Dança com a Morte
Capítulo Seis
CAPÍTULO
SEIS
Hora 22, de 45
O CHEIRO DE café tomava a casa inteira.
O sol tinha acabado de
nascer, e eles estavam planejando uma estratégia para pegar o Dançarino da Morte numa armadilha.
Será que funcionaria? Ele
se deixaria apanhar na cilada? Rhyme achava que sim. Mas havia uma outra questão. Que tipo de problema isto iria trazer-lhes? O Dançarino já era bastante perigoso em seu próprio território. Como reagiria, quando encurralado? Olharam o mapa tático preparado por Dellray.
— Está todo mundo em
suas posições? — perguntou Rhyme.
Sim. Tanto as unidades do
Serviço de Emergência 32-E quanto os agentes da SWAT do FBI, sob o comando de Dellray, estavam a postos. Tinham se deslocado para o local durante a noite, através de esgotos, porões e telhados de edifícios, usando uniformes de camuflagem urbana. Rhyme estava convencido de que o matador estava rondando o esconderijo das testemunhas.
— Tem certeza de que ele
está indo para lá, Linc? — perguntou Sellitto.
Certeza?, pensou Rhyme,
irritado. Quem poderia ter certeza de alguma coisa com o Dançarino da Morte? Sua arma mais poderosa é o despistamento.
Ele respondeu acidamente:
— Sim. Tenho 92,7% de
certeza.
Sellitto soltou uma risada breve e sarcástica.
Nesse instante a campainha
soou. Um momento depois, surgiu na porta um homem de meia-idade, atarracado, que Rhyme não conhecia. O suspiro que Dellray soltou ao vê-lo era indício de problemas.
O homem se identificou
como Reginald Eliopolos, assistente do procurador de justiça no Distrito Sul de Nova York. Rhyme lembrou-se, então: era o promotor encarregado do caso Philip Hansen.
— Você é Lincoln Rhyme?
Hum-hum... Ouvi boas coisas a seu respeito — disse ele, dando um passo à frente. — Fred, é bom falar com você. Ouvi dizer que vocês estão montando uma grande operação aqui. Sem consultar o pessoal lá de cima, mas, bem, eu sei como é lazer essas coisas de improviso. — Ele caminhou até o microscópio, aplicou o olho ao visor e resmungou, embora fosse um mistério para Rhyme o que ele pudesse estar enxergando ali, já que o equipamento estava desligado.
— Talvez você pudesse...
— começou Rhyme.
— Entrar logo no assunto
da nossa caçada? — Eliopolos girou nos calcanhares para encará-lo. — Claro, agora mesmo. Temos um veículo blindado em nossa garagem, aqui na cidade. Daqui a uma hora, quero as testemunhas no caso Hansen dentro dele. Percey Clay e Brit Hale. Eles irão para a área de proteção federal de Shoreham, em Long Island. Ficarão lá até a hora de prestar testemunho. Fim da caçada. Que tal?
— Acha que é uma boa
idéia?
— Acho, sim. Nós achamos
isto mais sensato do que usar as testemunhas como isca numa vingança pessoal do Departamento de Polícia de Nova York.
Sellitto suspirou.
Eliopolos mantinha a
atenção voltada para Rhyme.
— Diga-me... Vocês
pensaram mesmo que ninguém se lembraria de que este é o assassino que matou dois dos seus técnicos, cinco anos atrás?
Bem, hum, Rhyme de fato tinha esperanças de que ninguém se lembrasse. E agora que não tinha passado em branco, ele e sua equipe estavam navegando em águas turbulentas.
— Mas, calma, calma —
prosseguiu Eliopolos. — Não precisamos começar uma guerra interna. Para quê? Tudo que nós queremos é Hansen.
Para falar a verdade,
Rhyme já nem lembrava mais da existência de Philip Hansen, e ao ouvir o nome dele entendeu por fim quais as intenções de Eliopolos.
— Vocês têm alguns agentes
bons lá em Shoreham, não é? — perguntou, num tom inocente. — Explicou a eles o quanto o Dançarino é perigoso?
Uma pausa.
— Conversei com eles,
sim.
— E quais são as instruções deles?
— Instruções — ecoou
Eliopolos. Ele não era bobo.
Rhyme deu uma risada e
olhou para Sellitto e Dellray.
— Estão vendo? Nosso
amigo promotor tem três testemunhas para derrubar Hansen. Ele tem Percey, tem Hale... e tem o próprio Dançarino. Ele está usando Percey como isca, também.
— A única diferença — riu
Dellray — é que ele vai colocá-la numa armadilha.
— O que vocês de fato
estão pensando — prosseguiu Rhyme, dirigindo-se ao promotor — é que o caso que têm contra Hale não é suficiente, seja lá o que for que Percey e Hale tenham visto.
Eliopolos tentou a tática da
franqueza.
— Bem, eles na verdade
nem viram Hansen. E mais duas coisas: primeira, talvez não encontremos os tais sacos de lona e, segunda, talvez os indícios estejam inutilizados.
Sellitto interveio:
— Mas se vocês pegarem o
assassino contratado por Hansen, ele poderá ser usado para derrubar o patrão. Que tipo de atenuante vocês lhe ofereceriam?
— Não sei. Isto não chegou
a ser discutido.
— Tem um mandado? —
perguntou Rhyme.
— Achei que vocês
estariam dispostos a cooperar.
— Não, não estamos.
— Hum-hum. Estou vendo.
Posso conseguir um mandado de custódia e proteção em três ou quatro horas.
"Num domingo de manhã?",
cismou Rhyme.
— Não vamos entregar as
testemunhas — declarou ele. — Façam o que quiserem.
QUANDO acordou ao
amanhecer, naquela casa lúgubre que lhe servia de esconderijo, Percey Clay levantou da cama e foi até a janela. Afastou a cortina e olhou para o céu cinza de tom uniforme. Havia ainda um pouco de névoa no ar. Vento 090 a cinco nós, calculou ela. Visibilidade de um quarto de milha. Tinha esperanças de que o tempo melhorasse para o voo daquela noite. Claro que ela estava acostumada a pilotar com qualquer tempo, mas gostava de ver a paisagem passando lá embaixo. As luzes noturnas. As nuvens. E, por cima de tudo, as estrelas. Todas as estrelas da noite...
Percey pensou novamente
em Ed e no telefonema que dera para a mãe dele em Nova Jersey, na noite anterior. Tinham feito planos para o funeral. Ela gostaria de poder se dedicar mais a essa tarefa — ajudar a preparar a lista de convidados, planejar a recepção. Mas era impossível. Sua mente estava preocupada. Apoiou a testa na vidraça, pensando. Muita coisa para fazer. Terminar o conserto do Foxtrot Bravo. Preparar o plano de voo.
— Ei! — disse uma voz
simpática, com forte sotaque. Ela virou-se e viu Roland Bell à porta.
— Bom dia — disse ela.
Ele entrou no quarto com
passos rápidos.
— Se for para abrir essas
cortinas, melhor ficar deitada, como se fosse um bebê — disse ele, voltando a fechá-las.
— Oh, ouvi dizer que o
detetive Rhyme está preparando uma espécie de armadilha. Eles têm certeza de que vai funcionar.
— Bem, dizem que Lincoln
Rhyme geralmente sabe o que faz. Mas eu não tenho a menor confiança nesse pistoleiro. — Ele espreitou para fora através de uma fresta e virou-se para ela. — E agora, que tal um pouco de café?
UMA DÚZIA de nuvens
bojudas refletiam-se nas vidraças da velha casa em Manhattan, no começo daquela manhã de domingo.
Havia uma ameaça de
chuva.
A Esposa estava de pé junto
à janela, de roupão, o rosto branco rodeado por cabelos em desalinho.
E Stephen Kall, a um
quarteirão de distância do esconderijo do Departamento de Justiça, na rua 35, misturava-se às sombras sob a caixa-d'água de um velho prédio de apartamentos, observando-a através de um binóculo Leica, vendo os reflexos das nuvens deslizarem sobre o seu corpo delgado. Ele sabia que aquela vidraça era à prova de bala e certamente amorteceria o primeiro tiro.
"Senhor, seguirei o meu
plano inicial, senhor."
Um homem apareceu ao
lado dela e a cortina foi fechada. Em seguida, o rosto dele surgiu numa fresta da janela, os olhos esquadrinharam os telhados próximos, o lugar mais lógico onde um atirador estaria postado. Parecia eficiente e perigoso.
Stephen agachou-se por trás
da amurada do edifício.
Depois de escutar a
conversa entre a Esposa e Ron através do grampo telefônico, ele aplicara à ligação um programa clandestino que baixara da Internet. O programa forneceu-lhe o número que ligara: um telefone com prefixo 212. Manhattan. O que ele fez a seguir foi um mero tiro no escuro.
"Mas como é que se
ganham tantas batalhas, soldado?"
"Considerando todas as possibilidades, por mais improváveis que sejam, senhor."
Ele se conectou à rede e
num instante estava digitando o número do telefone num catálogo invertido, onde, através do número, se obtêm nome e endereço do assinante. O catálogo não incluía telefones fora da lista; Stephen tinha certeza de que ninguém no governo seria tão estúpido a ponto de usar num esconderijo um telefone registrado na listagem.
Mas ele estava errado. Na
tela do computador surgiu o nome: James L. Johnson, Rua 35, 258 East. Ligou para o edifício Federal de Manhattan, pediu para falar com James Johnson e desligou quando a ligação começou a ser transferida.
Agora estava ali, a um tiro
de revólver de distância do prédio onde a Esposa e o Amigo se ocultavam. Pensando no serviço que tinha para executar, tentando esquecer o paralelo óbvio: o rosto na janela, a observá-lo.
Um pouco intimidado
apenas. E uma leve sensação de ter vermes rastejando sobre a pele.
A cortina se fechou.
Stephen voltou a examinar a casa.
Era uma casa de tijolos,
separada das duas casas vizinhas. Um beco rodeava a estrutura, como um fosso. A saída de incêndio era real, mas olhando com cuidado era possível ver que por trás das janelas e das cortinas cerradas tudo estava escuro. Provavelmente havia chapas de aço pelo lado de dentro. Ele localizou a verdadeira saída de incêndio — por trás de um enorme cartaz de peça de teatro preso à parede lateral. Localizou também as lentes das câmeras de segurança. Ainda assim, o beco tinha numerosos sacos de lixo e alguns contêineres de metal. Ele podia saltar através de uma janela do edifício de escritórios ao lado e usar um dos contêineres como abrigo enquanto preparava uma investida contra a saída de incêndio. Na verdade, havia uma janela aberta no andar térreo do edifício de escritórios: uma cortina esvoaçava para fora e para dentro. Quem estivesse monitorando as câmeras, no interior da casa, já teria se acostumado àquele movimento. Stephen poderia pular a janela, a dois metros do chão, correr para trás do contêiner e rastejar para a saída de incêndio.
"Avaliar as possibilidades,
soldado."
"Senhor, estou notando a
ausência de um grande número de homens para manobras táticas. Minha conclusão é que o ataque de uma única pessoa tem boas possibilidades de sucesso."
A despeito desse otimismo
inicial, ele voltou a experimentar aquela sensação de abatimento e a imaginar Lincoln, o Verme, rastejando a sua procura. Uma enorme coisa rombuda, uma larva, úmida da gosma dos vermes, com a linfa escorrendo das aberturas.
Subindo-lhe pela perna.
Cravando-lhe os dentes na carne.
"Arranquem isso daqui.
Arranquem isso!"
"Arrancar o quê, soldado?
Está ficando nervoso?"
"Senhor! Não, senhor! Eu
sou a lâmina de uma faca, senhor. Sou a pura morte, senhor."
"Respire fundo. Mantenha a
calma."
Ele escondeu o estojo de
guitarra contendo o Model 40 embaixo da caixa-d'água. O resto do equipamento foi transferido para uma espaçosa bolsa de carregar livros. Vestiu um casaco de náilon da Universidade de Columbia, pôs o boné de beisebol e começou a descer a escada de incêndio.
O prédio de escritórios
vizinho ao esconderijo estava vazio. Stephen não precisou matar uma só pessoa. O saguão estava deserto e não havia câmeras de segurança do lado de dentro. A porta principal estava entreaberta, escorada com um pedaço de borracha, e por trás dela ele viu carrinhos de conduzir mobília. A tentação de entrar por ali foi grande, mas não quis correr o risco de encontrar funcionários ou inquilinos, de modo que passou direto e dobrou a esquina. Esgueirando-se por trás de um pequeno pinheiro, ele usou o cotovelo para quebrar a vidraça da janela de um escritório às escuras e saltou para dentro. Ficou imóvel por cinco minutos, pistola na mão, e depois passou para o corredor.
Deteve-se diante do
escritório onde calculava estar a janela aberta com a cortina ao vento e experimentou a maçaneta. O instinto, no entanto, convenceu-o a mudar de idéia. Ele preferiu achar as escadas e descer até o ambiente úmido do porão.
Stephen avançou silenciosamente até a parte lateral que dava para a casa-esconderijo. No porão mal iluminado, cheio de trastes velhos, ele logo encontrou uma janela que dava para o beco. Exatamente o que procurava. Teria de remover o caixilho e as vidraças, mas assim que conseguisse pular para fora poderia se abrigar atrás dos sacos de lixo.
"Consegui", pensou
Stephen. "Enganei a todos. Enganei Lincoln, o Verme." Isto lhe dava um prazer tão grande quanto o que sentiria ao executar as duas vítimas.
Tirou uma chave de fenda
da bolsa e começou a arrancar da janela as placas cinzentas de massa de vidraceiro. Estava tão absorvido na tarefa que, ao largar a ferramenta e levar a mão à coronha da Beretta, já tinha o homem sobre ele, a pressionar o cano da pistola contra seu pescoço e sussurrando:
— Mexa-se um centímetro
e estará morto.
CANO CURTO,
provavelmente um Colt ou um Smittie. Cheiro de ferrugem.
"E o que significa uma arma
enferrujada, soldado?"
"Uma porção de coisas,
senhor." Stephen Kall levantou as mãos.
O homem tinha a voz aguda
e esganiçada de nervosismo.
— Largue a arma. Ali. E o
walkie-talkie.
Walkie-talkie?, refletiu
Stephen.
— Vamos, vamos. Ou
estouro os seus miolos.
Stephen largou a arma.
— Eu não tenho rádio — disse.
— Vire-se. E não tente
nada.
Stephen girou o corpo
devagar e viu-se diante de um homem magro, os olhos inquietos. Estava imundo e tinha uma aparência doentia. O nariz escorria, os olhos estavam vermelhos; os cabelos escuros estavam emplastrados de sujeira e todo o seu corpo exalava mau cheiro. Mantinha o velho Colt de cano curto apontado para a barriga de Stephen, com o cão engatilhado. Stephen endereçou ao homem um sorriso cheio de simpatia.
— Olhe aqui, não estou a
fim de confusão — disse.
O homem apalpou o peito
de Stephen com movimentos nervosos. Stephen poderia tê-lo matado com facilidade — o nível de atenção do outro era muito instável. Sentiu os dedos dele percorrendo seu corpo.
Por fim, o homem deu dois
passos para trás.
— Onde está seu parceiro?
— Quem?
— Não se faça de bobo.
Você sabe.
Stephen sentiu de novo
aquela sensação. O medo. Os vermes.
— Olhe, eu não sei do que você está falando.
— O policial que estava
aqui.
— Policial? — murmurou
Stephen. — Aqui, neste prédio? — Ele foi até a janela e olhou para fora.
— Ei, fique parado. Olhe
que eu atiro.
— Aponte isso para lá —
ordenou Stephen. Ao começar a perceber a enormidade do seu erro, sentiu uma contração de náusea. A voz do homem ficou mais esganiçada.
— Pare! Pare aí!
— Eles estão no beco
também? — perguntou Stephen. Um momento de silêncio confuso.
— Você não é da polícia?...
— Eles estão no beco
também? — repetiu Stephen.
— Uma porção deles, há pouco tempo. Agora, não sei.
Stephen olhou o lugar.
Sacos de lixo... camuflagem.
— Se chamar alguém, juro
que...
— Cale a boca.
Stephen examinou o beco
devagar, com a paciência de uma jibóia, e finalmente avistou uma sombra, nas pedras do calçamento, movendo-se alguns centímetros. No topo do edifício, na torre do elevador, um movimento de sombras. De algum modo, Lincoln, o Verme, tinha estado o tempo inteiro à sua espera. Previra, até mesmo, que ele tentaria usar o beco ao lado do prédio.
O rosto na janela.
A porta da frente
entreaberta, a janela escancarada, a cortina esvoaçando... tudo aquilo parecia um capacho com os dizeres Seja bem-vindo. E aquele beco era o lugar ideal para a emboscada e o fuzilamento. A única coisa que o salvara tinha sido seu instinto.
Lincoln, o Verme, preparara
aquela armadilha. "Quem diabo será ele?"
Uma onda de fúria assomou
dentro de Stephen. Se o estavam esperando ali, tinham certamente adotado os procedimentos-padrão de busca e vigilância. Stephen girou nos calcanhares.
— Quando foi a última vez
que o policial deu busca aqui?
Os olhos do homem
vacilaram, depois se arregalaram de medo. O cano negro do Cok continuou apontado para Stephen.
— Há dez minutos.
— Que tipo de arma ele
tem?
— Não sei. Uma dessas
armas esquisitas. Parece uma metralhadora.
— E quem é você? —
perguntou Stephen.
— Não tenho de responder
às suas perguntas — disse o outro, em tom desafiador.
Ele limpou o nariz na
manga da camisa, mas usou o braço que segurava a arma. Numa fração de segundo, Stephen desviou o revólver e jogou o homem no chão.
— Não! Não me machuque!
— Cale a boca. — Stephen
abriu o pequeno Colt. Não havia cápsulas no tambor. — Está vazio? — perguntou ele, sem acreditar.
O homem encolheu os
ombros.
— Eu... Bem, sabe como é.
Se eles pegam a gente e a arma não está carregada, a pena é menor.
A mera estupidez de conduzir uma arma descarregada seria motivo suficiente para que tivesse matado o sujeito.
— O que está fazendo aqui?
— Nos andares de cima
existem consultórios médicos — gemeu o homem. — Nos domingos ficam vazios, aí eu venho para pegar amostras grátis. Percodan, Fiorinal, pílulas de dieta... esse tipo de coisa.
— Como é seu nome? — perguntou Stephen, apanhando a Beretta.
— Jodie. Joe D'Oforio, mas
todo mundo me chama Jodie.
Stephen olhou para fora.
Outra sombra se moveu no topo do
— Muito bem, Jodie, agora
escute. Quer ganhar uma grana?
MUITO BEM — disse Rhyme com impaciência. — O que está havendo?
— Ele está no prédio ao
lado do esconderijo; ainda não saiu para o beco — disse Sellitto. Estava com Haumann, Dellray e Sachs numa van disfarçada de carro dos Correios, estacionada no quarteirão.
— Por que não? Vai ter de
sair. Não há motivo para que não saia.
— Estão revistando todos
os andares. Ele não entrou no escritório. O escritório com a janela aberta. Rhyme questionara aquela cortina sendo agitada pelo vento, servindo de isca. Era óbvia demais. O Dançarino da Morte tinha achado aquilo suspeito.
— Todo mundo está pronto
e engatilhado? — perguntou ele.
— Claro. Relaxe.
Ele não conseguia relaxar.
Cinco minutos atrás, dois agentes tinham encontrado uma janela quebrada no andar térreo. O Dançarino tinha evitado a porta da frente, que fora deixada aberta, mas tinha entrado no prédio para preparar seu ataque final. Algo deveria tê-lo assustado. Ele estava em algum lugar do edifício, mas ninguém podia prever em que ponto. Uma serpente venenosa num quarto escuro.
Onde estaria? O que estaria
planejando? Rhyme estava cada vez mais inquieto.
Há muitas maneiras de
morrer.
— CLARO — disse Jodie.
— Quem não quer ganhar uma grana?
— Então me ajude a cair fora.
— O que você está fazendo
aqui? E você que eles estão procurando? Stephen olhou de alto a baixo o pobre-diabo. Um joão-ninguém; ao mesmo tempo não era louco, nem estúpido. Decidiu que a melhor tática seria a franqueza. Além do mais, em poucas horas o sujeito estaria morto, de qualquer modo.
— Vim aqui para matar
alguém — disse.
— Uau. Quer dizer... você é
da máfia? Vai matar quem?
— Jodie, fique quieto.
Estamos numa sinuca.
— Estamos? Eu não fiz
nada.
— A não ser estar no lugar
errado, na hora errada — disse Stephen. — E é uma pena, porque eles jamais vão acreditar que você não está comigo. E agora, vai me ajudar ou não?
Jodie tentou não parecer
assustado.
— Não quero me machucar.
— Só me ajude e nunca vai
se machucar.
Os olhinhos apertados
avaliavam a proposta.
— Quanto?
— Cinco mil. — Um
vagabundo como aquele, e ainda se atrevia a negociar.
O medo foi varrido pelo
susto.
— Está falando sério?
Stephen riu.
— Estão me pagando muito
mais do que isso. Além disso, se a gente se safar daqui, posso voltar a precisar de você.
Um som à distância. Passos
aproximando-se. Era o policial da Busca e Vigilância, procurando por ele. "Está sozinho", calculou Stephen, prestando atenção aos passos.
— E aí? Vai me ajudar?
Um idiota, é claro. Se não o
ajudasse, estaria morto antes do próximo minuto.
— Fechado — disse Jodie,
estendendo a mão.
Stephen ignorou o gesto e
perguntou:
— Por onde se sai?
— Está vendo aqueles
blocos de cimento ali? É só empurrar para fora. Viu? Vai dar num velho túnel de serviço.
— É mesmo? — Stephen
bem que gostaria de ter sabido daquilo antes.
— Posso guiar você até o
metrô. Eu vivo lá. Na estação velha.
Jodie encaminhou-se para
os blocos, mas Stephen sussurrou:
— Não. Escute, o que você
vai fazer é o seguinte. Fique parado ali, de frente para a porta.
— Mas ele vai me ver. Vou
ser a primeira coisa que ele vai avistar.
— Basta ficar parado ali.
Com as mãos para cima.
— Mas ele vai atirar em
mim — gemeu Jodie, passando a mão no rosto.
— Não, não vai. Confie em mim. Jodie suspirou.
— Tudo bem.
Os passos se aproximavam.
Stephen pôs o dedo sobre os lábios e deitou-se de bruços, desaparecendo no piso.
Os passos foram
diminuindo e pararam. Um vulto apareceu no vão da porta. Vestia o uniforme de proteção usado pelos agentes do FBI. Caminhou para dentro do aposento, com uma lanterna afixada ao cano da arma. Quando o foco atingiu Jodie à altura do torso, o agente fez algo que deixou Stephen atônito. Ele começou a puxar o gatilho.
Foi muito sutil. Mas
Stephen já tinha atirado tantas vezes contra animais e pessoas que conhecia bem o movimento dos músculos, a tensão geral do corpo no momento em que se dispara sobre um alvo. Saltou para frente, desviando o cano da metralhadora e arrancando o microfone que o agente trazia próximo à boca. Enfiando sua faca K-Bar por baixo do tríceps, ele paralisou o braço direito do outro. O homem soltou um grito de dor.
"Têm carta-branca para
matar", refletiu Stephen. "Nada de voz de prisão. Se me virem, vão disparar. Armado ou não."
— Você o feriu —
exclamou Jodie.
— Cale a boca. — Stephen
amordaçou o agente com um pedaço de pano. — A saída.
— Mas... — Jodie ficou
parado, olhando.
— Agora! — exclamou
Stephen. — Espere lá por mim.
Jodie correu na direção da
abertura na parede, enquanto Stephen puxava o agente, obrigando-o a ficar de pé. Carta-branca para matar! Lincoln, o Verme, tinha decidido que ele precisava ser morto. Stephen estava furioso.
Plugou o microfone de
volta e escutou o receptor. Devia haver cerca de 12 ou 14 policiais em linha, trocando informações, enquanto vasculhavam o prédio.
Ele não tinha muito tempo.
Empurrou o atordoado agente para o corredor e puxou a faca.
— QUE DROGA —
exclamou Rhyme; pingos de saliva caíram no seu queixo. Thom parou ao lado da cadeira de rodas, limpando-o com um lenço, mas Rhyme o afastou zangado, com um movimento brusco. — Bo? — chamou ele ao microfone.
— Diga lá — respondeu
Haumann, da van parada na rua.
— Acho que ele nos farejou
e está tentando fugir do prédio. Diga aos seus agentes para entrarem em formação de defesa.
— Espere aí. Espera um
instante... oh, não.
— Bo? Sachs? Alguém
responda! — Mas ninguém respondeu.
Rhyme ouviu vozes
discordantes gritando pelo rádio.
— Atenção, achamos uma
trilha de sangue... No porão. Innelman perdeu o contato. Ele foi... Innelman está aqui. Muito ferido. Droga, tem sangue por toda parte!
— RHYME, está ouvindo?
— chamou Amelia Sachs.
— Vá em frente.
— Estou no depósito, no
porão do prédio. Isto aqui parece um açougue. — Ela olhou em redor. As paredes pintadas de um amarelo doentio estavam cobertas por salpicos de sangue, como numa macabra tela de Jackson Pollock. "Pobre Innelman", concluiu ela.
No corredor, Dellray e dois
agentes estavam inclinados sobre Innelman, com expressões sombrias no rosto.
— O que fizeram com você,
John? Puxa vida... — O agente ergueu o corpo ossudo e recuou quando os médicos se abaixaram junto ao policial ferido. Os olhos de Innelman estavam entreabertos, parcialmente
lúcidos. Dellray perguntou:
— Como está ele?
— Apenas vivo.
Os médicos estavam
aplicando tampões de gaze nas facadas e torniquetes no braço e na perna, e iniciando às pressas uma transfusão de plasma.
— Temos de tirá-lo daqui.
Colocaram o agente numa
padiola e partiram corredor afora, com Dellray na retaguarda.
— Ele conseguiu falar? —
Rhyme perguntou a Sachs.
— Não. Não sei se vão
poder salvá-lo.
— Fique calma, Sachs.
Temos de localizar o Dançarino, se é que ele ainda está por aí. Descreva o porão.
— Bem... há uma janela que dá para o beco. Ao que parece ele começou a desmontá-la, mas ela continua no lugar. Não há portas.
— Verifique palmo a palmo
e vamos ver o que achamos.
Ela percorreu o local
lentamente, usando um aspirador para recolher vestígios.
— E então? Vê alguma
coisa?
Ela correu a lanterna em volta até que percebeu dois blocos da parede que não se encaixavam perfeitamente.
— Acho que descobri o
caminho de fuga, Rhyme. Dois blocos de concreto, soltos.
— Não mexa neles. Chame
a SWAT.
Ela pediu aos agentes que
descessem para lá. Eles removeram os blocos e varreram o espaço vazio do outro lado com lanternas acopladas às submetralhadoras H&K.
— Ninguém — disse um
agente.
Sachs sacou a arma e
deslizou para o espaço frio e úmido. Era uma rampa estreita que descia até um vão aberto nos alicerces do edifício. Ela apontou a câmera do microscópio para os lugares onde o Dançarino provavelmente teria apoiado as mãos.
— Uau, Rhyme...
Impressões digitais recentes. Espere. Marcas de luvas, também. Não entendo... Talvez ele tenha se sentido seguro e tirado as luvas. — E então ela projetou a luminosidade verde-amarelada aos seus pés e suspirou. — Oh, não são impressões dele. Ele está com outra pessoa. Rhyme, ele tem um cúmplice.
— O QUE conseguiram? —
perguntou Rhyme.
Sachs tinha retornado à
casa dele, e ela e Mel Cooper verificavam os indícios que tinham trazido do prédio. Juntamente com a SWAT, Sachs seguira as pegadas do matador até um túnel de acesso da companhia elétrica, e a partir dali perderam completamente o rastro dele e de seu companheiro.
Ela passou para Cooper a impressão digital que tinha recolhido. Ele a escaneou, transferindo-a para o computador, e enviou-a em forma de arquivo para o AFIS, o serviço automático de identificação que interligava os bancos de dados de impressões digitais mantidos por órgãos criminais, militares e civis. Em seguida, ela ergueu no ar duas cópias eletrostáticas transparentes para que Rhyme as examinasse.
— São as pegadas achadas
no túnel — disse ela. — As do Dançarino coincidem com as do escritório onde ele entrou.
— Usa sapatos de operário,
do tipo mais comum — disse Rhyme. — Traga esta aqui mais para perto, Sachs.
Os sapatos menores
estavam desgastados à altura do calcanhar. O do pé direito tinha um grande buraco, através do qual via-se o decalque dos fios entrecruzados de uma meia.
— Parece que o amigo dele
é um vagabundo de rua — disse Rhyme. — E ele deixa impressões digitais no local do crime? Não é um profissional, com certeza. O Dançarino deve precisar dele para alguma coisa.
— Para achar uma saída do
prédio, por exemplo — sugeriu Sachs. Concentrando-se nos demais indícios, Cooper estava montando amostras em lâminas de vidro e inserindo-as dentro do microscópio. Depois, transferia as imagens para o computador de Rhyme.
— Modo comando —
ordenou Rhyme ao computador. — Cursor para a esquerda. Pare. Clique duplo. — Ele examinou o monitor. — Mais argamassa dos blocos de concreto. Sujeira, pó... Onde colheu isto, Sachs?
— Raspei a parte externa
dos blocos e recolhi o pó do chão do túnel. Também achei um local por trás de alguns caixotes, onde ao que parece alguém andou dormindo.
— Ótimo. Muito bem,
Mel... passe no espectro metro. Tem umas coisas aí que não estou reconhecendo.
O cromatógrafo ronronou,
separando os compostos para identificação. Cooper examinou a tela e, de repente, soltou uma exclamação de surpresa.
— Isto aqui é uma
verdadeira farmácia, Lincoln. Temos secobarbital, fenobarbital, dexedrine, amobarbital...
— Que diabo — murmurou
Sellitto. — Todo tipo de droga. Quer dizer que o Dançarino agora arranjou um viciado para assistente... Quem diria.
— Aquele prédio é cheio
de consultórios médicos — disse Sachs. O sujeito devia estar surrupiando drogas.
— Acaba de chegar um e-
mail — anunciou Cooper. — A busca no AFIS pelas impressões. Seja quem for o sujeito, as digitais dele não constam em lugar nenhum.
— Não é possível! —
exclamou Rhyme. Sentia-se injustiçado. Será que as coisas não poderiam ser só um pouco mais fáceis? — O que há naquele saco, Sachs? — murmurou.
O saco plástico continha um pedaço de toalha de papel com uma mancha marrom.
— Achei essa mancha num
dos blocos de concreto que ele moveu. Acho que estava nas mãos dele.
— E por que pensa isto?
— Porque esfreguei minha
mão na sujeira do local e empurrei outro I floco. Fiz uma mancha idêntica.
"Essa é a minha Amelia", pensou ele. Por um instante, seus pensamentos retornaram à noite anterior — os dois na cama, deitados lado a Lido. Ele afastou a lembrança.
— E o que é isso, Mel?
— Parece graxa.
Impregnada de poeira, sujeira do chão, fragmentos de madeira, material orgânico. Carne animal, eu acho. Tudo muito velho. E olhe aqui.
Rhyme examinou os
minúsculos fragmentos metálicos na tela do computador.
— Metal. Moído ou
raspado de algum lugar. Passe no espectrômetro.
Cooper obedeceu.
— Compostos
petroquímicos. Mal refinados. Sem aditivos. Ferro, com traços de manganês, silício e carbono.
— Espere. — Rhyme fitou o teto. — Aço antigo, feito de ferro-gusa num forno Bessemer.
— E mais alguma coisa
aqui... Alcatrão de hulha.
— Creosoto! — gritou
Rhyme. — É isso. O primeiro erro do safado. Esse parceiro dele é o mapa da mina.
— E onde é a mina? —
perguntou Sachs.
— No metrô. A graxa é
antiga; o aço vem dos espigões e de outros artefatos. O creosoto vem dos dormentes. Foi para isso que o Dançarino o utilizou: para arranjar um esconderijo. O parceiro dele é, provavelmente, um desses vagabundos que dormem em algum túnel ou estação abandonada.
Rhyme parou de falar ao
perceber que todos olhavam para o vulto que acabara de surgir à porta.
— Dellray? — disse Sellitto, com voz vacilante. — O que houve?
— Innelman. Perdeu muito
sangue. Acabou de morrer.
— Sinto muito — disse
Sachs.
Rhyme pensou no outro
agente de Dellray, Tony Panelli, provavelmente morto àquela altura, tendo deixado como pista do que lhe acontecera apenas aqueles estranhos grãos de areia. E agora, outro amigo assassinado.
Dellray olhou para Rhyme
com olhos de meter medo.
— Sabe por que ele matou
Innelman? Para despistar. Para nos afastar do seu rastro. Tem alguma pista?
— Não muita coisa. — Ele
explicou sobre o vagabundo a quem o Dançarino da Morte se juntara, as drogas, o provável esconderijo no labirinto de túneis desativados. — Mas ainda temos muito material para examinar.
— Material! — exclamou
Dellray com desprezo. — Despiste. Não há motivo para um sujeito como Innelman morrer desse modo. Motivo nenhum.
— Fred, espere.
Precisamos de você.
Mas o agente não escutou e
marchou para fora do aposento.