Dança com a Morte

Jeffery Deaver · Capítulo 7 de 14

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Dança com a Morte

Capítulo Cinco

CAPÍTULO

CINCO

Hora 5, de 45

 

—E ENTÃO? — perguntou Rhyme.

Lon Sellitto desligou o

celular.

— Ainda não sabem —

respondeu.

O rosto mole e suado do

detetive estava pálido. Considerado uma lenda viva entre os investigadores de homicídios, Sellitto não se deixava abater facilmente. Mas naquele instante seu pensamento estava a quilômetros de distância, no hospital de Westchester, onde Jerry Banks, em estado grave, estava sendo submetido a uma cirurgia. Eram 2:00h da tarde de sábado, e o homem estava na mesa de operação há mais de uma hora.

Sellitto, Sachs, Rhyme e

Cooper estavam no andar térreo da casa de Rhyme, dentro do laboratório. Dellray tinha saído para verificar alguns detalhes de segurança no esconderijo das testemunhas. Agentes do FBI de White Plains tinham trazido Percey e Hale do aeroporto, usando táticas de despistamento. Sachs tinha vasculhado a nova cena do crime: o local onde o atirador se escondera, a van do pintor, o carro no qual o Dançarino fugira do aeroporto — uma van da empresa fornecedora de refeições — e partira imediatamente para Manhattan com os indícios que recolhera.

— Vamos ver o que temos

— disse Rhyme, voltando-se para ela e para Cooper. — Alguma bala do rifle?

Roendo uma unha já desgastada, Sachs respondeu:

— Eram balas explosivas.

— Ela parecia amedrontada; seus olhos estavam irrequietos como passarinhos. Estendeu um saco plástico. -Isto é o que restou de uma delas.

Cooper derramou o

conteúdo do saco numa bandeja de porcelana e mexeu nos fragmentos.

— Balas com ponta de cerâmica. Não há vestígios.

Ouviu-se um ruído na porta

de entrada, e Thom apareceu ao lado de dois agentes do FBI. Por trás deles vinham Percey Clay e Brit Hale. Percey dirigiu-se a Sellitto.

— Como está ele? — Seus

olhos escuros registraram a frieza no olhar dele, mas não se intimidaram. — Quero dizer, Jerry.

Sellitto não respondeu. Foi

Rhyme quem falou.

— Está na mesa de

cirurgia. Ela tinha o rosto contraído.

— Espero que dê tudo

certo.

Amelia Sachs virou-se e

disse com frieza:

— Ah, você "espera"? —

Bem mais alta que Percey, ela deu um passo na direção da outra, que se manteve firme, encarando-a. — Um pouco tarde para isto, não acha? Ele está lá por sua causa.

— Ei, agente —

interrompeu Sellitto.

Sem se alterar, Percey

respondeu:

— Não pedi a ele para

correr atrás de mim.

— Estaria morta, se ele não

o tivesse feito.

— Talvez. Não podemos

saber. Sinto muito se ele foi ferido. Eu...

— Ah, sente muito? Sente

mesmo? O bastante para doar um pouco de sangue? Para empurrar a cadeira de rodas, caso ele não possa mais andar? Para fazer um discurso na hora do enterro?

Rhyme a interrompeu:

— Amelia, vamos devagar.

Não foi culpa dela. O Dançarino se antecipou a nós, e foi só.

Sachs encarou Percey, de

cima a baixo.

— Quando correu para a

linha de fogo, o que imaginou que Jerry iria fazer?

— Olha, eu não imaginei

nada, certo? Apenas tive uma reação.

— Agente — disse Hale

—, ela fez o que qualquer piloto teria feito.

— Exatamente —

completou Rhyme. — É isso que estou dizendo, Sachs. É assim que o Dançarino age.

— Bem, estou me

divertindo muito — disse Percey secamente, dirigindo-se à porta. — Mas tenho de voltar ao aeroporto.

— O quê? — exclamou

Sachs, atônita. — Está maluca?

— Isso é impossível — disse Sellitto, emergindo de seu abatimento.

— Reformar meu avião já

era um problema grande — replicou Percey. — Agora, temos danos a reparar. E como todos os mecânicos de Westchester são uns covardes, pelo que acabei de ver, eu mesma vou ter de fazê-lo.

Não acho que seja uma boa

idéia, Sra. Clay — comentou Sellitto. — Estará protegida no nosso esconderijo, mas, fora dele, não podemos responder pela sua segurança. Vai ter de ficar lá até segunda-feira e...

— Segunda-feira? Oh,

não... Vocês não compreendem. Eu tenho que pilotar aquele avião amanhã à noite, para levar uma carga da US Medical.

— Só uma pergunta —

interrompeu a voz gélida de Amelia Sachs. — Quem mais pretende matar?

Percey deu um passo à

frente e respondeu bruscamente:

— Perdi meu marido ontem

à noite. Não vou perder também a minha empresa. Vocês não podem me dizer aonde posso ir ou não. A não ser que me prendam.

— Muito bem — disse

Sachs. Com um gesto rápido, puxou um par de algemas e as colocou em volta dos pulsos da outra. — Você está presa.

— Sachs — disse Rhyme,

contendo a irritação. — Solte-a. Agora.

Sachs replicou:

— Você é um civil, não

pode me dar ordens. A acusação é "expor-se ao perigo por imprudência". Se Jerry morrer, será "homicídio por negligência".

— Está se metendo num

terreno perigoso, agente — disse Sellitto.

— Amelia! — Rhyme

voltou a adverti-la, com voz fria.

Ela virou-se para encará-

lo. Ele a tratava sempre pelo sobrenome, e ouvir seu nome de batismo na voz dele soou-lhe como uma bofetada.

As correntes nas algemas

de Percey tilintaram. Com voz calma, Rhyme disse:

— Por favor, retire essas

algemas e me deixe a sós com Percey por alguns minutos.

Sachs hesitou. Seu rosto era

uma máscara sem expressão.

— Por favor, Amelia.

Sem uma palavra, ela abriu

as algemas.

 

NO HALL, do lado de fora

do laboratório, Sachs caminhou até a janela e ficou observando as próprias unhas, roídas, estragadas. Costumava colocar bandagens quando uma delas estava muito ferida. "Hábitos", pensou. "Maus hábitos. Por que não paro logo com isso?"

Sellitto postou-se ao lado

dela, contemplando o céu acinzentado. tempestades de primavera se formavam no céu.

— Veja só, agente — disse

ele com suavidade —, tudo bem, ela causou um problema. Mas o nosso erro foi ter permitido que ela causasse esse problema. Não me sinto bem dizendo isto, mas a culpa foi de Jerry.

— Não — disse Sachs. —

Você não entende.

— O quê?

— Eu estraguei tudo. Não

foi culpa de Jerry, nem de Percey.

— Você? Sachs, foram você

e Rhyme que descobriram o Dançarino lá no aeroporto. Se não fosse por vocês, ele teria abatido todos, um a um.

Ela balançou a cabeça.

— Não. Eu vi a posição do

Dançarino antes do tiro que acertou Jerry. Eu tinha um alvo bem preciso. Mas... ele atirou contra mim e me joguei no chão. Tive pelo menos uns três segundos para atirar, porque eu sabia que ele estava recarregando manualmente.

Sellitto fez um muxoxo.

— E daí? Está se achando

culpada porque não ficou de pé e proporcionou um alvo melhor a um atirador de elite? O que é isso, agente! E você queria dar um tiro de trezentos metros com uma Glock 9? Nem sonhando.

— Talvez eu não o

acertasse, mas pelo menos o manteria abaixado.

"Como explicar?", ela se

perguntou. Atirar bem e guiar em velocidade eram as duas coisas de que ela se orgulhava. Ela podia ter salvo Jerry. Podia até ter atingido o assassino.

Estava furiosa consigo

mesma, furiosa com Percey por tê-la colocado naquela situação. E furiosa com Rhyme também.

A porta se abriu e Percey

pediu a Hale que entrasse. Ele desapareceu dentro do laboratório. Alguns minutos mais tarde, ele mesmo abriu a porta e disse:

— Ele está chamando

vocês todos.

Quando Sachs entrou,

Percey estava sentada numa velha poltrona, perto de Rhyme. Por um instante, Sachs teve a sensação ridícula de que os dois eram um casal, marido e mulher.

— Chegamos a um acordo

— anunciou Rhyme. — Brit e Percey irão para o esconderijo de Dellray. Talbot fará os consertos no avião. Garanti a ela que poderá fazer o voo amanhã à noite, tenhamos ou não capturado o Dançarino.

— E se eu simplesmente a

levar presa? — perguntou Sachs, irritada.

— Não creio que seja uma

boa idéia — disse Rhyme. — Ela ficará ainda mais exposta: ser levada à corte, depois à detenção, uma porção de transportes... O Dançarino teria muito mais chances para alcançá-la.

Amelia Sachs hesitou,

depois deu-se por vencida, assentindo com um gesto de cabeça. Rhyme tinha razão, como geralmente acontecia. Mas, com ou sem razão, as coisas sempre eram feitas do modo que ele queria. Ela era uma assistente, mais nada. Uma funcionária. Não passava disso aos olhos dele.

Rhyme prosseguiu:

— Minha idéia é a seguinte.

Percey e Hale irão para o esconderijo. Mas precisamos preparar uma cilada, e vou precisar de você, Lon.

Sellitto inclinou-se para

diante.

— Tem certeza disso,

Lincoln?

Os olhos de Rhyme

viraram-se para Percey. Os dois trocaram um olhar cujo significado Sachs não entendeu, mas que não a deixou satisfeita.

— Sim — disse Rhyme. —

Tenho certeza.

— Muito bem — disse

Sellitto. — Pode falar.

 

AOS OLHOS de Percey

Clay, o esconderijo na rua 35 não pareceu particularmente seguro. Era uma casa de três andares em tijolos marrons, como tantas outras naquele quarteirão, próximo à Biblioteca Morgan.

Estacionaram no beco ao

lado, e ela e Hale foram levados às pressas para dentro, pela entrada do porão. A porta de aço foi fechada e trancada por dentro. Os dois se viram diante de um homem de trinta e tantos anos, esguio, com cabelos castanhos que começavam a rarear. Ele sorriu.

— Olá — disse, mostrando

sua identidade da polícia de Nova York.

— Sou Roland Bell. De

agora em diante, peçam esta identificação a qualquer pessoa que virem, mesmo que seja um cara tão simpático quanto eu.

Ouvindo seu sotaque,

Percey perguntou:

— Não me diga que você é

da Carolina do Norte.

— Sem dúvida. — Ele riu.

— Sou de Hoggston. Morei quatro anos em Chapel Hill. Pelo que me disseram, você é de Richmond.

— Era. Há muito tempo.

— E o senhor, Sr. Hale?

— Michigan — respondeu

Hale, apertando a mão do detetive.

— Muito bem. Sou detetive

na seção de homicídios, mas estou trabalhando na proteção de testemunhas porque tenho um talento especial para manter pessoas vivas. Portanto, serei a babá de vocês por algum tempo. Por favor, lembrem-se de que tudo que eu lhes pedir para fazer é para o bem de vocês, certo? Agora, vamos ver as acomodações de luxo onde vocês vão ficar.

Enquanto subiam as

escadas, Bell continuou:

— Nossos amigos no

Departamento de Justiça sabem o que fazem. Aquelas janelas da frente não parecem muito seguras vistas de fora, não é mesmo? Bem, aqui temos nossa sala da frente. Dêem uma olhada.

Não havia janelas. Placas

de aço tinham sido colocadas sobre elas, pelo lado de dentro.

— Da rua, parecem apenas

janelas às escuras — explicou Bell. — Todas as outras janelas têm vidro à prova de bala. Mas mesmo assim convém ficarem afastados delas e manterem as persianas corridas. A saída de incêndio e o teto estão cheios de sensores, e temos câmeras de vídeo por toda parte. Só um fantasma com anorexia poderia se infiltrar aqui. — Ele caminhou através de um salão, apontando. — Seu quarto fica ali, Sra. Clay.

— Já que vamos morar

juntos por um tempo, pode me chamar de Percey.

— Tudo bem. E o seu é

aquele outro...

— Brit.

Os quartos eram pequenos,

sombrios, silenciosos. Bell disse algo no seu walkie-talkie, e um instante depois dois policiais uniformizados apareceram no corredor.

— Eles vão estar aqui 24

horas por dia. Se precisarem de algo, é só chamar.

— Para falar a verdade,

estou precisando de algo — disse Percey, mostrando seu frasco metálico.

— Bem — disse Bell —,

se precisa de mim para ajudar a esvaziá-lo, sinto muito, estou em serviço, mas agradeço. Se quiser ajuda para enchê-lo, não há problema.

 

DEPOIS de conversar com

Sellitto, Rhyme — juntamente com Sachs e Cooper — repassou os indícios colhidos na cena do crime.

— Isto é do hangar onde ele

esperou pelo avião — disse Sachs, erguendo um saco plástico. Ela e Cooper espalharam o material sobre uma larga folha branca, com a ajuda de pincéis e, colocando óculos de aumento, começaram a examiná-lo. Cooper usou uma pinça para recolher vários fragmentos e colocá-los à parte. — Acho que encontramos fibras.

Um momento depois,

Rhyme estava examinando os fios minúsculos na tela do computador.

— O que acha disso, Mel?

Papel, não é?

— Sim.

Falando ao microfone,

Rhyme ordenou ao computador uma varredura nas imagens microscópicas.

— Parece que são de dois

tipos. Um parece branco, ou amarelo-claro. O outro tem um tom de verde.

— Verde? Será dinheiro?

— sugeriu Sachs.

— Tem o bastante para

passar no espectrômetro, Mel? — pediu Rhyme.

Cooper disse que sim e pôs

mãos à obra. Examinou a tela.

— Não há traços de algodão nem de soda cáustica; deve ser papel barato. E a tinta não é de óleo, é solúvel em água.

— Então não é dinheiro —

concluiu Rhyme. Voltou a ampliar a imagem na tela. Os detalhes já começavam a se perder quando avistou algo. — Essas manchas amarelas, Mel. O que é isso? Cola?

O técnico aplicou o olho ao

microscópio.

— Sim. Cola de envelope,

eu diria.

Então algo fora entregue ao

Dançarino da Morte num envelope branco — um bilhete, talvez. Mas o que seriam aquelas fibras verdes? Sachs, que tinha acabado de fazer uma ligação, aproximou-se.

— Ron Talbot, da Hudson

Air, disse que foi Philip Hansen quem alugou aquele hangar — anunciou ela. — Nosso cerco está se fechando.

Ótimo, pensou Rhyme.

Embora o seu objetivo não fosse propriamente levar o Dançarino da Morte a um tribunal com uma porção de provas esmagadoras. O que ele queria era a cabeça do canalha fincada num poste.

— Muito bem. Vamos ver

as outras amostras.

Rhyme guiou a cadeira para

junto do computador e pediu-lhe para ampliar as imagens do contador de tempo encontrado nos destroços do avião de Carney. Tinha a vaga esperança de deparar com uma impressão digital, mesmo parcial. Quem fabrica uma bomba em geral imagina que suas impressões são destruídas pela explosão, e prefere trabalhar sem luvas ao montar os componentes mais delicados. Mas a explosão em si não destrói necessariamente todas as marcas. Rhyme pediu a Cooper para girar a posição do contador na imagem do SuperGlue e, quando constatou-se que aquilo nada revelou, pediu-lhe que espalhasse pó magnético sobre ele. Nenhum resultado.

Por fim, ele solicitou que a

amostra fosse bombardeada por um leixe de lasers, a técnica mais recente para revelar impressões quase invisíveis, e manteve os olhos fixos no monitor.

De repente, soltou uma

gargalhada. Apertou os olhos, examinou novamente.

— Mas será que... Veja,

Mel. No canto inferior direito.

Cooper não conseguiu

avistar coisa alguma. Sachs tampouco.

A imagem ampliada do

computador de Rhyme tinha encontrado algo que o microscópio óptico de Cooper deixara passar. Na lingueta de metal que tinha protegido o contador, evitando que fosse reduzido a migalhas, havia um leve crescente de estrias, riscos entrecruzados e bifurcações. A marca não tinha mais que O,15cm de largura, e talvez a 1,2cm de comprimento.

— É uma digital — disse

Rhyme, enquanto Cooper se aproximava para examinar melhor a imagem.

— Não há o bastante para

proporcionar uma comparação — disse ele, os olhos fitos na tela.

Existe um total de 150

características individuais nas estrias em uma única impressão digital, mas um especialista consegue demonstrar que duas impressões são iguais usando apenas de 8 a 16 detalhes coincidentes. Infelizmente, aquela imagem não tinha elementos suficientes. Mesmo assim, Rhyme estava animado. O criminalista incapaz de apertar o botão de um microscópio comum tinha encontrado algo que passara despercebido aos demais. Algo que ele provavelmente não teria percebido, caso fosse "normal".

Imprimiu uma cópia e pediu

a Thom para pendurá-la no mural, junto a uma folha de papel com as palavras fibras verdes.

— RON, é Percey. Como

vai tudo aí?

— Ainda estamos chocados

— disse ele. — Como está Brit?

— Brit está furioso, eu

estou furiosa. Que confusão. Oh, Ron.

— E o detetive, o tal que

foi ferido?

— Não sabem ainda. Como

está o Foxtrot Bravo?

— Podia ter sido mais

grave. Já substituí a janela da cabine. Não houve fendas na fuselagem. Temos de repor parte da cobertura. Estamos tentando encontrar outro extintor de incêndio, mas acho que não haverá problema.

— O que mais?

— O combustor vai ter de

ser substituído.

— O combustor? Substituir? Oh, não.

— Liguei para o setor de

distribuição da Garrett, em Connecticut. Eles concordaram em entregar um amanhã, mesmo sendo domingo. Posso fazer a instalação em duas ou três horas.

— Eu devia estar aí —

murmurou ela. — Falei a eles que iria ficar quieta, mas...

— Onde você está, Percey?

E Stephen Kall, que escutava a conversa, estava pronto para anotar o endereço. Apertou o receptor à orelha e esperou. Mas a Esposa disse apenas:

— Em Manhattan. Eles têm

uns mil policiais à nossa volta. Estou me sentindo como o papa, ou o presidente.

Ron perguntou:

— Eles vão pegar esse

cara? Têm alguma pista?

"Sim, será que têm?",

pensou Stephen.

— Não sei — disse ela.

Enquanto escutava o

diálogo, Stephen observava o laptop aberto à sua frente. Uma mensagem dizendo Por favor, espere piscava sem parar na tela. O grampo fora conectado a uma caixa de distribuição da Bell Atlantic, perto do aeroporto, e através dele Stephen vinha gravando todas as conversações do escritório da Hudson Air desde a semana anterior. O fato de a polícia ainda não ter descoberto esse grampo o deixava surpreso.

— Tenho procurado outros

pilotos — disse Ron, pouco à vontade.

— Só precisamos de um.

Um co-piloto. Eu vou fazer esse voo. Uma pausa.

— Você? Não acho uma boa idéia, Percey. Pensei que fosse ficar escondida até o grande júri.

— Lincoln concordou em

me deixar fazer o voo, se eu ficar aqui até amanhã.

— Quem é Lincoln?

Sim, pensou Stephen. Quem

é Lincoln?

— Bem, é aquele sujeito

esquisito que... — A Esposa hesitou, como se quisesse dizer algo sobre ele, mas não soubesse exatamente o quê. Stephen ficou desapontado quando ela disse apenas: — Ele trabalha junto com a polícia, tentando pegar ao assassino.

— Percey, nós podemos

adiar esse voo. Posso falar com a US Medical.

— Não — disse ela. —

Eles não vão aceitar mais desculpas. Se não pudermos fazer o voo, eles vão contratar alguém. Quando vão entregar a carga?

— Às 6:00h, 7:00h, por aí.

— Estarei aí no fim da

tarde. Vou ajudar você com o combustor.

— Percey... — A

respiração de Ron Talbot era sibilante. — Tudo vai acabar bem.

— Se consertarmos o avião

a tempo, tudo vai ficar ótimo.

— Você deve estar

passando por maus momentos — disse ele.

— Não tanto — disse

Percey.

Ainda não, Stephen

completou, silenciosamente.

 

SELLITTO SURGIU à

porta e todos os olhos se voltaram para ele.

O detetive deu um suspiro.

— Ele vai escapar. Mas

perdeu o braço. Estava muito mutilado. Não deu para salvá-lo.

— Oh, não — sussurrou

Rhyme. — Posso falar com ele?

— Não — disse o detetive.

— Está sedado.

Rhyme pensou no jovem

policial, lembrou do modo como ele ajeitava o topete, como acariciava a antiga cicatriz de navalha no queixo delicado.

— Sinto muito, Lon —

disse.

O detetive fez um gesto com

a cabeça, semelhante ao que Rhyme fazia para minimizar atitudes de simpatia.

— Temos outras coisas com

que nos preocupar — disse ele.

De fato. Rhyme e Sachs

olharam para o quadro-negro onde estavam anotados os principais indícios recolhidos. Estavam repassando tudo, minuciosamente, porque esse era o método de trabalho. Mas Rhyme sentia-se frustrado.

Edmond Locard, o famoso

criminalista francês, dizia que toda vez que o criminoso e a vítima entram em contato há uma troca de indícios entre os dois. Indícios microscópicos, às vezes, mas sempre a transferência de algo, de um para o outro. Agora, Rhyme tinha a impressão de que se havia alguém capaz de desmentir o Princípio de Locard, esse alguém era o Dançarino da Morte.

Fechou os olhos e apoiou a

cabeça no encosto da cadeira. Um instante depois, ouviu-se a voz de Thom.

— São quase 11:00h. Hora

de ir para a cama.

Às vezes é fácil minimizar as necessidades do corpo, até mesmo esquecer que temos um corpo — ocasiões em que é preciso transcender as limitações físicas e trabalhar além da própria resistência. Mas Lincoln Rhyme tinha um corpo que não podia ser esquecido. Escaras podiam levar a envenenamento do sangue. Secreções nos pulmões podiam causar pneumonia. A mera exaustão física podia provocar um derrame.

Há muitas maneiras de

morrer.

— Vamos para o quarto —

disse Thom.

— Mas eu tenho de...

— Dormir. Você tem de

dormir.

Rhyme cedeu. O Dançarino

provavelmente nada tentaria antes da manhã seguinte. Além disso, Rhyme admitia que estava exausto.

— Tudo bem, Thom. — Ele

guiou a cadeira rumo ao elevador, mas voltou-se no meio do caminho. — Só mais uma coisa... Sachs, poderia subir daqui a alguns minutos?

Ela concordou e ficou

observando a porta do pequeno elevador fechar-se

automaticamente.

 

SACHS esperou dez minutos, dando tempo a Rhyme para se preparar. Ela estava acostumada à maneira sem-cerimônia com que ele se expressava — como a maioria dos inválidos, ele ligava pouco para certas convenções de comportamento. Mas ela também sabia que havia certos rituais domésticos que ele preferia executar sem testemunhas. Resolveu aproveitar aquele intervalo para tomar uma chuveirada, no andar térreo, e trocar de roupa.

Quando subiu, encontrou

Rhyme deitado em sua cama Clinitron. O quarto estava à meia-luz. Rhyme esfregava a cabeça de encontro ao travesseiro, como um urso cocando as costas no tronco de uma árvore. A Clinitron era a cama mais confortável do mundo. Era um bloco maciço de cerca de meia tonelada, recheado com minúsculas esferas de vidro, entre as quais o ar aquecido circulava.

— Ah, Sachs. Você

trabalhou bem hoje.

"Sim, exceto pelo fato de

que por minha culpa Jerry Banks perdeu um braço. E o Dançarino conseguiu fugir."

Ela caminhou até o bar e

serviu-se de uma dose de Macallan. Olhou para Rhyme, erguendo uma sobrancelha.

— Aceito — disse ele. —

Um pouco de leite materno. O orvalho do nepente.

Ela descalçou os sapatos e

foi até a janela. Lá estavam os falcões-reais. Belas aves. Não eram muito grandes — teriam entre trinta e quarenta centímetros. Minúsculos, se comparados a um cão. Mas para um pássaro, eram ameaçadores. Seus bicos eram como as garras do monstro da série de filmes Alien.

— Você está bem, Sachs?

Fale a verdade.

— Sim, estou.

— Quer passar a noite

aqui?

Sachs nunca dormia tão

bem quanto nas noites que passava lá. Nunca se sentira tão à vontade na companhia de um homem, desde o seu último namorado, Nick. Ela e Rhyme costumavam deitar lado a lado e conversar. Ela lhe contava sobre as competições de tiro, sobre sua mãe, sua afilhada, sobre seu pai — a vida produtiva que ele tivera e sua morte lenta e dolorosa. Ela falava sobre assuntos pessoais muito mais do que ele. Mas tudo bem. Gostava de ouvir qualquer coisa que ele estivesse disposto a dizer; sua mente jamais deixava de surpreendê-la.

Ele lhe contava histórias

antigas de Nova York, falava sobre crimes da máfia dos quais o resto do mundo jamais tomara conhecimento, sobre cenas de crimes tão sem vestígios que parecia não haver qualquer esperança até que era encontrada uma simples partícula de poeira, um respingo de saliva, o cabelo ou a fibra de tecido que incriminava o suspeito — ou melhor, que revelava a identidade dele a Rhyme e a mais ninguém. Não... a mente dele jamais cessava de trabalhar. Sachs sabia que, antes de ser imobilizado, ele percorria as ruas de Nova York à cata de amostras de solo, ou de plantas, ou de rochas — qualquer coisa que pudesse ajudá-lo a solver um caso. Era como se toda a inquietação física tivesse se transferido das suas pernas inúteis para o seu cérebro, que passava a noite percorrendo a cidade, mesmo que só na imaginação.

Mas, naquela noite, havia

algo diferente. Rhyme estava distraído. Ela não ligava para seu mau humor, o que era uma sorte, porque era algo a que Rhyme recorria com frequência. Mas não gostava quando o sentia ausente.

Sentou-se na borda da

cama.

Rhyme começou a

conversar; aparentemente, era aquele o motivo pelo qual a chamara.

— Sachs, Lon me contou o

que aconteceu no aeroporto.

Ela encolheu os ombros, e

ele prosseguiu:

— Não havia nada que

você pudesse fazer, a não ser levar um tiro também. Você agiu certo: tentou se proteger. Ele deu o primeiro tiro para calcular o desvio; não tenha dúvida de que teria acertado você no segundo.

— Eu tive dois ou três segundos para responder. Podia tê-lo acertado.

— Não seja teimosa, Sachs.

O fervor nos olhos dela o

silenciou.

— Quero pegá-lo, custe o

que custar — disse ela. — E tenho a impressão de que você também quer, tanto quanto eu. E você também estaria disposto a correr riscos. — Ela fez uma pausa e completou, com segunda intenção: — Talvez você esteja correndo riscos.

Esta frase provocou em

Rhyme uma reação maior do que ela esperava. Ele piscou, virou a cabeça para o outro lado. Não disse nada, porém; limitou-se a tomar um pouco de scotch pelo canudinho.

Movida por um impulso,

ela indagou:

— Posso lhe fazer uma pergunta? Se não quiser responder, tudo bem.

— Vá em frente, Sachs.

Segredos, entre nós dois? Acho difícil.

Com os olhos baixos, ela

falou:

— Lembro que certa vez

falei a você sobre Nick. Como eu me sentia, e como foi duro o que acabou acontecendo entre nós.

Ele assentiu e ela continuou:

— E eu perguntei se você

já tinha se sentido daquele modo em relação a alguém, talvez a Blaine, sua esposa... E você disse que sim, mas não com ela.

Ela ergueu os olhos para

Rhyme.

Ele se refez depressa, mas

não o bastante. E ela percebeu que tinha lotado num nervo exposto.

— Lembro, sim — disse

ele.

— Quem era ela? Olhe, se

você não quiser falar sobre isso...

— Não me importo. O

nome dela era Claire. Claire Trilling.

— Como vocês se

conheceram?

— Bem... — Ele riu diante

de sua própria relutância em continuar. — Lá no departamento.

— Ela era policial? —

Sachs estava surpresa. — E o que houve?

— Era uma relação

complicada. — Rhyme abanou a cabeça. — Eu era casado. Ela era casada. Só que não éramos casados um com o outro.

— E então se separaram?

— Não teria dado certo,

Sachs. Blaine e eu estávamos fadados a nos divorciar, ou acabaríamos nos matando um ao outro. Mas Claire... ela se preocupava com a filha pequena, achava que o pai poderia pedir a custódia da garota caso eles se divorciassem.

— Você ainda a vê? Claire?

— Não. É coisa do

passado. De qualquer modo, ela não trabalha mais na polícia.

— Vocês terminaram

depois do seu acidente?

— Não, não, foi antes.

— Mas ela soube que você

se acidentou?

— Não — disse Rhyme,

depois de outra hesitação.

— Por que não disse a ela?

Uma pausa.

— Houve uma série de

motivos. Engraçado, você lembrar disso hoje. Há anos que não penso nela.

Ele deu um sorriso casual e

Sachs sentiu uma dor percorrê-la de cima a baixo, porque era evidente que ele mentia. Claro que ele tinha estado pensando nessa mulher. Ela tinha certeza. Sachs não acreditava em intuição feminina, mas acreditava, e muito, em intuição de detetive.

Claro que era ridículo

sentir o que estava sentindo. Não era ciumenta e não tolerava o ciúme. Nunca sentira ciúmes do trabalho de Nick, que era agente secreto da polícia, e passava semanas inteiras circulando pelas ruas. Tampouco das prostitutas louras com quem ele era obrigado a conviver durante suas missões.

E, além de ficar enciumada,

que mais podia esperar em relação a Rhyme? Por diversas vezes ela tinha conversado com a mãe a respeito dele. Ela geralmente fazia um comentário sarcástico do tipo: "E tão bom tratar bem os aleijados..." E isto resumia tudo o que a relação entre os dois poderia vir a ser.

Era mais do que ridículo...

mas ela estava, sim, enciumada. E não eram ciúmes de Claire, e sim de Percey Clay. Percey não era uma mulher atraente; isso, no entanto, não queria dizer nada: Sachs não conseguia esquecer o modo como ela e Rhyme tinham-se olhado naquela tarde, sentados lado a lado.

Tomou outro gole do

uísque. Pensou nas noites que ela e Rhyme tinham passado ali, falando sobre casos antigos e bebericando aquele destilado excelente.

"Que beleza", pensou ela.

"Agora estou piegas. Que sentimento maduro!"

— Quer mais um pouco? —

perguntou ela, servindo-se de outra dose.

— Não.

Quase sem pensar, deitou-

se ao lado dele, pousando a cabeça sobre o travesseiro. "É engraçado como nos acostumamos com as coisas", refletiu. Rhyme não podia, é claro, pousar a cabeça dela sobre o peito e passar o braço em volta dos seus ombros. O gesto equivalente era inclinar a cabeça na direção da sua. Nesta posição, os dois tinham adormecido inúmeras vezes.

Naquela noite, contudo, ela

sentia uma certa tensão, uma certa cautela por parte dele. Sentiu que o estava perdendo. E tudo que conseguia pensar era em tentar reaproximar-se. Fragmentos das palavras dele flutuaram pela sua memória, enquanto ele falava sobre Claire e depois sobre o Dançarino. Ela virou a cabeça na direção do rosto de Rhyme e observou seus lábios. Beijou-o na face, depois no canto da boca, depois pousou os lábios em cheio sobre os dele.

— Sachs, não... Escute...

Não — disse ele, mas ela não lhe deu ouvidos.

Sachs jamais comentara

com Rhyme, mas alguns meses atrás comprara um livro intitulado OAmante Inválido. Ficara surpresa ao descobrir que mesmo um tetraplégico pode fazer amor e ser pai de uma criança. Claro que não pode experimentar sensações físicas, mas ela considerava essas sensações apenas parte de algo muito maior. Era a proximidade que tinha importância. E ela desconfiava que Rhyme devia sentir o mesmo.

Beijou-o novamente. Com

mais intensidade.

Depois de uma leve

hesitação, ele retribuiu o beijo. Ela não se surpreendeu ao ver como ele beijava bem. A primeira coisa que notara nele, depois dos olhos escuros, fora os seus lábios perfeitos.

E então ele afastou o rosto.

— Não, Sachs.

— Pssst... Quieto.

— Mas é que...

É o quê?, pensou ela. Que

pode não dar certo? Estava indo tudo bem. Oh, como ela queria estar ali, face a face, o mais perto possível dele. Queria fazê-lo entender que era o homem perfeito para ela. Que ela o considerava um homem completo. Soltou o cabelo e deixou-o cair sobre Rhyme, beijando-o novamente. Ele retribuiu. Os dois ficaram com as bocas coladas durante o que pareceu a ela um minuto inteiro. Mas, de súbito, ele abanou a cabeça bruscamente, afastando-se.

— Não — sussurrou.

Ela tinha esperado uma

ironia, tinha esperado uma reação apaixonada, na pior das hipóteses um comentário brincalhão. Mas o "não" soou fraco, vazio, e ouvir a voz dele soar daquela forma a feriu bem no fundo da alma.

Seu rosto enrubesceu de

vergonha. A única coisa que lhe veio à mente foram as numerosas vezes em que tinha saído com algum homem que considerava um amigo e de repente ele começava a tentar boliná-la como um adolescente. Naquelas horas, a voz dela vinha carregada da mesma decepção que ela reconhecia agora na de Rhyme. Entendeu por fim que era isso que ela significava para ele.

Uma colega. Uma parceira.

Uma amiga com "A" maiúsculo.

— Sinto muito, Sachs, mas

não posso. Há... complicações.

Complicações? Não havia nenhuma que ela pudesse detectar.

Exceto, é claro, o fato de

que ele não a amava.

— Sinto muito — disse ela,

bruscamente. — Que estupidez. Acho que tomei muito uísque. Você sabe, não tenho muita resistência.

Ela tinha um sorriso formal

no rosto ao erguer-se da cama.

— Sachs, preciso falar uma

coisa.

— Não.

Ela não queria ouvir mais

nem uma palavra. Queria sumir dali.

— Sachs...

— Tenho de ir agora. Volto

amanhã cedinho.