Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 11 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Nove

CAPÍTULO

NOVE

Hora 28, de 45

 

N ÃO É UMA CENA agradável — avisou Thom.

Através da porta do quarto,

Amelia Sachs escutou Rhyme gritar: — Quero essa garrafa, e quero agora!

As palavras foram

acompanhadas por uma espécie de rugido de fúria. Sachs sabia que ele só não estava arremessando os móveis contra as paredes porque não podia.

— Talvez prefira esperar

um pouco — sugeriu Thom.

Ela abriu a porta.

— Não temos tempo.

Rhyme grunhiu novamente:

— Quero essa garrafa.

Sua aparência era terrível.

O cabelo desalinhado, os olhos vermelhos. A garrafa de Macallan estava caída no chão. Aparentemente, ele tentara agarrá-la com os dentes e ela acabara escapulindo.

Ele notou a entrada de

Sachs, mas tudo que falou foi:

— Apanhe isso aí.

— Rhyme, temos um

trabalho para fazer.

— Apanhe essa garrafa.

Ela apanhou a garrafa e

colocou-a de volta na prateleira.

— Já bebeu o bastante.

— Ponha uísque no meu

copo. Thom, venha cá.

— Rhyme — cortou Amelia

—, temos uns indícios para examinar.

— Indícios! O Dançarino

entrou na casa, não foi? A raposa no galinheiro. A raposa no galinheiro.

— Estou com um saco de

poeira cheio de vestígios, estou com uma bala. Você devia estar feliz como um garoto na festa de aniversário, com todos os presentes que eu tenho aqui. Pare de ficar se lamentando e vamos trabalhar!

Ele não respondeu. Amelia percebeu que seus olhos injetados estavam olhando para um ponto atrás dela, na soleira da porta. Ela virou-se. Percey Clay estava parada ali.

Imediatamente Rhyme

baixou os olhos para o chão e ficou em silêncio.

"Claro", concluiu Sachs.

"Ele não vai fazer esse papel ridículo na frente de sua nova paixão."

Percey entrou no quarto e

contemplou a aparência desalinhada de Rhyme.

— Lincoln, o que está

havendo? — disse Sellitto, que a acompanhava.

— Três mortos, Lon. Ele

matou mais três. A raposa no galinheiro.

— Lincoln — disse Sachs

em voz baixa —, você está fazendo um papel ridículo.

Logo percebeu que tinha

dito a coisa errada. Rhyme voltou para ela um par de olhos alucinados.

— Eu não sou ridículo.

Tenho cara de ridículo? Vamos, vocês aí. Eu sou ridículo?! — Finalmente ele conseguiu olhar para Percey. — O que está fazendo aqui? Você devia estar em Long Island.

— Preciso falar com você.

Ele ficou em silêncio,

depois retrucou:

— Dê-me um drinque, pelo

menos.

Percey serviu uma dose

para si e outra para Rhyme. Sachs lançou-lhe um olhar fuzilante.

— Esta, sim, é uma dama

de classe — disse Rhyme. — Eu mato o amigo dela, e ela ainda toma um drinque comigo. Você não fez isso, Sachs.

— Você sabe mesmo ser um

idiota, Rhyme — disse ela com frieza. — Onde está Mel?

— Mandei-o para casa.

Não tinha mais nada a fazer aqui. Vamos despachar esta senhora para Long Island, onde vai estar em segurança. E... poderia me servir outra?

Percey fez menção de

servir outra dose, mas Sachs interveio.

— Ele já bebeu o bastante.

— Não lhe dê atenção —

protestou Rhyme. — Ela está furiosa comigo. Eu não consigo fazer o que ela quer; ela fica uma fera.

"Oh, obrigada, Rhyme.

Vamos lavar nossa roupa suja em público por que não?" Ela virou na direção de Rhyme um par de olhos belos e gelados, mas ele não percebeu: estava olhando para Percey Clay.

— Você fez um trato

comigo — disse Percey. — Então, de uma hora para outra, aparecem dois agentes dizendo que vão me levar para Long Island. Pensei que podia confiar em você.

— Se você confiar em mim,

vai morrer.

— É um risco — disse

Percey. — Você nos avisou de que sempre haveria uma possibilidade de ele entrar na casa.

— Certo. O que você não

sabe é que eu adivinhei como ele iria tentar. Eu soube que ele usaria um uniforme de bombeiro. Percebi isso cinco minutos antes que ele entrasse. O problema é que não consegui prevenir ninguém. Não podia apanhar o telefone. Hale morreu por minha causa.

Sachs sentiu pena dele, e

era uma sensação amarga. Estava dilacerada pelo sofrimento de Rhyme, mas não tinha idéia de como confortá-lo.

Ele fez um gesto com a

cabeça, indicando o computador.

— Ah, eu fiquei esnobe.

Fiquei achando que era normal. Correndo para lá e para cá nesta cadeira, achando que era piloto de corridas... Acendendo luzes, trocando CDs... Que idiotice.

— Ela fechou os olhos.

— Um riso agudo soou no

aposento, para surpresa de todos. Percey Clay servindo mais uma dose de uísque em seu próprio copo e outra no de Rhyme, disse:

— A única idiotice aqui é a

que eu estou ouvindo de você.

— Não comece — disse

ele em tom ambíguo, fitando-a.

— Oh, por favor —

retrucou Percey, em tom despreocupado. — Não comece o quê? Você está dizendo que alguém foi morto devido a uma falha técnica. Isso dá a você o direito de ter uma crise nervosa? De quebrar suas promessas? — Ela bebeu a dose num só gole e soltou um suspiro exasperado. — Você tem alguma idéia do que eu faço para ganhar a vida?

Rhyme começou a

responder, mas ela o cortou bruscamente.

— Pense nisto. Eu sento num tubo de alumínio que viaja pelos ares a uns mil por hora e a nove quilômetros de altura. Do lado de fora a temperatura é de 60°C abaixo de zero e o vento é de 160 km/h. Só estou viva por causa de uma porção de máquinas. — Ela riu novamente. — Qual a diferença entre nós dois?

— Você não entende —

disse ele, com desdém. — Você pode andar.

— Andar? Estou a 30 mil

pés de altura. Se eu abrir aquela porta, meu sangue todo vai ferver em segundos.

Rhyme tinha encontrado um

adversário à altura. "Ele está sem fala", Pensou Sachs.

Percey continuou:

— Sinto muito, detetive,

mas não vejo a menor diferença entre nós dois. Ambos somos produtos da ciência do século XX. Somos dependentes dela.

"Vamos lá, Rhyme", torceu

Sachs em silêncio. "Devolva-lhe uma daquelas."

O criminalista replicou:

— Sim, mas se eu cometer

um erro, outras pessoas morrem.

— Oh, é mesmo? E o que

acontece se o meu descongelador falhar? E se um pombo entrar numa turbina durante a aterrissagem? Estou morta. No seu caso, as pessoas têm pelo menos a chance de escapar dos tiros.

Rhyme parecia agora

completamente sóbrio. Seus olhos iam de um lado ao outro do quarto, como que em busca de argumentos para contestar Percey.

— Muito bem — disse ela,

diminuindo o volume da voz. — Minha sugestão é que você faça alguma coisa para deter esse Dançarino de uma vez por todas, porque eu vou sair daqui direto para o aeroporto, vou terminar de consertar meu avião e depois vou fazer o meu voo, conforme combinamos. Ou vou ter de chamar meu advogado?

Rhyme continuava mudo.

Um momento se passou.

Sachs teve um sobressalto

quando Rhyme gritou, em sua voz de barítono:

— Thom! Thom! Venha aqui, já!

O ajudante espreitou da

porta, cautelosamente.

— Fiz uma verdadeira

bagunça aqui — disse Rhyme. — Olhe, derramei meu copo. E meu cabelo está todo despenteado. Pode dar um jeito nisto? Por favor?

— Está brincando, Lincoln?

— perguntou Thom.

— E... Lon! Chame Mel Cooper. Ele deve ter levado a sério o que eu falei. Cientistas! Esses caras não têm senso de humor. Precisamos dele aqui.

Sachs sentia impulsos de

sair correndo dali. Entrar no carro e queimar borracha nas estradas de Nassau County, a duzentos por hora. Não podia suportar ficar mais um minuto no mesmo aposento que aquela mulher.

— Muito bem, Percey — disse Rhyme. — Leve o detetive Bell com você. Vamos mandar escolta policial. Vá para o aeroporto e faça o que j tem para fazer.

— Obrigada, Lincoln.

Ela agradeceu com um

gesto de cabeça e um curto sorriso, apenas o bastante para deixar claro quem tinha sido o vencedor da disputa. Bem... Amelia Sachs já tinha se conformado com o fato de que em alguns esportes estava destinada a ser uma perdedora. Campeã de tiro, policial condecorada, motorista de primeira e uma criminalista acima da media; mas, com tudo isso, seu coração não era blindado. Seu pai tinha percebido isto; ele também fora um romântico. Deviam fazer um colete à prova de bala para a alma, Amie, dizia ele. Seria muito útil.

"Adeus, Rhyme", pensou ela. "Adeus."

E qual foi a resposta dele

para esta despedida muda? Apenas um breve olhar e um resmungo mal-humorado.

— Vamos, Sachs, vamos

examinar esses indícios. O tempo está passando.

 

— O QUE encontrou? —

perguntou Rhyme.

Sachs tinha encontrado

todas as cápsulas deflagradas pela Beretta 0.62mm do Dançarino da Morte. Mas elas tinham sido mergulhadas em detergente, eliminando até mesmo as impressões digitais dos operários da indústria de munições, para que ninguém pudesse seguir as pistas até uma determinada caixa e uma loja específica. E, ao que parecia, ele as tinha colocado na arma segurando-as com os nós dos dedos; um truque antigo.

— Continue — disse

Rhyme, depois que Sachs explicou todos esses detalhes.

— As balas da pistola —

mostrou ela. Três delas totalmente achatadas, uma em estado razoável.

— Procure impressões —

ordenou Rhyme.

— Já procurei — disse ela, com desânimo na voz. — Nada.

Cooper observava um

pedaço de algodão enrolado dentro de um saco plástico.

— O que é isto? —

perguntou.

— Uma das balas do rifle

dele — respondeu Sachs.

— O quê?! — Rhyme

piscou os olhos.

Ele disparou algumas vezes de um edifício próximo, tentando matar Jodie. Duas balas atingiram a porta da frente. A outra bateu em algo macio e não explodiu.

— Espere aí — disse

Cooper. — É um daqueles projéteis explosivos? — Com infinito cuidado, ele pousou o saco de volta sobre a mesa e deu alguns passos para trás, puxando Sachs consigo.

— Ei, o que há? —

perguntou Sachs.

— Balas explosivas são

muito instáveis. Isso pode explodir a qualquer instante.

— E por que não explodiu?

— perguntou Sachs.

— Porque atingiu areia

fofa, certamente. E o próprio Dançarino deve fabricá-las. Talvez o controle de qualidade dele tenha falhado com essa aí.

— Ele mesmo as faz?! —

Rhyme olhou para Sachs e, por um momento, a rixa entre os dois se evaporou. Ambos sorriram e exclamaram ao mesmo tempo: — Impressões!

Cooper disse:

— Talvez. Mas como

vamos descobrir?

— Vou desmontá-la —

disse Sachs.

— Não, Sachs — disse

Rhyme. — Vamos chamar o esquadrão anti-bomba.

— Não temos tempo. —

Ela se inclinou para examinar a bala. — Vou colocar meu colete por cima dela e trabalho do outro lado. — Ela tirou a blusa, afrouxou as correias de velcro do colete à prova de balas e o colocou sobre a mesa, como uma tenda por cima do saco plástico. — O que preciso fazer?

"Não, Sachs, não", pensou

Rhyme.

— Se não me responderem — disse ela —, vou sair mexendo em tudo. — Apanhou uma pequenina serra e ergueu-a ameaçadoramente sobre o saco.

Rhyme suspirou e fez um

sinal para Cooper.

— Diga a ela o que é

preciso.

— Muito bem.

Desembrulhe-a... com cuidado. Aqui, pouse-a em cima desta toalha.

Sachs desenrolou o pedaço

de pano até expor uma bala surpreendentemente pequena,

branca na extremidade.

— Esse cone da ponta —

indicou Cooper — pode atravessar dois coletes como esse e mais uma parede.

— Muito bem — disse

Sachs, virando o artefato na direção da parede.

— Sachs — disse Rhyme com voz suave —, use um fórceps. Por favor.

Após uma breve hesitação,

ela apanhou o instrumento da mão de Cooper, usando-o para prender com firmeza a base do projétil.

— Como faço para abri-la?

— perguntou.

— Tem de retirar o cone —

disse Cooper.

O suor descia pelo rosto

dela.

— Tudo bem. Com quê?

Pinças?

Cooper colocou-lhe na mão

direita uma pinça minúscula.

— Tem de pegar o cone e

torcer com força — disse ele. — Mas cuidado para não parti-lo.

— Pense em todos os

carros em que você já trabalhou, Sachs — disse Rhyme. — Pense naquelas velas de ignição bem velhas, de cerâmica.

Ela assentiu distraidamente

e abaixou a cabeça, protegida pelo colete, os olhos apertados de concentração.

"Ai, Sachs", pensou Rhyme.

Ouviu um estalido.

Ela imobilizou-se por um

instante, depois ergueu o rosto.

— Saiu. Está aberta.

— Está vendo o explosivo?

— perguntou Cooper.

Ela examinou o interior da

bala.

— Sim.

Ele lhe estendeu uma lata

de óleo de máquina.

Derrame um pouquinho

disso dentro da cápsula e depois a incline. O explosivo plástico deve sair junto com o líquido.

Ela colocou o óleo e

inclinou o objeto. Nada aconteceu.

— Diabos — murmurou

ela. Sacudiu a cápsula. Voltou a sacudir, mais forte.

— Sachs! — exclamou

Rhyme, com voz rouca.

Uma minúscula fita branca

deslizou para fora do invólucro, seguida por alguns grãos de pólvora.

— Ótimo — disse Cooper,

após um suspiro profundo e aliviado. — Está seguro agora.

Usando uma sonda

minúscula, ele transferiu o plástico para uma lâmina e caminhou até o microscópio com o passo leve dos criminalista em todo o mundo: as costas retas, a mão em concha. Começou a montar a lâmina com o explosivo.

— Use violeta genciana —

sugeriu Rhyme. — Para dar um pouco de contraste.

Cooper borrifou um pouco

de líquido sobre a prova e instalou a lâmina. A imagem brotou no mesmo instante no monitor de Rhyme.

— É isso aí! Lá está! —

gritou Rhyme. — As espirais e as bifurcações eram claramente visíveis. — Você o pegou, Sachs. Belo trabalho.

No entanto, quando Cooper

examinou a cópia em papel que Rhyme mandou imprimir, deu um suspiro.

— Não adianta. Nenhum

serviço de identificação vai conseguir coisa alguma com isso.

— Todo esse esforço

jogado fora — resmungou Rhyme.

De repente, ouviram o riso

de Amelia Sachs, que estava examinando os mapas onde controlavam os indícios, CC-1 e CC-2.

— Ponha estas duas

juntas... — sugeriu ela. — Temos uma parcial. Cooper olhou para Rhyme.

— Nunca ouvi falar em

fazer isto.

Rhyme também não. Um

advogado de defesa subiria pelas paredes se soubesse que a polícia estava montando fragmentos de impressões digitais dos suspeitos.

— Muito bem — disse

Rhyme. — Vá em frente, Sachs.

Cooper recolheu as amostras de impressões que estavam pregadas no mural e fez fotocópias de todas, até conseguir que ficassem do mesmo tamanho. Em seguida, ele e Sachs começaram a montar umas de encontro às outras, como se fossem enormes peças de um quebra-cabeça. Por algum tempo pareceram crianças — experimentando variantes,

discutindo, divertindo-se a valer. Sachs chegou a usar uma caneta para conectar algumas linhas. Por fim, os dois conseguiram montar o equivalente a três quartos da impressão digital de um dedo indicador.

Cooper ergueu a folha no ar

para examiná-la melhor.

— Tenho as minhas dúvidas

quanto a isto, Lincoln.

Mas Rhyme respondeu:

— Isto é uma obra de arte,

Mel. Ficou uma beleza. Mande para o AFIS. Peça busca com prioridade absoluta, em todos os estados.

Cinco minutos depois, a

tela do monitor piscou e surgiu uma mensagem:

Sua busca encontrou

resposta, com 14 pontos na comparação de identidade. Probabilidade estatística de identificação positiva, 97%.

— Não acredito — murmurou Sachs. — Conseguimos pegá-lo.

— Quem é ele, Mel? —

perguntou Rhyme, com voz calma.

— Ele não se chama mais o

Dançarino da Morte — disse Cooper, lendo o resto da mensagem. — Seu nome é Stephen Robert Kall. Trinta e seis anos. Ultimo endereço conhecido: 15 anos atrás, numa região rural em Cumberland, West Virgínia. Pegou vinte meses de pena por homicídio quando tinha 15 anos. — Deu uma risada. — Ele não se deu ao trabalho de contar a Jodie que a vítima foi Lou Kall, seu padrasto.

— Hum... Padrasto?

— Não é uma história

agradável — disse Cooper, fazendo o texto deslizar na tela. — Parece que havia um longo histórico de brigas domésticas. A mãe do rapaz estava morrendo de câncer, e o marido bateu nela por um motivo qualquer. Ela teve um braço quebrado e morreu alguns meses depois. Stephen ficou convencido de que o padrasto foi o causador da morte dela. Quer saber o que aconteceu depois?

— Vá em frente.

Depois que ela morreu,

Stephen e o padrasto saíram para caçar. O garoto o desacordou com uma pancada, tirou todas as suas roupas e o amarrou ao tronco de uma árvore, numa parte remota da floresta. Deixou-o amarrado ali por alguns dias. Segundo o advogado de defesa, o garoto queria apenas dar um susto no padrasto, mas acabou esquecendo o local onde o tinha deixado. Quando a polícia o encontrou... bem, basta dizer que as feridas estavam bastante infestadas. Vermes. O homem ainda viveu por mais dois dias, mas em estado de delírio.

— Caramba — sussurrou Sachs.

— Quando o encontraram,

o garoto estava lá, sentado diante da árvore, olhando. — Cooper leu: — O suspeito se entregou sem resistência. Parecia em estado de desorientação. Repetia sem parar: 'Qualquer coisa pode matar. Qualquer coisa pode matar.'

Lincoln Rhyme só podia

concordar com ele.

VOAR É APENAS uma

 

pequena parte na vida do piloto profissional. Ser piloto também envolve uma enormidade de burocracia. O banco traseiro da van que transportava Percey Clay para o Aeroporto Regional de Mamaroneck estava atulhado de mapas e documentos, informações que ela ia estudando enquanto preenchia aos poucos os formulários do plano de voo e dos relatórios técnicos. Ela estava completamente absorta em seu trabalho.

Roland Bell estava ao seu

lado, abatido e soturno. O agente bem-humorado e piadista tinha desaparecido. Percey sentia tanta pena dele quanto de si própria: ao que parece, Brit Hale tinha sido a primeira testemunha que Bell havia perdido.

Quando terminou de

preencher a última ficha do plano de voo, a van entrou numa transversal e parou no aeroporto. Guardas armados examinaram seus documentos e deixaram-nos passar. Percey notou que as luzes do escritório estavam acesas. Pediu ao motorista para parar e desceu do carro. Bell e os outros guarda-costas caminharam ao seu redor, tensos, em estado de alerta.

Ron Talbot estava sentado à

escrivaninha, exausto, o rosto molhado de suor e vermelho a ponto de causar preocupação.

— Ron, você está bem? —

perguntou Percey, abraçando-o.

— Brit — disse ele,

respirando com dificuldade, abanando a cabeça.

— Ele pegou Brit também.

Você não devia estar aqui, Percey. Vá para um lugar seguro.

— O que há com você? —

perguntou ela, dando um passo para trás. — Está se sentindo mal?

— Um pouco cansado, só

isso.

Ela arrancou-lhe o cigarro

dos dedos e o esmagou no cinzeiro.

— Você fez tudo sozinho?

No Foxtrot Bravo?

— A maior parte. O cara só

entregou as peças uma hora atrás. Comecei a montá-las, mas fiquei muito cansado.

— Dor no peito?

— Não, juro.

— Ron, vá para casa. Eu

posso terminar isto. Pode deixar.

Talbot parecia não ter

forças para erguer sequer uma chave de fenda, muito menos um pesado combustor. Ela beijou-lhe a testa úmida.

Talbot pôs-se de pé com

dificuldade e demorou-se alguns instantes a contemplar o Foxtrot Bravo através da janela. Seu rosto estava cheio de amargura. A mesma expressão que Percey recordava ter visto em seus olhos tímidos quando ele lhe dissera que tinha sido reprovado no exame médico e nunca mais poderia pilotar. Ele caminhou até a porta e se foi.

 

ELES TINHAM mais um

mistério para desvendar. Cooper e Sachs tinham examinado novamente os resíduos colhidos nos pneus dos cartuchos de bombeiros e da polícia que percorreram o local da queda do avião de Ed Carney. Havia uma grande quantidade de sujeira inútil, óleo, pedaços de grama e lixo; tudo que Rhyme já contava encontrar, mas algo mais fora descoberto. Ele não sabia o que poderia significar, mas tinha certeza de que era importante.

Os únicos resíduos de bomba eram pequenos fragmentos de uma Mibuância flexível, de cor bege. Um exame no cromatógrafo revelou a composição química do material: C5H8.

— Isoprene — deduziu

Cooper. — Uma película delgada de borracha, látex. — Ele voltou a examinar uma amostra sob o microscópio. Cola de borracha, também, e... bingo!

— Vamos lá, Mel, não faça suspense — grunhiu Rhyme.

— Vestígios de solda e

pequenos pedaços de plástico incrustados na borracha. Isto significa circuitos eletrônicos.

— Partes do detonador? —

sugeriu Sachs.

— Não; ele estava intacto.

— lembrou Rhyme. — Temos de saber se isto fazia parte da bomba ou do avião. Sachs, quero que vá ao aeroporto. Encontre Percey e peça a ela amostras de qualquer coisa que possa fazer parte de um avião como o que explodiu, e que contenha látex, borracha ou placas de circuitos... E, Mel, mande todos os dados que temos para a Coleção de Referências sobre Explosivos do FBI.

— Quer que eu vá lá falar

com ela? — perguntou Sachs. — Com Percey?

— Sim. E não vá provocá-

la como tem feito ultimamente. Vamos precisar dela.

Rhyme não entendeu por

que motivo ela vestiu o casaco de modo tão brusco e saiu porta afora sem se despedir.

 

NO AEROPORTO, Sachs

estacionou junto ao hangar principal e caminhou até o andaime onde Percey estava trabalhando. Ficou observando enquanto a outra instalava um volumoso cilindro vermelho — provavelmente um extintor de incêndio, ela concluiu — em exatos dez segundos. Mas uma outra peça, com a aparência de uma volumosa tubulação interna de metal, não se encaixava corretamente e Percey arquejava enquanto se esforçava para colocá-la.

Nenhuma das duas falou

durante algum tempo.

Finalmente, Sachs quebrou o silêncio.

— Tente um macaco. O

encaixe está quase lá. Você só precisa de mais força muscular. A velha técnica de coerção.

Percey examinou com

cuidado os suportes no metal.

— Não sei... Você já

montou um combustor no Learjet?

— Não. Velas de ignição

num Chevrolet Monza V-8. É preciso suspender o motor com um macaco para alcançá-las.

Percey estudou o espaço

onde o combustor seria encaixado e disse:

— Precisaria de um

macaco pequeno, mas não tenho um.

— Eu tenho. Espere um

instante.

Sachs caminhou até o carro

e voltou com o instrumento. Subiu até o andaime e o entregou a Percey.

— Tente aqui, na base do

combustor. Isto é uma barra de aço em duplo T.

Enquanto Percey

posicionava a peça, Sachs ficou admirando o intrincado design do equipamento.

— Quantos cavalos de

força tem? — perguntou.

Percey riu.

— Nós o medimos em

libras de pressão, não em cavalos. Este aí é um Garrett TFE 731s. Dá 3.500 libras.

— Incrível... — Sachs

sorriu e encaixou a alavanca do macaco. Logo estava respirando com dificuldade, esforçando-se para girar a manivela.

Percey forçou o ombro

contra o combustor e falou:

— Então você entende de carros... Já pilotou um avião?

— Não, mas posso pensar

no assunto. — Sachs deu mais algumas voltas na manivela.

— Está quase — disse

Percey.

Com um clangor de metal, o

artefato ajustou-se com perfeição nos caixilhos. O rosto achatado de Percey abriu-se num leve sorriso. Ela apertou os parafusos com uma chave e pôs-se a reconectar os fios e outros componentes eletrônicos.

— Obrigada — disse ela. E

alguns instantes depois: — Aliás, o que está fazendo aqui?

— Encontramos alguns

resíduos que podem ser da bomba, mas Lincoln acha que talvez possam pertencer a alguma parte do avião.

Pedaços de um látex bege,

que esteve em contato com circuitos eletrônicos. Parece familiar?

Percey encolheu os ombros.

Há milhares de juntas num

Lear como este. As vedações podem conter látex. E circuitos eletrônicos? Milhares, também. — Ela indicou um enorme balcão a certa distância. — As placas eletrônicas são trazidas por encomenda, mas ali adiante você pode encontrar uma porção de placas de vedação. Pode levar o que achar necessário.

Sachs caminhou até o

balcão e começou a colocar em sacos plásticos todos os objetos de cor bege e de borracha clara.

Sem olhar para Sachs,

Percey comentou:

— Pensei que você

estivesse aqui para me prender. Para me arrastar para a cadeia.

"Bem que eu gostaria",

ruminou Sachs, mas disse:

— Vim só recolher estas

amostras.

— Então, o que está

havendo?

— O que quer dizer? —

perguntou Sachs.

— Esta... hum... esta tensão.

Entre nós. Eu e você.

— Você fez com que um

amigo meu quase fosse morto.

Percey abanou a cabeça negativamente e retrucou, com voz tranquila.

— Não, não, é outra coisa.

Eu percebi antes mesmo de Jerry levar aquele tiro. Foi desde a primeira vez que a vi, na casa de Lincoln Rhyme.

Sachs não respondeu e ela

prosseguiu:

— É por causa dele, não é?

— Quem?

— Você sabe. Lincoln

Rhyme.

— Acha que estou com

ciúmes? — Sachs deu uma risada.

— Sim, acho. É mais do

que uma questão de trabalho, entre nós duas. Acho que você está apaixonada por ele.

— Claro que não estou —

disse Sachs. — Que coisa absurda.

Percey lhe dirigiu um olhar eloquente, enquanto enroscava pontas soltas de fios.

— O que quer que você

tenha visto em mim com relação a Rhyme — disse —, é apenas respeito pelo talento dele. Mais nada. — Ergueu a mão manchada de graxa e apontou para si própria. — Ora, vamos, Amelia. Olhe para mim. Sou uma mulher baixinha, mandona, feiosa.

Além disso, acabei de

perder meu marido. Não estou interessada em ninguém.

— Sinto muito, mas preciso

dizer uma coisa. Você não parece estar exatamente de luto fechado.

— Por quê? Porque estou

tentando fazer minha empresa continuar funcionando?

— Não. Há mais do que

isso — disse Sachs com cautela. — Não é verdade?

Percey examinou o rosto de

Sachs.

— Ed e eu éramos

incrivelmente ligados um ao outro. Éramos marido e mulher, e sócios na empresa. E, sim, ele estava andando com outra mulher. Isso arrasou comigo. Arrasou com ele também. Ele me amava, mas tinha necessidade de ter casos com mulheres bonitas. Mas, sabe... ele sempre voltava para mim.

Percey fez uma pausa,

enquanto lutava para reprimir as lágrimas.

— E você?

— Se eu fui fiel? — Ela

deu uma de suas risadas amargas. — Bem, eu não sou propriamente uma dessas garotas que os homens abordam na rua. Mas quando descobri tudo sobre as amantes de Ed, fiquei furiosa. Saí com outros homens. Ron e eu... Ron Talbot... passamos um tempo juntos, alguns meses apenas. Ele me propôs casamento. Mas Ed era o homem que eu queria. Isso nunca mudou. — Os olhos dela ficaram distantes. — Nós nos conhecemos na Marinha, Ed e eu. Éramos pilotos de combate. Quando ele me propôs casamento, queria me dar um anel, mas já estávamos poupando cada centavo para montar nossa própria empresa de táxi aéreo. Uma noite, pegamos um velho Norseman que havia na base e subimos a dois mil metros. De repente, Ed me beijou, assumiu o comando e disse: "Sabe, Perce, acabei arranjando um diamante para você, apesar de tudo."

— E era mesmo? —

perguntou Sachs.

Percey sorriu.

— Ele subiu quase

verticalmente e puxou o manche para trás. O avião se elevou, com o nariz apontado para cima. Por um instante, antes de começar a perder altura, ficamos olhando diretamente para o céu. Ele se debruçou sobre mim e disse: "Escolha. Todas as estrelas da noite. Você pode ter qualquer uma que quiser." — Percey abaixou a cabeça, enxugou os olhos na manga da blusa e voltou ao trabalho. — Pode crer, você não tem com que se preocupar. Ed era tudo que eu queria.

— Há mais coisas

envolvidas nisso do que você pensa — suspirou Sachs. — Você faz Rhyme lembrar-se de alguém. Alguém que ele amou. Você apareceu de repente e, de um instante para o outro, é como se ele estivesse com ela novamente.

Percey deu de ombros.

— Ele e eu nos

entendemos. Mas, e daí? Isso não quer dizer nada. Abra os olhos, Amelia. Rhyme ama você.

Sachs riu.

— Ah, eu não acredito

nisso.

Percey voltou-se para

encará-la de frente.

— Olhando para Rhyme e

olhando para você, eu não daria mais do que 50% de chances. Mas, sabe, eu tive um instrutor de voo há muito tempo. Quando voávamos num bimotor ou num quadrimotor, ele punha em prática um pequeno truque. Muitos instrutores desligam o motor por alguns minutos para ver como você se comporta em tal situação. Mas esse cara nos obrigava a fazer o pouso com um único motor funcionando. Os alunos sempre perguntavam: "Não é arriscado?" E ele respondia: "Deus nunca nos dá certezas. Às vezes a gente tem de arriscar, e pronto."