Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 10 de 13

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Desespero

Capítulo 9

Para dizer a verdade, sinto-me um tanto cansado. Tenho escrito do meio-dia ao amanhecer, produzindo um capítulo por dia ou mais. Que grande e poderosa coisa é a arte! Na minha situação, eu deveria estar a movimentar-me, a correr, a esquivar-me... É claro que não há perigo imediato e posso dizer até que nunca haverá perigo, mas, apesar de tudo, é uma singular reação essa de ficar sentado horas sem fim a escrever ou a meditar, o que, no fundo, vem a ser a mesma coisa. E quanto mais escrevo, mais claro se torna que não deixarei o assunto em suspenso enquanto o meu principal objetivo não for atingido, quando eu certamente enfrentarei o risco de mandar publicar minha obra... Aliás, o risco não será tão grande assim pois logo que o meu original for remetido eu desaparecerei, pois o mundo é bem grande para que nele possa esconder-se um homem calado, disfarçado por uma barba.

Não foi espontaneamente que decidi enviar minha obra ao penetrante romancista a quem creio já haver mencionado, mesmo dirigindo-me pessoalmente a ele por intermédio de minha história. Posso estar enganado pois há muito deixei de ler o que escrevo. Não me sobra tempo para isso e não é nem bom falar no efeito nauseante que isso me causa.

Havia a princípio pensado em mandar tudo diretamente a algum editor — alemão, francês ou americano — mas o original está escrito em russo e não é inteiramente traduzível. Para ser franco, sou um pouco exigente a respeito dos meus vocalises literários e acredito firmemente que a perda de um só matiz ou inflexão prejudicaria irremediavelmente o conjunto. Pensei também em mandar o original para a URSS, mas não tenho os endereços necessários, não sei como isso é feito e nem tenho certeza de que o meu original seria lido desde que eu emprego, pela força do hábito, a ortografia do antigo regime e reescrevê-lo estaria acima das minhas forças. Falei em reescrever? Não sei nem se resistirei a tensão de escrevê-lo.

Tenho afinal resolvido mandar meu original a alguém que decerto gostará dele e fará o que lhe for possível para vê-lo publicado, tenho plena ciência do fato de que o escolhido (você, meu primeiro leitor) é um romancista emigrado, cujos livros não podem talvez aparecer na URSS. É possível, porém, que se faça uma exceção para este livro, levando em consideração que ele não foi realmente escrito por você. Como nutro a esperança de que apesar de sua assinatura de emigrado (cuja diáfana ilegitimidade não enganará ninguém) meu livro possa achar um mercado na URSS! Como estou longe de ser inimigo do regime soviético, tenho certeza de que externei involuntariamente no meu livro certas noções que correspondem perfeitamente às exigências dialéticas do momento corrente. Parece-me até às vezes que meu tema básico, a semelhança entre duas pessoas, tem um profundo sentido alegórico. Essa notável parecença física deve ter-me atraído subconscientemente como a promessa dessa semelhança ideal que deve unir as pessoas na sociedade sem classes do futuro. E procurando fazer uso de um caso isolado, eu estava, embora ainda cego para as verdades sociais, cumprindo uma certa função social. E há mais uma coisa: o fato de que eu não tenha tido pleno êxito na utilização prática dessa nossa semelhança pode ser explicado puramente em função de causas sócio-econômicas, isto é, à circunstância de que Felix e eu pertencemos a classes diferentes e nitidamente definidas, cuja fusão ninguém pode ter a esperança de conseguir sozinho, especialmente agora quando o conflito de classes atingiu uma fase em que é inadmissível qualquer conciliação. Na verdade, minha mãe era de baixa extração e o pai de meu pai foi guardador de gansos na sua mocidade, o que explica exatamente onde um homem da minha marca e dos meus hábitos poderia ter adquirido aquela tendência forte mas ainda expressa incompletamente para a Consciência Genuína. Posso visualizar um novo mundo onde todos os homens se pareçam uns com os outros como se pareciam Hermann e Felix. Seria um mundo de Helix e Fermanns, onde o operário que caísse morto ao pé de sua máquina seria substituído imediatamente por um sósia perfeito que tivesse no rosto o sorriso sereno do socialismo perfeito. Penso, portanto, que os jovens soviéticos de agora poderiam haurir consideráveis benefícios de um estudo do meu livro sob a supervisão de um marxista experimentado que os ajudaria a seguir através de suas páginas as contorções rudimentares da mensagem social nele contida. Que outras nações o traduzam também nas suas respectivas línguas, de modo que o leitor americano possa satisfazer o seu anseio de glamour sangrento, o francês divisar miragens de sodomia na minha parcialidade por um vagabundo e o alemão apreciar o lado leviano de uma natureza semi-eslava. Leiam-no tanto quanto possível, senhoras e senhores! Abro-lhes os braços a todos como leitores.

Não é, porém, um livro fácil de escrever. E, especialmente agora, quando estou chegando à parte que trata, por assim dizer, de ação decisiva, é agora que a dificuldade de minha tarefa me aparece por inteiro. Aqui estou eu, como vêem, com rodeios, evasivas e conversas sobre assuntos que de direito pertencem ao prefácio de um livro e estão completamente deslocados no que o leitor pode julgar o capítulo mais essencial. Mas já tentei explicar que, por mais hábeis e cautelosos que sejam os caminhos seguidos, não é a minha parte racional que está escrevendo, mas apenas minha memória, essa minha memória tortuosa.

De fato, vejam que naquele momento, isto é, na hora exata em que os ponteiros de minha história pararam, eu tinha parado também. Estava fazendo o tempo passar como estou fazendo agora. Empenhava-me num raciocínio emaranhado semelhante que nada tinha a ver com o meu caso, cuja hora marcada se aproximava firmemente.

Saíra de casa de manhã embora a hora do meu encontro com Felix fosse às cinco da tarde, mas não conseguiria ficar em casa e por isso estava sem saber como iria dispor de toda aquela massa encardida de tempo que me separava do encontro. Sentei-me no carro muito à vontade, quase sonolentamente, dirigindo com um dedo e atravessando Berlim pelas ruas calmas, frias e sussurrantes. E assim fui indo, fui indo ate notar que tinha saído de Berlim. As cores do dia estavam reduzidas a apenas duas: preto (o jogo das árvores nuas e do asfalto) e esbranquiçado (o céu e as manchas de neve). O meu sonolento transporte continuou. Durante algum tempo, agitou-se diante dos meus olhos um desses panos horríveis que os caminhões que transportam alguma coisa comprida e pontuda são obrigados a pendurar na extremidade traseira. Em dado momento, desapareceu, entrando decerto em outra estrada. Apesar disso, não andei mais depressa. Um táxi saiu correndo de uma rua transversal à minha frente. Houve um ranger de freios e, desde que o leito da estrada estava escorregadio, uma grotesca derrapagem. Passei calmamente por ele como se estivesse vogando por um rio. Mais adiante, uma mulher de luto pesado atravessava obliquamente a estrada, quase de costas para mim. Não toquei a buzina, nem alterei a minha marcha macia e calma. Passei a alguns centímetros da bainha do seu véu e ela, fantasma silencioso, nem notou nada. Veículos de toda a espécie me ultrapassavam. Durante algum tempo, um bonde vagaroso viajou emparelhado comigo, e eu, pelo canto do olho, via perfeitamente o ar imbecil dos passageiros que iam sentados. Encontrei uma ou duas vezes um trecho ruim calçado de pedras. Começavam a aparecer galinhas. Com as asas curtas abertas e os pescoços compridos esticados, uma ave ou outra atravessava a estrada correndo.

Pouco depois, passei por um trecho interminável de estrada, por entre campos recém-ceifados nos quais aqui e ali a neve aparecia. Numa localidade inteiramente deserta, meu carro me deu a impressão de adormecer, como se passasse de azul para cinzento, diminuindo pouco a pouco a marcha até parar. Pousei então a cabeça no volante num acesso de evasiva meditação. Em torno de que podiam girar meus pensamentos? Em torno de nada ou de coisas insignificantes. Era tudo muito complexo e eu estava quase adormecido. Meio desacordado, ocupei o espírito com tolices, lembrando-me de uma discussão que tivera um dia com alguém numa plataforma de estação sobre a possibilidade de ver o sol em sonhos. Por fim, tive a impressão cada vez mais forte de que havia muitas pessoas em torno de mim, todas falando ao mesmo tempo. Depois, calavam-se e davam-se umas às outras vagas missões, depois do que, se dispersavam em silêncio.

Prossegui ao fim de algum tempo e, ao meio-dia, quando me arrastava por uma aldeia, resolvi parar, pois, mesmo nessa marcha lenta, chegaria a Koenigsdorf dentro de uma hora mais ou menos, o que seria ainda muito cedo. Por isso, deixei-me ficar numa cervejaria triste e sombria, sentado a uma grande mesa numa espécie de sala dos fundos, onde havia uma velha fotografia na parede — um grupo de homens de sobrecasaca e de bigodes de pontas viradas para cima. Alguns dos homens da fila da frente tinham dobrado um joelho numa posição despreocupada e dois nas extremidades tinham esticado o corpo como se fossem focas. Isso me recordou grupos semelhantes de estudantes russos. Tomei ali um pouco de limonada e continuei a minha viagem com o mesmo sono, um sono que era quase indecente.

Lembro-me depois de ter parado numa ponte. Uma velha de calças azuis de lã e um saco às costas estava empenhada em consertar sua bicicleta. Sem sair do carro, dei-lhe vários conselhos inúteis e não solicitados. Depois, fiquei calado e, com a face apoiada no punho, pus-me a olhar por muito tempo. Lá estava ela pelejando. Mas afinal as pálpebras tremeram e eu não vi mais a mulher. Desaparecera havia muito. Continuei meu caminho e tentei, enquanto isso, multiplicar um número abstruso por outro ainda mais esquisito. Não sabia o que significavam nem de onde me haviam chegado ao espírito, mas, desde que ali estavam, julguei conveniente acometê-los e eles se emaranharam e dissolveram. Percebi de repente que estava dirigindo a uma velocidade louca e que o carro engolia a estrada como um mágico a devorar metros e metros de fita. Olhei, porém, para a agulha do velocímetro. Tremia na casa dos cinqüenta quilômetros enquanto ao lado passavam em lento desfile pinheiros e mais pinheiros. Lembro-me também de ter encontrado dois pequenos colegiais de rosto pálido que levavam os livros presos por uma correia. Falei com eles. Tinham ambos feições antipáticas de pássaro e me faziam pensar em corvos novos. Pareciam ter um pouco de medo de mim e, quando me afastei, ficaram a olhar-me com as bocas negras abertas, um mais alto e o outro mais baixo. Em seguida, com um sobressalto, percebi que havia chegado a Koenigsdorf e, olhando para o meu relógio, vi que já eram quase cinco horas. Ao passar pelo prédio vermelho da estação, refleti que talvez Felix estivesse atrasado e não tivesse descido ainda os degraus que eu via depois do espalhafatoso balcão de chocolate. Não havia absolutamente meio de deduzir do ar exterior do edifício baixo se ele já havia passado por ali ou não. Fosse como fosse, o trem que ele tivera ordem de tomar para Koenigsdorf chegava às 2:55, de modo que Felix não o tinha perdido...

Meu caro leitor! Ele fora mandado descer em Koenigsdorf e caminhar a pé para o norte seguindo a estrada de rodagem até chegar ao quilômetro dez, marcado por um poste amarelo. Era aquele o mesmo caminho que eu estava seguindo:

momentos inesquecíveis. Não se via ninguém. Durante o inverno, o ônibus só fazia duas viagens por dia por ali — de manhã e ao meio-dia. Assim, nos dez quilômetros de estrada só encontrei uma carreta puxada por um cavalo baio. Afinal, ao longe, como um dedo amarelo, o poste meu velho conhecido apareceu, cresceu e atingiu o seu tamanho verdadeiro; usava um casquete de neve. Freei e olhei em torno. Ninguém. O poste amarelo estava mesmo bem amarelo. À minha direita, além do campo, a floresta estava pintada de um cinza sujo contra o fundo claro do céu. Ninguém.. Saltei do carro e, com um barulho mais forte que o de qualquer tiro, bati a porta. No mesmo instante, notei que, de trás dos galhos entrelaçados de um arbusto que crescia na vala da estrada, olhava para mim, rosado como um boneco de cera, com um elegante bigodinho e realmente muito satisfeito...

Colocando um pé no estribo do carro e, como um tenor furioso, batendo na mão com a luva que havia tirado, olhei firmemente para Felix. Rindo incertamente, ele saiu da vala.

— Canalha! — exclamei por entre dentes com extraordinário vigor de cena lírica. — Patife e traidor!

— continuei, despredendo plenamente a voz ao mesmo tempo que me golpeava com a luva ainda mais furiosamente (tudo era ribombo e trovoada na orquestra entre as minhas explosões vocais). — Como se atreveu a dar com a língua nos dentes, seu imundo? Como teve coragem de pedir conselho aos outros, vangloriando-se de ter conseguido o que queria e de que a tal hora e em tal lugar. . . Oh, você merece ser fuzilado! (Estrépito, clangor e de novo minha voz.) Muito ganhou você com isso, idiota! O trato está desfeito, você foi o culpado e não vai ver nem um centavo, gorila! (Estridor de címbalos na orquestra.)

Assim deblaterava eu contra ele, ao mesmo tempo que observava com fria avidez o seu rosto. Fora colhido completamente de surpresa e parecia sinceramente ofendido. Apertando o peito com a mão, sacudia sem parar a cabeça. O trecho lírico chegou ao fim e o locutor de rádio continuou na sua voz habitual:

— Vamos deixar isso de lado... Só falei com você assim por simples formalidade, como uma medida de segurança... Caro amigo, você está muito engraçado. Essa maquilagem é bem boa!

Por ordem minha, deixara o bigode crescer e acho que até o havia encerado. Além disso, por sua conta, concedera ao rosto duas encaracoladas costeletas. Achei esse crescimento pretensioso extremamente divertido.

— Veio certamente pelo caminho que eu determinei, não foi? — perguntei com um sorriso.

— Claro. Cumpri as suas ordens. Quanto a falar, sabe muito bem que eu sou um homem solitário e não gosto de conversar com os outros.

— Sei disso e compreendo os seus suspiros. Agora, escute, encontrou alguém nesta estrada?

— Quando vi uma carreta, escondi-me logo na vala, como me disse que fizesse.

— Esplêndido! De qualquer maneira, suas feições estão suficientemente dissimuladas. Bem, não adianta perder mais tempo aqui. Entre no carro. Oh, deixe isso aí... Você pegará sua mochila na volta. Entre depressa. Temos de ir.

— Para onde?

— Para aquela floresta.

— Para ali? — perguntou ele, apontando com o bastão.

— Para ali, sim. Com os diabos, quer entrar ou não quer?

Felix olhou o carro com satisfação. Sem pressa alguma, embarcou e sentou-se ao meu lado.

Rodei o volante com o carro em marcha lenta. Hic. De novo: hic. (Saímos da estrada e entramos no campo.) A neve fina e os gravetos secos estalavam sob os pneus. O carro saltava nas desigualdades do terreno e nós saltávamos com ele. Enquanto isso, ele falava:

— Não terei qualquer dificuldade em manejar este carro (solavanco). Que viagem vou fazer nele (solavanco). Não tenha receio (duplo solavanco) que vou cuidar bem dele!

— Sim, o carro ficará em seu poder. Temporariamente em seu (solavanco) poder. Agora acorde, meu amigo, e olhe. Há alguém na estrada?

Ele olhou para trás e sacudiu a cabeça. Subimos ou, melhor, rastejamos por uma pequena rampa suave e entramos na floresta. Ali, entre os pinheiros mais remotos, paramos e saltamos. Não mais com os olhos compridos da indigência, mas com a satisfação tranqüila de um proprietário, Felix continuou a admirar o lustroso Icarus azul. Um ar sonhador lhe surgira nos olhos. É bem provável (notem que não estou afirmando coisa alguma; digo apenas que é “muito provável”), é muito provável, portanto, que os pensamentos dele fossem os seguintes: “E se eu desaparecer, neste belo carrinho? Vou receber o dinheiro adiantado, de modo que tudo dará certo. Vou deixar que ele acredite que pretendo fazer o que ele quer e irei para longe, bem longe. Ele não poderá dar queixa à polícia e terá de ficar bem caladinho. E eu no meu carro...“

Interrompi o curso desses gratos pensamentos.

— Bem, Felix, chegou o grande momento. Você vai trocar de roupa e ficar dentro do carro sozinho nesta floresta. Daqui a meia hora, começará a escurecer. Não haverá risco de que alguém o perturbe. Você passará a noite aqui, embrulhado no meu sobretudo. Veja como é fofo e macio... Não lhe disse? Além disso, o carro é bem quente e você vai dormir perfeitamente. Logo que o dia começar a clarear... Mas discutiremos isso depois. Vou aproveitar o resto da luz do dia para dar-lhe a aparência necessária. Para começar, você tem de fazer a barba.

— A barba? — exclamou Felix com uma tola surpresa. — Não pode ser. Não tenho navalha e com que se pode fazer a barba numa floresta como esta, tirando as pedras?

— Pedras? Um sujeito como você devia fazer a barba era a machado. Mas eu pensei em tudo. Trouxe o material e eu mesmo lhe farei a barba.

— Vai ser muito engraçado — disse ele, rindo. — Não sei o que é que vai sair daí. Veja lá se não me vai cortar o pescoço com sua navalha.

— Não tenha medo, pois vou usar aparelho. Vamos então. Sente-se em algum lugar, aqui no estribo, está bem.

Sentou-se depois de ter-se desembaraçado da mochila. Tirei o meu embrulho e coloquei o material de barba em cima do estribo. Tinha de andar depressa. O dia parecia fraco e descorado e o ar ficava cada vez mais escuro. E que silêncio.. . Parecia inerente, inseparável daqueles galhos imóveis, daqueles troncos retos, daquelas manchas de neve sem brilho que se espalhavam aqui e ali pelo chão.

Tirei o sobretudo para poder trabalhar com mais facilidade. Felix examinou curiosamente os dentes e o cabo prateado do aparelho de barba. Examinou depois o pincel. Levou-o ao rosto como para experimentar-lhe a macieza, O pincel era de fato deliciosamente macio. Eu pagara por ele dezessete marcos e cinqüenta. Felix ficou fascinado também pelo tubo caro de creme de barbear.

— Vamos começar — disse eu. — Sente-se um pouco de lado senão não dá jeito.

Tomei um punhado de neve, espremi nele um verme enroscado de creme, bati tudo com o pincel e apliquei a espuma gelada à barba e ao bigode do homem. Fez caretas e me olhou de banda. Um pouco de espuma lhe entrou por uma narina e ele franziu o nariz sentindo cócegas.

— Bote a cabeça para trás — disse eu. — Um pouco mais.

Descansei um tanto desajeitadamente o joelho no estribo e comecei a fazer-lhe a barba. Os pêlos estalavam e havia alguma coisa repulsiva no jeito pelo qual se misturavam com a espuma. Cortei-o ligeramente e a espuma ficou manchada de sangue. Quando comecei a fazer-lhe o bigode, ele apertou os olhos, mas não emitiu som algum embora aquilo fosse decerto bem desagradável. Eu estava trabalhando com pressa, os pêlos eram duros e o aparelho pegava.

— Tem um lenço aí? — perguntei.

Ele tirou um trapo do bolso e com ele limpei-lhe cuidadosamente do rosto sangue, neve e espuma. As faces dele ficaram respiandecentes — novinhas em folha. Só num lugar, perto da orelha, havia um arranhão vermelho que estava correndo para um pequeno rubi, o qual devia em breve ficar preto. Ele passou as mãos pelas partes barbeadas.

— Espere um pouco — disse eu. — Ainda não acabei. É preciso dar um jeito nessas sobrancelhas que são mais grossas do que as minhas.

Peguei uma tesoura e cortei habilmente alguns pêlos.

— Está ótimo, Felix. Quanto aos cabelos, tratarei de penteá-los depois que você tiver trocado de camisa.

— Vai-me dar a sua? — disse ele, sentindo interessadamente a seda do colarinho da camisa.

— Espere aí. Suas unhas não estão lá muito limpas — disse eu alegremente.

Tinha feito durante muito tempo as unhas de Lydia. Era bom nisso e não tive muita dificuldade em consertar aquelas unhas rudes. Ao mesmo tempo, comparava as nossas mãos. As dele eram maiores e mais escuras, mas cheguei à conclusão de que, de qualquer maneira, iriam ficar mais brancas. Desde que eu nunca uso aliança, só faltava colocar-lhe o meu relógio de pulso. Ele mexeu os dedos e virou o pulso para um lado e para o outro, muito satisfeito.

— Agora, tem de trocar de roupa. Tire tudo. Até a última peça.

— Mas, assim, vou sentir frio — disse Felix, reclamando.

— Não faz mal. É um minuto apenas. Ande depressa.

Ele tirou o velho paletó marrom e puxou pela cabeça o suéter escuro e peludo. A camisa embaixo era de um verde sujo com uma gravata do mesmo pano. Tirou depois os sapatos informes, arrancou as meias (cerzidas por uma mão masculina) e teve um soluço de êxtase quanto tocou com os pés nus o chão de inverno. O homem comum gosta muito de andar descalço. No verão, quando há uma grama viçosa, a primeira coisa que faz é tirar os sapatos e as meias. Mas também no inverno, isso não é um prazer para se jogar fora; lembra a infância e outras ocasiões alegres.

Fiquei de lado, tirando a gravata e olhando atentamente para Felix.

— Continue, continue — disse eu, notando que ele tinha um pouco de hesitação.

Não foi sem um pequeno torcer envergonhado do corpo que ele deixou as calças escorregarem pelas coxas brancas e glabras. Por último, tirou a camisa. Ali estava diante de mim na floresta fria um homem nu.

Numa rapidez incrível, com o ímpeto e a presteza de um Fregoli, despi-me, joguei-lhe o meu envoltório exterior da camisa e cuecas e enquanto ele vestia tudo isso, eu tirava do terno que havia jogado para o lado várias coisas — dinheiro, cigarreira, cautela do broche e pistola — e metia-as nos bolsos das calças mais apertadas que já havia vestido com a velocidade de um virtuoso de teatro de variedades. Embora o suéter dele fosse bastante quente, conservei meu cachecol e, desde que eu vinha perdendo algum peso ultimamente, o paletó me caiu quase como uma luva. Deveria oferecer-lhe um cigarro? Não, seria de muito mau gosto.

Enquanto isso, Felix vestira minha camisa e minhas cuecas. Ainda estava descalço. Dei-lhe as meias e as ligas, mas notei imediatamente que as unhas dos pés precisavam também de um pouco de atenção... Felix colocou o pé no estribo do carro e eu fiz um trabalho rápido de pedicuro. Os pedaços das unhas estalavam e voavam longe quando cortados. Eram pretos e feios e em meus sonhos recentes tenho-os visto juncar o chão de maneira muito ostensiva. Creio que ele teve tempo de pegar um resfriado ficando ali de camisa, o pobre. Em seguida, Felix lavou os pés na neve como faz um libertino sem banho numa página de Maupassant e calçou as meias sem notar o buraco no calcanhar.

— Depressa, depressa — dizia eu a cada instante. — Já vai escurecer e eu tenho de ir andando. Já estou vestido, veja. Epa, que sapatos grandes! E onde está aquele seu boné? Ah! Já encontrei!

Ele apertou o cinto. Com o auxílio da calçadeira, conseguiu meter os pés nos meus sapatos pretos de cromo. Ajudei-o a ajustar as polainas e a gravata lilás. Por fim, tomando vivamente o pente, acomodei-lhe os cabelos oleosos, afastando-os da testa e das fontes.

Estava pronto. Meu sósia aparecia diante de mim no meu velho terno cinza-escuro. Examinou-se com um sorriso idiota. Olhou os bolsos. Ficou satisfeito com o isqueiro. Mudou de lugar isto e aquilo, depois do que, abriu a carteira. Estava vazia.

— E verdade — murmurei, tirando um maço de notas do bolso. — Vou contar a sua parte e dá-la neste minuto. Que tal os sapatos? Estão apertando muito?

— Estão, sim, e como doem — disse Felix. — Mas acho que vou agüentar. Espero poder tirá-los à noite. Aonde é que tenho de ir com esse carro amanhã?

— Agora mesmo, agora mesmo... eu lhe explicarei tudo. Veja, é preciso arrumar tudo por aqui. Você espalhou a roupa por todos os cantos. Que é que você tem nessa mochila?

— Sou como um caramujo. Levo minha casa nas costas — disse Felix. — Vai levar a mochila? Tenho nela meia salsicha. Quer provar?

— Depois. Guarde todas essas coisas, sim? A calçadeira também. E a tesoura. Muito bem. Agora, vista meu sobretudo e vamos verificar pela última vez se você pode passar por mim.

— Não vai esquecer o dinheiro?

— Quantas vezes já lhe disse que não? Não seja tolo. Já estamos na hora de acertar tudo. O dinheiro está aqui em meu bolso ou, melhor, no seu antigo bolso. Agora, vamos, sim?

Ele vestiu o meu belo sobretudo de pêlo de camelo e com especial cuidado pôs na cabeça o meu elegante chapéu. Chegou então o toque final: as luvas amarelas.

— Ótimo. Agora, dê alguns passos. Quero ver como tudo assenta em você.

Ele veio na minha direção, metendo as mãos nos bolsos e tirando-as.

Ao chegar bem perto, levantou os ombros e fez menção de gingar, imitando um elegante.

— Está bem, está bem — disse eu. — Espere, deixe ver... Parece que está tudo bem. Agora, vire-se. Quero ver como fica pelas costas.

Ele se virou e eu atirei nele entre as espáduas.

Lembro-me de várias coisas: o rolo de fumaça parado no ar e depois a dobrar-se transparentemente e a desaparecer devagar; a maneira pela qual Felix caiu, porque ele não caiu imediatamente primeiro, concluiu um movimento ainda relacionado com a vida, quase uma meia-volta completa; creio que pretendia bambolear-se diante de mim como à frente de um espelho; mas, encerrando pela sua inércia essa triste exibição de bom humor, voltou-se (já ferido) lentamente para mim, abrindo os braços como se perguntasse: “Que quer dizer isso?” e, não obtendo resposta, deixou-se lentamente cair para trás. Lembro-me na verdade de tudo isso. Lembro-me também do barulho arrastado que fez sobre a neve quando começou a enrijecer-se e a dar sacudidelas como se não se estivesse sentido bem nas roupas novas; dentro em pouco, ficou imóvel. Depois, a rotação da terra se fez sentir e só o chapéu se moveu lentamente, separando-se do alto da cabeça e caiu para trás de boca aberta como se dissesse adeus a quem o tinha usado (ou, então, fazendo pensar na frase feita: “todos os presentes ficaram com a cabeça descoberta”). Lembro-me, sem dúvida, de tudo isso, mas há uma coisa que a memória não acusa: o barulho do meu tiro. Sem dúvida, um rumor me permaneceu nos ouvidos. Agarrou-se a mim, subiu por mim e me tremeu nos lábios. Através desse véu de som, aproximei-me do corpo e olhei avidamente.

Há momentos misteriosos e aquele foi um deles. Como um escritor que lê a sua obra mil vezes, sondando e testando cada sílaba, sem poder dizer ao fim de tudo se aquela mistura variegada de palavras presta ou não presta, assim aconteceu comigo, assim aconteceu comigo... Mas há a certeza secreta do criador, que nunca pode errar. Naquele momento em que todas as características necessárias estavam fixas e congeladas, a semelhança entre nós era tanta que eu não sabia dizer a quem havia matado, se a ele, se a mim. E enquanto eu olhava, a floresta palpitante foi ficando escura e o rosto diante de mim se dissolveu pouco a pouco, vibrando cada vez menos e eu tive a impressão de que via a minha imagem numa lagoa estagnada.

Tendo receio de manchar-me de sangue, não toquei no corpo; não apurei se Felix estava mesmo morto. Sabia instintivamente que estava e que a bala tinha escorregado com perfeita exatidão ao longo do sulco breve que divide o ar e é cavado pela vontade e pela vista. Tenho de correr, tenho de correr, dizia o velho apressado enfiando os braços nas pernas das calças. Não quis imitá-lo. Rápido e eficientemente, corri os olhos em torno. Felix tinha colocado pessoalmente tudo na mochila menos a pistola. Tive calma suficiente para verificar se ele não deixara cair alguma coisa. Cheguei ao ponto de limpar o estribo onde lhe cortara as unhas e de desenterrar o pente que calcara ao chão com os pés, mas decidi jogar fora depois. Fiz então uma coisa que planejara havia muito. Virei o carro e o fiz parar num trecho coberto de árvores que descia em leve rampa para a estrada. Rolei então o meu pequeno Icarus alguns metros para a frente a fim de que fosse visto da estrada ao amanhecer, o que levaria à descoberta do meu corpo.

A noite vinha caindo rapidamente. O tamborilar em meus ouvidos havia quase cessado e tornei a mergulhar na floresta, passando de novo perto do corpo. Mas não parei mais. Limitei-me a apanhar a mochila e, determinadamente, num passo vivo, como se na verdade não tivesse nos pés aqueles sapatos pesadíssimos, dei volta ao lago sem sair da floresta e continuei, dentro da penumbra fantasma!, pelo meio da neve espectral. Mas eu sabia o rumo certo, pois havia visualizado tudo com muita exatidão quando, durante o verão, procurava estudar os caminhos que levavam a Eichenberg!

Cheguei à estação a tempo. Dez minutos depois, com a amabilidade de uma aparição, chegou o trem que eu queria. Passei metade da noite num chocalhante e sacudido vagão de terceira classe, sentado num banco duro. Junto de mim, dois velhos jogavam com umas cartas fora do comum, que eram grandes, verdes e vermelhas, e tinham desenhos de bolotas de carvalho e de colmeias. Depois da meia-noite, tive de fazer baldeação. Algumas horas depois, estava viajando para oeste. Ao amanhecer, fiz baldeação de novo para um trem mais veloz. Só então, na solidão do lavatório, examinei o conteúdo da mochila. Além das coisas metidas pouco antes nela (inclusive o lenço manchado de sangue), encontrei algumas camisas, um resto de salsicha, duas maçãs grandes, um pedaço de sola, cinco marcos dentro de uma bolsa de mulher, um passaporte e minhas cartas a Felix. As maçãs e a salsicha comi ali mesmo dentro do WC. Guardei as cartas no bolso e examinei o passaporte com o mais vivo interesse. Estava em boa ordem e ainda era válido. Ele tinha estado em Mons e em Metz.

Era curioso que o rosto dele no retrato do passaporte não se parecesse muito com o meu. É claro que a foto poderia facilmente passar pelo meu retrato, mas me deu uma impressão estranha e me fez pensar que era por isso que ele não mostrara muita consciência da nossa semelhança. Ele se via como num espelho, isto é, da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita, como na realidade.

A insensatez, a displicência e a indolência humanas se revelavam no fato de que até as definições oficiais naquela breve lista de características pessoais não correspondiam exatamente às do meu passaporte, que eu deixara em casa. Uma ninharia sem dúvida, mas muito expressiva. E na rubrica “profissão” aquele cretino que com certeza arranhara o violino do mesmo modo que os lacaios sentimentais na Rússia costumavam tocar guitarra, era chamado de “músico”, o que automaticamente me transformou em músico também.

Mais tarde, naquele mesmo dia, comprei numa pequena cidade da fronteira uma maleta, um sobretudo e ainda outros artigos, depois do que, me desembaracei da mochila e da pistola... Não, não vou dizer o que fiz com elas. Guardai silêncio, águas do Reno! Por fim, um cavalheiro com a barba muito por fazer, metido num sobretudo preto barato, se viu no lado mais seguro da fronteira e tomou o rumo do sul.