Desespero
Capítulo 8
Bem cedo na manhã seguinte — não eram ainda nove horas — encaminhei-me para uma das estações centrais do metrô e ali tomei uma posição estratégica no alto das escadas. A intervalos regulares, uma porção de gente irrompia das profundezas cavernosas armada de pastas — subiam, subiam bufando ou batendo os pés e, de vez em quando, o pé de alguém batia ruidosamente num cartaz metálico que certa firma achava aconselhável para anunciar os seus produtos plantar bem à frente dos degraus. No segundo degrau de cima para baixo, com as costas na parede e o chapéu na mão (quem foi o primeiro gênio da mendicância que associou um chapéu às suas necessidades profissionais?), estava, com os ombros curvados na maior humildade possível, um pobre-diabo velho. Mais alto ainda, havia um grupo de jornaleiros com bonés à cabeça e uma porção de cartazes com as notícias do dia. Era um dia nublado e horrível. Embora eu estivesse usando polainas, sentia os pés entorpecidos de frio. Passou-me pela cabeça a idéia de que talvez não sentisse tanto frio nos pés se não lustrasse com tanto cuidado meus sapatos pretos. Afinal, pontualmente às nove menos cinco, tal como eu havia calculado, a figura de Orlovius apareceu lá no fundo. Virei-me imediatamente e comecei a afastar-me lentamente da estação do metrô. Orlovius passou por mim, olhou para trás e mostrou seus belos dentes postiços. O nosso encontro tinha o tom exato de acaso que eu desejava.
— Sim, vou para o mesmo lado — disse eu em resposta à pergunta dele. — Tenho de ir ao meu banco.
— Que tempo horrível! — disse Orlovius, caminhando ao meu lado. — Como está sua esposa? Muito bem, não é?
— Está bem, obrigado.
— E você? Não está passando bem? — continuou ele a perguntar gentilmente.
— Muito não. Nervosismo, insônia. Coisinhas que dantes me divertiam mas agora me aborrecem.
— Por que não usa limão? — perguntou Orlovius.
— ... que dantes me divertiam mas agora me aborrecem. Isto, por exemplo...
Tive um breve riso forçado e tirei a carteira do bolso.
— Recebi esta carta de chantagem cretina e não consigo tirar o peso da cabeça. Se quiser, leia. Ë um caso bem esquisito.
Orlovius parou e examinou atentamente a carta. Enquanto ele lia, olhei para a vitrina mais próxima do ponto onde estávamos. Ali, pomposos e fúteis, vários acessórios de banheiro e duas banheiras brilhavam na sua brancura. Mais adiante, havia uma vitrina com caixões de defunto que também pareciam pomposos e fúteis.
— Oh! — exclamou Orlovius. — Sabe quem foi que escreveu isto?
Tornei a guardar a carta na carteira e respondi com um sorriso:
— Claro que sei. Um patife. Foi há tempos empregado de um parente distante meu. Um sujeito anormal, se não é mais certo considerá-lo inteiramente louco. Meteu na cabeça que minha família o despojou de alguma herança. Sabe como são essas coisas. Trata-se de uma idéia fixa que nada poderá abalar.
Orlovius me explicou, com detalhes copiosos, o perigo que os loucos representam para a comunidade e quis saber se eu já tinha dado conhecimento do fato à polícia.
Dei de ombros.
— Tolice... Não vale nem a pena discutir o caso... Escute, que foi que achou do discurso do Chanceler. Já o leu?
Continuamos a caminhar lado a lado, a conversar calmamente sobre política nacional e internacional.
À porta do escritório dele, comecei a tirar — de acordo com as regras da polidez russa — a luva da mão que lhe ia estender.
— Sinto muito que esteja tão nervoso — disse Orlovius.— Tenha a bondade de apresentar meus respeitos a sua senhora.
— Fique descansado. Mas vou-lhe dizer uma coisa, invejo muito a sua vida de solteiro.
— Como assim?
— Vou-lhe dizer. Não é com prazer que digo isso, mas minha vida de casado não é feliz. Minha mulher tem um coração volúvel e... bem, ela se interessa por outra pessoa. Sim, é fria e frívola, é o que posso dizer dela. Não pense que ela iria chorar muito se por acaso... bem, sabe o que eu quero dizer. Peço-lhe perdão por importuná-lo com esses problemas tão íntimos.
— Há muito tempo venho observando certas coisas — disse ele com reserva e tristeza.
Apertei-lhe a mão enluvada de lã e nós nos separamos. Tudo havia funcionado lindamente. Velhos como Orlovius são muito fáceis de manejar, pois uma combinação de decência e sentimentalismo dá em resultado exatamente um imbecil. Na sua ansiedade de mostrar simpatia por todo o mundo, não só tomara o partido do pobre marido extremoso quando eu havia caluniado minha esposa exemplar, mas também chegava à conclusão de que há muito tempo vinha “observando” certas coisas (como disse). Daria muito para saber o que aquela águia cega pudera perceber no azul sem nuvens de nossa vida conjugal. Sim, tudo havia funcionado lindamente. Eu estava satisfeito. Estaria ainda mais satisfeito se não houvesse algum contratempo na obtenção do visto italiano.
Ardalion, com a ajuda de Lydia, preencheu o formulário de requerimento, depois do que, lhe disseram que o visto só estaria pronto dentro de quinze dias no mínimo. (Eu tinha um mês à minha frente até 9 de março; na pior das hipóteses, eu poderia escrever a Felix, mudando a data.) Afinal, em fins de fevereiro, Ardalion recebeu o visto e comprou a passagem. Além disso, dei-lhe mil marcos que, segundo eu esperava, lhe durariam dois ou três meses. Tencionava viajar no dia 19 de março, mas de repente se soube que ele tinha conseguido emprestar o dinheiro todo a um amigo desesperado e era assim obrigado a esperar a volta do outro. Era um caso um tanto misterioso, para dizer o menos possível. Ardalion afirmava que se tratava de uma “questão de honra”. Da minha parte, céptico a respeito desses vagos casos que envolvem questões de honra, e, notem bem, não a honra de quem tomou emprestado em todo o seu despojamento, mas sempre a de uma terceira ou quarta pessoa cujo nome não é revelado. Ardalion (sempre de acordo com sua história) não podia deixar de emprestar o dinheiro e o outro havia jurado que pagaria dentro de três dias, o limite de tempo habitual naqueles descendentes dos barões feudais. Quando o prazo mencionado expirou, Ardalion foi procurar o devedor e não o pôde achar em lugar algum. Tomado por uma fria cólera, perguntei o nome do homem. Ardalion tentou esquivar-se à pergunta, mas acabou dizendo:
— Você se lembra dele. É o camarada que um dia o procurou.
Isso me fez perder por completo a paciência.
Quando recuperei a calma, seria capaz de ajudá-lo se as coisas não se tivessem complicado para mim com uma escassez acentuada de dinheiro e eu precisava certamente de ter alguma importância comigo. Disse a Ardalion que viajasse assim mesmo, com a passagem e alguns marcos, pois eu lhe mandaria o resto. Ele respondeu que ia fazer isso mesmo e adiaria a partida por alguns dias na esperança de que o dinheiro ainda pudesse ser recuperado. Na verdade, no dia 3 de março, ele me telefonou, a meu ver com alguma displicência, para dizer que lhe haviam pago o empréstimo e que ele ia partir na noite seguinte. No dia 4, aconteceu que Lydia, a quem por este ou aquele motivo Ardalion tinha dado a passagem para guardar, não se lembrava absolutamente do lugar onde a deixara. Ardalion sentou-se sombriamente num pufe da sala, murmurando repetidameilte: “Nada feito. O destino está contra mim.” Das peças vizinhas vinha um bater de gavetas e um farfalhar frenético de papéis. Era Lydia à procura da passagem. Uma hora depois, Ardalion desistiu e foi para casa. Lydia ficou sentada na cama chorando de se acabar. No dia 5, ela descobriu a passagem na cesta da roupa suja. No dia 6, fomos ao bota-fora de Ardalion.
A partida do trem estava marcada para as 10:10. O ponteiro maior do relógio ficava em posição como um perdigueiro, pulava então para o minuto cobiçado e tomava posição para o seguinte. Nada de Ardaliou. Estávamos espera ao lado do vagão marcado: Milão.
— Que estará acontecendo? — perguntava Lydia cada vez mais preocupada. — Por que é que ele não aparece? Estou ansiosa.
Toda aquela inquietação ridícula em torno da partida de Ardalion me enfurecia de tal maneira que eu tinha receio até de abrir a boca pois poderia ter um colapso ou coisa parecida na plataforma da estação. Dois indivíduos sórdidos, um de capa azul e o outro com um capote de aparência russa com a gola de astracã comida pelas traças, apareceram e, passando por mim, cumprimentaram efusivamente Lydia.
— Por que ele ainda não veio? Que acham que poderia ter acontecido? — perguntou Lydia com os olhos assustados e conservando um pouco afastado dela o buquê de violetas que se dera ao trabalho de comprar para o bruto. O homem da capa azul abriu os braços e o da gola de astracã pronunciou com uma voz de baixo profundo:
— Nescimus. Não sabemos.
Não me contive mais e, dando uma violenta meia-volta, encaminhei-me para a saída. Lydia correu atrás de mim.
— Onde é que você vai? Espere um pouco. Tenho certeza de que ele...
Foi nesse momento que Ardalion apareceu ao longe. Um sujeito maltrapilho e de cara zangada o segurava pelo braço e lhe carregava a mala. Ardalion estava tão bêbado que mal podia manter-se de pé. O seu riso tresandava também a álcool.
— Que coisa! Ele não pode viajar nesse estado — disse Lydia com voz chorosa.
Muito vermelho, muito suarento, confuso e tonto, sem o sobretudo (numa vaga antecipação do calor meridional), Ardalion deu início a uma série vacilante de despedidas babosas. Consegui evitá-lo por pouco.
— Meu nome é Perebrodov, artista profissional — declarou impulsivamente o seu companheiro de cara zangada, estendendo com toda a confiança, como se se tratasse de um postal obsceno, a mão que não tremia na minha direção. — Tive a sorte de conhecê-lo nos antros de jogatina do Cairo.
— Faça alguma coisa, Hermann! É impossível deixá-lo embarcar assim — gemeu Lydia, puxando-me pela manga.
Nesse meio tempo, as portas dos vagões já se estavam fechando. Ardalion, bambeando o corpo e emitindo gritos, estava chamando e seguindo o carrinho de um vendedor de sanduíches e conhaque, mas foi agarrado por mãos amigas. De repente, ele cingiu Lydia nos braços e cobriu-a de beijos molhados.
— Menina de olhos grandes — murmurou ele, ternamente. — Adeus, menina. Obrigado, obrigado...
— Escutem, senhores — disse eu com a mais perfeita calma. — Querem ajudar-me a levá-lo para o trem?
O trem partiu. Rindo e gritando, Ardalion estava quase a cair da janela. Lydia, cordeiro em pele de leopardo, correu ao lado do trem quase até à Suíça. Quando o último vagão virou os seus amortecedores para ela, Lydia abaixou-se, olhou para baixo das rodas que se afastavam (uma superstição nacional) e, então, fez o sinal-da-Cruz. Tinha ainda na mão o pequeno buquê de violetas.
Ah, que alívio... O suspiro que dei me encheu o peito e escapou ruidosamente. Durante todo o dia, Lydia ficou gentilmente nervosa e preocupada, até que chegou um telegrama de duas palavras: “Viagem alegre” — e isso a tranqüilizou. Eu tinha de enfrentar então a parte mais aborrecida da tarefa: falar com ela, prepará-la.
Não me posso lembrar como foi que começou. Quando a corrente da memória é ligada, a conversa já está em plena marcha. Vejo Lydia sentada no divã e a olhar-me com mudo espanto. Vejo-me sentado na beira de uma poltrona diante dela e a tocar-lhe o pulso de vez em quando como se fosse um médico. Ouço a minha voz a discorrer sem parar. Em primeiro lugar, disse-lhe alguma coisa que, segundo afirmei, nunca havia contado a ninguém. Falei-lhe de meu irmão mais moço. Estudava na Alemanha quando a guerra começou. Foi recrutado pelos alemães e lutou contra os russos. Lembrava-me dele como um garoto calmo e triste. Meus pais costumavam castigar-me e mimá-lo. Ele não lhes mostrava, porém, qualquer afeição, mas desenvolvera a meu respeito uma atitude de adoração que era verdadeiramente incrível, mas que seria normal entre irmãos. Seguia-me por toda a parte, olhava-me bem nos olhos e gostava de tudo o que estava em contato comigo. Gostava de cheirar o lenço que eu usava, de vestir minha camisa ainda quente do meu corpo e de escovar os dentes com a minha escova. A princípio, dormíamos na mesma cama com um travesseiro em cada extremidade. Isso continuou até que se descobriu que ele não podia pegar no sono sem chupar o dedo grande do meu pé, em vista do que, fui relegado para um colchão num quarto onde se guardavam trastes velhos, mas desde que ele insistia em trocar de lugar comigo no meio da noite, nunca pudemos saber e muito menos o pôde minha mãe quem era que estava dormindo ali ou no quarto. Não se tratava de uma perversão da parte dele — isso de modo algum — pois era apenas a melhor maneira que ele tinha de exprimir nossa indescritível unidade, pois nos parecíamos tanto que nossos parentes mais chegados costumavam fazer confusão entre nós e, à medida que os anos corriam, a semelhança se tornou cada vez mais perfeita. Lembro-me de que, quando fui levá-lo ao trem no dia em que ele partiu para os estudos na Alemanha (isso aconteceu pouco antes do tiro de pistola de Prinzip em Serajevo que deu início à Grande Guerra), o pobre rapaz chorava com tanta amargura quanto se soubesse como seria longa e cruel a separação. As pessoas que estavam na plataforma olhavam para nós e viam dois rapazes idênticos de mãos dadas e com os olhos fitos um no outro com uma espécie de melancólico êxtase...
Irrompeu então a guerra. Enquanto fiquei a sofrer meu remoto cativeiro, nunca tive qualquer notícia de meu irmão e, não sei como, convenci-me de que ele fora morto. Foram anos penosos, debruados de crepe. Aprendi a não pensar mais nele e, até anos depois, quando me casei, não disse uma só palavra a Lydia, tão triste era tudo.
Então, logo depois de levar minha mulher para a Alemanha, um primo (que pegou a sua deixa para passar e me dizer apenas essa fala) me informou que Felix, embora vivo, estava moralmente morto. Nunca soube exatamente de que maneira a alma de meu irmão se desagregara... Era de presumir que a sua delicada estrutura psíquica não houvesse resistido às tensões da guerra, ao mesmo tempo que a idéia de que eu já não existia (é muito estranho que ele se tivesse convencido também da morte do irmão) e de que ele nunca mais veria seu adorado sósia ou, melhor, a excelente cópia de sua personalidade, contribuía para entravar-lhe o espírito. Devia sentir que perdera todo o apoio e toda a ambição e que, daí por diante, a vida não valia mais a pena de ser vivida. E assim foi caindo. Aquele homem, tão melodiosamente afinado quanto os melhores instrumentos musicais, se tornou ladrão e falsário, viciou-se em drogas e, por fim, cometeu um crime de morte. Envenenou a mulher que o sustentava. Soube disso depois por ele mesmo, que me contou tudo. Não foi nem alvo de suspeitas graças à habilidade com que cometera o crime. Quanto ao meu encontro com ele... bem, tinha sido obra do acaso. Fora um encontro inesperado e penoso (uma das conseqüências fora a depressão em que eu caíra e que a própria Lydia notara). O encontro se dera num café de Praga. Lembro-me de que ele se levantou, logo que me viu, abriu os braços e caiu para trás num desmaio profundo que durou dezoito minutos.
Sim, foi tudo tremendamente doloroso. Em lugar do rapaz indolente, sonhador e meigo que eu conhecera, encontrei um desequilibrado loquaz, todo cheio de tiques e de asperezas. A felicidade que ele sentia em reverme, ao seu caro e velho Hermann, o qual se levantara de repente dos mortos num belo terno cinza não só não lhe apazigou a consciência mas, muito ao contrário, convenceu-o da completa impossibilidade de viver com um crime de morte no coração. A conversa que tivemos foi terrível. Cobria-me as mãos de beijos a cada instante e se despedia de mim. Até os garçons choraram.
Compreendi sem demora que não havia força humana na terra capaz de demovê-lo da decisão que havia tomado de suicidar-se. Até eu, que sempre tivera tanta influência ideal sobre ele, nada podia fazer. Os minutos que passei então nada tiveram de agradável. Pondo-me no lugar dele, podia facilmente perceber a cruel tortura que a memória o fazia sofrer. Percebi, também, infelizmente, que a única solução para ele era a morte. Possa Deus poupar a qualquer pessoa a provação por que então passei — ver meu irmão perecer sem ter o direito moral de evitar o desastre.
Mas agora é que vem a complicação: a alma dele, que tinha o seu lado místico, ansiava por alguma expiação, algum sacrifício: meter simplesmente uma bala nos miolos não lhe parecia suficiente.
— Quero dar a minha morte em oferenda a alguém — disse ele com os olhos transbordantes da luz de diamante da demência. — Fazer de minha morte uma oferenda. Nós dois somos ainda mais parecidos do que éramos: Vejo uma intenção divina em nossa semelhança. Colocar as mãos sobre um piano não significa fazer música e eu quero é música. Escute, não seria interessante para voçê desaparecer de alguma maneira da terra?
A princípio, não dei importância à pergunta dele. Supus que Felix estivesse delirando. Por outro lado, uma orquestra cigana no café me fez perder parte do que ele dizia. Mas as palavras que proferiu depois provaram que ele tinha um plano bem definido. De fato! De um lado, o abismo de uma alma atormentada; do outro, perspectivas comerciais. Ao lúgubre clarão de seu destino trágico e do seu heroísmo tardio, a parte do plano que se referia a mim, meus lucros, meu bem-estar, parecia tão absurdamente realista quanto, por assim dizer, a inauguração de uma estrada de ferro durante um terremoto.
Tendo chegado a esse ponto de minha história, parei de falar e, reclinando-me para trás na poltrona com os braços cruzados, olhei fixamente para Lydia. Ela pareceu deslizar do divã para o tapete, arrastou-se para perto de mim de joelhos, encostou a cabeça em minha coxa e começou a confortar-me com voz rouca:
— Pobrezinho, coitadinho! Tenho pena de você e de seu irmão... Oh, meu Deus, quanta gente infeliz há neste mundo! Seu irmão não deve morrer. Nunca é impossível salvar uma pessoa!
— Ele não pode ser salvo — disse eu com um sorriso que, segundo acredito, se chama de amarelo. — Está resolvido a morrer no dia de seu aniversário, 9 de março, isto é, depois de amanhã, e nem o presidente do Estado teria o poder de impedi-lo. O suicídio é a pior forma de abuso pessoal. O máximo que se pode fazer é concordar com os caprichos da vítima e facilitar-lhe as coisas concedendo-lhe o conhecimento de que, morrendo, está fazendo uma coisa útil, talvez de uma crua natureza material, mas de qualquer maneira útil.
Lydia abraçou-me as pernas e levantou os olhos para mim.
— O plano dele é mais ou menos o que lhe vou dizer — continuei em voz suave. Eu farei um seguro de vida, vamos dizer, de meio milhão. Numa floresta ou em outro lugar qualquer, meu corpo é encontrado. Minha viúva, isto é, você...
— Pare de dizer esses horrores! — exclamou Lydia, levantando-se do tapete. — Estou lendo um romance que tem um enredo parecido. Pare com isso pelo amor de Deus!
— Minha viúva, que é você, recebe o dinheiro do seguro. Depois, vai viver num lugar isolado, no estrangeiro. Ao fim de algum tempo, sob um nome suposto, irei para a companhia dela e, se ela for boazinha comigo, poderei até casar-me com ela. Meu verdadeiro nome terá morrido naturalmente com meu irmão. Nós nos parecemos (não me interrompa!) como duas gotas de sangue e se parecerá ainda mais comigo depois de morto.
— Chega, chega! Não acredito que não haja maneira alguma de salvá-lo. . . Oh, Hermann, que coisa mais errada! Onde é que ele está neste momento? Em Berlim?
— Não. Em outro ponto do país. Você fica falando como uma boba em salvá-lo... Esquece-se de que ele é um assassino e um místico. Creio que não tenho o direito de recusar-lhe coisa alguma capaz de atenuar-lhe coisa alguma e embelezar-lhe a morte. Deve compreender que nesse ponto estamos entrando num plano espiritual mais alto. Seria tudo muito diferente se eu lhe dissesse: “Escute aqui, minha velha, os negócios vão mal e eu estou ameaçado de falência. Além disso, estou farto de tudo e só desejo é algum canto remoto onde possa viver em contemplação e criar galinhas. Vamos, portanto, aproveitar essa chance em mil!” Mas não lhe estou dizendo nada disso, embora esteja, na verdade, à beira da ruína e há séculos sonhe, como você bem sabe, com um mergulho ao seio da natureza. O que estou dizendo é coisa muito diferente, a saber: por mais difícil, por mais terrível que seja, não se pode negar a um irmão seu último desejo, não se pode impedi-lo de fazer o bem, ainda que seja depois de morto.
As pálpebras de Lydia bateram — eu a inundava de perdigotos — mas apesar do arrojo de minha conversa, ela se aninhou contra mim, abraçando-me com força. Estávamos ambos no divã então e eu continuei:
— Uma recusa dessa espécie seria um pecado. Não é o que eu quero. Não pretendo sobrecarregar a consciência com um pecado de tamanha gravidade. Julga que não lhe fiz objeções e que não tentei argumentar com ele? Pensa que dormi bem em qualquer noite depois disso? Posso dizer-lhe, querida, que desde o ano passado, venho sofrendo terrivelmente. Não gostaria de que o meu melhor amigo passasse nem por metade do que tenho passado. Que me importa o dinheiro do seguro? Mas como posso recusar, faça o favor de me dizer, como posso privar meu irmão de sua última alegria? Oh! Não adianta falar! Empurrei-a para o lado, fazendo-a quase cair do divã e comecei a andar de um lado para outro. Continha a respiração, soluçava. Espectros de melodrama vermelhos se desdobravam diante de mim.
— Você é um milhão de vezes mais inteligente do que eu — disse Lydia num sussurro, torcendo as mãos (sim, leitor, foi o que eu disse, torcendo as mãos) — mas tudo isso é tão espantoso, tão inesperado. Pensei que coisas assim só acontecessem nos livros... Isso significa que tudo vai mudar, toda a nossa vida... Por exemplo, que é que vai ser de Ardalion?
— Ele que vá para o diabo que o carregue! Estamos aqui discutindo uma das maiores tragédias do mundo e lá me vem você com...
— Ora, só perguntei por perguntar. Você me tonteou com essas coisas e estou até sentindo uma zoada esquisita na cabeça... Creio que não agora mas depois será possível falar com ele e explicar-lhe tudo... Você não acha assim, Hermann?
— Não se preocupe com bobagens. O futuro resolverá tudo isso. Francamente, francamente (e minha voz se transformou de repente num grito estrangulado) francamente, você é uma verdadeira cretina!
Ela se debulhou em lágrimas e passou a ser imediatamente uma coisa abandonada que tremia contra meu peito.
— Perdão, perdão — disse ela com a voz entrecortada. — Você tem razão, sou mesmo uma cretina, mas me perdoe. Para que essa coisa tão horrível foi acontecer? Ainda hoje de manhã, tudo estava tão bom, tão calmo, tão comum. Querido, tenho tanta pena de você! Farei tudo o que você quiser!
— O que eu quero agora é café. Estou louco por um café.
— Vamos para a cozinha — disse ela, enxugando as lágrimas. — Farei tudo o que você quiser. Mas não saia de junto de mim, que estou com medo.
Na cozinha, já mais calma, embora ainda fungasse de vez em quando, ela colocou no moinho os grandes caroços pardos de café torrado, prendeu o moinho entre os joelhos e começou a rodar a manivela. Foi difícil a princípio com muitos estalos e rangidos, mas de súbito ficou tudo fácil e folgado.
— Imagine, Lydia, — disse eu, sentando-me na mesa da cozinha com as pernas a balançar — imagine que tudo o que eu lhe disse é pura ficção. Falando a sério, sabe que eu venho tentando convencer-me de que tudo isso é alguma coisa inventada por mim ou uma história que li em algum lugar. Era a única maneira de manter o equilíbrio mental diante de tanto horror. Agora, escute. Os dois personagens são um suicida com espírito de iniciativa e seu sósia segurado. Muito bem, a companhia de seguros não é obrigada a pagar em casos de suicídio...
— Fiz o café bem forte como você gosta — disse Lydia. — Pode falar que eu estou escutando, meu bem.
— Assim sendo, o herói dessa história barata de mistério reclama as seguintes medidas: em primeiro lugar, as coisas devem ser encenadas de tal maneira que dêem a impressão de um assassinato comum. Não quero entrar em detalhes técnicos. Basta você saber que a arma será amarrada ao tronco de uma árvore, com um cordão forte preso ao gatilho. O suicida dará meia-volta, puxará o cordão e receberá a bala nas costas. Estou-lhe explicando os detalhes pelo alto.
— Espere um pouco! — exclamou Lydia. — Lembrei-me de uma coisa! Ele arrumou o revólver no parapeito da ponte... Não, não foi assim. Primeiro, ele amarrou uma pedra com um cordão... Como foi mesmo? Ah, já sei! Amarrou uma grande pedra numa ponta e o revólver na outra, depois do que, deu o tiro que o alcançou em cheio. A pedra caiu então dentro da água, o cordão escorregou depois por cima do parapeito e, por fim, o revólver caiu também, tudo dentro da água. Só não me lembro é por que tudo isso era necessário.
— Em resumo, tudo escondido na água e um homem morto em cima da ponte. Que boa coisa é o café! Estava com a cabeça estalando de dor de cabeça e agora estou muito melhor. De modo que tudo está mais ou menos claro para você, quer dizer, o jeito pelo qual vai ser a coisa.
Acabei de tomar o café quente ao mesmo tempo que pensava. Estranho, Lydia não tinha nem um pingo de imaginação. Em dois dias, a vida vai mudar em confusão e terremoto e aqui está ela, a tomar calmamente café comigo e a lembrar-se de algum caso de Sherlock Holmes.
Mas eu estava enganado. Lydia teve um tremor e disse, colocando lentamente a xícara em cima da mesa:
— Estou pensando uma coisa, Hermann. Se isso vai acontecer tão depressa assim, não é melhor começarmos a arrumar as malas? O pior é que temos uma porção de roupa na lavadeira. E seu smoking está no tintureiro.
— Em primeiro lugar, querida, não estou particularmente ansioso por ser cremado de smoking. Depois, tire da cabeça de uma vez por todas a idéia de que você deve fazer alguma coisa ou qualquer preparativo. Não há nada para você fazer, pela simples razão de que você não sabe absolutamente de coisa alguma. Veja se mete isso na cabecinha, sim? Por conseguinte, nada de alusões misteriosas nas conversas com suas amigas, nada de inquietação, nada de fazer compras. Não esqueça, minha querida, senão todos nós correremos perigo. Vou repetir: você de nada sabe ainda. Depois de amanhã, seu marido sairá no carro e não voltará para casa. E então e só então é que o seu trabalho vai começar. É um trabalho bem importante, embora muito simples. Por isso mesmo, quero que me ouça com a maior atenção. Na manhã do dia 10, você telefonará para Orlovius e dirá que não sabe de mim, que eu não dormi em casa e. ainda não voltei. Perguntará a ele o que deve fazer e agirá de acordo com as sugestões dele. De um modo geral, deixe-o tomar conta do caso e fazer tudo, como avisar a polícia, etc. O corpo aparecerá sem demora. É essencial que você pareça acreditar que eu estou realmente morto. De certo modo, isso não estará muito longe da verdade pois meu irmão faz parte de minha alma.
— Farei tudo por você e por ele — disse Lydia. — Mas estou com medo e tudo isso se baralha em minha cabeça.
— Não deixe que nada fique baralhado. O mais importante é a naturalidade. O seu pesar pode não lhe embranquecer os cabelos mas tem de ser natural. A fim de facilitar sua tarefa, insinuei em conversa com Orlovius que você há anos tinha deixado de me amar. Mostre, portanto, uma tristeza calma e reservada. Suspire e fique calada. Depois, quando vir o meu corpo, isto é, o corpo de um homem que é difícil distinguir de mim, você não poderá deixar de levar um choque.
— Não posso, Hermann! Vou morrer de medo!
— Seria muito pior se no necrotério você se lembrasse de passar pó no rosto. De qualquer maneira, contenha-se. Não grite. Do contrário, será necessário, depois dos gritos, aumentar a extensão de sua dor e você bem sabe como é má atriz. Vamos adiante. A apólice de seguros e o meu testamento estão na gaveta do meio de minha mesa. Depois de ter mandado cremar meu corpo, como está determinado em meu testamento, depois de cumpridas todas as formalidades e depois de ter recebido o dinheiro, por intermédio de Orlovius, fazendo tudo o que ele lhe disser, você irá para Paris. Onde se hospedará em Paris?
— Não sei, Hermann.
— Procure lembrar-se de onde foi que ficamos quando estivemos em Paris juntos. Então?
— Acho que já estou-me lembrando. Um hotel.
— Mas que hotel?
— Quando você me olha desse jeito, Hermann, não posso lembrar-me de nada. Quase que me veio à memória. É hotel não sei o quê.
— Vou-lhe dar uma indicação. É uma palavra relacionada com relva. Como é relva em francês?
— Espere aí... herbe. Já sei: Malherbe.
— Para ter certeza, caso você volte a esquecer, olhe para a sua mala preta. Ainda está com a etiqueta do hotel.
— Escute aqui, Hermann, não sou tão tola assim. Mas de qualquer maneira vou viajar com a mala preta.
— Muito bem, já sabe o lugar onde se vai hospedar. Depois, vem um assunto da maior importância. Mas, primeiro, quero que se dê ao trabalho de repetir tudo o que já combinamos.
— Ficarei triste. Procurarei não chorar demais. Orlovius. Dois vestidos pretos e um véu.
— Calma. Que é que você vai fazer quando vir o corpo?
— Caio de joelhos. Mas não dou gritos.
— Está certo. Vê como tudo se ajusta bem? E depois?
— Depois, mandarei enterrar seu irmão.
— Não. Não a ele, mas a mim. Por favor, não faça confusão nisso. Depois, não vai haver enterro e, sim, cremação. Ninguém quer ser exumado. Orlovius informará o pastor dos meus méritos morais, cívicos e matrimoniais. O pastor da capela do crematório deverá proferir uma comovente oração. E ao som de um órgão, o meu caixão baixará lentamente ao Hades. É só. E depois?
— Depois disso, Paris. Não, espere. Antes, deve haver todas as espécies de formalidades de dinheiro. Sabe de uma coisa? Acho que Orlovius vai-me amolar terrivelmente. Em Paris, irei para o hotel... Agora, já sei tudo o que vai acontecer. Pensei que não ia mais esquecer mas esqueci... É que você me oprime... Já sei... Hotel Malherbe. Por garantia, a mala.
— A mala preta. Agora, vem o ponto importante: logo que você chegar a Paris, mandará dizer-me. Que método vamos adotar para você guardar o endereço?
— É melhor escrever, Hermann. Meu cérebro se nega positivamente a funcionar agora. Estou com tanto medo que vou misturar tudo.
— Não, querida, não vou escrever nada. Se não houvesse outro motivo, lembre-se de que você sempre perde os papéis em que há alguma coisa escrita. Você terá de decorar o endereço, queira ou não queira. Não há outro meio. Está proibida de escrever esse endereço, entendeu bem?
— Entendi, Hermann. E se eu não puder lembrar-me?
— Nada disso. O endereço é muito simples. Agência do Correio, Pignan, França.
— Era onde Tia Elisa morava! Isso, sim, é fácil de lembrar. Mas ela está morando agora perto de Nice. Não é melhor mandar a carta para Nice?
— Boa idéia, mas a carta vai para Pignan mesmo. Agora, o nome do destinatário. Para simplificar as coisas, mande a carta para “Monsieur Malherbe”.
— Tia Elisa deve estar tão gorda e tão ativa como sempre foi. Sabe que uma vez Ardalion escreveu a ela pedindo dinheiro e aí...
— Muito interessante decerto, mas nós estamos falando de negócios. Que nome vai escrever no endereço?
— Como posso saber se você ainda não me disse, Hermann?
— Disse, sim. Sugeri Monsieur Malherbe.
— Mas esse não é o nome do hotel?
— Exatamente. É mais fácil de você se lembrar por associação.
— Oh! Tenho certeza de que vou esquecer a associação. Não tenho jeito mesmo, Hermann. Por favor, vamos deixar de lado as associações. Já é bem tarde e eu estou ficando exausta.
— Então pense você num nome, algum nome de que seja quase certo você se lembrar. Acha que Ardalion serve?
— Muito bem, Hermann.
— Está resolvido então. Monsieur Ardalion. Agência do Correio, Pignan, França. Agora, o conteúdo. Começará assim: “Caro amigo, deve ter sabido do golpe pelo qual passei...“ e assim por diante nesse jeito. Algumas linhas apenas. Você deve botar a carta no correio pessoalmente. Compreendeu tudo?
— Muito bem, Hermann.
— Faça então o favor de repetir.
— Você bem sabe que essa tensão é demais para mim. Vou ter um colapso. Deus do céu, uma e meia da madrugada já. Vamos deixar para amanhã?
— Amanhã, você terá de repetir tudo do mesmo jeito. Vamos, agora. Estou ouvindo...
— Hotel Malherbe. Chego lá. Boto a carta no correio. Eu mesma. Ardalion. Agência do Correio, Pignan, França. E depois disso?
— Não lhe interessa mais. Veremos. Tem certeza de que vai fazer tudo direitinho?
— Tenho, Hermann. Mas não me faça repetir mais nada. Estou morta de cansaço.
De pé no meio da cozinha, abriu os braços, jogou a cabeça para trás, sacudiu-a violentamente, passando as mãos pelos cabelos e murmurando: “Como estou cansada! Como. . .“ Esse último “como” se escancarou num bocejo.
Fomos dormir afinal. Ela se despiu espalhando pelo quarto vestidos, meias e vários artigos femininos sortidos. Jogou-se na cama e se acomodou imediatamente num confortável sibilo nasal. Fui para a cama também, apaguei a luz, mas não pude dormir. Lydia acordou de repente e me tocou no ombro.
— Que é que você quer? — perguntei, fingindo sonolência.
— Hermann... escute uma coisa... Você acha... que o que estamos fazendo... é honesto?
— Vá dormir, Lydia. Você não tem cabeça para entender uma transação como essa. Tragédia pura e lá vem você com asneiras... Vá dormir!
Ela deu um suspiro feliz, virou-se para o outro lado e no mesmo instante ressonava de novo.
É curioso que, embora eu não tivesse a menor dúvida a respeito da capacidade de minha mulher e soubesse muito bem quanto ela era pouco inteligente, esquecida e desajeitada, não tinha o menor receio quanto a ela, tanto eu acreditava que a dedicação que tinha por mim a faria tomar instintivamente o caminho certo, livrando-a de qualquer descuido e, ainda mais, forçando-a a guardar o meu segredo. Via em imaginação claramente a maneira pela qual Orlovius olharia para a imitação deficiente de tristeza que ela faria, abanaria tristemente a solene cabeça e talvez pensasse na possibilidade de que o pobre marido tivesse sido assassinado pelo amante da mulher. Mas nesse momento a carta de ameaça do demente anônimo lhe chegaria ao espírito como uma recordação oportuna.
Passamos todo o dia seguinte em casa e mais uma vez procurei dar instruções a minha mulher meticulosa e laboriosamente, incutindo-lhe a minha vontade à força, do mesmo modo que se alimentam os gansos para engordar-lhes o fígado. Ao anoitecer, ela mal podia manter-se em pé. Estava satisfeito com o estado dela. Já era tempo de preparar-me também. Dei tratos à bola durante horas, calculando o dinheiro que devia levar e quanto devia deixar com Lydia. O dinheiro não era muito e eu achei que devia levar também alguma coisa de valor. Disse, portanto, a Lydia:
— Vá buscar o seu broche de Moscou, sim?
— Ah, sim, o broche — disse ela apaticamente. Saiu da sala mas voltou logo depois, estendeu-se no divã e começou a chorar como jamais eu a ouvira chorar.
— Que é que há, mulher?
Levou muito tempo para responder mas depois, entre soluços e sem coragem de olhar para mim, explicou que o broche de brilhantes, que uma imperatriz dera de presente à bisavó dela, tinha sido empenhado para conseguir o dinheiro necessário à viagem de Ardalion, pois o tal amigo não havia mais aparecido para pagar.
— Está bem, está bem, não é preciso chorar assim — disse eu, guardando no bolso a cautela do broche. — Foi muita esperteza da parte dele. Mas, por fim, foi-se embora. Isso é que é importante.
Ela se recuperou imediatamente e até mostrou um luminoso sorriso molhado de lágrimas quando viu que eu não estava zangado. Fez nova viagem ao quarto, levou muito tempo remexendo por lá e por fim me trouxe um anelzinho barato, um par de brincos e uma cigarreira antiga que tinha sido da mãe dela... Não aceitei qualquer dessas coisas.
— Escute — disse eu, passeando pela sala e mordendo o polegar. — Escute, Lydia. Quando lhe perguntarem se eu tinha inimigos, quando a interrogarem querendo saber quem poderia ter-me matado, responda sempre: “Não sei”. Mais uma coisa: vou levar uma maleta, mas isso é rigorosamente confidencial. Não deve parecer que eu estava partindo para uma viagem, pois isso poderia despertar suspeitas. Na realidade...
Lembro-me de que nesse ponto parei subitamente. Como era estranho, quando tudo tinha sido tão belamente planejado e previsto, aparecesse de repente um pequeno detalhe, como depois de arrumar uma mala, descobre-se imediatamente que ficou de fora alguma coisa pequena mas incômoda, pois existem realmente esses objetos inescrupulosos. Deve dizer-se, para minha justificação, que a questão da maleta foi na verdade o único ponto que resolvi alterar. Tudo mais correu como fora imaginado muito, muito tempo antes — talvez muitos meses antes, talvez no mesmo segundo em que eu vi um vagabundo adormecido na relva e que parecia exatamente o meu cadáver. Não, pensei eu, é melhor não levar a maleta; há sempre o risco de que alguém me veja sair de casa com ela.
— Não vou levá-la — disse eu e continuei a passear pela sala.
Como posso esquecer a manhã de nove de março? Entre as manhãs, era nublada e fria. Tinha nevado durante a noite e, ao momento, todo o porteiro de edifício tratava de varrer o seu pedaço de passeio, ao longo do qual corria um pequeno banco de neve, ao passo que o asfalto já estava limpo e preto, embora um pouco escorregadio.
Lydia dormia em paz. Tudo estava em silêncio. Comecei a tarefa de vestir-me. Assim é que a mesma foi cumprida: duas camisas, uma por cima da outra, a da véspera em cima, pois se destinava a ele. Cuecas: duas também e a de cima também para ele. Fiz então um pequeno embrulho em que havia apetrechos de manicura, aparelho de barba e uma calçadeira. Para não me esquecer, meti logo o embrulho no bolso de meu sobretudo que estava no cabide do hall. Calcei então os dois pares de meias (o de cima tinha um buraco), os sapatos e as polainas cinzentas. Assim vestido, isto é, bem calçado mas ainda com a minha roupa de baixo, fiquei parado no meio do quarto e passei em revista os meus atos para ver se os mesmos se ajustavam ao meu plano. Lembrei-me de que ainda precisava de um par de ligas a mais e fui desencavar umas ligas velhas que juntei ao embrulho, o que me obrigou a voltar ao hall. Por fim, escolhi a gravata lilás que eu preferia e um terno cinza escuro com o qual vinha saindo muito ultimamente. Os seguintes objetos foram distribuídos pelos bolsos: minha carteira (com aproximadamente mil e quinhentos marcos), passaporte e papéis com endereços e contas.
Pare que está errado, disse comigo mesmo. Não tinha resolvido que não levaria meu passaporte? Era um pensamento muito sutil esse. Os papéis nos bolsos estabeleceriam a minha identidade melhor que o passaporte. Levei também as chaves, a cigarreira e o isqueiro. Botei o relógio no pulso. Já estava vestido. Bati nos bolsos e suspirei um pouco. Sentia calor dentro do meu duplo casulo. Restava agora a peça mais importante. Foi quase uma cerimônia: o lento abrir da gaveta onde a coisa estava, seguido de um cuidadoso exame que não era, sem dúvida, o primeiro. Sim, o objeto estava muito bem lubrificado e estava repleto de coisas boas... Fora-me dado em 1920 em Reval por oficial desconhecido. Para ser mais exato, ele apenas deixou o objeto comigo e desapareceu. Nunca mais soube que fim levou esse amável tenente.
Enquanto eu estava assim ocupado, Lydia acordou. Enfiou um robe de um tom rosa detestável e nós dois nos sentamos para tomar o café da manhã. Depois que a empregada saiu da sala, eu disse:
— Bem, é hoje o dia. Vou sair daqui a um minuto.
Uma digressão rápida de natureza literária. Esse ritmo é estranho ao falar moderno, mas reproduz muito bem a minha calma épica e a tensão dramática da situação.
— Por favor, Hermann! Fique em casa! Não vá a lugar algum! — disse Lydia em voz baixa e, se não me engano, de mãos postas.
— Você se lembra de tudo, não se lembra? — perguntei imperturbavelmente.
— Não vá, Hermann. Deixe seu irmão fazer o que bem entender. É o destino dele. Você não deve interferir.
— É bom que você se lembre de tudo — disse eu com um sorriso. — Muito bem, menina. Vou agora comer mais um pão e sair.
Ela desatou a chorar. Depois, assoou o nariz com uma explosão final, deu a impressão de que ia dizer alguma coisa e voltou a chorar. A cena era bem interessante. Eu passava manteiga friamente num pão em forma de meia-lua e ela, sentada à minha frente, tinha o corpo sacudido pelos soluços. Eu disse então com a boca cheia:
— De qualquer maneira, você poderá diante do mundo (nesse ponto, mastigei e engoli o pão) lembrar-se de que teve maus pressentimentos, embora eu costumasse sair com freqüência e sem lhe dizer para onde ia. “Sabe, Madame, se ele tinha inimigos?” “Não sei não, Sr. Delegado.”
— Mas que é que vai acontecer agora? — perguntou Lydia em voz gemente e baixa, ao mesmo tempo que abria desesperadamente as mãos.
— Chega, querida — disse eu em outro tom de voz. — Já teve o seu prantozinho e agora pode parar.
E, por favor, nem pense em chorar hoje diante de Elsie.
Ela enxugou os olhos com um lenço amarfanhado, deu um breve suspiro triste e tornou a fazer o gesto de desesperada perplexidade, mas dessa vez em silêncio e sem lágrimas.
— Lembra-se de tudo? — perguntei pela última vez, a olhá-la atentamente.
— Sim, Hermann, lembro-me de tudo. Mas estou com tanto medo...
Levantei-me e ela também se levantou.
— Adeus, Lydia. Até um dia. Está na hora de ir ver o meu paciente.
— Escute, Hermann, você não pretende estar presente, pretende?
Não entendi bem o que ela queria dizer.
— Presente? A quê?
— Você bem sabe o que eu estou pensando. Quando ele... oh, aquele negócio do cordão.
— Bobinha — disse eu. — Que era que você esperava? Alguém tem de ajeitar tudo depois. Agora, seria muito bom que você não pensasse mais no assunto. Vá ao cinema esta noite. Adeus, bobinha.
Nunca lhe beijei a boca. Detesto a pieguice dos beijos nos lábios. Afirma-se que os antigos eslavos também, até nos momentos de excitação sexual, nunca beijavam suas mulheres. Achavam estranho, talvez até um pouco repulsivo, pôr os lábios nus em contato com a pele de outra pessoa. Naquele momento, porém, senti pela primeira vez a necessidade de beijá-la na boca. Mas minha mulher estava despreparada, de modo que só resultou daí meus lábios roçarem pelos cabelos dela. Abstive-me de outra tentativa. Em lugar disso, bati os calcanhares e apertei-lhe a mão inerte. Depois, no hall, vesti rapidamente o sobretudo, peguei as luvas, verifiquei se estava com o embrulho e já estava chegando à porta quando a ouvi chamar-me da sala de jantar numa vozinha chorosa. Não tomei conhecimento disso pois estava com muita pressa de sair.
Atravessei o pátio para uma grande garagem cheia de carros. Fui recebido ali com sorrisos amistosos. Entrei no carro e dei partida ao motor. A superfície asfaltada do pátio era um pouco mais alta que a da rua, de modo que, entrando no estreito túnel em rampa que ligava o pátio à rua, o carro, preso atrás pelos freios, mergulhou de leve e sem fazer barulho.