinha sido adiado para a tarde seguinte. Os mergulhadores da Marinha haviam encontrado os sacos que Philip Hansen atirara nas águas do estreito de Long Island, e eles tinham sido levados às pressas para uma equipe de especialistas do FBI, para exame.

— Por que estão tão

preocupados? — disse Rhyme em tom irônico. — Não vou bater nele. Fui eu quem o pegou. Mereço uma chance de falar com ele.

— Tudo bem, vamos lá —

disse Fred Dellray a Sellitto. — Um pouco de tempo, e pronto.

— Está bem — concordou

Sellitto. — Vou ligar para lá.

 

— QUAL é seu nome

verdadeiro? Joe ou Jodie?

— Que tal me chamar como

vocês me batizaram? O Dançarino. Gosto disso.

O homenzinho examinou

Rhyme atentamente com o olho são. Seu braço esquerdo estava preso num colete de gesso, mas ele ainda usava pesadas algemas, presas a uma corrente na cintura. Seus pés estavam acorrentados também.

— Como quiser — disse

Rhyme. Ele continuava observando o homem à sua frente como se fosse um esporo vegetal encontrado na cena do crime.

O Dançarino sorriu, o que

deu ao seu rosto uma expressão grotesca, devido aos nervos faciais atingidos e às bandagens. De vez em quando, seu corpo era percorrido por tremores e seus dedos se contraíam; o ombro partido erguia-se e abaixava-se involuntariamente. Rhyme tinha a curiosa sensação de ser um homem sadio, enquanto o outro seria um inválido.

Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.

O Dançarino sorriu.

— Está morrendo de

vontade de saber como eu fiz tudo, não é?

Rhyme deu um estalido com

a língua.

— Ah, isso eu sei. Só pedi

que o trouxessem aqui porque queria falar com você... com o sujeito que quase me passou a perna.

— Quase... — O Dançarino

deu um sorriso retorcido. Era uma imagem de dar calafrios. — Muito bem, então me diga.

Rhyme bebeu um gole pelo

canudinho. Era suco de frutas. Para assombro de Thom, ele tinha pedido um "ponche havaiano", em vez de uísque escocês.

— Muito bem — disse ele.

— Você foi contratado para matar Ed Carney, Brit Hale e Percey Clay. Pagaram-lhe muito bem. Algo na faixa dos seis algarismos.

— Sete — disse o

Dançarino, orgulhosamente.

Rhyme ergueu uma

sobrancelha.

— Você depositou o

dinheiro nas Bahamas. Obteve o nome de Stephen Kall em algum lugar, provavelmente em alguma rede clandestina de matadores de aluguel, e o contratou, "terceirizando" o serviço. Fez tudo anonimamente, talvez através de e-mails. Nunca o encontrou pessoalmente, é claro. Imagino que fez um teste antes. Correto?

— Claro. Um trabalho na

área de Washington. Segui-o passo a passo. Acho que ele me viu à janela e revistou o local em busca de testemunhas. Muito profissional.

Rhyme continuou:

— Você achava que ele era

ótimo, mas não sabia se era bom o suficiente para dar cabo dos três. Provavelmente você achou que ele conseguiria eliminar pelo menos uma das vítimas, mas isso lhe daria a chance de chegar perto das outras duas.

O Dançarino assentiu com

relutância:

— Fiquei admirado de que

ele tivesse conseguido matar Hale. Ah, sim, e fiquei mais surpreso ainda quando ele conseguiu escapar e instalar a segunda bomba no avião de Percey Clay.

— Você percebeu que teria

de matar pessoalmente pelo menos uma das vítimas; portanto, na semana passada, transformou-se em Jodie, vendendo drogas na rua até se tornar conhecido. Sequestrou o agente do FBI e descobriu em que esconderijo, em Manhattan, as testemunhas iam ficar. Deixou que Stephen o levasse consigo no túnel do metrô. Deixou uma porção de pistas para que pudéssemos encontrar o seu "abrigo" lá. Todos nós acreditamos em você. Claro que acreditamos, Stephen não tinha a menor idéia de que você era o contratante dele. Tudo que ele sabia é que você o havia traído. Uma cobertura perfeita para você, mas arriscada.

— O que é a vida sem riscos?

— Quando Kall estava no

Central Park, você o abordou numa das alamedas e o matou. E aí nós ordenamos que você fosse para o abrigo em Long Island. A raposa trancada no galinheiro. Bem, isto é um resumo.

Os olho são do Dançarino

fechou-se por alguns momentos e voltou a se abrir.

— Qual foi a pista? — perguntou. — Como descobriu?

— A areia — disse Rhyme.

— Areia das Bahamas.

— Esvaziei os bolsos.

Passei aspirador de pó.

— Nas dobras das costuras.

— Ah, sim. Claro. —

Depois de um instante, o Dançarino acrescentou: — Ele tinha razão em ter medo de você. Estou falando de Stephen.

— Mas você não teve

medo.

— Não. Eu não sinto medo.

— De repente, ele fez um gesto com a cabeça, como se finalmente tivesse entendido algo que o vinha incomodando. — Ah... está tentando localizar meu sotaque, não é?

De fato, era o que Rhyme

estava tentando fazer.

— Ele muda muito — prosseguiu o Dançarino. — Aliás, por que está me interrogando? Você é um investigador. Eu já fui preso. Hora de ir para a cama. Fim do filme. Olhe aqui, Lincoln, eu gosto de xadrez. Adoro xadrez. Você joga?

Sim, ele costumava jogar

com Claire Trilling e gostava. Thom tinha insistido para que ele jogasse contra o computador.

— Não jogo há algum

tempo — respondeu ele.

— Nós dois deveríamos

jogar uma partida qualquer dia. Sabe um erro que muitos jogadores cometem? Eles ficam cheios de curiosidade pelo adversário. Isso os deixa confusos. E pode ser perigoso. Veja bem, o jogo está todo no tabuleiro, Lincoln. — Ele deu um sorriso retorcido. — Estou surpreso com você. Você é um criminalista, o melhor que eu já vi. E aqui está você embarcando numa espécie de jornada sentimental, tão patética... Quem sou eu? Ora, sou o cavaleiro sem cabeça. Sou Belzebu. Sou a rainha das bruxas. Sou "eles", quando o pessoal diz: "Cuidado com eles, eles vão te pegar." Você não vai conseguir meu nome, minha patente, meu número de série. Eu não jogo pelas regras da Convenção de Genebra.

Rhyme não pôde dizer

nada.

Ouviu-se uma batida na

porta. O transporte havia chegado. Os guardas seguraram o Dançarino pelo braço sadio e o ergueram. No meio dos dois policiais imensos, ele parecia um anão.

— Lincoln?

— Sim?...

— Você vai sentir minha

falta. Vai se entediar muito — disse, com seu único olho fixo em Rhyme. — Sem mim, você vai morrer.

 

UMA HORA depois,

passos pesados na escada anunciaram a chegada de Lon Sellitto. Vinha acompanhado de Amelia Sachs e de Dellray, e isto era sinal de problemas.

Sachs soltou um suspiro ao

entrar, Dellray fez uma careta.

— Muito bem, desembuchem — disse Rhyme.

— Os sacos de lona —

disse Sellitto. — Adivinhe o que havia dentro.

Rhyme suspirou, exausto, e

sem a menor paciência para jogos.

Detonadores, plutônio e o

cadáver de Jimmy Hoffa.

Sachs respondeu:

— Catálogos das páginas amarelas do condado de Westchester e um monte de pedras.

— O quê?! Tem certeza de

que eram catálogos, e não registros em código?

— O pessoal da criptologia

examinou tudo de fio a pavio — disse Dellray.

— Vão libertar o cretino do

Hansen — murmurou Sellitto, taciturno.

— Não vão sequer levar o

caso ao grande júri. Todas essas pessoas morreram... para nada.

Rhyme estava mergulhado

em seus pensamentos, olhando para o mapa dos indícios na parede. O que era aquilo, que o inquietava tanto? Alguma coisa estava errada ali. Muito errada.

Fibras verdes, catálogos

telefônicos e pedras.

Rhyme lembrou-se de algo que o Dançarino dissera — um cachê de algarismos.

Tinha a vaga impressão de

que alguém lhe dirigia a palavra, de que Sachs se aproximava dele, tentando entender para onde estava olhando.

— Espere — disse ele.

— E subitamente, gritou:

Thom! Thom! Preciso telefonar. Nunca sei onde esse sujeito se mete. Lon, pode discar um número para mim?

 

PIRCEY CLAY tinha

acabado de chegar do funeral do marido quando Sellitto conseguiu localizá-la. Vestida de preto, estava agora sentada na cadeira de vime junto à cama de Rhyme. Roland Bell estava de pé encostado à parede.

Percey observava Rhyme

com um misto de curiosidade e impaciência e Rhyme percebeu que ninguém lhe dera as más notícias. Covardes, pensou ele.

Percey... eles não vão levar

Hansen diante do grande júri. Sabe aqueles sacos de lona?

Não havia nada neles.

— Não! — O rosto dela

empalideceu. — Vão soltá-lo, então?

— Eles não conseguem

achar nenhuma conexão entre ele e o Dançarino.

Ela levou as mãos ao rosto

murmurou:

— Foi tudo em vão... Ed...

Brit...

— O que vai ser da sua

empresa agora? — perguntou Rhyme.

A pergunta pegou Percey de

surpresa.

— Perdão?...

— Sua empresa. O que vai

ser da Hudson Air?

— Vamos vendê-la. Temos

uma oferta de outra companhia.

— Qual?

— Para falar a verdade,

nem me recordo. Ron tem conversado com eles.

— Seu sócio Ron Talbot,

não é verdade? Ele sabe da situação financeira da Hudson?

— Claro, tanto quanto os

nossos contadores, e mais até do que eu.

— Pode pedir que ele

venha até aqui?

— Acho que sim. Depois

do funeral ele deve ter ido para casa.

— E... Sachs? — indagou

Rhyme, virando-se para Amelia. — Temos outra cena do crime para vasculhar. Você vai fazer isso. E tem de ser muito rápido.

 

RHYME EXAMINOU O

homem corpulento que entrou no quarto, envergando um terno azul-marinho de talhe ligeiramente militar. Imaginou que era o tipo de roupa que ele usava quando era piloto. Percey os apresentou e Ron Talbot grunhiu:

— Quer dizer que você

pegou aquele bastardo. Acha que ele vai para a cadeira elétrica?

— Tudo que eu faço é

recolher o lixo — disse Rhyme, com a satisfação que sempre sentia ao disparar uma frase de efeito. — O que a promotoria faz depois é problema dela. Percey lhe falou a respeito de Hansen?

— Sim. Disse que as

provas eram furadas. Por que ele faria isso?

— Acho que sei a resposta, mas preciso de mais informações. Percey me disse que a empresa de vocês não tem andado muito bem.

Talbot encolheu os ombros.

— Estes dois últimos anos

foram duros. Desregulamentação, uma porção de trabalhos pequenos... Nossas margens de segurança encolheram muito.

Suponhamos que o

Dançarino da Morte tivesse sido contratado para matar Percey e Ed, para que o mandante do crime pudesse comprar a empresa a preço de banana?...

— Comprar que empresa?

A nossa? — perguntou Percey, franzindo a testa.

— Mas por que Hansen

faria isso? — perguntou Talbot. Sua respiração produzia um sibilar bem audível.

— Na verdade nem pensei

em Hansen. Não poderia ser outra pessoa?

— Quem? — perguntou

Percey.

— Não sei ainda. É só

porque... há aquelas fibras verdes.

— Fibras verdes? — Os

olhos de Talbot acompanharam os de Rhyme, que estavam fitos no mural da parede.

Todo mundo parece ter

esquecido isto, menos eu. Essas fibras... — Ele fez um gesto indicando Amelia. — Minha parceira Sachs aqui as encontrou no hangar vazio que tinha sido alugado por Hansen. O hangar. Uma das várias coisas preparadas para implicar Hansen.

— Mas o assalto — disse

Talbot. — Quando ele roubou as armas e matou os soldados... Todo mundo sabe que foi ele.

— Ah, sim, e

provavelmente foi — concordou Rhyme. — Mas ele não saiu para brincar de bombardeio com sacos cheios de catálogos telefônicos. Outra pessoa o fez. Alguém que jamais imaginou que conseguiríamos recuperar os sacos.

Percey mexeu-se, inquieta.

— Mas quem? — perguntou

Talbot. Amelia Sachs puxou três grandes envelopes pardos de dentro de uma bolsa e os colocou sobre a mesa. Dentro de dois deles havia livros de contabilidade. O terceiro continha envelopes em branco.

Vieram de seu escritório,

Talbot — disse Rhyme.

Talbot deu uma risada sem

muita convicção.

— Você não pode pegar

isso sem um mandado.

Percey Clay franziu a testa.

— Eu dei permissão, Ron.

Rhyme olhou na direção de

Mel Cooper, que disse:

— As libras verdes vieram

de um livro-razão contábil. As brancas, de um envelope. Não há a menor dúvida de que são idênticas.

Rhyme prosseguiu,

dirigindo-se a Talbot:

— Todos naquele aeroporto

sabiam que Hansen estava sendo investigado. Você teve a idéia de se aproveitar disso. Assim, você esperou uma noite em que Ed, Percey e Brit estivessem trabalhando até tarde. Você roubou o avião de Hansen e jogou na água os sacos com as supostas provas. Você contratou o Dançarino. Ele me disse que estavam lhe pagando uma soma de sete algarismos pelo trabalho. — Rhyme sacudiu a cabeça. — Eu devia ter entendido tudo quando ouvi isso. Hansen poderia mandar liquidar essas três pessoas por 200 mil. As cotações no mercado de execuções de aluguel estão muito baixas atualmente. O homem que contratou este serviço era um amador.

Um grito escapou da

garganta de Percey Clay e ela saltou sobre Talbot.

— Como pôde fazer isso?

Por quê?

Talbot deu um passo atrás,

e Rhyme prosseguiu.

— A situação da Hudson

Air era muito melhor do que você imaginava, Percey.

Acontece que a maior parte

dos lucros estava indo para o bolso de Talbot. Ele sabia que cedo ou tarde seria apanhado e precisava se desembaraçar de você e de Ed.

— A opção da venda de ações — disse Percey. — Como sócio, você tinha o direito de comprar nossas cotas com desconto, no caso de nossa morte. Como pôde, Ron? — repetiu ela, em voz cava.

Talbot rugiu:

— Porque eu amava você!

— O quê?! — exclamou

ela.

— Você riu de mim quando

lhe propus casamento, e voltou para ele. — Talbot fez uma careta escarnecedora. — Ed Carney, o belo piloto de caças... — O rosto dele estava rubro de fúria. — E então eu perdi a última coisa que tinha... fui proibido de pilotar. Não podia voar, nunca mais. Fiquei olhando vocês dois acumularem horas de voo dia a dia, mês a mês, enquanto eu me limitava a ficar sentado atrás de uma escrivaninha, manuseando papéis. Vocês tinham um ao outro... Podiam voar... Você não sabe o que significa perder as coisas que a gente mais ama.

Sachs e Sellitto

observavam a tensão crescente em Talbot. Previram que ele iria tentar alguma coisa, mas não contavam com tamanha força física.

Quando Sachs deu um

passo à frente, tirando a arma do coldre, Talbot jogou-se sobre ela com todo o peso do corpo, arremessando-a de encontro à mesa onde estavam as provas e jogando Mel Cooper contra a parede. Talbot arrebatou a pistola Glock da mão de Sachs e apontou-a para o grupo.

— Muito bem, joguem as

armas no chão. Agora!

— Calma, rapaz — disse

Dellray, olhando para o alto, cheio de paciência. — Vai fazer o quê? Sair pela janela? Não vai chegar a lugar nenhum, Talbot virou o cano da arma na direção de Dellray, com os olhos cheios de desespero. Sua aparência lembrou a Rhyme a de um urso encurralado. O agente federal e os policiais deixaram as armas caírem no chão. Bell fez o mesmo com as duas que trazia consigo.

— Aonde vai dar isso? —

perguntou Talbot, indicando uma porta na parede.

— É um armário — disse

Rhyme rapidamente, Talbot a abriu e deparou-se com o estreito elevador. Apontou a arma para Rhyme.

— Não! — gritou Sachs,

que já estava novamente de pé.

— Ron, pense no que está

fazendo, por favor — disse Percey.

Sachs olhou as pistolas

caídas no chão, a alguns metros de distância.

"Nao, Sachs", Rhyme se exasperou. "Não faça isso." Os olhos de Talbot estavam agora olhando alternadamente para Dellray e Sellitto e para o painel do elevador, tentando entender como funconava.

— Pare com isso, Talbot —

disse Sellitto. — Abaixe essa arma. "Por favor, Sachs, não tente nada. Ele vai perceber. Vai atirar na cabeça, como faz todo amador, e você morre."

Retesada, Sachs tinha os olhos fitos na Sig-Sauer caída aos pés de Dellray. No instante em que Talbot voltou a olhar o painel do elevador, ela jogou-se ao chão, pegando a arma de Dellray e rolando para o lado, mas, antes que pudesse erguê-la, Talbot apontou a Glock na ilusão dela.

— Não! — gritou Rhyme.

Oestampido foi

ensurdecedor. As vidraças estremeceram, e os falcões alçaram voo para o alto. Ron Talbot, com um pequeno furo vermelho na testa, permaneceu de pé por mais um segundo, até que desabou no chão num movimento em espiral.

— Puxa, cara — disse Mel

Cooper, olhando seu pequeno revólver .39 Smith & Wesson na mão firme de Roland Bell. O detetive tinha-se posicionado atrás de Cooper e sacara a arma do coldre que este usava virado para trás.

Um lamento encheu o ar,

quando Percey Clay caiu de joelhos junto ao corpo e começou a socar repetidamente o ombro maciço de Talbot. Por fim, Bell pôs o braço em volta dela e a afastou do cadáver de seu amigo e inimigo.

 

UM TROVÃO distante,

uma chuva leve de primavera tarde da noite. A janela estava escancarada e o quarto enchia-se do ar frio da noite.

Amelia Sachs fez saltar a

rolha de uma garrafa e derramou o chardonnay Cakebread na sua taça e na de Rhyme. Ela olhou para baixo e deu uma risada leve.

— Ah, não acredito —

disse.

Na tela do computador, ao

lado da cama de Rhyme, via-se a imagem de um tabuleiro de xadrez.

— Nunca vi você jogando

com o computador. Com voz clara e articulada, Rhyme anunciou:

— Torre quatro do bispo da

dama. Xeque-mate.

Uma pausa. O computador

disse: "Parabéns", e executou uma versão digitalizada da marcha Washington Post, de John Philip Sousa.

— Não jogo por

divertimento — disse ele. — Mantém a mente alerta. E minha máquina Nautilus. Quer jogar um dia, Sachs?

— Não jogo xadrez —

respondeu ela, depois de um gole de vinho — Se algum cavalo atrevido vier ameaçar o meu rei, posso derrubá-lo a tiros. Por falar nisso, quanto encontraram?

— O dinheiro que Talbot

tinha escondido? Mais de cinco milhões.

— Onde está o Dançarino?

— Na Detenção Especial.

A Detenção Especial era

uma instalação pouco conhecida do sistema carcerário. Rhyme nunca a vira — poucos policiais a conheciam —, mas jamais alguém fugira de lá em 35 anos.

Amelia Sachs tomou mais

um gole de vinho e pensou consigo que era então ou nunca. Respirou fundo e falou:

— Rhyme, acho que você

devia ir à luta. — Outro gole. — Puxa, pensei que não conseguiria falar isto.

— Perdão?...

— Ela é a pessoa certa

para você. Pode ser uma coisa boa.

Eles raramente tinham

dificuldade em se olhar nos olhos, mas agora Sachs mantinha os seus voltados para o piso. Ela prosseguiu:

— Sei o que você sente por

ela. E ela não admite, mas sei que ela sente o mesmo por você.

— Quem?

— Você sabe quem. Percey

Clay. Você está pensando que ela é uma viúva, que não vai querer se envolver com ninguém mais agora. Mas você ouviu o que Talbot disse... Carney tinha uma amante. Eles ficavam juntos porque eram amigos. E por causa da companhia.

— Eu nunca...

— Vá à luta, Rhyme. Estou

falando sério. Você acha que não daria certo. Mas ela não liga para sua situação. E ela está certa... Vocês são muito parecidos.

Há momentos na vida em

que um homem lamenta não poder erguer as mãos no ar e deixá-las cair, para demonstrar sua frustração.

— Sachs, de onde diabos

você tirou essa idéia?

— Ah, por favor. E uma

coisa tão óbvia. Eu tenho visto como você mudou desde que ela apareceu. Como você olha para ela. Como ficou obcecado em salvá-la. Eu sei o que está havendo.

— E o que está havendo?

— Ela parece com Claire Trilling, essa mulher que abandonou você anos atrás. É ela que você quer.

"Ah." Ele assentiu com um

gesto. "Então é isso."

Ele sorriu e disse:

— Tudo bem, Sachs, eu

andei pensando bastante em Claire nestes últimos dias. Menti quando disse que não.

— Sempre que você falava

nela, eu percebia que você ainda estava apaixonado. Acha Percey parecida com ela, e quando a conheceu pensou que poderia ter alguém outra vez. Ela. Não eu. Tudo bem, é a vida.

— Sachs, não é de Percey

que você deve ter ciúmes. Não foi por causa dela que pedi para você sair da cama naquela noite. Foi por causa do Dançarino da Morte.

Ela serviu-se de mais vinho

e ficou girando o copo distraidamente, Fitando o líquido claro.

— Não entendi.

— O que houve naquela

noite? — Ele suspirou. — Eu tinha de criar uma barreira entre nós, Sachs. Não percebe? Eu não podia me aproximar tanto de você, não tanto assim, e depois mandar você para o perigo. Não posso deixar que isso aconteça de novo.

— De novo? — perguntou

ela. E então uma expressão de entendimento se estampou no seu rosto.

"Ah, esta é minha Amelia",

regozijou-se ele. "Uma boa criminalista. Uma boa atiradora. E esperta como uma raposa."

— Oh, não, Lincoln. Claire

era...

— Ele confirmou.

— Ela era um dos técnicos que enviei para examinar a cena do crime em Wall Street. Foi quem detonou a bomba do Dançarino.

Então era por isso que ele

estava tão obcecado pelo criminoso. Por que insistira, tão ao contrário do seu estilo, em conversar frente a frente com o assassino. Queria apanhar o homem que matou a mulher que ele amava. Queria saber tudo a respeito dele. Era vingança, vingança em estado puro. Lincoln Rhyme, apesar da perpétua imobilidade em que vivia, era um caçador, tanto quanto os falcões que frequentavam o beiral de sua janela.

— É isso, Sachs. Não tem

nada a ver com Percey. E por mais que eu quisesse que você passasse aquela noite comigo, e todas as outras noites, não podia me arriscar a amar você mais do que já amo.

Era algo incrível, algo

espantoso para Lincoln Rhyme ver-se a si próprio tendo um diálogo como aquele. Depois do acidente, ele chegara a acreditar que a viga que partira sua espinha tinha na realidade produzido um estrago muito maior no seu coração. Mas naquela noite recente, com Sachs deitada ao seu lado, ele percebera o quanto estava errado.

— Você entende, Amelia?

— sussurrou ele.

— Trate-me pelo

sobrenome — disse ela sorrindo, encaminhando-se para a cama.

Ela se inclinou e beijou-o

na boca. Por um instante, ele afastou a cabeça, afundando-a no travesseiro, mas logo retribuiu o beijo.

— Não, não — disse. Mas

voltou a beijá-la.

A bolsa de Amelia caiu no chão. Seu casaco e seu relógio foram colocados na mesa-de-cabeceira, e logo a pistola Glock se juntou a eles. Eles voltaram a se beijar, mas Rhyme afastou o rosto.

— Sachs, é muito

arriscado.

— Deus não nos dá

certezas — disse ela, enquanto os dois se encaravam, muito próximos. Ela levantou-se e foi até o interruptor.

— Espere — disse ele.

Virou-se para o microfone preso à cabeceira e ordenou: — Apagar luzes.

O quarto mergulhou na

escuridão.

 

FIM

Você terminou Dança com a Morte

Jeffery Deaver

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