Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 6 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Quatro

CAPÍTULO

QUATRO

Hora 5, de 45

 

A SIRENE soava. Lincoln Rhyme ficou esperando o efeito Doppler transformar o gemido agudo num som cada vez mais grave, à medida que o veículo fosse se afastando. Mas, ao chegar diante de sua porta, o som extinguiu-se bruscamente. Um instante depois, Thom fez entrar no laboratório do primeiro andar um jovem policial com o uniforme azul da polícia do estado de Illinois. O uniforme estava amarfanhado, com manchas de suor, e o policial carregava dois malotes pesados de lona e uma pasta marrom.

— A bomba! — exclamou

Rhyme, satisfeito. — Chegou a bomba!

Surpreso diante daquele

grupo heterogêneo de agentes da lei, o policial mal se deu conta de que Mel Cooper arrebatava os malotes de sua mão, enquanto Sellitto assinava rapidamente o recibo e o livro de protocolo e os devolvia.

— Obrigado, até logo, boa

sorte — disse o rapaz, enquanto Thom, com um sorriso polido, escoltava-o para fora do aposento.

Rhyme chamou:

— Vamos trabalhar, Sachs,

você está muito parada.

Ela lhe deu um sorriso

gélido e caminhou para a mesa de Cooper.

"Qual é o problema

agora?", perguntou-se Rhyme. Uma hora era mais do que o suficiente para examinar a cena de um crime, se era esse o motivo da irritação dela. Bem, ele a preferia assim, geniosa.

— Muito bem, Thom, vá ao

quadro-negro. Precisamos fazer uma lista dos indícios. Desenhe umas tabelas. Coloque: CC-1, Chicago. O primeiro cabeçalho.

— CC?...

— Cena do Crime. O que

mais podia ser?

O assistente apanhou o giz,

espanou um pouco da poeira branca que tinha aderido à sua gravata e às suas calças de vinco impecável, e começou a escrever.

— O que temos aqui,

Mel?... Sachs, ajude-o.

Os dois começaram a

esvaziar os sacos e as pequenas caixas plásticas contendo cinza, pedaços de plástico e fragmentos de metal e fibra. Os objetos eram colocados em bandejas de porcelana. Os agentes que unham recolhido os destroços utilizaram magnetos montados sobre rolos, possantes aspiradores de pó e peneiras de malha fina, a fim de preservar cada fragmento.

Rhyme era uma autoridade

em bombas. Depois que o Dançarino da Morte deixara seu pequeno embrulho letal naquela cesta de lixo em Wall Street, Rhyme tinha se dedicado a aprender tudo que pudesse a respeito de explosivos, e durante algum tempo os estudara numa unidade de elite do FBI.

Sachs remexeu nos sacos.

— Uma bomba não destrói

a si própria?

— Nada se destrói

completamente, Sachs. Tenha isto sempre em mente.

Ele moveu a cadeira para

perto da mesa e, ao examinar os sacos, teve de concordar:

— É, esta aqui está

complicada. Está vendo aqueles fragmentos de alumínio? O metal está despedaçado, em vez de torcido. Isso quer dizer que a taxa de detonação da bomba era muito alta. Mas, mesmo assim, restam de 60 a 90% de uma bomba, depois da explosão. Material é o que não nos falta.

— Não falta? — Dellray

deu um riso sarcástico. — E mais difícil do que juntar os pedaços de um lustre depois da queda.

— Mas não estamos aqui

para isso, Fred — disse Rhyme, sem perda de tempo. — Estamos aqui para prender o sujeito que o empurrou de cima do muro. — Começou a mover-se devagar ao longo da mesa. — O que acha disto, Mel? Estou vendo baterias... Isto aqui são fios...

Aqui está o cronômetro. O

que mais? Algum pedaço da caixa, ou do invólucro?

— Perto do lugar da

explosão não vejo nada — disse Cooper.

— Interessante —

comentou Rhyme, pensativo. — Como ele a terá colocado a bordo? Lon, leia o relatório de Chicago.

Sellitto leu alto:

— Difícil determinar o

local exato da explosão... fogo e destruição muito intensos... o artefato parece ter sido colocado por trás e abaixo da cabine...

— Será que havia um depósito de cargas ali?... Talvez. Rhyme calou-se, mas sua cabeça ainda se movia de um lado para o outro, examinando os indícios.

— Espere! — gritou de

repente. — Mel, o alumínio. Ponha no microscópio.

Cooper conectara a saída

de vídeo de seu microscópio ao computador de Rhyme. O que Cooper via, Rhyme podia ver também. O técnico começou a preparar amostras de minúsculos fragmentos dentro de placas e a passar cada uma delas no microscópio.

Momentos depois, Rhyme

comandou:

— Descer cursor. Duplo

clique. — A imagem no monitor foi ampliada. — Veja, ali. A superfície externa do avião está amassada para dentro.

— Para dentro? —

perguntou Sachs. — A bomba estava do lado de fora?

— Estou achando que sim.

O que pensa disto, Mel?

— As cabeças daqueles

rebites estão curvadas para dentro. Explosão de fora para dentro, sem dúvida. E isso explica isto aqui. — Usando óculos de aumento, Cooper estava esquadrinhando os fragmentos de metal como um caubói que contasse as cabeças de uma boiada. — Fragmentos de metal ferroso. Magnético. Por baixo da camada de alumínio havia aço.

— Alguma chance de achar

algo impresso, Mel? Fale a verdade.

A resposta de Cooper foi

uma risada curta, cética. Mas ele voltou a examinar o material com seu potente PoliLight. Não encontrou nada além dos resíduos da explosão.

— Nada — disse ele por fim.

— Quero cheirar isso —

anunciou Rhyme. — Sabemos que é um explosivo potente. Quero saber de que tipo.

Sachs trouxe um saco até

junto de sua cadeira e o abriu. Rhyme inalou e o reconhecimento foi instantâneo.

— RDX — disse ele.

— Acha que é C-Três ou C-

Quatro? — perguntou Cooper.

— Não é C-Três — disse

ele, voltando a aspirar o odor do explosivo como se fosse um vinho Bordeaux de boa safra. — O cheiro não é doce. Estranho... Estou sentindo algo diferente. Mel... passe isto no EG.

O técnico passou a amostra

no espectrômetro de gases, que isolava os compostos e os identificava. A resposta era comparada a uma base de dados, o que em muitos casos era capaz de identificar até a marca do produto.

Cooper examinou os

resultados.

— Tem razão, Lincoln. É

RDX. E há óleo também. E... que coisa mais esquisita... amido.

— Amido! — exclamou

Rhyme. — Foi isso que cheirei... farinha de grãos de guar!

As palavras de Rhyme

apareceram transcritas na tela do monitor e Cooper riu.

— Como sabe? —

perguntou ele.

-— Porque é dinamite

militar. A gente não a vê com frequência.

— Militar, hem? — disse

Sellitto. — Ponto para Hansen.

O técnico começou a

montar amostras para passar no espectrômetro. As imagens apareciam ao mesmo tempo no monitor de Rhyme. Pedaços minúsculos de fibra de vidro ou de fios. Farrapos, estilhaços, pó.

Rhyme lembrou-se de uma

imagem semelhante, anos atrás, em circunstâncias totalmente diferentes. Estava olhando através do tubo de latão de um calidoscópio que ele dera de presente de aniversário a uma amiga. Claire Trilling, bela, elegante. Os dois tinham passado a noite tomando uma garrafa de merlot e tentando adivinhar que tipo de cristais exóticos estavam produzindo aquelas imagens espantosas que viam através da lente. Por fim, Claire desatarraxou o fundo do tubo e os dois caíram na gargalhada. Pedaços de metal, lascas de madeira, um clipe de metal partido, percevejos de latão.

Rhyme afastou as

recordações e concentrou-se na tela: um fragmento de papel pardo encerado... certamente do papel que embrulhara a dinamite. Fibras: do cabo do detonador. Um pedaço de carvão da bateria, do tamanho de uma borracha escolar.

— O contador de tempo —

disse Rhyme. — Quero vê-lo.

Cooper ergueu um pequeno

saco plástico. Dentro dele estava o coração da bomba, silencioso, frio, em estado quase perfeito. "Ah, temos aqui o seu primeiro deslize", concluiu Rhyme, dirigindo-se silenciosamente ao Dançarino. Por descuido, ele posicionara o contador por trás de uma lingueta de aço na embalagem que protegia a bomba, e no instante da explosão isso o poupara.

Rhyme inclinou-se para a

frente, olhando para o pequeno mostrador retorcido.

— Passe tudo na ERC —

pediu.

A ERC era a Coleção de

Referências sobre Explosivos mantida pelo FBI, o maior banco de dados sobre explosivos em todo o mundo. Cooper digitou o número do modelo e o do fabricante do contador. Seu modem emitiu sinais e, instantes depois, o resultado surgiu.

— Nada bom — disse

Cooper, fazendo uma careta. — Nenhum perfil específico corresponde ao desta bomba.

A maioria dos fabricantes

de bombas caseiras obedece a um padrão: eles aprendem uma técnica e mantêm-se fiéis a ela. E, dada a natureza do produto com que estão lidando, talvez seja uma boa idéia não querer ser experimental demais. Se os estilhaços da bomba do Dançarino correspondessem aos de outro atentado na Flórida, ou na Califórnia, a equipe poderia colher pistas adicionais nesses outros casos. A bomba do Dançarino em Wall Street fora diferente, mas servira a um propósito igualmente distinto. Uma coisa Rhyme sabia ao certo sobre o Dançarino da Morte: ele adaptava seus instrumentos às necessidades específicas de cada trabalho.

— E aí? Está piorando? —

perguntou Rhyme, vendo a expressão no rosto de Cooper.

— A Corporação Daiwana, em Seul, vendeu 142 mil iguais a este no ano passado. Não há nenhum código que nos permita identificar o comprador deste.

— Mas que ótimo. Que

maravilha.

— Esta bomba... —

interrompeu Dellray, mal-humorado. — Com que tipo de pessoa o nosso amigo teve que entrar em contato para preparar um artefato desse tipo?

Rhyme abanou a cabeça,

desalentado.

— É um trabalho caseiro,

Fred. Com exceção dos explosivos e do cabo do detonador, o Dançarino poderia ter comprado na loja da esquina tudo de que precisou. Mas, por que a instalou do lado de fora? — prosseguiu ele. — Percey disse que havia sempre gente em torno do avião. E como se explica que Ed Carney e o co-piloto não a tenham avistado quando fizeram a última inspeção externa?

— Porque — disse Sachs

de repente — o Dançarino não poderia ter posto a bomba no avião antes de saber quem voaria nele.

Rhyme girou a cadeira de

rodas na direção dela.

— Isso mesmo, Sachs! Ele

está à espreita. Depois que Carney entrou no avião, ele deu um jeito de colocá-la. É melhor descobrir logo onde foi, Sachs. Mãos à obra.

— Vou ter apenas uma

hora... ou menos, a esta altura — disse Amelia Sachs com um olhar frio na direção dele, ao se encaminhar para a porta.

— Mais uma coisa —

comentou Rhyme. — O Dançarino é um sujeito diferente de quem quer que você já tenha investigado. — Ele se deteve, sem saber como explicar o que sentia. — Com ele, o que você vê não corresponde necessariamente ao que é de fato.

Ela ergueu uma

sobrancelha, como quem indagasse: Aonde você quer chegar?

— Se você vir alguém

fazendo um movimento estranho... atire primeiro.

— O quê? — ela riu.

— Pense primeiro em você,

Amelia, e depois na cena do crime.

— Eu faço parte da cena do

crime. Ele não vai me dar atenção.

 

ESTRADA afora.

Amelia Sachs guiava

através de um túnel de árvores floridas, com unhas de um lado e um pequeno despenhadeiro do outro. Folhas verdes espalhavam-se pela paisagem e as forsítias amarelas brotavam por toda parte.

Sachs era uma mulher

urbana, nascida no Hospital-Geral do Biooklyn, e tinha morado naquele mesmo bairro a vida inteira. Para ela, a natureza consistia no Prospect Park, que ela visitava aos domingos ou, nas noites ao longo da semana, nas áreas de preservação ambiental de Long Island, onde participava de "pegas" com outros parceiros, ao volante de um Dodge Charger com silhueta de tubarão, fugindo às patrulhas noturnas. Agora, ao volante de um veículo de resposta rápida da IRD, ela pisou no acelerador, ultrapassou uma van e fez a curva na direção de Westchester.

Estava pensando nas

bombas, e em Percey Clay.

E pensava também em Lincoln Rhyme.

Alguma coisa nele estava

diferente naquele dia. Algo significativo. Sachs trabalhava com ele há um ano, e a verdade é que considerava a inteligência de Rhyme estimulante, intimidativa e — algo que ela jamais confessara — extremamente sexy.

Isso não significava que

fosse capaz de entendê-lo por completo. Por que ele considerava este caso do Dançarino da Morte algo tão especial? E por que lhe dera apenas uma hora para examinar o hangar? Pelo que ela podia avaliar, ele determinara isto apenas para fazer um favor a Percey. O que era surpreendente, partindo dele. Rhyme era capaz de interditar a cena de um crime por dias inteiros, se achasse necessário.

As questões agitavam-se

em sua mente, e Amelia Sachs não gostava de perguntas sem respostas.

Mas não tinha mais tempo

para especulações. Girou o volante do carro e pegou a larga transversal que conduzia ao Aeroporto Regional de Mamaronek. Um policial uniformizado fez sinal para que entrasse.

 

SACHS COLOCOU as luvas de látex e passou tiras de borracha em volta de seus sapatos, para certificar-se de que suas pegadas não seriam confundidas com as dos suspeitos. Em seguida, ligou o walkie-talkie Motorola do cinto ao conjunto de fones e microfone que trazia preso à cabeça.

— Estou aqui, Rhyme —

anunciou.

— E onde é aqui, Sachs?

— resmungou ele do outro lado.

— Na interseção das pistas

do aeroporto. Entre uma fila de hangares. Na Hudson Air me informaram que o avião de Carney estava estacionado aqui.

Sachs olhou em redor,

sentindo a incômoda sensação de estar super-exposta. O Dançarino bem poderia estar ali naquele mesmo instante — talvez para eliminar vestígios que tivesse deixado para trás, talvez para matar um policial e perturbar as investigações. Atire primeiro, dissera Rhyme.

Ela apanhou a caixa do

microscópio e a mala que trouxera no carro. Lá dentro estavam os instrumentos de que iria necessitar: equipamento para colher impressões, pinças, pincéis, tesouras, um kit para coletar resíduos de disparos de arma de fogo.

Primeira tarefa: estabelecer

o perímetro.

Ela usou a fita amarela de

isolamento da polícia para cercar toda área.

Segunda tarefa: levar em

conta a presença de câmeras ou microfones da imprensa.

— Nada de imprensa,

graças a Deus. Pelo menos por enquanto.

— O que foi, Sachs? —

perguntou Rhyme.

— Estou agradecendo a Deus por não haver repórteres aqui.

— Muito bonito, mas diga o

que está fazendo agora.

— Ainda isolando a área.

Terceira tarefa: estabelecer

a rota de entrada e de saída do criminoso.

Mas ela não tinha nenhum

indício. O Dançarino poderia ter vindo de qualquer direção, talvez até guiando um carrinho de bagagens, ou um veículo de abastecimento.

Sachs colocou o par de

óculos especiais e começou a examinar a pista com a haste metálica em cuja ponta estava a câmara do microscópio. Podia enxergar manchas e riscos brilhando na luminosidade verde-amarelada. Mas nada de pegadas.

Isto aqui foi lavado ontem à

noite — disse uma voz por trás dela.

Ela girou nos calcanhares:

havia um grupo de homens parados atrás da fita amarela. Aproximou-se com cautela, conferiu os documentos de nulos e pediu que se afastassem.

Que boa notícia. Cada

vestígio, cada pegada do Dançarino tinha sido apagada. Ela falou ao microfone:

— Eles lavaram a pista

ontem à noite, Rhyme. Mangueiras de alta pressão, ao que tudo indica.

— Essa não. Tudo bem,

Sachs, vá em frente.

Amelia Sachs passou a hora

seguinte caminhando pela área, primeiro indo para a frente e para trás numa mesma direção, depois fazendo movimento idêntico em sentido perpendicular. Comunicou a Rhyme que nada encontrou.

— Que é isso, Sachs? —

disse ele. — Tenho certeza de que existe muita coisa. Tem que se esforçar mais um pouco. O Dançarino não é um criminoso qualquer.

"Ah, lá vem ele de novo."

— Sachs — sussurrou

Rhyme —, tente entrar na mente dele. Sabe o que eu quero dizer.

Ela sabia exatamente. E

odiava a idéia. Mas sabia, sim, e como. Os melhores criminalistas caminhavam pela cena de um crime não como policiais em busca de pistas, mas colocando-se no lugar do próprio assassino — sentindo os seus desejos, os seus impulsos, os seus medos. Rhyme tinha esse talento. E Sachs, embora tentasse negá-lo, também o possuía.

— Fale comigo — Rhyme

falava num tom quase sedutor. — Você está andando por onde ele andou. Está pensando o que ele pensou.

Uma imagem brotou na

mente dela: o céu noturno, as luzes do campo de pouso, o som dos motores, o cheiro deixado no ar pelos jatos.

— Vamos, Amelia. Você

sabe que Ed Carney está nesse avião. Você precisa colocar a bomba nele. Você é capaz de matar qualquer pessoa, fazer qualquer coisa para conseguir isso. Você acha um jeito de desviar as atenções, você sabe usar as pessoas. Sua arma mais poderosa é a dissimulação.

Ela fechou os olhos e sentiu

uma esperança sombria, uma sensação de alerta, um impulso de predador.

Ele prosseguiu, com voz

suave:

— Onde você se escondeu?

Olhos abertos, agora.

— Toda a área está vazia — respondeu. — Os hangares estão trancados. Não há caminhões, nem becos, nem recantos.

— Está pensando em quê?

Luzes por toda parte. Fique

escondida. Abaixe-se. Não há onde se ocultar.

Ela virou-se para o único

lugar possível, o hangar no final da pista. Uma de suas janelas estava quebrada, fechada com tábuas pelo lado de dentro. Aproximou-se devagar. O chão era de cascalho; impossível procurar pegadas.

— Há uma janela. Tábuas

por dentro. O vidro está partido.

— Está sujo? Ainda há

pedaços de vidro na janela?

— Sim, e as bordas estão

limpas. O vidro foi quebrado há pouco tempo.

— Tudo bem. Empurre as tábuas. Com força.

As tábuas se desprenderam

e caíram dentro do hangar com ruído.

— O que foi isso? — gritou

Rhyme. — Sachs, você está bem?

— Foi a tábua caindo —

respondeu ela, assustada com a inquietação na voz dele.

Enfiou sua lanterna de

halogênio pela janela e olhou.

— Está vazio. Alguns

caixotes empoeirados. Há cascalho no chão.

— Foi ele! — gritou

Rhyme. — Jogou cascalho no chão para pisar nele e não deixar pegadas. Muito bem, agora examine a janela e depois pule para dentro. Mas primeiro veja se não há armadilhas. Lembre-se daquela lata de lixo.

"Pare com isso, Rhyme.

Pare."

— Está tudo OK, Rhyme.

Nenhuma armadilha. Estou examinando o caixilho da janela. — O visor do microscópio mostrava apenas a leve marca deixada por um dedo envolto numa luva de algodão. — Não estou vendo fibras, apenas uma impressão deixada pelo tecido.

— Muito bem. É ele, Sachs.

Não haveria nenhuma lógica em alguém arrombar a janela com luvas de algodão, quando não há nada aí dentro para ser roubado.

Ela usou o Dustbuster para

recolher o indício e guardou-o na bolsa.

— Tudo bem, Rhyme. Vou

levar isto para você, mais o vidro e o cascalho. Em quarenta minutos estarei aí.

Sachs guardou o

equipamento no carro e rumou na direção da Hudson Air. Quando entrou no escritório de Ron Talbot, ele estava falando com um homem alto que tinha as costas voltadas para a porta.

— Achei o lugar onde ele

se escondeu, Sr. Talbot — disse ela. — Podemos liberar a área, está à sua disposição.

Brit Hale voltou-se.

— Olá, detetive. Como

está?

Ela começou a responder,

mas logo se deteve. O que ele estava fazendo ali?

No mesmo instante, escutou

um choro abafado e olhou na direção da sala de reuniões. Lá estava Percey Clay, sentada ao lado de uma bela morena. A mulher chorava; firme, apesar de abalada, Percey tentava confortá-la. Jerry Banks bebericava um café, parado junto à janela, observando um Learjet estacionado junto do hangar.

"Não, não, não..."

— Rhyme! — gritou Sachs

ao microfone. — Ela está aqui!

— Quem? — perguntou

Rhyme, em tom azedo. — E onde é aqui?

— Percey. E Hale também.

Estão na Hudson Air.

— Não. Eles devem estar

no esconderijo.

— Pois bem, não estão.

Estão exatamente aqui na minha frente.

— Não! Não! Não! —

gritou Rhyme, enfurecido. Houve um curto silêncio e ele voltou a falar. — Pergunte ao Banks se ele pelo menos fez manobras de despistamento antes de chegar aí.

Jerry Banks, pouco à

vontade, confessou que não.

— Ela insistiu muito para

passar por aqui; precisava entrar em contato com um mecânico.

— Sachs, o Dançarino está aí, em alguma parte. Eu sei que ele está.

— Mas como ele poderia?

— perguntou Sachs, olhando pela janela.

— Diga a eles para se

abaixarem — insistiu Rhyme. — Vou pedir ao Dellray que mande um veículo blindado do escritório do FBI em White Plains.

Sachs ergueu a voz:

— Jerry, não deixe ninguém sair. — Ela correu até a porta e varreu o campo de pouso com o olhar. — Mas como, Rhyme? Como ele poderia chegar aqui?

— Não faço idéia. Como é

o lugar em termos de segurança?

— Uma cerca de arame.

Policiais na entrada, checando documentos.

— Mas não checam os

documentos da polícia, certo?

Sachs olhou os guardas uniformizados à distância, lembrando o gesto casual com que tinham permitido sua entrada.

— Oh, Rhyme, há uma

dúzia de carros aqui. Ele pode estar em qualquer um.

Ela chamou um dos

policiais, observou com cuidado seu rosto e documentos e decidiu que ele merecia confiança. O guarda examinou rapidamente os uniformes e os rostos dos demais, e fez uma checagem com a Central. Não havia desconhecidos no grupo e nenhum dos guardas destacados para o local estava faltando.

— Mas a patrulha aérea de

White Plains encontrou um corpo num depósito de lixo — disse o policial. — Morto há cerca de uma hora.

Um trabalho nauseante.

— Pergunte a ele se o rosto

e as mãos estavam destruídos — disse Rhyme.

— O quê?

— Pergunte!

Ela fez a pergunta e o

policial piscou, tomado de surpresa.

— Sim, senhora. Bem... as

mãos pelo menos.

Rhyme exclamou:

— E onde ele está agora? O

corpo?

Ela transmitiu a pergunta.

— No rabecão. Está sendo

levado para o necrotério do condado.

— Não — disse Rhyme. —

Mande levá-lo para aí, agora mesmo. Ele tem a resposta de como o Dançarino vai tentar se aproximar daí.

 

As PESSOAS pensam que

o instrumento mais importante para um atirador de tocaia é o rifle, mas não é assim. É o telescópio.

"Como chama-se isto,

soldado? Um visor telescópico? Uma luneta?"

"Não, senhor. É um

telescópio. Este aqui é um Redfield variável, três por nove. Não existe nada melhor, senhor."

O telescópio montado no

Model 40 tinha pouco mais de trinta centímetros de comprimento e pesava apenas cerca de 300g. Um compensador de paralaxe tinha sido fixado pelo engenheiro óptico na fábrica, de tal maneira que, ao ser centralizada sobre o coração de um homem a quatrocentos metros, a alça de mira não se moveria quase nada se a cabeça do atirador se mexesse da esquerda para a direita.

Escondido numa touceira de mato a trezentos metros do hangar da Hudson Air, Stephen tinha a arma nos braços. O Model 40, um rifle de 7.62mm das forças da OTAN, tinha alcance efetivo de mil metros, embora Stephen já tivesse abatido alvos a 1.300m. Através do telescópio ele esquadrinhou as instalações da Hudson Air. Não conseguia localizar a Esposa, mas logo ela estaria ali. Captara a voz dela pelo grampo que instalara na linha telefônica do escritório; ela falava com alguém chamado Ron.

Stephen arrastou-se para a

frente até se achar sobre uma pequena elevação, ainda oculto pelos arbustos; tinha então uma vista muito melhor do hangar e do escritório, separados dele por um terreno plano coberto de mato rasteiro e por duas pistas asfaltadas. Um belo lugar para abater alguém. Amplo, quase sem esconderijos.

Duas pessoas estavam

paradas diante da porta da frente, um guarda fardado, da polícia local ou estadual, e uma mulher de cabelos ruivos, semi-ocultos sob um boné de beisebol. Muito bonita. Uma policial, mas em trajes civis. Ele podia ver o volume de uma pistola Glock ao seu cinto. Ele ergueu o medidor de distância e enquadrou a imagem da mulher no visor. Girou o aro do transferidor: 288m.

A grama ao seu redor se

agitou. Vermes, pensou ele.

Aquele rosto na janela. Ele

colocou a alça de mira no peito da policial.

"Soldado, qual é o lema do

atirador de tocaia?"

"Senhor, o lema é: 'Uma

chance, um tiro, uma morte'."

As condições eram

excelentes. O ar úmido impulsionaria o projétil. Ele arrastou-se, recuando, até ficar ao abrigo da pequena elevação, e inseriu cinco cartuchos na arma. Voltando à posição anterior, fincou o cotovelo esquerdo na terra e colou o rosto e o polegar direito à coronha.

Era difícil enxergar o

interior do escritório, mas Stephen julgou ter vislumbrado a Esposa. Sim, sim, lá estava ela. Parada junto a um homem corpulento que fumava um cigarro. Mas logo um homem louro e jovem, de terno, usando um distintivo, fez com que os dois se afastassem.

"Paciência. Ela vai

aparecer de novo. Não fazem idéia de que você está aqui. Você pode esperar o dia inteiro, Enquanto os vermes não..."

Luzes piscando outra vez.

Uma ambulância da polícia entrou na área de estacionamento. A policial ruiva correu na direção do veículo.

Stephen respirou fundo.

 

DEPOIS de conversar

rapidamente com o médico, Sachs entrou na parte traseira da ambulância e abriu o zíper do saco plástico onde estava guardado o cadáver. Enquanto calçava luvas de borracha, ela ia falando:

— Sem documentos, Rhyme. Ninguém tem idéia de quem é ele. As mãos foram amputadas por algo com uma lâmina muito afiada, como uma navalha.

— Percey está em

segurança? E Hale?

— Estão no escritório.

Longe das janelas.

— A van deve chegar aí em

dez minutos. E o corpo, está vestindo o quê?

— Só roupa de baixo —

disse Sachs, examinando o cadáver.

— Procure a causa da

morte.

Após um breve exame, ela

a encontrou.

— Apunhalado com uma

arma de lâmina estreita, na base do crânio. É um homem gordo, barrigudo. Braços bronzeados. Unhas dos pés grandes, um brinco barato na orelha. As cuecas são da Sears e estão puídas.

— Muito bem, parece ser

um operário. Trabalhador braçal ou entregador. Vamos pensar. Por que o Dançarino não quis deixar o corpo à prova de identificação? Se quisesse, poderia ter arrancado os dentes. Haverá mais alguma coisa que ele não quer que a gente descubra?

— Algo nas mãos da

vítima? — sugeriu Sachs.

— Talvez. Algo que ele não

poderia limpar do corpo facilmente.

— Óleo? Graxa?

— Talvez ele estivesse

entregando combustível — disse Rhyme.

Sachs relanceou um olhar

pelo aeroporto. Havia dúzias de entregadores de combustível, membros das equipes de apoio, mecânicos, operários de construção envolvidos com a ampliação de um dos terminais.

— O sujeito é grande? —

prosseguiu Rhyme. — Provavelmente ele suou durante o dia. Talvez tenha enxugado a testa ou cocado a cabeça. Examine o couro cabeludo, Sachs.

Ela obedeceu e encontrou o

que procurava.

— Estou vendo manchas.

Manchas azuis. Uns respingos brancos também. É tinta, Rhyme. Ele trabalha na pintura.

O documento de identidade

provavelmente estava manchado de tinta, ou então o Dançarino o falsificou de algum modo. Ele está em algum lugar do aeroporto, Sachs. Mantenha Percey e Hale deitados no chão. Ponha guardas em volta deles e mande todo mundo disponível a procura do Dançarino. A SWAT está a caminho.

PROBLEMAS.

Ele observava a policial de

cabelos ruivos, agachada na parte traseira da ambulância. Através do telescópio Redfield, ele não podia ver claramente o que ela fazia, mas começou a sentir-se pouco à vontade.

Ela saltou da ambulância e

olhou ao redor, esquadrinhando o espaço aberto em volta do campo de pouso.

"Algo está acontecendo,

soldado."

"Estou percebendo,

senhor."

A ruiva começou a gritar

ordens para outros policiais. Um deles correu de volta para o carro. Depois, o outro. Ele viu os olhos penetrantes da ruiva observando tudo ao redor. Alinhou a alça de mira com seu queixo bem delineado.

Ela se deteve e pareceu

estar falando sozinha.

Não, não estava falando

sozinha. Tinha um suporte de plástico na cabeça e estava falando a um microfone. Pelo modo como inclinava a cabeça e fazia pequenos sinais de aquiescência, parecia estar recebendo ordens de alguém. "Quem?" Imaginou ele. "Alguém que sabe que estou aqui. Alguém que está à minha procura. Alguém que pode me observar através de uma vidraça e desaparecer um segundo depois."

Um calafrio percorreu-lhe a

espinha, fazendo-o estremecer. A alça de mira do telescópio oscilou, descontrolada. Quando voltou a enquadrar a ruiva, ela estava apontando para a van que ele roubara do pintor. Estava a duzentos metros do ponto onde ele se escondia, num estacionamento reservado para os que trabalhavam na construção. A pessoa com quem ela se comunicava tinha descoberto como ele se infiltrara no aeroporto.

Aquela sensação de medo.

Vermes pegajosos subindo pelas pernas.

"O que devo fazer?",

indagou-se. Uma chance, um tiro...

"Estão aqui, muito perto: a

Esposa e o Amigo." Poderia liquidar tudo em pouco tempo. Cinco segundos; não precisaria de mais do que isso.

"Preciso fazer com que

saiam, venham para a linha de tiro. Não tenho muito tempo. Pense."

Se quer pegar uma corça,

ameace o filhote.

Stephen respirou devagar.

Para dentro... para fora. Para dentro... para fora. Enquadrou o alvo. Começou a aplicar pressão sobre o gatilho.

O estrondo ecoou por todo

o campo de pouso. Os policiais jogaram-se ao chão, puxando as armas. Um segundo tiro, e outro jato de fumaça brotou do motor do avião estacionado dentro do hangar.

A policial ruiva estava

agachada, tentando descobrir de que direção vinham os tiros, apontando a pistola Glock para todos os lados. Eliminá-la?

"Negativo, soldado.

Concentre-se no seu alvo."

Atirou outra vez. Outro

pedaço do avião voou pelos ares.

De repente lá estava ela —

a Esposa — abrindo caminho pela porta da frente do escritório, lutando contra o policial louro que tentava detê-la. Alvo incerto, ainda. "Deixe que ela venha."

Apertou o gatilho. Outro

disparo. Um vidro da cabine se estilhaçou.

A Esposa, com o horror

estampado no rosto, conseguiu abrir caminho e correr até o hangar para fechar as portas e proteger seu filhote.

Recarregar. Ele enquadrou

a retícula da mira no peito da Esposa. A arma disparou no instante em que o policial louro jogou-se sobre ela, e os dois rolaram para trás de um desnível do terreno. Um tiro perdido. "Tenha calma", ele disse a si mesmo.

Ao longe, ouviram-se

vários tiros de pistola. Voltou a olhar para a ruiva. Ela olhava em sua direção, esperando ver o clarão do próximo disparo, os olhos apertados de concentração.

Stephen engatilhou o Model 40.

 

AMELIA Sachs avistou um

breve clarão e percebeu onde o Dançarino da Morte estava escondido. O visor telescópico do rifle tinha refletido a claridade das nuvens.

— Ali — gritou ela,

apontando para os dois policiais que se ocultavam atrás do carro. Um pequeno grupo de árvores, a trezentos metros de distância. Os policiais começaram a correr, dando a volta por trás de um hangar próximo, para atacá-lo pelo flanco.

— Sachs! — chamou

Rhyme. — O que está...

— Percey — disse ela. —

Ele está atirando para atraí-la.

— Deite-se no chão, Sachs.

No chão!

Sachs sentiu um espasmo de pânico percorrer-lhe as costas.

— Percey! — gritou ela. A

mulher tinha mais uma vez se desvencilhado de Jerry Banks e ficado de pé. Estava correndo para a porta do hangar. — Não!

Os olhos de Sachs estavam

fitos no local onde tinha avistado o brilho no telescópio do Dançarino da Morte. "Muito longe", pensou ela. Não posso atingir nada a esta distância."

"Se tiver calma vou

conseguir. Ainda tenho 11 balas."

O assassino voltou a atirar.

Um instante depois uma bala passou zunindo, a alguns centímetros do rosto dela. Sachs sentiu o deslocamento do ar e ouviu o silvo do projétil.

Soltou um gemido e deixou-

se cair no chão.

"Não. Tive uma chance de

atirar antes que ele recarregasse a arma. Mas agora é tarde."

Ela ergueu o rosto e a

pistola, mas perdeu a coragem. Abaixou a cabeça novamente e, sem olhar, disparou cinco vezes. Mas sabia que estava atirando às cegas.

"Vamos, garota. Fique de

pé. Mire e dispare. Você ainda tem seis balas e mais dois pentes no cinto. Vamos!"

A lembrança do zunido da bala, todavia, a manteve pregada ao chão. O máximo que conseguiu foi erguer a cabeça o bastante para ver Jerry Banks alcançar Percey e empurrá-la para trás da carreta de um gerador. Quase ao mesmo tempo ouviu-se o tiro. Banks girou sobre si próprio, como um bêbado. Em seu rosto uma expressão de surpresa seguida de assombro e, depois, mais nada.