Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 9 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Sete

CAPÍTULO

SETE

Hora 24, de 45

 

— L AR, DOCE lar — disse Jodie.

Um colchonete, roupas

velhas, latas de conserva. Um ou dois livros. A fétida estação de metrô onde Jodie vivia, na parte baixa de Manhattan, tinha sido desativada há décadas. "Um bom lugar para vermes", foi o pensamento sombrio de Stephen.

Tinham caminhado durante

uns quatro ou cinco quilômetros por baixo da terra, atravessando porões de edifícios, túneis, enormes tubulações de esgoto. Por fim tinham atingido o túnel do metrô e apressado o passo, embora Jodie, cuja falta de preparo físico chegava a ser patética, ficasse quase sem respiração tentando acompanhar o passo de Stephen.

Havia uma porta que dava

para a rua e o ar livre, mas estava pregada com tábuas transversas pelo lado de dentro. Fendas oblíquas entre as tábuas projetavam faixas de luz cheias de partículas de poeira. Stephen espreitou por uma das frestas e teve o vislumbre de um dia de primavera nublado e cinzento, de mendigos sentados nas esquinas, garrafas espalhadas pela calçada, recipientes de crack atirados pelo chão.

Ouviu um ruído atrás de si

e virou-se para ver Jodie organizando um punhado de pílulas roubadas em latas vazias de café. Ele abriu a mochila, tirou uma carteira e contou cinco mil dólares.

— Aqui está o dinheiro —

disse.

Os olhos de Jodie ficaram

saltando do rosto de Stephen para as notas, indo e voltando. A mão magra arrebatou o maço de notas.

Stephen disse:

— Se me ajudar de novo,

pode ganhar mais dez mil.

O rosto vermelho e inchado

do outro abriu-se num sorriso cauteloso. Ele remexeu em suas latas e engoliu uma pílula.

— Blue devil— explicou.

— Faz a gente se sentir bem, aconchegado... Quer uma?

— Hum... Não —

respondeu Stephen.

Jodie fechou os olhos e

recostou-se.

— Dez mil. — Depois de

um instante, perguntou: — Você o matou, não foi?

— Quem? — perguntou

Stephen.

— O policial, lá atrás.

— Talvez. Não sei. Não era

esta a questão.

— Você esteve no exército,

não? Adivinhei logo.

Stephen esteve a ponto de

mentir, mas mudou de idéia e disse:

— Não. Quase entrei para o

exército. Ou melhor, nos fuzileiros navais. Meu padrasto era fuzileiro. Tentei me alistar, mas não me aceitaram.

— Que coisa estúpida. Não

aceitaram você? Você daria um grande soldado. — Jodie olhava Stephen de alto a baixo, fazendo gestos de aprovação com a cabeça. —Você é forte. Bons músculos. Eu... — Riu alto. — Eu nunca faço exercício, a não ser correr quando os pivetes me atacam. Você é bonito, também. Como os soldados nos filmes.

Stephen começou a enrubescer.

— Bem, não sei nada sobre

isso — disse.

— Ah, que é isso. Aposto

como sua namorada acha você muito bonito.

Sensação de medo. Vermes

pondo-se em movimento.

— Você tem água?

Jodie apontou uma caixa de

mineral Poland Spring.

— Roubei estas aí.

Stephen abriu duas garrafas

e começou a lavar as mãos.

— Não tem namorada, é?

— A droga deixava a voz de Jodie pastosa.

— Não agora — explicou

Stephen, falando com cuidado. — Não é que eu seja bicha, ou coisa desse tipo, se é isso que está pensando.

— Não, não estou — respondeu Jodie, perdido em sua névoa mental. — Eu também não tenho garota. Como posso arranjar uma? Não sou boa-pinta como você.

Stephen sentiu o rosto

queimando e esfregou as mãos com mais força. A pele, no local, ardia. De repente, sentiu-se invadido por um sentimento estranho, a sensação de estar falando com alguém que poderia entendê-lo.

— Olhe, eu não mato as

pessoas só por matar — disse. — Matar é o meu trabalho. Veja o que aconteceu em Kent State. Eu era só um garoto naquele tempo, mas meu padrasto me contou. Lembra, quando a Guarda Nacional atirou naqueles estudantes?

— Claro, ouvi falar.

— Pois veja bem, para mim

isso foi uma coisa estúpida. Para que serviu? Deviam ter identificado os líderes e liquidado com eles. Infiltrar, avaliar, designar, isolar, eliminar.

— É assim que você mata

gente?

— Primeiro você tem de se

infiltrar na área. Depois, avaliar a dificuldade do serviço que vai executar. Então, designar alguém para afastar as atenções da sua vítima, dar a aparência de que você está se aproximando de outra direção, mas na hora H é apenas um garoto de entregas ou coisa assim, e enquanto isso você vem por trás da vítima. Aí, e só isolar e eliminar a pessoa.

— Sabe duma coisa —

disse Jodie —, tem gente que pensa que os assassinos profissionais são malucos. Mas você não parece maluco.

— Eu não acho que seja —

disse Stephen, com simplicidade.

— As pessoas que você mata são más? Como os caras da máfia?

— Bem, são pessoas que

fazem coisas más contra as pessoas que estão me pagando.

De olhos semicerrados,

Jodie deu uma gargalhada entorpecida.

— Algumas pessoas diriam

que não é assim que a gente determina o que é bom ou mau.

— Muito bem, então o que é bom e o que é mau? — perguntou Stephen. — Alguns matadores profissionais chamam suas vítimas de objetivo. Conheci um cara que as chamava de corpos, mesmo antes de matá-las. Acho que com isso ele ia se acostumando a pensar que já estavam mortas. Mas eu não ligo. Chamo-os do que são. Neste trabalho agora estou procurando a Esposa e o Amigo. São gente que eu tenho de matar, só isso. Nada mais.

Jodie avaliou o que tinha

escutado e disse:

— Sabe duma coisa? Não

acho que você seja mau. O mau parece inocente, mas acaba mostrando sua maldade. Você é o que é. E eu acho que isso é bom.

Stephen enrubesceu

novamente e acabou perguntando:

— Tem medo de mim?

— Não — disse Jodie. —

Eu não ia querer ter você contra mim. Não, senhor!... Mas eu acho que somos amigos. Não acho que você me faria mal.

— Não — disse Stephen.

— Somos parceiros.

— Você falou do seu

padrasto. Ele ainda está vivo?

— Não, já morreu. —

Stephen observou Jodie enfiar o dinheiro num rasgão do colchonete imundo. — O que vai fazer com o dinheiro?

Jodie sentou-se e o fitou

com olhos mortiços mas resolutos.

— Vou lhe mostrar uma

coisa. — Ele puxou um livro do bolso. O título era Dependência Nunca Mais. — Roubei isto de uma livraria na St. Marks Place. É para essas pessoas, você sabe, que não querem mais ser alcoólicas ou viciadas em drogas. Muito bom. Fala em todas essas clínicas onde a gente pode ir. Descobri esse lugar, que fica em Nova Jersey... Você passa um mês lá, mas sai novo em folha.

— Vai ser bom para você

— disse Stephen. — Eu aprovo.

— Sim. — Jodie fez uma

careta. — Mas custa 14 mil dólares.

— Alguém está faturando

uma nota por lá — comentou Stephen. Ele ganhava 150 mil por cada missão, mas não se deu o trabalho de repassar essa informação para seu novo amigo e parceiro.

Jodie suspirou, limpou os

olhos. As drogas o tornavam sentimental. Como o padrasto de Stephen quando bebia.

— Minha vida está uma

bagunça — disse ele. — Estive na universidade, sabia? Pois é. Trabalhei numa empresa. Mas aí perdi o emprego. Sempre tive esse problema com pílulas. Mas deixa pra lá.

Stephen sentou perto dele.

— Você vai conseguir o

dinheiro e vai para essa clínica. Sua vida vai melhorar.

Jodie endereçou-lhe um

sorriso por entre as lágrimas.

— Meu pai costumava

dizer uma coisa, sabia? Sempre que a gente tinha que enfrentar uma situação difícil, ele dizia: "Isso não é um problema, é apenas um fator."

— "Não é um problema,

apenas um fator" — repetiu Stephen. — Gostei dessa.

E pôs a mão sobre a perna

de Jodie para confirmar.

 

UM LABIRINTO.

O complexo do metrô da cidade de Nova York se estende por mais de quatrocentos quilômetros e abrange mais de uma dúzia de túneis que se entrecruzam, espalhando-se por quatro municípios. Era muito mais fácil um satélite encontrar um barco à deriva no Atlântico do que a equipe de Lincoln Rhyme localizar dois homens escondidos naquelas galerias subterrâneas.

Rhyme, Sellitto, Sachs e

Cooper estavam analisando um mapa do metrô pregado desajeitadamente na parede. O criminalista ordenou ao computador que discasse um número de telefone e momentos depois estava em contato com Sam Hoddleston, chefe da Polícia de Trânsito. Rhyme resumiu a situação que conduzira à busca pelo Dançarino e seu cúmplice.

— Achamos que eles estão

em alguma área abandonada — disse. — Nosso palpite é Manhattan. Temos um mapa aqui, mas vamos precisai de sua ajuda para afunilar a busca.

— O que for possível —

respondeu Sam Hoddleston.

Rhyme repassou as pistas

deixadas pelo rastro do parceiro do Dançarino.

— Os resíduos estão cheios

de areia de quartzo e feldspato. Muito pouca rocha; nenhuma parte dela foi explodida ou quebrada; não há calcário, nem o xisto de mica daqui de Manhattan. Estamos pensando em nos concentrar na parte baixa, onde o metrô foi construído sobre terreno úmido, e não sobre rocha. Talvez nas imediações de Canal Street.

Hoddleston não estava

otimista. Havia dúzias de túneis de conexão, plataformas e partes de estações que estavam interditados há anos. Mas concordou em enviar uma relação das áreas mais prováveis.

Cinco minutos mais tarde, o

aparelho de fax emitiu uma longa listagem que Thom trouxe para Rhyme.

— Muito bem, Sachs, mãos

à obra — disse ele. Ela assentiu, enquanto Sellitto pegava o telefone para que Haumann e Dellray colocassem as equipes de busca a postos. Rhyme ajuntou, com ênfase: — Amelia, fique na retaguarda, está ouvindo? Você está lá para analisar a cena do crime. Somente para isto.

 

SENTADO NO MEIO-FIO,

Leon Chamariz tinha ao seu lado o Homem-Urso, assim chamado porque costumava andar pelas ruas empurrando mu carrinho de supermercado repleto de bichos empalhados que ele colocava à venda — se bem que somente um pai desequilibrado seria capaz de comprar para seus filhos um daqueles brinquedos esfarrapados e cobertos de pulgas. Os dois dividiam um beco perto de Chinatown, onde sobreviviam vendendo garrafas vazias, recolhendo sobras de comida e praticando pequenos furtos.

Leon e o Homem-Urso

estavam olhando para o lado oposto da rua, onde outro vagabundo, um negro de aspecto doentio, estava caído no chão, com o rosto contorcido.

— Ele está morrendo, cara

— disse Leon. — Vamos chamar alguém.

— Vamos olhar de perto —

disse o Homem-Urso.

Os dois atravessaram a rua

em passos rápidos e miúdos, como ratazanas.

O homem estava imundo.

Usava jeans surradíssimos, meias sebentas, sem sapatos, e um casaco rasgado e sujo onde se lia: Cats — O Musical.

Leon tocou-lhe a perna. O

vagabundo acordou num sobressalto e sentou-se.

— Ei, cara, você está bem?

— Os dois deram um passo para trás.

Cats pôs-se a tremer,

segurando o abdômen. Tossiu demoradamente.

— Ih, o cara está mal.

Vamos embora — disse o Homem-Urso, fazendo menção de voltar para junto de seus brinquedos.

— Me ajudem — murmurou

Cats. — Estou mal, cara.

— Tem uma clínica ali

adiante, no...

— Não posso ir para

clínica nenhuma — replicou Cats, como se eles o tivessem insultado. Isso queria dizer que tinha ficha na polícia. Estava mesmo com um problema sério.

— Preciso de remédio...

vocês têm alguma coisa? Eu pago. Tenho grana.

Difícil de acreditar. O que

os dois podiam perceber era que Cats era um catador de latas. E dos bons. Ao lado dele havia um enorme saco com latas vazias de soda e de cerveja que ele apanhara no lixo.

— A gente não tem pílulas.

Quer beber? Tenho uma cana aqui.

Cats se pôs de pé com

dificuldade.

— Não quero beber nada.

Os pivetes me deram uma surra. Preciso de remédio. — Ele gemeu, segurando a ilharga.

Leon disse:

— Olha, tem um cara,

sabe?... Ele quis vender umas pílulas ontem para a gente. Estava vendendo de tudo, sem ligar se estava sendo visto ou não.

— Eu tenho dinheiro. —

Cats remexeu num bolso sujo e puxou duas notas amarfanhadas de vinte dólares. — Está vendo? Agora, cadê o cara?

— Perto do City Hall. Na

estação velha do metrô.

— Estou mal, cara. Por que

fizeram isso comigo? Estava só pegando umas latas. — Cats limpou o suor da testa. — Quero ver ele. Como ele se chama?

— Não sei — disse Leon.

— Joe qualquer coisa. Ou Jodie, talvez.

— Jodie. Cara, eu preciso

tomar alguma coisa. Estou mal, mal. — Ele deu alguns passos, cambaleando, gemendo e arrastando atrás de si o s;ico de latas amassadas.

SENTADO no colchonete

ao lado de Jodie, Stephen escutava, através do grampo que colocara na linha da Hudson Air, a discussão de Ron Talbot com um distribuidor de peças de turbina. Por ser domingo, ele eslava tendo dificuldade em substituir as peças danificadas. Depois disso, não houve nenhuma outra chamada.

Stephen desligou o

aparelho, sentindo-se frustrado. Será que a esposa e o Amigo ainda estavam no esconderijo? Ou tinham sido removidos? O que estaria tramando Lincoln, o Rei dos Vermes? Até que ponto ele era esperto?

E quem seria ele? Stephen

tentou visualizá-lo como um alvo enquadrado pelo telescópio Redfield. Tudo que enxergava era uma massa amorfa de vermes e um rosto olhando calmamente em sua direção, através de uma vidraça suja.

Ele percebeu que Jodie

estava dizendo alguma coisa.

— O quê?

— Que fazia seu padrasto?

— Lou? Bem... ele fazia

biscates a maior parte do tempo. Caçava e piscava bastante. Foi um herói no Vietnã. Entrou pelas linhas inimigas e matou 54 caras. Políticos, gente desse tipo.

— Foi ele quem lhe ensinou

tudo, tudo isto que você faz?

— Ele me ajudou a

começar.

Quando garoto, Stephen

caminhava ao lado de Lou através das montanhas, gotas quentes de suor correndo ao longo de seus narizes e pingando nos dedos recurvados nos gatilhos das Winchester. Ficavam assim, deitados na relva, durante horas.

"Não pisque esse olho

esquerdo, soldado."

"Não, senhor. Jamais,

senhor."

Esquilos, perus selvagens,

corças no cio ou não, ursos quando apareciam, cães nos dias mais fracos.

— Deixe-os mortos,

soldados. Preste atenção ao que eu faço.

Crac-crac! O impacto da coronha contra o ombro, os olhos espantados do animal atingido.

À noite ficavam sentados

diante de uma fogueira no quintal, enquanto as faíscas se elevavam ao céu, e através da janela Stephen avistava a mãe limpando os pratos da ceia com uma escova de dentes. Lou era um tipo atarracado — aos 15 anos, Stephen já era da altura dele. Bebericava de uma garrafa de Jack Daniels enquanto falava ininterruptamente, sem se incomodar se Stephen estava escutando ou não.

— Amanhã quero que você

traga um veado morto, usando somente a faca. Consegue fazer isso, soldado?

— Sim, senhor. Consigo.

— Muito bem. O que você

tem de fazer é encontrar uma família: a corça e os filhotes. Você chega perto. Essa é a parte mais difícil. Para matar a corça, você ameaça o filhote. Ela se adianta para proteger o bebê, ela vem justo na sua direção. Então... zás!Você corta o pescoço dela. — Outro gole. — Puxa, garoto, isto sim é que é vida!

Depois disso, Lou iria lá

dentro examinar os pratos e, às vezes, quando encontrava restos de sujeira em algum deles, Stephen escutava os tapas e os gemidos dentro da casa, enquanto ficava deitado junto da fogueira, vendo as centelhas subirem até a lua cadavérica.

Jodie perguntou:

— Como é que você não

entrou para os fuzileiros?

— Por causa de uma

bobagem — disse Stephen, e fez uma pausa. — Me meti numa encrenca quando era garoto. Havia um cara em nossa cidade, sabe como é, desse tipo de palhaço metido a valentão. Eu o vi torcendo o braço de uma mulher. Ela estava doente, e por que o cara a machucava daquele jeito? Então falei para ele que se não parasse com aquilo eu o mataria. A coisa ficou fora de controle. Peguei uma pedra e bati nele, sem pensar direito no que fazia. Cumpri dois anos por homicídio. Minha ficha criminal não deixou que eu entrasse para os fuzileiros.

A mão de Jodie apertou o

ombro de Stephen.

— Isso não é justo. Sinto

muito. — Os olhos verdes de Jodie brilhavam. Stephen, que nunca tivera problema em encarar homem algum, olhou para ele e baixou os olhos. E de algum lugar completamente estranho uma imagem brotou em sua mente — Jodie e Stephen juntos numa cabana, caçando e pescando. Cozinhando numa fogueira ao ar livre.

Ele ficou de pé rapidamente

e olhou pela janela. A rua estava deserta, exceto por um pequeno grupo de vagabundos — quatro brancos e um negro.

Stephen apertou os olhos

para ver melhor. O negro, arrastando um enorme saco de lixo cheio de latas vazias, estava discutindo com os outros, gesticulando, oferecendo o saco a um dos brancos, que o recusava. Stephen observou-os discutindo por alguns minutos, depois voltou até onde estava Jodie e sentou-se no colchonete.

— Vamos combinar o que

faremos — disse. — Tem alguém à minha procura.

Jodie deu uma risada.

— Parece que depois do

que aconteceu naquele prédio, deve ter uma porção de gente à sua procura.

— Mas há alguém em

especial. O nome dele é Lincoln.

Jodie assentiu.

— É o primeiro nome dele?

— Não sei. Nunca

encontrei ninguém parecido com ele.

— Quem é ele?

Um verme.

— Talvez um policial. FBI.

Um consultor. Não sei ao certo. — Stephen lembrou o modo como a Esposa o descrevera para Ron, usando o tom de alguém que descreve um guru. Sentiu novamente aquela angústia. Pôs a mão sobre o ombro de Jodie e a sensação desapareceu. — Esta é a segunda vez que ele estraga meus planos. Tento prever os movimentos dele, mas não consigo.

— O que quer saber?

— Quero saber se ele vai retirar as pessoas daquela casa.

— Quem? As pessoas que

você precisa matar?

— Sim. Ele está tentando se

antecipar a mim. Está pensando.

Jodie sussurrou:

— Você parece meio

abalado.

— Não consigo vê-lo. Não

consigo saber o que ele vai fazer. Sempre que alguém me perseguiu, eu consegui saber.

— E o que quer que eu

faça? — perguntou Jodie.

Stephen encontrou um

telefone celular no fundo de sua mochila e o entregou a Jodie.

— O que é isto? —

perguntou o outro.

— Um telefone. Para você

usar.

— Ah, um celular. Legal.

— Jodie examinou o aparelho como se nunca tivesse visto um.

Stephen disse:

— Um atirador de tocaia

sempre tem um rastreador. Alguém para localizar o alvo, informar a distância, coisas desse tipo.

— Quer que eu faça isso

para você?

— Sim. Veja bem: acho que

Lincoln vai tirá-los daquela casa. Tenho essa impressão. — Olhou o relógio. — Vamos ver, então. As 12:30h, quero que você ande por aquela rua como um cara qualquer e observe a tal casa. Talvez você possa ficar remexendo em latas de lixo, algo assim.

— Procurando garrafas.

Faço isso o tempo todo.

— Descubra em que tipo de

carro eles estão entrando, ligue para mim e me informe. Vou estar no outro quarteirão, num carro, esperando. Mas você vai ter de ficar de olho aberto, porque eles vão tentar despistar.

— Tudo bem. Eu posso

fazer isso. Você vai atirar neles na rua mesmo?

— Isso depende. Tenho de

estar pronto para improvisar.

Jodie examinou o celular.

— Não sei como isso

funciona.

Stephen mostrou-lhe.

— Me chame quando

estiver em posição.

Jodie ergueu os olhos para

ele.

— Sabe... quando isso tudo

acabar e eu tiver passado pela clínica e tudo mais... que tal a gente se ver qualquer dia? Podíamos tomar um suco juntos, um café ou coisa assim. Hein? Que tal?

— Claro — disse Stephen.

— Podemos...

De repente, batidas

ensurdecedoras começaram a abalar a porta fechada com tábuas. Girando sobre si mesmo como um dervixe, Stephen puxou a pistola e caiu de joelhos, apontando a arma com as duas mãos.

— Abra a porta! — gritou

alguém lá fora. — Agora! Jo-die! Cadê você? Stephen foi até a janela e olhou através das tábuas que a vedavam. Era o negro que ele vira na rua; vestia um casaco sujo com os dizeres Cats — o Musical.

— Cadê o cara? —

perguntava ele. — Jodie Joe!

— Sabe quem é ele? —

perguntou Stephen.

Jodie olhou para fora,

encolheu os ombros e cochichou:

— Não sei.

O vagabundo insistiu:

— Vamos, cara, sei que

você está aí. Jo-die! Jo-die!

— Daqui a pouco ele vai

embora — disse Jodie.

— Espere — disse

Stephen. — Talvez a gente possa usá-lo. Lembra do que eu falei antes? Designar. E uma boa idéia. Ele parece assustado. Se você o levar junto, vão prestar atenção nele, não em você.

— Preciso de uma

"parada", cara! — vociferou o negro. — Vamos, vamos, por favor! Estou na pior! — Ele começou a chutar a porta.

— Vá lá fora — disse

Stephen. — Diga que vai lhe dar alguma coisa se ele o acompanhar. Faça com que ele remexa no lixo enquanto você vigia a rua. Vai ser perfeito.

— Muito bem. — Jodie

respirou fundo e por fim abriu a porta. — Ei, pare com esse barulho! — gritou ao vagabundo. — O que você quer?

Stephen ficou observando o

negro, que fitava Jodie com olhos alucinados.

— Falaram aí que você

vende pílulas, cara. Eu tenho grana. Ih, cadê minha grana?

— Ele remexeu em vários

bolsos até perceber que estava segurando as notas de vinte dólares na mão esquerda.

— Tudo bem — disse

Jodie. — Mas primeiro você vai fazer uma coisa paia mim. Vai me ajudar a pegar umas latas no lixo.

— Latas? — vociferou o

outro. — Pra quê? Você precisa de um níquel?

— Eu lhe dou as pílulas de

graça, mas você vai ter de me ajudar.

— De graça? — O negro olhou em volta, como se procurasse alguém para lhe explicar o que acontecia. — Onde estão as garrafas?

— Espere aí.

Jodie esgueirou-se para

dentro, procurando Stephen:

— Ele topa.

— Bom trabalho.

O outro fez uma pausa. A

sorrir, Stephen falou, num impulso:

— Foi bom ter conhecido

você.

— Também achei... —

Jodie hesitou por um instante antes de completar: — parceiro.

Stephen estendeu a mão e

repetiu:

— Parceiro.

Teve uma enorme vontade

de tirar a luva para poder sentir a pele de Jodie de encontro à sua, mas não o fez.

Profissionalismo acima de

tudo.