Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 13 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Onze

CAPÍTULO

ONZE

Hora 42, de 45

 

R HYME REPAROU que já passava das 3:00h da manhã.

Percey Clay estava voando

de volta para a Costa Leste num jato do FBI, e dali a poucas horas estaria a caminho do tribunal para comparecer diante do grande júri. E Rhyme ainda não fazia a menor idéia sobre onde estaria o Dançarino da Morte, o que estaria planejando e que identidade estaria assumindo naquele momento.

O celular de Sellitto

chamou. Ele escutou alguns instantes e fez uma careta.

— O safado aprontou mais

uma — disse. — Foi encontrado um corpo, não identificável, num túnel do Central Park. Perto da Quinta Avenida.

— Não identificável?

Completamente? — perguntou Amelia Sachs.

— Parece que desta vez ele

fez tudo com muito cuidado. Removeu mãos, dentes, mandíbula e roupas. O cadáver é de homem branco, trinta e poucos anos. Sadio, tipo atlético. Haumann acha que deve ser algum yuppie do East Side.

— Certo — disse Rhyme.

— Tragam-no aqui.

— O corpo? Hum, está

bem.

— Quer dizer então que o

Dançarino conseguiu uma nova identidade — murmurou Rhyme, com irritação. — Como vai aparecer da próxima vez? — Ele suspirou e virou-se para Dellray. — Em que esconderijo estão pensando em colocar Percey desta vez?

— No nosso — disse uma

voz vinda da porta do quarto. Todos se viraram para o homem corpulento parado no umbral.

— Ela vai para o nosso

esconderijo de segurança — disse Reggie Eliopolos. — Vamos assumir a custódia dela.

O promotor ergueu na mão

a ordem de custódia.

— Não acho uma boa idéia

— disse Rhyme.

— Melhor do que a sua

idéia de deixar morrer a nossa derradeira testemunha.

— Pode acreditar — disse

Rhyme. — O Dançarino vai descobrir tudo.

— Ele teria de ser telepata

— retrucou Eliopolos. Olhou em volta e notou a presença de Jodie. — Você é Joseph d'Oforio? Você vem também.

O homenzinho o encarou.

— Ei, espere um instante...

— Queremos apenas que

você fique em lugar seguro até a hora do grande júri.

— Grande júri? Ninguém

me disse que eu ia ter que depor.

— Você é uma testemunha

material — disse Eliopolos.

— Não vou depor coisa nenhuma.

Então vai cumprir pena por

se recusar a cooperar. Numa penitenciária comum. E você sabe muito bem que tipo de garantias vai ter lá dentro.

O rosto de Jodie se

contraiu. Eliopolos virou-se para Rhyme.

— Por falar nisso, Rhyme,

estamos processando você por interferência numa investigação criminal.

— Processando coisa

nenhuma — interveio Sellitto.

— Você ouviu muito bem.

Rhyme podia ter estragado nosso caso, deixando que Percey fizesse aquele voo. Trarei o mandado judicial na segunda-feira e vou me encarregar da acusação pessoalmente.

— Não sei se você sabe

que ele esteve aqui — Rhyme disse, num tom tranquilo.

Eliopolos deteve-se.

Depois de um instante, perguntou:

— Quem?

— Ele esteve aqui, de

frente para esta janela, há menos de uma hora, — apontando um rifle com balas explosivas para dentro da casa.

Eliopolos piscou.

— E por que não disparou?

— Ah! — exclamou

Rhyme. — Esta é a pergunta de um milhão de dólares. Tudo que sabemos é que ele matou um sujeito jovem no Central Park E mutilou o corpo para não ser identificado. Não tenho a menor dúvida de que ele já sabe que a bomba não matou Percey, e que está de volta para terminar o serviço.

Sachs comentou:

— Você nunca teve de enfrentar alguém como ele.

Rhyme fitou-a e viu o vazio

em seu olhar, o desespero contido. Eliopolos estava tirando dela a derradeira chance de apanhar o Dançarino. O criminoso tinha-se transformado numa obsessão para Amelia — tudo por causa daquela hesitação que ela tivera no aeroporto. A vida de Sachs tinha mudado a partir daquele momento, que ela interpretara como um instante de covardia. Mas, diferentemente do que acontecera com Rhyme, ela podia dar a volta por cima.

"Ah, Sachs", pensou ele,

"dói muito ter de fazer isto, mas não tenho mina chance." Ele virou-se para Eliopolos:

Certo, tudo bem. Mas agora

eu quero algo em troca, ou não direi onde Percey está.

O olhar de Eliopolos era

gélido.

— O que vai querer?

— O Dançarino já mostrou

que está disposto a matar as pessoas que o perseguem. Se vocês vão proteger Percey, quero que protejam também a principal pessoa envolvida nesta investigação.

— Você?

— Não. Amelia Sachs.

— Rhyme! Não! —

exclamou ela, franzindo a testa.

"A inquieta Amelia Sachs...

E eu a estou colocando diretamente na linha de fogo." Ele acenou com a cabeça, pedindo que ela se aproximasse.

— Quero ficar aqui —

disse Sachs. — Quero encontrar esse canalha.

Rhyme sussurrou:

— Ele vai encontrar você,

Sachs, não se preocupe. Quero você junto de Percey. Você é a única pessoa que entende o pensamento dele. Existe a possibilidade de que Percey venha a ser a primeira vítima que ele não conseguiu matar, e ele não está nem um pouco satisfeito com isto. Ele está desesperado. Sei disso.

Ela hesitou por um

momento, depois assentiu.

— Muito bem — disse

Eliopolos. — Vamos andando. Tenho uma van lá fora.

— Sachs? — disse Rhyme.

Ela fez uma pausa e

Eliopolos disse:

— Vamos, agente. Temos

pouco tempo.

— Desço num minuto —

disse Sachs. Ela e o promotor se encararam por alguns instantes; ele foi o primeiro a baixar a vista, e chamou o policial que o acompanhava. Os dois escoltaram Jodie ate a saída.

— Sachs — chamou

Rhyme. Ele pensou em dizer algo sobre a importância de evitar atitudes heróicas, sobre Jerry Banks, sobre ela ser exigente demais consigo mesma, sobre esquecer os mortos... mas limitou-se a aconselhar: — Atire primeiro.

Ela pousou a mão sobre a

mão esquerda dele. Ele fechou os olho e tentou sentir a pressão da pele dela contra a sua, e de fato julgou ter sentido algo no dedo anular. Ergueu os olhos para ela.

— E quanto a você, é bom

ter alguém com juízo por perto — disse Sachs, indicando Sellitto e Dellray com um gesto.

Um médico do Serviço de

Emergência surgiu à porta, olhando a estranha cena no quarto: Rhyme, equipamento, a bela policial ao seu lado. Ele pigarreou e perguntou, hesitante:

— Foi aqui que pediram um

corpo?

— Aqui mesmo! — gritou

Rhyme. — Traga-o. Precisamos dele agora.

 

A VAN ATRAVESSOU um

portão e logo estava rodando numa estrada asfaltada de pista única, que parecia se estender por quilômetros e quilômetros.

— Se isto é a estrada — disse Roland Bell —, mal posso esperar para ver a casa.

Ele e Amelia Sachs

ladeavam Jodie, que os irritava com sua inquietude, mexendo-se o tempo todo dentro do colete à prova de balas, examinando as sombras, os portões das casas, os carros que seguiam pela rodovia de Long Island. No banco do fundo vinham dois agentes da 32-E armados com metralhadoras, e Percey Clay ia nu Único da frente. Ao apanharem Bell e Percey no aeroporto de La Guardia, Sachs tinha sentido um choque ao ver a expressão de total resignação no rosto da outra mulher. Percey estava ao celular, falando com Ron Talbot. Sachs deduziu que a US Medical não tinha sequer esperado que as cinzas do avião esfriassem para cancelar o contrato. Percey fechou o celular e comentou distraidamente:

— A companhia de seguros

não quer pagar sequer o valor da carga. Eles dizem que eu assumi um risco deliberadamente. E isto é tudo.

E completou, secamente: —

Estamos falidos.

Os pinheiros passavam

velozes, de ambos os lados da estrada. Quando se aproximaram da casa, Jodie começou a mexer no cinto de segurança, atingindo Sachs com o cotovelo, mais uma vez.

— Desculpe — murmurou.

Sachs teve vontade de

atirar nele.

 

A NOITE estava encoberta,

cheia de mantos de névoa, mas Sachs conseguia enxergar o bastante para perceber que a casa era uma combinação desordenada de troncos e sarrafos. A floresta em volta tinha sido abatida num raio de 200m. Por trás da casa havia um lago amplo, quieto.

Quando pararam, Reggie

Eliopolos desceu da van que seguia à frente e mandou que saíssem do automóvel. Levou-os para dentro do casarão, entregando-os aos cuidados de um homem de rosto redondo que parecia cordial, embora não sorrisse uma vez sequer.

— Sejam bem-vindos —

disse ele. — Sou o chefe de polícia David Franks. Vou lhes explicar como funciona este nosso lar-fora-de-casa. Este é o refúgio de testemunhas mais seguro do país. Nós temos sensores de peso e sensores de movimento embutidos por todo o espaço em volta da casa. Ninguém, pode passar sem disparar vários alarmes diferentes. Se algo acontecer, vocês ouvirão uma sirene. Nesse caso, fiquem onde estão. Não saiam. Vamos ter quatro policiais aqui dentro. Dois outros estão na entrada principal, e dois na parte de trás, perto do lago. E se vocês apertarem aquele botão de emergência ali, em vinte minutos teremos aqui um helicóptero Huey cheio de rapazes da SWAT.

O rosto de Jodie deixou

transparecer que para ele vinte minutos eram uma eternidade. Sachs foi forçada a concordar com ele. Eliopolos tomou a palavra:

— Às 6:00h, uma van

blindada estará aqui para levar vocês para o grande júri. Lamento que tenham tão pouco tempo para dormir. Se minha vontade tivesse prevalecido antes, vocês teriam passado esta noite inteira aqui, dormindo.

Ninguém disse uma só

palavra de despedida quando ele se retirou. Franks recomeçou as instruções.

— Não saiam da casa sem

um guarda-costas. Aquele telefone ali... — e ele apontou um telefone bege, num recanto da sala de estar — é seguro. Isto é tudo. Alguma pergunta?

— Sim — disse Percey. —

Tem bebida aqui?

Franks agachou-se diante

de um armário e extraiu de lá uma garrafa de vodca e outra de bourbon.

— Gostamos de deixar

nossos hóspedes satisfeitos — disse, colocando as duas sobre a mesa. — Estou indo para casa. Boa noite, Tom.

Após cumprimentar o

policial parado à porta, ele acenou na direção dos quatro visitantes que continuaram parados, presenças incongruentes no meio daquela cabana de caça, com duas garrafas de bebida à disposição.

O telefone tocou,

sobressaltando-os. Um dos policiais atendeu ao terceiro toque.

— Alô? — Ele escutou,

depois virou-se para as duas mulheres. — Amelia Sachs?

Ela agradeceu e pegou o

aparelho. Era Rhyme.

— Sachs, até que ponto

isso aí é seguro?

— Bastante bom — disse ela. — Alta tecnologia. Teve sorte com o corpo?

— Quatro homens

desaparecidos em Manhattan nas últimas quatro horas. Talvez possa ser um advogado. Pergunte a Jodie se o Dançarino mencionou alguma vez que pretendia entrar no prédio do tribunal durante o grande júri.

Ela perguntou e informou a

Rhyme que Jodie não lembrava de nada parecido.

Está bem. Obrigado.

Ligarei mais tarde, Sachs.

Depois que desligaram,

Percey perguntou:

— Alguém toma uma

dose?...

Sachs e Roland Bell

recusaram, mas Jodie optou por um uísque duplo antes de se recolher, abraçado ao exemplar do livro de auto-ajuda.

LA FORA, no ar espesso da

primavera, o zunido das cigarras e o mugido cavo do sapo-boi soavam no ar como um aviso.

Olhando a escuridão pela

janela, Jodie podia ver os fachos de luz de lanternas dos policiais irradiando-se através da neblina. Foi até a porta do seu quarto e olhou para fora. Dois policiais estavam sentados num cubículo de segurança, a sete metros dali. Os dois pareciam entediados. Ele ficou escutando, mas não ouviu nada além dos estalidos e rangidos de qualquer casa velha durante a madrugada.

Jodie voltou para a cama e

sentou-se no colchão já bem usado. Apanhou a cópia muito manuseada de Dependente Nunca Mais. "Ao trabalho", pensou ele. Abriu o livro no meio e arrancou um pequeno pedaço de fita adesiva colado à parte inferior da lombada. Uma longa faca deslizou e caiu sobre a cama. Feita de um polímero impregnado de cerâmica, não seria acusada por um detector de metais. Era afiada como navalha num dos gumes e denteada como serra cirúrgica no outro. Ele mesmo a fizera. Como a maioria das armas perigosas, fazia apenas uma coisa: matava. E matava muitíssimo bem. Não teve receio de empunhá-la. Estava de digitais novas. A pele das pontas dos seus dez dedos tinha sido quimicamente raspada no mês anterior por um médico na Suíça e um novo padrão de impressões tinha sido aplicado

Sentado na beira da cama,

olhos fechados, ele repassou a casa inteira: a sala de estar por onde tinham entrado, a localização de cada porta, cada janela, cada peça de mobília e as armas em potencial. Foi mentalmente até o telefone no canto da sala e avaliou o sistema de comunicação. Sabia exatamente como fora instalado e sabia, que se cortasse o fio a queda de voltagem mandaria um sinal imediato para o painel dos guardas e para a delegacia local. Melhor deixá-lo intacto. Não é um problema, apenas um fator.

Estava na hora de examinar

as câmeras de vídeo da sala de estar, que o chefe de polícia tinha "esquecido" de mencionar. Elas tinham uma séria falha de design. Bastaria uma pancada leve no meio dolente para desequilibrar o sistema óptico interno. A tela ficaria escura, mas não faria soar nenhum alarme.

Pensou nas luzes: ele

poderia apagar cinco, entre oito lâmpadas, até que todos os policiais estivessem mortos. Pensou nas distâncias e no ângulo de visão de quem estivesse fora da casa. Checou a localização das vítimas.

Deslizou a faca para dentro

do bolso e foi até a porta.

Sem fazer ruído,

encaminhou-se para a cozinha, apanhou uma colher de cabo longo numa prateleira, foi até a geladeira, serviu-se de um copo de leite. Seguiu para a sala de estar, caminhou ao longo das estantes, procurando algo para ler. Ao passar diante de cada câmera, estendia o braço e batia no meio da lente com a colher. Em seguida, colocou o copo e a colher sobre a mesa e entrou no cubículo dos policiais.

— Ei, dê uma olhada

nesses monitores — um deles estava dizendo. Jodie aproximou-se do primeiro policial, que iniciou uma pergunta:

— Olá, senhor, tudo em

ordem?...

Zás, zás. Com um vaivém da lâmina, Jodie abriu-lhe a garganta. O outro guarda levou a mão à arma, mas Jodie o apunhalou uma vez apenas; ele tombou. Foi uma morte trabalhosa, mas Jodie não queria usar novamente a arma naquele homem. Precisava do uniforme, e tinha de derramar o mínimo de sangue. Enquanto Jodie trocava de roupa, os olhos do policial agonizante pousaram no seu bíceps e, já meio desfocados, avistaram a tatuagem. Jodie abaixou-se para despi-lo e disse:

— Chama-se Dança

Macabra. Está vendo? A Morte está dançando com sua próxima vítima. Este caixão ao lado é o dela. Gosta?

Ele perguntou com

curiosidade sincera, embora não esperasse I cs posta. E não recebeu nenhuma.

MEL COOPER colocou as

luvas de látex e parou diante do cadáver.

— Posso tentar as

impressões plantares — sugeriu, sem muito entusiasmo.

Os sulcos de fricção

produzidos nas solas dos pés formam um padrão tão único quanto o das impressões digitais, mas não são catalisados nos bancos de dados dos serviços de identificação.

— Não perca seu tempo —

murmurou Rhyme.

"Quem será ele?",

perguntou-se Rhyme, observando o corpo mutilado à sua frente. Ah, esta era a pior sensação possível, a de estar com uma pista enorme, palpável, nas mãos... e não saber o que significava.

Seus olhos vaguearam pelo

mapa dos indícios afixado à parede. O corpo que examinavam era como as fibras verdes que tinham encontrado no hangar: significativo, mas indecifrável. E, sem ajuda adcional, retalhar ainda mais o cadáver de nada adiantaria.

"Digitais... Daria qualquer

coisa por uma bela e nítida digital", ruminou Rhyme. Talvez...

Deu uma risada.

— O que foi? — perguntou

Sellitto, enquanto Dellray erguia uma sobrancelha.

— Está bem, ele não tem

mãos. Mas qual é a única parte do corpo onde ele toca, com certeza?

Todos se entreolharam.

Se ele urinou nas últimas

duas horas... — disse Cooper.

Colocando outro par de

luvas sobre as primeiras, pôs-se a trabalhar com cartões Kromekote para recolher impressões. Conseguiu duas excelentes, e as enviou para o sistema automático de identificação.

Uma mensagem na tela:

"Espere, por favor."

"Tem de haver um registro",

pensou Rhyme, em desespero. Por favor!

Havia. Mas quando a

resposta surgiu na tela, Sellitto, que estava mais próximo ao computador de Cooper, ficou observando o monitor com um rosto incrédulo.

— Mas que diabo é isto?!

— disse ele.

— O que é? — exclamou

Rhyme. — Quem é ele?

— É Kall.

— O quê?

— É Stephen Kall —

repetiu o outro. — Nenhuma dúvida possível. "Como?", pensou Rhyme. "Que diabos ele fez agora?"

ELE NÃO ERA insensível

à poesia. "O Dançarino da Morte... Gosto disto", pensou. Muito melhor do que algo idiota como "Jodie".

Um nome era algo

importante, ele sabia. Lera filosofia: o ato de nomear ocorria apenas entre os humanos. O Dançarino conversava agora, silenciosamente, com o falecido Stephen Kall. "Foi de mim que você ouviu falar. Eu sou aquele que chama suas vítimas de corpos. Você as chamava de 'Marido', 'Esposa'. Mas eu, depois de contratado, os trato apenas por Corpos." Ajeitando o uniforme de policial, ele desceu na penumbra até o hall do térreo, encaminhando-se para o Terceiro Corpo.

"A Esposa, se você prefere,

Stephen Kall. Que criatura complicada e nervosa você era. Com aquelas mãos esfregadíssimas e aquele 'infiltrar, avaliar, delegar, isolar, eliminar'. Neste trabalho existe apenas uma regra: é preciso estar sempre um passo à frente de todos."

Ele tinha duas pistolas, mas

não queria usá-las prematuramente. Se desse um passo errado naquele momento, não teria outra chance de matar Percey Clay antes que o grande júri se reunisse. Entrou, silencioso, numa sala onde estavam mais dois guardas. Um deles, vendo o uniforme, voltou a ler o jornal, mas logo ergueu os olhos novamente.

— Espere aí — disse, mas

a lâmina do Dançarino não esperou. O homem dobrou-se para a frente e morreu sobre a página 6 do Daily News, tão silenciosamente que o seu parceiro nem sequer tirou os olhos da TV.

— Espere o quê? — foi

tudo que disse, sem se virar.

Morreu com um pouco mais

de barulho, mas ninguém nos outros aposentos pareceu ouvir. O Dançarino ocultou os dois corpos embaixo da mesa.

Ao sair pela porta dos

fundos, certificou-se de que não havia sensores no umbral e deslizou para fora. Os dois policiais no portão principal estavam alertas, mas virados de costas para a casa. Morreram quase sem ruído. Quanto aos dois que estavam à beira do lago, um deles soltou um lamento, mas ninguém pareceu notar. O som, o Dançarino decidiu, assemelhava-se ao pio de um mergulhão, indo em direção ao raiar cinza e rosa da aurora.

 

— ALGUÉM o matou — murmurou Sellitto. — Por quê?

Mas "por que" não é a

pergunta que um criminalista se faz.

O criminalista pensa nos

indícios, nas pistas. Rhyme voltou a olhar os mapas e diagramas das cenas dos crimes na parede, checou, mais uma vez, todas as evidências. As fibras, as balas, o vidro quebrado. "Analise. Pense. Você sabe como se faz. Já fez isso um milhão de vezes. Você identifica os fatos, anuncia suas premissas." Premissas, pensou Rhyme. Havia uma premissa gigantesca neste caso, desde o começo: a crença de que Stephen Kall era o Dançarino da Morte. Mas, e se fosse alguém que o matador estivesse usando como arma? Se fosse assim, entre os que até agora não tinham se encaixado poderia haver uma combinação.

Ele examinou os diagramas e quadros. Mas não havia nada duvidoso, a não ser as fibras verdes encontradas no hangar do aeroporto.

Não temos nenhuma roupa

de Kall — disse Rhyme. — Temos alguma coisa com que ele tenha entrado em contato?

Sellitto encolheu os

ombros.

Bem... Tem Jodie.

Jodie trocou de roupas aqui, a uma certa altura, não é isso? Quero ver essas roupas.

— Uh... — disse Dellray.

— Não são muito agradáveis.

Cooper as encontrou e

trouxe-as. Escovou-as com força, aparando os resíduos em folhas de papel-jornal. Em seguida começou a montar as lâminas e a passar as amostras sob o microscópio.

— O que temos aqui? — perguntou Rhyme, observando o monitor.

— O que é essa coisa

branca? — perguntou Cooper. — Esses grãos. Tem muito disso. Estava nas costuras das calças.

Rhyme sentiu o rosto

afogueado.

— Sei o que é — sussurrou

ele. — É um oólito. Uma espécie de areia das Bahamas, que vem trazida pelo vento.

— Bahamas? — Cooper

franziu a testa. — Onde foi que acabamos de ouvir falar nas Bahamas?

Ele olhou ao redor, mas

Rhyme já estava com os olhos na parede, no relatório do FBI sobre a areia que Amelia Sachs recolhera na semana passada no carro do desaparecido Tony Panelli.

A substância submetida a

análise não é areia, tecnicamente falando. Trata-se de oólitos, fragmentos de coral extraídos de formações de arrecifes... Origem mais provável, norte do Caribe: Cuba, Bahamas.

O agente desaparecido de

Dellray, um homem que saberia onde era o esconderijo mais seguro dos federais em Manhattan. Que revelaria esse endereço, se submetido a tortura, de modo que o Dançarino pudesse esperar que Stephen Kall aparecesse, tornar-se seu amigo e depois dar um jeito de ser capturado e levado para junto das vítimas.

— O Dançarino é Jodie! —

esbravejou. — Liguem para a tal casa, agora!

Sellitto pegou o fone e

discou.

Seria tarde demais? "Meu

Deus, Amelia, o que foi que eu fiz?" O céu estava assumindo uma tonalidade cor-de-rosa. Uma sirene soou à distância.

O falcão-peregrino macho

estava desperto, pronto para sair à caça. Sellitto expôs um semblante desesperado e disse:

— Ninguém atende.

 

PERCEY recostou-se na

cama, fechando os olhos. Amelia Sachs retirou o copo de bourbon dos seus dedos e apagou as luzes do quarto. Fazendo uma pausa no corredor para olhar a luminosidade do amanhecer, ela se deu conta de que o telefone do hall estava tocando há bastante tempo.

— Por que ninguém

atendia?

Ela não avistou os dois

guardas. O local parecia mais escuro do que estava algum tempo atrás. Esquisito, pensou ela. E que cheiro era aquele?

O telefone tocou

insistentemente, até finalmente interromper-se no meio de um toque. Silêncio. Em seguida, ela ouviu uma pancadinha e algo sendo arrastado.

Entrou no seu quarto e ligou

o comutador. Despindo a blusa, tirou também o volumoso colete à prova de balas. Não tão volumoso quanto o de Jodie, claro. Que figura, o Jodie. Aquele... de que mesmo Dellray o chamava? Esqueleto. Um pobre vagabundo desnutrido. Ela voltou a vestir a blusa e deitou-se sobre a colcha da cama. Fechou os olhos.

"O Dançarino da Morte",

pensou. Como tentaria chegar até eles? Qual seria sua arma? Sua arma mais perigosa é o despistamento.

Sentiu uma necessidade

súbita de falar com Rhyme, para saber se ele descobrira algo. Quase podia ouvi-lo dizer: "Se eu tivesse descoberto algo, já teria ligado. Não falei que daria notícias?" Ainda assim, ela duvidava que ele estivesse dormindo.

Puxou o celular do bolso e

ligou o aparelho. No mesmo instante, ele começou a tocar. Ela atendeu, hesitante.

— Alô?...

— Graças a Deus. — O tom de pânico daquela voz eletrizou-lhe a espinha.

— Oi, Rhyme. O que...

— Ouça com atenção. Está

sozinha?

— Sim. O que houve?

— Jodie é o Dançarino.

Stephen Kall era o despistamento. Jodie o matou. Foi o corpo dele que encontramos no parque.

— Mas como...

— Não dá tempo de

explicar. Ele está pronto para matar vocês todos agora mesmo. Se os policiais já estiverem mortos, pegue Percey e Bell e corram daí. Dellray chamou a SWAT, mas eles vão levar vinte ou trinta minutos.

— Mas temos oito guardas

aqui. Ele não pode matar todos.

— Sachs, lembre-se de

quem é ele. Ligue quando estiverem em segurança. Agora!

Ela correu para a porta,

abriu-a, puxou a arma. O corredor e a sala se estendiam à sua frente. Ela escutou. Um ruído abafado. Um tinido de metal. De onde vinham aqueles sons?

Sachs deslizou para o

quarto de Roland Bell, o mais silenciosamente que pôde. Ele estava cochilando numa poltrona, mas acordou ao ouvi-la entrar.

— Ei, o que houve?

— Jodie é o Dançarino.

Rhyme acabou de ligar.

— O quê? Mas, como?

— Não sei. — Ela deu um

passo para fora do quarto, trêmula de pânico. Onde estão os guardas?

A sala estava vazia. Então

ela reconheceu o odor que a inquietara há pouco. Era sangue. Um cheiro como o de cobre aquecido. Ela compreendeu que os guardas estavam mortos. Puxou a pistola Glock e franziu a testa.

— Ah, não. Meu pente de

balas.

Tinha sumido. Ela apalpou

o cinturão. Os pentes de reserva também não estavam mais lá.

Bell puxou sua Glock e a

Browning. Ambas estavam descarregadas.

— No carro — gaguejou

Sachs. — Ele estava sentado entre nós, mexendo-se o tempo todo.

— Vi um armário com

rifles de caça na sala — disse Bell.

O armário era vagamente

visível à luz do amanhecer. Bell correu para lá, enquanto Sachs ia até o quarto de Percey. A mulher estava adormecida na cama. Sachs fechou a porta e voltou para o corredor.

Bell já vinha de volta.

— Arrombaram o armário.

Os rifles sumiram.

— Vamos acordar Percey e

cair fora daqui.

Ouviu-se um ruído a certa

distância, o clique da trava de segurança de um rifle.

Sachs agarrou a gola do

paletó de Bell e puxou-o para o chão. O estrondo do tiro, quando a bala rompeu a barreira do som exatamente ao passar por sobre eles, foi ensurdecedor. Sachs sentiu um cheiro de queimado vindo de seus próprios cabelos.

Correram para a porta do

quarto de Percey, que se abriu justamente quando os dois vinham chegando; Percey deu um passo para fora, mas Bell jogou-a para dentro com um encontrão. Sachs seguiu os dois, tropeçando, bateu a porta, trancou-a por dentro e correu para a janela, que estava aberta.

— Caiam fora, vamos, já!

Bell ergueu a estonteada

Percey do chão, enquanto tiros sucessivos de um fuzil de grande calibre espatifavam a madeira da porta em torno do fecho de segurança.

Os três se jogaram pela

janela e puseram-se a correr pelo relvado, já claro com a luz da aurora.