Dança com a Morte
Capítulo Dois
CAPÍTULO
DOIS
E LA LEMBRAVA muito bem da noite anterior, o chamado estridente do telefone mesclando-se ao ruído da , chuva que ela via cair pela janela do quarto. Olhou o aparelho com irritação, como se a empresa Bell Atlantic fosse responsável pela dor cruciante em sua cabeça. Por fim, rolou de lado e ergueu o receptor, logo após o quarto toque.
— Alô?
Do outro lado, escutou
apenas o vazio cheio de ecos de uma ligação via rádio. Então uma voz, talvez uma risada.
Uma espécie de estrondo.
Um clique. Silêncio. Nenhum sinal de linha, apenas o receptor mudo de encontro à sua orelha, envolto pelo eco distante que lembrava a rebentação das ondas numa praia.
— Alô?... Alô?...
Ela pousou o fone e
adormeceu de novo. Meia hora depois, o aparelho voltou a tocar, com a notícia de que o Lear 9-CJ caíra pouco antes do pouso, arrastando para a morte seu marido e o jovem Tim Randolph.
Agora, naquela manha cinzenta, Percey Rachael Clay sabia que o misterioso chamado telefônico tinha sido de seu marido. Ron Talbot explicou-lhe que ele próprio fizera a conexão a partir do chamado do rádio do avião.
Percey desarrolhou o
pequeno frasco metálico e tomou um gole. Havia lágrimas em seus olhos.
— Espere um pouco,
Percey, devagar com isto, está bem? — disse
O homem sentado no sofá
da sala, apontando para o frasco. — Por favor.
— Oh, tudo bem —
respondeu ela, com voz áspera, tomando outro gole. — Não se preocupe. Mas por que diabos ele iria me ligar justo durante os procedimentos de pouso?
— Talvez estivesse
preocupado com sua dor de cabeça — disse Brit Hale.
Tanto quanto Percey, Hale
não dormira na noite anterior. Talbot também ligara para ele imediatamente após o acidente, e ele tinha vindo de Bronxville até ali para ficar com ela pelo resto da noite, ajudando-a a dar os telefonemas urgentes. Os dois se conheciam há muitos anos.
Hale tinha sido um dos
primeiros pilotos da Hudson, trabalhando de graça durante meses até que a empresa começou a dar lucros. Sua aparência lembrava a de um professor magro, severo, mas na verdade eia um indivíduo brincalhão e descontraído — um perfeito contraste com Percey. Talvez fosse o co-piloto preferido dela.
— Ah, Brit... — disse ela,
deixando-se cair no sofá ao lado dele. Hale envolveu-a com seu braço musculoso, enquanto ela apoiava a cabeça em seus ombros.
— Fique firme, garota —
disse ele. — Promete?
— Preciso ligar para Talbot
— disse ela. — Temos de fazer alguma coisa. A empresa...
A morte de Ed produzira
um abalo violento em muitas vidas, e também na empresa aérea; um abalo que, neste último caso, bem podia ser fatal.
Tantas coisas para fazer... mas ela estava ali no sofá, paralisada. "Que coisa estranha", pensou, como se estivesse numa outra dimensão. "Não posso nem me mover. Oh, Ed..."
— Você precisa de café —
anunciou Hale, erguendo-se e indo na direção da cozinha.
Isso significava: tem de
parar de beber. Percey entendeu o recado. Arrolhou o frasco e o deixou cair sobre a mesa com um barulho metálico.
— Tudo bem, tudo bem —
disse.
Ergueu-se e começou a
caminhar pela sala. Olhou sua imagem no espelho. O rosto pequeno, com nariz arrebitado, lembrando um buldogue. Cabelos negros enroscando-se
teimosamente em caracóis. Uma silhueta esguia e olhos negros que sua mãe afirmava repetidamente serem a sua parte mais bonita. Ou seja, a única.
Olhou pela janela para a
rua, as árvores. Teve um vislumbre do tráfego, e alguma coisa brotou em sua mente.
Algo inquietante. O que era
mesmo? O quê?
A campainha da porta soou,
fazendo com que aquela sensação desaparecesse. Percey abriu a porta e deparou-se com dois volumosos policiais.
— Polícia de Nova York — disse um deles, enquanto ambos erguiam as credenciais. — Estamos aqui para cuidar da senhora até esclarecermos o que aconteceu com seu marido.
— Entrem — disse Percey.
— Brit Hale está aqui.
Nesse instante ela olhou
para a rua, por sobre os ombros dos policiais, e a sensação voltou à sua mente, agora com mais clareza.
— Há uma coisa que talvez
vocês precisem saber — disse, e um dos policiais sacou rapidamente uma caderneta. — Havia uma van, uma van preta.
— ESPERE — disse
Rhyme.
Lon Sellitto fez uma pausa
em sua narração.
Rhyme estava ouvindo
passos que se aproximavam. Ele os conhecia: nem muito pesados, nem muito leves. Não se tratava de uma dedução: ele já escutara muitas vezes o padrão sonoro daqueles passos.
O belo rosto de Amelia
Sachs, rodeado de cabelos ruivos, surgiu no topo da escada, e Rhyme ficou observando-a enquanto ela entrava no quarto. Usava um uniforme azul-marinho, menos o boné e a gravata, e carregava uma sacola.
Jerry Banks dirigiu-lhe um sorriso. A atração que sentia por ela era visível e apenas um pouco inconveniente — não eram muitos os oficiais da polícia que, como a alta e esguia Amelia Sachs, já tinham sido modelos na avenida Madison. Mas o olhar de Banks passou tão em branco quanto sua atitude.
— Olá, Jerry — disse ela.
E para Sellitto: — Olá, senhor.
— Você parece cansada —
comentou Sellitto.
— Estou sem dormir — ela
respondeu. Abriu a sacola e tirou dela uma dúzia de pequenos sacos plásticos. — Andei recolhendo amostras de areia.
— Muito bem — disse
Rhyme. — Mas temos outra missão agora. Alguém está na cidade e temos de apanhá-lo.
— Um assassino —
acrescentou Sellitto.
— Profissional? — perguntou Sachs. — Crime organizado?
— Profissional, sim —
disse Rhyme. — Nenhuma conexão com o crime organizado, que a gente saiba. — O crime organizado era o maior mercado de trabalho para matadores de aluguel em todo o país. -Trabalha por conta própria. Nós o chamamos de Dançarino da Morte.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— Apenas uma de suas
vítimas chegou perto dele e viveu o bastante para nos dar detalhes. Um homem branco, na casa dos trinta. Tem uma tatuagem na parte superior do braço: a Morte dançando com uma mulher em cima de um caixão.
— Investigaram a
tatuagem? — perguntou ela.
— Claro — disse Rhyme.
— Até os confins da Terra. Thom surgiu à porta.
— Com licença, dama e
cavalheiros — disse. — Tenho um pequeno trabalho a fazer.
A conversação cessou
enquanto o rapaz executava todas as manobras necessárias para mudar a posição de Rhyme, a fim de desobstruir seus pulmões. Com o tempo, os tetraplégicos acabam personificando i crias partes do corpo e desenvolvendo relações muito especiais com elas. Depois de ter a espinha partida durante uma investigação, anos más, os braços e as pernas de Rhyme tinham-se transformado em seus piores inimigos, e ele consumira uma enorme energia num esforço desesperado para obrigá-los a obedecer suas ordens. Mas eles acabaram ganhando e continuaram imóveis como toras de madeira. Depois dessa derrota, ele se concentrou nos pulmões e, após um ano de exercícios de reabilitação, conseguiu dispensar o respirador artificial e respirar por conta própria. Aquela havia sido sua única vitória sobre o próprio corpo, e ele mantinha em segredo um temor supersticioso de que os pulmões estavam apenas aguardando uma oportunidade para se vingar. Achava que morreria de enfisema ou de pneumonia em um ou dois anos.
Lincoln Rhyme não se
preocupava, necessariamente,
com a idéia de vir a morrer. Mas a morte podia chegar de numerosas maneiras, e ele estava decidido a não morrer de um modo desagradável.
Sachs perguntou:
— Alguma pista? Último
endereço?
— O último endereço conhecido foi na área do Distrito de Columbia — disse Sellitto, em seu sotaque do Brooklyn. — Só isso. Nada mais. Ouvimos falar dele de vez em quando, e Dellray mais do que nós. O Dançarino pode se parecer com dez pessoas diferentes. Plástica, implantes faciais, silicone. Põe cicatrizes, remove cicatrizes. Ganha peso, perde peso. Planeja tudo. Prepara uma manobra para desviar as atenções e, então, ataca. Muito competente.
Sellitto parecia
estranhamente pouco à vontade para um homem cujo trabalho diário era caçar criminosos.
Com os olhos fitando o
espaço através da janela, Rhyme continuou.
— O trabalho mais recente
do Dançarino em Nova York foi há cinco anos, em Wall Street. Fez um serviço rápido e limpo. Minha equipe de perícia técnica chegou à cena do crime e um dos rapazes levantou um papel amassado que havia numa lata de lixo. Detonou uma carga de explosivo plástico que matou os dois e destruiu todas as pistas.
— Sinto muito — disse
Sachs.
Houve um silêncio
desconfortável no grupo. Sachs fora aprendiz e assistente de Rhyme durante mais de um ano e tinha-se tornado também sua amiga. Algumas vezes chegara a passar a noite ali, dormindo no sofá, ou na enorme cama Clinitron de Rhyme, casta como uma irmã. Mas só falavam sobre investigações. Mantinham-se
afastados de assuntos pessoais. O máximo que ela se permitiu em termos de comentários foi:
— Deve ter sido duro.
Rhyme esquivou-se da sua
compaixão com um gesto de cabeça. Ficou olhando para a parede, enquanto dentro de si acumulava-se um vácuo de desespero ao recordar a cena horrível após a explosão.
Sachs perguntou:
— O sujeito que o
contratou deu alguma pista sobre o Dançarino?
— Ele estava disposto a
dar, mas não tinha muita coisa para dizer — respondeu Rhyme, respirando fundo. — Deixou o dinheiro e as instruções por escrito numa caixa de correspondência. Nunca se encontraram pessoalmente. O pior de tudo é que o contratante acabou mudando de idéia, mas isso não fez diferença. O Dançarino lhe disse: "Voltar atrás não é uma opção."
Sellitto passou para Sachs
todas as informações sobre o caso Phillip Hansen: o voo clandestino com testemunhas e a bomba no avião.
— Quem são as outras
testemunhas? — perguntou ela.
— Percey Clay, a mulher
do piloto que morreu ontem. Ela é a presidente da empresa deles, a Hudson Air. O marido era vice-presidente. O outro vice é Britton Hale, um dos pilotos. Mandei guarda-costas para fazer companhia aos dois. Fred Dellray está providenciando um alojamento do Departamento de Justiça para escondê-los durante um tempo.
Lincoln Rhyme tinha
deixado de prestar atenção ao que o detetive dizia. Sua mente ainda estava ocupada pelas lembranças da bomba deixada pelo Dançarino cinco anos atrás. A lata de lixo, com as bordas esgarçadas como as pétalas de uma flor. O cheiro sufocante de preparado químico. Os corpos dilacerados dos técnicos.
O zumbido do fax o
arrancou de seu devaneio. Jerry Banks esperou alguns instantes e retirou a primeira página da mensagem.
— Relatório técnico sobre
a queda do avião — anunciou.
A cabeça de Rhyme virou-
se imediatamente na direção da máquina.
— Muito bem, meninos e meninas — disse ele. — Ao trabalho.
"LAVE. Lave tudo."
"Soldado! Essas mãos estão
limpas?"
"Senhor! Estão quase,
senhor!"
O homem, de compleição
sólida, na casa dos trinta, estava parado no toalete de um café na avenida Lexington, mergulhado em sua tarefa.
Esfregando, esfregando,
esfregando... Stephen Kall examinou as cutículas e os enormes nós dos dedos. Pareciam limpos. Nada de vermes. Nem um só.
Sentia-se bem depois de
recolher a van preta e estacioná-la numa garagem subterrânea. Tinha retirado do veículo os instrumentos de que iria precisar e subido a rampa, misturando-se à multidão que passava pela avenida. Já tinha trabalhado antes em Nova York, mas nunca se acostumara com tanta gente.
"Eles me deixam arrepiado.
Como se eu estivesse coberto de vermes."
E assim tivera de parar ali
um instante, para se lavar.
"Soldado! Ainda não
acabou com isso? Temos mais dois alvos para abater."
"Senhor! Quase, senhor! Preciso remover qualquer vestígio de prova antes de prosseguir na operação, senhor!"
A água quente jorrava sobre
suas mãos. Ele esfregou-as com a esponja que sempre levava na bolsa. Espremeu o líquido cor-de-rosa do sabão pendurado sobre a pia e esfregou mais.
Stephen usava um uniforme
de camuflagem, embora não fosse um uniforme militar. Vestia jeans, uma camiseta comum, de trabalho, e um casaco cinza salpicado de tinta. Presos ao cinto, tinha um telefone celular e uma trena. Parecia-se com qualquer outro operário urbano de Manhattan; ninguém pensaria em olhar duas vezes para um indivíduo vestido daquela forma, e usando luvas, numa manhã de primavera.
Saiu. A rua ainda cheia de
gente. Mas agora suas mãos estavam limpas; não mais se sentia intimidado.
Parou na esquina e olhou
através da rua para a casa onde o Marido e a Esposa tinham morado; agora, a casa era apenas da Esposa, porque o Marido tinha se transformado em um milhão de pedacinhos espalhados sobre a terra natal de Lincoln.
Duas testemunhas ainda
estavam vivas; ambas tinham de morrer antes que o grande júri se reunisse na segunda-feira. Ele olhou seu enorme relógio de pulso. Eram 9:30h da manhã de sábado.
"Soldado! Há tempo
bastante para alcançar os dois?"
"Senhor! Talvez eu não
consiga agora, mas ainda tenho quase 48 horas, senhor! Mais do que suficiente para localizar e neutralizar ambos os alvos, senhor!"
Havia um carro da polícia diante da casa, algo com que ele já contava. Começou a descer a rua, caminhando ao longo da calçada, sentindo um formigamento nas mãos recém-lavadas. A mochila às suas costas pesava 30kg, mas ele mal notava a sua presença. Ao caminhar, tentou imaginar-se como um nova-iorquino comum, e não como Stephen Kall, ou qualquer outra das identidades que assumira nos últimos anos.
Virou-se de repente e parou
diante da entrada de um prédio, na calçada oposta e exatamente em frente à casa da Esposa. Empurrou a porta do edifício, enquanto olhava na direção da larga janela fronteira da casa. Colocou um par de óculos de lentes amareladas, e o brilho na vidraça desapareceu: ele pôde ver as figuras que se moviam lá dentro.
Stephen curvou-se e abriu o zíper da mochila.
Um policial... não, dois
policiais. Um homem com as costas voltadas para a janela. Talvez o Amigo, a outra testemunha que ele tinha sido contratado para eliminar. E, sim... lá estava a Esposa. Pequena. Feia. Jeito meio masculino. Estava usando uma blusa branca. Daria um bom alvo.
UMA TRANSFERÊNCIA
trabalhosa para a cadeira de rodas Storm Arrow.
Ali, Rhyme assumiu o
controle, colhendo com a boca o canudo plástico do comando de soprar e sugar. Fez a cadeira rumar na direção do elevador, para o lugar antes ocupado por um closet. O elevador levou-o para baixo, o andar térreo de sua casa, onde Thom e Amelia Sachs o esperavam.
Na década de 1890, quando
a casa fora construída, o aposento que ele agora percorria tinha sido uma sala de estar, junto à sala de jantar, com cornijas em forma de flor-de-lis e assoalho de tábuas de carvalho. Agora as duas salas estavam transformadas num único espaço cheio de tubos de ensaio, um espectrômetro para analisar gases por cromatografia, e um caríssimo microscópio eletrônico acoplado a uma unidade de raios X. Também ali estavam os instrumentos mais comuns do ofício de criminalista: óculos protetores, luvas de borracha resistentes a cortes, béqueres, pinças, bisturis, frascos, sacos plásticos, bandejas. E 12 pares de pauzinhos: Rhyme aconselhava aos seus assistentes que manipulassem as provas como se estivessem comendo num restaurante oriental.
Rhyme manobrou até junto da mesa a cadeira de rodas, cujo brilho metálico tinha tonalidade cor de maçã. Thom afixou o apoio do microfone em torno de sua cabeça e ligou o computador.
Um instante depois, Sellitto
e Banks apareceram na porta, juntamente com Fred Dellray, que tinha acabado de chegar. Era um homem alto e ossudo, com a pele escura como pneu de automóvel. Vestia um terno verde e uma camisa amarela de tonalidade estranha.
— Olá, Fred.
— Lincoln, Amelia...
— Olá — disse Sachs,
entrando na sala.
Dellray atravessou o
aposento a passos largos, postou-se junto à janela e cruzou os braços magros. Ninguém, nem mesmo Rhyme, era capaz de definir com exatidão a personalidade do agente federal. Ele vivia sozinho num pequeno apartamento, gostava de ler literatura e filosofia, e gostava ainda mais de jogar sinuca em bares de terceira categoria. Já pertencera à nata dos agentes secretos do FBI e tinha mais de mil prisões a seu crédito. Era apenas uma questão de tempo até acabar sendo reconhecido e executado por algum traficante de drogas ou chefe de quadrilha. Assim, ele tinha aceito com relutância a tarefa de coordenar os agentes secretos e informantes confidenciais.
— Bem, a rapaziada me
disse que é o Dançarino da Morte que está na parada — comentou ele, no seu estilo característico. — O Dançarino... manda lá. Vamos ver se a gente pega o canalha desta vez.
— Algum detalhe sobre a
explosão de ontem? — perguntou Sachs. Sellitto folheou o maço de anotações e páginas de fax.
— Ed Carney decolou às
6:18h — disse. — A Hudson Air tinha acabado de fechar um novo contrato para... tomem nota disto... transportar para hospitais órgãos humanos para transplante em todo o Meio-Oeste. Ouvi dizer que é uma atividade muito competitiva atualmente.
— Cabeças rolam —
confirmou Jerry Banks, sorrindo da própria piada. Sellitto prosseguiu:
— O cliente desta vez era a
US Medical and Healthcare. Carney tinha um roteiro de voo apertado. Chicago, Saint Louis, Memphis, Cleveland, pernoite em Erie e retorno esta manhã.
— Passageiros? —
perguntou Rhyme.
— Somente a carga —
resmungou Sellitto. — Todos os detalhes do voo são rotineiros. E aí, dez minutos antes de pousar em O'Hare, o avião explode.
— Algum relatório do
Departamento de Segurança dos Transportes?— perguntou Rhyme.
— Não antes de dois ou
três dias.
— Bem, não podemos
esperar três dias! — exclamou Rhyme. A cicatriz rosada do respirador artificial continuava visível em sua garganta, mas Lincoln Rhyme ainda era capaz de gritar como um marinheiro.
— Vou chamar um colega
em Chicago — disse Dellray. — Ele me deve um favor. Vou pedir para me mandar o que tiver sido levantado até agora.
Rhyme assentiu.
— Quero cada detalhe que
eles tiverem. Precisamos disso.
— Bem, Linc — disse
Sellitto —, o avião estava a l,5km de altitude quando explodiu. Os destroços estão espalhados por uma área enorme.
— Não quero saber —
retrucou Rhyme. — Continuam buscando? Dellray foi ao telefone e discou para o agente do FBI em Chicago.
— Diga a ele que
precisamos de todos os pedaços do avião onde o teste de explosivos dê positivo — disse Rhyme. — Estou falando em nanogramas, certo? Preciso dessa bomba.
Dellray transmitiu o recado,
depois ergueu os olhos e balançou a cabeça e disse:
— O local foi liberado.
— O quê? — exclamou
Rhyme. — Depois de 12 horas somente? Não se faz uma coisa dessas.
— As ruas tinham de ser
abertas ao tráfego. Ele disse que...
— Os carros de bombeiros!
— exclamou Rhyme de repente.
— O quê?
— Cada carro de
bombeiros, cada ambulância, cada carro da polícia que esteve no local. Quero que mandem raspar os pneus de todos eles e mandem o resultado para cá.
Dellray conseguiu extrair
do agente de Chicago a promessa de que iriam raspar os pneus de todos os carros presentes à emergência.
— Nada de "ao máximo"
nem de "os possíveis" — disse Rhyme. — Todos. Dellray revirou os olhos, transmitiu a correção e desligou.
De repente, Rhyme gritou:
— Thom! Thom, onde está
você?
Um instante depois, o onipresente ajudante surgiu à porta.
— Estava na lavanderia —
disse ele.
— Esqueça a lavanderia.
Precisamos de um cronograma. Vá escrevendo no quadro-negro, ali; o grande. — Rhyme olhou para Sellitto. — Quando é que as testemunhas vão se apresentar ao grande júri?
— Às 9:00h da manhã da segunda-feira. A van vai pegá-los às 7:00h. Rhyme olhou para o relógio na parede. Eram 10:00h da manhã do sábado.
— Temos exatamente 45
horas. Thom, escreva: Hora 1, de 45. — Passou os olhos pelos outros na sala e viu como seus olhares vacilavam. — Acham que estou sendo melodramático? Ou agarramos o Dançarino até as 7:00h da manhã de segunda-feira, ou nossas duas testemunhas estarão mortas. Não há alternativa.
Após uma breve hesitação,
Thom pegou um giz e se pôs a escrever. O silêncio no aposento foi rompido pelo toque do telefone celular de Banks. Ele atendeu a ligação e ergueu os olhos para os demais.
— Temos algo — anunciou.
— O quê? — perguntou
Rhyme.
— Os guardas da polícia
que estão protegendo a Sra. Clay e a outra testemunha, Britton Hale. Ao que parece, a Sra. Clay lhes contou que havia uma van preta, que ela nunca vira antes, estacionada perto de sua casa durante os últimos dias. Placa de outro estado.
— Ela anotou o número?
Ou o estado?
— Não. Disse que a van
desapareceu por algum tempo na noite anterior, depois que o marido foi para o aeroporto.
A cabeça de Rhyme
inclinou-se para diante.
—E...?
— E estava de volta hoje
cedinho. E agora sumiu de novo.
— Vão para a Central, à
toda! — gritou o criminalista.
UM TÁXI PAROU diante da casa da Esposa. Uma mulher idosa saltou e caminhou para a porta com passos vacilantes.
"Soldado! É um tiro
seguro?"
"Senhor, cada tiro requer o
máximo de concentração e firmeza. Mas posso disparar este tiro e infligir ferimentos letais, senhor."
A mulher subiu os degraus
que conduziam à porta e desapareceu no vestíbulo. Um instante depois, Stephen a viu entrando na sala de visitas da Esposa. Algo branco passou diante de seus olhos — a blusa da Esposa. As duas mulheres se abraçaram. Outra silhueta. Um policial? Não. O Amigo. Ambos os alvos a trinta metros de distância.
A arma predileta de
Stephen, seu Model 40, estava na van. Mas ele não precisaria de uma arma de atiradores de elite para aquele tiro; a Beretta de cano longo bastaria. Avaliou o alvo, calculando o ângulo de incidência, e o potencial de distorção e deflexão da vidraça. A mulher mais velha estava parada diretamente à frente da janela. Ele atiraria, a mulher cairia no chão e a Esposa e o Amigo instintivamente dariam alguns passos na direção dela, oferecendo alvos perfeitos.
Stephen puxou o cão da
arma, engatilhando-a. Abriu a porta do edifício, bloqueou-a com o pé, enquanto olhava para a rua em ambas as direções. Ninguém.
"Respire, soldado.
Respire... respire... respire..."
Segurou a arma, firme como
uma rocha, em suas mãos elásticas. Começou a exercer uma pressão quase imperceptível sobre o gatilho, enquanto mirava o vulto da mulher.
"Respire... respire..."